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domingo, 29 de agosto de 2010
quinta-feira, 26 de agosto de 2010
A morte da "Filosofia Portuguesa" (texto de Miguel Real sobre "Uma Visão Armilar do Mundo", publicado no JL de 25 de Agosto)

O movimento da “Filosofia Portuguesa” nasceu em 1943, em torno da publicação do livro de Álvaro Ribeiro, O Problema da Filosofia Portuguesa, reivindicando o legado espiritual de Sampaio Bruno, Teixeira de Pascoais, Leonardo Coimbra e Fernando Pessoa. Neste movimento cultural ganhou raízes um dos mais importantes grupos de pensadores portugueses do século XX – José Marinho, António Quadros, Afonso Botelho, Orlando Vitorino, Pinharanda Gomes, António Braz Teixeira… -, que revolucionaram o pensamento filosófico português. Com a recente publicação de Uma Visão Armilar do Mundo, de Paulo Borges, autor cujos primeiros livros operavam o cruzamento entre as teses da “Filosofia Portuguesa” e a filosofia de Agostinho da Silva, pode dar-se por terminado este movimento. As teses fundamentais da “Filosofia Portuguesa” sublinhavam o sentido nacional de um espiritualismo profético firmado na língua portuguesa, um providencialismo vanguardista firmado na cultura portuguesa, um serviço missionário prosélito e messiânico de regeneração de Portugal contra o positivismo, o materialismo e o cientismo europeus. O Império aí estava para garantir e recordar aos cépticos o papel de Portugal no mundo como rosto avançado da espiritualidade cristã. Porventura os mais fortes documentos históricos sintetizadores das teses do grupo serão os números 1 e 2 da revista 57. Movimento de Cultura Portuguesa (dir. António Quadros), o primeiro com o “Manifesto de 57” e o segundo com o “Manifesto sobre a Pátria”, bem como o texto O Espírito da Cultura Portuguesa (1967), de A. Quadros. Assim, em finais da década de 1950, princípios da de 60, o núcleo filosófico das teses aristotélico-cristãs alvarinas, apresentado em 1943, ganhara uma dimensão política patriótica e imperial.
Paulo Borges, sintetizando o núcleo central das teses da “Filosofia Portuguesa” a partir de cinco estudos relativos ao Quinto Império (Camões, Vieira, Pascoaes, Pessoa e Agostinho da Silva) e da transformação dos dez mitemas da cultura portuguesa de A. Quadros em “instâncias [ontológicas] de realização de si”, do “nosso ser e consciência mais universais e profundos” (p. 206), propõe uma verdadeira desnacionalização da “Filosofia Portuguesa” [“o conceito de identidade nacional é, pois, tal como o de identidade pessoal (…) uma mera abstracção que em última análise apenas funciona na lógica da ignorância dualista que predomina na mente humana”, pp. 230-231), integrando-a na lógica de um “patriotismo transpatriótico” (p. 232), universalista, superador de Portugal e da lusofonia numa comunidade ecuménica, global, de toda a humanidade.
Para Paulo Borges (cf. Manifesto “Refundar Portugal”, pp. 235 – 243), as “pátrias” fazem parte, hoje, do “círculo vicioso e infernal” (p. 232) que impede a existência de uma “cultura da paz, da compreensão e da fraternidade à escala planetária, que hoje se sabe não poder visar apenas o bem da espécie humana, mas também a preservação da natureza, da biodiversidade e do direito à vida e ao bem-estar de todas as formas de vida animal, como condição da própria sobrevivência da espécie humana e da qualidade e dignidade ética da sua vida” (p. 236). Dito de outro modo, o nacionalismo, sobretudo o nacionalismo filosófico, é encarado hoje como um prolongamento serôdio (senão uma excrescência) do século XX. De certo modo, o novel conceito de “razão atlântica”, de A. Braz Teixeira, já apontava neste caminho, mantendo, no entanto, um vínculo ontológico forte à língua e à cultura portuguesas. Neste sentido, a uma época de globalização corresponde um pensamento globalizado, no qual, ainda que com sólido respeito pelas filosofias passadas, como o faz Paulo Borges, a busca de novas raízes e novos horizontes de transcendência superam o arreigamento aos clássicos conceitos históricos gerados em torno da rivalidade entre pátrias e nações.
Neste sentido, Uma Visão Armilar do Mundo estatui os cinco grandes autores portugueses acima citados, não como estritos pensadores da identidade nacional, como limitados “pensadores portugueses”, mas, enquanto portugueses, autores que visariam, de um modo universal, as quatro características manifestadas simbolicamente na “esfera armilar”: “perfeição, plenitude, totalidade e infinidade” (p. 10). Como se vê, não se trata de “nacionalizar” Camões, Vieira, Pascoaes, Pessoa e Agostinho da Silva, mas, ao contrário, de os universalizar como símbolos passados de um mundo novo português e lusófono, num “ímpeto de ser tudo de todas as maneiras e nisso sacrificar, esquecer e perder a própria identidade, transfigurando-a divina e cosmicamente” (p. 11). Ou seja, para que Portugal ressuscite sob formas superiores, Paulo Borges defende a morte do Portugal do século XX (o Portugal monárquico, republicano, estadonovista, socialista, social-democrata), integrando-se no grande futuro global do mundo, regido por outras e muito diferentes regras, que os antigos designaram por Quinto Império.
Importantíssimo chamar a atenção do leitor que, com este livro, Paulo Borges, sem abandonar a tematização sobre a vocação universal da cultura portuguesa, “despatriotiza” e “desnacionaliza” vincadamente o seu pensamento, marca permanente da sua filosofia desde Do Finistérreo Pensar (2001), sublinhando as características mais fundamente filosóficas (isto é, universais, ontológicas, metafísicas) e minimizando as mais explicitamente circunstanciais ou “nacionais”, ou, melhor, espiritualiza (o primado da consciência) de um modo “armilar” o que restava pertinente ou exclusivo da cultura portuguesa. Face a um pensamento assim tão pujantemente planetário, as teses da “Filosofia Portuguesa”, fundadas num aristotelismo cristão (Alv. Ribeiro), num esoterismo português (A. Telmo) ou numa “patriosofia” (A. Quadros), com uma particular apetência para o repensamento do Deus cristão (Amorim Viana, Cunha Seixas, Sampaio Bruno, Pascoaes), constituem-se como figuras tutelares, avoengos de retrato figurado nas galerias da história passada. Paz à sua alma (a “Filosofia Portuguesa”), que a vida lhe foi farta e, com discípulos como Joaquim Domingues, Paulo Borges, Renato Epifânio, Rui Lopo, António Cândido Franco e Rodrigo Sobral Cunha, a terra não lhe será pesada.
Uma Visão Armilar do Mundo. A Vocação Universal de Portugal em Luís
de Camões, Padre António Vieira, Teixeira
de Pascoaes, Fernando Pessoa e Agostinho da Silva,
Lisboa, Editora Verbo, 2010, 243 pp., 18 euros.
de Camões, Padre António Vieira, Teixeira
de Pascoaes, Fernando Pessoa e Agostinho da Silva,
Lisboa, Editora Verbo, 2010, 243 pp., 18 euros.
segunda-feira, 14 de setembro de 2009
Filosofias de todas as horas e do claro entendimento
“Meu caro Amigo: do que você precisa, acima de tudo, é de se não lembrar do que eu lhe disse; nunca pense por mim, pense sempre por você; fique certo de que mais valem todos os erros se forem cometidos segundo o que pensou e decidiu do que todos os acertos, se eles foram meus, não são seus. Se o criador o tivesse querido juntar muito a mim não teríamos talvez dois corpos distintos ou duas cabeças também distintas. Os meus conselhos devem servir para que você se lhes oponha. É possível que depois da oposição, venha a pensar o mesmo que eu; mas, nessa altura. já o pensamento lhe pertence. São meus discípulos, se alguns tenho, os que estão contra mim; porque esses guardaram no fundo da alma a força que verdadeiramente me anima e que mais desejaria transmitir-lhes: a de se não conformarem [...].”
"Estou a exigir muito de si? Quem lhe há-de exigir senão os seus amigos? Eles receberam o encargo de o não deixar amolecer e, pela minha parte, tenha você a certeza de que o hei-de cumprir. Você há-de dar tudo o que puder, e mesmo, e sobretudo, o que não puder; porque só há homem, quando se faz o impossível; o possível todos os bichos fazem. Quando você saltar e saltar bem, eu direi sempre: agora mais alto! Que me importa que você caia. Os fracos vieram só para cair, mas os fortes vieram para esse tremendo exercício: cair e levantar-se; sorrindo.
"Agostinho da Silva, Sete Cartas a um Jovem Filósofo, 1945.
domingo, 12 de julho de 2009
Da Saudade e da "Índia de miragem"
“Saudade… […] movimento pendular do coração lusíada entre a pátria e todas as Índias que se atingem e aquela Índia de miragem, que não é nenhuma destas e sempre se procura e deseja, quando estas se nos deparam; incessante movimento do coração do homem entre as terras e os céus visíveis e um Céu e uma Terra que apenas se pressentem na misteriosa polarização de toda a nossa alma”
– Leonardo Coimbra, “Sobre a Saudade”, in Dispersos. III - Filosofia e Metafísica, compilação, fixação do texto e notas de Pinharanda Gomes e Paulo Samuel, nota preliminar de Francisco da Gama Caeiro, Lisboa, Editorial Verbo, 1988, pp.137-138.
