O CAMINHO DA SERPENTE

"Reconhecer a verdade como verdade, e ao mesmo tempo como erro; viver os contrários, não os aceitando; sentir tudo de todas as maneiras, e não ser nada, no fim, senão o entendimento de tudo [...]".

"Ela atravessa todos os mistérios e não chega a conhecer nenhum, pois lhes conhece a ilusão e a lei. Assume formas com que, e em que, se nega, porque, como passa sem rasto recto, pode deixar o que foi, visto que verdadeiramente o não foi. Deixa a Cobra do Éden como pele largada, as formas que assume não são mais que peles que larga.
E quando, sem ter tido caminho, chega a Deus, ela, como não teve caminho, passa para além de Deus, pois chegou ali de fora"

- Fernando Pessoa, O Caminho da Serpente

Saúde, Irmãos ! É a Hora !


quarta-feira, 15 de julho de 2009

Contrição


Pintura: "anjo"

O Caminho
não pode ser percorrido
num instante
Mas deve ser perfeito no Instante

Só perfaz o Caminho
quem em si se cala
e no grito supremo
instala a morada
do sopro mais ténue
da sua respiração

O silêncio
é a vibração do oco do tempo
em campânulas aceso
no seio da obscura
presença da totalidade

em flor o olhar
o perfume a essência
o longe que vem anunciado
no vento das vésperas

terça-feira, 14 de julho de 2009

Blogs: terapia da solidão ou distracção da morte precoce?

Inscrições abertas até 28 de Agosto. Informações: 217920000

Os Cinco

Primeiro:
Branco ou tinto, confrades?
Hoje não sei se preciso branco ou tinto,
A leveza branca ou o profundo vermelho das uvas
Do nosso país.

Segundo:
Que país, pá!
De que falas?
Pede o vinho e cala-te.

Terceiro:
Também não sei?
Carne ou peixe, céu ou mar?
Tudo se abre em mim como no horizonte
E antes do horizonte indefinido.
Carne sangrenta ou peixe branca e salgada?
O sangue doce é a anunciação do crepúsculo,
O peixe do mar é o voo do espírito.
Mas o que quero, será que sei?

Quarto:
Eu não tenho duvida do meu cardápio,
Pois vou comer uma Omeleta
Nem carne, nem peixe
Somente ovo –
Ai, mas o ovo também me faz pensar…

Segundo:
Não começa de novo
Você já escolheu
E as perguntas só aparecem depois.
Eu vou comer um salmão.

Terceiro:
O que, um salmo? Que salmo?

Segundo:
Um salmão, caramba!
Escolhe tu o vinho!!!

Quinto:
Se eu pudesse escolher o vinho
Um vinho bom
Iria escolher um vinho que ainda não existe.
Mas assim prefiro um vinho tinto
Para chamar o profundo
O fundo sem fundo
Que ainda não chegou em nos.

Terceiro:
Então a carne, um bife
Para acompanhar o vinho
Para me.

Primeiro:
Um vinho tinto então!

(o vinho tinto vem e eles enchem os copos e brindam)

Primeiro:
Nos somos cinco e tudo que seja, será cinco.
Cinco como nos cinco,
Quinto, cinco, quinto…

Todos:
Nos, o Quinto
Cinco dedos da nossa mão
Cinco sentidos unidos
Cinco extremidades e um coração

Quarto:
Mas, o que…?
Não entendi?
Que extremidade?

Segundo:
A sexta extremidade.

Terceiro:
Para de rir e de falar besteira,
Somos todos tudo ao mesmo tempo!


Primeiro:
Somos tudo todos. Os cinco e o quinto…
Saúde!

Todos:
Saudade!


Silencio … E no encoberto do restaurante ergue se uma voz sonora:

E quando vamos para Amarante?

FIM

segunda-feira, 13 de julho de 2009

Os Mortos

Na ambígua intimidade
que nos concedem
podemos andar nus
diante de seus retratos.
Não reprovam nem sorriem
como se neles a nudez fosse maior.

Carlos Drummond de Andrade
(De Lição de Coisas)

dança leve

QUADRA P´RA PULAR

Tribunal nacional condenou recentemente
"pilha-galinhas"
a alguns meses de privação de liberdade.

A QUADRA

POR ROUBAR DUAS GALINHAS
LÁ VAI PRESO O SALAFRÁRIO
LIVRE COMO AS ANDORINHAS
SÓ ROUBANDO UM AVIÁRIO

boas férias - se for caso disso

Pluma de Silêncio



O instante sempre a nascer e a morrer, entre os teus braços, entre ... o silêncio e o Silêncio de Saudade...

O risco de tudo o que é muito antigo ou muito novo... Seduz com a aparência de não pertencer ao tempo, deslumbra com o brilho da falsa eternidade.

filosofia libertária

volto à questão o que é a filosofia? a resposta deveria ser muito simples... um sistema aberto é quando os conceitos são relacionados a circunstâncias e não mais a essências... é preciso inventar, criar os conceitos e há aí tanta invenção quanto na arte ou na ciência.
deleuze.
libertemos a filosofia das essências, dos unos, sejamos criadores. abandonemos a camelice.

domingo, 12 de julho de 2009

st

Da Saudade e da "Índia de miragem"

“Saudade… […] movimento pendular do coração lusíada entre a pátria e todas as Índias que se atingem e aquela Índia de miragem, que não é nenhuma destas e sempre se procura e deseja, quando estas se nos deparam; incessante movimento do coração do homem entre as terras e os céus visíveis e um Céu e uma Terra que apenas se pressentem na misteriosa polarização de toda a nossa alma”

– Leonardo Coimbra, “Sobre a Saudade”, in Dispersos. III - Filosofia e Metafísica, compilação, fixação do texto e notas de Pinharanda Gomes e Paulo Samuel, nota preliminar de Francisco da Gama Caeiro, Lisboa, Editorial Verbo, 1988, pp.137-138.

