O CAMINHO DA SERPENTE

"Reconhecer a verdade como verdade, e ao mesmo tempo como erro; viver os contrários, não os aceitando; sentir tudo de todas as maneiras, e não ser nada, no fim, senão o entendimento de tudo [...]".

"Ela atravessa todos os mistérios e não chega a conhecer nenhum, pois lhes conhece a ilusão e a lei. Assume formas com que, e em que, se nega, porque, como passa sem rasto recto, pode deixar o que foi, visto que verdadeiramente o não foi. Deixa a Cobra do Éden como pele largada, as formas que assume não são mais que peles que larga.
E quando, sem ter tido caminho, chega a Deus, ela, como não teve caminho, passa para além de Deus, pois chegou ali de fora"

- Fernando Pessoa, O Caminho da Serpente

Saúde, Irmãos ! É a Hora !


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domingo, 1 de agosto de 2010

Um Homem Religioso

Um homem religioso não é um reaccionário nem um revolucionário. Um homem religioso é simplesmente solto e natural; ele não é nem a favor nem contra alguma coisa, ele é simplesmente ele mesmo. Ele não tem regras a seguir nem nenhuma regra a negar; ele simplesmente não tem regras. Um homem religioso é livre no próprio ser, não tem nenhum molde de hábitos e condicionamentos. Ele não é um ser cultivado - não que seja incivilizado e primitivo, ele é a possibilidade mais elevada de civilização e cultura, mas não é um ser cultivado. Ele cresceu na sua consciência e não precisa de regras nenhumas, ele transcendeu as regras. Ele é verdadeiro, mas não porque a regra é ser verdadeiro; ao ser solto e natural, ele é simplesmente verdadeiro, acontece ser verdadeiro. Ele tem compaixão não por seguir o preceito «tenha compaixão», não. Ao ser solto e natural, ele simplesmente sente a compaixão fluir por todo o lado. Ele não tem de fazer alguma coisa; é apenas um derivado do crescimento da sua consciência. Ele não está contra a sociedade - está simplesmente para além dela. Ele tornou-se de novo uma criança, uma criança num mundo absolutamente desconhecido, uma criança numa nova dimensão - ele renasceu.

Osho, Tantra A Compreensão Suprema, Pergaminho, p.248

terça-feira, 1 de setembro de 2009

existência budismo

'como vimos, ele crê que o amor pode vencer o ódio: «O ódio aumenta com a riprocidade e pore ser destruído pelo amor; e o ódio completamente vencido passa a amor; e em consequência é maior do que se o ódio não o predecesse.» eu desejaria crê-lo, mas não posso, excepto no caso excepcional em que a pessoa que odeia está completamente em poder de aquela que recusa odiar. em tal caso a supresa de não punido pode ter efeito reformador; mas se o culpado tem poder não será fácil convencê-lo de que não o odiamos; ele atribuirá essas palavras a motivo suspeito. e não o privaremos da força pela não-resistência.
...
penso que os factos particulares são o que são e não ficam diferentes pela absorpção em um todo. cada acto de crueldade é eternamente parte do universo; nada pode ulteriormente tornar bom o que era mau nem conferir perfeição ao todo de que ele é parte.
...
às vezes conforta reflectir que a vida humana com todo o seu mal e sofrimento é parte infinitésima da vida do universo. tais reflexões não bastam para constituir uma religião, mas no mundo doloroso são auxilio salutar e antídoti contra o desespero completo.

b. russell

domingo, 26 de julho de 2009

religião universal

em nome do passado e do futuro, os servidores teóricos e os servidores práticos da humanidade acabam de tomar a direcção geral dos assuntos terrestres, para construir finalmente a verdadeira providência, moral intelectual e material, excluindo de modo irrevogável da supremacia política todos os diversos escravos de deus, católicos, protestantes ou deístas, como gente que é ao mesmo tempo retrógrada e perturbadora.
augusto comte
catecismo positivista ou exposição sumária da religião universal em onze colóquios sistemáticos entre uma mulher e um sacerdote da humanidade.