– Leonardo Coimbra, “Sobre a Saudade”, in Dispersos. III - Filosofia e Metafísica, compilação, fixação do texto e notas de Pinharanda Gomes e Paulo Samuel, nota preliminar de Francisco da Gama Caeiro, Lisboa, Editorial Verbo, 1988, pp.137-138.
segunda-feira, 29 de junho de 2009
O fim do homem neste mundo é libertar-se a si, libertando os outros seres
"Porque o desfecho e remate do homem não é gozar, repita-se. Se o mundo não existe para que o homem o saiba, odioso seria fantasiar que o universo continua subsistindo para que o desfrute o homem. Este erro antropocêntrico é a imoralíssima moral dos filósofos evolucionistas [...].
O fim do homem neste mundo é libertar-se a si, libertando os outros seres.[...]
A moral religiosa é falsa, porque é a moral do indivíduo. A moral filosófica, à maneira materialista, positivista, evolucionista, livre-pensante, é falsa, porque exclui os animais. A moral ascética é falsa, porque exclui as coisas.
O ascetismo e o abandono são falsos, porque importariam ou a salvação pessoal ou, tão só, a sectarista. A não resistência ao mal é falsa, porque, precisamente, eliminar o mal é o fim do homem, único e supremo.
Não foi Tolstoi. Quem encontrou a palavra do enigma foi o poeta alemão Novalis. Novalis escreveu que: - o fim do Homem é ajudar a evolução da Natureza. Esta palavra vai até o fundo do fundo do abismo. Nunca nenhuma assim sublime brotou de lábios inspirados. O fim do Homem é ajudar a evolução da Natureza.
Como? Trabalhando, para saber, a fim de poder. E, podendo, cumpre-lhe esquecer-se, não acreditando, como até aqui, que a decifração dos mistérios é para que sua curiosidade se satisfaça; para que, redundantemente, seus prazeres aumentem. O homem tem de dar contas do supremo dever que lhe incumbe, o dever para com a natureza inteira. Libertando-se a si, libertando os seus irmãos de espécie, ele contribuirá já para a grande libertação universal"
- Sampaio Bruno, A Ideia de Deus, Porto, Lello & Irmão, 1902, pp.468-470.
O fim do homem neste mundo é libertar-se a si, libertando os outros seres.[...]
A moral religiosa é falsa, porque é a moral do indivíduo. A moral filosófica, à maneira materialista, positivista, evolucionista, livre-pensante, é falsa, porque exclui os animais. A moral ascética é falsa, porque exclui as coisas.
O ascetismo e o abandono são falsos, porque importariam ou a salvação pessoal ou, tão só, a sectarista. A não resistência ao mal é falsa, porque, precisamente, eliminar o mal é o fim do homem, único e supremo.
Não foi Tolstoi. Quem encontrou a palavra do enigma foi o poeta alemão Novalis. Novalis escreveu que: - o fim do Homem é ajudar a evolução da Natureza. Esta palavra vai até o fundo do fundo do abismo. Nunca nenhuma assim sublime brotou de lábios inspirados. O fim do Homem é ajudar a evolução da Natureza.
Como? Trabalhando, para saber, a fim de poder. E, podendo, cumpre-lhe esquecer-se, não acreditando, como até aqui, que a decifração dos mistérios é para que sua curiosidade se satisfaça; para que, redundantemente, seus prazeres aumentem. O homem tem de dar contas do supremo dever que lhe incumbe, o dever para com a natureza inteira. Libertando-se a si, libertando os seus irmãos de espécie, ele contribuirá já para a grande libertação universal"
- Sampaio Bruno, A Ideia de Deus, Porto, Lello & Irmão, 1902, pp.468-470.
sábado, 2 de maio de 2009
Arte de Filosofar
"A arte de filosofar não consiste em escrever livros, em proferir conferências, em minutar lições que, ostensivamente, efectuem transmissão de ensino público. Todas as manifestações da filosofia, que os bibliógrafos registam e os biógrafos explicam, combinando a bibliografia com a biografia, resultam de uma actividade inaudível e invisível a que se dá o nome secreto de pensamento. Maior é o número dos filósofos que cogitam, meditam e especulam, sem que os seus contemporâneos sequer suspeitem, do que o número daqueles que pretendem tornar-se célebres com exibir erudição aprendida em arquivos, bibliotecas ou museus.Cumprindo os ritos religiosos, políticos e morais que são a praxe no círculo social em que preferiu viver e conviver, o pensador sincero fica mais livre para na solidão reflectir sobre os problemas humanos, os segredos naturais e os mistérios divinos. A cada alma esclarecida no cultivo da ciência e inflamada pelo amor da verdade obsidia sempre um só problema, segredo ou mistério, a que atribui primado na ordenação de todas as interrogações que estimulam o pensamento até à hora da iluminação suprema"
- Álvaro Ribeiro, A Arte de Filosofar, Lisboa, Portugália, 1955, p.9.
- Álvaro Ribeiro, A Arte de Filosofar, Lisboa, Portugália, 1955, p.9.
terça-feira, 11 de novembro de 2008
A Pedra, a Estátua e a Montanha ou da actualidade do V Império
"[...] o título deste livro consagra os três símbolos fundamentais do sonho de Nabucodonosor, interpretado por Daniel, decerto o texto central do imaginário quinto-imperial, vieirino e não só: a pedra que, sem intervenção de mão alguma, embate violentamente nos pés de ferro e argila da terrível estátua antropomórfica, com cabeça de ouro, peito e braços de prata, ventre e coxas de bronze e pernas de ferro, pulverizando-a e convertendo-se numa “grande montanha”, que enche a terra inteira (Daniel, 2, 31-45). Esta narrativa visionária é susceptível, como tudo o que é simbólico, de uma multiplicidade inesgotável de leituras, consoante as inclinações e níveis de compreensão dos intérpretes. Dela se pode em geral dizer que, abatendo e dissipando o gigantesco ídolo de pés de barro - símbolo de uma realidade aparentemente total e invencível, mas na verdade parcial e extremamente frágil no seu fundamento e composição, interpretada tradicionalmente e por Vieira como os quatro impérios e poderes civilizacionais histórico-mundanos, e interpretável como figura de todas as falsas e frágeis construções humanas, mentais e materiais - , a pedra, figura do Messias, do Cristo ou da consciência desperta e livre, converte-se na montanha cósmica, símbolo da plenitude e da verdadeira totalidade e universalidade ou do eixo que une céu e terra, espírito e matéria, transcendência e imanência. A moral da história da pedra que pulveriza a estátua e se converte em omni-abrangente montanha, é que a imprevisível e espontânea irrupção do que parece mínimo e insignificante faz na verdade evanescer o que parece máximo, sólido e perene, convertendo-se por sua vez na verdadeira integralidade e totalidade, ao contrário da estátua, que por mais monumental era apenas um ente parcial, composto e localizado.
A partir daqui podemos vislumbrar a sempre fecunda actualidade do imaginário quinto-imperial, não só no plano histórico-civilizacional e teológico-político em que tem sido predominantemente interpretado, mas também no da nossa vida pessoal e do nosso crescimento espiritual. Pois não se aplicará a história da pedra, da estátua e da montanha ao nosso presente histórico, com seus impérios, globalizações, padrões de pensamento e ficções em aparência tão esmagadoramente triunfantes e incontornáveis, mas afinal tão frágeis, desde já minados pela ausência de verdadeiro fundamento e à mercê da ínfima pedra que contra eles subitamente se levante, contendo em si uma imensa montanha ? Pois não seremos potencialmente todos e cada um de nós essa mesma pedra, essa mesma tomada de consciência e essa mesma força que imprevisivelmente pode surgir e derrubar pela insustentável base tudo o que interior e exteriormente nos amedronta, violenta e escraviza, sem outro alicerce senão as falsas projecções da nossa ignorância, medos e expectativas, convertendo-se na ou revelando-se a inabalável montanha da descoberta da nossa natureza íntegra e primordial, único fundamento sólido de uma nova sociedade e de um novo mundo ?"
- excerto da Introdução a A Pedra, a Estátua e a Montanha. O V Império no Padre António Vieira, Lisboa, Portugália Editora, 2008. Livro apresentado na 4ªfeira, dia 12, pelas 18.30, na Igreja de São Roque (Largo Trindade Coelho ou da Misericórdia, em Lisboa).
A partir daqui podemos vislumbrar a sempre fecunda actualidade do imaginário quinto-imperial, não só no plano histórico-civilizacional e teológico-político em que tem sido predominantemente interpretado, mas também no da nossa vida pessoal e do nosso crescimento espiritual. Pois não se aplicará a história da pedra, da estátua e da montanha ao nosso presente histórico, com seus impérios, globalizações, padrões de pensamento e ficções em aparência tão esmagadoramente triunfantes e incontornáveis, mas afinal tão frágeis, desde já minados pela ausência de verdadeiro fundamento e à mercê da ínfima pedra que contra eles subitamente se levante, contendo em si uma imensa montanha ? Pois não seremos potencialmente todos e cada um de nós essa mesma pedra, essa mesma tomada de consciência e essa mesma força que imprevisivelmente pode surgir e derrubar pela insustentável base tudo o que interior e exteriormente nos amedronta, violenta e escraviza, sem outro alicerce senão as falsas projecções da nossa ignorância, medos e expectativas, convertendo-se na ou revelando-se a inabalável montanha da descoberta da nossa natureza íntegra e primordial, único fundamento sólido de uma nova sociedade e de um novo mundo ?"