Pascoaes e Hölderlin

Poetas da profecia e da divina loucura
à procura da índia ainda distante
encontram se numa infinita despedida
na ponte do tolo de Amarante

e lembram as ruínas do continente
célticas e gregas pedras no sol-pôr
e falam das hecatombes e da dor
da ignorância do dia impertinente

que alvoreceu na Europa desencantada
onde os gritos do mercado derrubam o mito
que era tudo mesmo e que é não mais nada

do que uma velha e gorda vaca bem acabada
na lembrança, remota, do rito
com o touro divino numa praia dourada.

sábado, 11 de julho de 2009

IFotografia

Eu sou uma função humanística tardia,

aquilo que nunca é,

uma obtusa força esvaziada do passado.

Só na tradição, no incontaminado dialecto,

existe o meu amor, submerso pelo incandescente horror,

sem solução de continuidade até ao final...

Sou certamente o espelho de um organismo social.

Venho das ruínas perdidas no bulício da vida,

na periferia dos dias,

das igrejas dilaceradas por um obscuro escândalo de consciência,

dos retábulos de altar, das desconcertantes e sinceras aldeias esquecidas...

onde viveram os irmãos.

Ando pelo espaço como um doido.

Canto as ilhas do mundo antigo,

as angras da História, a "vida" que resiste...

a qualquer sonho de coisa alguma.

"Inactual" vagueio fiel pelas ruas como um cão sem dono,

estritamente técnico,

assinalando as osmoses entre imagens e versos.

Ou contemplo os crepúsculos, as manhãs,

nas colinas, no mundo,

no que jaz sem ser visto,

como os primeiros actos da Pós-História,

em perpétua comunhão,

em limites espaçados do verbo,

que ressuscito pelo privilégio do registo civil,

da orla extrema de alguma era sepulta.

Venço a atrofia momentânea do "corpo-literatura".

Regenero-o.

Ele está ali. De olhos fixos e costas arqueadas.

Ele e as palavras.

Profiro: - Monstruoso é quem nasceu das vísceras de uma ideia morta.


E eu, feto adulto,

sucumbo ao febril fervilhar, movo-me,

mais moderno que os amados rostos de ontem,

mais moderno do que qualquer moderno,

a buscar os irmãos que já não existem.

Maria Guedes, Junho de 2009

Grato amiga.

Ergue-te na noite, despido de ti e do mundo! E canta uma vitória nua, sem vencidos, nem vencedores, nem testemunhas.

Hoje, 2 euros

Os Estados são o preservativo dos povos

sexta-feira, 10 de julho de 2009

Vou vivendo. Alborada do Brasil

Carlos Nuñez acaba de tirar o seu novo disco, Alborada do Brasil. Quero compartir convosco, amigos, a ledice que me supõe ouvir este grande artista galego irmanando a lusofonia deste jeito tão formoso.
Segundo conta na apresentação do disco há uma carta dirigida ao rei de Portugal datada em 1500 em que se diz que o primeiro instrumento europeu que ouviram os indígenas foi uma gaita galega dando lugar a uma improvisada dança na praia. No mundo celta falava-se de uma misteriosa ilha chamada Y-Brasil.
Carlos Nuñez também vai à procura dum bisavô gaiteiro que se perdeu no Brasil. Quem sabe se o encontraria algures. A Galiza está viva nas raízes do Brasil e também nos seus frutos. Ouçam, amigos.



http://www.carlos-nunez.com/alboradadobrasil/lang-pref/es/

Vamos Fazer!

O comentário "insultuoso" apagado no Blog Nova Águia pela inteligência apagada do senhor Edson Pelé...

Um cemitério. Uma campa arde. De cada lado, degoladas, as cabeças de Cesário Verde e Gomes Leal vertem lágrimas de sangue. Ariana, nua, passa por entre uma fileira de espectros. Ao fim de tudo, com seu grande Machado, Deus espera.

Se não compreendem, metam as mãos ao coração, arranquem-no e trinquem-no. Abrir-se-vos-ão os olhos e verão que nunca aqui estiveram.

Nem todo o nosso sangue ressuscitaria as estrelas

quinta-feira, 9 de julho de 2009

Ainda os Animais...

Esta é uma campanha/petição da Greenpeace a enviar para o Japão. O que está em questão é o abate de baleias, mas não é uma petição comum: somos nós que construímos a baleia que leva a mensagem. Tem qualquer coisa de infantil e, talvez por isso, dá muito prazer produzir o bicho. Vão até ao endereço abaixo e experimentem.

http://www.send-a-whale.com/sendawhale/landing.php

Os alunos de certeza que gostarão da experiência.... e os filhos e os netos e sobrinhos e afilhados e os amigos e... qualquer bicho humano.

Eu já fiz a minha, chama-se Heart Waves :)

"Pascoaes é um ser terrível..."

"Pascoaes é um ser terrível e a sua poesia, uma coisa imensa e prestigiosa, tornou-se-me fonte de tormento. Quando penso nas dificuldades extraordinárias a vencer para dar dela uma ideia digna, interpretar qualquer outro poeta em Portugal torna-se uma brincadeira.

[...]

