O CAMINHO DA SERPENTE

"Reconhecer a verdade como verdade, e ao mesmo tempo como erro; viver os contrários, não os aceitando; sentir tudo de todas as maneiras, e não ser nada, no fim, senão o entendimento de tudo [...]".

"Ela atravessa todos os mistérios e não chega a conhecer nenhum, pois lhes conhece a ilusão e a lei. Assume formas com que, e em que, se nega, porque, como passa sem rasto recto, pode deixar o que foi, visto que verdadeiramente o não foi. Deixa a Cobra do Éden como pele largada, as formas que assume não são mais que peles que larga.
E quando, sem ter tido caminho, chega a Deus, ela, como não teve caminho, passa para além de Deus, pois chegou ali de fora"

- Fernando Pessoa, O Caminho da Serpente

Saúde, Irmãos ! É a Hora !


sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Nas “Montanhas do Coração”
Por Isabel Rosete

«”Levar a termo e dar à luz” – eis tudo. É preciso deixar cada impressão, cada gérmen de sentimento amadurecer em si, no obscuro, no inexprimível, no inconsciente – essas regiões fechadas ao entendimento.»

Movendo o nosso discurso pelas entranhas da obra poética e epistolar de Rainer Maria Rilke (1875-1926), pretendemos auscultar a mais íntima musicalidade que invade a escuta do Poeta Praga, cantor do canto da Terra, “em tempo de infortúnio”, na solidão do seu ser e do seu estar, em desassossego perpétuo.

Adoptou como Pátria a Poesia, o único lugar sagrado isento de fronteiras materiais, situado para além do tempo e do espaço fisicamente determinados, circunscrito apenas pelo Espírito Universal, que dialecticamente se move em todas as direcções. Com agilidade, voa o espírito do Poeta «para bem longe dos mórbidos miasmas:/ Tenta purificar-se no ar superior / E bebe, como um puro divino licor, / O branco fogo que enche os límpidos pedaços.»

Distancia-se dos Homens para encontrar a felicidade, a riqueza e a insondável grandeza da Natureza. Ama os animais e todas as coisas que a integram, como São Francisco, numa serenidade quase celestial. Acolhe-se nas sombrias noites das cidades modernas, tão densas quando a massa do Mundo. Refugia-se nas longas noites estreladas, contempladas do “Castelo de Duíno” ou da “Torre de Muzot”, que iluminam a sua alma solitária, dolorida pelo Amor, que não compreende.

Caminha, solitário, por este Mundo imenso, para que o barulho ensurdecedor das vozes humanas – sempre dispersas, sempre em “con-fusão” e rebelião por causas perdidas – não o impeçam de ouvir os “ex-traordinários” silêncios da Natureza, companheira de todas as horas, mãe, irmã e divina Mestra.

Só a solidão, o seu lar e ponto de apoio, lhe parece necessária. O seu crescimento é doloroso, como o das crianças. Triste, como a “ante-Primavera”. Caminhar, apenas consigo próprio, vaguear, durante algumas horas e não encontrar ninguém, eis ao estado existencial a que pretende chegar, acobertado pelo silêncio infinito do mundo interior, inaugurando “um novo começo, sinal, transformação”, tão-só através do “templo do ouvido” .

O Poeta manifesta, desde cedo, uma necessidade inata de transformação e de renovação, que o impelem, de modo imperativo, a vagar pelo Mundo, a abandonar a esposa, a família e os amigos. Escrever, compulsivamente, é o acordo que estabelece com a realidade, movido pela urgência de registar todos os pormenores sentidos, vistos ou escutados, para os transformar no testemunho vivo do seu peregrinar. Segue à parte das realidades sociais e humanas. Permanece só, na “solidão interior”, “por essência grande, pesada e difícil de suportar”, embora também fonte de crescimento, de aprendizagem e conhecimento.

Assim o reitera Rilke, convictamente, na sua condição de poeta errante e homem solitário: «o “homem de solidão” é ele próprio uma coisa submetida às profundas leis da vida. E quando um desses homens ergue o seu olhar, de madrugada ou ao cair da noite – essa hora cheia de realizações – e sente o que se está consumando, esse homem despoja-se de qualquer condição como se estivesse para morrer, se bem que só então entre na verdadeira vida.»

A todo o momento revela uma personalidade consciente e perseverante – apesar de frágil e inquieta, de uma hipersensibilidade indescritível – erguida sob a base da realização de um determinado efeito poético, presente em todos os temas sobre os quais reflecte: os Anjos, belos e terríveis ; a vida interior, na sua profundidade absoluta; as rosas, abertas, tão soltas e dispersas no seu desfolhar, inumeráveis flores, objectos inesgotáveis; a mudança, na «INSTÁVEL balança da vida / sempre a oscilar», «sempre em mutação” ; as fontes, bocas que doam e falam do uno puro e inextinguível, máscaras de mármore de onde jorra a água corrente; a vida e a morte, “opostos complementares”, umbilicalmente reunidos, enquanto partes integrantes do mesmo Todo, da Unidade primordial.