- excerto da Introdução a A Pedra, a Estátua e a Montanha. O V Império no Padre António Vieira, Lisboa, Portugália Editora, 2008. Livro apresentado na 4ªfeira, dia 12, pelas 18.30, na Igreja de São Roque (Largo Trindade Coelho ou da Misericórdia, em Lisboa).
domingo, 2 de novembro de 2008
Dos Arquétipos do Ideal Português às Instâncias da Realização de Si - X
Império
Império é toda a vacante e gloriosa irradiação do sem quê, porquê ou para quê de ser possível haver alguma coisa e o nada que nem sequer o é. Império é a esplendorosa nudez de tudo e da consciência de a haver. Império é a sempiterna pujança da desmesura das coisas. Da nossa desmesura. Da desmesura de estarmos aqui, na infinita fragilidade de não sermos mais que Infinito.
No Império radica todo o poder, o poder do infinito poder ser, como na impotência radica todo o desejo de poder ou aquele poder aparente que não é mais do que submissão ao desejo de dominar. O poder, ou seja, a escravidão, pelo qual se luta. Pelo qual se mata e morre.
Mas o Império não é deste nem doutro mundo. É o próprio mundo antes de o haver, antes de o imaginarmos algo e a nós alguém, pura e ilimitada virtualidade sem sujeitação-objectação possível. Por isso não tem Imperador e está repleto deles. Cada um dos fenómenos e instantes de percepção o é. Porque tudo, a cada instante, é original, perfeito e puro. Sagrado.
Mesmo a inconsciência de o ser.
É por isso que, Agora e Sempre, e por sermos nevoeiro:
É a Hora !
Império é toda a vacante e gloriosa irradiação do sem quê, porquê ou para quê de ser possível haver alguma coisa e o nada que nem sequer o é. Império é a esplendorosa nudez de tudo e da consciência de a haver. Império é a sempiterna pujança da desmesura das coisas. Da nossa desmesura. Da desmesura de estarmos aqui, na infinita fragilidade de não sermos mais que Infinito.
No Império radica todo o poder, o poder do infinito poder ser, como na impotência radica todo o desejo de poder ou aquele poder aparente que não é mais do que submissão ao desejo de dominar. O poder, ou seja, a escravidão, pelo qual se luta. Pelo qual se mata e morre.
Mas o Império não é deste nem doutro mundo. É o próprio mundo antes de o haver, antes de o imaginarmos algo e a nós alguém, pura e ilimitada virtualidade sem sujeitação-objectação possível. Por isso não tem Imperador e está repleto deles. Cada um dos fenómenos e instantes de percepção o é. Porque tudo, a cada instante, é original, perfeito e puro. Sagrado.
Mesmo a inconsciência de o ser.
É por isso que, Agora e Sempre, e por sermos nevoeiro:
É a Hora !
sexta-feira, 31 de outubro de 2008
Dos Arquétipos do Ideal Português às Instâncias da Realização de Si - IX
Amor
O Amor descobre-se na metamorfose do desejo que, querendo tudo, pode sentir que afinal nada lhe falta, nem o nada. E assim morre, saciado antes de comer. Como moribundo que no derradeiro momento vê que nunca realmente existiu. E o não carecer torna possível tudo e todo se dar. Como a Origem, que esplende imparcialmente, ou seja, íntegra e total, em todas as coisas. Que nem sequer ama, pois é Amor. Abertura primeira e natural, nudez esplendorosa que em si tudo irmana e coliga.
Só por amor se a descobre e só por amor tem sentido o regresso. O regresso sem retorno a todas as pátrias abandonadas. Enquanto nelas houver quem não tenha feito a viagem. Enquanto nelas houver quem não haja ressuscitado no antes de haver nascimento e morte. Enquanto houver saudade sem força para que se mate. Enquanto in-ex-istir alguma coisa. Enquanto houver pátrias, ou seja, apego a acampamentos na vastidão do Infinito que a cada momento se não levantem para ir mais além.
Só por amor, que é levar todos a fruírem o Tudo-Nada que se descobre, faz sentido falar de razões, sentidos e fins. Estratégias e ardis para levar os sedentários a fazerem-se ao mar-oceano de si mesmos. Jangadas, frágeis barcas que o mar se encarregará de devorar, sorvendo a todos a pique para o sem fundo e sem princípio nem fim de tudo.
Só por amor, e só por Amor, há Império.
O Amor descobre-se na metamorfose do desejo que, querendo tudo, pode sentir que afinal nada lhe falta, nem o nada. E assim morre, saciado antes de comer. Como moribundo que no derradeiro momento vê que nunca realmente existiu. E o não carecer torna possível tudo e todo se dar. Como a Origem, que esplende imparcialmente, ou seja, íntegra e total, em todas as coisas. Que nem sequer ama, pois é Amor. Abertura primeira e natural, nudez esplendorosa que em si tudo irmana e coliga.
Só por amor se a descobre e só por amor tem sentido o regresso. O regresso sem retorno a todas as pátrias abandonadas. Enquanto nelas houver quem não tenha feito a viagem. Enquanto nelas houver quem não haja ressuscitado no antes de haver nascimento e morte. Enquanto houver saudade sem força para que se mate. Enquanto in-ex-istir alguma coisa. Enquanto houver pátrias, ou seja, apego a acampamentos na vastidão do Infinito que a cada momento se não levantem para ir mais além.
Só por amor, que é levar todos a fruírem o Tudo-Nada que se descobre, faz sentido falar de razões, sentidos e fins. Estratégias e ardis para levar os sedentários a fazerem-se ao mar-oceano de si mesmos. Jangadas, frágeis barcas que o mar se encarregará de devorar, sorvendo a todos a pique para o sem fundo e sem princípio nem fim de tudo.
Só por amor, e só por Amor, há Império.
quarta-feira, 29 de outubro de 2008
Dos Arquétipos do Ideal Português às Instâncias da Realização de Si - VII
Mar
Mar é, simultaneamente, a originária matriz de todas as possibilidades e o horizonte sem coordenadas da sua ilimitada experiência. Mar é a metamorfose e o caldear contínuos do nada e do devir, do imanifestado e da manifestação, na desmontagem da ilusão do ser como proteico fluxo de ritmos e correntes. Mar é a mente, a vida e o mundo, instável meio ondulatório da errância do in-ex-istir na saudade da experiência total. Mar é isto a que sem saber o que seja nos habituámos a chamar “nós”, esta turbamulta de sensações, emoções e pensamentos com que nos identificamos, este Todo o Mundo-Ninguém que nos vive sem que o vejamos ou queiramos, neste tempestuoso ou sereno rolar das vagas de acontecimentos, percepções e experiências que acreditamos nossas. Mar, e mar sem fim, mar-oceano, é o fundo sem fundo de tudo, o abismo que se abre em todo o fundamento, o vórtice que sorve nas entranhas hiantes o Titanic da vaidade de sermos, o apocalíptico tsunami que limpa da face da terra e do céu tudo o que pretendemos ser, saber, fazer e construir. O abismo que, enfim, fulgura em toda a superfície a clamar a infinita, excessiva e indizível profundidade de todas as coisas. A glória e a graça do seu haver sem quê, porquê ou para quê.
É neste mar-oceano que naufragamos e nos perdemos sempre que nele nos pretendemos achar e salvar, sempre que nele nos supomos outros, sempre que nele fantasiamos rotas, refúgios e portos seguros, razões, sentidos e fins que se substituam à nossa própria pertença e reconciliação com a impensável e inimaginável infinidade, inocência e imprevisibilidade da vida na sua caósmica irrupção. Como é neste mesmo mar-oceano que, oferecendo-nos a todos os ventos e tempestades, desistindo de nos orientar na cerração, podemos naufragar e, abismados no coração selvagem das coisas, subitamente emergir Ilha Encantada e Rei Encoberto, Ilha dos Amores exuberante das delícias da conformidade entre nautas e ninfas, na andrógina abertura da divina visão da totalidade, comovidos de espanto pela revelação do que sempre desejáramos sem que o soubéssemos.
Pois desde sempre, e sobretudo quando nos escondemos, o que secretamente queremos é descobrir-nos. O oculto móbil de tudo é o Descobrimento.
Mar é, simultaneamente, a originária matriz de todas as possibilidades e o horizonte sem coordenadas da sua ilimitada experiência. Mar é a metamorfose e o caldear contínuos do nada e do devir, do imanifestado e da manifestação, na desmontagem da ilusão do ser como proteico fluxo de ritmos e correntes. Mar é a mente, a vida e o mundo, instável meio ondulatório da errância do in-ex-istir na saudade da experiência total. Mar é isto a que sem saber o que seja nos habituámos a chamar “nós”, esta turbamulta de sensações, emoções e pensamentos com que nos identificamos, este Todo o Mundo-Ninguém que nos vive sem que o vejamos ou queiramos, neste tempestuoso ou sereno rolar das vagas de acontecimentos, percepções e experiências que acreditamos nossas. Mar, e mar sem fim, mar-oceano, é o fundo sem fundo de tudo, o abismo que se abre em todo o fundamento, o vórtice que sorve nas entranhas hiantes o Titanic da vaidade de sermos, o apocalíptico tsunami que limpa da face da terra e do céu tudo o que pretendemos ser, saber, fazer e construir. O abismo que, enfim, fulgura em toda a superfície a clamar a infinita, excessiva e indizível profundidade de todas as coisas. A glória e a graça do seu haver sem quê, porquê ou para quê.
