Mostrar mensagens com a etiqueta sociedade. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta sociedade. Mostrar todas as mensagens
terça-feira, 10 de novembro de 2009
justiça
um homem reflecte um polícia para cada homem...quem paga à polícia? a pobreza do homem?
domingo, 12 de outubro de 2008
"Achas que a vida foi vida?"
"(...) Portugal continua numa tranquilidade etérea - enquanto a economia se começa pouco a pouco a desfazer e o caos se aproxima."
Vasco Pulido Valente, "Público"
"[citando o pintor Paulo Klee] Como posso eu, cristal, morrer?
A nossa sede de ternura é infinita.
[citando Pavese] Virá a morte e terá os teus olhos."
António Lobo Antunes, "Pública"
Vasco Pulido Valente, "Público"
"[citando o pintor Paulo Klee] Como posso eu, cristal, morrer?
A nossa sede de ternura é infinita.
[citando Pavese] Virá a morte e terá os teus olhos."
António Lobo Antunes, "Pública"
sexta-feira, 11 de julho de 2008
Intempestivos e Actuais - Mario Saa
"A humanidade é doente!
São sôfregos de perdão e coisas grátis e resmungam quando perdoam.
Pisam por gosto e insultam e rogam tolerância a todo o mundo!
A sociedade é um creme com granizos de pimenta e o homem em sociedade é um pingo de bílis numa cápsula.
Misérrima é a liberdade dos povos e a harmonia entre os homens!
Que enfadonha liberdade e que enfadonha harmonia!
Só o benfeitor é como a sola porque tem as mãos livres para aceitar quem as não tiver cheias para dar.
A humanidade não é odienta, enjoa! Ainda é mesquinha de mais para que possa ocultar o inconveniente!
Podre e viscosa gente, carregada de afeições, ódios e algemas; podre e viscosa gente bem mais putrefacta em terra de vivos que no campo dos mortos.
No entanto desesperei de achar melhor: resta-me porém a consolação de que algum dia acabará o reino dos estúpidos.
Mas quantos degraus lhes faltam para subir?"
- Mario Saa, Evangelho de S.Vito, Lisboa, Monteiro & Cª - Livraria Brasileira, 1917, pp.76-77 (ortografia actualizada).
São sôfregos de perdão e coisas grátis e resmungam quando perdoam.
Pisam por gosto e insultam e rogam tolerância a todo o mundo!
A sociedade é um creme com granizos de pimenta e o homem em sociedade é um pingo de bílis numa cápsula.
Misérrima é a liberdade dos povos e a harmonia entre os homens!
Que enfadonha liberdade e que enfadonha harmonia!
Só o benfeitor é como a sola porque tem as mãos livres para aceitar quem as não tiver cheias para dar.
A humanidade não é odienta, enjoa! Ainda é mesquinha de mais para que possa ocultar o inconveniente!
Podre e viscosa gente, carregada de afeições, ódios e algemas; podre e viscosa gente bem mais putrefacta em terra de vivos que no campo dos mortos.
No entanto desesperei de achar melhor: resta-me porém a consolação de que algum dia acabará o reino dos estúpidos.
Mas quantos degraus lhes faltam para subir?"
- Mario Saa, Evangelho de S.Vito, Lisboa, Monteiro & Cª - Livraria Brasileira, 1917, pp.76-77 (ortografia actualizada).
sábado, 17 de maio de 2008
Um texto a partir do texto anterior
Por que faço, no texto anterior, a crítica aos pretensos filósofos objectivistas? Porque, a mando de falsos caprichos e irritações pessoais contra o mundo que, para eles, se divide entre leigos e não-leigos, provocando-me irritações cutâneas, como sejam os da clareza de linguagem para que a filosofia seja acessível a todos, transformam-na, na verdade, numa actividade completamente académica e desligada da realidade, das velhas com a pele enrugada pela passagem do tempo, dos agricultores e pescadores, da terra, das suas suaves, simples e profundas intuições, de crenças religioso-metafísicas acerca da realidade vividas com uma incrível intensidade, da realidade-verdade, crua, para a idealização-alienação, construída.
Vivemos a era dos cursos. Hoje, há cursos para tudo e são necessários cursos para tudo, o que é liminarmente ridículo, na medida em que é possível que o maior filósofo de sempre seja um aparente Zé-Ninguém sentado no chão, na esquina ventosa, ou um raro pastor perdido num qualquer monte longínquo. No entanto, como vivemos não só na era dos cursos, como na dos papéis, privilegiam-se os papéis, os diplomas, que não são assertivos, excepto para inglês ver.
Vivemos não só a era dos cursos e dos papéis, como a dos currículos, tal é a desconfiança de uns para outros. A maior preocupação das pessoas é fazer currículo, não só para terem a justa preocupação de melhores possibilidades de empregabilidade futura, como para defenderem socialmente um status numa sociedade cada vez mais agressiva, encolhida, receosa.
Sou contra tudo isto: cursos, papéis, currículos e, portanto, talvez infelizmente, contra o modelo social em que vivemos, embora entenda que tanta burocracia pode visar a nossa própria segurança. Talvez a solução passe, como tem vindo a ser dito desde há uns anos para cá, por uma participação social mais local, onde o contacto humano e os afectos são maiores, e onde as pessoas são mais valorizadas na sua sensibilidade e não tanto na sua capacidade funcional.
Nas cidades, as pessoas são pouco afectuosas, muito carreiristas e individualistas, "não me chateies que eu também não", vivendo no entanto a estranha condição de extremamente desligadas da sua individualidade enquanto são extremamente individualistas, porque desligadas da vida e da morte, da terra e do céu, esquecendo facilmente, pequenas peças numa complexa engrenagem.
Os filósofos não devem pensar fechados nas suas redomas pseudo-individualistas, mas individualizar-se, livremente, para a colectividade, tendo a obrigação de, como pensadores da vida e da morte, da existência, da pessoa e da sociedade, das relações, do ideal, divulgá-lo, respeitando, no entanto, a clara incerteza das nossas noções acerca do mundo, porque o humano é o ser da crença, no que respeita ao ser da realidade para lá das aparências (se esta ou aquela existem... penso que sim!) e ao futuro.
