O CAMINHO DA SERPENTE

"Reconhecer a verdade como verdade, e ao mesmo tempo como erro; viver os contrários, não os aceitando; sentir tudo de todas as maneiras, e não ser nada, no fim, senão o entendimento de tudo [...]".

"Ela atravessa todos os mistérios e não chega a conhecer nenhum, pois lhes conhece a ilusão e a lei. Assume formas com que, e em que, se nega, porque, como passa sem rasto recto, pode deixar o que foi, visto que verdadeiramente o não foi. Deixa a Cobra do Éden como pele largada, as formas que assume não são mais que peles que larga.
E quando, sem ter tido caminho, chega a Deus, ela, como não teve caminho, passa para além de Deus, pois chegou ali de fora"

- Fernando Pessoa, O Caminho da Serpente

Saúde, Irmãos ! É a Hora !


sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Fim de Ano, Início de Quê?

Hoje é o último dia do ano. Nele se enviam, recebem, agradecem e reenviam mensagens de Feliz Ano Novo. Assim o fizeram milhões de seres humanos nos anos passados, assim o continuarão a fazer milhões de seres humanos nos anos futuros. É a rotina habitual, com a melhor das intenções. Entretanto, apesar dos votos que fazemos, todos nós continuamos a ser cúmplices na degradação da vida e do planeta. Por pensamentos, palavras, acções e omissões, movidos pela ilusão, a avidez e o ódio ou estagnados pela indiferença, contribuímos directa ou indirectamente para a ignorância, o sofrimento e a injustiça que alastram sobre o mundo e vitimam os seres vivos, humanos e não humanos, nossos companheiros na aventura da existência. Pelo simples facto de existirmos, interagirmos e nos movermos, pelo vestuário, alimentação, produtos, bens e serviços que consumimos – e mesmo que sejamos vegetarianos ou veganos, não usemos senão roupa de origem vegetal ou sintética, não gostemos de touradas e sejamos activistas a favor dos direitos de todos os seres - , contribuímos directa ou indirectamente para o sofrimento e morte de biliões de insectos, lagartas e outros animais (no cultivo e recolha de plantas, frutos e vegetais), bem como para o sofrimento e a exploração do trabalho de milhões de seres humanos (não só na China, mas por todo o mundo, incluindo em Portugal). Isto para já não falar do CO2 que as nossas viagens inúteis e fúteis lançam para a atmosfera e dessas outras emissões, infinitamente mais venenosas, as dos nossos pensamentos e emoções destrutivos. Sim, pode não ser simpático dizê-lo, mas a realidade não existe para ser simpática: ninguém é inocente. É salutar recordá-lo, para abdicarmos de presunções de pureza, virtude e santidade e deixarmos de julgar e diabolizar os outros. Todos nós somos predadores, que deixamos uma funda pegada ecológica onde quer que estejamos.

Cabe recordar isto, para avaliarmos a infinita dívida que a cada instante contraímos em relação a tudo e todos e pensarmos como a podemos pagar e compensar. Tudo depende do sentido que dermos às nossas vidas, pensamentos, palavras e acções. Tudo depende se fazemos desta nossa brevíssima passagem pelo mundo algo que o deixe um pouco melhor do que antes, semeando e cultivando nele um bem maior do que aquele mal que pelo simples facto de existirmos lhe trazemos.

Vivemos e viveremos cada vez mais grandes dificuldades a nível mundial. O paradigma do progresso enquanto ilimitado crescimento económico e incontrolado usufruto dos recursos naturais e dos seres vivos pela espécie humana, surgido há uns séculos na Europa e hoje globalizado, conhece um espectacular fracasso, pela incapacidade de resolver os grandes problemas e inquietações da humanidade, pelo aumento do fosso entre os que vivem acima e abaixo das suas necessidades, pela destruição crescente da biodiversidade e pela gravíssima crise ecológica. Disto começa a ser consciente um crescente número de pessoas e instituições nos países mais “desenvolvidos”, mas o mesmo não acontece nos países em vias de “desenvolvimento” e nas novas potências emergentes, que desejam seguir o mesmo caminho ilusório e já morderam o isco envenenado do poder e da riqueza aparentes e imediatos.

