O CAMINHO DA SERPENTE

"Reconhecer a verdade como verdade, e ao mesmo tempo como erro; viver os contrários, não os aceitando; sentir tudo de todas as maneiras, e não ser nada, no fim, senão o entendimento de tudo [...]".

"Ela atravessa todos os mistérios e não chega a conhecer nenhum, pois lhes conhece a ilusão e a lei. Assume formas com que, e em que, se nega, porque, como passa sem rasto recto, pode deixar o que foi, visto que verdadeiramente o não foi. Deixa a Cobra do Éden como pele largada, as formas que assume não são mais que peles que larga.
E quando, sem ter tido caminho, chega a Deus, ela, como não teve caminho, passa para além de Deus, pois chegou ali de fora"

- Fernando Pessoa, O Caminho da Serpente

Saúde, Irmãos ! É a Hora !


sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

ANFIBIOLOGIA

Ainda conseguiu voltar à superfície e pôr outra vez a cabeça fora de água.
Então deram-lhe mais uma bordoada com a pá do remo, sólida e certeira, bem no alto da cabeça.
Ao mergulhar definitivamente, engolindo água e sentindo-se ir para o fundo, teve um último pensamento lúcido: «que felizes devem ser os anfíbios!»

Mário-Henrique Leiria

2 comentários:

MeTheOros disse...

Isto até parece uma metáfora do estado a que chegou Portugal. E o resto do orbe terráqueo, idem idem.

Mas também parece um belo retratinho de certo MeTheOros: daí talvez as curiosas carimbadas na testa que a criatura apresenta na imagem. Que cromo!

Só que, no caso, em vez de uma pá de remo (o rapaz deve ser pacifista, bem como pelos animais, o ar da serra e os calhaus de praia), esta patusca criatura apanha, parece, vai não vai, é com a tabela períódica dos transfinitos de algum Cantor dado a raptos menos matemáticos, mas precisamente um pouco mais para o anfibiado.

Não haverá por aí quem faça a boa acção de devolver o senhor alienígena descolorado à adequada procedência?

Há, certamente, muito quem agradeça.

rmf disse...

De forma alguma, meu amigo.

A sua presença, é mais-que-grata!
É uma lição ouvi-lo.

No entanto, e por dizer de forma alguma, gostava que considerasse que este meu apontamento é real e egoísticamente, auto-bio-gráfico e auto-biográfico também.

Sou eu, esse feliz anfíbio, ainda atordoado, e vivo, em desaparecimento.

(sorriso)

Um abraço, sincero.