No momento em que a Europa cientificada e tecnificada via o pomo da felicidade amadurecido na sempre enganosa árvore da vida, Teixeira de Pascoais diz-nos, e logo no título de um dos seus livros, que, se vemos proibido o céu, nos está também a terra proibida. A Renascença Portuguesa veio e passou, incompreendida como o poeta vidente, e, a falar verdade, um pouco ridicularizada.

Há razão para isso, devemos concordar. Na verdade, o programa parecia, e parece, inexequível. Acentuar-se-ia cada vez mais, e por diversas formas, o sentimento de que o céu está longe e a convicção de que temos de viver, como vis bichos, até à morte, de um modo ou de outro. É absurdo misturar deuses e homens, árvores e almas, paganismo e cristianismo, loucura e sabedoria, melancolia e ilimitada esperança. E assim, a Saudade, no momento de despertarem já para o sentido do perdido bem os próprios infernos, não chegou a despertar os seres da terra"

- José Marinho, Teixeira de Pascoaes, Poeta das Origens e da Saudade e outros textos, edição de Jorge Croce Rivera, Lisboa, Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 2005, pp.398-399.

Informação - Animais e Felicidade

Estarei amanhã, 6ª feira, em representação do Partido Pelos Animais, no programa "Sociedade Civil", da RTP2, entre as 14 e as 15.30, dedicado ao tema do abandono dos animais.
Estarei no mesmo programa na próxima 5ª feira, dia 16, à mesma hora, entrevistado sobre a visão da felicidade no Budismo.

Saiu uma notícia sobre o PPA na TVI online e sairá outra na "Sábado" desta semana ou da próxima.

Sejamos felizes e contagiantes, para o bem de todos os seres sensíveis! Que a felicidade entre na agenda política e que a política se abra da cidade dos homens para a Natureza, o planeta e o universo. Este é o novo paradigma.

EFEITOS (colaterais) DA GRIPE

:

......a carteira

ou espirro-lhe pra cima

terça-feira, 7 de julho de 2009

e agora vou ali, fazer cócegas nos pés dos Budas!


ESTAMOS PUBLICITANDO

Convido-vos para um concerto que darei no próximo sábado, 11 de Julho, 22h em Lisboa num sítio chamado Crew Hassan que fica na Rua das Portas de Santo Antão, nº 159 (a rua do Coliseu).
Em vez de tomates tragam serpentinas para me atirar.

será ou não será, eis a questão

esta reflexão leva longe, até por exemplo, à ideia seguinte: será que a esta mesma segunda época não se deveria seguir, por ocasião das grandes revoluções da natureza, ainda uma terceira? Quando um orangotango ou um chimpazé vierem a desenvolver os orgãos que servem para andar, para manejar os objectos ou para falar, até que se forme uma estrutura humana contendo no seu mais íntimo um orgão para o uso do entendimento e desenvolvendo-se pouco a pouco por uma cultura social.
immanuel kant


planeta dos macacos? possivelmente é o que merecemos

"E venha o Partido Pelos Animais !"

Silêncio selvagem

Foram admiráveis os elogios de Paulo Rangel aos colegas-adversários do Parlamento, por revelarem que continua pertinente o conceito de elite de Pareto – ou o conceito de pandilha do povo português. Rangel é claramente um homem civilizado. O mesmo ao quadrado digo do meu grande amigo Paulo Portas, do CDS-PP.
Nada me surpreendeu mais do que saber, pelo PÚBLICO de ontem, que essa civilização nem sempre se estende à condenação dos selvagens. Falo dos selvagens que se divertem a pôr cães perigosos (que eles próprios criaram e treinaram para serem assim) a lutar contra outros cães.
Falo dos seres desumanos que põem os cães tão nervosos e agressivos que os condenam a uma existência psicótica. E que, de vez em quando, fogem do controlo dos donos, e atiram-se a quem calhar.
Por que carga de água-de-colónia, então, é que o PSD e o CDS-PP se abstiveram no diploma que criminaliza os promotores de lutas entre animais e os donos de cães perigosos que se atiram às pessoas?
Podem explicar-me o que há de tão polémico nesta lei que castiga quem organiza lutas entre animais? E que dá alguma satisfação às vítimas dos ataques destas bestas?
A nova lei é até daquelas desconcertantes que se estranha não haver já há muitos anos.
Saúde-se o deputado do PSD Mendes Bota, o único que votou a favor. Mas não chega. Fazer bonitos com abstenções é feio quando se trata de proteger pessoas e animais uns dos outros. E venha o Partido Pelos Animais!

- Miguel Esteves Cardoso, Público, 5.7.2009

segunda-feira, 6 de julho de 2009

Nascer é uma violação

Trans-Pátria - Da condição do interesse filosófico por uma nação

"Um espírito filosófico não pode interessar-se particularmente por uma nação senão quando ela lhe aparecer como condição do progresso da humanidade inteira"

- Schiller, Carta a Körner (1789).

Uma paisagem para Cinda

Da minha janela não vejo nenhuma paisagem
que não fosse tua, mas quem és tu?
Vejo a Serra e o céu perfeitamente nu -
ai, que divina e infinita coragem

gozam as nuvens e gozam as montanhas,
nesta janela pequena vejo as velas passar
no velho Tejo vejo navios de Ultramar
e sempre de novo as balsas alaranjadas -

um desassossego de noite e dia,
enquanto ouço bem distante uma melodia:

“Que coração tão duro, seco e frio
Se poderá livrar do sentimento,
Vendo com saudoso movimento
Fugir as claras aguas deste rio?”