É neste mar-oceano que naufragamos e nos perdemos sempre que nele nos pretendemos achar e salvar, sempre que nele nos supomos outros, sempre que nele fantasiamos rotas, refúgios e portos seguros, razões, sentidos e fins que se substituam à nossa própria pertença e reconciliação com a impensável e inimaginável infinidade, inocência e imprevisibilidade da vida na sua caósmica irrupção. Como é neste mesmo mar-oceano que, oferecendo-nos a todos os ventos e tempestades, desistindo de nos orientar na cerração, podemos naufragar e, abismados no coração selvagem das coisas, subitamente emergir Ilha Encantada e Rei Encoberto, Ilha dos Amores exuberante das delícias da conformidade entre nautas e ninfas, na andrógina abertura da divina visão da totalidade, comovidos de espanto pela revelação do que sempre desejáramos sem que o soubéssemos.
Pois desde sempre, e sobretudo quando nos escondemos, o que secretamente queremos é descobrir-nos. O oculto móbil de tudo é o Descobrimento.
terça-feira, 28 de outubro de 2008
Dos Arquétipos do Ideal Português às Instâncias da Realização de Si - VI
Nau
Nau é o que somos quando não presumimos ser alguma coisa. Nau é o corpo e a mente em que navega no oceano do mundo o piloto que não há. Que acreditamos haver quando não o procuramos, mas que, vendo bem, se não encontra na espuma das formas, sensações, percepções, conceitos e consciência que supomos unificar. Porque, como vimos, não há ser mas devir, o sujeito da viagem é a própria viagem, sem sujeito.
E assim a nau se revela o próprio oceano. Só assim, naufragando, afundando e afogando a ideia de sermos idênticos ou diferentes, nos salvamos do andar à deriva e do errarmos sem fim nem encontro, de ilha para ilha, de porto para porto, de ilusão para ilusão, verdadeiro Navio Fantasma, nesse outro e mesmo oceano da nossa inconsciência de o sermos. De sermos Tudo-Nada, Todo o Mundo-Ninguém. Todo o mar em todas as ondas.
Para que a nau seja a própria via é necessário que navegue sem bússola, remos, velas, leme, timão ou quilha. Levada pela ondulação e pelo vento de nada saber nem imaginar, de nada querer nem rejeitar, de a nada ser indiferente. Antes infinitamente sensível. A todas as terras e céus, a todas as paisagens, a todas as vagas, a todos os ventos. A todas as tempestades e bonanças. A todas as direcções e horizontes do não os haver.
Disponível para todo o Mar.
Nau é o que somos quando não presumimos ser alguma coisa. Nau é o corpo e a mente em que navega no oceano do mundo o piloto que não há. Que acreditamos haver quando não o procuramos, mas que, vendo bem, se não encontra na espuma das formas, sensações, percepções, conceitos e consciência que supomos unificar. Porque, como vimos, não há ser mas devir, o sujeito da viagem é a própria viagem, sem sujeito.
E assim a nau se revela o próprio oceano. Só assim, naufragando, afundando e afogando a ideia de sermos idênticos ou diferentes, nos salvamos do andar à deriva e do errarmos sem fim nem encontro, de ilha para ilha, de porto para porto, de ilusão para ilusão, verdadeiro Navio Fantasma, nesse outro e mesmo oceano da nossa inconsciência de o sermos. De sermos Tudo-Nada, Todo o Mundo-Ninguém. Todo o mar em todas as ondas.
Para que a nau seja a própria via é necessário que navegue sem bússola, remos, velas, leme, timão ou quilha. Levada pela ondulação e pelo vento de nada saber nem imaginar, de nada querer nem rejeitar, de a nada ser indiferente. Antes infinitamente sensível. A todas as terras e céus, a todas as paisagens, a todas as vagas, a todos os ventos. A todas as tempestades e bonanças. A todas as direcções e horizontes do não os haver.
Disponível para todo o Mar.
segunda-feira, 27 de outubro de 2008
Dos Arquétipos do Ideal Português às Instâncias da Realização de Si - V
Viagem
Viagem é nascer a cada instante para a eterna novidade de si e de tudo. Ser novo e outro a cada momento e queimar a ilusão do bilhete de identidade. Libertar-se da crença na permanência e na personalidade, ou seja, trocar as voltas ao tempo e à morte. Não ser um ser vivo mas a vida, não ser uma pessoa mas a per-sona através da qual ressoa a trans-pessoal verdade de todas as supostas pessoas e coisas, miríade de máscaras do carnavalesco bailado eterno do rosto único e infinitamente múltiplo de tudo.
Viajar é levar a in-ex-sistência à plenitude do possível a que saudosamente aspira, a experimentar tudo de todas as maneiras, no interior, no exterior e para além da ilusão de os haver. Sempre sem pressupostos, projectos ou planificações. Pois doutro modo não há viagem. Apenas turismo. Que é deslocar-se sem partir, levar as malas bem carregadas de si, simulação de ir a toda a parte sem jamais sair de lado algum.
A verdadeira viagem é a um tempo absolutamente irreversível, pois nunca se repete ou regressa a um único momento do que se vai sendo, e infinitamente reversível, pois a cada momento se reitera o e regressa ao instante sem determinação, ontológica, ôntica ou temporal, que permeia todas as configurações do existir. Livre vacuidade e vacância que tanto é possibilidade de autocriação, decisão e rumo novo, não condicionados pelas opções anteriores, como de arrebatadora suspensão de todo o ser, pensar, criar e agir, inebriada conversão do êxtase da ex-istência no ênstase da in-sistência, trespassando o fado do ser no mundo com plena liberdade de nele se reinscrever ou não.
Porém é da natureza dos opostos que coincidam, aquém ou além do arcanjo de espada flamejante da razão dualista, que só a si mesma impede o regresso ao paraíso de cada instante. A verdade da viagem é assim a verdade da saudosa in-ex-istência que somos: renúncia a tudo que seja menos que tudo e nada, festivo vínculo a todo o possível e ao impossível que o possibilita. Ser e sentir tudo de todas as maneiras, ser uno e múltiplo como o universo e, simultaneamente, fruir a irrealidade de tudo isso. Viajar e viajar-se infinitamente, com o reconhecimento pleno de nunca haver quem parta de, chegue a ou esteja em lado algum.
O que parte sem partir é a Nau.
Viagem é nascer a cada instante para a eterna novidade de si e de tudo. Ser novo e outro a cada momento e queimar a ilusão do bilhete de identidade. Libertar-se da crença na permanência e na personalidade, ou seja, trocar as voltas ao tempo e à morte. Não ser um ser vivo mas a vida, não ser uma pessoa mas a per-sona através da qual ressoa a trans-pessoal verdade de todas as supostas pessoas e coisas, miríade de máscaras do carnavalesco bailado eterno do rosto único e infinitamente múltiplo de tudo.
Viajar é levar a in-ex-sistência à plenitude do possível a que saudosamente aspira, a experimentar tudo de todas as maneiras, no interior, no exterior e para além da ilusão de os haver. Sempre sem pressupostos, projectos ou planificações. Pois doutro modo não há viagem. Apenas turismo. Que é deslocar-se sem partir, levar as malas bem carregadas de si, simulação de ir a toda a parte sem jamais sair de lado algum.
A verdadeira viagem é a um tempo absolutamente irreversível, pois nunca se repete ou regressa a um único momento do que se vai sendo, e infinitamente reversível, pois a cada momento se reitera o e regressa ao instante sem determinação, ontológica, ôntica ou temporal, que permeia todas as configurações do existir. Livre vacuidade e vacância que tanto é possibilidade de autocriação, decisão e rumo novo, não condicionados pelas opções anteriores, como de arrebatadora suspensão de todo o ser, pensar, criar e agir, inebriada conversão do êxtase da ex-istência no ênstase da in-sistência, trespassando o fado do ser no mundo com plena liberdade de nele se reinscrever ou não.
Porém é da natureza dos opostos que coincidam, aquém ou além do arcanjo de espada flamejante da razão dualista, que só a si mesma impede o regresso ao paraíso de cada instante. A verdade da viagem é assim a verdade da saudosa in-ex-istência que somos: renúncia a tudo que seja menos que tudo e nada, festivo vínculo a todo o possível e ao impossível que o possibilita. Ser e sentir tudo de todas as maneiras, ser uno e múltiplo como o universo e, simultaneamente, fruir a irrealidade de tudo isso. Viajar e viajar-se infinitamente, com o reconhecimento pleno de nunca haver quem parta de, chegue a ou esteja em lado algum.
