O CAMINHO DA SERPENTE

"Reconhecer a verdade como verdade, e ao mesmo tempo como erro; viver os contrários, não os aceitando; sentir tudo de todas as maneiras, e não ser nada, no fim, senão o entendimento de tudo [...]".

"Ela atravessa todos os mistérios e não chega a conhecer nenhum, pois lhes conhece a ilusão e a lei. Assume formas com que, e em que, se nega, porque, como passa sem rasto recto, pode deixar o que foi, visto que verdadeiramente o não foi. Deixa a Cobra do Éden como pele largada, as formas que assume não são mais que peles que larga.
E quando, sem ter tido caminho, chega a Deus, ela, como não teve caminho, passa para além de Deus, pois chegou ali de fora"

- Fernando Pessoa, O Caminho da Serpente

Saúde, Irmãos ! É a Hora !


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quarta-feira, 21 de março de 2012

Entrevista de Paulo Borges ao filósofo romeno Ciprian Valcan sobre budismo, filosofia, Cioran, Oriente e Ocidente

1. Em que medida um melhor conhecimento da filosofia oriental contribui para a transformação da reflexão filosófica da tradição ocidental? No seu caso, como é que o budismo influenciou o estilo de filosofia que pratica?

Conhecer as filosofias orientais – muito diversas entre si – é indispensável para conhecer melhor a própria filosofia ocidental. Por um lado, porque algumas filosofias orientais, como a persa e a indiana, são fruto da mesma matriz linguística e cultural, a indo-europeia, com categorias muito semelhantes às do pensamento ocidental, procedente da submatriz grega do pensamento indoeuropeu. Por outro, porque outras filosofias orientais, como a chinesa e a japonesa, radicam numa matriz linguística e cultural muito distinta, configurando uma heterotopia (Michel Foucault), uma alteridade apenas por contraste com a qual se podem plenamente esclarecer as fundamentais opções que configuraram o destino da filosofia europeia-ocidental e a civilização dela surgida. Não é possível compreender a Europa e a filosofia ocidental sem as confrontar com o pensamento chinês, como hoje mostra François Jullien. O mesmo se pode dizer, embora de forma mais atenuada, da filosofia persa, indiana e tibetana (a qual, embora procedente de outra matriz linguística, incorporou muitas das categorias indianas). Se bem que ligadas a uma matriz comum, estas filosofias exploraram possibilidades muito diversas daquelas que foram sendo predominantemente privilegiadas pelo pensamento ocidental. Pese o risco de generalizações sempre falaciosas, pode dizer-se que as filosofias orientais privilegiam a experiência directa e pré-conceptual da vida e/ou do fundo indeterminado dos fenómenos, enquanto a filosofia ocidental, sobretudo desde Platão e Aristóteles, optou pela determinação conceptual do mundo com fins político-científicos. Outra grande diferença é o antropocentrismo do pensamento ocidental pós-socrático - raiz da actual crise ecológica e da devastação da Terra e dos seres vivos - perante a tendencial empatia cósmica do pensamento oriental com todas as formas de vida, vistas como iguais no seu fundo comum. Seja como for, as tradições são sempre muito mais interligadas do que as histórias da filosofia nos levam a crer. Não há culturas, mas sim entre-culturas.

Conhecer o pensamento oriental é decisivo para que o Ocidente compreenda as outras possibilidades que as suas opções sacrificaram, mas que nele permanecem latentes, por serem inerentes ao homem e ao espírito. Isto já é uma profunda transformação e possibilita imprevistas metamorfoses do pensar europeu-ocidental. Isto exige todavia o expatriamento da nossa situação cultural mais imediata, que nos permita vê-la de fora, panoramicamente. Isto exige um pensamento nómada, que não se ancore numa dada matriz linguístico-cultural, mas viva em constante viagem no espaço entre todas elas. É esse o projecto da revista que dirijo, Cultura ENTRE Culturas.

