O CAMINHO DA SERPENTE

"Reconhecer a verdade como verdade, e ao mesmo tempo como erro; viver os contrários, não os aceitando; sentir tudo de todas as maneiras, e não ser nada, no fim, senão o entendimento de tudo [...]".

"Ela atravessa todos os mistérios e não chega a conhecer nenhum, pois lhes conhece a ilusão e a lei. Assume formas com que, e em que, se nega, porque, como passa sem rasto recto, pode deixar o que foi, visto que verdadeiramente o não foi. Deixa a Cobra do Éden como pele largada, as formas que assume não são mais que peles que larga.
E quando, sem ter tido caminho, chega a Deus, ela, como não teve caminho, passa para além de Deus, pois chegou ali de fora"

- Fernando Pessoa, O Caminho da Serpente

Saúde, Irmãos ! É a Hora !


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sábado, 24 de abril de 2010

"O fim do homem neste mundo é libertar-se a si, libertando os outros seres"

"Porque o desfecho e remate do homem não é gozar, repita-se. Se o mundo não existe para que o homem o saiba, odioso seria fantasiar que o universo continua subsistindo para que o desfrute o homem. Este erro antropocêntrico é a imoralíssima moral dos filósofos evolucionistas [...].

O fim do homem neste mundo é libertar-se a si, libertando os outros seres.[...]

A moral religiosa é falsa, porque é a moral do indivíduo. A moral filosófica, à maneira materialista, positivista, evolucionista, livre-pensante, é falsa, porque exclui os animais. A moral ascética é falsa, porque exclui as coisas.
O ascetismo e o abandono são falsos, porque importariam ou a salvação pessoal ou, tão só, a sectarista. A não resistência ao mal é falsa, porque, precisamente, eliminar o mal é o fim do homem, único e supremo.

Não foi Tolstoi. Quem encontrou a palavra do enigma foi o poeta alemão Novalis. Novalis escreveu que: - o fim do Homem é ajudar a evolução da Natureza. Esta palavra vai até o fundo do fundo do abismo. Nunca nenhuma assim sublime brotou de lábios inspirados. O fim do Homem é ajudar a evolução da Natureza.

Como? Trabalhando, para saber, a fim de poder. E, podendo, cumpre-lhe esquecer-se, não acreditando, como até aqui, que a decifração dos mistérios é para que sua curiosidade se satisfaça; para que, redundantemente, seus prazeres aumentem. O homem tem de dar contas do supremo dever que lhe incumbe, o dever para com a natureza inteira. Libertando-se a si, libertando os seus irmãos de espécie, ele contribuirá já para a grande libertação universal"

- Sampaio Bruno, A Ideia de Deus, Porto, Lello & Irmão, 1902, pp.468-470.

domingo, 27 de dezembro de 2009

Sampaio Bruno (1857-1915)

Nós vivemos num mundo, onde se parte do Mal, da fealdade, do erro. O pecado original é de Deus, não do homem. Existência é dor, padecimento. Estado normal é doença.

A Saudade é o movimento em que tudo participa para uma reabsorção em Deus. A partir de uma diferenciação inicial, há sempre desejo de regresso. A vontade de viver destina-se ao regresso à consciência pura, à unidade primordial.

Adepto de um vegetarianismo que pudesse até poupar as plantas - alimentação química. Não matar para viver. As alterações psico-fisiológicas trariam um Super-Homem no futuro.

O Homem está no mundo para procurar a evolução de si e de todas as coisas. A alma embora não se possa conhecer plenamente, sempre se pode ir conhecendo mais um pouco.

Crítico de todas as ideias antropocêntricas, não vê a Humanidade como o fim último da criação.

in, Sampaio Bruno, A Ideia de Deus (1902).
cf., Paulo Borges, Filosofia em Portugal (apontamentos).

segunda-feira, 29 de junho de 2009

O fim do homem neste mundo é libertar-se a si, libertando os outros seres

"Porque o desfecho e remate do homem não é gozar, repita-se. Se o mundo não existe para que o homem o saiba, odioso seria fantasiar que o universo continua subsistindo para que o desfrute o homem. Este erro antropocêntrico é a imoralíssima moral dos filósofos evolucionistas [...].

