O CAMINHO DA SERPENTE

"Reconhecer a verdade como verdade, e ao mesmo tempo como erro; viver os contrários, não os aceitando; sentir tudo de todas as maneiras, e não ser nada, no fim, senão o entendimento de tudo [...]".

"Ela atravessa todos os mistérios e não chega a conhecer nenhum, pois lhes conhece a ilusão e a lei. Assume formas com que, e em que, se nega, porque, como passa sem rasto recto, pode deixar o que foi, visto que verdadeiramente o não foi. Deixa a Cobra do Éden como pele largada, as formas que assume não são mais que peles que larga.
E quando, sem ter tido caminho, chega a Deus, ela, como não teve caminho, passa para além de Deus, pois chegou ali de fora"

- Fernando Pessoa, O Caminho da Serpente

Saúde, Irmãos ! É a Hora !


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quarta-feira, 23 de setembro de 2009

"Às vezes a realidade abre um rasgão"

"Às vezes a realidade abre um rasgão
e nós vemos o clamor da derradeira cal
ou o incêndio das nossas coordenadas
Mas [...] não suportamos essa visão do fim
e procuramos reconstruir o nosso círculo quotidiano

Tudo o que pensamos ou é de mais ou de menos
porque a realidade é insondável e alheia
e se para ela nascemos vivemos sempre à beira
dos abismos que a dissolvem ou entre os espelhos que a deformam"

- António Ramos Rosa, As Palavras, Porto, campo das letras, 2001, p.51.

Um dos textos a comentar no curso livre "O sentimento cósmico da vida. A experiência da totalidade na poesia portuguesa contemporânea", com início a 9 de Outubro, na Associação Agostinho da Silva.

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Sentir a realidade - uma breve especulação a partir dos primeiros dois trechos

Os símbolos e as interpretações são desnecessários porque temos a realidade - demasiado rica, ou quer a julgues pobre: é o que é.

Ascende à realidade que aparece ante ti. Penetra os seres com a tua visão. Transmuta-te.

Pratica a ascese do olhar, toca nas coisas: tu próprio és fenómeno.

Vai delas para lá delas e perceberás que elas são isso. São o que vês e o abismo que sentes.

Compreende que tudo conflui nesse abismo, que é também abismo da alma.

A alma é também um fenómeno: abençoado fenómeno!, perpassado pelos esgares da consciência.

A consciência é una, universal, comunitária. A minha consciência, propriamente, não existe.

Depressa passará, e cairá na grande malha do Esquecimento. Mas sempre fluirei na grande corrente do Universo.

Apareço e desapareço por entre os meus esgares, teus esgares, como um grito, uma lágrima ou o riso de Deus, palavra que nos confunde.

De onde vimos? Para onde vamos?

Ninguém sabe de onde vem nem para onde vai, embora todos saibam onde estão.

O passado e o futuro são escuros, o presente é luminosidade perpassada por escuridão, como o dia o é.

Porque na verdade o mundo é mistura. Ziliões de átomos e seres em colisão, que se atraem e repelem, que se unem, que choram, gritam e amam.

O mundo é uma grande história de amor, A grande história de amor, um romance, pleno em aventuras e desventuras, e a História é Fortuna.

Tudo isto podemos saber, tudo isto podemos esquecer. Tudo isto podemos embrulhar como quem guarda carinhosamente o maior dos tesouros e, num relance, contemplar - não sem o uso da imaginação, outra palavra que confunde.

Ou podemos simplesmente ser... o dia.

Saúde!

domingo, 6 de setembro de 2009

A todos os músicos e amantes da música

"Quando com concentrada atenção se escutam os amplos sons das cordas ou de outros instrumentos musicais, identificamo-nos então com a realidade suprema (para-vyoman)"

- Vijñana Bhairava, 41 (texto sagrado do Shivaísmo de Cachemira).

Uma saudação especial a Kunzang Dorje e Parasensorial, que cultivam a nobílissima arte das Musas.

sábado, 22 de agosto de 2009

A dualidade dos tolos

"Os tolos projectam erroneamente escravidão e libertação, que são atributos da mente, sobre a Realidade, tal como a sombra lançada sobre os olhos por uma nuvem [é projectada sobre] o próprio Sol. Pois esta imutável [Realidade] é Consciência não-dual e livre" - Shankara, Viveka-Cudamani, 571.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

O universo como um holograma



A realidade objectiva existe, ou será o universo é fantasmático?
Eis parte dum artigo que pode ajudar-nos, ao menos, a pensar nisso.