Rainer Maria Rilke é, ainda, um poeta da Morte, esse outro lado da vida que não vemos, que não está iluminado para nós; do silêncio, que «colocou para sempre o rosto humano / na balança das estrelas» e do qual espera “o magnifico presente de horas boas e belas” ; da angústia e da reclusão, estados perenes de criação que perpassam toda sua vida; do indizível, onde as palavras se esgotam e «a música sempre nova, vinda das pedras mais frementes, / constrói no espaço inútil a sua casa divina» ; das coisas visíveis e invisíveis, jamais dissimuladas em algum momento, porque pertencentes às grandes realidades da Vida, por si próprio desnudadas.

Porém, a Vida, na sua materialidade, não tem a mínima realidade. Só a vida interior é alvo das suas meditações. Só os fenómenos do subconsciente têm, efectivamente, um valor real. Só as ideias abstractas possuem, de facto, uma existência concreta.

Embora não se tenha vinculado a nenhuma escola ou tendência poético-literária, mesmo não tendo defendido, propriamente falando, nenhuma teoria ou sistema, Rilke conduz os seus leitores ao âmago das categorias estético-filosóficas do Modernismo. É, por excelência, um escritor modernista, apesar da sua poética se ter iniciado com composições de estilo impressionista, integradas na concepção decadentista, tão característica da sua época.

Envolto por esta ambiência, concebe as obras de arte como “seres vivos e secretos”, auras misteriosas do Ser cuja vida não tem terminus, contrariamente à nossa, que cessa em escassos momentos de efemeridade. Só os “bons poemas”, enquanto obras de arte assim consideradas – «uma obra de arte é boa quando nascida de uma necessidade», sendo apenas «a natureza da sua origem que a julga» – têm existência própria, autonomia ou independência determinada. Por isso, só os “bons poemas” são dignos de ultrapassar as fronteiras do perecimento, eternizando, mantendo vivo, o autor que os lavrou.

A obra de arte, em geral, e a Poesia, em particular, tornam-se um acto inexprimível racionalmente. Realizam-se, tão-só, numa região jamais atingida pela palavra: o Coração. A Poesia move-se nas franjas insondáveis do Mistério, sobre o qual não se tem qualquer espécie de controlo.

O Poeta, tal como todo o artista, é um ser privilegiado, porque escolhido pelo “Acaso” ou, quiçá, pelos “Espíritos”, que lhe incumbiram a missão de traduzir, em versos simples, a beleza do Universo. Ciente desta escolha, não pode demarcar-se de uma certa astúcia, nem dos domínios da Estética. Deve dissimular, previamente, os sinónimos, os arcaísmos ou os neologismos; preferir as palavras comuns às ex-traordinárias, para que possa garantir, em qualquer caso, o carácter de simplicidade da obra de arte. Só deste modo, a Arte poderá permanecer na memória do seu público, manter-se eternamente viva, mesmo depois da morte física do seu criador.

Urge interpretar as palavras de uma forma que extravase a hermenêutica tradicional, imergi-las numa outra ordem conceptual, próxima do “topos” da Criação. Urge libertar os espíritos das explanações pré-estabelecidas, lutar contra a linguagem convencionada, castradora da escrita originária, da criação aberta, do olhar microscópico, capaz de atravessar o opaco véu que oculta a realidade. Urge, por último, manter-se bem longe das palavras da crítica, apenas conducentes a mal-entendidos, e assim tornar claramente manifesto o Pensar, em vez do significar.

A sua orientação poética é delimitada pelo uso de imagens minuciosamente escolhidas, por um estilo espiritual único, irrepetível, que vai nascendo à medida que este delicado escultor das palavras procura os meios mais adequados para desenvolver a sua arte, os apetrechos mais apropriados para esculpir cada um dos seus versos.

Rilke acredita, quando da escrita se trata, na importância do trabalho quotidiano, na observação dos acontecimentos mais triviais , comuns a todos os seres humanos. Defende a escrita simples, translúcida e autêntica, que o ordinário possa fazer despoletar. Assim o declara, em tom de conselho, nas «Cartas a um Jovem Poeta»: «Fuja dos grandes assuntos em favor daqueles que o seu quotidiano lhe oferece. (...) Diga tudo isto com uma sinceridade íntima, calma e humilde. Utilize para se exprimir as coisas que o rodeiam, as imagens dos seus sonhos, os objectos das suas recordações. Se o quotidiano lhe parece pobre, não o acuse: acuse-se a si próprio de não ser bastante poeta para conseguir apropriar-se das suas riquezas. Para o criador nada é pobre, não há sítios pobres, indiferentes.»

Como esta explicação não lhe parece suficientemente satisfatória para a aprendizagem do “jovem poeta”, Franz Xaver Kappus , Rilke prossegue essa sua missão de conselheiro do Poema, de guia das palavras, pelas quais se exprime a intimidade do Sentir: «Só há um caminho», afirma peremptoriamente: «entre em si próprio e procure a necessidade que o faz escrever. Veja se esta necessidade tem raízes no mais profundo do seu coração. Confesse-se a fundo:”Morreria se não me fosse possível escrever?”. Isto, sobretudo: na hora mais silenciosa da noite, faça a si mesmo esta pergunta:”Sou realmente obrigado a escrever?”»

