O CAMINHO DA SERPENTE

"Reconhecer a verdade como verdade, e ao mesmo tempo como erro; viver os contrários, não os aceitando; sentir tudo de todas as maneiras, e não ser nada, no fim, senão o entendimento de tudo [...]".

"Ela atravessa todos os mistérios e não chega a conhecer nenhum, pois lhes conhece a ilusão e a lei. Assume formas com que, e em que, se nega, porque, como passa sem rasto recto, pode deixar o que foi, visto que verdadeiramente o não foi. Deixa a Cobra do Éden como pele largada, as formas que assume não são mais que peles que larga.
E quando, sem ter tido caminho, chega a Deus, ela, como não teve caminho, passa para além de Deus, pois chegou ali de fora"

- Fernando Pessoa, O Caminho da Serpente

Saúde, Irmãos ! É a Hora !


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quarta-feira, 23 de junho de 2010

-vida-




Queria, queria
Ter a singeleza
Das vidas sem alma
E a lúcida calma
Da matéria presa.

Queria, queria
Ser igual ao peixe
Que livre nas águas
Se mexe;

Ser igual em som,
Ser igual em graça
Ao pássaro leve,
Que esvoaça...

Tudo isso eu queria!
(Ser fraco é ser forte).
Queria viver
E depois morrer
Sem nunca aprender
A gostar da morte.

Pedro Homem de Mello, Estrela Morta

sábado, 27 de fevereiro de 2010

"O tempo é a substância de que sou feito"



(Jorge Luís Borges, 1951, por Grete Stern)

"O tempo é a substância de que sou feito. O tempo é um rio que me arrasta, mas eu sou o rio; é um tigre que me destroça, mas eu sou o tigre; é um fogo que me consome, mas eu sou o fogo"

- Jorge Luís Borges, "Nova Refutação do Tempo", Obras Completas, II, p.144.

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

"O diabo é idêntico à língua" ou o pensamento nómada de Vilém Flusser




"A língua materna forma todos os nossos pensamentos e fornece todos os nossos conceitos. É ela a responsável pela nossa cosmovisão e pelo valorizar que sobre ela fundamentamos. Em outras palavras: a língua materna é a fonte do nosso senso da realidade. Com efeito: amor pela língua materna é sinónimo do senso da realidade. Mas de que realidade se trata? De uma realidade relativa. A pluralidade das línguas o prova. Toda língua produz e ordena uma realidade diferente. Se abandonamos o terreno da nossa língua materna, se começamos a traduzir, o nosso senso da realidade começa a diluir-se. [...] O diabo é idêntico à língua. A língua é aquele tecido de maia que se estabelece como véu na superfície da intemporalidade. A realidade ou as realidades que a língua cria é justamente aquilo que temos chamado, até agora, de "mundo sensível". Passaremos, doravante, a chamá-lo de "mundo articulável". E rectificaremos, igualmente, a nossa definição operante do diabo. Temos dito que ele é o tempo. Agora podemos precisar melhor esse termo "tempo". "Tempo" é o aspecto discursivo da língua. E definiremos o diabo como "língua". O amor pela língua materna é a sublimação mais alta da luxúria, porque é a luxúria elevada até ao nível da realidade do diabo"

- Vilém Flusser, História do Diabo, São Paulo, Annablume, 2006, pp.91-92.

Realizar-se-á um Colóquio Internacional sobre Vilém Flusser, em 3 e 4 de Maio, na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, organizado por Paulo Borges e Dirk Hennrich. Flusser é um originalíssimo pensador checo que escreveu algumas das suas obras maiores em português do Brasil. O presente trecho está vertido em português de Portugal, não castrado pelo acordo ortográfico.

A nova revista ENTRE publicará um estimulante inédito deste pensador genial.

Publicado em:
arevistaentre.blogspot.com

sábado, 26 de dezembro de 2009

"Da Saudade como Via de Libertação"

Na saudade e pela saudade, se parte e se atinge duma e uma natureza transmutada, como surnatureza. Mas usando e passando através da natureza: do mundo e do homem. A ambas unindo-as. Por isso Teixeira de Pascoaes diz que a saudade é espírito e matéria.

