O CAMINHO DA SERPENTE

"Reconhecer a verdade como verdade, e ao mesmo tempo como erro; viver os contrários, não os aceitando; sentir tudo de todas as maneiras, e não ser nada, no fim, senão o entendimento de tudo [...]".

"Ela atravessa todos os mistérios e não chega a conhecer nenhum, pois lhes conhece a ilusão e a lei. Assume formas com que, e em que, se nega, porque, como passa sem rasto recto, pode deixar o que foi, visto que verdadeiramente o não foi. Deixa a Cobra do Éden como pele largada, as formas que assume não são mais que peles que larga.
E quando, sem ter tido caminho, chega a Deus, ela, como não teve caminho, passa para além de Deus, pois chegou ali de fora"

- Fernando Pessoa, O Caminho da Serpente

Saúde, Irmãos ! É a Hora !


sábado, 4 de dezembro de 2010

Visitante

Abriu a porta. Do lado de lá um sorriso deixava adivinhar boa gente.Abriu a janela para arejar a sala. Ofereceu a poltrona do avô. Pediu que se acomodasse enquanto ia à cozinha buscar chá quente do Himalaya. Aquelo rosto era familiar. Reconhecia em seu corpo, abrigo.


Todos as manhãs preparava um chá para quem pudesse aparecer no fim da tarde com frio. Anos a fio, bebeu o chá sozinha.


Sentada em frente à poltrona vazia, aquecia as mãos na chávena de chá. Olhava o vazio. Enrolada na manta, lembrava de nada. Não conheceu o dono da casa, seu avô. Inventou que a poltrona teria sido dele e respeitou essa propriedade sem nunca lá se sentar.


A despensa estava cheia de bolachas de canela e gengibre. Quando saía para as compras comprava sempre um pacote, não fosse a casa ficar cheia de gente e faltarem as bolachinhas na hora do chá. Abriu um pacote, esqueceu de verificar que a data de expiração já era de há cinco anos. Pouco importa a data agora. As bolachinhas velhas ainda estavam crocantes.


O tempo dita o limite da vida. É tão curto o tempo de agora. Já quase nascemos fora de prazo.


Da janela da cozinha sentiu a brisa fria do mar. As gaivotas anunciavam peixe morto na beira-mar. A noite estava próxima e corria o risco de passar a hora do chá.


Numa bandeja de prata colocou o bule herdado da casa, as chavenas brancas a lembrarem papel de arroz, um pratinho sem cor repleto de bolachinhas. Umas mais doces, outras picantes.


Ajoelhou-se delicadamente como se seu corpo tivesse perdido o peso. Serviu o chá. Ofereceu ao visitante uma bolacha fora de prazo.


Em frente, sentou-se. Abraçou com as mãos a sua chávena. Enrolou-se na manta velha da casa. Esperou.


Sorriu. Largou a vontade. Notou o cansaço. Sentou-se criança. Partiu.


Dizem que a morte aparece sem avisar.

11 comentários:

Utena disse...

Vim por curiosidade. Adorei o texto é magnifico parabens.

paladar da loucura disse...

Muito obrigada.

platero disse...

mais um escrito exemplar

beijinho
(onde pára vídeo com seus poemas?)

paladar da loucura disse...

apaguei o vídeo. senti-me ridícula.
Platero, vou lançar meu livro de poesia no próximo dia 18, em Lisboa. Conto contigo?
Beijo

MeTheOros disse...

Nas mãos inábeis, porém com o inominável respeito e silêncio que as palavras em mim sussurram, caiu-me desta prosa serena (mas talvez não...) o poema que aqui devolvo, ousadamente, à fonte autora:


"Abriu a porta do lado de lá
enquanto ia buscar o Hima
laya - aquele rosto corpo,
anos a fio vazio: de nada.

Não conheceu, inventou,
sem nunca lá se sentar.
Inventou que teria sido, e respeitou.
Estava cheia, sentada na chávena.

Quando saía, comprava sempre,
não fosse faltar gente.
Esqueceu verificar: pouco
importa a data, o tempo dita.

É tão curto o agora.
Fora de prazo, corria o risco.
Ajoelhou-se, como se corpo tivesse.
Ofereceu prazo. Em frente, sentou-se.

Abraçou a chávena, manta da casa.
Largou a vontade criança.
Partiu.
Dizem que aparece."


(Gratidão no paladar: da loucura!)

paladar da loucura disse...

só posso agradecer a sua generosidade! Obrigada, Oros.

platero disse...

não vou mesmo estar

preciso é de saber depois onde comprar.
ter apagado o vídeo foi uma atitude muito feia. Eu que já tanto o tinha recomendado. Nunca tinha ouvido coisa tão linda

beijo, sucesso pleno para dia 18

paladar da loucura disse...

Obrigada, Platero. Nesta semana darei notícias do livro. O vídeo - desculpa-me.

Fausta disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
paladar da loucura disse...

serás a convidada especial, Fausta.

Fausta disse...
Este comentário foi removido pelo autor.