"Em 1982 ocorreu um facto muito importante. Na Universidade de Paris uma equipa de investigação chefiada pelo físico Alain Aspect realizou o que pode tornar-se a mais importante experiência do século XX. Não se ouviu falar disso no noticiário da noite. De facto, a menos que se tenha o hábito de ler jornais e revistas científicos, o mais provável é nunca se ter ouvido falar no nome de Aspect.
Todavia muitos são os que pensam que o que ele descobriu pode mudar a face da ciência.
Aspect e a sua equipa descobriram que, sob certas circunstâncias, partículas sub-atómicas como os electrões são capazes de comunicar-se instantaneamente umas com as outras, não obstante a distância que as separe. Não importa se estão a um distância de 10 metros ou de 10 bilhões de quilómetros. De alguma forma uma partícula sabe sempre o que a outra está a fazer. O problema com esta descoberta é que isto viola a há por muita sustentada afirmação de Einstein de que nenhuma comunicação pode viajar mais rápido que a velocidade da luz. E como viajar mais rápido que a velocidade da luz é o objectivo máximo para quebrar a barreira do tempo, este facto perturbador tem feito com que muitos físicos tentem vir com formas elaboradas para rejeitarem as descobertas de Aspect.
Mas também tem proporcionado que outros procurem explicações mais radicais.
O físico da Universidade de Londres, David Bohm, por exemplo, acredita que as descobertas de Aspect implicam que a realidade objectiva não existe como tal, e que, a despeito da aparente solidez, o universo está no seio de um holograma fantástico, gigantesco e extremamente detalhado. Para entender porque Bohm faz tal afirmativa surpreendente, temos primeiro que saber um pouco sobre hologramas.
Um holograma é uma fotografia tridimensional feita com a ajuda de um laser. Para fazer um holograma, o objecto a ser fotografado é primeiro banhado com a luz de um raio laser. Então um segundo raio laser é colocado fora da luz reflectida do primeiro e o padrão resultante de interferência (a área aonde se combinam estes dois raios laser) é capturada no filme. Quando o filme é revelado, parece um redemoinho de luzes e linhas escuras. Mas logo que este filme é iluminado por um terceiro raio laser, aparece a imagem tridimensional do objecto original.
A tridimensionalidade destas imagens não é a única característica importante dos hologramas. Se o holograma de uma rosa é cortado ao meio, e em seguida iluminado por um laser, será ainda encontrada em cada metade uma imagem da rosa inteira. E mesmo que seja novamente dividida cada parte do filme sempre apresentará uma menor, mas ainda intacta versão da imagem original. Ao contrária das fotografias normais, cada parte de um holograma contém toda a informação possuída pelo todo.
A natureza de "todo em cada parte" de um holograma proporciona-nos uma maneira inteiramente nova de entender organização e ordem. Durante a maior parte da sua história, a ciência ocidental tem trabalhado dentro do pressuposto de que a melhor maneira para entender um fenómeno físico, seja ele um sapo ou um átomo, é dissecá-lo e estudar as partes que o constituem.
Um holograma ensina-nos que muitas coisas no universo não podem ser entendidas com tal abordagem. Se tentarmos tomar alguma coisa à parte, de alguma coisa construída holograficamente, não obteremos as peças da qual tal coisa é feita, obteremos apenas inteiros menores.
Este ponto de vista é o sugerido por Bohm como outra forma de compreender os aspectos da descoberta de Aspect. Bohm acredita que a razão que permite as sub- partículas de permanecerem em contacto umas com as outras, a despeito da distância que as separe, não é porque elas estejam a enviar algum tipo de sinal misterioso, mas porque tal separação é uma ilusão.
Argumenta ele que, num nível mais profundo de realidade, estas partículas não são entidades individuais, mas extensões da mesma coisa fundamental. Para permitir visualizarmos melhor o que ele quer dizer, Bohm ilustra-o da maneira seguinte.