Vivemos a era dos cursos. Hoje, há cursos para tudo e são necessários cursos para tudo, o que é liminarmente ridículo, na medida em que é possível que o maior filósofo de sempre seja um aparente Zé-Ninguém sentado no chão, na esquina ventosa, ou um raro pastor perdido num qualquer monte longínquo. No entanto, como vivemos não só na era dos cursos, como na dos papéis, privilegiam-se os papéis, os diplomas, que não são assertivos, excepto para inglês ver.
Vivemos não só a era dos cursos e dos papéis, como a dos currículos, tal é a desconfiança de uns para outros. A maior preocupação das pessoas é fazer currículo, não só para terem a justa preocupação de melhores possibilidades de empregabilidade futura, como para defenderem socialmente um status numa sociedade cada vez mais agressiva, encolhida, receosa.
Sou contra tudo isto: cursos, papéis, currículos e, portanto, talvez infelizmente, contra o modelo social em que vivemos, embora entenda que tanta burocracia pode visar a nossa própria segurança. Talvez a solução passe, como tem vindo a ser dito desde há uns anos para cá, por uma participação social mais local, onde o contacto humano e os afectos são maiores, e onde as pessoas são mais valorizadas na sua sensibilidade e não tanto na sua capacidade funcional.
Nas cidades, as pessoas são pouco afectuosas, muito carreiristas e individualistas, "não me chateies que eu também não", vivendo no entanto a estranha condição de extremamente desligadas da sua individualidade enquanto são extremamente individualistas, porque desligadas da vida e da morte, da terra e do céu, esquecendo facilmente, pequenas peças numa complexa engrenagem.
Os filósofos não devem pensar fechados nas suas redomas pseudo-individualistas, mas individualizar-se, livremente, para a colectividade, tendo a obrigação de, como pensadores da vida e da morte, da existência, da pessoa e da sociedade, das relações, do ideal, divulgá-lo, respeitando, no entanto, a clara incerteza das nossas noções acerca do mundo, porque o humano é o ser da crença, no que respeita ao ser da realidade para lá das aparências (se esta ou aquela existem... penso que sim!) e ao futuro.
Reflexões várias, sobretudo sobre o anarquismo, o mal no mundo e a visão errada dos filósofos objectivistas que querem matar o misticismo
O anarquismo é um fenómeno regional, na medida em que é impossível que um grupo grande de pessoas, como acontece nas cidades, sobreviva sem leis, que deveriam existir para, infelizmente, nos protegermos uns dos outros, e sem alguém cujo trabalho é gerir o trabalho e o fruto do trabalho dos outros, papel que, de resto, está consignado aos sindicalistas no anarco-sindicalismo, sendo que, portanto, nesse modelo, os sindicatos seriam uma espécie de governo.
Não me considero comunista nem socialista, visto que o objectivo destes é o fim do Estado e a criação de uma sociedade em tudo semelhante à anarquista, com a diferença de que os primeiros propõem uma mudança mediata e os últimos imediata. Penso que a mais plausível, de entre ambas, é a mediata, porque se passássemos imediatamente para a ausência de leis muitos dos mais desfavorecidos não teriam pejo em tomar de assalto as propriedades dos mais poderosos.
O que vai mal no mundo? O que vai mal em Portugal?
Ao contrário de alguns intelectuais que peroram na Internet, não sou da opinião de que Portugal seja uma pasmaceira locus de povo inculto e apático, até porque cultura e apatia são musts de qualquer sociedade humana. Na verdade, penso que esses anglicano-americanizados, sedentos de ciência e progresso progresso PROGRESSO, rejeitam, com todo o direito, a sua própria cultura, de que se envergonham, anuindo eventualmente às breves anuições que vêm de fora, relativas ao nosso pequeno e belo pedaço de terra.
Não me considero uma pessoa culta, na medida em que esqueci muito do que aprendi no liceu, desde a História (que considero fundamental) à Ciência, passando pela Matemática. Porém, penso que a educação, o facto de sermos educados desde a mais tenra idade, visa, não tanto nem apenas, criar máquinas produtoras de uma ilusão chamada progresso (exceptuando o fantástico e benéfico progresso da medicina e das áreas necessárias para o mesmo, como a tecnologia...), mas seres humanos dotados de fortes características morais - personalidade moral -, com o objectivo de minorar os conflitos que, necessariamente, surgem ao longo da vida das sociedades, entre os indivíduos.
Penso, por isso, que o maior e menos ilusório progresso que existe, o verdadeiro, é o progresso moral, porque é esse que permitirá a criação de uma sociedade mais justa, maior qualidade de vida, incremento de felicidade em cada um de nós, não obstante o sofrimento necessário associado à existência, especialmente à humana, mais que não seja pela consciência da morte e da possibilidade do sofrimento, da dor, da incapacidade, doença e fome.
Julgo que existem demasiados filósofos preocupados em fazer da filosofia uma espécie de ciência objectiva, não obstante o seu carácter não empírico, embora exista a chamada filosofia experimental, e até entendo o seu ponto de vista, na medida em que se rebelam contra aqueles que, como eu, pouco percebem de filosofia e, não como eu, dizem que a filosofia é uma área subjectiva em que cada um interpreta à sua maneira e em que não há uma mas inúmeras leituras de uma mesma frase. Talvez tenham razão, talvez. Porém, o ponto não é esse. O que me irrita profundamente nos objectivistas, vulgo analíticos, é a sua pretensão de extrema seriedade, como se tratassem dos assuntos mais importantes do mundo. Não é verdade. A maioria das vezes tratam de questiúnculas pseudo-sérias cujas respostas em nada contribuirão para o aumento da sua ou da felicidade dos outros, nem para que encontrem um qualquer sentido maior para as suas pequenas (e sérias, muito sérias) existências.
A filosofia deve ser feita com o coração. As pessoas não são máquinas argumentativas completamente racionais, e o mundo não é completamente racionalizável. Tem de existir -e há - espaço para o misticismo e para a fantasia. Naturalmente, a luta desses filósofos pseudo-sérios, que são seres bastante recalcados, é contra o misticismo e a fantasia, porque querem transformar a filosofia numa área respeitável, distinta das demais astrologias e cartomancias, próxima da Ciência. E, na verdade, a filosofia tem mais a ver com ciência do que com as referidas intrujices, na justa medida em que o filósofo é aquele que procura conhecer - como o cientista -, respostas para perguntas que tem acerca de aspectos, que desconhece, da realidade, ou para o seu todo:
Viverei para sempre? Sempre vivi? O que é a realidade? A realidade sensorial é aparente? Deus existe?