Se a experiência de Paris (1904 -1910) , amplamente reflectida nos «Cadernos de Malte Laurids Brigge» (1910) , assinala o início de uma nova etapa, aquela em que se incorporam ao mundo interior do Poeta sensações de terror, perante a inautenticidade da Vida e da Morte, e de estranheza, face ao Mundo, à beira do seu colapso total, em «As Elegias de Duíno» (1922-23) – escritas pela mesma altura de «Os Sonetos a Orfeu», o "seu canto de cisne", obra em que dá continuidade, num tom elegíaco-hínico, à herança de Hölderlin, – questionam-se as possibilidades de vivência do homem sem Deus, ao mesmo tempo que se vislumbra, na criação poética, o caminho da salvação.

Rainer Maria Rilke determina com a sua arte a nossa mundivisão, a nossa realidade e existencialidade epocal, no seio da efervescência de uma Europa culta onde se respira a atmosfera do “Expressionismo" alemão e do “Futurismo” italiano. Porém, em descrições expressionistas – tão características do estilo literário adoptado nos «Cadernos» – mergulha no silêncio, aprende a ver, e em si tudo penetra profundamente, apesar do devir, da constante metamorfose enteológica: «Mude embora o mundo / como as nuvens depressa, / a perfeição regressa / a um antes mais profundo.» Apercebe-se, então, de um estado interior jamais conhecido, a partir do qual tudo acontece e de onde tudo surgirá.

Pretende, apenas, ser um "poeta feliz de coração altivo”. Estar para além dos que inspiram piedade ou repugnância, mormente quando se sente esmagado pelos ruídos estridentes das vozes ensurdecedores, que pela cidade ecoam.

Só, irremediavelmente só, permanece o Poeta no colo incógnito das multidões avassaladoras da grande cidade, sem rosto próprio: «estava pesado de suor, e rodopiava dentro de mim uma dor estonteante, como se alguma coisa muito grande me circulasse no sangue, alguma coisa que me fizesse inchar as veias ao passar. E sentia ao mesmo tempo que o ar tinha acabado há muito e que eu apenas respirava exalações que os meus pulmões já não queriam.»

Sufoca, com a velocidade alucinogénia. Indigna-se, com o anonimato das gentes extraviadas. Recusa, a anulação do indivíduo imposto pelas massas indiferenciadas, mensageiras da podridão do Futuro, portadoras dos cheiros nauseabundos, responsáveis pela crueldade desenfreada. A Estrela dos seus olhos, não brilha mais. O Sol da sua natureza, esmorece, por entre as nuvens carregadas de um cinzento profundo. Resta-lhe, tão-só, guardar num lugar incógnito «a forma e a essência divina dos seus amores decompostos»

Sente, por isso, a imperiosa necessidade de tornar apreensível a Vida que, progressivamente, se vai recolhendo ao Invisível. Fá-lo, recorrendo a fenómenos e a imagens da sua infância – essa «preciosa e magnífica riqueza, esse tesouro de recordações» –, do seu ambiente parisiense ou das múltiplas leituras a que se dedicou, predominantemente orientadas pelo espírito de Baudelaire, autor das «Flores do Mal», o “poeta maldito”, talvez. Não obstante, lucidamente consciente de que «por entre os nossos vícios, galeria abjecta, / Existe um bem mais feio, mais cruel, imundo! / Que, mesmo recusando gestos ou clamores, / Facilmente faria da terra um destroço / E num simples bocejo engoliria o mundo; / é o tédio – Com o olhar chorando sem razão, / Vai fumando o cachimbo e sonha cadafalsos. / Conheces bem, leitor, tal monstro delicado, / – Hipócrita leitor, – meu igual, – meu irmão!»

Rainer Maria Rilke vive o período histórico das grandes inovações tecnológicas, do surgimento da electricidade, do cinema e do automóvel; do aparecimento e utilização desmedida das máquinas, triunfantes em todos os domínios onde toca a já insensível mão humana, “des-naturalizadoras” da Natureza e do Homem: «A máquina ameaça o alçado enquanto / ser no espírito e não no obedecer lhe apraz. / Não brilhe em mãos esplêndida um hesitante enquanto, / talha ela firme o edifício audaz. / Nunca se atrasa, pra lhe escaparmos uma vez / e ser dona de si, oleada, na fábrica em sossego. / é a vida, e ela acha ser quem melhor sabe e fez, / e ordena, cria e destrói com o mesmo apego.»

A actividade criadora do poeta não é, obviamente, independente desta nova reestruturação da História. Muito pelo contrário. Rilke interioriza a mundividência do seu (nosso) tempo, no lugar mais recôndito do seu coração. Revela-a, sem eufemismos. Muda a orientação da sua escuta, de regresso ao não maculado. Insurge-se contra a ambivalência do rumo seguido pelas revoluções técnico-científicas, em prol da defesa arrojada do não devassamento da Natureza e do Homem.

A mecanização e a Guerra atrofiam os ideais estetizantes dos autores modernistas. Ameaçados pelo desencanto e pelo tédio, inclinam-se para um misticismo exaltado, para a mostração desse sentimento de niilismo, de absurdo, de ausência de sentido da Existência, que o Poeta das «Elegias» tão bem conhece.