O que parte sem partir é a Nau.
domingo, 26 de outubro de 2008
Dos Arquétipos do Ideal Português às Instâncias da Realização de Si - IV
Demanda
Andar em demanda é viver ferido e movido da fome e sede de todo o ex-istir. Fome e sede de ser e de supra-ser, fome e sede de todo o possível e do impossível que nele há, saudade funda de ser e sentir tudo de todas as maneiras e de a isso mesmo superar, sem deixar nada de fora da plenitude de o não haver, de não haver dentro nem fora. Demandar é não se saciar com menos que o Infinito que se é na Encoberta Origem-Oriente de si e de tudo. Por isso a demanda é questa: pôr radicalmente em questão todas as falsas seguranças, prazeres e riquezas da ex-istência, todas as ilusões de serem ou poderem ser jardins de delícias as duras e sempre efémeras terras de exílio, todas as ficções de serem pátrias e lugares naturais de habitação e convívio os modos quotidianos de ser, sentir e pensar.
Demandar é partir. Demandar-se na Origem é exilar-se do exílio dos hábitos mentais e emocionais, dos hábitos sociais, culturais e civilizacionais, dos hábitos. É expatriar-se, desancorar-se, dessedentarizar-se. Passar pela escura noite do abandono de todas as referências, apoios e portos de abrigo, ser deserto e oceano e neles peregrinar ao Deus dará da libertação de todos os rumos. Abrir mão de todas as opiniões, crenças e doutrinas. Deixar cair tudo, reconhecer que nunca se esteve, nunca se está e nunca se estará senão nu, irremediavelmente nu. Por mais ficções que se inventem, por mais ademanes de boa consciência, por mais camadas de artifícios e maquilhagens em que ilusoriamente nos escondamos. Todas são transparentes. E a nossa nudez também. Tão transparente e luminosa que nos revela o Rei e o mundo que somos a descoberto. O rei vai sempre nu. É essa a sua implacável majestade, que onde irrompe dissipa todo o medo, disfarce e hipocrisia. O fazer de conta que se é o que nunca se foi e jamais se pode ser. Um ser existencialmente correcto num mundo de convenções. Num mundo de legalidades à margem da única Lei da Origem, a Liberdade-Plenitude de nada-tudo ser. Isso que se é, sem dever nem direito: não parte, mas todo; não fatia, mas bolo; não finito, mas Infinito.
Demandar é partir. Do próximo para o distante, do conhecido para o desconhecido, do que nos presumimos para o que somos sem presunção de o aprisionar no conceito sequer de ser. Desorbitar-se do que se pensa ser para o que se devém sem pensar. Largar amarras do repouso no ser sediado, sitiado e sedentário para a odisseia do vagar disponível pela infinita abertura dos possíveis. Desenquistar-se do crer-se um e um eu para o desfraldar-se metamorfose e Viagem na vertiginosa sucessão de todas as paisagens.
Andar em demanda é viver ferido e movido da fome e sede de todo o ex-istir. Fome e sede de ser e de supra-ser, fome e sede de todo o possível e do impossível que nele há, saudade funda de ser e sentir tudo de todas as maneiras e de a isso mesmo superar, sem deixar nada de fora da plenitude de o não haver, de não haver dentro nem fora. Demandar é não se saciar com menos que o Infinito que se é na Encoberta Origem-Oriente de si e de tudo. Por isso a demanda é questa: pôr radicalmente em questão todas as falsas seguranças, prazeres e riquezas da ex-istência, todas as ilusões de serem ou poderem ser jardins de delícias as duras e sempre efémeras terras de exílio, todas as ficções de serem pátrias e lugares naturais de habitação e convívio os modos quotidianos de ser, sentir e pensar.
Demandar é partir. Demandar-se na Origem é exilar-se do exílio dos hábitos mentais e emocionais, dos hábitos sociais, culturais e civilizacionais, dos hábitos. É expatriar-se, desancorar-se, dessedentarizar-se. Passar pela escura noite do abandono de todas as referências, apoios e portos de abrigo, ser deserto e oceano e neles peregrinar ao Deus dará da libertação de todos os rumos. Abrir mão de todas as opiniões, crenças e doutrinas. Deixar cair tudo, reconhecer que nunca se esteve, nunca se está e nunca se estará senão nu, irremediavelmente nu. Por mais ficções que se inventem, por mais ademanes de boa consciência, por mais camadas de artifícios e maquilhagens em que ilusoriamente nos escondamos. Todas são transparentes. E a nossa nudez também. Tão transparente e luminosa que nos revela o Rei e o mundo que somos a descoberto. O rei vai sempre nu. É essa a sua implacável majestade, que onde irrompe dissipa todo o medo, disfarce e hipocrisia. O fazer de conta que se é o que nunca se foi e jamais se pode ser. Um ser existencialmente correcto num mundo de convenções. Num mundo de legalidades à margem da única Lei da Origem, a Liberdade-Plenitude de nada-tudo ser. Isso que se é, sem dever nem direito: não parte, mas todo; não fatia, mas bolo; não finito, mas Infinito.
Demandar é partir. Do próximo para o distante, do conhecido para o desconhecido, do que nos presumimos para o que somos sem presunção de o aprisionar no conceito sequer de ser. Desorbitar-se do que se pensa ser para o que se devém sem pensar. Largar amarras do repouso no ser sediado, sitiado e sedentário para a odisseia do vagar disponível pela infinita abertura dos possíveis. Desenquistar-se do crer-se um e um eu para o desfraldar-se metamorfose e Viagem na vertiginosa sucessão de todas as paisagens.
sábado, 25 de outubro de 2008
Dos Arquétipos do Ideal Português às Instâncias da Realização de Si - III
Encoberto
Encoberta é toda a Origem para todo o ex-istente e todo o ex-istente para si mesmo, na medida em que, dela procedendo e a ela demandando, nela se ignora, buscando-a e buscando-se como se desde sempre e para sempre nela intimamente não permanecesse. Encoberta é pois a realeza de todo o ser e de toda a consciência, a sua verdade, liberdade e soberania plenas, de que são pálida imagem a ciência, o livre-arbítrio e o poder. Encoberta a Origem e Encoberto o ex-istente, Encoberto é o mundo original, a festiva ebulição de todas as coisas na matriz do seu poder ser e ser tudo. Assim, abandonada a ilusão de um salvador ou salvação exteriores, o Encoberto Rei que mora esperando na Encoberta Ilha é todo o outro do ser que, nela e fora dela, na Origem e no exílio, espera por si mesmo, o si sem si de tudo que sem esperança nem desespero se espera, aguardando, ou seja, vigiando, resguardando, o resgate da consciência vagamunda e o fim do exílio que em verdade nunca se iniciou. Vislumbrando, daquém e dalém mar do esquecimento, o pleno reencontro do que em verdade jamais se apartou. A complementaridade dos dois que nunca foram senão um, ou nenhum, símbolos que somos, nós e tudo, de não haver separação. Por isso é infinitamente mais verdadeiro que 1 + 1 = 1. A equação aritmética do Amor que somos, mas que nos falta. Porque nos faltamos. Mas sê-lo e não havê-lo, pressenti-lo e desejá-lo, é a condição da Demanda.
Encoberta é toda a Origem para todo o ex-istente e todo o ex-istente para si mesmo, na medida em que, dela procedendo e a ela demandando, nela se ignora, buscando-a e buscando-se como se desde sempre e para sempre nela intimamente não permanecesse. Encoberta é pois a realeza de todo o ser e de toda a consciência, a sua verdade, liberdade e soberania plenas, de que são pálida imagem a ciência, o livre-arbítrio e o poder. Encoberta a Origem e Encoberto o ex-istente, Encoberto é o mundo original, a festiva ebulição de todas as coisas na matriz do seu poder ser e ser tudo. Assim, abandonada a ilusão de um salvador ou salvação exteriores, o Encoberto Rei que mora esperando na Encoberta Ilha é todo o outro do ser que, nela e fora dela, na Origem e no exílio, espera por si mesmo, o si sem si de tudo que sem esperança nem desespero se espera, aguardando, ou seja, vigiando, resguardando, o resgate da consciência vagamunda e o fim do exílio que em verdade nunca se iniciou. Vislumbrando, daquém e dalém mar do esquecimento, o pleno reencontro do que em verdade jamais se apartou. A complementaridade dos dois que nunca foram senão um, ou nenhum, símbolos que somos, nós e tudo, de não haver separação. Por isso é infinitamente mais verdadeiro que 1 + 1 = 1. A equação aritmética do Amor que somos, mas que nos falta. Porque nos faltamos. Mas sê-lo e não havê-lo, pressenti-lo e desejá-lo, é a condição da Demanda.
sexta-feira, 24 de outubro de 2008
Dos Arquétipos do Ideal Português às Instâncias da Realização de Si - II
Oriente
Manência, procedência e abertura, a ex-istência é saudade da Origem sempre instante. A Origem simbolizada no Oriente, crepuscular alvorecer de um puro advir no seio do nada ou do primo e irredutível indiferenciado, alheio a qualquer entificação, divina, humana ou outra. Oriente não geográfico, sempiterno, sem Oriente nem Ocidente, ou seja, sem nascimento, duração, declínio e morte. Sol sempiternamente nascente e poente. Treva a iluminar-se, luz a entenebrecer-se. Caosmos.