São perguntas, eventualmente, sem resposta ou, penso que mais apropriadamente, com respostas que desconhecemos, que nos transportam, naturalmente, para outras áreas que não a filosofia, como a religião, a arte, ou mesmo para atitudes, como a contemplação ou o desprezo pela nosso anterior materialismo prático e pouco pensado. Talvez a filosofia seja, infelizmente e ao contrário do que os falsos-filósofos-objectivistas querem fazer crer, um beco sem saída ou, por outro lado, uma tenaz abertura do (nosso) ser ao mundo, ao infinito, ao misticismo que os objectivistas querem matar porque são cientistas falhados (ou outras máquinas quaisquer).
Na verdade, querem tanto sobreviver intelectualmente, que rejeitam o projecto primeiro do filósofo, aquele que mais do que um mero argumentador era uma pessoa cuja praxis de vida se coadunava com uma série de pensamentos que, no passado, lhe haviam aberto a mente ao mundo, ao espaço, à distância, à noite... ao misticismo.
Querer transformar a filosofia em algo mais do que essa abertura-aventura, mística, do ser ao ser, é a busca de um milagre (no pior sentido do termo) tão repleto de fé como o da transubstanciação.
Não me considero comunista nem socialista, visto que o objectivo destes é o fim do Estado e a criação de uma sociedade em tudo semelhante à anarquista, com a diferença de que os primeiros propõem uma mudança mediata e os últimos imediata. Penso que a mais plausível, de entre ambas, é a mediata, porque se passássemos imediatamente para a ausência de leis muitos dos mais desfavorecidos não teriam pejo em tomar de assalto as propriedades dos mais poderosos.
O que vai mal no mundo? O que vai mal em Portugal?
Ao contrário de alguns intelectuais que peroram na Internet, não sou da opinião de que Portugal seja uma pasmaceira locus de povo inculto e apático, até porque cultura e apatia são musts de qualquer sociedade humana. Na verdade, penso que esses anglicano-americanizados, sedentos de ciência e progresso progresso PROGRESSO, rejeitam, com todo o direito, a sua própria cultura, de que se envergonham, anuindo eventualmente às breves anuições que vêm de fora, relativas ao nosso pequeno e belo pedaço de terra.
Não me considero uma pessoa culta, na medida em que esqueci muito do que aprendi no liceu, desde a História (que considero fundamental) à Ciência, passando pela Matemática. Porém, penso que a educação, o facto de sermos educados desde a mais tenra idade, visa, não tanto nem apenas, criar máquinas produtoras de uma ilusão chamada progresso (exceptuando o fantástico e benéfico progresso da medicina e das áreas necessárias para o mesmo, como a tecnologia...), mas seres humanos dotados de fortes características morais - personalidade moral -, com o objectivo de minorar os conflitos que, necessariamente, surgem ao longo da vida das sociedades, entre os indivíduos.
Penso, por isso, que o maior e menos ilusório progresso que existe, o verdadeiro, é o progresso moral, porque é esse que permitirá a criação de uma sociedade mais justa, maior qualidade de vida, incremento de felicidade em cada um de nós, não obstante o sofrimento necessário associado à existência, especialmente à humana, mais que não seja pela consciência da morte e da possibilidade do sofrimento, da dor, da incapacidade, doença e fome.
Julgo que existem demasiados filósofos preocupados em fazer da filosofia uma espécie de ciência objectiva, não obstante o seu carácter não empírico, embora exista a chamada filosofia experimental, e até entendo o seu ponto de vista, na medida em que se rebelam contra aqueles que, como eu, pouco percebem de filosofia e, não como eu, dizem que a filosofia é uma área subjectiva em que cada um interpreta à sua maneira e em que não há uma mas inúmeras leituras de uma mesma frase. Talvez tenham razão, talvez. Porém, o ponto não é esse. O que me irrita profundamente nos objectivistas, vulgo analíticos, é a sua pretensão de extrema seriedade, como se tratassem dos assuntos mais importantes do mundo. Não é verdade. A maioria das vezes tratam de questiúnculas pseudo-sérias cujas respostas em nada contribuirão para o aumento da sua ou da felicidade dos outros, nem para que encontrem um qualquer sentido maior para as suas pequenas (e sérias, muito sérias) existências.
A filosofia deve ser feita com o coração. As pessoas não são máquinas argumentativas completamente racionais, e o mundo não é completamente racionalizável. Tem de existir -e há - espaço para o misticismo e para a fantasia. Naturalmente, a luta desses filósofos pseudo-sérios, que são seres bastante recalcados, é contra o misticismo e a fantasia, porque querem transformar a filosofia numa área respeitável, distinta das demais astrologias e cartomancias, próxima da Ciência. E, na verdade, a filosofia tem mais a ver com ciência do que com as referidas intrujices, na justa medida em que o filósofo é aquele que procura conhecer - como o cientista -, respostas para perguntas que tem acerca de aspectos, que desconhece, da realidade, ou para o seu todo:
Viverei para sempre? Sempre vivi? O que é a realidade? A realidade sensorial é aparente? Deus existe?
São perguntas, eventualmente, sem resposta ou, penso que mais apropriadamente, com respostas que desconhecemos, que nos transportam, naturalmente, para outras áreas que não a filosofia, como a religião, a arte, ou mesmo para atitudes, como a contemplação ou o desprezo pela nosso anterior materialismo prático e pouco pensado. Talvez a filosofia seja, infelizmente e ao contrário do que os falsos-filósofos-objectivistas querem fazer crer, um beco sem saída ou, por outro lado, uma tenaz abertura do (nosso) ser ao mundo, ao infinito, ao misticismo que os objectivistas querem matar porque são cientistas falhados (ou outras máquinas quaisquer).
Na verdade, querem tanto sobreviver intelectualmente, que rejeitam o projecto primeiro do filósofo, aquele que mais do que um mero argumentador era uma pessoa cuja praxis de vida se coadunava com uma série de pensamentos que, no passado, lhe haviam aberto a mente ao mundo, ao espaço, à distância, à noite... ao misticismo.
Querer transformar a filosofia em algo mais do que essa abertura-aventura, mística, do ser ao ser, é a busca de um milagre (no pior sentido do termo) tão repleto de fé como o da transubstanciação.
