O CAMINHO DA SERPENTE

"Reconhecer a verdade como verdade, e ao mesmo tempo como erro; viver os contrários, não os aceitando; sentir tudo de todas as maneiras, e não ser nada, no fim, senão o entendimento de tudo [...]".

"Ela atravessa todos os mistérios e não chega a conhecer nenhum, pois lhes conhece a ilusão e a lei. Assume formas com que, e em que, se nega, porque, como passa sem rasto recto, pode deixar o que foi, visto que verdadeiramente o não foi. Deixa a Cobra do Éden como pele largada, as formas que assume não são mais que peles que larga.
E quando, sem ter tido caminho, chega a Deus, ela, como não teve caminho, passa para além de Deus, pois chegou ali de fora"

- Fernando Pessoa, O Caminho da Serpente

Saúde, Irmãos ! É a Hora !


terça-feira, 30 de setembro de 2008



longe
na noite em que os beirais das casas sem gente por dentro
são repletos de andorinhas e sonhos desfeitos cobertos de musgo e líquenes esmeralda
a presença da desolação
faz com que os vidros que separam as coisas de estarem no fim
fiquem embaciados
e é possível desenhar neles com os dedos letras de ausência e incompletude
porque um dia passou por lá
quem estava de partida
lá onde o chão tem pedras do tamanho de romãs
algumas são pesadas e fazem doer a pele das mãos
outras apenas marginam o sítio onde se está
mas nem pegadas
nem restos de insatisfação
fica suspenso tudo o que não houve
no estendal da espera quando o vento é rubro e tem uma voz áspera
mas nem pegadas
só ervas e poucos sinais de ter havido um tempo que apontava para depois

5 comentários:

Sereia* disse...

De repente pareceu-me estar dentro de um quadro pintado de verde musgo e castanho, no meio da minha querida serra.

Quem sabe nos Capuchos, por onde tantas vezes brinquei em quartos de frades franciscanos pequeninos como eu

:)

Anónimo disse...

Paulo,

Maravilhosa imagem e poema. Sinto-o tão perto de mim que posso ler as palavras escritas nesse vidro embaciado, mesmo as que lá não estão.



Um abraço e obrigada por este texto.

Paulo Feitais disse...

É Sereia, esse Convento é um dos locais onde me sinto melhor. Mas a foto foi tirada junto ao Palácio da Pena, num dia sombrio, mesmo ao meu gosto. :)
E a Serra, sim. Lá encontro-me.
Lá somos sempre pequeninos (um diminutivo que nos agiganta!).
:)

Paulo Feitais disse...

Saudades!
Obrigada por nada!
:)
E podes ler as palavras, sim...
:)

Anónimo disse...

Outro abraço!Parabéns!