Símbolo da matriz de todo o possível, da virtualidade inesgotável e infinita, onde toda e cada coisa é um poder ser tudo, o Oriente orienta, polariza e magnetiza a saudade de todo o ex-istente. Pois tudo o que aparenta tornar-se alguma coisa, tudo o que se de-termina e limita, aspira a transgredir-se devindo tudo o que pressente jamais ter deixado de ser. Mas só se pode devir tudo reconhecendo-se nada. Não o nada como não ser, mas enquanto “nulla res nata”, origem latina do “nada” português e castelhano: não manifestação onde nada se reifica e tudo é possível, sempre e a cada instante. Só o grau zero do ser é plenipotente matriz de todas as possibilidades, que nela são acto, antes de qualquer actualização parcial. Só o vazio é absolutamente pleno. Por isso a Origem, sem que em si o seja, se converte num fim e numa orientação, um fascínio que move ao seu reencontro tudo quanto dela se extravia, ou seja, tudo o que nela é e a é ignorando-o e ignorando-se pela identificação ilusória com o ser isto ou aquilo que o esquece e vela como o nada que é tudo. A Origem reorienta tudo o que a encobre encobrindo-se. Tornando-a e tornando-se Encoberto.
Manência, procedência e abertura, a ex-istência é saudade da Origem sempre instante. A Origem simbolizada no Oriente, crepuscular alvorecer de um puro advir no seio do nada ou do primo e irredutível indiferenciado, alheio a qualquer entificação, divina, humana ou outra. Oriente não geográfico, sempiterno, sem Oriente nem Ocidente, ou seja, sem nascimento, duração, declínio e morte. Sol sempiternamente nascente e poente. Treva a iluminar-se, luz a entenebrecer-se. Caosmos.
Símbolo da matriz de todo o possível, da virtualidade inesgotável e infinita, onde toda e cada coisa é um poder ser tudo, o Oriente orienta, polariza e magnetiza a saudade de todo o ex-istente. Pois tudo o que aparenta tornar-se alguma coisa, tudo o que se de-termina e limita, aspira a transgredir-se devindo tudo o que pressente jamais ter deixado de ser. Mas só se pode devir tudo reconhecendo-se nada. Não o nada como não ser, mas enquanto “nulla res nata”, origem latina do “nada” português e castelhano: não manifestação onde nada se reifica e tudo é possível, sempre e a cada instante. Só o grau zero do ser é plenipotente matriz de todas as possibilidades, que nela são acto, antes de qualquer actualização parcial. Só o vazio é absolutamente pleno. Por isso a Origem, sem que em si o seja, se converte num fim e numa orientação, um fascínio que move ao seu reencontro tudo quanto dela se extravia, ou seja, tudo o que nela é e a é ignorando-o e ignorando-se pela identificação ilusória com o ser isto ou aquilo que o esquece e vela como o nada que é tudo. A Origem reorienta tudo o que a encobre encobrindo-se. Tornando-a e tornando-se Encoberto.
quinta-feira, 23 de outubro de 2008
Dos Arquétipos do Ideal Português às Instâncias da Realização de Si - I
Introdução
Publicou António Quadros em 1967, em O Espírito da Cultura Portuguesa, um ensaio onde, procurando formular o que seria o “ideal português”, na linha das preocupações da Renascença Portuguesa, enuncia “um grupo de dez palavras ou cifras, cujo sentido ideal e simbólico se desdobrou na nossa cultura em vários planos significativos, desde o literal ao simbólico, do poético ao artístico e mesmo ao filosófico”. Diz serem “arquétipos” [...] cuja conjugação desenha porventura [...] o ideal português” e que seriam tónicas profundas do “nosso modo de filosofar” ou “palavras-mães” “que nos soam tão familiares [...] que nem reparamos na originalidade das meditações que nos sugerem”. Ilustra-o com sintéticos mas fecundos desenvolvimentos da premência na história, na cultura e no pensamento português, bem como das sugestões filosóficas e universais, das palavras nesta ordem apresentadas: “Mar, Nau, Viagem, Descobrimento, Demanda, Oriente, Amor, Império, Saudade, Encoberto”.
Não pretendemos fazer aqui uma avaliação crítica desta proposta, da qual indicamos apenas o seu notável valor sugestivo, e pelo menos representativo de uma dada forma de pensar e vivenciar a história cultural portuguesa, que não se pretende aliás uma enumeração e interpretação fechada, exclusiva de um “alargamento a outras palavras não menos arquetipais”. O nosso objectivo é outro. Em homenagem ao saudoso pensador e Amigo, convictos de que a melhor forma de o fazer é pensar a partir dele, desenvolvendo aquelas que nos parecem as suas mais amplas possibilidades, mesmo se isso nos levar a um salutar afastamento dos seus horizontes mais imediatos – o que é sempre um modo de lhes desvelar insuspeitas amplitudes – , arriscamos aqui uma leitura especulativa e pessoal dos dez vocábulos, que por esse motivo reordenamos, assumindo-os não já como arquétipos e indicadores do “ideal português”, mas antes como instâncias da realização de si, do nosso ser e consciência mais universais e profundos. Pretendemos passar assim da hermenêutica filosófica da cultura portuguesa para, assumindo toda a inspiração que possamos colher de elementos fundamentais dessa cultura e da nossa vivência dela, deles não menos nos expatriarmos no sentido das profundezas do ser universal, anterior e posterior a toda a determinação e representação histórico-cultural. Que isso, todavia, possa constituir-se, retroactivamente, em factor de reformulação, e porventura de enriquecimento, da própria cultura a que não deixamos de pertencer, é natural e grato. Ultrapassar algo, tomando-o como trampolim para ir mais longe, é enriquecê-lo, mostrando limiares onde de outro modo só se experimentariam limites.
Saudade
Saudosa é a condição de toda a ex-istência. Ex-istência: ser a partir de e em exposição e abertura a, originária cisão que é intrínseco vínculo ao imo da plenitude primordial e anseio da experiência total aí possível. Como se denuncia na etimologia e na evolução semântica, é inerente à experiência da saudade a singularidade e relativa solidão, bem como a união e aspiração, em memória e desejo, ao pleroma aparentemente abandonado e à fruição de todo o possível, em reminiscência e pressentimento de uma saúde que é salvação, libertação do êxodo ex-istencial que realiza a sua mais ampla possibilidade. A saudade é in-sistência na ex-istência, ser em do que é a partir de, integração do que se cinde. Revela assim a condição in-ex-istente de tudo o que se manifesta ou percepciona como entes e coisas, a sua comum união-cisão, a sua solidária interdependência, ou seja, a sua ausência de realidade substancial e própria, independente do entrançado matricial em que se constelam e entre-são e da consciência que o percepciona, no mesmo entrançado tecida.
Pode a saudade ser predominante ou simultaneamente retrotensa, protensa e intensa. Do passado, do futuro ou do eterno instante. Todavia, sendo do passado ou do futuro, é sempre do eterno instante, mesmo que iludida o recorde e/ou deseje no passado ou no futuro. Pois só os instantes experimentados como eternos, furtando-nos ao comum encadeamento do tempo e à monotonia da sua consciência, nos trazem a glória de que há saudade. A glória dos seres e das coisas surpreendidos no esplendor da sua intemporal origem: um rosto, uma relação, uma paisagem, um cheiro, uma melodia, um sabor, um objecto antes de o ser, sempre um afecto. A afecção pela plenitude sensível, física ou não, de haver algo e simultaneamente o nada, a afecção pela graça e glória do mundo, pela glória que gratuitamente há no mundo. A comunhão primeira, sem quê, nem porquê, nem para quê, anterior ao refúgio do ser e da consciência na sub-jectividade que os agride e auto-lesa pro-jectando o que se lhe ob-jecta, os objectos perante os quais se perfila e sub-ordina, desejando-os ou rejeitando-os na mesma saudade de os não haver.
Saudade do nem sujeito nem objecto. Saudade da Festa e jogo primordial, dança arrebatada e livre dos sentidos-consciência-fenómenos, inocente nudez das delícias anteriores ao exílio do conhecimento do bem e do mal, da memória que é esquecimento, da busca de sentidos e verdades, razões e finalidades, seres, saberes, teres e afazeres. Festa anterior à insegurança, ao medo e à agressão, ao desejo, à aversão e à indiferença de uma consciência privada porque autocentrada num ilusório lugar próprio, constituído por demissão ou esquecimento da irrecusável plenitude. Festa anterior ao haver antes e depois.
Saudade de não haver saudade. Impulso de a matar na inefável Origem anterior a sê-lo. Anterior a ser Oriente.
Publicou António Quadros em 1967, em O Espírito da Cultura Portuguesa, um ensaio onde, procurando formular o que seria o “ideal português”, na linha das preocupações da Renascença Portuguesa, enuncia “um grupo de dez palavras ou cifras, cujo sentido ideal e simbólico se desdobrou na nossa cultura em vários planos significativos, desde o literal ao simbólico, do poético ao artístico e mesmo ao filosófico”. Diz serem “arquétipos” [...] cuja conjugação desenha porventura [...] o ideal português” e que seriam tónicas profundas do “nosso modo de filosofar” ou “palavras-mães” “que nos soam tão familiares [...] que nem reparamos na originalidade das meditações que nos sugerem”. Ilustra-o com sintéticos mas fecundos desenvolvimentos da premência na história, na cultura e no pensamento português, bem como das sugestões filosóficas e universais, das palavras nesta ordem apresentadas: “Mar, Nau, Viagem, Descobrimento, Demanda, Oriente, Amor, Império, Saudade, Encoberto”.
