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terça-feira, 31 de agosto de 2010
Da actividade
Um zoólogo que, em África, observou de perto os gorilas, espanta-se com a uniformidade da vida que levam e com a sua ociosidade. Horas e horas sem fazerem nada... Desconhecerão eles o tédio?
Esta pergunta é típica de um homem, de um macaco ocupado. Em vez de fugirem da monotonia, os animais procuram-na, e o que mais receiam é vê-la terminar. Pois ela só termina para ser substituída pelo medo, causa de todo o tipo de azáfama.
A inacção é divina. E, porém, foi contra ela que o homem se insurgiu. Apenas ele, na natureza que lhe é própria, se revela incapaz de suportar a monotonia, apenas ele quer a todo o custo que alguma coisa aconteça, seja ela qual for. Nisso, mostra-se indigno do seu antepassado: a necessidade de movimento é característica do gorila desencaminhado.
E. M. Cioran
Esta pergunta é típica de um homem, de um macaco ocupado. Em vez de fugirem da monotonia, os animais procuram-na, e o que mais receiam é vê-la terminar. Pois ela só termina para ser substituída pelo medo, causa de todo o tipo de azáfama.
A inacção é divina. E, porém, foi contra ela que o homem se insurgiu. Apenas ele, na natureza que lhe é própria, se revela incapaz de suportar a monotonia, apenas ele quer a todo o custo que alguma coisa aconteça, seja ela qual for. Nisso, mostra-se indigno do seu antepassado: a necessidade de movimento é característica do gorila desencaminhado.
E. M. Cioran
quarta-feira, 25 de agosto de 2010
Ser
Quer saia da boca de um merceeiro ou de um filósofo, a palavra ser, tão rica, tão tentadora, tão carregada de significado na aparência, não quer afinal dizer coisa nenhuma. É inacreditável que um espírito sensato possa recorrer a ela seja em que ocasião for.
E. M. Cioran
E. M. Cioran
sábado, 30 de maio de 2009
Cioran: Música, êxtase e saudade
"S.J.: - Em resumo, a música confronta-nos com este paradoxo: a eternidade entrevista no tempo.
C.:É com efeito o absoluto captado no tempo, mas incapaz de aí permanecer, um contacto simultaneamente supremo e fugitivo. Para que permanecesse, seria necessária uma emoção musical ininterrupta. A fragilidade do êxtase místico é idêntica. Nos dois casos o mesmo sentimento de incompletude, acompanhado por uma mágoa dilacerante, por uma nostalgia sem limites.
S.J.: Esta nostalgia é precisamente o fundamento da vossa visão do mundo. Como a definiríeis?
C.: “Este sentimento liga-se em parte às minhas origens romenas. Ele impregna ali toda a poesia popular. É uma dilaceração indefinível que se diz em romeno dor, próxima da Sehnsucht dos Alemães, mas sobretudo da Saudade dos Portugueses”
- Cioran, Entretien avec Sylvie Jaudeau, Entretiens, Paris, Gallimard, 1999, p.230.
C.:É com efeito o absoluto captado no tempo, mas incapaz de aí permanecer, um contacto simultaneamente supremo e fugitivo. Para que permanecesse, seria necessária uma emoção musical ininterrupta. A fragilidade do êxtase místico é idêntica. Nos dois casos o mesmo sentimento de incompletude, acompanhado por uma mágoa dilacerante, por uma nostalgia sem limites.
S.J.: Esta nostalgia é precisamente o fundamento da vossa visão do mundo. Como a definiríeis?
C.: “Este sentimento liga-se em parte às minhas origens romenas. Ele impregna ali toda a poesia popular. É uma dilaceração indefinível que se diz em romeno dor, próxima da Sehnsucht dos Alemães, mas sobretudo da Saudade dos Portugueses”
- Cioran, Entretien avec Sylvie Jaudeau, Entretiens, Paris, Gallimard, 1999, p.230.
terça-feira, 17 de fevereiro de 2009
Ecos da Holanda
Em resposta à exortação de Lapdrey a que ecoasse aqui o diálogo entre Pessoa e Cioran, publico o início de uma das conferências que recentemente proferi na Universidade de Groningen.
