O CAMINHO DA SERPENTE

"Reconhecer a verdade como verdade, e ao mesmo tempo como erro; viver os contrários, não os aceitando; sentir tudo de todas as maneiras, e não ser nada, no fim, senão o entendimento de tudo [...]".

"Ela atravessa todos os mistérios e não chega a conhecer nenhum, pois lhes conhece a ilusão e a lei. Assume formas com que, e em que, se nega, porque, como passa sem rasto recto, pode deixar o que foi, visto que verdadeiramente o não foi. Deixa a Cobra do Éden como pele largada, as formas que assume não são mais que peles que larga.
E quando, sem ter tido caminho, chega a Deus, ela, como não teve caminho, passa para além de Deus, pois chegou ali de fora"

- Fernando Pessoa, O Caminho da Serpente

Saúde, Irmãos ! É a Hora !


segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Compaixão sem sabedoria? Egocompaixão?

Chamam ao Cristianismo a religião da compaixão. A compaixão está em contradição com as emoções tónicas, que elevam a energia do sentimento vital; a compaixão tem acção depressiva. Quando alguém se compadece, perde a força. Pela compaixão aumenta-se e multiplica-se o desperdício de energia que o sofrimento, por si próprio, já traz à vida. O próprio sentimento torna-se, pela compaixão, infeccioso; em determinadas circunstâncias, pode chegar-se a um desperdício global de vida e de energia vital, que se encontra numa relação absurda com o quantum da causa (o caso da morte do Nazareno). [...] Ousou-se mesmo chamar virtude à compaixão (em qualquer moral nobre, surge como fraqueza); foi-se mais longe, fez-se dela a virtude, o solo e a origem de todas as virtudes - só que, e é necessário não o esquecer, a partir do ponto de vista de uma filosofia que era niilista, que inscrevia como divisa no seu escudo a negação da vida.

Friedrich Nietzsche, O Anticristo, Edições 70, p.19

14 comentários:

Anaedera disse...

A compaixão,
Não é uma fórmula filosófica que permita exprimir ou justificar pensamentos e acções da sociedade cultural, política ou religiosa.

A compaixão É um estado de espírito,
tem-se, sente-se e acciona-se na coragem da expressão dos sentidos manifestados nas acções.
É um reflexo da capacidade de "enamoramento" pelo próximo e da vontade de ser com ele(a).
É exactamente o oposto, do que se pensa ou que se aprende, não tem regras ou códigos, é a mais pura expressão do coração.
Sem intenções, através do despreendimento de si mesmo. É o esquecer de si e relembrá-lo no outro, sendo-o.

É o ser no seu ser e esté presente em tudo e todos.

Kunzang Dorje disse...

se a compaixão é "o ser no seu ser", então o que é o ser presente em tudo e todos? tem-se? sente-se? acciona-se? que ser é esse que determina enamoramentos ou concepções/sentimentos benévolos ou malignos? o que é o oposto do que se pensa ou se aprende senão pensamento e aprendizagem? estar sem intenção não é intenção? esquecer de si e relembrar no outro não é esquecer o outro e lembrar-se de si? o que é o si?

Kunzang Dorje disse...

se a compaixão não é uma fórmula filosófica, poderá esta ser existencial ou esotérica?

abraço:)

Luís Carneiro disse...

Mentiras. O Cristianismo é a religião do Amor, não da compaixão.

Kunzang Dorje disse...

Luís,
qual, na sua opinião, a diferença entre amor e compaixão? Estará o primeiro direccionado a Deus enquanto o segundo a todos os seres?

Kunzang Dorje disse...

e porquê mentiras? o que é a verdade senão uma conjectura que a separa da mentira?

Luís Carneiro disse...

Não diria ser essa a diferença essencial. Talvez o amor seja pessoal, ao passo que a compaixão é impessoal. Na medida em que se dirige ao outro, a compaixão visa o sofrimento, o seu e o nosso, e é, nesse sentido, uma paixão partilhada, compaixão no/pelo sofrimento. O amor, por outro lado, visa directamente o núcleo da própria pessoalidade, independentemente daquilo que possa ser partilhado ou não; daí que o amor, a meu ver, vá além de todo o tipo de paixão e chegue a abarcar o próprio ódio. Numa relação de amor pode existir ódio relativamente a características positivas da identidade do outro, justamente porque este outro é irredutível às suas propriedades e é este outro, enquanto tal, que é amado/amante.

Kunzang Dorje disse...

não será esse "amor pessoal", suscitador de ódio, apego? assim como não será a compaixão, que "está em contradição com as emoções tónicas", apego? o que faz perder a "força", a "energia do sentimento vital"? não será o apego? qual a raíz do apego? não será o "núcleo da própria pessoalidade" ou as "características positivas da identidade do outro"?
por isso, julgo que a compaixão pode ser impessoal mas também pode ser pessoal (de pessoa, identidade, ego, si) e julgo que Nietzsche se referia a esta, assim como o amor pode ser pessoal como também pode ser impessoal, direccionado a todos os seres sencientes, amigos e inimigos, sem um sujeito/objecto a demarcar a dualidade.