Dedicado ao Maltez: Portugueses: materialistas ou religiosos?

segunda-feira, 2 de março de 2009

Colóquio "A Religião e o Ateísmo Contemporâneo"

SEMINÁRIO PERMANENTE DE ESTÉTICA, ARTE E RELIGIÃO
CENTRO DE FILOSOFIA DA UNIVERSIDADE DE LISBOA
5 e 6 de Março de 2009

ENTRADA LIVRE

Sala 5.2 (Sala de Mestrado) da Faculdade de Letras de Lisboa

5 de Março

Presidente de Mesa: José Pedro Serra (Universidade de Lisboa)
14h-15h: Markus Gabriel (New School University de Nova Iorque/CFUL): "A Ideia de Deus em Hegel"
15-16: Cristina Beckert (Universidade de Lisboa/CFUL): "Lévinas e o Ateísmo como condição da religião"
16-17: Manuel João Pires (Universidade de Lisboa/CFUL): "Deus: a Ilusão ou por que razão é quase certo que Deus não existe. Reflexões sobre o pensamento de Richard Dawkins"
Pausa
17:15-18:15: Lavínia Pereira (Universidade de Lisboa/CFUL): "Bergson e a crítica ao Naturalismo"
18:15-19:15: Maria Teresa Teixeira (Universidade de Lisboa/CFUL): "Deus e Materialismo nas Filosofias de Bergson e Whitehead"
19:15-20:15: Carlos João Correia (Universidade de Lisboa/CFUL): "Será a Ideia de Deus racional?"

6 de Março

Presidente de Mesa: Susana Oliveira (Universidade Técnica de Lisboa)
14h-15h: Katia Hay (New School University de Nova Iorque): "The Loss of the Absolute"
15-16: Mafalda Blanc (Universidade de Lisboa/CFUL): "A Religião, o Ateísmo e o Mistério Teologal do Homem"
16h-17: Ana Acciaioli Cravo (Universidade de Lisboa): "A Morte de Deus e as Nostalgias do Absoluto: reflexões sobre o pensamento de George Steiner"
Pausa
17:15-18:15: Paulo Guedes (Universidade de Lisboa): "Sade e o Ateísmo"
18:15-19:15: Paulo Borges (Universidade de Lisboa/CFUL): "Êxtase, Transfiguração e A-teísmo em Emil Cioran"
19:15-20:15: Petar Bojanić (University of Aberdeen): "Franz Rosenzweig: War and Atheism"

Para mais informações, contactar:
carlos.joao@netcabo.pt
joanaluis2003@yahoo.com.br

sábado, 10 de janeiro de 2009

O Umbigo do Ego e a Ética Marcial (arsénico...)

"O que está acontecendo na Palestina não é justificável por nenhuma moralidade ou código de ética. Certamente, seria um crime contra a humanidade reduzir o orgulho árabe para que a Palestina fosse entregue aos judeus parcialmente ou totalmente como o lar nacional judaico."

Gandhi

sexta-feira, 24 de outubro de 2008

A Primeira Religião do Mundo

"Sentir é criar.
Sentir é pensar sem ideias, e por isso sentir é compreender, visto que o Universo não tem ideias.
- Mas o que é sentir?
Ter opiniões é não sentir.
Todas as nossas opiniões são dos outros.
Pensar é querer transmitir aos outros aquilo que se julga que se sente.
Só o que se pensa é que se pode comunicar aos outros. O que se sente não se pode comunicar. Só se pode comunicar o valor do que se sente. (...) O sentimento abre as portas da prisão com que o pensamento fecha a alma.
A lucidez só deve chegar ao limiar da alma. Nas próprias antecâmaras é proibido ser explícito.

Sentir é compreender. Pensar é errar. Compreender o que outra pessoa pensa é discordar dela. Compreender o que outra pessoa sente é ser ela. Ser outra pessoa é de uma grande utilidade metafísica. Deus é toda a gente.
Ver, ouvir, cheirar, gostar, palpar - são os únicos mandamentos da lei de Deus. Os sentidos são divinos porque são a nossa relação com o Universo, e a nossa relação com o Universo Deus.
(...) Só sentir é crença e verdade. Nada existe fora das nossas sensações.
(...) Não há critério da verdade senão não concordar consigo próprio. O Universo não concorda consigo próprio, porque passa. A vida não concorda consigo própria, porque morre. O paradoxo é a fórmula típica da Natureza. Por isso toda a verdade tem uma forma paradoxal.
(...) Pensar é limitar. Raciocinar é excluir.
(...) Substitui-te sempre a ti próprio. Tu não és bastante para ti. Sê sempre imprevenido por ti próprio. Acontece-te perante ti próprio. Que as tuas sensações sejam meros acasos, aventuras que te acontecem. Deves ser um universo sem leis para poderes ser superior. (...)
Faz de tua alma uma metafísica, uma ética e uma estética. Substitui-te a Deus indecorosamente. É a única atitude realmente religiosa (Deus está em toda a parte excepto em si próprio). (...)"
Fernando Pessoa, "Sobre «Orpheu», Sensacionismo e Paulismo"

