O CAMINHO DA SERPENTE

"Reconhecer a verdade como verdade, e ao mesmo tempo como erro; viver os contrários, não os aceitando; sentir tudo de todas as maneiras, e não ser nada, no fim, senão o entendimento de tudo [...]".

"Ela atravessa todos os mistérios e não chega a conhecer nenhum, pois lhes conhece a ilusão e a lei. Assume formas com que, e em que, se nega, porque, como passa sem rasto recto, pode deixar o que foi, visto que verdadeiramente o não foi. Deixa a Cobra do Éden como pele largada, as formas que assume não são mais que peles que larga.
E quando, sem ter tido caminho, chega a Deus, ela, como não teve caminho, passa para além de Deus, pois chegou ali de fora"

- Fernando Pessoa, O Caminho da Serpente

Saúde, Irmãos ! É a Hora !


quarta-feira, 7 de julho de 2010

ENTRE O CAOS E A ORDEM - QUEM SOU?

Preâmbulo

Qual é o ritual que preparas para demonstrares uma equação matemática?
E quando vais recitar um poema - como te inspiras na véspera de o anunciar?
Quando vais cantar para uma audiência vazia – como alcanças o dó sustenido?

Como abres a porta que te leva ao transe?

Oeiurewoiuwoeitueroitueroiutioer
É assim mesmo o título deste intervalo, porque absolutamente não sei o que quero dizer – apenas o sinto. Sem forma se entranha no meu tacto. Sem som explode no meu coração. Sem história é a memória arquivada do que venho esquecendo.
Sem memória é o presente: aqui e agora

O início do transe ou a vontade de acreditar que ele existe (continuação do preâmbulo)
Pura imaginação. Minha mesa está cheia de jornais. Os cd’s arrumados na estante e o transe ....
Ah, o transe! Foi o que experimentei um dia quando a sintonia do meu corpo dançou no corpo do homem amado. Desde então escrevo. Desde então medito. Quero tocar o invisível, sentir o que não existe, cheirar o que invento. Quero me ver de fora enquanto estiver por dentro. Quero alcançar a lua inventando um soneto.

Quero não querer enquanto penso que existo.

Sou somente a memória daquilo do que julgo lembrar. Sou a memória do que invento. Sou a memória do que ouvi contar.
Não sou nada do que julgo pensar - não existo.

Sou a memória da história que segue – testamento/testemunha do que vivi

Por agora vou escrevendo como se vomitasse o verbo, o predicado e o sujeito que não sei dele. Quando o texto rima faço um parágrafo e finjo poesia.
Só haverá enredo quando o ruido de fora calar em mim como silêncio. Só haverá testemunho do que quero contar quando não for preciso mais respirar. Nessa hora estarei ciente de todos meus sentidos. Quais?

11 comentários:

paladar da loucura disse...

SAUDADES DA SERPENTE...

Kunzang Dorje disse...

1ª pergunta: lavo os dentes;
2ª pergunta: limpo os óculos;
3ª pergunta: limpo a gorja da garganta.

p.s. e há quem atinja o "transe" com muito menos... olhem, como alguém que viu a coisa quando lhe atiraram uma pedra na cabeça.

a paladar considera-se freira ou yoguini? julgo que encontrei quem procurava:)

beijos

paladar da loucura disse...

gostei da freira e da yoguini...
novos talentos se anunciam dantes nunca revelados!

Kunzang Dorje disse...

hummm... está a fugir à pergunta... acho que vou é pôr um anúncio de carácter pessoal na Serpente. Yoguini procura-se, afim de trilhar os caminhos tântricos que levam ao Deus escondido na freira.
(estou a brincar mas de forma séria)

Rui Miguel Félix disse...

Está genial, li uma vez, li mais que uma vez e é, e mais acho que uma vez comentei, Paladar, que ao ler alguns dos seus textos era levado directa e rapidamente ao palco, passo de forma breve a expressão, teatro. Talvez pela forma que coloca a pergunta e pelo mote que o próprio título indica, as possibilidades são infinitas e o tema muito objectivo de poder ser concretizado. Ademais, adequa-se brilhantemente, em modesta opinião minha. No preâmbulo, as linhas mestras que irão servir de base à exploração do motivos são também excelentes. Mas, não querendo de forma alguma cair no fácil parabenizar, queria apenas dizer que é um prazer imenso conhecer e ter a possibilidade de ler para teatro.
Muito bom!

E pronto, as mais fraternas saudações. :)

paladar da loucura disse...

Rui, obrigada! Fosse esse o sentir de alguns editores e eu já teria conseguido publicar os meus textos. Fosse esse sentir de alguns encenadores e os meus textos já estariam em palco. E o teu sentir deixa-me assim com um sorriso apatetado na cara. Dás-me um presente extra nesta manhã - obrigada.

paladar da loucura disse...

Kunzang devo ter imensas coisas a aprender contigo :)

Kunzang Dorje disse...

Paladar... eu diria o contrário.

paladar da loucura disse...

:)nem sei o que te responder, mas gosto do que dizes. sabe bem ao paladar.

platero disse...

bonito
mesmo que a realidade não seja nada assim

sobretudo por isso

beijinho

paladar da loucura disse...

Querido Platero,
Da realidade - sequer sei se ela existe :)