Madragoa, 04.VII.09

Existência é violência

sábado, 4 de julho de 2009

quarta-feira, 1 de julho de 2009

dor e sofrimento

dor e sofrimento são tão maus em si, que o ser humano tenta ao máximo manter-se distante desses sentimentos.
pela teoria da igual consideração de interesses podemos então dizer o seguinte:
se considero a dor má para mim, não devo provocar dor em qualquer outro ser que a sinta e seja consciente dela, independentemente da sua raça, cor sexo ou espécie

"Partir, seguir as pisadas do pastor, é experimentar um género de panteísmo extremamente pagão e reencontrar os vestígios dos antigos deuses"

"Viajar pressupõe, portanto, recusar o horário laborioso da civilização em proveito do lazer inventivo e jovial. A arte da viagem exorta a uma ética lúdica, a uma declaração de guerra ao controlo e à cronometragem da existência. A cidade obriga ao sedentarismo legível graças a uma abcissa espacial e a um ordenamento temporal: estar num determinado lugar num preciso momento. Deste modo, o indivíduo é controlado e facilmente localizado por uma autoridade. O nómada, por seu lado, recusa esta lógica que permite transformar o tempo em dinheiro e a energia singular, o único bem do qual dispomos, em moedas sonantes e trôpegas.

Partir, seguir as pisadas do pastor, é experimentar um género de panteísmo extremamente pagão e reencontrar os vestígios dos antigos deuses - deuses das encruzilhadas e da sorte, da fortuna e da embriaguez, da fecundidade e da alegria, deuses das estradas e da comunicação, da natureza e da fatalidade - e libertar-se das amarras das limitações e das servidões do mundo moderno. O seu périplo abarca todo o planeta e vale-lhe a condenação daquilo que delimita e escraviza: o Trabalho, a Família e a Pátria, pelo menos no que diz respeito às limitações mais visíveis e identificáveis"

- Michel Onfray, Teoria da Viagem. Uma Poética da Geografia, Lisboa, Quetzal, 2009, pp.15-16.

terça-feira, 30 de junho de 2009

"O humano é o sonho de uma sombra"

"Tu que existes exposto ao que os dias te trazem, o que é ser Alguém ? O que é não ser Ninguém ? O humano é o sonho de uma sombra [skiâs ónar anthrôpos]”

- Píndaro, Odes Píticas, VIII.

LIBERALISMO ECONÓMICO

50 000 milhões de falcatruas

=

150 anos de prisão

Moreu MAD OFF

Viva MAD IN

Trans-Pátria - "Somos portugueses antes de sermos homens - eis a doença da hiperidentidade que nos corrói"

"Suponhamos que o nosso verdadeiro problema é a identidade. Suponhamos que a raiz do nosso mal são os nossos problemas de identidade individual e colectiva. Mas o que significa para nós, portugueses, ter problemas de identidade? Antes de mais, fazer da identidade um problema, o problema nuclear da nossa existência e da nossa cultura [...].
[...] Eis os seus pressupostos: 1. O que é a nossa identidade - no sentido em que se apresenta como a última protecção narcísica e derradeiro obstáculo à transformação do indivíduo português? Definamo-la assim: é o surgir do rosto do eu, como condição de possibilidade de afirmação de todos os atributos "mundanos" do indivíduo, da afirmação deste como sujeito, antes do surgimento da singularidade do indivíduo como homem, ser nu em devir. Neste sentido a identidade é uma patologia de que o eu é o vírus despótico. Eu uno, unificador e omnipresente. Em tudo, na acção, na fala, nas relações sociais, na vida profissional, no espaço público, nós somos "fulanos de tal", somos pessoais e auto-reflexivos (ao contrário da criança ou do artista ou artesão, perdidos no objecto e no jogo). Somos portugueses antes de sermos homens - eis a doença da hiperidentidade que nos corrói. 2. A nossa falta de confiança, a inércia, a autocomplacência, o queixume e a inveja são pragas nacionais que nos envenenam. Todas decorrem naturalmente do tipo de subjectividade produzida pela doença da identidade. Esta fecha-nos em nós mesmos, impedindo-nos de criar um "fora", ar e vento livres, respiração para viver"

- José Gil, Em Busca da Identidade. O desnorte, Lisboa, Relógio d'Água, 2009, pp.9-10.

José Gil é hoje um dos autores com quem, nesta questão da identidade nacional, mais concordo e discordo. Concordo com o que diz, discordando das razões pelas quais o diz e das consequências que daí extrai. Mas a ver vamos. Comecei agora mesmo a ler este seu último livro.

segunda-feira, 29 de junho de 2009

procuração

sou um simples animal. no meu caso uma perversa aranha. não faço por mal mas construo a teia para caçar os inocentes. e, penso na razão pela qual os humanos não se metem simplesmente na sua triste vida. concluo, por não saberem, se soubessem tratavam deles.
procuração não passo de certeza. porque sei que eles não sabem (sócrates). na verdade não passo de um aranhuço.

Artigo no jornal Público: "Promotores querem ir às legislativas. Petição para a criação do Partido pelos Animais circula na Net"

"Um partido político no qual os principais beneficiados não pensam, não falam e, muito menos, votam. Estranho? Não para os fundadores do Partido pelos Animais, aspirantes a uma cadeira no Parlamento português.

O partido ainda não está formalizado junto do Tribunal Constitucional. Como são necessárias 7500 assinaturas para isso - possui até o momento cerca de mil adesões na sua página no Facebook -, os coordenadores António Rui Ferreira dos Santos, de 45 anos, Pedro Luís de Oliveira, de 49, Paulo Alexandre Borges, de 49, e Fernando Leite, de 45, contam com um site na Internet (www.partidopelosanimais.com), apoio de artistas, como a actriz Sandra Cóias e os actores Pedro Laginha e Heitor Lourenço, da ex-ministra indiana Maneka Gandhi e do líder espiritual tibetano Dalai Lama.