quarta-feira, 13 de agosto de 2008

A minha religião

Se a vida não é eterna para quê levar a sério o que logo passa?
Se a vida é eterna o que levar a sério senão o que o seja também: o amor sem limites?

A minha religião tem só um mandamento: viver à beira-mar do amor.

quinta-feira, 29 de maio de 2008

O que é a Religião? Notas várias

A noite é a mãe da religião.

Feuerbach em "A essência do Cristianismo".

A religião pura, originária e, provavelmente, única verdadeira, é a que vem de dentro da mente de quem a tem, que coincide perfeitamente com as suas crenças mais profundas acerca da origem e do ser da realidade - qual a sua origem? O que é, para mim, a realidade? -, sendo impossível, tautologia, um humano acreditar em algo em que não acredita. Quero com isto dizer que, provavelmente, sendo que cada pessoa tem a sua própria visão do mundo, semelhante e dissemelhante das outras, tem, também, a sua própria religião: relação de si com tudo, acto de se religar ao todo. Não podendo ser todas verdadeiras, as diferentes religiões (seis biliões?) têm, contudo, todas elas, algo de verdadeiro, na medida em que nada melhor do que a interioridade justamente para se expressar, imageticamente, ou conhecer-se.

Feuerbach escreve que Deus é a objectivação do humano, a essência de Deus a essência humana, à qual foram retiradas as características consideradas desagradáveis, portanto, uma idealização da essência humana: o bem, a virtude, o poder, a justiça, não o mal, o vício, a impotência ou a injustiça. Assim, aparentemente, poderíamos dizer que o humano se conhece a si mesmo. Porém, a religião originária, como o próprio autor frisa, revela-se, principalmente, na oração, e a oração é não apenas o pedido de ajuda para enfrentar os males do mundo mas, também, como surpreendemos por exemplo em Agostinho, a expressão, objectivação, de uma quase angustiante vontade de conhecer e de, principalmente, conhecer-se. Dado isto, poderíamos dizer que o humano não sabe se se conhece a si mesmo, vive na dúvida, pensa que há sempre mais, desconhece.

E, assim, dizemos que o grande desejo do religioso, o sumo, é conhecer-se. Deste modo, a pergunta primeira, última, essencial, da religião é: quem sou eu?, que pode ser dita de outro modo, desligada de eventuais referências à história de vida de quem se interroga: o que sou eu? A questão evoca o desejo, a ânsia, que o humano tem em conhecer o seu fundo, aquilo que está primeiro, a fonte, a origem, pois julga qúe é aí que se encontrará... à sua essência, aquilo que é mais profundamente, verdadeiramente: a verdade acerca de si.

Esse fundo é Deus, muito especialmente o hindu, Brahman-Atman, visto que a expressão refere, simultaneamente, algo que a pessoa não é, porque a pessoa é um ser particular no espaço-tempo, com uma história de vida, distinto da origem, etc., e algo que a pessoa é, porque é, em última instância, essencialmente aquilo, verdadeiramente aquilo, no fundo aquilo: não poderá não sê-lo, tal a natureza da ligação umbilical à Nave-Mãe, tal a natureza da Natureza. Nesse sentido, todos somos o incriado e não poderemos não sê-lo.

A religião é a tentativa de percorrer o cordão umbilical até à origem. E, embora possamos encetar o caminho através deste mundo, da contemplação que convida à viagem, a origem, o fim, não está neste mundo, é transcendente, invisível, é longe, é fora, é para lá, é além e, provavelmente, se o víssemos, teríamos de ir para lá dele, porque é essa a nossa Natureza, eis a da imaginação, querer ir para lá do dado, querer criar mundos, viver insatisfeitos, escapar, dominar ou não dominar, escolher, ser plenamente livre, um produto da imaginação, sem constrangimentos: ser Deus: livre, liberdade.