Encontrei o budismo ao terminar a licenciatura em Filosofia, em 1981, e reconheci nele o que já era e vivia antes de o saber. Senti o mesmo em relação a alguns pensadores portugueses contemporâneos, que descobri na mesma altura. Essas influências, o budismo, sobretudo Nagarjuna, Longchenpa, Hui Neng, Linji, Dogen, Chögyam Trungpa, Thich Nhat Hanh, o tantrismo e o Dzogchen tibetanos, os mestres com quem estudo pessoalmente, a prática quotidiana da meditação, pensadores e poetas portugueses como Antero de Quental, Sampaio Bruno, Teixeira de Pascoaes, Fernando Pessoa, José Marinho, Eudoro de Sousa e Agostinho da Silva, mas também Eckhart, Rumi, Nietzsche, Cioran e poetas e místicos de todas as tradições, têm-me ajudado a esclarecer as mais gratas experiências que remontam à infância: o sentimento agudo da estranheza de existir e haver realidade, vivido até à iminência da exaustão e loucura; a comunhão disso com um amigo de jogos de rua, cerca dos 8 anos de idade; a iniciação adolescente à consciência sem sujeito nem objecto e ao sentimento de ser todo o mundo-ninguém por via da música, da dança e da experiência erótico-sexual e amorosa; a experiência do espaço aberto ao sair da Universidade de Lisboa, no fim das aulas de Filosofia, com a mente livre de todo o artifício conceptual; a mesma liberdade nas longas caminhadas por montanhas e florestas, pelas colinas de Lisboa e ao entardecer nos miradouros sobre o Tejo; a contemplação do oceano no finisterra português e a saudade de um não sei quê; o brilho das coisas nos muros caiados de branco; a vida sem quem nem quê, sem porquê nem para quê, livre e infinita. De tudo isso vem e a tudo isso regressa o meu pensar, mais directamente expresso em A cada instante estamos a tempo de nunca haver nascido e Da saudade como via de libertação (2008), além de na ficção Línguas de Fogo (2006).

2. Como se produziu a sua conversão ao budismo? Foi uma escolha racional ou um puro acto de fé?

Não me sinto convertido ao “budismo”. Na verdade não me interessa tanto o budismo histórico e institucional, mas antes a experiência de Buda, o Despertarda mente-coração na sua natureza primordial, livre de condicionamentos conceptuais-emocionais e das decorrentes convenções sócio-culturais. É isso que encontro nos mestres e em muitos homens exemplares de todas as tradições espirituais, bem como na agnóstica e ateia. Deus procede de uma raiz indo-europeia que significa “o que brilha” e a experiência dessa luz que há na consciência, para além de budologias e teologias, de religiões e filosofias, é a mesma em todo o homem, religioso, agnóstico ou ateu.

Dei por mim a seguir a via do Buda por experiência, caminho do meio para além da razão e da fé. Pessoalmente aprecio nela várias qualidades: o espírito iconoclasta, patente no “Se vires o Buda, mata-o!” de Linji, pois o Despertar não é alguém ou algo exterior; ser experimental e não dogmática, pesem os desvios de muitos budistas; ter uma ética global que não exclui nenhum ser senciente, como os animais; assumir-se como mero meio a ultrapassar, pois o que importa não é ser budista e sim Buda; e, sobretudo, a qualidade e inspiração dos mestres vivos que a ensinam. Contudo o meu interesse pelo budismo estende-se a todas as religiões e vias espirituais, formas diferentes de conduzir pessoas com distintas tendências, capacidades e condicionamentos histórico-culturais a um mesmo objectivo: a plena descoberta de quem desde sempre são.

3. Como veio a conhecer a obra de Cioran e que significado teve para si o contacto com esta obra?

Há algo em mim tão afim que não poderia deixar de a encontrar. É como se Cioran expressasse toda a revolta, desespero e pulsão niilista da minha adolescência e juventude, mas hoje não é tanto isso que na sua obra me interessa, lamentando que fique demasiado refém disso e de uma dolorosa ausência de amor e compaixão. Interessa-me nele o iconoclasmo místico e, sobretudo, as aberturas a uma transfiguração redentora. Cioran poderia ter escrito apenas o seguinte trecho de Sur les Cimes du Désespoir, no qual me reconheço inteiramente: “Gostaria de perder a razão com uma única condição: ter a certeza de me tornar um louco alegre e jovial, sem problemas nem obsessões, folgazão de manhã à noite. Se bem que deseje ardentemente êxtases luminosos, não os quereria no entanto, pois são sempre seguidos de depressões. Quereria, em contrapartida, que um banho de luz de mim brotasse para transfigurar o universo – um banho que, longe da tensão do êxtase, conservaria a calma de uma eternidade luminosa. Teria a ligeireza da graça e o calor de um sorriso. Quereria que o mundo inteiro flutuasse neste sonho de claridade, neste encanto de transparência e imaterialidade. Que não haja mais obstáculo nem matéria, forma ou confins. E que, neste paraíso, eu morra de luz”.