Contrariamente à posição proferida por Marinetti, no seu «Manifesto da Literatura Futurista», as máquinas não são, para Rilke, a expressão máxima da actividade artística, nem a “Revolução Industrial” a manifestação primorosa da realidade então vivenciada. Esta postura leva-o a rejeitar a tese que faz da Razão a grande salvadora e o único meio possível de redenção de todos os males. No seu lugar, coloca o coração, cuja linguagem e sentido são capazes de transmitir as mais fabulosas e ex-traordinárias experiências da Humanidade. Os cânones retóricos que definham a linguagem são, de igual modo, rejeitados. A linguagem natural, a do Poeta, que contém em si o poder evocador do som das palavras originais, é a única que importa.

Mais do que aos sentimentos, Rilke dirige-se aos sentidos, em detrimento do racionalismo exacerbado e inconsequente dos “Tempos Modernos” . Deseja obter, unicamente, o refinamento estético, o exotismo, o prazer da palavra e dos sons dela nascidos. Apenas com «palavras e gestos temos arte / de ir captando ao mundo» o que ele nos esconde, na sua pobreza ou na sua miséria, na sua sublimidade ou na sua vileza ou, simplesmente, na sua parte “mais fraca e perigosa” .

A sua missão, enquanto Poeta, é “celebrar” – «Celebrar, isso mesmo! Ser destinado a celebrar,» – os sons virgens da Natureza, da Terra, e de todos os seus elementos, naturalmente integrados no círculo órfico. Por si próprios falam da Vida e da Morte, na sua perfeita unidade, na sua comunhão absoluta: os frutos , as flores , as rosas (pelo poeta eleitas, entre todas as espécies florícolas), os bichos, as árvores, os pássaros .

Rilke aceita esta missão como uma dádiva divina, como um mandado, mesmo quando percorre por «caminhos que não conduzem a parte alguma, / algures, entre dois prados; / que diríamos que, com arte, / foram desviados da rosa-dos-ventos, / caminhos que, muitas vezes, não/ têm à sua frente nada mais / que não seja o tempo em que se está, / e o puro espaço existente.»

“Erguido como uma dádiva”, sobre as “montanhas do coração”, “prás mãos abertas“ se liberta este Poeta europeu de dimensão universal. Escuta a Terra “completa e bela, quente como o pão». Observa as “rosáceas de luz” com um “excesso de claridade” que, ofuscadamente, domina os trilhos dos caminhos da vida, nem sempre conscientemente determinados . Move o seu olhar pelas paisagens desertas, ainda não maculadas pelo poder devastador das máquinas. Por último, num derradeiro grito de salvação do originário, canta, de novo, reiteradamente, a «terra silente onde nem os profetas falam, / terra que prepara o seu vinho; / onde as colheitas cheiram ainda a génesis, / não temendo que se desfaça. / Terra por de mais altiva para aspirar ao que transforma, / que, obedecendo ao estio, / à imagem do olmo e da nogueira, parece / feliz com o que não muda. / Terra em que só quase as águas trazem novas, / infiltrando, por entre a aspereza das tuas consoantes / e claridade das vogais que lhe pertencem.»

Neste contexto nasce a simbiose da escrita rilkeana com a pintura de Cézanne e de Böcklin, o diálogo estabelecido pela sua Poesia com outras linguagens artísticas, a combinação ecléctica de linguagens e de símbolos, importadas de outras formas da Arte se dar. Em «Os Sonetos a Orfeu», para citar apenas um exemplo desta aliança, a linguagem da Música e da Poesia relacionam-se intimamente. Dão-se numa plena fusão semântica, quer enquanto modos complementares de um mesmo Dizer, quer como formas de inteligibilidade do mundo interior, onde eleva, numa fala indizível, o Amor, terrivelmente despedaçado pelo Destino, implacável, que conduz todas as coisas ao seu próprio fim, independentemente das escolhas humanas.

Tal como Nietzsche, Rilke traz-nos a melancolia de uma alma estilhaçada. Tão estilhaçada quanto um espelho, partido em mil pedaços, pela dor do Amor. A metáfora do espelho evoca Narciso, na reflexologia do seu Ego. Denota a terrível incógnita do ser e do parecer ser, do oculto e do des-velado, da fidelidade ou infidelidade dos contornos da figura nele representados. Os espelhos guardam, no seu vão, todos os reflexos. Da sua essência nada sabemos. Nunca ninguém poderá explicá-los. «Como os furos do crivo”, são “a ausência do tempo a preencher cada intervalo». Porém, «a mais bela de todas as figuras / ficará lá no fundo, até nas faces carregadas/romper claro o narciso em sua nitidez.»

Depois, vêm as Rosas. Sempre as Rosas! Símbolos deste sentimento na duplicidade da sua significação: por um lado, a veludez e a suavidade das pétalas; por outro, a agressividade e a violência dos seus espinhos. À semelhança do Amor, um dia, também desfloram. No chão ressequido, caiem as suas pétalas, quando já murchas e encarquilhadas. Tornam-se pó. Juntam-se à Terra, tal como o Amor desfeito, em lágrimas de amargura, que o coração jamais pode suportar.

Enquanto viajante eternamente solitário pelas mais diversas paragens do Mundo, por onde ainda paira o seu espírito infinitamente sensível e perscrutador, Rilke procura outras culturas e, sobretudo, um outro sentido para a Existência, posto em causa pelos massacres da Guerra. Vive intensamente cada momento do seu estar-aí, como se fosse o último, consumido pelos caminhos da Vida adversa à plena realização dos seres puros. Em cada lugar, procura um outro sentido que legitime o simples facto de ele próprio existir, apátrida, como cidadão do Mundo.

