O CAMINHO DA SERPENTE

"Reconhecer a verdade como verdade, e ao mesmo tempo como erro; viver os contrários, não os aceitando; sentir tudo de todas as maneiras, e não ser nada, no fim, senão o entendimento de tudo [...]".

"Ela atravessa todos os mistérios e não chega a conhecer nenhum, pois lhes conhece a ilusão e a lei. Assume formas com que, e em que, se nega, porque, como passa sem rasto recto, pode deixar o que foi, visto que verdadeiramente o não foi. Deixa a Cobra do Éden como pele largada, as formas que assume não são mais que peles que larga.
E quando, sem ter tido caminho, chega a Deus, ela, como não teve caminho, passa para além de Deus, pois chegou ali de fora"

- Fernando Pessoa, O Caminho da Serpente

Saúde, Irmãos ! É a Hora !


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quinta-feira, 6 de maio de 2010

O que é ser eu?

"O abismo é o muro que tenho / Ser eu não tem um tamanho" - Fernando Pessoa

"Conhece alguém as fronteiras à sua alma / Para poder dizer: eu sou eu?" - Fernando Pessoa

"Posso imaginar-me tudo, porque não sou nada. Se fosse alguma coisa, não poderia imaginar" - Bernardo Soares

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

"O pecado em mim diz «eu»". Criação e decriação em Simone Weil



Publicamos parte da comunicação que apresentaremos amanhã, 11 de Dezembro, pelas 14.30, em "Marginalidade e Alternativa. Jornada comemorativa do centenário de Simone Weil" (Anfiteatro IV, Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa). O Colóquio abre às 10.00 com a comunicação de Sylvie Courtine-Denamy, "Enracinement et déracinement chez Simone Weil". É a oportunidade de conhecer uma das mais prodigiosas pensadoras, místicas e mulheres de acção do século XX.
Os números entre parênteses dizem respeito às páginas de La pesanteur et la grâce (Paris, Presses Pocket, 1993).


“O pecado em mim diz «eu»”: criação e decriação em Simone Weil


É tarefa eminentemente difícil escrever sobre Simone Weil e, sobretudo, sobre o centro da sua vida, a sua experiência espiritual, cuja profundidade a arrebata e torna dificilmente acessível às regiões superficiais onde se transacciona a vida comum ou convencional dos homens. Sem abrangermos toda a sua obra, queremos comentar um trecho que nos parece condensar muito do que há de mais fundo na sua visão e vivência, socorrendo-nos para tal de outras passagens dessa obra magistral que é La pesanteur et la grâce.

“O pecado em mim diz “eu”.
Eu sou tudo. Mas esse “eu” é Deus. E não é um eu.
O mal faz a distinção, impede que Deus seja equivalente a tudo.
É a minha miséria que faz que eu seja eu. É a miséria do universo que faz que, num sentido, Deus seja eu (isto é, uma pessoa)” (40).

Para compreendermos este fragmento, temos de o situar no contexto da visão que a autora tem da íntima articulação entre a criação divina e a humana decriação do seu ser criado. Com efeito, Simone Weil vê a criação como um perpétuo acto de amor de Deus a si mesmo “através de nós”, no qual esse mesmo amor que nos dá o ser nos permite a e convoca à voluntária e amorosa devolução disso que nos dá. O Deus criador perpetuamente mendiga junto do homem essa mesma existência que não lhe oferece senão para a mendigar, não amando em nós o sermos, mas antes “o consentimento a não ser”. É isso que faz da existência humana uma “espera” de Deus, no duplo sentido de um humano esperar Deus e de um divino esperar o homem, ou seja, o seu “consentimento a não existir” (42).

A criação, manifestação de “uma força «deífuga»”, sem a qual “tudo seria Deus”, implica, “num sentido”, a divina renúncia “a ser tudo”, para que possa haver quem seja “alguma coisa” e assim possa renunciar a isso, como “imitação” da divina renúncia criadora e seu “único bem” (43). Aplicando também à criação o que São Paulo diz, na Carta aos Filipenses, da kenôsis redentora, o divino esvaziamento da própria divindade – ou o auto-ocultamento divino, sem o qual Deus não poderia criar (49) - apela o humano esvaziamento “da falsa divindade com a qual nascemos” (44). Como diz Weil: “Foi dada ao homem uma divindade imaginária para que ele se possa dela despojar como o Cristo da sua divindade real” (43).