Cioran inspira a mais ousada e radical aventura: transcender todos os limites do pensamento, da vida e da existência e sobreviver para o dizer ou gritar, com uma mestria literária que enobrece as ruínas do mundo. Inspira-me também nele o que encontro em portugueses como Pascoaes e Pessoa: na periferia da cultura europeia dominante, agudamente conscientes do fim de ciclo da sua civilização, serem movidos pelo ímpeto de libertação dos ídolos dessa mesma cultura e civilização, sem se deterem no limite do humano, numa titânica hybris de superação de tudo, do sujeito e de si mesma, numa nostalgia ou saudade violenta do incondicionado, irredutível à constituição do sujeito no mundo e fundo sem fundo de toda a experiência. Fascina-me o modo como em Cioran o génio literário serve um obsessivo e minucioso ajuste de contas com todas as ficções da consciência, da história e da cultura, escalpelizadas e reduzidas a cinzas pelo cirúrgico e cáustico bisturi do aforismo e do pensamento incendiado na veemência da insónia, da febre e da blasfémia, mas também do entusiasmo extático e transfigurador. E também a assumida inspiração no primitivismo dos camponeses das montanhas romenas e na pulsão herética da sua cultura popular, semelhante ao que em Portugal acontece com Teixeira de Pascoaes ou Agostinho da Silva. Cioran mostra aliás conhecer as fundas afinidades entre a cultura romena e a portuguesa. Num dos seus Entretiens assume a “nostalgia sem limites”, inerente à fugacidade da experiência temporal do absoluto, como fundadora da sua visão do mundo e acrescenta: “Este sentimento liga-se em parte às minhas origens romenas. Ele impregna ali toda a poesia popular. É uma dilaceração indefinível que se diz em romeno dor, próxima da Sehnsucht dos Alemães, mas sobretudo da Saudade dos Portugueses”.

Fiz uma conferência sobre Cioran e Fernando Pessoa na Universidade de Gröningen, na Holanda, em 2009, que publiquei na revista Arca graças a Ciprian Valcan e que incluí no meu último livro sobre Pessoa: O Teatro da Vacuidade ou a impossibilidade de ser eu (2011).

4. Qual a recepção actual da obra de Cioran em Portugal?

Nos últimos anos tem havido um aumento de traduções que estão a ser recebidas com muito interesse, mas creio que até agora só há um estudo publicado: João Maurício Barreiros Brás, O pensamento insuportável de Cioran. Um itinerário do desespero à lucidez (2006).

5. Qual o papel da filosofia na nossa época? Crê que a filosofia chegou ao fim do seu caminho ou tem hipóteses de sobreviver?

Tudo o que tem início tem fim e a filosofia, se a identificarmos com a modalidade logocêntrica e conceptual surgida na Grécia e sobretudo com a sua vertente académica e institucional, está a esgotar-se, pelo afastamento da vida e de outras possibilidades do espírito. A filosofia deixou em geral de ser um modo de vida integral, como nas escolas filosóficas gregas (como recordou Pierre Hadot) e indianas, para se tornar uma actividade meramente intelectual, com uma linguagem técnica hiper-especializada em questões estéreis, que nada dizem às fundamentais aspirações humanas. Essa filosofia traiu a própria vocação, enquanto amor da sabedoria, do saber/sabor da essência da vida, e nesse sentido o seu triunfo é a sua morte.

Por outro lado, se considerarmos filosofia as múltiplas formas do pensamento planetário que visam a sabedoria - um saber que nos converte naquilo que sabemos e promove uma vida mais plena e solidária - , então essa filosofia é perene enquanto conatural ao exercício consciente do viver e sempre se renova em função dos novos lances do jogo do mundo. No que respeita à filosofia ocidental, creio que o seu renascimento depende do diálogo com esses outros paradigmas não-ocidentais e sobretudo do reencontro com a vida e o infinito que nela se abre. Necessitamos de um novo início: repensar tudo na experiência mais imediata, a do indeterminado pré-conceptual. Não a partir de Deus, do homem, do mundo ou de qualquer outro pressuposto, não “a partir de”, mas nisso que a cada instante antes de se pensar e se abre entre cada pensamento, palavra e fenómeno. Isso implica morte e renascimento contínuos: viver sem apoios.

