O CAMINHO DA SERPENTE

"Reconhecer a verdade como verdade, e ao mesmo tempo como erro; viver os contrários, não os aceitando; sentir tudo de todas as maneiras, e não ser nada, no fim, senão o entendimento de tudo [...]".

"Ela atravessa todos os mistérios e não chega a conhecer nenhum, pois lhes conhece a ilusão e a lei. Assume formas com que, e em que, se nega, porque, como passa sem rasto recto, pode deixar o que foi, visto que verdadeiramente o não foi. Deixa a Cobra do Éden como pele largada, as formas que assume não são mais que peles que larga.
E quando, sem ter tido caminho, chega a Deus, ela, como não teve caminho, passa para além de Deus, pois chegou ali de fora"

- Fernando Pessoa, O Caminho da Serpente

Saúde, Irmãos ! É a Hora !


terça-feira, 11 de maio de 2010

Escrevo-te com a ternura de uma criança ao nascer
com a mesma intensidade de um tronco a furar a terra

Escrevo-te porque estou de regresso
deixo para trás os silêncios apunhalados
assim como a escrivaninha que era meu leito preferido

Se diluíres as sete luas a guache e carvão
encontrarás meu cadastro em pequenos versos
sem que no poema se note uma mancha de sangue

Escrevo-te com um olho aberto e outro fechado
na esperança de inventar uma raça à prova de tristeza
trabalhando a terra
de onde emergirá a Primavera
tão lúcido quanto a loucura iluminada

Alcançar assim desse jeito uma braçada de estrelas
a aproximação dos nossos corpos esquecidos
que a seu tempo lhes darei o pão e o ensinamento das palavras

Por saber que Grande poema é a noite e o mar que me detém
escrevo-te
Ainda que o meu sangue esteja cego e gasto.

3 comentários:

platero disse...

Coisa linda

abraço

rmf disse...

"de onde... 'imergirá'?"

Flávio Lopes da Silva disse...

viva rui félis
de facto, uma gaffe tamanha
neste caso, é emergir: vir à tona

abraço