O CAMINHO DA SERPENTE

"Reconhecer a verdade como verdade, e ao mesmo tempo como erro; viver os contrários, não os aceitando; sentir tudo de todas as maneiras, e não ser nada, no fim, senão o entendimento de tudo [...]".

"Ela atravessa todos os mistérios e não chega a conhecer nenhum, pois lhes conhece a ilusão e a lei. Assume formas com que, e em que, se nega, porque, como passa sem rasto recto, pode deixar o que foi, visto que verdadeiramente o não foi. Deixa a Cobra do Éden como pele largada, as formas que assume não são mais que peles que larga.
E quando, sem ter tido caminho, chega a Deus, ela, como não teve caminho, passa para além de Deus, pois chegou ali de fora"

- Fernando Pessoa, O Caminho da Serpente

Saúde, Irmãos ! É a Hora !


terça-feira, 4 de janeiro de 2011

o pai não o deixava escrever poemas, porque para o seu pai, escrever poemas é coisa de maricas, não deixam crescer a barba de um homem e, um rapaz, para ser homem a sério, tem de primeiro ir à bola, aprender como se racha lenha numa só machadada. mas o rapaz, lá na mesa de jantar, dizia que tinha um pássaro dentro do coração que queria voar e, só por dizer, o seu pai batia com a mão na mesa que o fazia assustar e fugir para o quarto, onde, sozinho vai crescendo com os seus poemas escondidos na cabeça, lá num cantinho, pois para ele, a cabeça é o melhor lugar para se esconder de tudo e de todos. Um dia, enquanto brincava na rua, caiu, deu de corpo inteiro no chão e desmaiou. O seu pai estava por perto e foi de imediato socorrê-lo e, ao ter o filhos nos braços, cheirou-lhe a morte. E chorou. Chorou tão intensamente que, uns pequenos pássaros, vindos da ferida aberta do lado esquerdo do peito do rapaz, foram-lhe beber água aos olhos.