6. A prática do aforismo ou do fragmento poderia contribuir para dar um novo alento à filosofia ocidental, mais aberto e menos dogmático?

A filosofia nasce do espanto balbuciante não só perante o haver algo, mas também perante o nada desse haver. Só aí pode re-nascer a cada instante, incinerando todos os conceitos, métodos e sistemas. O aforismo e o fragmento são o mais eloquente dizer desse gritante silêncio que há no aparecer das coisas. Neles a filosofia regressa à sua matriz místico-poética, anterior à violência do conceito que a extirpou do espanto original, como diz Maria Zambrano.

7. Crê que se pode falar de um declínio geral da civilização ocidental ou olha para o futuro com esperança? A civilização oriental poderia oferecer um modelo para este Ocidente que padece de niilismo?

Procuro viver e pensar para além do medo e da esperança. No plano colectivo, feito desse medo e esperança, creio assistirmos ao fim do que se convencionou chamar Ocidente e Oriente, que progressivamente se fundem numa nova civilização global que exteriormente tem um cunho ocidental - económico e tecnológico - , mas que arrisca uma vida curta e o iminente colapso social e ecológico se interiormente e ao nível da liderança não reencontrar a espiritualidade e a ética que presidiram ao melhor do Ocidente e do Oriente tradicionais, mas agora em termos laicos e trans-religiosos. Foi o que anunciou Fernando Pessoa, ao interpretar o maior mito profético da cultura portuguesa, o do Quinto Império, como uma era do espírito e da cultura que deverá fundir e elevar a uma superior síntese civilizacional a essência de Grécia, Roma, Cristandade e Europa, incorporando ainda o melhor de todas as culturas e civilizações mundiais num amplo universalismo. Antevejo essa superior síntese como uma nova aliança com a Terra e todos os seres vivos, fundada numa consciência holística e numa ética cósmica.

O niilismo ocidental resulta da incapacidade de se suportar habitar po-eticamente esse “vazio” aberto pela “morte de Deus” proclamada pelo “louco” nietzschiano: “Para onde vamos nós próprios? […] Não estaremos incessantemente a cair? Para diante, para trás, para o lado, para todos os lados? Haverá ainda um acima, um abaixo? Não estaremos errando através de um vazio infinito? Não sentiremos na face o sopro do vazio?”. Nesse aspecto, a espiritualidade oriental, mas também a de Plotino, Eckhart ou a heteronimia de Pessoa, podem ajudar-nos a descobrir nesse abismo o nosso próprio rosto e o de todas as coisas: o infinito exuberante de todos os possíveis, Todo o Mundo-Ninguém.

- Entrevista publicada em "Orizont" (Revista da União dos Escritores da Roménia), nr. 2 (1553), Ano XXIV, nova série, 28 de Fevereiro de 2012. Traduzida para romeno por Maria João Coutinho e Simion Cristea.

http://www.revistaorizont.ro/

domingo, 6 de novembro de 2011

banquete filosófico: do amor platónico (e de outras coisas que nos fazem suspirar)


2500 anos depois, regressa o Symposium
«Para alguns intérpretes, o conceito de amor em Platão em O Banquete é irracional e explicado pela natureza.»
e para si, o que é o amor?
 
venha partilhar connosco. garantimos boa disposição e um menu confeccionado pelas mãos do grande chef José Besteiro.
+ info: joebest@dacozinha.net

domingo, 30 de outubro de 2011

banquete filosófico: do amor platónico (e de outras coisas que nos fazem suspirar)


venha comemorar o Dia Mundial da Filosofia, entre comida para o corpo e alimento para o espírito.

informações via e-mail: joebest@dacozinha.net

quarta-feira, 29 de junho de 2011

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Sentir Pensamentos | Pensar Sentidos


No sentido de divulgar a filosofia para crianças em Portugal e promover o diálogo entre os profissionais da área, o projecto Filosofia para Crianças, Criatividade & Meia Dúzia de Chapéus às Cores® em parceria com o Colégio D. José I vai organizar o I encontro de Filosofia para Crianças e Criatividade, intitulado «Sentir pensamentos | Pensar sentidos».