Imagine-se um aquário que contém um peixe. Imagine-se também que não se consegue ver o aquário directamente e que o nosso conhecimento do aquário se dá através de duas câmaras de televisão, uma dirigida ao lado da frente e a outra à parte lateral.
Quando se observa atentamente os dois monitores, acaba-se presumindo que o peixe de cada uma das telas é uma entidade separada. Isto porque, como as câmaras foram colocadas em ângulos diferentes, cada uma das imagens será também ligeiramente diferente. Mas se continuarmos a olhar para os dois peixes, acabamos por adquirir a consciência de que há uma relação entre eles.
Quando um se vira, o outro faz uma volta correspondente apenas ligeiramente diferente; quando um se coloca de frente para a frente, o outro coloca-se de frente para o lado. Se não soubermos dos ângulos em que estão colocadas as câmaras, podemos ser levados a concluir que os peixes estão a intercomunicar-se, apesar de esse não ser claramente o caso.
Isto, diz Bohm, é precisamente o que acontece com as partículas sub-atómicas na experiência de Aspect. Segundo Bohm, a aparente ligação mais-rápido-do-que-a-luz entre as partículas sub-atómicas está a dizer-nos que de facto existe um nível de realidade mais profundo da qual não estamos privados, uma dimensão mais complexa além da nossa própria que é análoga à do aquário. E, acrescenta ele, vemos objectos como tais partículas sub-atómicas como se estivessem separadas umas das outras porque estamos vendo apenas uma parte da realidade delas.
Estas partículas não são partes separadas, mas sim facetas de uma unidade mais profunda e mais subliminar que é holográfica e indivisível como a rosa atrás referida. E como tudo na realidade física está compreendido dentro destes "eidolons", o próprio universo é uma projecção, um holograma.
A esta natureza fantástica acresce que tal universo possuiria outras características surpreendentes. Se a aparente separação das partículas sub-atómicas é uma ilusão, isso significa que, num nível mais profundo de realidade, todas as coisas do universo estão infinitamente interconectadas.
Os electrões num átomo de carbono no cérebro humano estão interconectados com as partículas sub-atómicas que compreendem cada salmão que nada, cada coração que bate, e cada estrela que brilha no céu.
Tudo interpenetra tudo e embora a natureza humana possa procurar categorizar como um pombal e subdividir os vários fenómenos do universo, toda a partição é de fato necessariamente artificial e tudo na natureza se mostra finalmente uma rede descosida.
Num universo holográfico, nem o tempo e o espaço podem já ser vistos como fundamentais. Porque conceitos como localização colapsam diante de um universo em que nada está verdadeiramente separado de nada, tempo e espaço tridimensional, como as imagens dos peixes nos monitores também podem ser vistos como projecções de uma ordem mais profunda.
Este tipo de realidade a nível mais profundo é um tipo de super-holograma no qual o passado, o presente, e o futuro existem simultaneamente. Isto sugere que, tendo as ferramentas apropriadas, um dia poderá ser possível entrar dentro deste nível de realidade super-holográfica e trazer cenas do passado há muito esquecido. Seja o que for que o super-holograma contenha, ele é ainda uma questão em aberto. Pode-se até admitir, por mera suposição, que o super-holograma é a matriz que deu origem a tudo no nosso universo e que, no mínimo, ele contém cada partícula sub-atómica que existe ou existirá. Cada configuração da matéria e energia que é possível - de flocos de neve a quasars, de baleias azuis aos raios gama - deve ser visto como um tipo de "depósito" de ''Tudo que é".
Embora Bohm admita que não há maneira de saber o que mais pode estar oculto no super-holograma, ele arrisca em dizer que não temos qualquer razão para admitir que ele não contenha mais. Ou - como ele coloca a questão - talvez o nível super-holográfico da realidade seja um simples estágio além do qual repousa 'uma infinidade de desenvolvimento posterior'."

