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quarta-feira, 25 de agosto de 2010
Ser
Quer saia da boca de um merceeiro ou de um filósofo, a palavra ser, tão rica, tão tentadora, tão carregada de significado na aparência, não quer afinal dizer coisa nenhuma. É inacreditável que um espírito sensato possa recorrer a ela seja em que ocasião for.
E. M. Cioran
E. M. Cioran
sábado, 24 de julho de 2010
Quem somos quando nada fazemos mas estamos presentes?
"Em termos do sentimento individual de quem somos, a maioria de nós identifica-se fortemente com os papéis que desempenhamos na vida quotidiana, por exemplo, pais, esposos, filhos, estudantes ou pessoas numa certa profissão. Tais papéis são importantes e eles definem-nos nas nossas inter-relações sociais. Mas, tirando as nossas relações específicas com outras pessoas e os tipos de actividades em que nos envolvemos regularmente, o que fica? Quem somos nós quando nos sentamos calmamente nos nossos quartos, nada fazendo mas estando presentes?"
- B. Alan Wallace, Mind in the Balance. Meditation in Science, Buddhism and Christianity, Columbia University Press, 2009.
- B. Alan Wallace, Mind in the Balance. Meditation in Science, Buddhism and Christianity, Columbia University Press, 2009.
terça-feira, 10 de novembro de 2009
Ser Livro Aberto

"Sou como um livro aberto
Levando a vida com alegria
...
Cada página fica a descoberto
...
Quero meu livro partilhar
...
Simplesmente quero apenas ser
Uma página fácil de ler
...
Cultivando a amizade por aqui,
Afinal um Ser humano vulgar"
de Jorge Brites
terça-feira, 13 de outubro de 2009
Os Véus da Linguagem
As pessoas continuam falando que a filosofia não progride realmente, que continuamos ocupados com os mesmos problemas filosóficos que preocupavam os gregos. Isto porque a nossa linguagem permaneceu a mesma e continua nos seduzindo a perguntar as mesmas questões. Até quando continuar existindo um verbo `ser' que parece funcionar do mesmo modo que o verbo `comer' e `beber', até quando continuarmos tendo os adjetivos `idêntico', `verdadeiro', `falso', `possível', até quando continuarmos a falar de um rio do tempo, de uma porção (expanse) do espaço, etc. etc., as pessoas continuarão tropeçando sobre as mesmas dificuldades enigmáticas e encontrar-se-ão olhando fixamente para algo que nenhuma explicação parece capaz de clarificar.
Wittgenstein
fonte:http://jonadas.blogspot.com/2006/02/traduo-de-algumas-passagens-de-culture.html
domingo, 20 de setembro de 2009
"Indo para Deus pelo caminho-Deus (- procurando o Deus-caminho pelo caminho-Deus)" - Dalila Pereira da Costa

Imagem: Remedios Varo, "Transito en Espiral", 1962
Sobre esta terra existe uma certa antiga e maravilhosa igreja redonda: foi feita pelos homens. Para quem? Em que intenção, ou serviço?
Esses homens, de nós desconhecidos, transmitiram (totalmente) essa coisa.
Ela subsiste aí, inclusa e intacta, completa; assim veio através dos tempos: e pode ser ainda transmitida a nós, ainda uma vez e sempre; em toda a sua primitiva e terna exultação.
E agora, poderemos, ousaremos, pensar que, para nós todos, tudo seria igual, se esta igreja tivesse já desaparecido da superfície da terra?
Que ela tenha vindo e subsistido intacta no seu corpo terrestre através de mais dum milénio para ser ainda gozada por nós durante só três minutos, é suficiente e é toda a sua justificação: em plenitude.
Pois, será verdade que, tudo que foi sentido, conhecido outrora por esses homens, por esses seus criadores (ou transmissores) não possa ser conhecido, sentido de novo por nós, na sua vivência actual-passada? Ou tudo será intransmissível e assim, perecível? Será então totalmente inútil tentar conservar, perseverar, as altíssimas criações do passado: uma igreja românica , um quadro de Thierry Bouts…
Mas é justamente essa coisa, este cerne conhecido, sempre o mesmo e diverso, através das idades do homem, o que será possível de ser sempre apreendido, ou reapreendido, por nós, incessantemente. É sempre a esta eternidade, a esta integridade, que é preciso ser fiel e submisso.
E tudo será sempre uma auto-revelação: nosso acto, nosso louvor, será sempre a única finalidade e justificação de nossa vida.
Porque aí, nesse preciso lugar evocado, as camadas espessas e inumeráveis, soba as quais vemos sempre essa coisa, escondida e inapreensível, não foram elas rompidas? Aí, não a vemos e sentimos sempre capturada por um momento, aí subsistindo sempre, sempre oferecida a nós, passível dum novo gozo (por nós ou por ela própria?). Aí não sentimos uma reunião de força, súbita e poderosa contenção, e exultante, na sua serenidade? E não sentimos um novo espaço à nossa volta?
(Essa força, ela era esse espaço, ele mesmo (como seu verdadeiro corpo), ou dada, possível de ser atingida por esse espaço, aí realizada: como seu veículo ou analogia? (ou símbolo?) Ou então, o que se criou aí, e o que nos davam, era o Centro ele mesmo? Em toda a sua força).
Essa igreja foi baseada, ou construída sobre o círculo, ou mais exactamente, na esfera: mas para um movimento em altura, em elevação.