Deus renuncia à própria totalidade e o divino amor criador retira-se da criatura humana para que ela possa existir e amá-lo: é assim que surge a “necessidade”, espaço, tempo e matéria, como o “ecrã colocado entre nós e Deus para que possamos ser” e sem cuja protecção, expostos à “irradiação directa” do amor divino, nos evaporaríamos “como água ao sol”. Sem essa separação protectora do imediato evanescimento na divindade, “não haveria suficiente eu em nós” para o abandonarmos “por amor”. É esse amor que nos cabe, “trespassar o ecrã para cessar de ser” (42-43).

O homem participa na divina criação do mundo, não propriamente colaborando na constituição de si e da realidade não-humana - como nas leituras comuns da questão, que evocam a nomeação adâmica dos animais por Deus criados, no Génesis (2, 19-20) - , mas antes decriando-se a si mesmo e devolvendo-se à divindade, sendo nisso que é cocriador: “Nós participamos na criação do mundo decriando-nos a nós mesmos” (44). Isto mostra que a criação do mundo apenas se cumpre na decriação do homem, que consiste em “fazer passar o criado no incriado”, distinta da “destruição”, seu “ersatz culpável”, que faz “passar o criado no nada [néant]” (42). Se, enquanto “Criador”, Deus é necessária e inerentemente presente em tudo o que existe, desde que vem a ser, o que é a “presença de criação”, já para ser presente enquanto “Espírito”, ou seja, para a “presença de decriação”, Deus carece da “cooperação da criatura”, nessa des-entificação de si que é a própria salvação. A pensadora cita Santo Agostinho - “Aquele que nos criou sem nós não nos salvará sem nós” - (48-49), embora este colaborar do homem na sua salvação não seja em Weil, ao contrário do santo de Hipona, senão a deconstrução do seu ser criado.

Na verdade, algo mais fundo se oculta na constatação de que “Deus me deu o ser para que eu lho restitua”. A criação divina é como as provas e armadilhas dos contos iniciáticos: se a criatura cede e aceita o dom do próprio ser, isso é “mau e fatal”, e só a sua “recusa” manifesta a “virtude” salvífica. Se a criação consiste na divina permissão de “existir fora” da divindade, compete à criatura “recusar esta autorização”, sendo nisso que consiste a “humildade”, “rainha das virtudes” (51). Recusar existir fora de Deus é na verdade recusar um ser fictício, a “falsa divindade” atrás referida, a determinação inerente ao nascimento (44), pois na existência humana não há “ser”, apenas “ter”. Enquanto o homem pode somente conhecer de si o que é exterior e circunstancial, o seu verdadeiro ser “está situado por detrás da cortina” da “miséria humana”, “do lado do sobrenatural”. Aí reside o “eu”, “oculto para mim (e para outrem)”, o qual, por isso mesmo, não é propriamente humano: “ele está do lado de Deus, ele é em Deus, ele é Deus”. Por isso, do mesmo modo que ser humilde é recusar existir fora de Deus, “ser orgulhoso é esquecer que se é Deus…” (49). Enquanto o orgulho consiste em enaltecer-se pelo que se não é, a humildade reside em nada se supor, desejar ou acrescentar para além desse divino húmus a que se é íntimo.

Podemos agora comentar o trecho inicial. A razão pela qual “o pecado em mim diz «eu»” é que toda a auto-identificação e auto-afirmação consiste em aceitar o divino dom de ser, em vez de iniciaticamente o recusar, aceitando apenas dele a possibilidade de o negar. Dizendo “eu” exerço a liberdade, aberta pelo divino esvaziamento ou ocultamento, para a negar determinando-a numa id-entificação, em vez de a preservar recusando exercê-la. Dizendo “eu” assumo a possibilidade de me autoposicionar na existência e nisso caio no orgulho de me esquecer Deus, na ausência de humildade de aceitar construir uma fictícia entidade autónoma. Na verdade, não faz sequer sentido dizer “eu”, pois “eu sou tudo” enquanto não humano e não criado, enquanto Deus. Somente esse “eu” que é “tudo” “é Deus” e por isso “não é um eu”, não é um ente determinado. Sendo Deus o não haver eu, o acto de dizer “eu” peca, ou melhor, é pecado, consistindo no próprio “mal” que “faz a distinção”, ao conferir uma fictícia id-entidade à criatura e ao criador, impedindo “que Deus seja equivalente a tudo” (40) (em rigor, impedindo o reconhecimento disso). A possibilidade do mal é a própria possibilidade da criação, o risco, dir-se-ia, que Deus corre ao renunciar-se e ocultar-se, permitindo haver quem, para seu “único bem” (43), negue o ser criado e a própria criação, mas também, simultaneamente, quem não recuse o dom de ser e o guarde para si, aferrando-se nessa “raiva de persistir” (* Heidegger em comentário a Anaximandro) ou nesse espinosiano “esforço” de “perseverar no seu ser” que aqui obstaculiza e frustra o divino moto criador. A divina criação fracassa no haver quem a aceite, tombando na “miséria” que o converte num “eu” (40), sem trespassar em Deus o “ecrã” do universo e de si (43), que é afinal o mesmo véu da personalidade divina, pois a “miséria” que gera o “eu” é a mesma “miséria do universo” que, “num sentido”, faz que “Deus seja eu (isto é, uma pessoa)” (40). É o fracasso na prova iniciática da criação que gera a ficção idolátrica da personalidade e da id-entidade humana e divina. Simone Weil mostra aqui, pesem notáveis singularidades e divergências, a sua funda filiação na corrente de espiritualidade e mística cristã que, com pontos salientes em Marguerite Porete e Mestre Eckhart, vê no processo de autoconstituição do sujeito na existência a demissão do incriado divino que simultaneamente o entifica e personaliza à semelhança da própria entificação e personalização, instaurando uma aparente clivagem entre o humano e o divino que exige ser abolida numa conjunta libertação de si e desse “Deus” antropomorficamente pensado, mediante o que Marguerite designa como “désencombrement” (desobstrução, desimpedimento) e Eckhart como “Durchbrechen” (trespassar).