Fonte: http://www.keelynet.com/biology/reality.htm

terça-feira, 5 de agosto de 2008

O Rei não é ideal: é Real

O maior ideal não é uma ideia: é um real inimaginável, "inidealizável", pois o Real arrasa qualquer ideal. A luta por um ideal, contra o que é real, é viver pelo que é servente: o Homem racional serve o servente, ignorando que é Rei.

O meu reino não é deste mundo inundado de ideias de homens, o meu Rei é Real: vive simplesmente, É sem porquê.

segunda-feira, 9 de junho de 2008

A natural experiência do que "é"

"Experiencia no es ciencia, no es episteme, no pertenece a la epistemología, sino que antes bien la funda. Experiencia es el toque que tenemos con la realidad. Y como tal toque es inmediato. La mediación viene hecha por nuestro conocimiento que interpreta el sentido de tal toque.
El toque no es de un objeto, no es de un ob-jectum. El objecto es objecto de conocimiento. Acaso se podría decir que ob-jectum no es lo mismo que Gegenstand, aquello que se nos presenta delante y que ofrece una cierta resistencia a nuestro toque con locual nos testimonia su ek-sistencia. Pero todo esto son operaciones de la mente; operaciones sobre un datum, un algo dado, una existencia que nos ofrece resistencias y con ello no nos permite ir más allá. La experiencia se detiene en el datum.
Lo que se toca, el dato inmediato es la realidad. Pero cuando nos percatamos del toque, esto es, cuando somos conscientes de él, lo hacemos en virtud de uno de los tres órganos, o simplemente ventanas que al abrirse nos permitem ver la luminosidad del mundo. Es la clásica y tradicional noción de los tres ojos: el semsible, el intelectual y el místico [...]. Pero la realidad es una, la podemos llamar el Ser si así preferimos. Cuando interpretamos la experiencia como perteneciente a nuestra sensualidad, como "excitando" nuestros sentidos, la llamamos realidad material; cuando la vemos perteneciendo al orden ideal la llamamos intelectual; y cuando nos damos cuenta que transciende ambas la llamamos mística (entre otras palabras). [...]
Pues bien, cuando la experiencia, cuando el toque con la realidad no se resquebraja o no se refracta en nuestro prisma triádico, acaso porque nuestro ser no está resquebrajado, esto es, se encuentra en paz consigo mismo y en armonía con el todo, entonces somos conscientes que tocamos la realidad, que tocamos Dios - rüeren (tocar), dice Meister Eckhart (Predigt 101)" - Raimon Pannikar, Iconos del Misterio. La experiencia de Dios, Barcelona, Ediciones Península, 2001, p.18.

Onde Pannikar fala de "Deus", "realidade" e "Ser" eu diria vacuidade. Onde fala de "tocar" eu diria "reconhecer" / "fruir" ou, simplesmente, "experienciar". O que importa é que isso é a mais natural e constante das experiências, como a do ar que se respira. São as distracções em que andamos, ocupando a mente com os múltiplos objectos materiais e ideais que ela toma por reais e destaca desta experiência primordial e total, que fazem que seja necessário um esforço para regressar a ela, que surge então como algo difícil, singular e raro. O mais simples e comum, a cada instante presente, passa assim por ser o mais extraordinário, de que quase todos duvidam. Somos como peixes que duvidassem da realidade do oceano.

sábado, 17 de maio de 2008

Um texto a partir do texto anterior

Por que faço, no texto anterior, a crítica aos pretensos filósofos objectivistas? Porque, a mando de falsos caprichos e irritações pessoais contra o mundo que, para eles, se divide entre leigos e não-leigos, provocando-me irritações cutâneas, como sejam os da clareza de linguagem para que a filosofia seja acessível a todos, transformam-na, na verdade, numa actividade completamente académica e desligada da realidade, das velhas com a pele enrugada pela passagem do tempo, dos agricultores e pescadores, da terra, das suas suaves, simples e profundas intuições, de crenças religioso-metafísicas acerca da realidade vividas com uma incrível intensidade, da realidade-verdade, crua, para a idealização-alienação, construída.

Vivemos a era dos cursos. Hoje, há cursos para tudo e são necessários cursos para tudo, o que é liminarmente ridículo, na medida em que é possível que o maior filósofo de sempre seja um aparente Zé-Ninguém sentado no chão, na esquina ventosa, ou um raro pastor perdido num qualquer monte longínquo. No entanto, como vivemos não só na era dos cursos, como na dos papéis, privilegiam-se os papéis, os diplomas, que não são assertivos, excepto para inglês ver.

Vivemos não só a era dos cursos e dos papéis, como a dos currículos, tal é a desconfiança de uns para outros. A maior preocupação das pessoas é fazer currículo, não só para terem a justa preocupação de melhores possibilidades de empregabilidade futura, como para defenderem socialmente um status numa sociedade cada vez mais agressiva, encolhida, receosa.

Sou contra tudo isto: cursos, papéis, currículos e, portanto, talvez infelizmente, contra o modelo social em que vivemos, embora entenda que tanta burocracia pode visar a nossa própria segurança. Talvez a solução passe, como tem vindo a ser dito desde há uns anos para cá, por uma participação social mais local, onde o contacto humano e os afectos são maiores, e onde as pessoas são mais valorizadas na sua sensibilidade e não tanto na sua capacidade funcional.

Nas cidades, as pessoas são pouco afectuosas, muito carreiristas e individualistas, "não me chateies que eu também não", vivendo no entanto a estranha condição de extremamente desligadas da sua individualidade enquanto são extremamente individualistas, porque desligadas da vida e da morte, da terra e do céu, esquecendo facilmente, pequenas peças numa complexa engrenagem.