Rainer Maria Rilke é o atleta dos sentidos. Do ver e, sobretudo, do escutar. É o gladiador do silêncio. Desse trágico e imenso silêncio do Mundo, anunciador de um outro começo, sinal de renovação. O seu corpo não dobra perante um instrumento ou uma imagem. Apenas diante do Destino, quando impelido a sentir o silêncio universal, sempre que extravasa o ruído incómodo das coisas mais mesquinhas.

Permanece, errante, para além da musicalidade das palavras sentidas e intimamente vividas, antes da escrita. O esplendor do canto de cada vogal ou de cada consoante diz, nomeia, traz à luz a realidade na sua existência própria, de uma forma tão sublime e radiosa, que nos transporta para a sua interioridade. Afinal, “cantar é existir”. “Cantar é na verdade um outro alento” . Assim se determina a dimensão ontológica do canto, o poder de dar ser pela palavra poética, tão criadora quanto Verbo de Deus.

É pelo canto inaugural das palavras de origem que Rilke nos mostra, envolto na nascente musical de «Os Sonetos a Orfeu», essa outra possibilidade de dizer o Mundo, O Amor, os Homens, os Anjos, a Natureza e a Terra, de onde tudo brota como se de um fundo inesgotável se tratasse. A Terra tudo doa, sem nada pedir em troca. Quando «a Primavera regressa» em «tudo a terra é uma criança». Está aí, tão presente quanto ausente. Por todos os lugares se espalha os seus membros, sempre disponíveis para nós. Livre, feliz, alegre, no seu jogo puro com os infantes, abre o espaço da Existência para que todas as coisas se perpetuem no círculo órfico.

Estupefacto e vigilante, o Poeta sente que o seu mistério é criar. Vê a Natureza com os olhos dotados da mais pura clarividência. Escuta o seu pulsar, no “templo do ouvido”, nunca deixando escapar o seu apelo. Do peito arranca o seu “rubro coração”. À Natureza o doa. «Para o céu, onde um esplêndido trono vislumbra, / O sereno poeta, ergue os braços piedosos, / E os amplos clarões do seu espírito lúcido / ocultam-lhe o aspecto dos povos furiosos.»

Torna-se "um homem para quem o mundo exterior é uma realidade interior". Sente-o, não metafisicamente, mas com os sentidos usuais com os quais conhecemos a realidade, num esforço constante para tornar a vida real, absolutamente irreal na sua realidade directa.

Faz da sua Poesia uma arte casada com o Pensamento, um meio de realização, sem mácula, da Realidade. Impregna-a da catártica música de Orfeu, capaz de tudo mover e comover, porque magicamente encanta, não obstante a constância do sofrimento. Para esta meta deveria tender todo o esforço verdadeiramente humano – amiúde perpassado pela superfluidade animal, indiferente e sem a preocupação de exprimir o Mundo – para que a Realidade se torne mais viva e mais intensa.

Como esclarece Fernando Pessoa, pela mão de Bernardo Soares – contemporâneo de Rilke, tão social e tão intimamente Poeta – «os campos são mais verdes no dizer-se do que o seu verdor. As flores se forem descritas com frases que as definam no ar da imaginação, terão cores de uma permanência que a vida celular não permite. Mover-se é viver, dizer-se é sobreviver. Não há nada de real na vida que o não seja porque se descreveu bem. (…) Temos pois de conservar (tudo) em uma memória florida e prolixa, e assim constelar de novas flores ou de novos astros os campos ou os céus da exterioridade vazia e passageira.» .

A metáfora do canto da Terra é correlativa da metáfora da audição. Tal como o canto, o ouvir também pressupõe criação, o fazer brotar originariamente, o trazer à luz na clarividência de um dia radioso, o âmago dos entes que nos olham, e apelam para que os preservemos das armadilhas da tecnologia moderna, aniquiladora da pureza das coisas virgens, responsável pela desvirtuação progressiva da integridade originária do seu canto. Num ritmo cronologicamente atroz, desordena o natural curso da Vida, o seu desenvolvimento, construção e crescimento.

Não obstante a existência, quiçá inevitável, do vertiginoso mundo da ciência e tecnologia modernas, no mais profundo dos abismos, confessa o Poeta, «para nós existir tem ainda encanto; ainda em cem / lugares é origem. Jogo de forças puras e patentes, / não as toca quem não admira e de joelhos não se inclina» .

Orfeu – revisitado e consagrado por Rilke, precisamente em «Os Sonetos a Orfeu» – surge, neste contexto, como aquele que é capaz de “celebrar”, o Amor e a Terra, pela magia do canto. Encarna, por excelência, a missão inaugural do Poeta: penetrar nas “montanhas do coração”, exaltando o poder dos sentidos e do sentir; tornar audíveis os sons primordiais, abafados pelos insuportáveis ruídos das máquinas; fazer escutar os ouvidos desatentos das criaturas dispersas, desnorteadas no anonimato do colectivo, onde perderam, para sempre, a sua individualidade. É do "semi-deus" essa magistral e rara qualidade.