Nascidos “revirados”, invertidos, negadores do divino impessoal enquanto afirmadores de nós e de um Deus-pessoa, há que inverter essa inversão, negar essa negação, “restabelecer a ordem”, o que implica “desfazer em nós a criatura” (45). Compreendendo-se que na verdade “nada se é, o objectivo de todos os esforços é tornar-se nada”, sendo para esse fim que se aceita sofrer, se age e se ora: “Meu Deus, concedei-me tornar-me nada [rien]”. É na medida desse auto-apagamento do sujeito que “Deus se ama através de mim” (44), cumprindo o amor a si que é o sentido único da criação (42), entendida para além do antropocentrismo habitual. “Ser nada” é o que instala cada sujeito no seu “verdadeiro lugar no todo” (46), essa ausência de si, esse não-eu que é o próprio Deus.

O apagamento do sujeito nada mais é, nesta perspectiva, do que a evanescência da “sombra projectada pelo pecado e pelo erro que detêm a luz de Deus”, “sombra” que a si mesma se toma por um “ser”. É por isso que esse apagamento não é, em rigor, uma divinização do sujeito, o que seria a impossível equiparação da sombra à luz: “Mesmo se se pudesse ser como Deus, valeria mais ser lama que obedece a Deus” (51). Incompossível com a divindade, o sujeito há-de encontrar “a plenitude da alegria” num mesmo e único pensamento, o de que “Deus é”, ou seja, o de que ele mesmo, o suposto sujeito, “não é” (48). A “alegria perfeita e infinita” que há em Deus em nada se aumenta ou diminui pelo facto do sujeito nela participar ou não, o que retira a isso toda a importância, denunciando o autocentramento do desejo de salvação e da crença na imortalidade (48).

Decriar-se é apagar-se e isso é, num sentido, fazer desaparecer o véu ou sombra ficticiamente interposto pelo eu entre Deus e o mundo, permitindo que Deus, através de nós, sem nós, “percepcione a sua própria criação”: “o que o lápis é para mim quando, de olhos fechados, eu palpo a mesa com a ponta – ser isso para o Cristo”; “bastaria que eu tivesse sabido retirar-me da minha própria alma para que esta mesa que tenho diante de mim tivesse a incomparável fortuna de ser vista por Deus” (52). Gandhi escreve, nas Cartas ao Ashram: “Sentir que somos alguma coisa, é erguer uma barreira entre nós e Deus”. Em Simone Weil, todavia, isso que em nós diz “eu” instaura antes uma separação e um véu entre Deus e o mundo, constituindo um desnecessário e prejudicial observador que impede o seu pleno contacto e transparência, pela remissão a si de tudo o que percepciona e experimenta. O sujeito deve assim retirar-se para respeitar a intimidade entre Deus, os seres e as coisas, como o “terceiro importuno” e indiscreto que urge desaparecer para que dois “amantes”, “amigos” ou “noivos” “estejam verdadeiramente juntos” (52-53, citar). Não se trata de desejar o fim da experiência do mundo, mas antes o fim da nossa experiência do mundo, da experiência do mundo por um eu-sujeito, a fim de que ela seja plena, divina, tal qual, sem nenhuma relativização a qualquer finitude, por múltiplas e singulares que sejam as perspectivas em que se dê:

“Não posso conceber a necessidade de que Deus me ame […]. Mas represento-me sem dificuldade que ele ama essa perspectiva da criação que não se pode ter senão do ponto onde estou. Constituo todavia um ecrã. Devo retirar-me para que ele possa vê-la” (52).