Etiquetas:
filosofia,
misticismo,
progresso,
sociedade
quarta-feira, 14 de maio de 2008
Uma breve reflexão sobre modelos sociais, o Estado e a condição humana
Quem é contra o liberalismo pela razão mais óbvia é, também, contra o anarquismo, na medida em que essa razão é a de que num modelo social liberal os patrões desrespeitariam todo e qualquer direito dos trabalhadores, visando o lucro, dada a ausência de leis ou regras, ausência também verificada num modelo anarquista, razão suficiente para o mesmo desrespeito, não obstante o facto de os anarquistas defenderem a ausência de patrões.
Acontece que a razão pela qual os anarquistas criticam o modelo liberal é a sua descrença numa suposta bondade dos patrões, o que contradiz a sua teoria de que, educado, o ser humano é capaz de se tornar um animal fraterno porque, afinal, os patrões (nada mais) são (que) pessoas. Assim, só me resta crer que os anarquistas crêem que num modelo - que não o seu - as pessoas não têm escrúpulos e, noutro - o seu -, são maravilhosas e fraternas criaturas acabadas de sair de um colorido conto de fadas, anjos caídos num qualquer paraíso astral.
Tanto os liberais como os anarquistas têm problemas com a autoridade. Os primeiros, supostamente, porque defendem a treta do mercado livre, a auto-regulação, a iniciativa privada, blá blá blá, etc. Os segundos, supostamente, porque as leis são um instrumento opressivo do Estado, criado por um grupo de pessoas maquiavélicas, diabólicas, control-freaks cujo único prazer é o controlo e a instrumentalização dos outros, coitadinhos, pobrezinhos, sem culpa nenhuma.
Na minha opinião, o Estado, essa entidade abstracta à qual oferendamos entidades concretas, é uma entidade importante. Diria mesmo que se o Estado não existisse seria imperativo que o Estado existisse. Mais que não seja, por quatro razões: serviços de saúde, educação, reformas, segurança. Infelizmente, ao contrário dos anarquistas (e sendo momentaneamente caritativo), não creio que as pessoas sejam naturalmente viradas para a bondade, fraternidade e géneros afins. Creio que se não existissem leis e punições a criminalidade seria muito maior do que actualmente é. Penso que essa possível hecatombe, que seria a ausência de leis, não se deveria a uma qualquer falha moral humana, embora possamos tê-las em excesso, mas à nossa própria condição de esfomeados, sedentos e doentes.
Qualquer que seja o modelo socio-natural em vigor, haverão - sempre - pessoas melhor adaptadas do que outras ao mesmo, ou porque são mais inteligentes ou porque são mais fortes ou porque são mais bondosas ou porque... A verdade é que, até que encontremos a pílula-contra-todos-os-males, teremos de trabalhar para comer, beber água, ter roupa, casa, medicamentos, assistência na velhice (se lá chegarmos...) e assim por diante, pois a carência é uma das mais vibrantes propriedades da condição humana.
Nesta medida, penso que, embora hajam modelos sociais mais justos do que outros, o nosso maior problema - a carência, a necessidade - nasce connosco, em cada um de nós, sendo que não se augura solução no horizonte. No entanto, como disse, o mal pode ser parcialmente remediado, através da implementação de um modelo social mais justo do que outros e, a meu ver, esse modelo passa pela existência de um Estado que legisle e que tenha dinheiro, através de impostos, que seja utilizado justamente para cumprir a única função pedida a um Estado necessário: a minoração do sofrimento humano, na senda da melhoria da condição humana.
Acontece que a razão pela qual os anarquistas criticam o modelo liberal é a sua descrença numa suposta bondade dos patrões, o que contradiz a sua teoria de que, educado, o ser humano é capaz de se tornar um animal fraterno porque, afinal, os patrões (nada mais) são (que) pessoas. Assim, só me resta crer que os anarquistas crêem que num modelo - que não o seu - as pessoas não têm escrúpulos e, noutro - o seu -, são maravilhosas e fraternas criaturas acabadas de sair de um colorido conto de fadas, anjos caídos num qualquer paraíso astral.
Tanto os liberais como os anarquistas têm problemas com a autoridade. Os primeiros, supostamente, porque defendem a treta do mercado livre, a auto-regulação, a iniciativa privada, blá blá blá, etc. Os segundos, supostamente, porque as leis são um instrumento opressivo do Estado, criado por um grupo de pessoas maquiavélicas, diabólicas, control-freaks cujo único prazer é o controlo e a instrumentalização dos outros, coitadinhos, pobrezinhos, sem culpa nenhuma.
Na minha opinião, o Estado, essa entidade abstracta à qual oferendamos entidades concretas, é uma entidade importante. Diria mesmo que se o Estado não existisse seria imperativo que o Estado existisse. Mais que não seja, por quatro razões: serviços de saúde, educação, reformas, segurança. Infelizmente, ao contrário dos anarquistas (e sendo momentaneamente caritativo), não creio que as pessoas sejam naturalmente viradas para a bondade, fraternidade e géneros afins. Creio que se não existissem leis e punições a criminalidade seria muito maior do que actualmente é. Penso que essa possível hecatombe, que seria a ausência de leis, não se deveria a uma qualquer falha moral humana, embora possamos tê-las em excesso, mas à nossa própria condição de esfomeados, sedentos e doentes.
Qualquer que seja o modelo socio-natural em vigor, haverão - sempre - pessoas melhor adaptadas do que outras ao mesmo, ou porque são mais inteligentes ou porque são mais fortes ou porque são mais bondosas ou porque... A verdade é que, até que encontremos a pílula-contra-todos-os-males, teremos de trabalhar para comer, beber água, ter roupa, casa, medicamentos, assistência na velhice (se lá chegarmos...) e assim por diante, pois a carência é uma das mais vibrantes propriedades da condição humana.
Nesta medida, penso que, embora hajam modelos sociais mais justos do que outros, o nosso maior problema - a carência, a necessidade - nasce connosco, em cada um de nós, sendo que não se augura solução no horizonte. No entanto, como disse, o mal pode ser parcialmente remediado, através da implementação de um modelo social mais justo do que outros e, a meu ver, esse modelo passa pela existência de um Estado que legisle e que tenha dinheiro, através de impostos, que seja utilizado justamente para cumprir a única função pedida a um Estado necessário: a minoração do sofrimento humano, na senda da melhoria da condição humana.