Perante isto, e perante o silenciamento e indiferença da maioria dos responsáveis políticos e religiosos mundiais, que preferem continuar a adormecer-nos e a adormecer-se com a retórica da esperança de melhores dias, somos todos nós que temos a responsabilidade de cooperarmos na busca de um novo paradigma. Esse paradigma tem de passar pela compreensão e vivência da realidade como uma totalidade orgânica e complexa, onde todos os seres e ecossistemas são interdependentes, não podendo pensar-se o bem de uns em detrimento de outros e da harmonia global. Há que, para bem do próprio homem, superar o antropocentrismo numa visão holística da Vida, em que o ser humano se assuma não como o dono do mundo, com o direito de o explorar e aos seus habitantes a seu bel-prazer, mas como o responsável pelo equilíbrio ecológico do planeta e pelo direito de todos os seres vivos à vida e ao bem-estar.

Não assumindo esta responsabilidade, não respeitando a Terra e a grande comunidade dos viventes, a humanidade não se respeita a si mesma e lesa os próprios interesses. Assim o mostram os efeitos dramáticos da alimentação e da vida antinatural que levamos sobre a nossa saúde psíquica e física, a par do terrível e desnecessário sofrimento causado a milhões de animais, que criamos e engordamos à pressa em gigantescos campos de concentração para alimentarmos o Holocausto do nosso apetite e da ganância insaciável dos produtores. Mas isto não se faz sem consequências. Por mais que as silenciem, elas vem ao de cima e estão aí. A agropecuária intensiva é o sector mais poluente, responsável por 18% das emissões de gases com efeito de estufa que produzem o aquecimento global, sendo igualmente o sector que mais água necessita, estando a esgotar os caudais em todo o mundo (só nos EUA mais de metade da água é usada para produzir ração para o gado; a par disso, a água restante é contaminada pelos resíduos animais); daí estimar-se que, em 2025, 64% da população mundial se veja privada da água necessária e já se anunciem as futuras guerras pela água… (cf. Harald Welzer, Klimakriege, 2008). A agropecuária intensiva é ainda a grande responsável pela desertificação e desflorestação, sendo 70% do solo agrícola mundial usado para alimentar animais. Disso resulta ser também a grande responsável pela perda da biodiversidade. A par de tudo isto, a produção e consumo massivos de carne industrial contribuem directamente para a fome no mundo, pois só a produção agrícola destinada aos animais nos EUA daria para alimentar 800 milhões de pessoas!...

Apocalipse Now não é apenas o nome de um filme. Necessitamos urgentemente de despertar e de um novo rumo. Enquanto podemos, pois já se vai fazendo muito tarde. Melhor é mudar voluntariamente do que ser obrigado à força.

Há que estabelecer uma Nova Aliança com a Terra e os seres vivos. E já.

Pensem nisso, no mínimo, à meia-noite de hoje, de modo a que entrem de outro modo em 2011.

31.12.2010

4 comentários:

Fausta disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
platero disse...

eu farto de explicar como cultivar hortícolas em casa - e ninguém liga

abraço Paulo, um bom 2011 de preferência vegetariano, ou, na impossibilidade, mitigado com algum peixito.
que também, muito dele, já é alimentado com farinhas, muitas delas
à custa de carne de mamíferos

Bom, um ANO feliz de Luta por alimentação equilibrada. Para que assim resulte o nosso comportamento

grande abraço

Maria Sarmento disse...

Amigo Paulo,

Seja a nossa pegada transparente, para que tudo seja em nova aliança.

Um abraço e Feliz Ano Novo.

Anaedera disse...

Ninguém te liga?!
Mas que grande consideração amigo Saias...

Quanto à mensagem, Prof Paulo Borges, no que respeita às produções intensivas de animais e vegetais e pensando colectivamente acho que lhe posso ser útil.

Por si só, um Bom Ano, melhor, mais verdadeiro e ainda mais amigo que o que passa.

Cassilda