O evento terá lugar em Aveiro (local a designar), no dia 19 de Fevereiro.


A parte da manhã, aberta ao público em geral, será destinada a comunicações com duração máxima de 30min; e na parte da tarde pretende-se criar um espaço para reflexão conjunta, sendo destinada aos profissionais da área.

Consulte o blog e a página do Facebook.

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Filosofia ou arte?

Como poderia o logos dizer o ser, se o verbo é originariamente arbitrário e metafórico? Como a crise do logos arrasta a crise da arché, resta a tragédia do «solo como rio»: «Que buscamos? Uma vida segura face ao trágico possível ou o risco metafórico duma linguagem poética que nos torne nus diante do destino? Uma economia ou um excesso? Monossemia de definições utilitárias ou disseminação polissémica inesgotável duma linguagem aberta ao futuro? Este o ponto mais alto do debate do Ocidente, entre dois dos maiores pensadores que o balizam»(1). Independentemente da validade deste equacionamento, os dois pensadores, Aristóteles e Nietzsche, vivem em contextos histórico-culturais distintos a todos os níveis. Na Poética, embora se defenda uma boa vizinhança entre Filosofia e Tragédia, a racionalidade e a Filosofia estão em alta; em Acerca da Verdade e da Mentira no Sentido Extramoral, em particular, e na obra de Nietzshe, em geral, a Arte aparece como feiticeira e metafísica salvadora das proclamadas mortes das duas matrizes do pensamento Ocidental, a saber, a razão (grega) e a fé (cristianismo).

(1) - Fernando Belo, Leituras de Aristóteles e de Nietzsche, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 1994, pp.175-198

António Azevedo, Pessoa e Nietzsche, Lisboa, Instituto Piaget, 2005, p.201

sexta-feira, 11 de junho de 2010

Entrevista dada a Gisela Martins, sobre a Filosofia, para um trabalho no Ensino Secundário

1 - Para si, como professor, como pessoa, como filósofo, o que significa a filosofia e qual é a sua grande utilidade?

A filosofia, como o seu nome indica, é o “amor da sabedoria”, que entendo como conhecimento global dos vários aspectos da realidade e prática do melhor modo de viver, para o bem de todos os seres sencientes, humanos e não humanos. Isto inclui o respeito pela natureza e pelo equilíbrio ecológico. Creio ser importante recuperar a tradição da filosofia como “modo de vida”, como acontecia na Grécia antiga e hoje ainda acontece na Índia. A filosofia degenerou ao tornar-se um exercício meramente intelectual, escolar e livresco, que muitas vezes não transforma a vida de quem a supõe exercer.

2 - Pode afirmar-se a existência de uma filosofia portuguesa?

A filosofia, na sua essência e no seu exercício pelos filósofos, nunca será portuguesa, francesa, alemã ou chinesa, nunca será nacional, mas, na sua expressão histórico-cultural, é legítimo falar-se de tradições específicas e algo diferenciadas em cada nação, também devido ao modo como a língua condiciona até certo ponto o modo de pensar. É o que acontece em Portugal.

3 - Quais os filósofos portugueses que mais se notabilizaram na época moderna e contemporânea?

Sem esquecer o medieval Pedro Hispano e o renascentista Leão Hebreu, recordo Francisco Sanches, que pode ter influenciado Descartes, e depois Amorim Viana, Antero de Quental, Sampaio Bruno, Teixeira de Pascoaes, Leonardo Coimbra, Raul Brandão, António Sérgio, Raul Proença, Fernando Pessoa, Raul Leal, José Marinho, Álvaro Ribeiro, Delfim Santos, Agostinho da Silva, Eudoro de Sousa, Vergílio Ferreira, Vasco de Magalhães-Vilhena, Abel Salazar, Vieira de Almeida, António Quadros, Orlando Vitorino, Afonso Botelho e Fernando Gil. Isto entre muitos outros e não falando dos que estão vivos. Alguns expressaram o seu pensamento poeticamente, o que é frequente em Portugal.