Etiquetas:
anarquismo,
condição humana,
Estado,
liberalismo,
sociedade
segunda-feira, 5 de maio de 2008
Uma breve reflexão sobre o estado das coisas a partir do lixo televiso-(des)educativo
A SIC e a TVI passam, diariamente, às tantas da madrugada, respectivamente, os programas "Quando o telefone toca" e "Sempre a somar". Este tipo de programas só é possível porque vivemos, actualmente, em condições de vida cada vez piores.
Diz-se, habitualmente, que vivemos em democracia e que esta é, supostamente, o governo para o povo, para a maioria que elegeu os deputados da Assembleia e os governantes. Mas se, de facto, quem legisla e aplica as leis e directrizes de uma nação, fá-lo para o povo, para a maioria, porque vive esta cada vez pior?
De quem é a culpa? Quais as causas desta crise? A meu entender, os culpados são os produtores e detentores das reservas mundiais de petróleo que, visando o tão almejado lucro, não olham a meios para, dia após dia, aumentar o preço daquele que, nos tempos em que vivemos, é o bem mais necessário para o homem, na medida em que o acesso a tudo o resto (e não é pouco: veja-se o acesso - e a crise de acesso - à comida) depende do acesso ao mesmo.
A verdade é que, desde o malogrado 911, o preço do barril de petróleo já mais do que dobrou, porque, se bem me lembro, estava a cerca de 50 doláres e, hoje, está a cerca de 116. Não é escandaloso? Será que a actual crise tem solução, ou estamos condenados a tornar-nos, cada vez mais, trabalhadores-consumidores descartáveis, sem quaisquer perspectivas de sucesso ou realização pessoal, sem sonhos, incapazes de vislumbrar o infinito, em busca da mera sobrevivência?
Da minha parte, acredito que é possível mudar, e isso passa, invariavelmente, por uma revolução, porventura inicialmente silenciosa, que nos leve, quiçá, para os caminhos da auto-gestão e de uma espécie de (ou aproximação ao) sonhado estado de natureza de Rousseau. O sistema tem de ser sabotado, para que seja mudado. A sabotagem passa por não consumir, por não ceder aos desejos publicitários, por empobrecer os patrões, numa suave transferência de desejo, para que eles próprios mudem.
Embora o liberalismo esteja em (final de) alta, penso que caminhamos para um mundo, uma sociedade, essencialmente de esquerda, da chamada extrema-esquerda, comunista ou mesmo anarquista. Naturalmente, isto não acontecerá em meia dúzia de anos, porque há que esgotar o já quase esgotado modelo capitalista-liberal-opressivo que vigora no mundo ocidental (em expansão para e pela China, Índia e Brasil) e substituí-lo pelo verdadeiro governo para e pelo povo que, actualmente, não passa de uma ilusão.
"Eu sou o meu próprio Comité Central", José Afonso.
Diz-se, habitualmente, que vivemos em democracia e que esta é, supostamente, o governo para o povo, para a maioria que elegeu os deputados da Assembleia e os governantes. Mas se, de facto, quem legisla e aplica as leis e directrizes de uma nação, fá-lo para o povo, para a maioria, porque vive esta cada vez pior?
De quem é a culpa? Quais as causas desta crise? A meu entender, os culpados são os produtores e detentores das reservas mundiais de petróleo que, visando o tão almejado lucro, não olham a meios para, dia após dia, aumentar o preço daquele que, nos tempos em que vivemos, é o bem mais necessário para o homem, na medida em que o acesso a tudo o resto (e não é pouco: veja-se o acesso - e a crise de acesso - à comida) depende do acesso ao mesmo.
A verdade é que, desde o malogrado 911, o preço do barril de petróleo já mais do que dobrou, porque, se bem me lembro, estava a cerca de 50 doláres e, hoje, está a cerca de 116. Não é escandaloso? Será que a actual crise tem solução, ou estamos condenados a tornar-nos, cada vez mais, trabalhadores-consumidores descartáveis, sem quaisquer perspectivas de sucesso ou realização pessoal, sem sonhos, incapazes de vislumbrar o infinito, em busca da mera sobrevivência?
Da minha parte, acredito que é possível mudar, e isso passa, invariavelmente, por uma revolução, porventura inicialmente silenciosa, que nos leve, quiçá, para os caminhos da auto-gestão e de uma espécie de (ou aproximação ao) sonhado estado de natureza de Rousseau. O sistema tem de ser sabotado, para que seja mudado. A sabotagem passa por não consumir, por não ceder aos desejos publicitários, por empobrecer os patrões, numa suave transferência de desejo, para que eles próprios mudem.
Embora o liberalismo esteja em (final de) alta, penso que caminhamos para um mundo, uma sociedade, essencialmente de esquerda, da chamada extrema-esquerda, comunista ou mesmo anarquista. Naturalmente, isto não acontecerá em meia dúzia de anos, porque há que esgotar o já quase esgotado modelo capitalista-liberal-opressivo que vigora no mundo ocidental (em expansão para e pela China, Índia e Brasil) e substituí-lo pelo verdadeiro governo para e pelo povo que, actualmente, não passa de uma ilusão.
"Eu sou o meu próprio Comité Central", José Afonso.
terça-feira, 26 de fevereiro de 2008
Uma fábula já velha?
Ofereço-vos, amigos, uma fábula do escritor de origem afegã Idries Shah. Ele tem uma dedicatória num livro, Contos dos dervixes, que diz: "Aos meus mestres, tomaram o que foi dado, deram o que não podia ser tomado". Sempre gostei muito de esta dedicatória.
OS ILHÉUS
OS ILHÉUS
"O homem comum se arrepende dos seus pecados; o eleito se arrepende da insensatez deles"
(Dh'l-Nun Misri)
(Dh'l-Nun Misri)
A maioria das fábulas contém pelo menos alguma verdade, e elas, não raro, facultam às pessoas a absorção de idéias que os modelos comuns do seu pensamento as impediriam de digerir. As fábulas, portanto, têm sido usadas pelos mestres sufistas a fim de apresentar uma imagem da vida mais em harmonia com os seus sentimentos do que seria possível por meio de exercícios intelectuais. Aqui está uma fábula sufista a respeito da situação humana, sumariada e adaptada adequadamente, como sempre deve acontecer, ao tempo em que é apresentada. As fábulas comuns de "entretenimento" são consideradas pelos autores sufistas uma forma de arte degenerada ou inferior.