Assim, a pergunta "quem sou eu?" esconde a pergunta "por que é tudo assim?" que, por sua vez, esconde o desejo "quero ser livre". Deste modo, as duas perguntas resumem-se na seguinte: por que não sou livre? E, dada a imaginação, perguntamos: serei livre? "Desejo ser livre": por que não procurar, então, a liberdade? Eis o valor/ideal supremo que subjaz à religião pura (e purificada da superstição), a liberdade. Talvez por isso a essência de Deus permaneça um mistério, indefinida, sem propriedades... para ser plenamente livre, até da própria liberdade.

Assim, o religioso põe como Princípio aquilo a que aspira; mas não só por razões subjectivas ou de satisfação pessoal, como Feuerbach decerto pensaria, mas pela própria questão objectiva de que o Princípio tem de estar para lá das leis, sejam elas, por exemplo, físicas ou lógicas, não podendo nós, no entanto, justificar este pensamento supondo a liberdade do Princípio, tendo, então, de encontrar o caminho que nos indique que elas têm de ter sido criadas ou que Ele não é elas e é-lhes anterior e superior. Estou a escrever isto de uma Biblioteca e o tempo de uso do computador está a acabar e, por isso, não escrevo mais, publico-o.

quarta-feira, 28 de maio de 2008

Os três tipos do religioso e um comentário a propósito de "A essência do Cristianismo"

Os três tipos do religioso: ser tudo, nada ser, ser sem ser.

"A essência do Cristianismo" é uma leitura importante não tanto no seu aspecto demolidor dos mistérios do Cristianismo, mas na medida em que poderá ajudar-nos a construir uma religião mais natural, menos inconsciente, guiar-nos na prossecução da nossa sabedoria em relação aos nossos desejos mais recônditos e a nós próprios e, também, libertar-nos da tirania do eu, de nós em/para nós. Afinal, depois deste autor, quem é o verdadeiro Deus? Qual o Deus que poderemos procurar tanto dentro como fora de nós, pessoal e impessoal, subjectivo e objectivo...? Deus do cientista e do religioso, fim sem fim de uma busca... direccionada... interior e exterior, racional e contemplativa, princípio e fim sem fim desejado...

O mundo antes e depois de Feuerbach

Deus é o outro de mim. O eu é a essência da Religião.

quarta-feira, 19 de março de 2008

Religião - um remédio para a mente?

Mais uma passagem do livro "Conselhos espirituais do Dalai Lama", da editora Verus, p.14. Agora no que refere ao papel da religião na cultura humana:

"As religiões são um remédio, no que diz respeito à relevância de seu papel na cura do sofrimento humano. Na prática da medicina, o que realmente importa não é o preço de determinado remédio, se é muito caro ou não, mas sim que ele cure a doença do paciente. De modo semelhante, há uma variedade de religiões com suas diferentes filosofias e tradições. O objetivo ou propósito de cada uma é curar as dores e a infelicidade da mente humana. Não é uma questão de indicar qual das religiões é superior. A questão é saber qual delas poderá curar com mais eficácia uma determinada pessoa."

segunda-feira, 17 de março de 2008

Tao?

Assim, o meu primeiro post pós-ressurreição é um poema de Daio Kokushi, que encontro na obra "Textos budistas e zen-budistas", da editora Cultrix. O poema faz-me lembrar um pouco o espírito taoísta que encontro no "Tao Te King". Aqui vai:

"Há uma realidade mesmo anterior ao Céu e à Terra.
Evidentemente, ela não tem forma, muito menos um nome;
Os olhos falham em enxergá-la,
Ela não tem voz que os ouvidos possam captar.
Chamá-la Buda ou Mente viola sua natureza,
Pois ela então se torna uma ilusória flor no espaço;
Ela não é mente, nem Buda;
Absolutamente tranquila e ainda brilhando de misteriosa maneira,
Ela só se deixa perceber por um olhar puro.
Ela é o Darma completamente além da forma e do som.
Ela é o Caminho que nada tem a ver com palavras.
Querendo atrair o cego,
O Buda divertidamente deixou palavras
Escaparem de sua boca dourada;
Céus e terra então se emaranharam em ramos de roseira brava.
Ó meus bons e respeitáveis amigos aqui reunidos!
Se desejardes ouvir a estrondosa voz do Darma,
Esgotai vossas palavras, esvaziai vossos pensamentos,
Só então podereis reconhecer essa Essência Una,
Pois assim diz o irmão Hui: - 'A Lei de Buda,
Não é para ser abandonada aos meros pareceres humanos.'"

sábado, 23 de fevereiro de 2008

Poderá existir religião sem ética?