Sendo dos "dois reinos", o da Vida e o da Morte, Orfeu está ciente de que o círculo do Ser se completa com a Morte, que a si tudo chama da forma mais arrebatadora. O deus da lira dourada de Apolo, qual arauto da Música, do Canto e da Poesia, tudo atravessa intima e profundamente, através das “orelhas da Terra”, até atingir o âmago do Ser.

Dotado dessa singular experiência ontológica que é escutar, des-vela o "ante-cantar" como essencialmente Uno. Só o silêncio dos mortos, no terrível reino de Hades onde a vida terrena acaba, pode ser seu par. A Humanidade, afastada do circuito órfico, não possui mais o entendimento desta cumplicidade, da circularidade do "vasto círculo", da imensa esfericidade do Mundo, onde tudo se recolhe. De ouvidos surdos, torna-se incapaz de cantar o canto da Terra, de escutar o seu grito de alerta, os seus apelos constantes, sempre que o perigo se aproxima.

Orfeu, o trácio, em virtude da sua pureza sexual, das suas faculdades musicais e do seu dom de profecia – mesmo após a morte – é o patrono dos ritos e das formas rituais da Vida. Tem o dom da catarsis, da purificação, do poder salvífico da música e da palavra. Vive a circularidade da existência, ciente da reencarnação das almas e da sua sobrevivência eterna, desde que conservadas de uma forma absolutamente pura.

Orfeu é o Profeta. O redentor pela Arte, a única via possibilitadora da remição do humano. Esta ideia perpassa a concepção artística rilkeana, expressa por esta mítica e lendária figura. Feita de concentração, de disciplina interior e de isolamento, a Arte é acompanhada por uma forma peculiar de ver e de escutar: aquela que é própria dos seres sensíveis, os Poetas.

O homem não é só visão, mas também, e quiçá principalmente, escuta, audição. Por isso, a Arte, produto exclusivo do obrar humano não é, para Rainer Maria Rilke, nem mimésis, nem uma mera escolha selectiva de alguns aspectos do Mundo. Mas, por essência, a forma integral da sua plena transformação. Sobre esta base vão surgindo, progressivamente, os elementos centrais da cosmogonia rilkeana: o espaço interior do Mundo, em tudo idêntico à experiência dos pássaros; o “Aberto”, lugar angélico; a voz que na paisagem cicia o sentido; o desejável equilíbrio perfeito entre esta, eterna, e o efémero corpo humano.

O Homem é a consciência da paisagem. A sua boca, por ela fala. Os seus ouvidos escutam, no silêncio do chão sagrado, os sons primeiros, estranhos à civilização industrial dos estridentes ruídos, da poluição sonora, que fere os delicados tímpanos do Poeta. O seu nariz respira os salutares aromas da Terra ainda casta, algures, embora cada vez mais ameaçada pelos insuportáveis odores das máquinas. Perante nada se comovem ou retraiem, esses motores inconscientes do progresso. Assim se mostra a arte deste Poeta modernista, abalado pela monstruosidade da Guerra, desencantado com o mundo ingrato, ferido por uma humanidade não mais sensível a essa inquietante estranheza inicial, ao momento intemporal da criação pura.

Rilke, um escritor da transição do século. Sem dúvida. Preciso e visual, continuamente movido por uma escuta atenta, pela constante intersecção dos sentidos depostos sobre as “montanhas do coração”, caminha rumo à antropomorfização da Natureza que assume, em toda a sua obra, um nível de reacções genuinamente humanas, de suave tonalidade onírica, embora sem o recurso a diligencias fantásticas ou deslumbrantes: «Vejo, desde algum tempo / como tudo se modifica. / Algo se ergue e replica / e mata e traz o sofrimento. / Deitamo-nos sem cessar entre / as flores, frente ao céu. / Exposto sobre as montanhas do / coração. Olha como aí é mínima, / olha: essa última estação das / palavras, e, mais alto, também mínimo, / ainda um último reduto do sentir. / Consegues vê-lo?»

Os seres vivos, enquanto elementos da Natureza, participam do seu inesgotável encantamento. «Stimmung», o ambiente na sua nudez essencial, é o efeito que cada um dos seus poemas faz despoletar, de uma forma naturalmente sublime. A metamorfose da Natureza agita o seu canto por intermédio de uma espécie de contemplação objectiva e serena, mesmo quando nos deparamos com a preocupação do Poeta pela sua salvaguarda imperativa.

Para além dos efeitos aliterantes e onomatopaicos, sentimos na sua escrita o encanto do jogo vocálico, típico dos simbolistas franceses. A ausência de preciosismos formais não tem lugar na sua obra. E a poetização de cada assunto vive da força das imagens fecundadas, tão-somente, pela flexibilidade de um ritmo normalmente livre.

Rilke procede, com uma certa frequência, à poetização do real: em vez da exposição lírica dos sentimentos, elege a poesia dos objectos em si mesmo considerados, visualizando-os a partir de um ângulo mais pessoal e descritivo. Com novos gestos linguísticos, impregnados de uma plasticidade quase indescritível, descreve-os até que a sua imagem se complete, até que a sua força anímica se manifeste.

