O CAMINHO DA SERPENTE

"Reconhecer a verdade como verdade, e ao mesmo tempo como erro; viver os contrários, não os aceitando; sentir tudo de todas as maneiras, e não ser nada, no fim, senão o entendimento de tudo [...]".

"Ela atravessa todos os mistérios e não chega a conhecer nenhum, pois lhes conhece a ilusão e a lei. Assume formas com que, e em que, se nega, porque, como passa sem rasto recto, pode deixar o que foi, visto que verdadeiramente o não foi. Deixa a Cobra do Éden como pele largada, as formas que assume não são mais que peles que larga.
E quando, sem ter tido caminho, chega a Deus, ela, como não teve caminho, passa para além de Deus, pois chegou ali de fora"

- Fernando Pessoa, O Caminho da Serpente

Saúde, Irmãos ! É a Hora !


segunda-feira, 12 de julho de 2010

"´[...] até pelos vermes tinha afeição"

"Quem poderá descrever o seu inefável amor pelas criaturas de Deus e a doçura com que nelas admirava a sabedoria, o poder e a bondade do Criador? Ao contemplar o sol, a lua e as estrelas do firmamento, inundava-se-lhe a alma de gozo. Piedade simples, simplicidade piedosa: até pelos vermes tinha afeição, recordado da Escritura, que diz do Salvador: "Eu sou um verme e não um homem!" Por isso os retirava do meio do caminho para lugar seguro, não fossem esmagados pelos que passavam"

- Tomás de Celano, Vida Primeira, XXIX, 80 (falando de São Francisco de Assis).

5 comentários:

Anaedera disse...

relata-se algo semelhante acerca de outro Francisco(Marto)(se bem que à escala da sua jovem idade), será do nome ou apenas porque vermes e Homens são apenas criaturas de Deus?

Paulo Borges disse...

Posso saber quem é esse outro Francisco?

Rui Miguel Félix disse...

Num simples verme

Num simples verme, ou numa borboleta,
ou numa cobra, ou no pranto
que dos alcatruzes de uma nora
por uma calha num tanque se projecta,
ou num cerro em que a ausência mora
e o silêncio cobre como um manto,
ou numa nuvem, branca de quebranto,
leve e inquieta
caberá sempre consolação, enquanto
alguém lha peça, última e secreta.

Armindo Rodrigues, in "O Poeta Perguntador". 1979. Ed. Caminho

Cruzei-me por coincidência com esta passagem em livro antigo. Algo há de familiar entre o texto de Tomás de Celano e o poema de Armindo Rodrigues, dois dos textos que agora leio.

Armindo Rodrigues era poeta de rua, como Saramago dizia, um poeta que não anseia, não indaga, não questiona. Pergunta como qualquer homem comum que apenas quer saber o caminho, pergunta sempre e a todos, pergunta a si próprio, é, em três palavras simples, o poeta perguntador.

Muito bonito.
Abraços fraternos

Anaedera disse...

Claro que sim,
refiro-me a Francisco Marto, um dos pequenos pastores de Fátima.

Menino Jesus da Cartolinha disse...

São Francisco excede o apelo à fraternidade entre os homens, acrescentando e sentindo de facto uma comunhão não somente com os seus irmãos homens, mas com todos os seres. Desta fraternidade ontológica, pois todos os seres têm o mesmo Pai, decorre o cuidado da mãe Terra e de todas as criaturas que nela habitam. É-nos como que legada a responsabilidade de delas cuidarmos.
Da consciência da paternidade comum entre todas as criaturas, surge também em São Francisco a necessidade de harmonia com os irmãos de outros credos religiosos. O pobrezinho de Assis esforça-se para se unir aos irmãos muçulmanos, que naquela altura lutavam com as cruzadas. São Francisco sentia-se de tal forma em comunhão com os muçulmanos que queria implementar alguns costumes do povo islâmico na vida quotidiana dos cristãos, como por exemplo a chamada à oração (adhan).