Era uma vez uma comunidade ideal que vivia numa região muito distante. Seus membros não tinham temores como os que hoje conhecemos. Em lugar da incerteza e da vacilação, tinham determinação e meios mais completos de se expressar. Embora não houvesse nenhuma das tensões e pressões que a humanidade considera hoje essenciais ao seu progresso, suas vidas eram mais ricas, porque outros elementos, melhores, substituíam essas coisas. Seu modo de existência, por sua vez, era ligeiramente diferente. Poderíamos quase dizer que nossas percepções atuais são uma versão crua, provisória, das percepções reais que possuía a comunidade. Suas vidas eram reais, e não semi-vidas. Podemos chamar-lhes o povo de Al-Re.
Eles tinham um líder, que descobriu que o seu país se tornaria inabitável por um período, digamos, de vinte mil anos. Em vista disso, planejou-lhes a fuga, compreendendo que seus descendentes só conseguiriam voltar para casa depois de inúmeras tentativas. Encontrou para eles um lugar de refúgio, uma ilha cujas características se pareciam ligeiramente com as de sua terra natal. Por causa da diferença de clima e situação, os imigrantes tiveram de sofrer uma transformação, que os tornou, física e mentalmente, mais adaptados às novas circunstâncias; percepções grosseiras, por exemplo, substituíram as percepções mais finas, como quando as mãos do trabalhador manual se tornam mais calosas em resposta às necessidades do seu ofício. Com a intenção de reduzir a dor que traria uma comparação entre o estado antigo e o novo, eles foram induzidos a esquecer quase inteiramente o passado. Só ficou dele a lembrança mais vaga, embora suficiente para ser redespertada quando chegasse a ocasião. O sistema era muito complicado, mas bem ordenado. Os órgãos através dos quais o povo sobreviveu na ilha foram também transformados em órgãos de prazer, físico e mental. Os órgãos que eram construtivos em sua velha terra natal foram colocados numa espécie de inatividade provisória e ligados à lembrança vaga, preparados para sua posterior ativação.
Lenta e penosamente, os imigrantes se instalaram, ajustando-se às condições locais. Os recursos da ilha eram tais que, unidos ao esforço e a certa forma de orientação, permitiriam ao povo fugir para outra ilha, no caminho de volta ao lar original. Essa foi a primeira de uma sucessão de ilhas em que se verificou a gradativa aclimatação. A responsabilidade da "evolução" coube aos indivíduos capazes de arcar com ela. Eram, por força, apenas uns poucos porque, para a massa do povo, o esforço de manter as duas séries de conhecimentos em suas consciências revelava-se virtualmente impossível. Uma delas parecia conflitar com a outra. Certos especialistas guardavam a "ciência especial". Esse "segredo", o método de levar a efeito a transição, era nada mais nada menos do que o conhecimento das habilidades marítimas e sua aplicação. A fuga exigia um instrutor, matérias-primas, gente, esforço e compreensão. Havendo tudo isso, o povo poderia aprender a nadar e também a construir navios. A gente originalmente encarregada das operações de fuga esclareceu a todos que se fazia necessário certo preparo antes que alguém pudesse aprender a nadar ou até participar da construção de um navio.
Durante algum tempo, o processo prosseguiu satisfatoriamente. Nisso, um homem considerado, na ocasião, carecedor das qualidades necessárias rebelou-se contra essa ordem e conseguiu desenvolver uma idéia magistral: Observara que o esforço para fugir colocara um fardo pesado e, não raro, aparentemente aborrecido sobre o povo, que se mostrava, ao mesmo tempo, disposto a acreditar nas coisas que lhe contavam sobre a operação de fuga. O homem compreendeu que poderia adquirir poder e também vingar-se dos que o haviam menosprezado pela simples exploração das duas séries de fatos. Oferecer-se-ia, simplesmente, para tirar-lhes o fardo das costas, afirmando não haver fardo. E fez esta declaração: "O homem não precisa integrar a mente e treiná-la da maneira descrita a vocês. A mente humana já é uma coisa estável, contínua e consistente. Disseram-lhes que vocês precisavam tornar-se artífices para construir um navio. Pois eu lhes digo que não precisam ser artífices - não precisam de navio algum! Um ilhéu tem apenas de observar umas poucas regras simples para sobreviver e permanecer integrado na sociedade. Pelo exercício do bom senso, inato a todos, pode alcançar qualquer coisa nesta ilha, nosso lar, propriedade e herança comuns a todos!"
Tendo provocado grande interesse no seio do povo, o tagarela, em seguida, "provou" sua mensagem, dizendo: "Se houver alguma realidade em navios e em nadar, mostrem-nos navios que fizeram a viagem e nadadores que voltaram!" Era um desafio aos instrutores, que não o podiam enfrentar. Baseava-se numa suposição cujo sofisma não poderia ser detectado pelo rebanho bestificado. A verdade é que nunca tinham voltado navios da outra terra. E os nadadores, quando regressavam, eram submetidos a uma nova adaptação que os tornava invisíveis à multidão. O populacho instou para que lhe fornecessem uma prova demonstrativa. "A construção de navios", disseram os encarregados da ruga, numa tentativa de argumentar com os revoltosos, "é uma arte e um ofício. O aprendizado e o exercício dessa ciência dependem de técnicas especiais, as quais, juntas, formam uma atividade total, que não pode ser examinada por partes, como vocês estão querendo. Essa atividade contém um elemento impalpável, chamado baraka, do qual deriva a palavra 'barco' - navio. A palavra significa 'a sutileza' e não lhes pode ser mostrada." "Arte, ofício, total, baraka, tolices!", berraram os revolucionários. E enforcaram quantos artífices empenhados na construção de navios puderam encontrar. O novo evangelho foi acolhido com entusiasmo por todos os lados como um evangelho de libertação. O homem descobrira que já estava maduro! Tinha a impressão, pelo menos naquele momento, de que fora desonerado da responsabilidade. A maioria das outras maneiras de pensar foi logo absorvida pela singeleza e pelo conforto do conceito revolucionário, que passou a ser considerado um fato básico, jamais contestado por nenhuma pessoa racional. Por racional, é claro, subentendia-se qualquer pessoa que se ajustasse à teoria geral em que se baseava agora a sociedade. As idéias que se opunham aos novos conceitos foram facilmente denominadas irracionais. Todo irracional era ruim. Daí por diante, ainda que tivesse dúvidas, o indivíduo tinha de suprimi-las eu afastá-las, porque precisava ser tido por racional a todo o custo. Não era muito difícil ser racional. Bastava à pessoa aderir aos valores da sociedade. Além disso, abundavam as provas da verdade da racionalidade - contanto que as pessoas não se pusessem a pensar além da vida na ilha.