4 - A filosofia tem uma utilidade em diversos contextos ou é redutível a um conjunto de especulações teóricas?

A filosofia tem a grande utilidade de questionar e indagar o que é útil nos diversos contextos e até de questionar se algo tem de ser útil para ser valioso. As especulações teóricas nunca são redutíveis a si próprias, pois o que pensamos traduz-se sempre no modo como vivemos e agimos. Uma especulação teórica já é uma acção, que não nos deixa mentalmente iguais e que tende a expressar-se no mundo.

5 - O que significa para si a dimensão da filosofia?

Não sei bem o que quer dizer com “dimensão da filosofia”, mas diria ser a da experiência da visão, do espanto, da interrogação perante o haver algo e da busca de compreender tudo isso.

6 - Qual é o melhor argumento para se seguir e ter gosto por filosofia?

Duvido que se siga e tenha gosto pela filosofia devido a argumentos. A filosofia é uma vocação com que se nasce ou algo que se pode cultivar na medida em que sejamos capazes de não nos conformar com opiniões, tradições e ideias feitas, ousando a experiência de pensar por si mesmo em diálogo com os grandes pensadores e, mais importante, com a experiência profunda da vida.

7 - Em que medida a lógica formal é importante no âmbito da actividade filosófica?

É um bom instrumento para pensar conceptualmente e expressar rigorosamente o que pensamos, mas devemos precaver-nos de reduzir a isso a filosofia, que deve abrir os conceitos e a sua lógica ao impensado que surge em múltiplas formas da experiência humana: religiosa, estética, ética, política.

8 - Que importância tem o budismo na sua vida?

O chamado budismo é a via que sinto mais adequada ao que busco, realizar plenamente as minhas potencialidades cognitivas e afectivas, aceder ao estado de Buda, pois é a que mais me exige: ver as coisas tal qual, para além de véus conceptuais e emocionais, e amar incondicional e imparcialmente todos os seres vivos. É a via para além de todas as vias e de todos os “ismos”, incluindo o “budismo”. É a via sem via para se ser o que no fundo desde sempre se é.

9 - Poderão os filósofos contribuir para a resolução dos problemas que actualmente a sociedade portuguesa atravessa?

Todos os problemas, agora e sempre, onde quer que surjam, apenas se devem à falta de sabedoria vivida e praticada, que não seja um mero conhecimento intelectual. Um filósofo que realmente o é, na medida em que viva filosoficamente, como foi o caso de um Agostinho da Silva, é o melhor conselheiro de uma sociedade, que deve tomá-lo como exemplo. O problema é que os homens dificilmente estão disponíveis para reconhecer e escutar os filósofos e ainda menos os sábios, pois estes nada prometem e antes tudo exigem, e o mais difícil, de cada um de nós. Os homens preferem dar ouvidos a todo o tipo de promessas dos comerciantes, dos publicitários e desses outros comerciantes e publicitários que são hoje os políticos, mesmo sabendo, lá bem no fundo, que são sempre falsas e que só visam enganá-los. Ou então preferem anestesiar-se com tóxicos, incluindo esses tóxicos lentos e invisíveis que são o consumismo e o futebol, entre outros. Esse é um dos grandes problemas da sociedade portuguesa actual e do mundo em geral, que caminha anestesiado para a catástrofe económica e ecológica. A sua solução implica uma profunda mudança, que será dolorosa pois implica a renúncia involuntária aos nossos hábitos mais enraizados.

10 - Caso possa, gostaria de deixar alguma mensagem para os jovens?

Tomem consciência de que não serão jovens para sempre e, antes que vocês próprios, a sociedade, a doença, a velhice e a morte vos corrompam, não vão atrás das propagandas oficiais familiares, escolares, sociais e políticas, despertem das ilusões que regem o mundo, antecipem em vocês a mudança que desejam, sejam felizes e tornem-se contagiantes! Nunca pensem a uma escala estreita: não queiram só o vosso bem, nem o dos vossos parentes, amigos, concidadãos ou membros da mesma espécie. Esforcem-se por um mundo melhor para todos os seres! É isso que abre a mente e o coração e torna a vida digna de ser vivida.