Poderá existir religião sem ética? Para que o possamos saber, temos, primeiro, de saber o significado de ambos os conceitos.

Religião é religação a Deus, ao mundo ou a um ou vários aspectos do mundo.

Ética é ou o comportamento ou o estudo do comportamento ou a normatização do comportamento.

As religiões tendem a normatizar o comportamento. Mas será isso necessário para que ocorram religações? Penso que não.

É possível que alguém não se refugie nem em Buda, nem na Lei, nem na Comunidade, que consuma álcool ou outras drogas, que vá às putas, que mate, roube e viole e, ainda assim, após tudo isso, atinja a iluminação ou religação.

De resto, para quem goste de argumentos de autoridade, situações idênticas estão contempladas em Escrituras de religiões sobejamente conhecidas.

O que são experiências de iluminação?

A minha religião vive de experiências de iluminação. O que são experiências de iluminação? Não sei descrevê-las, mas posso mostrar-tas, tentar colocar-te nesse estado mental. As maiores experiências de iluminação que tive nesta parca e mimada vida foram, de facto, em idílios, contemplando a beleza e sublimidade deste mundo ou da arte.

Mas nada impede que se tenha uma experiência de iluminação, citando o comentador "Intempestivo", no seguinte ambiente: "E porque não viver a mesma experiência numa casa de banho cheia de merda, com o vizinho de cima a bater na mulher e o de baixo a dar pontapés aos filhos ? No fundo são tudo experiências em que a consciência se pode religar ao mundo (...)".

A iluminação surge de rompante, mas pode ou não ser preparada, como quando nos deslocamos a um local com o propósito de ver o fantástico pôr-do-Sol, ou como quando, simplesmente, nos iluminamos ao caminhar na rua fria por entre as folhas que esvoaçam e a nudez das árvores que nos acariciam com as suas garras.

Penso que é uma experiência indizível mas, no entanto, julgo que as palavras que mais se lhe adequam são "amor" ou "apaixonamento".

Não acredito em religiões ensinadas

Houve, em tempos, um mestre budista que disse algo do género de que estaria satisfeito quando cada ser humano tivesse criado a sua própria religião. Na verdade, podemos perguntar-nos se existem religiões universais, para lá do seu carácter aparente e formal, porque, penso, a religiosidade é vivida intimamente e, no íntimo, é impossível desprezar-se a unicidade de cada um e, portanto, qualquer relação religiosa que se estabeleça entre a pessoa e outra coisa (Deus, o mundo, um aspecto do mundo...), tem necessariamente aquela propriedade.

Acredito que cada um de nós tem, dentro de si, a sua própria visão do mundo, única; que nós próprios, muitas vezes, desconhecemo-la discursivamente, mas entendêmo-la e usamo-la, na acção e tomada de decisões, intuitivamente. Penso que a religiosidade está relacionada com essas cerca de seis biliões de visões do mundo, e que, por isso, há tantas religiosidades quanto seres conscientes, pelo menos humanos.

Não acredito em religiões ensinadas, porque não são espontâneas mas, antes, estranhas e exteriores ao suposto aprendiz, alheias à sua visão do mundo. É possível, no entanto, que existam religiões universalmente formais, mas cujo conteúdo é dado pelo praticante na sua prática, única. Aliás, atrever-me-ia a afirmar que um praticante não tem duas práticas iguais, porque, entretanto, já viveu.

A religião de cada um é indissociável da sua experiência de vida.