A sociedade, agora, temporariamente equilibrada no interior da ilha, parecia proporcionar uma inteireza plausível, pelo menos vista através de si mesma. Fundada na razão acrescida da emoção, fazia que ambas parecessem plausíveis. Permitia-se, por exemplo, o canibalismo com base em argumentos racionais. Descobriu-se que o corpo humano é comestível. A comestibilidade é uma característica do alimento. Por conseguinte, o corpo humano era alimento. Com a intenção de compensar as deficiências desse raciocínio, foi utilizado um artifício. Controlou-se o canibalismo no interesse da sociedade. O meio-termo era a marca registrada do equilíbrio temporário. De quando em quando alguém assinalava um novo meio-termo, e a luta entre a razão, a ambição e a comunidade produzia alguma nova norma social.
Uma vez que as habilidades necessárias à construção de navios não tinham nenhuma aplicação óbvia dentro da sociedade, o esforço poderia facilmente ser considerado absurdo. Os barcos eram dispensáveis - não havia para onde ir. As conseqüências de certas suposições podem ser levadas a "provar" as ditas suposições. É a isso que se dá o nome de pseudocerteza, a substituta da certeza verdadeira. É com isso que lidamos todos os dias, ao supor que viveremos outro dia. Mas os nossos ilhéus aplicavam-na a tudo. Dois verbetes da grande Enciclopédia universal da ilha mostram-nos como funcionava o processo:
NAVIO: Desagradável. Veículo imaginário em que impostores e enganadores asseveraram ser possível "transpor a água", o que hoje está cientificamente provado que é um absurdo. Não se conhece na ilha nenhum material impermeável à água com o qual se pudesse construir um "navio" nessas condições, sem falar na questão de saber se existe ou não uma destinação além da ilha. A MANIA DA CONSTRUÇÃO DE NAVIOS, forma extrema de escapismo mental, é um sintoma de desajuste. Todos os cidadãos se encontram na obrigação constitucional de notificar as autoridades sanitárias se acaso suspeitarem da existência dessa trágica condição em qualquer indivíduo. Veja: Natação; Aberrações mentais; Crime {Capital). Leituras: Por que os "navios" não podem ser construídos, de Smith, J., Monografia da Universidade da Ilha, número 1151.
NATAÇÃO: Repugnante. Suposto método de propelir o corpo através da água sem se afogar, geralmente com o propósito de "alcançar um lugar fora da ilha". O "estudante" dessa arte repugnante tinha de submeter-se a um ritual grotesco. Na primeira lição, tinha de deitar-se no chão e mover os braços e as pernas em resposta às instruções do "instrutor. Todo o conceito tem por base o desejo dos pretensos "instrutores" de dominar os crédulos nas épocas bárbaras.
Usavam-se as palavras "desagradável" e "repugnante" na ilha para indicar o que quer que entrasse em conflito com o novo evangelho, conhecido pelo nome de "Agradar". A intenção por trás disso era que as pessoas se agradassem dentro da necessidade geral de agradar ao Estado. O Estado passava a significar o povo todo. Não é de admirar que, desde os tempos mais primitivos, a idéia de deixar a ilha enchesse de pavor a maioria das pessoas. Da mesma forma, descobre-se um medo muito real nos prisioneiros condenados a penas demasiado longas quando se vêem na iminência de ser libertados. Qualquer lugar "fora" do local de cativeiro é um mundo vago, desconhecido, ameaçador. A ilha não era uma prisão, mas sim uma jaula de barras invisíveis, porém mais eficazes do que o seriam quaisquer barras óbvias.
A sociedade insulana foi se tornando cada vez mais complexa, e sua literatura muito rica. Além das composições culturais, havia também um sistema de ficção alegórica que mostrava o quão terrível poderia ter sido a vida, se a sociedade não tivesse se ajustado ao atual modelo tranqüilizador. Ainda assim, de tempos a tempos instrutores tentavam ajudar a comunidade a escapar. Capitães sacrificavam-se em prol do restabelecimento de um clima em que os ora escondidos construtores de navios pudessem prosseguir no trabalho. Todos esses esforços foram interpretados por historiadores e sociólogos com referência às condições da ilha, sem idéia de qualquer contato fora daquela sociedade fechada.
Produziam-se com facilidade relativa explicações plausíveis para quase tudo. Não estava envolvido nenhum princípio de ética, porque os doutos continuavam a estudar com dedicação genuína o que parecia ser verdade. "Que mais podemos fazer?", perguntavam, dando a entender, com a palavra "mais", que a alternativa poderia ser um esforço de quantidade. Ou perguntavam uns aos outros: "Que outra coisa podemos fazer?", supondo que a resposta pudesse estar em "outra coisa" - algo diferente. O seu verdadeiro problema era que eles se julgavam capazes de formular as perguntas, e ignoravam o fato de que as perguntas tinham tanta importância, em todos os sentidos, quanto as respostas. Está visto que aos ilhéus se oferecia um campo muito grande para pensar e agir dentro de seu pequeno domínio.
As variações de idéias e diferenças de opinião davam a impressão de liberdade de pensamento. Estimulava-se o pensamento, contanto que não fosse "absurdo". Permitia-se a liberdade de palavra, aliás de escassa utilização sem o desenvolvimento da compreensão, que não era levado a efeito. O trabalho e a ênfase dos navegadores teve de assumir aspectos diferentes de acordo com as mudanças verificadas na comunidade, o que lhes tornava a realidade ainda mais desconcertante para os estudantes que procuravam acompanhá-los do ponto de vista da ilha. No meio de toda a confusão, até a capacidade de lembrar-se da possibilidade de escapar podia, às vezes, transformar-se em obstáculo. A consciência emocionante da possibilidade de fuga não era muito discriminativa. Na maior parte das vezes, os ansiosos aspirantes a fujões se decidiam por qualquer espécie de substituto. Um conceito vago de navegação não poderia ser útil sem orientação. Até os mais ardentes construtores de navios em potencial tinham sido treinados para acreditar que já possuíam essa orientação. Já estavam maduros. Odiavam todos os que dissessem que eles talvez precisassem de preparação. Versões estranhas de natação e construção de navios freqüentemente excluíam, pela força do número, as possibilidades de progresso verdadeiro. Bastante censuráveis eram os advogados da pseudonatação ou dos navios alegóricos, meros mercenários, que ofereciam lições aos que ainda estavam fracos demais para nadar, ou passagens em navios que não podiam construir.