(in "O inapreensível e intransmissível")
(a ordem)
Espiraliza-te no teu ser - e sobre o teu centro, ergue-te.
(in "Jogos de água")
Dalila Pereira da Costa
"Encontro na Noite", Lello & Irmão Editores, Porto, 1973, pág.39
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sexta-feira, 11 de setembro de 2009
O Milagre de Ver
Tinha uma missão a executar, uma extraordinária notícia a transmitir. Precisava urgentemente de fazer a conferência, de revolucionar o mundo. Porque o mundo aparecia-me sob a forma de uma absurda estupidez. Era necessário que todos os homens vivessem em estado de lucidez, se libertassem das pedras, chegassem ao milagre de ver. Era absolutamente necessário que a vida se iluminasse na evidência da morte. Viriam a chamar-me «mórbido», «doentio». Porquê? Mais real do que o nascer era o morrer. Porque quem nasce é ainda nada. Mas quem morre é o universo, é a pura realidade de ser. Um homem só é perfeito, só se realiza até aos seus limites, depois de a morte o não poder surpreender.
sexta-feira, 1 de maio de 2009
Sobressaltos - "É de crer que se contentem de soltar à nossa volta imensa gargalhada"
"O ser ou se revela um ou muitos. Em nós, ele é ao mesmo tempo uno e múltiplo, e assim como nos implicamos em cada uma das maneiras como somos, assim cada uma delas implica as outras. Assim também uma ligação íntima e substancial existe entre um homem e todos os outros, entre um ser e todos os outros seres, não sendo jamais viável a liberdade dum sem a liberdade de todos, o bem dum sem o bem de todos.
Assim vemos o filósofo digno desse nome não poder situar-se do lado do que define e determina pois a verdade está também no que indiferencia e indetermina.
O homem que se toma a si próprio como fim é considerado, em geral, como um néscio e dia virá em que ele próprio o verifique. Mas esta humanidade que se tomou a si própria como fim supõe-se sábia. Já dos longes do suposto passado se levantam não só os velhos deuses, mas os vultos fantasmáticos dos homens de outras eras. Já erguem suas frontes meditativas sobre o horizonte ainda velado para a maioria, já alguns podem ver como nos contemplam. Em breve nos julgarão. Mas é de crer que nada digam. É de crer que se contentem de soltar à nossa volta imensa gargalhada. Depois sumir-se-ão de novo, deixando esta estúpida humanidade com sua ciência pequenina e perigosa, sua arte frustrada, sua magra filosofia, cumprir o lôbrego destino para que se adianta inconsciente"
- José Marinho, Aforismos sobre o que mais importa, edição de Jorge Croce Rivera, Lisboa, Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1994, p.215.
Sem comentários.
Assim vemos o filósofo digno desse nome não poder situar-se do lado do que define e determina pois a verdade está também no que indiferencia e indetermina.
O homem que se toma a si próprio como fim é considerado, em geral, como um néscio e dia virá em que ele próprio o verifique. Mas esta humanidade que se tomou a si própria como fim supõe-se sábia. Já dos longes do suposto passado se levantam não só os velhos deuses, mas os vultos fantasmáticos dos homens de outras eras. Já erguem suas frontes meditativas sobre o horizonte ainda velado para a maioria, já alguns podem ver como nos contemplam. Em breve nos julgarão. Mas é de crer que nada digam. É de crer que se contentem de soltar à nossa volta imensa gargalhada. Depois sumir-se-ão de novo, deixando esta estúpida humanidade com sua ciência pequenina e perigosa, sua arte frustrada, sua magra filosofia, cumprir o lôbrego destino para que se adianta inconsciente"
- José Marinho, Aforismos sobre o que mais importa, edição de Jorge Croce Rivera, Lisboa, Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1994, p.215.
Sem comentários.
sábado, 3 de janeiro de 2009
quinta-feira, 17 de abril de 2008
Da "normalidade" como doença
"É o ego que resiste. Tantos combates lhe foram necessários para afirmar-se e eis que agora lhe é exigido que passe ao segundo plano, que dê lugar ao si mesmo. O ego toma isso como um ameaça e tem razão. O indivíduo como ego é ameaçado, é convidado a morrer... Mas o indivíduo que não tem medo, que aceita esta ameaça e que abre mão, torna-se uma pessoa, alguém através do qual o si mesmo, a presença do Ser essencial, pode ressoar e manifestar-se.
A "normalidade" (que eu chamo de "normose" para fazer a conexão com neurose e psicose), mesmo se Freud a chama de "cura ou saúde", pode ser considerada uma doença do Ser essencial. Esta normalidade pode tornar-se um obstáculo no caminho da verdadeira realização; é preciso saber colocar em questão a imagem que cada um tem de si ou que a sociedade nos impõe e, através de uma certa solidão, expressar a maneira única pela qual o Ser quer manifestar-se em nós" - Jean-Yves Leloup, Enraizamento e Abertura, Petrópolis, Vozes, 2003, p.41.
A "normalidade" (que eu chamo de "normose" para fazer a conexão com neurose e psicose), mesmo se Freud a chama de "cura ou saúde", pode ser considerada uma doença do Ser essencial. Esta normalidade pode tornar-se um obstáculo no caminho da verdadeira realização; é preciso saber colocar em questão a imagem que cada um tem de si ou que a sociedade nos impõe e, através de uma certa solidão, expressar a maneira única pela qual o Ser quer manifestar-se em nós" - Jean-Yves Leloup, Enraizamento e Abertura, Petrópolis, Vozes, 2003, p.41.
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