É nessa surnatureza e com ela que o homem saudoso vive e conhece. Com ela, ele penetra nesse seio gerador e secreto da natureza, como Natura Naturans, o incriado e incondicionado. Por isso ele aí também tem acesso à sua própria imortalidade. Vê e goza a existência e o mundo para lá dos limites do efémero, do ir e vir irreversível no devir; vendo e vivendo tudo na eternidade.

Porque a eternidade é o gérmen do tempo. O tempo na sua realidade imaculada, primeira, forte, pura, de potência, guardada e guardando-se no seio da divindade, como Todo e Nada. O ponto de concentração, fortíssimo, energia ainda não gasta, aberta, espalhadamente na criação, como tempo. O tempo será a eternidade maculada, já depois de ter sofrido a Queda.

E a saudade será sempre a força de regresso ao paraíso, como o refazer inverso da Queda, levando o homem e a natureza, nas suas condições de criados, no tempo e no espaço, ou na sua dualidade, à sua vera realidade, ou estado primeiro, como antes da Queda - na sua unidade. Como subida na corrente do devir à sua fonte primeira, a eternidade.

Dalila L. Pereira da Costa, Saudade Unidade Perdida Unidade Reencontrada, in Dalila L. Pereira da Costa e Pinharanda Gomes, Introdução à Saudade, Porto, Lello e Irmão, 1976, pp.126-127

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Este é o tempo em que os homens renunciam

Este é o tempo
Da selva mais obscura

Até o ar azul se tornou grades
E a luz do sol se tornou impura

Esta é a noite
Densa dos chacais
Pesada de armargura
Este é o tempo em que os homens renunciam.

Sophia de Mello Andresen

terça-feira, 22 de setembro de 2009




"O tempo era bom? Não era
O tempo é, para sempre.
A hera da antiga era
roreja incansavelmente.

Aconteceu há mil anos?
Continua acontecendo.
Nos mais desbotados panos,
estou me lendo e relendo.

Tudo morto, na distância
que vai de alguém a si mesmo?
Vive tudo, mas sem ânsia
de estar amando e estar preso.

Pois tudo enfim se liberta
de ferros forjados no ar.
A alma sorri, já bem perto,
da raiz mesma do ser."

de Carlos Drummond de Andrade, "Duração" em as 'As Impurezas do Branco'

sábado, 19 de setembro de 2009

da janela de um quarto





"Abri a janela do meu quarto,

Era ainda manhã,

Em cima da mesa estava o coração!

Reparei na moldura,

Passei discreto,

Eram tempos de hesitação!



Que segredos guardam meus passos?

Que tristezas guiam meus conflitos?

Acabei por descobrir os meus laços,

Percorrendo sempre os meus gritos!



Corri para o canteiro do lugar

Recolhi um botão de formosura,

Que atento coloquei ao luar.



Era noite, cedo tarda a noite,

Porque cedo amanhece o dia!

Que fado é a saudade

Da mesa do meu quarto

Que a felicidade é ter-te à mesa,

Servir-te este caldo farto

Num prato de sobremesa...

Esta rosa florida em botão.

Este instante de ternura e poesia,

Que neste momento te entrego em mão."


Abri a janela do meu quarto, de Rogério Martins Simões

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

"Sequência é simultaneidade" - John Brockman

Fonte: Google Images


O Homem está morto. Ele é apenas um mundo de informação. Informação, neste contexto, significa regulação e controlo e nada tem a ver com significado, ideias ou dados." Se, quando ocorre uma alteração num sistema, ele for capaz de reagir de modo a manter a sua própria estabilidade, daí deduz-se que ele tem capacidade para receber informação" (1). Informação não é mais que uma abstracção. Como abstracção que é, ela permite novas observações e associações, para discernimento de padrões e organização. Note-se que a tónica está na reacção à mudança. A única preocupação aqui é com a reacção, com o efeito. A informação é apenas a medida desse efeito. E refere-se à forma como o centro de controlo do organismo, o cérebro, reage à mudança, em ordem a manter o sentido de continuidade.