“Não desejo de modo algum que este mundo criado não mais me seja sensível, mas que não seja mais a mim que ele seja sensível. A mim, ele não pode dizer o seu segredo que é demasiado alto. Que eu parta, e o criador e a criatura trocarão os seus segredos.
Ver uma paisagem tal qual ela é quando aí não estou…
Quando estou nalgum lado, maculo o silêncio do céu e da terra pela minha respiração e pelo bater do meu coração” (53).

[...]

terça-feira, 15 de setembro de 2009

Oriente/Ocidente - «eu»

Um objectivo de vida de alguém com um «eu» independente é separar e distinguir o «eu» dos outros. Tais pessoas fazem isso sobretudo expressando as suas crenças interiores, dizendo como se sentem e enfatizando a importância deles mesmos, particularmente em relação a outras pessoas. Nos Estados Unidos vemos estas mensagens a toda a hora. Dizem-nos para «nos exprimirmos»; essa é uma canção famosa da Madonna. Os anúncios dizem-nos para «fazermos as coisas à nossa maneira»; essa é a maneira mais importante. E um provérbio muito famoso diz «quem não chora não mama»; só fazendo muito barulho e dando a conhecer as nossas opiniões é que recebemos atenção.
Mas estes objectivos são diferentes dos objectivos de alguém com um «eu» interdependente, que são relacionar-se com os outros e manter os relacionamentos. Fazemos isto moderando as nossas crenças internas e minimizando a importância de nós mesmos em comparação com as outras pessoas. As mensagens interdependentes incluem o velho provérbio japonês «O prego que sobressai é martelado». Aqui, na Aldeia das Crianças Tibetanas, vi uma fotografia de uma celebração na escola, onde se dizia «Os outros antes de nós», que também é uma mensagem interdependente.

Jeanne Tsai in Daniel Goleman, Emoções Destrutivas e Como Dominá-las, Temas e Debates, Lisboa, 2005, pp.297-298

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

"Recata-te de ti mesmo"

"Quando temeres os estranhos, recata-te de ti mesmo; porque sem os outros podes estar muitas vezes, sem ti nunca" - São Martinho de Braga (Dume), Liber de Moribus (Livro dos Costumes), 6.