A instilação visual do Poeta, tanto quanto a auditiva, desnuda a intimidade invisível das coisas. Sempre que as descreve, revela-as na sua autenticidade iluminatória, jamais captada pelo olhar do comum dos mortais, bicéfalos. No entanto, essa descrição não é, propriamente falando, objectiva, isto é, não parte da observação do Eu para o objecto, mas da auscultação do seu interior para e sobre o mundo.

Assim o esclarece Rilke, nas «Cartas a um Jovem Poeta»: «meu caro senhor, apenas me é possível dar-lhe este conselho: mergulhe em si próprio e sonde as profundidades onde a sua vida brota; na sua fonte encontrará a resposta à pergunta “Devo criar?” Aceite essa resposta, tal como lhe é dada, sem tentar interpretá-la. Talvez chegue à conclusão de que a arte o chama. Nesse caso, aceite o seu destino e tome-o, com o seu peso e a sua grandeza, sem jamais exigir uma recompensa que possa vir do exterior. Porque o criador deve ser todo um universo para si próprio, tudo encontrar em si próprio e na Natureza à qual toda a sua vida é devotada.»

A ânsia do “Belo” e do “Aberto” realizam-se numa ambiência decadente, acentuada de uma forma particularmente estimulante, em virtude do uso reiterado da conotação negativa dos adjectivos. O desejo do místico brota como uma «busca incessante de Deus». A encenação mitológica é, apenas, um mero pretexto convencional. E a mitificação do Amor, dá-se por uma via mais objectiva, tanto quanto a reflexão sobre a Morte.

As frequentes considerações sobre a inevitabilidade da Morte, ausentes do sombrio fatalismo da mística cristã, são uma constante em Rilke. Na riqueza espiritual do Homem, na grandeza que o Mundo oferece, a Morte é um facto tão lógico como a própria vida. Requerer uma relação individual à margem de qualquer espécie de massificação. Na sua tradução poética, naturalmente vital e recorrente, ergue-se uma estrutura concêntrica em derredor do símbolo do fruto que amadurece e cai. Assim é a Morte no seio da Vida, que o seu círculo perfeito completa.

A unidade da Vida e da Morte é, claramente exposta, em os «Sonetos a Orfeu», onde vemos ressurgir o “topos” clássico da natureza divina do Poeta. Ao conquistar a glória terrena, opera o milagre da imortalidade na sua relação com o divino, sem nunca quebrar os estreitos laços que mantém com a Natureza.

Independentemente do dito e do não dito neste ensaio cabe-nos, ainda, perguntar: como olhar, hoje, – nestes “tempos de infortúnio”, do vazio das palavras e do descrédito da salvação – para a poesia de Rainer Maria Rilke, erguida sobre as “montanhas do coração? Como perspectivar a obra de um homem que pretere a razão, qual ”monstro sagrado” da civilização moderna, em prol do coração, da primazia dos sentidos holisticamente conjugados? Como escutar esta escrita demasiadamente humana?

As palavras quase que se esgotam. A nossa linguagem talvez nada mais possa acrescentar ao Dizer do Poeta. Porém, aquém e além de todo o sofrimento, da desilusão ou do sentimento de uma certa impotência do pensamento e da acção para transformarem a realidade, a esperança ainda permanece no dolorido canto do Poeta, o grande “guerreiro solitário do poema”. A todo o momento pede socorro, confessando não aguentar mais o terrível peso do Mundo, revelando não saber exactamente quais os seus reais intentos, porque trespassado por um incómodo tremendo, em estado de permanente sobressalto.

A sua poesia incomoda. As suas cartas, também, sobretudo quando levantam a possibilidade da existência de uma outra forma de amar, inaudível, inexplicável, enredada nas franjas indeterminadas de uma qualquer escala cromática. Talvez não exista mais um corpo apropriado para um Amor assim, devastador, fulminante, completamente íntimo e arrebatador. No entanto, o corpo do Poeta mantém-se aí – e este “aí” é o desolador Mundo dos Homens –, atirado para as margens intermináveis da Solidão.

O Amor amarrota o corpo. Mesmo o corpo inspirado. Esmaga a alma. E, provavelmente, "Eros não pode ser belo". A expressão é, seguramente, local. A impossibilidade já vem dos gregos, amiúde revisitados por Rilke, na sua profícua mitologia, no seu puro modo de ser e de pensar poetante. Um pensar genuíno, cujas "belas arcadas construídas pelo espírito", assentam em precárias bases, em inconsistentes alicerces de madeira. Sobre elas habita o Poeta, eternamente enamorado, mensageiro de um peculiar sentimento de humanidade, que passa ao lado dos homens.

Em vão, tentou aguentar tão estranho e comum sentimento. No seio da sua amargura, foi salvo pelo Anjo, sublime criatura, reflectora de um certo grau de angústia, de uma extraordinária capacidade de captar "ultra-radiações" de infelicidade.

Envolto neste dilema existencial irreversível – em tudo coincidente com o conflito interno da sua própria escrita – só lhe restam dois caminhos, fatalmente paralelos: ou leva a sua Poesia até ao fim, ou reentra na sociedade comum dos Homens, reduzindo-se, tão-só, ao estatuto de um “Bom Poeta”.

Rilke, Orfeu. Ou, se preferirmos, Orfeu e Rilke. Assim sejam: Poetas cantores do Amor, do humano, do demasiado humano. Poetas perseguidos pela ideia de que ainda há lugar, neste Mundo incrível, para um outro modo do humano se dar, no seu fazer-se de Homem.

