
Eu sou uma função humanística tardia,
aquilo que nunca é,
uma obtusa força esvaziada do passado.
Só na tradição, no incontaminado dialecto,
existe o meu amor, submerso pelo incandescente horror,
sem solução de continuidade até ao final...
Sou certamente o espelho de um organismo social.
Venho das ruínas perdidas no bulício da vida,
na periferia dos dias,
das igrejas dilaceradas por um obscuro escândalo de consciência,
dos retábulos de altar, das desconcertantes e sinceras aldeias esquecidas...
onde viveram os irmãos.
Ando pelo espaço como um doido.
Canto as ilhas do mundo antigo,
as angras da História, a "vida" que resiste...
a qualquer sonho de coisa alguma.
"Inactual" vagueio fiel pelas ruas como um cão sem dono,
estritamente técnico,
assinalando as osmoses entre imagens e versos.
Ou contemplo os crepúsculos, as manhãs,
nas colinas, no mundo,
no que jaz sem ser visto,
como os primeiros actos da Pós-História,
em perpétua comunhão,
em limites espaçados do verbo,
que ressuscito pelo privilégio do registo civil,
da orla extrema de alguma era sepulta.
Venço a atrofia momentânea do "corpo-literatura".
Regenero-o.
Ele está ali. De olhos fixos e costas arqueadas.
Ele e as palavras.
Profiro: - Monstruoso é quem nasceu das vísceras de uma ideia morta.
E eu, feto adulto,
sucumbo ao febril fervilhar, movo-me,
mais moderno que os amados rostos de ontem,
mais moderno do que qualquer moderno,
a buscar os irmãos que já não existem.
Maria Guedes, Junho de 2009
Grato amiga.