Num alfabarrista da cidade encontrei a tradução neerlandesa do São Jerónimo e a Trovoada, de Pascoaes (1939)! Já em Amesterdão, acabei por não encontrar a casa de Espinosa - disseram-me que ficava um pouco fora da cidade - , mas comovi-me até às lágrimas com a atmosfera da imponente Sinagoga Portuguesa, ainda em funções, em particular ao escutar um concerto de música hebraica com duas vozes masculinas. A comoção prosseguiu diante dos primeiros quadros de Rembrandt, no Rijksmuseum.
Sinto ser a Hora de nos abrirmos a todas as culturas e de sermos verdadeiramente o "Homem de todo o Mundo" de que Vieira falava, falando do português. E, nisso, deixarmos em todo o mundo as sementes da nossa divina loucura. Foi o que tentei fazer, acendendo na Holanda e em novos amigos alemães, polacos e franceses desejos de conhecer Antero, Bruno, Pascoaes, Sá-Carneiro, Pessoa, Raul Leal, Agostinho... Alguns serão colaboradores da "Nova Águia" e, no meio da forte e boa cerveja holandesa, assomou-me a ideia de organizar na Faculdade de Letras um seminário com jovens investigadores estrangeiros sobre Fernando Pessoa. Já tem data marcada: 2 de Junho. Em pequeno estremecia ao passar por pontes e sonhava construí-las. Hoje sinto que nada somos senão ponte, suspensos entre duas margens do que se não sabe, por mais que se pressinta. Ponte-Saudade.
Abraços
Emil Cioran e Fernando Pessoa: salto no absoluto e "fuga para fora de Deus"
Fernando Pessoa e Emil Cioran vivem, de modo diverso, aquela que se pode considerar a mais ousada e radical aventura, a da transcensão de todos os limites do pensamento, da vida e da existência. Pensadores e escritores provenientes da periferia da cultura europeia dominante e agudamente conscientes de viverem um fim de ciclo da civilização dela nascida, a sua força brota também do ímpeto de libertação dos ídolos dessa mesma cultura e civilização, as normas do que se supõe mentalmente correcto, sem que se detenham perante o suposto limite do humano, numa titânica e iconoclasta hybris de superação de tudo, do sujeito e de si mesma, numa nostalgia ou saudade violenta do incondicionado, pressentido e experienciado como instância irredutível à constituição do sujeito no mundo e fundo sem fundo de toda a experiência possível.
Este ímpeto acompanha-se em ambos de uma exuberante mestria literária, que em Pessoa se exerce na tão portuguesmente barroca e poética proliferação de formas de si como outro – os heterónimos - , outros tantos ensaios de fuga à prisão do nascimento, da individuação e à suposta normalidade monopsíquica daí decorrente [1], enquanto em Cioran o génio literário serve um obsessivo, detalhado e minucioso ajuste de contas com todas as ficções da consciência, da história e da cultura, escalpelizadas e reduzidas a cinzas pelo cirúrgico e cáustico bisturi do aforismo e do pensamento incendiado na veemência da insónia, da febre e da blasfémia, mas também do entusiasmo extático e transfigurador.
Não deixa de ser curioso que a comparação entre Pessoa e Cioran possa reconduzir aos contrastes da alma ibérica, pois se no primeiro, sobretudo no ortónimo e em Bernardo Soares, tão diversos da serenidade pensada do “mestre” Caeiro e da melancólica sabedoria da renúncia em Ricardo Reis, predomina a tristeza passiva e dissolvente da saudade que impregna muita da cultura portuguesa, mareada na regressão ao Caos nocturno e oceânico do antes de ser, já no segundo rebenta a paixão sem esperança do “Espanhol que gostaria de ter sido” [2], a explosão de um cinismo místico de cuja excessividade e intensidade apocalíptica só se aproxima, entre os heterónimos pessoanos, o dionisíaco frenesim de “ser e sentir tudo de todas as maneiras”, de Álvaro de Campos.