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

A última religião

Existe o célebro ditado que diz que nada se conquista sem esforço. E isto, supostamente, aplica-se a tudo. A religião que pretendo fundar, como outro qualquer o poderia fazer, é uma religião do não-esforço. Isto quer dizer que nada nesta religião se atinge com o esforço. Se falarmos em termos de iluminações, diríamos que, nesta religião puramente esteticamente contemplativa, a iluminação atinge-se sem esforço algum e de rompante. O que é esta iluminação? É algo que não pode ser dito por palavras, mas apenas sentido, por cada um que se ilumine. Poderemos dizer que, nesta religião, há esforço, por exemplo, na preparação do ambiente para o ritual, mas a preparação do ambiente pode não funcionar como caminho para a iluminação, porque, na verdade, não há caminho, mas apenas iluminação e obscuridade. Não é Budismo, porque não parte das quatro nobres verdades, nem aceita o óctuplo caminho. Tem, com este, em comum o facto de, nela, não importar a afirmação ou negação de divindades, ou mesmo qualquer afirmação ou negação. Não é nenhuma outra religião conhecida, teísta, porque, simplesmente, não fala disso, põe-no entre parênteses, porque o importante, nesta forma de religiosidade, é a religação com o que é consciencializado, e, por universalização, com o Universo. Não é, de todo, uma religião discursiva, como tenho vindo a dizer, mas estritamente contemplativa e na qual a iluminação surge de rompante, porquanto o belo aparece e dá lugar ao sublime, ou aparece este mesmo, por si. Deste modo, é uma religião sem rituais, mas em relação à qual poderíamos dizer que há uma vontade de iluminação, sabendo-se que, esta, surge da contemplação estética do belo ou do sublime. Em desacordo com a vasta maioria de religiões, não é uma religião de pendor ético ou eticizante, normativa, mas, simplesmente, estético. Aceita o ser humano como capaz do melhor e do pior, e a iluminação como estando ao alcance de qualquer um. Provavelmente, esta iluminação não é a iluminação budista ou hinduísta, que desconheço, mas uma iluminação muito característica, que não provém da oração nem da meditação, mas da pura concentração num fluir sensorial que aparece como belo ou sublime. Penso que será a última de todas as religiões, na medida em que propõe, simplesmente, uma prática pura de religação do ser consciente com o ambiente, no fundo o que é consciência (o céu, o mar, os prédios, as pedras, os outros... tudo o que possa ser consciência), o que é a essência da religião não alienante, no sentido em que não procura uma fuga ao que é conhecível - o mundo -, mas a integração ou reintegração do ser consciente no mundo.

Criemos uma nova religião

O que quer que venha, o amor que sentimos por seja o que for é a coisa mais importante do mundo. Não há nada para lá daquilo que sentimos, imaginamos, lembramos, sentimentalizamos... nada para lá daquilo que sabemos que há. O mundo, o mundo é como um grande sonho, chamemos-lhe de Vixnu ou de outro qualquer, os deuses são criações humanas. Mas se Deus existe? Sim, existe uma razão, por descobrir, para que tudo isto exista. Se formos suficientemente burros para a descobrir, que vivamos vidas de pura contemplação sensorial das belezas e sublimidades de um mundo que não é o adversário, como alguns querem fazer crer. Paz e amor para todos e, sobretudo, para a Ana Margarida Esteves, que não conheço pessoalmente, mas que tem escrito uns belos e emocionados posts neste espaço, que me fazem lembrar que o amor é, de facto e sem ser piegas, o mais importante que há neste mundo repleto de amor e sofrimento.

Criemos uma nova religião, todos juntos, a partir daqui, a religião do futuro e última, com o único e livre ritual da contemplação estética da magnificência de um Cosmos que se dá a cada momento, belo e sublime, para lá de todo o sofrimento. Sem meditação, sem oração, ou com meditação e oração, como quiserdes, à maneira de cada um, mas criemos a religião que é isso mesmo, a de cada um, vivida com pleno sentido por cada um, sem rituais estranhos e exteriores a cada um, e implementemo-la, cada vez mais, até que engula todas as outras, para que a Humanidade passe para o estádio seguinte de evolução, o da paz entre humanos e contemplação das belezas e sublimidades do Cosmos.

Paz e amor para todos.

P.S. Ana Margarida Esteves: não irias querer conhecer-me, porque a minha persona é estúpida e arrogante, ao contrário do que os meus escritos, que me vêm da alma, que não é minha mas de todos aqueles com que algures me cruzei, podem fazer crer. Paz.