Não pretendemos fazer aqui uma avaliação crítica desta proposta, da qual indicamos apenas o seu notável valor sugestivo, e pelo menos representativo de uma dada forma de pensar e vivenciar a história cultural portuguesa, que não se pretende aliás uma enumeração e interpretação fechada, exclusiva de um “alargamento a outras palavras não menos arquetipais”. O nosso objectivo é outro. Em homenagem ao saudoso pensador e Amigo, convictos de que a melhor forma de o fazer é pensar a partir dele, desenvolvendo aquelas que nos parecem as suas mais amplas possibilidades, mesmo se isso nos levar a um salutar afastamento dos seus horizontes mais imediatos – o que é sempre um modo de lhes desvelar insuspeitas amplitudes – , arriscamos aqui uma leitura especulativa e pessoal dos dez vocábulos, que por esse motivo reordenamos, assumindo-os não já como arquétipos e indicadores do “ideal português”, mas antes como instâncias da realização de si, do nosso ser e consciência mais universais e profundos. Pretendemos passar assim da hermenêutica filosófica da cultura portuguesa para, assumindo toda a inspiração que possamos colher de elementos fundamentais dessa cultura e da nossa vivência dela, deles não menos nos expatriarmos no sentido das profundezas do ser universal, anterior e posterior a toda a determinação e representação histórico-cultural. Que isso, todavia, possa constituir-se, retroactivamente, em factor de reformulação, e porventura de enriquecimento, da própria cultura a que não deixamos de pertencer, é natural e grato. Ultrapassar algo, tomando-o como trampolim para ir mais longe, é enriquecê-lo, mostrando limiares onde de outro modo só se experimentariam limites.
Saudade
Saudosa é a condição de toda a ex-istência. Ex-istência: ser a partir de e em exposição e abertura a, originária cisão que é intrínseco vínculo ao imo da plenitude primordial e anseio da experiência total aí possível. Como se denuncia na etimologia e na evolução semântica, é inerente à experiência da saudade a singularidade e relativa solidão, bem como a união e aspiração, em memória e desejo, ao pleroma aparentemente abandonado e à fruição de todo o possível, em reminiscência e pressentimento de uma saúde que é salvação, libertação do êxodo ex-istencial que realiza a sua mais ampla possibilidade. A saudade é in-sistência na ex-istência, ser em do que é a partir de, integração do que se cinde. Revela assim a condição in-ex-istente de tudo o que se manifesta ou percepciona como entes e coisas, a sua comum união-cisão, a sua solidária interdependência, ou seja, a sua ausência de realidade substancial e própria, independente do entrançado matricial em que se constelam e entre-são e da consciência que o percepciona, no mesmo entrançado tecida.
Pode a saudade ser predominante ou simultaneamente retrotensa, protensa e intensa. Do passado, do futuro ou do eterno instante. Todavia, sendo do passado ou do futuro, é sempre do eterno instante, mesmo que iludida o recorde e/ou deseje no passado ou no futuro. Pois só os instantes experimentados como eternos, furtando-nos ao comum encadeamento do tempo e à monotonia da sua consciência, nos trazem a glória de que há saudade. A glória dos seres e das coisas surpreendidos no esplendor da sua intemporal origem: um rosto, uma relação, uma paisagem, um cheiro, uma melodia, um sabor, um objecto antes de o ser, sempre um afecto. A afecção pela plenitude sensível, física ou não, de haver algo e simultaneamente o nada, a afecção pela graça e glória do mundo, pela glória que gratuitamente há no mundo. A comunhão primeira, sem quê, nem porquê, nem para quê, anterior ao refúgio do ser e da consciência na sub-jectividade que os agride e auto-lesa pro-jectando o que se lhe ob-jecta, os objectos perante os quais se perfila e sub-ordina, desejando-os ou rejeitando-os na mesma saudade de os não haver.
Saudade do nem sujeito nem objecto. Saudade da Festa e jogo primordial, dança arrebatada e livre dos sentidos-consciência-fenómenos, inocente nudez das delícias anteriores ao exílio do conhecimento do bem e do mal, da memória que é esquecimento, da busca de sentidos e verdades, razões e finalidades, seres, saberes, teres e afazeres. Festa anterior à insegurança, ao medo e à agressão, ao desejo, à aversão e à indiferença de uma consciência privada porque autocentrada num ilusório lugar próprio, constituído por demissão ou esquecimento da irrecusável plenitude. Festa anterior ao haver antes e depois.
Saudade de não haver saudade. Impulso de a matar na inefável Origem anterior a sê-lo. Anterior a ser Oriente.
terça-feira, 22 de julho de 2008
Política, Ascese e Santidade
"É necessário que surjam no mundo, a exemplo do que foram os frades-soldados da Idade Média, frades políticos, homens que, imolando tudo o que lhes é estritamente pessoal nas aras do geral, não queriam terras separadas do céu, nem céus separados da terra, mas sempre e sempre e sempre os dois unidos no mesmo esplendor de fraternidade, de paz e de bem-aventurança. Não se suponha, porém, que isto se fará falando ou escrevendo ou pensando; isto se fará fazendo. E fazendo pela não-intervenção absoluta na política de grupos; pela escolha, para governantes, de homens e não de legendas; pela atenção aos problemas locais e imediatos e não só aos planetários e futuros; e, como base de tudo, pela conquista e domínio de si mesmo, através do caminho único que têm apontado a experiência e os séculos: o caminho da ascese mais rigorosa e absoluta, da oração contínua e do amor dos homens em Deus e por Deus"
- Agostinho da Silva, "Política e Santidade", in As Aproximações (1960), in Textos e Ensaios Filosóficos. II, Lisboa, Âncora Editora, 1999, p.24.
Apenas acrescentaria que "ascese", neste contexto, quer dizer exercício constante da mente para superar os seus limites cognitivos e afectivos (tal como um atleta se treina para ultrapassar os seus limites físicos), que "oração" pode ser para alguns "meditação", que "homens" se pode dilatar a "todos os seres" e que "Deus" se pode traduzir por Infinito ou Natureza primordial. Sem esta ascese e este amor, creio que a política é o pior dos riscos, para si e para os outros. Mas, como diz Agostinho neste texto, é por isso mesmo que os ascetas, que buscam a santidade da não-dualidade, a ela se devem dedicar: não na esfera do confronto de grupos e partidos, mas no domínio mais amplo da sua transcensão e integração no serviço do Bem comum.
- Agostinho da Silva, "Política e Santidade", in As Aproximações (1960), in Textos e Ensaios Filosóficos. II, Lisboa, Âncora Editora, 1999, p.24.
Apenas acrescentaria que "ascese", neste contexto, quer dizer exercício constante da mente para superar os seus limites cognitivos e afectivos (tal como um atleta se treina para ultrapassar os seus limites físicos), que "oração" pode ser para alguns "meditação", que "homens" se pode dilatar a "todos os seres" e que "Deus" se pode traduzir por Infinito ou Natureza primordial. Sem esta ascese e este amor, creio que a política é o pior dos riscos, para si e para os outros. Mas, como diz Agostinho neste texto, é por isso mesmo que os ascetas, que buscam a santidade da não-dualidade, a ela se devem dedicar: não na esfera do confronto de grupos e partidos, mas no domínio mais amplo da sua transcensão e integração no serviço do Bem comum.
sexta-feira, 11 de julho de 2008
Intempestivos e Actuais - Mario Saa
"A humanidade é doente!
São sôfregos de perdão e coisas grátis e resmungam quando perdoam.
Pisam por gosto e insultam e rogam tolerância a todo o mundo!
A sociedade é um creme com granizos de pimenta e o homem em sociedade é um pingo de bílis numa cápsula.
Misérrima é a liberdade dos povos e a harmonia entre os homens!
Que enfadonha liberdade e que enfadonha harmonia!
Só o benfeitor é como a sola porque tem as mãos livres para aceitar quem as não tiver cheias para dar.
A humanidade não é odienta, enjoa! Ainda é mesquinha de mais para que possa ocultar o inconveniente!
Podre e viscosa gente, carregada de afeições, ódios e algemas; podre e viscosa gente bem mais putrefacta em terra de vivos que no campo dos mortos.
No entanto desesperei de achar melhor: resta-me porém a consolação de que algum dia acabará o reino dos estúpidos.
Mas quantos degraus lhes faltam para subir?"
- Mario Saa, Evangelho de S.Vito, Lisboa, Monteiro & Cª - Livraria Brasileira, 1917, pp.76-77 (ortografia actualizada).
São sôfregos de perdão e coisas grátis e resmungam quando perdoam.
Pisam por gosto e insultam e rogam tolerância a todo o mundo!
A sociedade é um creme com granizos de pimenta e o homem em sociedade é um pingo de bílis numa cápsula.
Misérrima é a liberdade dos povos e a harmonia entre os homens!
Que enfadonha liberdade e que enfadonha harmonia!
Só o benfeitor é como a sola porque tem as mãos livres para aceitar quem as não tiver cheias para dar.
A humanidade não é odienta, enjoa! Ainda é mesquinha de mais para que possa ocultar o inconveniente!
Podre e viscosa gente, carregada de afeições, ódios e algemas; podre e viscosa gente bem mais putrefacta em terra de vivos que no campo dos mortos.