domingo, 18 de janeiro de 2009

Viagem

Ainda não parti, mas a minha viagem já começou. A alma lança-se primeiro para a frente, na antecipação do vôo. A mente segue-a, receosa, medrosa, ainda hesitante. Assim se vai abrindo o caminho que me vai separar de ti. Colocar o meu pé físico nos primeiros centímetros desse caminho vai ser uma das coisas mais difíceis que já fiz. O meu corpo não quer separar-se de ti. Nem a alma, mas essa, essa anda sempre a esvoaçar de um lado para o outro. Vai e volta, vai e volta. Nem sabe que vai para sempre. Sabe o quê, a alma? A alma é uma tonta. Feita apenas de voo, emoção e luz e sombras, sabe lá para onde vai, ela. Vai para onde a mandam, ora essa. Vai com o corpo, porque está presa a ele. A mente é que tem medo, mas foi a mente que decidiu. A mente protege em primeiro lugar o corpo. E o corpo, ultimamente, fora muito atacado pelas bicadas da alma, que se queria libertar. A alma enterrou-lhe o bico e as garras e começou a destruir o corpo. O corpo não se mexe. Ou melhor, não se mexia. Mas a mente começou a ver que a coisa estava a ir longe demais. Sentiu o corpo a falhar, as células a avariarem e a errarem a programação, a respiração cada vez mais ofegante, a visão a nublar-se, a circulação a interromper-se em vários pontos. Por isso, olhou no futuro e mudou-o imperceptivelmente. Poucos sabem, mas quando o presente acontece, não é causado pelo passado. É causado pelos nossos pensamentos colocados no futuro. O tempo, ao contrário do que se pensa, tem dois sentidos. O corpo pode percorrer apenas um, mas a mente percorre os dois, infindavelmente, sem mesmo se dar conta. Quando a mente olhou para o futuro e viu a morte do corpo, assustou-se e criou um futuro diferente. Do futuro para o presente chegaram então novos acontecimentos, devagar, ao princípio, depois numa sucessão cada vez mais rápida. Embateram um a um, primeiro como cascalho, depois pedras, depois pedregulhos, contra os muros que rodeavam o corpo, até que estes caíram. O caminho abriu-se. O caminho que me separa de ti. Onde irei dar em breve o primeiro passo. A alma é uma tonta, mas acaba por conseguir sempre o que quer. O corpo prende a alma, a mente é que decide, mas afinal a alma é que manda. Essa tonta. Não sabe para onde vai, só sabe que não quer ficar. Sofre e nem sabe porquê. Morde e arranha, quando enlouquece e pouco lhe importa o mal que faz ao corpo, porque afinal, para ela, o corpo não passa de uma prisão. Não fosse a mente e a alma matava o corpo em três tempos. Talvez num tempo apenas. Como um traço de pincel flutuante ou um lenço de seda puxado pelo vento na direcção de um caminho que ainda mal se abriu, branco, tão branco, como uma fina tela pousada no chão, mal sabe a alma o que a espera. Quando sentir a tua falta, quererá voltar. Mas será tarde demais. O corpo só pode percorrer o tempo num sentido e também os caminhos abertos pela vida não têm regresso. Não sei como a mente e o corpo irão conseguir acalmá-la, à tonta da alma, quando ela perceber que se quebraram os laços entre ela e a tua alma. Neste momento ainda está entrelaçada na tua. Não sabe que vai separar-se. Chilreia, alegremente, numa estúpida emoção sem sentido, que a minha mente se apressa a tentar esmagar. Em vão. A mente é mais densa do que a alma, tal como o corpo é mais denso que a mente. Mas enquanto a mente tenta acertar com um tabefe na alma tonta, esta vai-se distraindo e por vezes, até já se separa da tua, esvoaçando para um lado e para o outro. A tua alma está presa em ti, mas a minha alma não corre para mim, que ainda aqui estou, traça pinceladas coloridas no caminho branco e canta. À medida que o caminho se vai abrindo, com pinceladas e mais pinceladas de vôo, o meu corpo prepara-se para partir também. Eu também vou ter de ir com ele. Estou presa à minha alma. Sou ainda menos densa que ela. Pensam que ela é tonta? Parece tonta, mas não é, sou eu que a controlo. Mas nada decido e nunca intervenho. Nem sei quem sou. Desdobro-me em multiplicidades infinitas. Interrogo-me. Tão sómente.

quarta-feira, 28 de maio de 2008

terça-feira, 27 de maio de 2008

A busca de Deus e a busca do Eu

Quem é Deus? Religiões, filosofias, ciências... procura-se saber o que é a realidade última, não só o que deu origem à realidade como a conhecemos, mas a verdadeira realidade, por oposição à contingente, portanto a necessária, incondicionada, que de nada depende, supostamente mais real. No nosso caminho da ignorância para o conhecimento, Deus é esse ponto de partida, fim da busca, eventualmente infindável. É, portanto, a realidade última, primeira, a explicação que a si mesma se explica, referente de um pensamento que a evoque correctamente. Mas... quem é Deus? O que é Deus? Quais as suas propriedades? O que o caracteriza? Há quem afirme que Deus é isento de propriedades, o que me parece um contra-senso, pois que se existe algo o caracteriza; mas, quem assim defende, afirma também que Deus não existe no mesmo sentido em que nós existimos, que não é um objecto como os restantes, que não é simplesmente o apogeu da hierarquia dos seres, mas algo diferente, cuja essência permanece coberta, reconhecível apenas através das suas dinâmicas, actos, consequências, efeitos - será necessário que, na nossa análise da realidade, exista algo que nos escapa? Como podemos saber isso? A resposta é que não sabemos, pois que para que o soubéssemos, teríamos de conhecer toda a realidade - será possível virmos a conhecer toda a realidade? Os seus fundamentos? A sua justificação, explicação que a si mesma se explica, ser que a si mesmo se explica? Nessa possibilidade, o ser que a si mesmo se explica seria realmente uno, simples, na medida em que, se o não fosse, seria explicado por outros factores, que seriam Deus e não aqueloutro. Desconhecemos Deus; mas, na nossa busca, como quer que seja feita, necessariamente através da mente, pois que é o nosso meio de contacto com a realidade, sabemos que temos de encontrar aquilo que é auto-suficiente, independente de tudo o mais, primeiro na cronologia mental da ordem da existência, causa-efeito, que cada um de nós tem dentro de si. Penso que todos estamos de acordo em que existe a realidade incriada, até porque é implicada pelo seu contrário, que implica o (tempo) infinito. Outra questão é: como é possível que algo que é simples, uno, eterno, imutável, tenha, em dado momento, começado a criar, que tenha mudado? É incomportável. Por isso, ou não cria de todo, o que é em tudo estranho, ou está sempre a criar, o que em parte lhe retira o fascínio afectivo que sentimos pela sua transcendência, paz, alheamento do mundo, retirando-nos também o sonho de um dia virmos a viver essa espécie de paz quase inconsciente, o idílio... retorno a nós mesmos, conhecermo-nos: talvez por isso o Hinduísmo tenha construído/identificado o par Brahman-Atman como a realidade última, Cristo seja filho do Pai, Buda a natureza última das coisas. A busca de Deus é a busca da realidade última acerca da Natureza que nos envolve, a nossa própria busca interior (quem somos? Quem sou eu? O que sou eu? O que está no fundo de mim, isso que sou eu profundamente, inalienável, inabalável, que me constitui sempre?), a busca pela identificação Humano-Cosmos (desumanizando o Humano ou humanizando o Cosmos... as pontes) embora, muito provavel e egoisticamente, seja mais relevantemente, não por qualquer condicionamento exterior, mas pelo mais intenso desejo escondido, a nossa própria busca interior, que não é uma brincadeira em que procuramos as nossas características, assins e assados, mas o acto místico fundador no qual, supostamente alheados de nós, buscamos integrar-nos connosco mesmos - queremos conhecer-nos. Afinal, amamo-nos mais a nós mesmos do que a um pretenso deus desconhecido que uma qualquer tradição estranha nos queira impingir. Não há espelhos onde nos possamos ver, eternos avatares de nós mesmos. Ir além, ser além.