Os quatro aspirantes a uma sigla política no país não são amigos de infância, nem possuem profissões afins. Pelo contrário. Fernando é consultor de vendas, Paulo é escritor e professor de Filosofia na Universidade de Lisboa, Pedro é licenciado em Direito e técnico superior de Segurança e Higiene do Trabalho no desemprego e António é empresário da área da construção civil.

O que uniu esses quatro apaixonados pelos animais e pela natureza foram as petições. Pedro lançou uma em Janeiro de 2007 para salvar os golfinhos no Japão, a qual já juntou mais de 1.200.000 assinaturas. António, naquele mesmo ano, criou uma contra a estilista Fátima Lopes, que utilizava peles de animais nas roupas da sua criação. Paulo, em 2008, durante os Jogos Olímpicos de Pequim, realizou uma outra para condenar a repressão no Tibete. Fernando, por sua vez, sensibilizou-se com a causa do Pedro. Depois de inúmeras conversas, perceberam que poderiam juntar forças. Criaram, então, um partido voltado para a causa dos animais.

"Em Portugal, os animais são tratados como coisas pela Constituição. São tratados pelo Departamento de Resíduos Sólidos. Estamos no ponto zero, na Idade da Pedra", reclama António, que veste uma t-shirt com os dizeres "as peles são usadas por animais bonitos e pessoas feias".

O partido, por sua vez, não é monotemático, pois manifesta-se também "a favor da defesa da natureza e de todas as formas de vida. Isso inclui o próprio homem, cuja felicidade depende da sua relação harmoniosa com esses outros seres vivos", explica Paulo, presidente da União Budista Portuguesa.

Correr contra o tempo
Não há uma data limite para inscrição no Tribunal Constitucional para a candidatura do partido, mas os fundadores estão a correr contra o tempo para angariar assinaturas. Segundo eles, o processo só não está mais avançado porque as pessoas precisam preencher formulários manualmente, não podendo fazer isso pela Internet.

O grande trunfo, explicam os coordenadores, para conseguir arrecadar as outras 6500 assinaturas que ainda faltam para que se tornem um partido oficial, são as mil pessoas que já aderiram. A ideia é que, cada uma delas, arranje outras 20. Além disso, estão a contactar as associações de protecção de animais do país para conseguir apoio.

"Sendo um partido, podemos e devemos ser a voz das associações", esclarece Pedro. Já para conseguir conquistar cadeiras no Parlamento, apostam também no facto de a população portuguesa "estar desesperadamente desencantada, saturada do discurso vazio", afirma Fernando. Uma das propostas do partido, que já existe na Alemanha, Inglaterra, Holanda, Espanha e Itália, é a mudança na legislação - "os animais deixarem de ser considerados coisas".


http://ultimahora.publico.clix.pt/noticia.aspx?id=1389180

O fim do homem neste mundo é libertar-se a si, libertando os outros seres

"Porque o desfecho e remate do homem não é gozar, repita-se. Se o mundo não existe para que o homem o saiba, odioso seria fantasiar que o universo continua subsistindo para que o desfrute o homem. Este erro antropocêntrico é a imoralíssima moral dos filósofos evolucionistas [...].

O fim do homem neste mundo é libertar-se a si, libertando os outros seres.[...]

A moral religiosa é falsa, porque é a moral do indivíduo. A moral filosófica, à maneira materialista, positivista, evolucionista, livre-pensante, é falsa, porque exclui os animais. A moral ascética é falsa, porque exclui as coisas.
O ascetismo e o abandono são falsos, porque importariam ou a salvação pessoal ou, tão só, a sectarista. A não resistência ao mal é falsa, porque, precisamente, eliminar o mal é o fim do homem, único e supremo.
Não foi Tolstoi. Quem encontrou a palavra do enigma foi o poeta alemão Novalis. Novalis escreveu que: - o fim do Homem é ajudar a evolução da Natureza. Esta palavra vai até o fundo do fundo do abismo. Nunca nenhuma assim sublime brotou de lábios inspirados. O fim do Homem é ajudar a evolução da Natureza.
Como? Trabalhando, para saber, a fim de poder. E, podendo, cumpre-lhe esquecer-se, não acreditando, como até aqui, que a decifração dos mistérios é para que sua curiosidade se satisfaça; para que, redundantemente, seus prazeres aumentem. O homem tem de dar contas do supremo dever que lhe incumbe, o dever para com a natureza inteira. Libertando-se a si, libertando os seus irmãos de espécie, ele contribuirá já para a grande libertação universal"

- Sampaio Bruno, A Ideia de Deus, Porto, Lello & Irmão, 1902, pp.468-470.

domingo, 28 de junho de 2009

sem título

Morreu quando os dias eram ainda novos.
Saiu voado,
Peixe de luz na água da noite.


1-Coltrane
2 -Miles Above

by Aaron Scott Badgley

pintura "Half Dome, Yosemite Valley" by Albert Bierstadt

execução

Um círculo de sangue

Ínfimo entre a noite e o dia.

Nem sombras

Nem sonhos:

Rumor de salitre

Laminando os olhos

(Microscópico alvitre)

Antes do silêncio.

Mas antes do silêncio.

A palavra com voz,

Um símbolo no termo

Da luz petrificando

A teia

No labor de aranha.

Um círculo de morte

Suspendendo o sangue.

sábado, 27 de junho de 2009

Lobos

Every wolf`s and lion`s howl
Raises from hell a human soul.
[William Blake]

Os índios americanos acreditam que todos nós temos um animal guardião e que este nos é revelado em sonhos. Talvez esta crença tenha um significado mais profundo.