As necessidades da sociedade tinham exigido, originalmente, certas formas de eficiência e pensamento que redundavam no que se conhecia por ciência. Esse enfoque admirável, tão essencial nos campos em que tinha aplicação, acabou exorbitando do seu verdadeiro significado. O enfoque, denominado "científico" logo após a revolução "Agradar", ampliou-se até cobrir todo tipo de idéias. Finalmente, as coisas que não puderam ser contidas dentro dos respectivos limites passaram a ser conhecidas como "não-científicas", outro sinônimo conveniente de "más". As palavras eram estranhamente aprisionadas e, a seguir, automaticamente escravizadas. Na ausência de uma atitude adequada, como as pessoas que, entregues aos próprios recursos na sala de espera de um consultório, põem-se automaticamente a ler revistas, os ilhéus se absorveram na procura de substitutos da realização, que era o propósito original (e, na verdade, final) do exílio da comunidade. Alguns foram capazes de distrair a atenção, de maneira mais ou menos bem-sucedida, com atitudes principalmente emocionais. Havia séries diferentes de emoção, mas nenhuma escala adequada para medi-las. Considerava-se toda emoção "funda" ou "profunda" - como quer que fosse, mais profunda que a não-emoção. A emoção que levava as pessoas aos atos físicos e mentais mais extremos que se conheciam era automaticamente qualificada de "profunda". Em sua maioria, as pessoas costumavam escolher metas ou permitiam que outros as escolhessem para elas. Podiam consagrar-se a um culto depois de outro, ou ao dinheiro, ou à proeminência social. Algumas, por adorarem certas coisas, julgavam-se superiores a todo o resto. Outras, repudiando o que supunham ser o culto, cuidavam não ter ídolos e poder, por conseguinte, zombar com segurança de tudo o mais.
À medida que os séculos passavam, a ilha se viu juncada de destroços desses cultos. Pior do que destroços comuns, eles eram autoperpetuantes. Pessoas bem-intencionadas e outras combinaram e recombinaram os cultos, e estes voltaram a propagar-se. Para o amador e para o intelectual isso constituía uma mina de material acadêmico ou "iniciático", que dava uma reconfortante sensação de variedade. Proliferaram magníficas instalações para o gozo de "satisfações" limitadas. Palácios e monumentos, museus e universidades, institutos de saber, teatros e estádios esportivos abarrotaram a ilha. O povo, naturalmente, se orgulhava desses recursos, muitos dos quais considerava ligados, de um modo geral, à verdade fundamental, embora muito pouca gente soubesse exatamente como era isso. A construção de navios estava associada a algumas dimensões dessa atividade, mas de um jeito desconhecido de quase toda a gente. Clandestinamente, os navios desfraldaram suas velas, e os nadadores continuaram a ensinar natação. As condições na ilha não consternaram em demasia aquela gente dedicada. Afinal de contas, ela também se originara da mesma comunidade e tinha laços indissolúveis com ela e com o seu destino. Mas precisava, muito a miúdo, preservar-se das atenções dos seus concidadãos. Alguns ilhéus "normais" tentaram salvá-la de si mesma. Outros tentaram matá-la por uma razão igualmente sublime. Outros até buscaram ardentemente a ajuda dela, mas não conseguiram encontrá-la. Todas essas reações à existência dos nadadores resultavam da mesma causa, filtrada através de diferentes tipos de mentes, a saber, que quase toda a gente sabia agora em que consistia um nadador, o que ele estava fazendo e onde poderia ser encontrado.
À medida que a vida na ilha foi se tornando mais e mais civilizada, surgiu uma indústria estranha, mas lógica, consagrada a lançar dúvidas sobre a validade do sistema sob o qual vivia a sociedade. Ela logrou absorver as dúvidas acerca dos valores sociais ridicularizando-os ou satirizando-os. A atividade poderia apresentar um rosto triste ou feliz mas, na realidade, se tornou um ritual repetitivo. Indústria potencialmente valiosa, era, não raro, impedida de exercer suas funções realmente criativas. Achavam as pessoas que, tendo dado às suas dúvidas uma expressão temporária, conseguiriam, de certo modo, atenuá-las, exorcizá-las, quase aplacá-las. A sátira passou a ser considerada uma alegoria significativa; a alegoria foi aceita mas não digerida. Peças, livros, filmes, poemas, pasquins foram os meios usados para esse desenvolvimento, ainda que boa parte dele operasse em campos mais acadêmicos. Para muitos ilhéus, parecia mais emancipado, mais moderno ou progressivo seguir esse culto em lugar dos antigos. Aqui e ali um candidato ainda se apresentava a um instrutor de natação, para fazer sua barganha. E geralmente ocorria o que, na verdade, era uma conversação estereotipada
- Quero aprender a nadar.
- Quer fazer uma barganha?
- Não. Só tenho de levar minha tonelada de couve.
- Que couve?
- A comida de que precisarei na outra ilha.
- Lá existe comida melhor.
- Não sei do que você está falando. Não posso ter certeza. Preciso levar minha couve!
- Em primeiro lugar, você não pode nadar com uma tonelada de couve.
- Então não posso ir. Você chama a couve de carga. Eu chamo-lhe minha nutrição essencial.
- Suponha, como alegoria, que, em lugar de couve, prefiramos dizer "suposições" ou "idéias destrutivas".
- Levarei minha couve a algum instrutor que compreenda minhas necessidades.
Este livro fala de alguns nadadores e construtores de navios, e também de outros que tentaram acompanhá-los, com maior ou menor sucesso. A fábula não terminou, porque ainda existem pessoas na ilha. Os sufis utilizam linguagem cifrada para transmitir o que querem dizer. Mude a posição das letras do nome da comunidade original - Al-Re - e terá "Real". Talvez já tenha notado que o nome adotado pelos revolucionários - "please" (Agradar) - forma, com as letras mudadas de lugar, a palavra "asleep" (Adormecido).
Fonte: Os Sufis, de Idries Shah (1964). Ed. Cultrix
Etiquetas:
Discípulos,
mente,
mestres,
ser humano,
sociedade
Subscrever:
Mensagens (Atom)