quarta-feira, 12 de março de 2008

«dizia-me» uma música hoje:
a minha alma caiu,
partiu-se...
como um vaso vazio...






















terça-feira, 11 de março de 2008

Um argumento a favor do eu ser consciência

Ser eu é ser para si.
Só a consciência pode ser para si.
Ser eu é ser consciência.

Este é um argumento válido, é impossível as premissas serem verdadeiras e a conclusão falsa; é consistente, é possível que ambas as premissas sejam verdadeiras; mas será sólido (válido com premissas verdadeiras)? A questão é: serão as premissas verdadeiras? Se forem, seremos levados a aceitar a conclusão. A segunda premissa parece-me bastante óbvia, quase baseada numa evidência; por isso, se quisermos atacar o argumento, teremos de atacar a primeira premissa (a menos que achemos que a segunda é mais fraca).

Ser eu é ser para si

Há dois posts atrás, dissemos, na nota póstuma, que o eu é a consciência de si. Pode-se pensar que estamos errados, argumentando-se que o eu não é a consciência de si, mas o si. Destrinçámos isso, no post anterior, dizendo que ser eu é ser para si. Agora, penso: qual é a única coisa que é para si? A consciência. E isto leva-me a crer, ainda mais, que o eu é consciência pura - auto-reflexão da consciência.

PS: desculpem o entupimento de posts, mas hoje estou de folga do trabalho e, portanto, prevejo um dia repleto de posts, a menos que me deprima algures a meio do dia...

Ainda sobre o eu

De acordo com o texto anterior, o eu não é o que está para lá da consciência, mas uma criação da mesma, na medida em que é eu porquanto o é para si (ser eu é ser para si) - auto-reflexão da consciência.

Depois, há aquilo que mundanamente somos, que, penso, é um conjunto de propriedades físicas e mentais, subdivísiveis e reportáveis a causas.

Por momentos penso que se fôssemos dizer tudo aquilo que somos teríamos de dizer o Universo inteiro; e isto implica que cada coisa é uma parte de nós, ou que tudo é parte de um todo, constituído por tudo. Isto não parece ser falso.

Assim, o eu já não seria aquilo a que quotidianamente chamamos "eu", dado que existiria uma única coisa mas com partes, mas essa mesma coisa. No entanto, seria necessário que essa coisa fosse coisa para si, porque a consciência é uma condição necessária para que exista eu.

O eu total, se tal coisa existe, parece ser o conjunto de tudo aquilo que é para si em dado momento: para mim, para ti, para eles, e assim por diante, tal como a areia de uma praia é o conjunto formado por cada grão de areia. Mas os grãos não deixam de ser areia, tal como eu não deixo de ser eu apenas por ser, suponhamos, uma parte de um eu universal que nem sabemos se existe.

As questões "quem sou eu?" e "o que sou eu?" não pedem a resposta por um eu universal mas, antes, reportam-se - repito algo que já disse no texto anterior - ao mais íntimo de cada um. Por isso são respostas que cada um terá de dar a si mesmo.