Luís Carneiro disse...

De modo algum. Quando me refiro ao núcleo da própria pessoalidade, refiro-me ao vazio constituinte da pessoa, o hiato que impede qualquer identificação directa com as propriedades positivas/substanciais que essa pessoa vem a assumir e que é, portanto, o núcleo da própria liberdade, na medida em que este vazio do si-próprio transcende a substância universal determinada pela necessidade. Simultaneamente, este hiato não se pode constituir ele mesmo como uma forma substancial, daí que, aparentemente, ele não negue à partida qualquer tipo de inclinação (tal como o ódio). Se este vazio se viesse a constituir como uma forma substancial entre outras e implicasse uma atitude particular entre outras - seja a compaixão pessoal, seja o amor impessoal - então deixaria de ser vazio.

Concordo com Nietzsche na sua crítica a uma compaixão deste tipo, centrada no ego. Em certas formas católicas e protestantes este tipo de atitudes são efectivamente correntes - uma espécie de compaixão prescrita pela moralidade, cujo objectivo é, em última instância, a satisfação egóica. Não julgo, porém, que isso defina aquilo que o Cristianismo é.

No meu entender, parece-me curioso que a transposição de um modelo de "compaixão", eminentemente oriental, para o ocidente incorre numa perversão semelhante ao fenómeno inverso que espelha, a transposição de um modelo de "amor" para o oriente - o tal amor universal, impessoal, ele próprio prescrito como mais uma forma substancial da moralidade - que, como todas as exportações coloniais, acaba por se repercutir na própria origem.

Kunzang Dorje disse...

mas afinal, que hiato é esse que designa como o núcleo da liberdade que transcende a substância e não pode ele mesmo ser substância? Se o vazio não nega à partida o ódio, o ódio também não o nega e não será este, afinal, vazio? Se o vazio não nega o amor impessoal e a compaixão pessoal, não serão estes também vazios? O que afirma é que o hiato está separado da substância?

Kunzang Dorje disse...

como é que algo pode estar separado de algo sendo mesmo esse algo não algo? está morto? então, não algo, hiato, vazio, ?Deus? está morto e separado de tudo o que é vivo? Separado de viscosidades psíquicas? Separado de fragrâncias fétidas e de abortos monstruosos? não é esta separação que o cristianismo nos tem ensinado? num lado está Deus, noutro toda a criatura cujo caminho é morrer para estar junto do que é morto. não?:)

Luís Carneiro disse...

O hiato é a não coincidência de si consigo mesmo. Enquanto tal é vazio. O estatuto da compaixão e do amor são distintos de todas as emoções, paixões e sentimentos, dado que ambos se caracterizam pela sua universalidade, que é distinta em cada um, ao passo que os outros visam sempre particularidades. Para o Cristianismo com certeza que não há separação, é do conhecimento geral que Jesus Cristo se dava com leprosos, por exemplo.

A imanência desse hiato é, pela falta de melhor expressão, uma espécie de torção na aparência de uma dada forma substancial que indica a sua insubstancialidade. Neste sentido, o vazio irrompe verdadeiramente no mundo como um gesto. E aí, claro que concordo consigo, o ódio é vazio e totalmente inofensivo, dado que é ódio à positividade substancial de toda a propriedade enquanto propriedade e não à pessoa, pelo que não pode nunca ser equiparado a um ódio homicida de tipo fundamentalista.

Não morte à vida. Morte à morte.

Kunzang Dorje disse...

foi um gosto!
abraço:)

Kunzang Dorje disse...

todavia... outra pergunta urge: se o hiato é a não concidência de si consigo mesmo, se é imanente e torce a aparência de uma dada forma substancial e irrompe no mundo como um gesto, de que forma se pode contemplá-lo a ponto de o caracterizar? Como se depara o hiato, torcendo e irrompendo no mundo, se o próprio deparar é separador?

Em relação ao cristianismo, julgo que se Jesus não se sentisse separado de leprosos, não se juntaria a eles, portanto creio que aqui há separação, não? Se Deus não se sentisse separado da sua criação ou vice-versa ou mesmo os dois, não teria enviado o seu mensageiro para junto do seu povo, não acha?

Também não compreendo porque é que o ódio relativamente à propriedade é vazio e diferente do ódio relativamente à pessoa... Assim como a diferença entre a universalidade do amor e da compaixão relativamente à particularidade das outras emoções, paixões e sentimentos. O que difere a propriedade da pessoa? O que difere o universal do particular? Um é rasgado pelo hiato e o outro não? O hiato escolhe o que trespassar? Quem decide? Diga-me como descobrir o hiato.