O passado é ilusão. "O futuro não é" (2). É mesmo necessário deixar de falar do presente, o que implica outros aspectos da abstracção do tempo. Tempo, que não pode ser experimentado directamente. Tempo, que não existe no mundo neural. Considerações sobre a interpretação da ordenação da experiência do cérebro pertencem ao mundo do passado. O passado é ilusão. Não há sequência alguma. Não há causa específica. Há apenas a ordenação e o arranjo da experiência do cérebro num universo de operações simultâneas. O passado é ilusão. Sequência é simultaneidade.

John Brockman, in "By the Late John Brockman", Anchor Books, Peterborough, 1996, págs. 15 e 72.


(1) J. Z. Young, "Doubt and Certainty in Science", Oxford University Press, Londres, 1962, p.16.
(2) Sören Kierkegaard, citado in Loren Eiseley, “The Firmament of Time”, Atheneum Publishers, Nova Iorque, 1966, pág.117.

quarta-feira, 17 de junho de 2009

"Só a verdade nos mente..." (Suli-Andriéu Peyre)

Fonte: Google search engine



Transpus
(Ai franqui)

Transpus o cume da minha vida
e desço pela outra encosta,
mas sou ainda um aprendiz,
e a alma às vezes ainda sonha.

As minhas mãos nunca estarão cheias;
só a verdade nos mente;
toda a agitação do mundo
não sacode as mãos engelhadas.

Talvez ao fundo daquele vale
aonde desço sempre com a tarde,
conheça melhor a minha solidão.

Sentar-me-ei ainda uma hora
para ver a comparação
do eterno e dos dias quebrados.


Suli-Andriéu Peyre (1890-1961)

in "Antologia da Poesia Provençal Moderna",
selecção e tradução de Louis Bayle e Manuel de Seabra,
Editorial Futura, Lisboa, 1972, pág. 44

segunda-feira, 15 de junho de 2009

A doença do tempo: "Nunca nos detemos no tempo presente" (Pascal)

Foto: Trey Ratcliff, Templo de Angkor Wat, Cambodja


Nunca nos detemos no tempo presente. Antecipamos o futuro que nos tarda, como para lhe apressar o curso; ou evocamos o passado que nos foge, como para o deter: tão imprudentes, que andamos errando nos tempos que não são nossos, e não pensamos no único que nos pertence, e tão vãos, que pensamos naqueles que não são nada, e deixamos escapar sem reflexão o único que subsiste. É que o presente, em geral, fere-nos. Escondemo-lo à nossa vista porque nos aflige; e se nos é agradável, lamentamos vê-lo fugir. Tentamos segurá-lo pelo futuro, e pensamos em dispor as coisas que não estão na nossa mão, para um tempo a que não temos garantia alguma de chegar.

Examine cada um os seus pensamentos, e há-de encontrá-los todos ocupados no passado ou no futuro. Quase não pensamos no presente; e, se pensamos, é apenas para à luz dele dispormos o futuro. Nunca o presente é o nosso fim: o passado e o presente são meios, o fim é o futuro. Assim, nunca vivemos, mas esperamos viver; e, preparando-nos sempre para ser felizes, é inevitável que nunca o sejamos.

Blaise Pascal
Pensamentos Escolhidos
Tradução de Esther de Lemos
Editorial Verbo,Lisboa,1972
pág.45

sábado, 27 de dezembro de 2008

obrigada


Conhecer-se a si próprio é esquecer-se de si mesmo.
Esquecer-se de si mesmo é ser iluminado por tudo o que existe no mundo.