Um texto sobre o eu

Quando estamos a dormir, ou sonhamos ou estamos em sono profundo ou pouco profundo. Estamos, de qualquer dos modos, adormecidos para uma certa realidade, a que vulgarmente chamamos "mundo". Mas parece que, mesmo aí, não temos consciência de nós mesmos.

Quando estamos acordados, estamos acordados para o mundo e adormecidos para o mundo dos sonhos que, provavelmente, nesse momento nem existe. Temos consciência de nós enquanto corpos e seres pensantes mas, ainda assim, colocamos as questões: quem sou eu? O que sou eu?

Em ambos os casos, não temos plena consciência de nós ou, então, a consciência de si não pode ser plenamente dita mas, apenas, talvez, sentida, consciencializada. Ainda assim, sou céptico e creio que é provável que nunca tenhamos plena consciência de nós (talvez por sermos abismo, infinito?), ou não colocaríamos as questões.

Não sei se existo desde sempre nem para sempre, e creio que, pelo menos neste corpo, isso é um facto. A pergunta pelo eu é uma pergunta em que se intenta ir além do fenoménico e encontrar alguma transcendência, algum sinal de vida para lá deste mundo.

É, também, uma pergunta perfeitamente natural, já que indagamos sobretudo e, assim sendo, por que não indagarmo-nos sobre nós mesmos, a nossa natureza? Penso que, quando se pergunta pelo eu, pergunta-se sobre a nossa natureza última e íntima, com a qual nos queremos identificar, o que ainda não acontece - como podemos identificar-nos com algo que desconhecemos?

Não sei se o eu existe ou não existe, creio que existe, porque existo e penso que sou um eu; pelo menos sou eu para mim. Repetindo-me e acrescentando alguma coisa, o eu é aquilo que pensamos ser mais intimamente, mais verdadeiramente, mais imutavelmente, para lá deste mundo corpóreo. Assim, pensamos que não é uma substância, se sequer é uma substância, corporal, mas incorpórea e que, de algum modo, está fortemente ligada ao corpo que também somos.

No fundo, pensamos que o eu é aquilo que somos necessaria e essencialmente, enquanto que o corpo é aquilo que somos contingentemente. E é verdade que o corpo é um objecto contingente, na medida em que, a não crer no determinismo, poderia não ter vindo a existir.

Penso que a grande questão é: a que se refere a palavra "eu"? A que me refiro quando digo "eu"? E, fora de ilusões, no quotidiano, quando o dizemos, referimo-nos a este conjunto de mente e corpo que cada um de nós aparentemente é. Mas o eu, reflectindo, não parece tanto ser esse conjunto mas, antes, aquilo ao qual se reportam todas as consciências, e que está para lá delas, na medida em que estas são consciências para mim.

A consciência de si parece ser consciência pura, na medida em que o si é si porquanto é si para si. Parece tratar-se de uma operação da consciência que, aparentemente, se reflecte sobre si mesma, dizendo: eu existo.

[Nota póstuma: ficamos com a clara impressão de que o eu é nada mais do que a consciência de si. Mas, ao termos deslindado o significado da palavra "eu", fica por deslindar o significado da palavra "si". Ou seja, não adiantámos muito, apenas no aspecto em que a consciência é uma condição necessária, mas talvez não suficiente, para que existam eus.]

segunda-feira, 10 de março de 2008


"Everyone should seek to be creative, even though creativity is full of risks and uncertainties."
Edward de Bono







quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008

O que somos nós?

Sem consciência, não haveria coisa alguma para nós, incluíndo nós. Não existimos sem consciência; porque somos pessoas e estas são principalmente consciência. Quando se opera um doente anestesiado não se está a pensar na dor que o deonte está a sentir: porque ele está inconsciente da dor que lhe está a ser incutida. Mas será que as realidades da dor e do prazer são realidades para além do ser para si? Aparentemente, não - uma dor só existe na medida em que é sentida. Assim, há todo um mundo que para existir depende da consciência, embora não saibamos quantas partes do mundo assim sejam. Algumas? Todo?

Será que o eu é algo mais do que consciência de se ser consciente?