O fim do homem neste mundo é libertar-se a si, libertando os outros seres.[...]

A moral religiosa é falsa, porque é a moral do indivíduo. A moral filosófica, à maneira materialista, positivista, evolucionista, livre-pensante, é falsa, porque exclui os animais. A moral ascética é falsa, porque exclui as coisas.
O ascetismo e o abandono são falsos, porque importariam ou a salvação pessoal ou, tão só, a sectarista. A não resistência ao mal é falsa, porque, precisamente, eliminar o mal é o fim do homem, único e supremo.
Não foi Tolstoi. Quem encontrou a palavra do enigma foi o poeta alemão Novalis. Novalis escreveu que: - o fim do Homem é ajudar a evolução da Natureza. Esta palavra vai até o fundo do fundo do abismo. Nunca nenhuma assim sublime brotou de lábios inspirados. O fim do Homem é ajudar a evolução da Natureza.
Como? Trabalhando, para saber, a fim de poder. E, podendo, cumpre-lhe esquecer-se, não acreditando, como até aqui, que a decifração dos mistérios é para que sua curiosidade se satisfaça; para que, redundantemente, seus prazeres aumentem. O homem tem de dar contas do supremo dever que lhe incumbe, o dever para com a natureza inteira. Libertando-se a si, libertando os seus irmãos de espécie, ele contribuirá já para a grande libertação universal"

- Sampaio Bruno, A Ideia de Deus, Porto, Lello & Irmão, 1902, pp.468-470.

segunda-feira, 9 de junho de 2008

"A metafísica é o remorso do homem da culpa de haver nascido" - Sampaio Bruno, O Brasil Mental

"Antes do primeiro olhar clarividente (que pode nunca surgir) o eu mistura-se ainda com a coisa olhada. Ao primeiro olhar crítico, abre-se a clivagem entre a consciência de quem olha e a presença do que é olhado: evidência da Coisa, e de um Eu soberano perante a Coisa. A inquietação sobrevinda compele a que se procure instaurar um conhecimento; a opacidade que se oferece ao espectador pode incitá-lo a procurar a ideia de Deus.
[...]
Sem errância e distracção profundas, cada humano estaria em sobressalto desde a manhã de cada dia até à noite, e da infância até à morte, tão grande é o abismo junto do qual caminha. A ideia de Deus, e com ela a concessão da sua existência, atributos e exorbitantes poderes, permite que decline o estranhamento do Eu perante a Coisa, e o sujeito, liberto da aflição de se saber algures, recaia no estado de indiferente coexistência com o mundo. O mesmo acontece com os mitos fundadores, no seu poder curarizante (apesar de ingénuo recorte arcaico) da angústia da existência" - António Vieira, Improvisações sobre a Ideia de Deus, Lisboa, & etc, 2005, pp.7 e 15.

Não concordo plenamente com este interessante pensador (pois não me parece que seja clarividente o olhar que separa sujeito e objecto), mas interessa-me que veja o surgimento da ideia de Deus como um exorcismo e uma pacificação do estranhamento do eu perante o estar-aí perante o mundo. Admito que se implique aí a origem da ideia de Deus, mas também constato que a palavra "Deus" designa muitas vezes o inominável que se pressente ou recorda "antes" do suposto olhar "clarividente e crítico", antes do "pecado" ou "ilusão" criadora (Pascoaes) que nos faz nascer como alguém perante algo, cindindo-nos do Abismo pré-originário. O impulso metafísico pode ser então compreendido como assunção do "sobressalto" que nos resgata da "errância e distracção profundas" da mundaneidade soporífera e entediante, como a saudade vertical que é a contrapartida positiva do "remorso" da "culpa" de (crermos) estar aqui, sujeitos à factualidade. Por ela se revela que "a cada instante estamos a tempo de nunca haver nascido".