A verdade é que os lobos estão à beira da extinção total, entre tantos outros seres. São dos poucos animais monógamos. São inteligentes, profundamente leais aos membros do grupo, meigos e brincalhões. Talvez a próxima geração possa vê-los apenas no YouTube.


Música: The Memory of Trees, Enya

Se quiser ajudar a preservar o Lobo Ibérico: Grupo Lobo

William Blake: Auguries Of Innocence

To see a world in a grain of sand,
And a heaven in a wild flower,
Hold infinity in the palm of your hand,
And eternity in an hour.

A robin redbreast in a cage
Puts all heaven in a rage.

A dove-house fill'd with doves and pigeons
Shudders hell thro' all its regions.
A dog starv'd at his master's gate
Predicts the ruin of the state.

A horse misused upon the road
Calls to heaven for human blood.
Each outcry of the hunted hare
A fibre from the brain does tear.

A skylark wounded in the wing,
A cherubim does cease to sing.
The game-cock clipt and arm'd for fight
Does the rising sun affright.

Every wolf's and lion's howl
Raises from hell a human soul.

The wild deer, wand'ring here and there,
Keeps the human soul from care.
The lamb misus'd breeds public strife,
And yet forgives the butcher's knife.

The bat that flits at close of eve
Has left the brain that won't believe.
The owl that calls upon the night
Speaks the unbeliever's fright.

He who shall hurt the little wren
Shall never be belov'd by men.
He who the ox to wrath has mov'd
Shall never be by woman lov'd.

The wanton boy that kills the fly
Shall feel the spider's enmity.
He who torments the chafer's sprite
Weaves a bower in endless night.

The caterpillar on the leaf
Repeats to thee thy mother's grief.
Kill not the moth nor butterfly,
For the last judgement draweth nigh.

He who shall train the horse to war
Shall never pass the polar bar.
The beggar's dog and widow's cat,
Feed them and thou wilt grow fat.

The gnat that sings his summer's song
Poison gets from slander's tongue.
The poison of the snake and newt
Is the sweat of envy's foot.

The poison of the honey bee
Is the artist's jealousy.

The prince's robes and beggar's rags
Are toadstools on the miser's bags.
A truth that's told with bad intent
Beats all the lies you can invent.

It is right it should be so;
Man was made for joy and woe;
And when this we rightly know,
Thro' the world we safely go.

Joy and woe are woven fine,
A clothing for the soul divine.
Under every grief and pine
Runs a joy with silken twine.

The babe is more than swaddling bands;
Every farmer understands.
Every tear from every eye
Becomes a babe in eternity;

This is caught by females bright,
And return'd to its own delight.
The bleat, the bark, bellow, and roar,
Are waves that beat on heaven's shore.

The babe that weeps the rod beneath
Writes revenge in realms of death.
The beggar's rags, fluttering in air,
Does to rags the heavens tear.

The soldier, arm'd with sword and gun,
Palsied strikes the summer's sun.
The poor man's farthing is worth more
Than all the gold on Afric's shore.

One mite wrung from the lab'rer's hands
Shall buy and sell the miser's lands;
Or, if protected from on high,
Does that whole nation sell and buy.

He who mocks the infant's faith
Shall be mock'd in age and death.
He who shall teach the child to doubt
The rotting grave shall ne'er get out.

He who respects the infant's faith
Triumphs over hell and death.
The child's toys and the old man's reasons
Are the fruits of the two seasons.

The questioner, who sits so sly,
Shall never know how to reply.
He who replies to words of doubt
Doth put the light of knowledge out.

The strongest poison ever known
Came from Caesar's laurel crown.
Nought can deform the human race
Like to the armour's iron brace.

When gold and gems adorn the plow,
To peaceful arts shall envy bow.
A riddle, or the cricket's cry,
Is to doubt a fit reply.

The emmet's inch and eagle's mile
Make lame philosophy to smile.
He who doubts from what he sees
Will ne'er believe, do what you please.

If the sun and moon should doubt,
They'd immediately go out.
To be in a passion you good may do,
But no good if a passion is in you.

The whore and gambler, by the state
Licensed, build that nation's fate.
The harlot's cry from street to street
Shall weave old England's winding-sheet.

The winner's shout, the loser's curse,
Dance before dead England's hearse.

Every night and every morn
Some to misery are born,
Every morn and every night
Some are born to sweet delight.

Some are born to sweet delight,
Some are born to endless night.

We are led to believe a lie
When we see not thro' the eye,
Which was born in a night to perish in a night,
When the soul slept in beams of light.

God appears, and God is light,
To those poor souls who dwell in night;
But does a human form display
To those who dwell in realms of day.

quinta-feira, 25 de junho de 2009

O Jogo do Mundo em Aveiro - 6ª, 26, 21 h


pintura "Fury" by Eugene Garin

Somos um sonho a desvanecer-se sem deixar traços

“[…] Yeah, all which it inherit, shall dissolve, / And, like this insubstantial pageant faded, / Leave not a rack behind. We are such stuff / As dreams are made on; and our little life / Is rounded with a sleep […]"

– William Shakespeare, The Tempest, Acto IV, Cena I, linha 155.

somos símios

mais sofisticados
mais atletas

motorizados como as motas
que outra coisa não são
que desumanizadas
bicicletas

quarta-feira, 24 de junho de 2009

É a Hora!