Dogen (monge budista japonês do séc. XIII)

sábado, 27 de setembro de 2008

O tempo cristal: eterno

Neste mundo actual, a mulher apenas se iguala perfeitamente ao homem ao ser diferente, repetindo-se o mesmo para os outros fenómenos, como por exemplo relativamente aos momentos, este preciso momento é sucedido por outro que a este se encadeie como igual, estando implicado que seja diferente. O caminhar da Terra até ao seu centro leva a que mesmo o diferente se apresente como igual...

A mulher igualar-se-á então ao homem? Não. Espelhará inteiramente o homem, tal como o seu inverso, e só assim a igualdade se pode dar na vida... pois o outro modo de igualdade implicaria sobreposição num só ser-corpo, e disso já Adão o soube quão aborrecido é... :)

terça-feira, 5 de agosto de 2008

Íris, Deusa do Arco-Íris











O tempo conduz a água da vida a unir-se numa só taça... só a água que não se perder no ar continuará a pertencer ao mundo visível.

terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

A mente é

A mente é espaço, vazio e não vazio, e tempo e eternidade.

O tão almejado Paraíso

A memória é de facto uma coisa espectacular. E também a imaginação. Tudo propriedades daquilo a que chamamos mente e que, porventura, mais não é do que certas capacidades, potenciais ou actuais. Não só a memória e a imaginação são espectaculares, mas também a percepção, na medida em que é através desta que construo, vivendo-os, os Paraísos que sinto - e aí entram também os sentimentos, estéticos ou outros -, que depois recordo ou revivo já imaginando, acrescentando-lhes o sentido que a vivência presente sempre acrescenta às vivências passadas. Neste sentido, a mente é também um meio, se não o meio, de alcançarmos o tão almejado Paraíso, desejado (mais uma capacidade mental...) por todos os seres humanos ou outros dotados de consciência.

Que assim seja

Tudo o que conhecemos é mental, porque é conhecido exclusivamente através da mente. Assim, a mente é mediadora entre o eu e o mundo. Mas o que é o eu? Para mim, podendo estar errado, o eu é o equivalente àquilo a que os antigos ou outros chamam alma que, assim entendida, existe. Mas talvez esteja errado; porque talvez o eu seja o conjunto das experiências que vivo e guardo na memória, sendo esta uma parte da mente, se esta sequer as tem. Ou talvez possamos escolher, e o eu seja aquela parte de nós, se sequer as temos, que acolhemos como nossa, com a qual mais nos identificamos... passada, presente ou imaginada. Acima de tudo, mais do que sabermos o que são o eu ou a mente, penso que temos a explêndida oportunidade, porquanto estamos vivos, e a vida tem esplendorosos esgares de luminosidade, de os vivermos, experimentando-os. Que assim seja, meus amigos.

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008

Antologia do Padre António Vieira - I - Teologia e Filosofia

“Deus é Senhor de tudo: mas de que modo ? De tal modo, que para si não quer nada, e tudo o de que é Senhor, é para nós. Antes de Deus criar o mundo, tinha alguma coisa fora de si ? Nada; porque não havia nada. E depois do mundo criado, teve mais alguma coisa de novo ? Para si o mesmo nada que antes; mas para nós e para o homem tudo […]” – Sermões, XIII, p.191.

“[falando do Juízo Final] […] em um momento se abrirão os processos, e ficarão manifestas e patentes as vidas de todos, sem haver obra, palavra, omissão, nem pensamento, por mais secreto e oculto, que ali não seja público; vendo todos as consciências de todos, todos a de cada um, e cada um a sua” – Sermão da Primeira Dominga do Advento [1652], Sermões, I, p.63.

“Todas as grandes mudanças de estados que se vêem e têm visto neste mundo, sempre vário e inconstante, não são outra coisa que um perpétuo jogo do supremo poder que o governa: Ludit in humanis Divina potentia rebus” – Sermões, XIII, p.252.