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

com a filosofia resisti para lutar

'o sofrimento sempre renovado dos homens o seu protesto recriado, a sua luta sempre renovada. tudo seria vão porque o sofrimento é eterno, e as revoluções não sobrevivem às suas vitórias. mas o sucesso de uma revolução só reside nela própria, precisamente nas vibrações, nos enlaces, na abertura que deu aos homens no momento em que se fazia.'
gd

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

um mesmo oceano para todas as gotas

'às distribuições sedentárias da analogia opõem-se as distribuições nómadas ou as anarquias coroadas no unívoco. somente aí retinem «tudo é igual!» e «tudo retorna» mas o tudo é igual e o tudo retorna só podem ser ditos onde a extrema ponta da diferença é atingida. uma mesma voz para todo o múltiplo de mil vias, um mesmo oceano para todas as gotas.

um só clamor do ser para todos os entes.

mas à condição de ter atingido, para cada ente, para cada gota e em cada via, o estado do excesso, isto é a diferença que os desloca e os disfarça, e os faz retornar, girando sobre a sua ponta móvel'.
g. deleuze

pensando bem o fp e gd bebiam do mesmo bagaço.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

caminho separado

o cérebro humano apresenta com o cérebro animal uma simples diferença de grau ou toda uma diferença de natureza?
quanto a mim o cérebro humano não difere do animal em quantidade, mas numa tendência que o faz caminhar para uma diferença de natureza; o que separa o homem, cada vez mais, do mundo animal.

(reflexão sobre um texto de bergson)

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

pois é...será?

'é por isso que o filósofo tem muito pouco prazer em discutir. os filósofos fogem quando ouvem a frase: vamos discutir um pouco.
as discussões são boas para as mesas redondas, mas é sobre uma outra mesa que a filosofia joga os seus dados cifrados.
as discussões o mínimo que se pode dizer é que elas não fazem avançar o trabalho, já que os interlocutores nunca falam da mesma coisa.'

gilles deleuze-félix guattari, o que é a filosofia?

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

bom natal

'a criação a partir de nada exprime o carácter não-divino, não essencial, isto é, a nulidade do mundo. o nada a partir do qual o mundo foi criado, é o seu próprio nada.'
l.feuerbach

estava tudo muito bem se não fosse a existência
à luta

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

EnTre os pioneiros de uma Filosofia da Saudade

"Os Portugueses são mais saudosos que outros povos, o que permite um sentimento único de Amor e Ausência - os pais da Saudade."
D. Francisco Manuel de Melo

"A saudade provém do coração, não provém do entendimento. É um bem que se padece e um mal que se deseja. Amarga e doce, triste e alegre. Na saudade fundem-se os contrários."
D. Duarte

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Filosofia

Observada a racionalidade, olhando para os seres, deve-se fazer a análise atenta e discernir quem a possui. Ela é coisa livre, saudável e mágica. Porque se as escolhas são infinitas e se de facto a vida é uma coisa assim tão excepcional, então por que será que a humanidade não faz outra coisa que não seja deambular pela morte? Destruindo-se e limitando os destinos dos demais! Numa pintura isto seria descrito através de uma paisagem sombria onde todos caminham acorrentados, com uma venda nos olhos, calcando-se e ferindo os demais com os seus movimentos desmedidos e insensatos. A justiça, o amor, a sabedoria e a verdade, quando a partir do divino, são caminhos firmes e férteis, de prosperidade. Mas quando humanas, são pântanos inseguros e traiçoeiros! Que promessas são essas que a democracia nos faz, essa assassina de democratas e que ecos são esses das ditaduras lá atrás, essas castradoras de homens livres? Ainda que se queimem livros, oculte informação e se silencie quem a verdade quer divulgar, nenhuma informação ficará perdida! Pois toda a informação encontra-se nas almas dos viventes. Toda a informação que é transmitida não passa de um mero fragmento, por vezes é só um esboço mal acabado de tudo aquilo que desejaríamos transmitir. As comunicações tornaram-se diálogos de surdos, duas pessoas sentadas, sem mais ninguém, de fim-de-semana, mas cheias de pressa! As pessoas mesmo durante o sono estão cheias de pressa, correm para apanhar o comboio do despertar.

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

devir revolucionário

o plano de imanência onde pululam os conceitos é o princípio da filosofia.