O eu é, essencialmente, ser para si, e tudo e nada mais do que isso é eu. Penso que a coisa mais interessante, o fenómeno, nesta vida é o ser para si, na medida em que se é ele mesmo para si ou outra coisa para si. O eu tem consciência de ser eu e não de ser outro. "Eu" quer dizer que eu sou igual a mim mesmo, juntando ao que já foi dito. Posso existir ainda que esteja inconsciente; isto se me identificar com um fenómeno que é exterior à minha consciência de mim. Mas o eu é indissociável da consciência de si; é o que é mais. Quando não há consciência de si não há eu? Não há eu para nós, e eu é sempre eu para nós, não havendo, portanto eu. Resta saber se, ao longo de uma vida, há momentos em que eu não existo. Parecem haver (talvez no sono profundo) e o interessante é verificar que é sempre o mesmo eu que reaparece: eu sou sempre eu e não outro. Falta também saber se, na verdade, estamos inconscientes de nós mesmos em estados de sono profundo ou mesmo em estados de concentração em fenómenos outros, o que parece ser verdade - a consciência de si parece aparecer e desaparecer em vários momentos. Mas deixamos de ser nós próprios nesses momentos?

Será que somos sempre nós próprios? A que se refere a palavra "nós" na pergunta? O que somos nós?

Consciência da consciência, consciência pura

Os fenómenos são manifestações. De quê? Não sabemos. Só há duas vias possíveis de conhecimento: a dos fenómenos e a das suas causas que é, em última instância, de uma suposta causa única ou da coisa que são todas as coisas. Mas, para nós, todas as coisas são fenómenos; tudo nos aparece como fenómeno, incluídos nós mesmos, na medida em que "fenómeno" significa "ser para uma consciência". Dizemos, então, que nos aparecem como fenómenos, mas que podem não o ser, na medida em que podem ser algo mais, quer dizer, objectos independentes da consciência. E nós, que tipo de objecto somos? Dependente da consciência, porque o eu é uma construção mental mas, também, um eu para mim; porque eu sou o eu e isto implica consciência. É por isso legítimo perguntar-se se sempre tivemos ou teremos consciência, o que é o mesmo que existir ou se, por outro lado, existimos apenas entre os nossos nascimento e morte. São perguntas que provêm de uma mente mas, principalmente, de um eu, porque sem consciência não existiriam perguntas. A mente tem inúmeras funções, centenas. É muito fácil, evidente e simplista agrupá-las apenas em seis ou sete, porque cada uma dessas contém centenas de outras. Se pararmos para pensar sobre isso, tomando atenção sobre o que a mente está a ou o que pode fazer, descobrimos centenas de pequenas funções que vão ocorrendo. Por isso, a mente é capaz de inúmeras coisas, incluíndo pensar que poderia existir sem consciência. Mente sem eu. Talvez seja o caso dos computadores e dos robots: pensamentos sem consciência? Há algo mais importante do que isso, para nós, que é o sermos para nós, o eu; e se somos desde e para sempre nós ou se somos entre nascimentos e mortes. A própria lógica de sermos entre nascimentos e mortes, implica que somos um mesmo, mas não se sabe se há mais do que um nascimento e uma morte para cada eu. Mas o eu resume-se bem na ideia de que é o ser que é ser para si. Como tal, é consciência, mas de ser uma série de coisas, incluíndo, principalmente, um corpo e uma mente. Cada uma destas palavras contém em si inúmeras outras, que escolhemos agrupar sobre os títulos de "corpo" e "mente". E esses algos são independentes da consciência, excepto no serem para algo que tem consciência que o são. Somos tudo o que somos, conscientes ou inconscientes disso, excepto no eu que é, principalmente e quem sabe se exclusivamente, ser para si. Ser um eu é ser um ser que é para si, que tem consciência de si; é, primeiro, ter consciência de si enquanto ser consciente. Consciência da consciência, consciência pura.

terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

Hipóteses

O eu é o vívido sonho do eu. Será a mente outra que não o sonhador?

Que assim seja

Tudo o que conhecemos é mental, porque é conhecido exclusivamente através da mente. Assim, a mente é mediadora entre o eu e o mundo. Mas o que é o eu? Para mim, podendo estar errado, o eu é o equivalente àquilo a que os antigos ou outros chamam alma que, assim entendida, existe. Mas talvez esteja errado; porque talvez o eu seja o conjunto das experiências que vivo e guardo na memória, sendo esta uma parte da mente, se esta sequer as tem. Ou talvez possamos escolher, e o eu seja aquela parte de nós, se sequer as temos, que acolhemos como nossa, com a qual mais nos identificamos... passada, presente ou imaginada. Acima de tudo, mais do que sabermos o que são o eu ou a mente, penso que temos a explêndida oportunidade, porquanto estamos vivos, e a vida tem esplendorosos esgares de luminosidade, de os vivermos, experimentando-os. Que assim seja, meus amigos.