“Os pensamentos são os primogénitos da alma; sempre se parecem à origem donde nasceram: assim como ninguém é o que cuida de si, assim é certo que cada um é o que cuida dos outros. Há uns pensamentos que nascem pelo que entra pelos sentidos; e há outros que nascem do que se considera com o discurso: os que são filhos dos sentidos, parecem-se com os objectos, os que são filhos do discurso, parecem-se com o sujeito, cada um costuma discorrer como costuma obrar; e o que cuida o que os outros hão-de fazer, é o que ele fizera; as obras e as imaginações dos homens não têm mais diferença que serem umas por dentro, outras por fora; as obras são imaginações por fora, as imaginações são obras por dentro” – Sermão nas Exéquias do Sereníssimo Infante de Portugal Dom Duarte, Sermões, XV, p.214.

“Que mal filosofaram da dor e do amor, os que lhe deram por defensivo a ausência ! Quem armou o amor com arco e não com espada, quis dizer que na distância seria mais; o amor não é união de lugares, senão de corações; a dor na presença reparte-se entre os sentidos, na ausência recebe-se só na alma, e toda é alma; a dor na presença tem o assistir, tem o servir, tem o ver, tem a mesma presença por alívio; a dor na ausência toda é dor” - Sermão nas Exéquias do Sereníssimo Infante de Portugal Dom Duarte, Sermões, XV, p.262.

“Que pouco disse quem chamou ao amor tão forte como a morte: Fortis ut mors dilectio ! A morte sepulta os que matou, o amor sepulta sem matar, que é género de morrer mais forte, mais duro, mais triste” - Palavra de Deus Empenhada no Sermão das Exéquias da rainha D. Maria Francisca Isabel de Sabóia, Sermões, XV, p.329

“Pôs Deus a Adão no Paraíso com obrigação de que o cultivasse e guardasse: […] de quem havia de guardar Adão o Paraíso ? De quem o não guardou. Havia-o de guardar de si mesmo. E porque Adão o não guardou de Adão, sendo os bens que possuía todos os do mundo, ele mesmo, e só ele se despojou de todos, sem haver outro que lhe impedisse o lográ-los” – Sermão da Segunda Dominga da Quaresma, Sermões, III, p.69.

“Antes de haver meu e teu, havia amor, porque eu amava-vos a vós e vós a mim: mas tanto que o meu e teu se meteu de permeio, e se atravessou entre nós, logo se acabou o amor; porque vós já me não amais a mim, senão o meu, nem eu vos amo a vós, senão o vosso. No princípio do mundo, como gravemente pondera Séneca, porque não havia guerras ? Porque usavam os homens da terra como do céu. O sol, a lua, as estrelas e o uso da sua luz é comum a todos e assim era a terra no princípio: porém depois que a terá se dividiu em diferentes senhores, logo houve guerras e batalhas e se acabou a paz, porque houve meu e teu” – Sermão da Segunda Dominga da Quaresma, Sermões, III, p.70.

“Mais inventaram e fizeram os homens a este mesmo fim de conservar cada um o seu. Inventaram e firmaram leis, levantaram tribunais, constituíram magistrados, deram varas às chamadas justiças, com tanta multidão de ministros maiores e menores, e foi com efeito tão contrário, que em vez de desterrarem os ladrões, os meteram das portas a dentro, e em vez de os extinguirem, os multiplicaram: e os que furtavam com medo e com rebuço, furtam debaixo de provisões, e com imunidade. O solicitador com a diligência, o escrivão com a pena, a testemunha com o juramento, o advogado com a alegação, o julgador com a sentença, e até o beleguim com a chuça, todos foram ordenados para conservarem a cada um no seu, e todos por diferentes modos vivem do vosso” - Sermão da Segunda Dominga da Quaresma, Sermões, III, p.71.

“Porque assim como no Sacramento tanto recebe um, como todos, e tanto recebem todos, como cada um; assim na glória tanto logram todos, como cada um, e tanto cada um, como todos. Cá na terra, como há a divisão de meu a teu, cada um logra os seus bens, mas não participa os dos outros: porém no céu os próprios e os dos outros, tanto são comuns de todos, como particulares de cada um, porque lá não tem lugar esta divisão” - Sermão da Segunda Dominga da Quaresma, Sermões, III, p.76.