Earthlings (documentário)


Earthlings (Terráqueos, em português) é um documentário norte-americano de 2005, realizado, escrito, produzido e dirigido por Shaun Monson e co-produzido por Persia White. Levou 5 anos a ser realizado, pois inicialmente o projecto visava essencialmente uma campanha de consciencialização pública sobre a castração dos animais de estimação. Mas o realizador e a equipa desenvolveram o tema devido às pesquisas e situações encontradas, o que resultou na longa-metragem 'Earthlings'.

Narrado pelo actor - e activista dos direitos dos animais - Joaquin Phoenix, que também é 'vegan' e membro da PETA (a maior organização de defesa dos direitos animais do mundo). A banda sonora foi composta exclusivamente para o documentário pelo músico Moby.

O documentário mostra como funcionam as grandes indústrias e corporações e relata a dependência da humanidade sobre os animais, para obter desde a alimentação, vestuário e calçado até objectos diversos, incluindo a diversão, não esquecendo o abuso em experiências científicas. Mostra como a espécie humana e as suas relações de dominação, como o racismo e o sexismo, a xenofobia, etc. tem tratado com a maior falta de ética, humanidade e compaixão a natureza, os animais e a si mesmo.

http://www.earthlings.com/
(contém imagens impressionantes "não recomendadas" a pessoas sensíveis)

terça-feira, 23 de junho de 2009

deixar de ser

'mas o neoplatónico esforçar-se por tornar-se aquilo que deus é - a meta da sua actividade é deixar de «ser, de ser entendimento e razão.» o êxtase e o arroubo constituem para o neoplatónico, o supremo estado psicológico do homem. semelhante estado objectivado como ser é o ser divino. assim, deus procede apenas do homem, mas não ao invés, pelo menos originariamente, o homem a partir de deus.... com efeito, onde é que este ser sem dor e sem necessidades pode ter o seu fundamento e origem senão nas dores e necessidades do homem? a miséria da necessidade e da dor corresponde também o sentimento da beatitude. só em oposição à infelicidade é que a beatitude é uma realidade. só na miséria do homem tem deus o seu lugar de nascimento'
ludwig feuerbach, princípio da filosofia do futuro, edições 70






Mar adentro,
mar adentro.

Y en la ingravidez del fondo
donde se cumplen los sueños
se juntan dos voluntades
para cumplir un deseo.


Un beso enciende la vida
con un relámpago y un trueno
y en una metamorfosis
mi cuerpo no es ya mi cuerpo,
es como penetrar al centro del universo.

El abrazo más pueril
y el más puro de los besos
hasta vernos reducidos
en un único deseo.

Tu mirada y mi mirada
como un eco repitiendo, sin palabras
‘más adentro’, ‘más adentro’
hasta el más allá del todo
por la sangre y por los huesos.

Pero me despierto siempre
y siempre quiero estar muerto,
para seguir con mi boca
enredada en tus cabellos.

Ramón Sampedro, Mar Adentro

Fotografia: Alejandro Amenábar, Mar Adentro

poema e fotografia encontrados neste cantinho

Se nada é novo, e o que hoje existe
Sempre foi, por falha a nossa mente
E, se esforçando por criar, insiste,
Parindo o mesmo filho novamente!

Que do passado houvesse uma mensagem,
Já com mais de quinhentas translações,
Mostrando em livro antigo a sua imagem
Quando a escrita mal tinha convenções!

Para eu ver o que então diria o mundo
Da maravilha dessa sua forma;
Se nós ou eles vamos mais ao fundo,

Ou se a revolução nada reforma.
Estou certo que os sábios do passado
A alvo pior tenham louvado.


William Shakespeare, soneto (59)


segunda-feira, 22 de junho de 2009

http://www.refugiodaspatinhas.org/

http://www.refugiodaspatinhas.org/

Descobri hoje o site acima.

Se puderem, ajudem por favor este trabalho tão dedicado. É "com o pouco de muitos" que as boas obras podem fluir melhor e dar mais. Neste caso, salvar mais.

Obrigada a todos.

Abraços tamborínicos


"A mermaid found a swimming lad,
Picked him for her own,
Pressed her body to his body,
Laughed; and plunging down Forgot in cruel happiness
That even lovers drown."


William Butler Yeats

The Lady from the Sea - Edvard Munch, 1896

Sua Santidade o Dalai Lama apoia o Partido pelos Animais




Partilho com os leitores deste blogue a profunda Alegria por acabar de receber o apoio pessoal de Sua Santidade o Dalai Lama ao Partido Pelos Animais, acompanhado da seguinte declaração, que a seguir traduzo:

"Today, together with a growing appreciation of the importance of human rights there is a greater awareness worldwide of the need for the protection not only of the environment, but also of animals and their rights. Unfortunately, there continue to be those who feel it is not only acceptable, but also a pleasure, to hunt or fight with animals, resulting in the painful deaths of those animals. This seems to contradict the general spirit of egalitarianism growing in most societies today.

I deeply believe that human beings are basically gentle by nature and I feel that we should not only maintain gentle and peaceful relations with our fellow human beings but that it is also very important to extend the same kind of attitude towards the environment and the animals who naturally live in harmony with it. As a boy studying Buddhism in Tibet, I was taught the importance of a caring attitude towards others. Such a practice of non-violence applies to all sentient beings – any living thing that has a mind. Where there is a mind, there are feelings such as pain, pleasure and joy. No sentient beings want pain, instead all want happiness. Since we all share these feelings at some basic level, we as rational human beings have an obligation to contribute in whatever way we can to the happiness of other species and try our best to relieve their fears and sufferings"

"Hoje, em conjunto com um crescente apreço pela importância dos direitos humanos, há uma maior consciência em todo o mundo da necessidade de proteger não apenas o ambiente, mas também os animais e os seus direitos. Infelizmente, continuam a existir aqueles que sentem ser não apenas aceitável, mas também um prazer, caçar ou lutar com animais, resultando nas suas mortes dolorosas. Isto parece contradizer o geral espírito igualitário que hoje cresce na maioria das sociedades.