No entanto desesperei de achar melhor: resta-me porém a consolação de que algum dia acabará o reino dos estúpidos.
Mas quantos degraus lhes faltam para subir?"
- Mario Saa, Evangelho de S.Vito, Lisboa, Monteiro & Cª - Livraria Brasileira, 1917, pp.76-77 (ortografia actualizada).
sábado, 5 de julho de 2008
Ainda a Saudade
Instantes há em que, desprevenidos e sem intenções, livres dos hábitos mentais e emocionais, subitamente nos surpreendemos trespassados de um inefável sentimento de infinito, plenitude, felicidade, potência, luminosidade e liberdade. Não somos senão isso que sentimos e sabemos então, pela mais simples evidência, ser essa a realidade e verdade primeira, última e eterna de tudo. Porque nesses instantes a plenitude que sentimos é a plenitude, não a nossa irreal plenitude, mas a plenitude de todas as coisas. A plenitude que se sente sem cisão sujeito-objecto, a plenitude que se vê sem conceito, a plenitude em que corpo, sentidos, mente e consciência são tudo a testemunhar e celebrar a sua eterna infinidade, perfeição e esplendor. Uma plenitude sem centro nem periferia, sem interior nem exterior, sem proprietário nem destinatário. Uma plenitude sem porquê nem para quê. A plenitude.
Então somos e sabemos tudo, sem nada ser nem saber. Vemos tudo, sem em nada pensar. E também vemos, quer no âmago desses instantes, quer já na sua memória reflexiva e saudosa, que não somos e nada é como antes o concebíamos. Vemos que não somos e nada é como nos dizem. Vemos que nada é, nunca foi e nunca será realmente separado disso que nos sentimos. Vemos que nada, nós, os outros, a totalidade do que antes pensávamos como seres, coisas e fenómenos, separados, finitos e limitados, com entidade, substância, forma e características próprias, com origem, duração e fim, com nascimento, vida e morte, jamais em verdade assim existiu, existe ou existirá. Tudo se revela simultaneamente inseparável, osmótico e irradiante de um não sei quê, numa glória irredutível a todo o conceito e palavra. Tudo é vazio de limites e pujante de esplendor e intensidade. Nesses instantes exultamos e o mundo é Festa. Sem porquê nem para quê. Sem quem nem quê.
E doravante se sabe que nada mais tem plena realidade, sentido e valor senão experimentar, fruir e celebrar tal plenitude. E, manifestando-a ainda, a ela logo reconduzir toda a consciência que dela se distraia, destinando se ao sofrimento, pelas vias mais adequadas à natureza da sua distracção. Por pura sensibilidade, amor e com-paixão. Sem esforço. Espontaneamente. Com a contagiante espontaneidade de ser sempre em Festa. A única Festa autêntica: aquela que tudo é, sem excepções, sem convidados.
É desses instantes, uma vez interrompida a sua não-duração, é dessa plenitude, uma vez interrompida, velada ou diminuída a fruição dela, que há a mais funda saudade, ou, melhor dizendo, a saudade, memória-desejo de perfeição e absoluto, de um Bem para além de o ser, pois sem conceito, contraste ou oposição. Porque, embora referida a pessoas e seres, experiências e estados, tempos e lugares – os encantamentos da infância, o primeiro ou um grande amor, uma amizade ou comunhão com vislumbres de eterno, os entes queridos que partiram ou se ausentaram, uma imagem, um odor, um sabor, os lugares desses deslumbramentos –, a saudade que deles havemos é afinal a saudade da glória que neles e em nós então, consciente ou inconscientemente, em maior ou menor grau, vivemos, vislumbrámos ou pressentimos. A saudade da fugaz dissolução das opacidades do mundo convencional. A saudade de rasgos para além de estarmos aquém. A saudade de um encontro íntimo. De um estar mais perto do que não sabemos. Da graça de um Bem imaculado por medos, defesas, anseios e expectativas. A saudade da realidade-verdade plena, irredutível a sê-lo.
A saudade, como indicam possíveis etimologias do seu surgimento na experiência galaico-portuguesa, da saúde primordial de todas as coisas, trocada pelo consciente ou inconsciente anelo do que a sente haver perdido, do que se sente cindido da comunhão primeira, sentindo e padecendo assim o isolamento e solidão seus e, por ventura, dos outros seres, e que por isso aspira a reintegrá-la, buscando a sua salvação ou, numa melhor possibilidade, a salvação de tudo: o comum regresso à saúde dessa plenitude primordial e sempre instante. Pois a saudade que fundamos no passado para a projectar no futuro, no anseio de um futuro onde reencontremos o bem havido, é afinal a saudade do eternamente presente, a saudade de haver vivido, momentaneamente, a plenitude do agora, de um agora que se desvendou porque, naqueles deslumbramentos, se suspenderam os nossos condicionamentos habituais e habitámos mais próximo da infinita intimidade dos seres e das coisas. A saudade que desses instantes havemos, a nimbá-los da difusa mas doirada aura do ideal, é pois a saudade dessas efémeras coincidências com o, ou tão só tangências ao, profundo coração do mundo, em que súbito nos surpreendemos integrados, acolhidos e embalados no seio de um Agora sem antes nem depois.
- pré-publicação de um excerto de Da Saudade como Via de Libertação, Lisboa, Quidnovi, 2008.
Então somos e sabemos tudo, sem nada ser nem saber. Vemos tudo, sem em nada pensar. E também vemos, quer no âmago desses instantes, quer já na sua memória reflexiva e saudosa, que não somos e nada é como antes o concebíamos. Vemos que não somos e nada é como nos dizem. Vemos que nada é, nunca foi e nunca será realmente separado disso que nos sentimos. Vemos que nada, nós, os outros, a totalidade do que antes pensávamos como seres, coisas e fenómenos, separados, finitos e limitados, com entidade, substância, forma e características próprias, com origem, duração e fim, com nascimento, vida e morte, jamais em verdade assim existiu, existe ou existirá. Tudo se revela simultaneamente inseparável, osmótico e irradiante de um não sei quê, numa glória irredutível a todo o conceito e palavra. Tudo é vazio de limites e pujante de esplendor e intensidade. Nesses instantes exultamos e o mundo é Festa. Sem porquê nem para quê. Sem quem nem quê.
E doravante se sabe que nada mais tem plena realidade, sentido e valor senão experimentar, fruir e celebrar tal plenitude. E, manifestando-a ainda, a ela logo reconduzir toda a consciência que dela se distraia, destinando se ao sofrimento, pelas vias mais adequadas à natureza da sua distracção. Por pura sensibilidade, amor e com-paixão. Sem esforço. Espontaneamente. Com a contagiante espontaneidade de ser sempre em Festa. A única Festa autêntica: aquela que tudo é, sem excepções, sem convidados.
É desses instantes, uma vez interrompida a sua não-duração, é dessa plenitude, uma vez interrompida, velada ou diminuída a fruição dela, que há a mais funda saudade, ou, melhor dizendo, a saudade, memória-desejo de perfeição e absoluto, de um Bem para além de o ser, pois sem conceito, contraste ou oposição. Porque, embora referida a pessoas e seres, experiências e estados, tempos e lugares – os encantamentos da infância, o primeiro ou um grande amor, uma amizade ou comunhão com vislumbres de eterno, os entes queridos que partiram ou se ausentaram, uma imagem, um odor, um sabor, os lugares desses deslumbramentos –, a saudade que deles havemos é afinal a saudade da glória que neles e em nós então, consciente ou inconscientemente, em maior ou menor grau, vivemos, vislumbrámos ou pressentimos. A saudade da fugaz dissolução das opacidades do mundo convencional. A saudade de rasgos para além de estarmos aquém. A saudade de um encontro íntimo. De um estar mais perto do que não sabemos. Da graça de um Bem imaculado por medos, defesas, anseios e expectativas. A saudade da realidade-verdade plena, irredutível a sê-lo.
A saudade, como indicam possíveis etimologias do seu surgimento na experiência galaico-portuguesa, da saúde primordial de todas as coisas, trocada pelo consciente ou inconsciente anelo do que a sente haver perdido, do que se sente cindido da comunhão primeira, sentindo e padecendo assim o isolamento e solidão seus e, por ventura, dos outros seres, e que por isso aspira a reintegrá-la, buscando a sua salvação ou, numa melhor possibilidade, a salvação de tudo: o comum regresso à saúde dessa plenitude primordial e sempre instante. Pois a saudade que fundamos no passado para a projectar no futuro, no anseio de um futuro onde reencontremos o bem havido, é afinal a saudade do eternamente presente, a saudade de haver vivido, momentaneamente, a plenitude do agora, de um agora que se desvendou porque, naqueles deslumbramentos, se suspenderam os nossos condicionamentos habituais e habitámos mais próximo da infinita intimidade dos seres e das coisas. A saudade que desses instantes havemos, a nimbá-los da difusa mas doirada aura do ideal, é pois a saudade dessas efémeras coincidências com o, ou tão só tangências ao, profundo coração do mundo, em que súbito nos surpreendemos integrados, acolhidos e embalados no seio de um Agora sem antes nem depois.
- pré-publicação de um excerto de Da Saudade como Via de Libertação, Lisboa, Quidnovi, 2008.
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