“O céu é uma república imensa, mas onde todos se amam: e está lá a caridade tanto no auge da sua perfeição, que todos, e cada um, amam tanto a qualquer outro, como a si mesmo” - Sermão da Segunda Dominga da Quaresma, Sermões, III, p.80.

“De sorte que a cidade da glória no pavimento, nas paredes, e no interior dos aposentos, toda é um espelho de oiro; porque todos perpetuamente se vêem a si mesmos, todos vêem a todos, e todos vêem tudo. Nada se esconde ali; porque lá não há vício, nada se encobre; porque tudo é para ver; nada se recata, ou dificulta; porque tudo agrada; e porque tudo é amor, tudo se comunica.
[…] esta é, senhores, a cidade da glória […]: e basta que fosse assim como se descreve, para ser merecedora das nossas saudades, e que fizéssemos mais do que fazemos, por ir viver nela” – Sermão da Segunda Dominga da Quaresma (1651), Sermões, III, pp.36-37.

“Grande é o ódio que os homens têm à idade em que nasceram. […] Tudo o moderno desprezam, só o antigo veneram e acreditam. Ora desenganem-se os idólatras do tempo passado, que também no presente pode haver homens tão grandes como os que já foram, e ainda maiores” – Sermão de São Pedro [1644], Sermões, VII, p.320.

“Considerai-me o mundo desde seus princípios e vê-lo-eis sempre, como nova figura no teatro, aparecendo e desaparecendo juntamente, porque sempre passando” – Sermão da Primeira Dominga do Advento, Sermões, I, p.104.

“A razão deste curso, ou precipício geral com que tudo passa, não é uma só, senão duas: uma contrária a toda a estabilidade e outra repugnante ao mesmo ser. E quais são ? O tempo, e antes do tempo, o nada. Que coisa mais veloz, mais fugitiva, e mais instável que o tempo ? Tão instável, que nenhum poder, nem ainda o divino, o pode parar. […]
E como o tempo não tem, nem pode ter consistência alguma, e todas as coisas desde seu princípio nasceram juntamente com o tempo, por isso nem ele, nem elas podem parar um momento, mas com perpétuo moto, e revolução insuperável passar, e ir passando sempre.
A segunda razão ainda é mais natural e mais forte: o nada. Todas as coisas se resolvem naturalmente, e vão buscar com todo o peso, e ímpeto da natureza o princípio donde nasceram. […] Assim todas as coisas deste mundo, por grandes e estáveis que pareçam, tirou-as Deus com o mesmo mundo do não ser ao ser; e como Deus as criou do nada, todas correm precipitadamente, e sem que ninguém lhes possa ter mão, ao mesmo nada de que foram criadas” - Sermão da Primeira Dominga do Advento, Sermões, I, p.113.

“Tu quis es ? Quanto ao espiritual, ninguém há no mundo que possa responder a esta pergunta. Cada um de nós espiritualmente é o que há-de ser; o que há-de ser cada um, ninguém o sabe; e assim não há ninguém que possa responder com certeza à pergunta: Tu quis es ?” - Sermão da Terceira Dominga do Advento, Sermões, I, p.200.

“Este mundo é um teatro, os homens as figuras que nele representam, e a história verdadeira de seus sucessos uma comédia de Deus, traçada e disposta maravilhosamente pelas idades de sua Providência” - Livro Anteprimeiro da História do Futuro, p.110.

“Mais gosto de ver em Roma as ruínas e desenganos do que foi, que a vaidade e variedade do que é, e com isto me parece o mundo muito estreito e a minha cela muito larga […]. Hoje começam as máscaras do Carnaval, em que eu digo as tiram, porque verdadeiramente mostram que não são por dentro o que parecem por fora”- Carta ao marquês de Gouveia [1671], Cartas, II, pp.316-317.