Creio profundamente que os seres humanos são fundamentalmente amáveis por natureza e sinto que devemos não apenas manter relações gentis e pacíficas com os nossos companheiros seres humanos, mas ser também muito importante estender o mesmo tipo de atitude ao meio ambiente e aos animais que vivem naturalmente em harmonia com ele. Quando era um rapaz que estudava o Budismo no Tibete, foi-me ensinada a importância de uma atitude carinhosa para com os outros. Uma tal prática de não-violência aplica-se a todos os seres sensíveis - toda a criatura viva que tem uma mente. Onde existe uma mente, existem sentimentos como dor, prazer e alegria. Nenhum ser sensível deseja a dor, em vez disso todos desejam a felicidade. Visto que todos partilhamos estes sentimentos nalgum nível fundamental, nós, como seres humanos racionais, temos uma obrigação de contribuir, de todos os modos que pudermos, para a felicidade das outras espécies e dar o nosso melhor para aliviar os seus medos e sofrimentos"

- Sua Santidade o Dalai Lama

Unguento

Eu não aguento tanto sentimento
Eu não aguento tanto sentimento

Eu não aqueço mais um Dezembro
Eu não acendo mais um ciúme

Não suporto mais nenhum ruído, nem um rumor
Nem este meu canto demente
Nem mais um recado de amor

Eu não aguento tanto sentimento
Eu não aguento tanto
Sem ti minto
Eu não aguento tanto sentimento
Eu não aguento
Tanto
Sem ti meto
Medo
Eu não aguento tanto
Sem ti

domingo, 21 de junho de 2009


Fotografia "Sunset and cherry trees in bloom" by Peter Krogh

(para acompanhar o fim de tarde)

Naci En Alamo:"no tengo lugar/ y no tengo paisaje/ yo menos tengo patria"

Duas "versões" fabulosas dum mesmo original.

Quem tiver pátria e lugar dela bastante, que escolha a paisagem... e "com seus dedos faça o fogo"...

(Minha gratidão a Saudades, por me ter dado a conhecer a voz de Yasmin Levy)






Naci En Alamo
no tengo lugar
y no tengo paisaje
yo menos tengo patria
con mis dedos hago el fuego
y con mi corazon te canto
las cuerdas de mi corazon lloran
naci en alamo
naci en alamo
no tengo lugar
y no tengo paisaje
yo menos tengo patria
naci en alamo
naci en alamo
ay cuando canta(s)
y con tus dolores
nuestras mujeres te chican
ay, ay
ay
ay, ay
ay
naci en alamo
naci en alamo
no tengo lugar
y no tengo paisaje
yo menos tengo patria

sábado, 20 de junho de 2009

Dos "Belamente Adornados"


"Trois regnes", desenho de José Roosevelt



Eis provido de um assento o esqueleto do bastão-insígnia!
Tu, designada para seres sua mãe,
Tu, designado para seres seu pai;
Isto acontece para que tenhais
Bela grandeza de coração.
Só assim haverá perfeita plenitude.


[recolha de Léon Cadogan, estudioso do povo Guarani]


Estas palavras, vindas de um deus e pronunciadas pelo sábio que as ouviu, anunciam que a mulher está grávida de um rapaz, metaforicamente chamado “esqueleto do bastão-insígnia”: este instrumento brandido pelos homens durante as danças rituais, é o sinal da masculinidade. Engendrar uma criança é uma das condições de acesso ao estado de aguyje, de perfeita plenitude, pois trata-se de tornar um espaço – o corpo que irá nascer – apto para receber uma pequena partícula da substância divina, uma Bela Palavra, uma alma. As crianças são assim uma mediação entre os adultos e os deuses.

Pierre Clastres
(in”O Grão-Falar, Mitos e Cantos Sagrados dos índios Guarani
Editora Arcádia, Lisboa, 1977, pág. 101 e seg.
Tradução de Luísa Neto Jorge, aprovada pelo autor


Atrevo-me a acrescentar, na base de tão belas palavras.
Cada alma, cada Bela Palavra (como dizem os Guarani),”esses que belamente são adornados” brotam-nos do futuro, como flores do presente, dando sentido pleno e inteiro ao “Velho Álbum” que nos escreve e vê no “silêncio dos versos.”

Cada palavra e cada silêncio nela, reflectem-se mutuamente. Tal como os seres: reflexos, às miríades, d’O que não tem reflexo, pois neles mora e a todos adorna - adormecido, ainda que acordado; desperto, ainda quando saudosamente esquecido de si.


Desde o mar, espaço primordial de todos os estados e todo o estar...
(A Liliana Jasmim, que persevera no Belo Adornar de si...)

"The Old Album"


pintura "The Old Album "
by Iman Maleki

(um dos meus pintores predilectos)

sexta-feira, 19 de junho de 2009

Relendo Céline com Pacheco


Fonte: imagem Google


Não há nada mais terrível dentro de nós e sobre a terra e, talvez até, nos céus, do que aquilo que ainda não foi dito.
Só ficaremos de todo tranquilos quando tudo tiver sido dito, dito duma vez para sempre; só então tudo estará em silêncio, ninguém mais terá medo de se calar.

Céline,“A Viagem ao Fim da Noite”,
citado por Luiz Pacheco, in “Crítica de Circunstância”,
Editora Ulisseia, Lisboa, 1966, pág. 85