O Mundo? Que diremos dele? O Mundo urbano está cheio de Nada. A inspiração é volátil. O “Aberto”, doloroso e imprevisível, assoma nos momentos mais inesperados. A Solidão, é temida. A Guerra, abominável. Haverá um outro modo de estar disponível para o Poema? Uma outra forma de re-criar poeticamente o Mundo?

A resposta a estas questões, a simples, mas profunda meditação sobre o seu essencial intento, talvez nos permita correr o risco de procedermos a uma hermenêutica ainda mais depurada da Poesia rilkeana.

Cada poema de Rilke – seja qual for a temática a que se subordine ou a estilística que o incorpora – não é senão uma forma completa, perfeita, e até mesmo rigorosa, em todos os seus detalhes. É o resultado da fusão, sem mistura, que se opera genuinamente no interior da Linguagem. O elemento frásico, o ritmo, a musicalidade das palavras, meticulosamente escolhidas, estão tão próximos quanto possível do que é sentido. E o que é sentido do dito e do não dito, pressentificado nas entrelinhas não dissimuladas desta escrita em ininterrupta ebulição, redonda, inevitavelmente redonda, com princípio instituído, mas sem fim determinado.

A forma do poema surge do sopro do Coração, que vê muito mais do que o enigmático olho da razão; nasce da íntima relação com o “Aberto”, sentido na profundidade ilimitada dos seus indeléveis contornos. Os Poemas de Rilke! Pois…, os Poemas de Rilke: bodas ténues de contrários, a limite complementares, no lençol imenso onde se deitam as palavras, imperecíveis. «Aqui é tempo do dizível, aqui a sua pátria. / Fala e proclama. Mais do que nunca / perecem as coisas, as que se podem viver, pois / O que as substitui, tomando o seu lugar, é um fazer sem imagem.»

Algures, talvez num dos contos de «A História de Nosso Senhor», o Poeta havia imaginado Deus tremendamente zangado, ao confrontar-se com as suas mãos, inábeis e com o seu Verbo, impotente. O mesmo sentiu com o seu corpo. Não coube no Poema. E, em 29 de Dezembro de 1926, o Poema levou-o. Para onde? Não nos é permitido saber. Mas, levou-o. Hoje, esse mesmo Poema torna-o presente, eminentemente presente na sua ausência física.

A Arte do canto e da palavra. A Poesia e a Música. Em uníssono, cantam. Em “re-união”, caminham para o mesmo fim, “ex-traordinariamente” epifânico: o empenho total do Ser para a sua plena revelação.

É neste fogo do conhecimento absoluto, também o fogo ardente do Amor, que o Poeta se exalta e consome. Aí, nesse lugar recôndito, onde assoma, em silêncio, a nostalgia da Unidade, a derradeira e singular consonância entre a luz e a sombra, a plenitude ansiosamente desejada entre a presença e a ausência, a comunhão do particular e do universal, da singularidade e da pluralidade: «e assim a palavra do poeta, tão fiel ao homem, acaba por ser palavra de escândalo no seio do próprio homem. Na verdade, ele nega onde outros afirmam, desoculta o que outros escondem, ousa amar o que os outros nem sequer são capazes de imaginar. Palavra de aflição mesmo quando luminosa, de desejo apesar de serena, rumorosa até quando nos diz o seu silêncio (…)» .

É este o resultado da acção da cultura de massas, petrificadora o mundo interior. Da cultura do betão armado e do ferro, do anonimato antropológico, da intolerância pela identidade, da intransigência pela especificidade irredutível do indivíduo. E a isto, ainda, chamamos “cultura”? Como podemos fazer coincidir a essência deste conceito com o interesse pervertido em ocultar o Homem? Com essa postura colectiva, violadora da filantropia, erguida sob o traço “des-configurador” da natureza desta sombra de gente em que nos transformámos, incapazes de aflorar, sem véus, à luz translúcida do dia?

É justamente contra a ausência do Homem no homem, que a palavra do Poeta se insurge. É contra a inquietante estranheza de um ser desolado, completamente só, apenas entregue a si próprio, que a voz do Poeta se levanta. É contra a castração dos sentidos e a amputação do corpo, que o dizer do Poeta se rebela.

Assim é o Homem que habita, veladamente, em cada um de nós. Assim é o Poeta, Rilke ou Orfeu, em revolta pela incapacidade de manter a fidelidade à multiplicidade de rostos que em si se manifestam, a um tempo, presentes e ausentes. Mas, afinal, de que espécie de fidelidade padece o Poeta? A resposta que nos ocorre é tão simples, quanto complexa: da fidelidade ao Homem e à sua lúcida esperança de sê-lo, inteiramente; da fidelidade à Terra, onde mergulha as suas raízes mais fundas; da fidelidade à palavra que, no Homem, é capaz da verdade última do sangue, da derradeira verdade da alma.

Não sabemos, no entanto, se poderemos reiterar a tese: o futuro do homem é próprio homem . Mas que Futuro? Mas que Homem? «Ecce Homo». Literalmente, «eis o homem». «Ser como quem sou», «um espírito livre», responderia Nietzsche. Talvez seja este o mote dos poemas de Rainer Maria Rilke.

Isabel Rosete

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