O conceito não é um movimento unilateral (uma luz dirigida para a coisa), mas sim imanente à realidade, brota dela e serve justamente para torná-la compreensível. O conceito não é uma representação, muito menos uma representação universal, é uma aventura do pensamento. Todo o conceito é um multiplicidade, totaliza oe seus componentes ao constituir-se, mas é sempre um todo fragmentado, o próprio conceito é uma problematização, um devir revolucionário no infinitamente pequeno, um pensar molecular, desterritorializado e sempre territorializado lateralmente, horizontalmente, nunca hierarquicamente, verticalmente.

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

O Vício de Pensar

O vício de pensar é porventura dos mais daninhos que se abateu sobre a humanidade e quanto mais felizes seríamos se pudéssemos regressar a tempos que, simbolicamente, chamaríamos de ante-pré-socráticos, quando a filosofia ainda não aparecera com a pretensão de substituir o conto de fadas, ou até antes disso, quando o conto de fadas ainda não aparecera com a presunção de substituir a vida.
Agostinho da Silva

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Os Véus da Linguagem

As pessoas continuam falando que a filosofia não progride realmente, que continuamos ocupados com os mesmos problemas filosóficos que preocupavam os gregos. Isto porque a nossa linguagem permaneceu a mesma e continua nos seduzindo a perguntar as mesmas questões. Até quando continuar existindo um verbo `ser' que parece funcionar do mesmo modo que o verbo `comer' e `beber', até quando continuarmos tendo os adjetivos `idêntico', `verdadeiro', `falso', `possível', até quando continuarmos a falar de um rio do tempo, de uma porção (expanse) do espaço, etc. etc., as pessoas continuarão tropeçando sobre as mesmas dificuldades enigmáticas e encontrar-se-ão olhando fixamente para algo que nenhuma explicação parece capaz de clarificar.
Wittgenstein

fonte:http://jonadas.blogspot.com/2006/02/traduo-de-algumas-passagens-de-culture.html

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

imanência

os princípios em filosofia são gritos, em torno dos quais os conceitos desenvolvem verdadeiros cantos, as multiplicidades são elas mesmo no momento em que passam ao estado de substantivo, são a própria realidade e não supõem nenhuma unidade e tampouco remetem a um sujeito, os seus princípios característicos concernem aos seus elementos, às suas relações que são devires, aos seus acontecimentos que são ecceidades (quer dizer, individuações sem sujeito; aos seus espaços tempos que são espaços e tempos livres; ao seu modelo de realização que é o rizoma; ao seu plano de composição, que constitui planaltos, aos vectores que atravessam e que constituem territórios e graus de desterritorialização.

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

potência de ser feliz

eu diria que à medida que as ideias se sucedem em nós, cada uma tendo um grau de perfeição um grau de realidade ou de perfeição intrínseca, que têm essas ideias, eu, continuo a passar de um grau de perfeição para outro. Noutros termos existe uma variação continua sob a forma de aumento-diminuição-aumento-diminuição da potência de actuar ou da força de existir de acordo com as ideias que temos.


deleuze, aula sobre espinoza (1978)

terça-feira, 1 de setembro de 2009

existência budismo

'como vimos, ele crê que o amor pode vencer o ódio: «O ódio aumenta com a riprocidade e pore ser destruído pelo amor; e o ódio completamente vencido passa a amor; e em consequência é maior do que se o ódio não o predecesse.» eu desejaria crê-lo, mas não posso, excepto no caso excepcional em que a pessoa que odeia está completamente em poder de aquela que recusa odiar. em tal caso a supresa de não punido pode ter efeito reformador; mas se o culpado tem poder não será fácil convencê-lo de que não o odiamos; ele atribuirá essas palavras a motivo suspeito. e não o privaremos da força pela não-resistência.
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penso que os factos particulares são o que são e não ficam diferentes pela absorpção em um todo. cada acto de crueldade é eternamente parte do universo; nada pode ulteriormente tornar bom o que era mau nem conferir perfeição ao todo de que ele é parte.
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às vezes conforta reflectir que a vida humana com todo o seu mal e sofrimento é parte infinitésima da vida do universo. tais reflexões não bastam para constituir uma religião, mas no mundo doloroso são auxilio salutar e antídoti contra o desespero completo.

b. russell