Os filósofos não devem pensar fechados nas suas redomas pseudo-individualistas, mas individualizar-se, livremente, para a colectividade, tendo a obrigação de, como pensadores da vida e da morte, da existência, da pessoa e da sociedade, das relações, do ideal, divulgá-lo, respeitando, no entanto, a clara incerteza das nossas noções acerca do mundo, porque o humano é o ser da crença, no que respeita ao ser da realidade para lá das aparências (se esta ou aquela existem... penso que sim!) e ao futuro.

terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

O eu é o mestre do eu

Bertrand Russell disse, a propósito da máxima cartesiana, que dela apenas poderíamos inferir que há pensamentos, mas não que há um pensador. Poderíamos afirmar o mesmo acerca do sonho (supondo, para o caso, que a realidade o é)? Que só este existe, mas não um sonhador?

Note-se que não se segue do facto de as nossas inferências serem limitadas a certas conclusões que não existam outras mais à frente, inacessíveis pelo aparelho do humano raciocínio.

Embora eu não seja muito de práticas - mea culpa, preguicite aguda -, creio que o (verdadeiro) conhecimento de algo como a mente só é possível através da introspecção, primeira pessoa, podendo depois ser transformado, se possível, em discurso verbal, provindo no entanto dessa introspecção, tal como o leite provém da vaca e não do supermercado. Quero com isto dizer que só poderá advir mais conhecimento acerca da mente se nela penetrarmos, se sobre ela nos indagarmos, e nunca de outro modo.

Neste sentido, penso que é saudável que adoptemos uma máxima budista que diz que o eu é o mestre do eu, na medida em que o conhecimento de nós mesmos - sim, supondo que existimos, ou que algo existe - só surgirá por indagação de nós sobre nós.

Hipóteses/2

Só o sonho existe. Tudo é sonho.

Hipóteses

O eu é o vívido sonho do eu. Será a mente outra que não o sonhador?

Que assim seja

Tudo o que conhecemos é mental, porque é conhecido exclusivamente através da mente. Assim, a mente é mediadora entre o eu e o mundo. Mas o que é o eu? Para mim, podendo estar errado, o eu é o equivalente àquilo a que os antigos ou outros chamam alma que, assim entendida, existe. Mas talvez esteja errado; porque talvez o eu seja o conjunto das experiências que vivo e guardo na memória, sendo esta uma parte da mente, se esta sequer as tem. Ou talvez possamos escolher, e o eu seja aquela parte de nós, se sequer as temos, que acolhemos como nossa, com a qual mais nos identificamos... passada, presente ou imaginada. Acima de tudo, mais do que sabermos o que são o eu ou a mente, penso que temos a explêndida oportunidade, porquanto estamos vivos, e a vida tem esplendorosos esgares de luminosidade, de os vivermos, experimentando-os. Que assim seja, meus amigos.

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008

Tudo o que conhecemos

Tudo o que conhecemos é mental. Percepções, imaginações, sentimentos, memórias, desejos...

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008

A melhor forma de dizer a realidade

Há opções que temos de tomar devido às circunstâncias dos jogos em que nos envolvemos: prazos de entrega de trabalhos, e assim por diante. Há opções que, aparentemente, não temos de tomar, como a de nos decidirmos por um dos lados de uma querela metafísica, ainda que só nossa (como se isso existisse...). Penso, por exemplo, na questão de se saber se rumamos solitariamente pelos caminhos desta vida ainda que estando aparentemente acompanhados. Inclino-me mais para a parte da solidão, embora um pouco afastado, mas um pouco próximo, da solidão real de milhares de pessoas, com as quais me compadeço (compadecer-me-ei realmente, ou quero apenas pensar que sou boa pessoa?). A questão é que, tal como o nada de coisa nenhuma me atrai, atrai-me também a solidão metafísica, que defino como o facto de, em última instância, perante o derradeiro e desconhecido abismo de uma existência que caminha perdida e assustada para lado nenhum, caminharmos sozinhos. Sim, há alguém que nos ama; mas há, penso, uma parte de nós que não é penetrada por ninguém que não nós, e nem sei mesmo se por nós. Essa parte é, penso, o caminho ele mesmo, o perdurar da vida, a sua totalidade. Sim, penso-o agora, está para lá de qualquer concepção. No entanto, os conceitos que mais se lhe aproximam são os de nada, como coisa nenhuma, que é o que mais somos, antes e depois do parco tempo que somos, e de solidão, como algo que nunca nos sairá da ponta da língua, e que para sempre aí estará. Talvez a melhor forma de dizer a realidade não seja dizendo-a mas, apenas, sendo-a (uuu... esta é profunda... ah ah ah).