[1] “Sou um evadido. / Logo que nasci / Fecharam-me em mim, / Ah, mas eu fugi” – Fernando Pessoa, Obras, I, Porto, Lello, 1986, p.316.
[2] “Tour à tour, j’ai adoré et exécré nombre de peuples; - jamais il ne me vint à l’esprit de renier l’Espagnol que j’eusse aimé être…” – Emil Cioran, Syllogismes de l’Amertume, Oeuvres, Paris, Gallimard, 1995, p.772. Cf. também, entre muitos outros lugares: “Le mérite de l’Espagne est non seulement d’avoir cultivé l’excessif et l’insensé, mais aussi d’avoir démontré que le vertige est le climat normal de l’homme. Quoi de plus naturel que la présence des mystiques chez ce peuple qui a supprimé la distance entre le ciel et la terre?” – Des Larmes et des Saints, Ibid., p. 304.
Num alfabarrista da cidade encontrei a tradução neerlandesa do São Jerónimo e a Trovoada, de Pascoaes (1939)! Já em Amesterdão, acabei por não encontrar a casa de Espinosa - disseram-me que ficava um pouco fora da cidade - , mas comovi-me até às lágrimas com a atmosfera da imponente Sinagoga Portuguesa, ainda em funções, em particular ao escutar um concerto de música hebraica com duas vozes masculinas. A comoção prosseguiu diante dos primeiros quadros de Rembrandt, no Rijksmuseum.
Sinto ser a Hora de nos abrirmos a todas as culturas e de sermos verdadeiramente o "Homem de todo o Mundo" de que Vieira falava, falando do português. E, nisso, deixarmos em todo o mundo as sementes da nossa divina loucura. Foi o que tentei fazer, acendendo na Holanda e em novos amigos alemães, polacos e franceses desejos de conhecer Antero, Bruno, Pascoaes, Sá-Carneiro, Pessoa, Raul Leal, Agostinho... Alguns serão colaboradores da "Nova Águia" e, no meio da forte e boa cerveja holandesa, assomou-me a ideia de organizar na Faculdade de Letras um seminário com jovens investigadores estrangeiros sobre Fernando Pessoa. Já tem data marcada: 2 de Junho. Em pequeno estremecia ao passar por pontes e sonhava construí-las. Hoje sinto que nada somos senão ponte, suspensos entre duas margens do que se não sabe, por mais que se pressinta. Ponte-Saudade.
Abraços
Emil Cioran e Fernando Pessoa: salto no absoluto e "fuga para fora de Deus"
Fernando Pessoa e Emil Cioran vivem, de modo diverso, aquela que se pode considerar a mais ousada e radical aventura, a da transcensão de todos os limites do pensamento, da vida e da existência. Pensadores e escritores provenientes da periferia da cultura europeia dominante e agudamente conscientes de viverem um fim de ciclo da civilização dela nascida, a sua força brota também do ímpeto de libertação dos ídolos dessa mesma cultura e civilização, as normas do que se supõe mentalmente correcto, sem que se detenham perante o suposto limite do humano, numa titânica e iconoclasta hybris de superação de tudo, do sujeito e de si mesma, numa nostalgia ou saudade violenta do incondicionado, pressentido e experienciado como instância irredutível à constituição do sujeito no mundo e fundo sem fundo de toda a experiência possível.
Este ímpeto acompanha-se em ambos de uma exuberante mestria literária, que em Pessoa se exerce na tão portuguesmente barroca e poética proliferação de formas de si como outro – os heterónimos - , outros tantos ensaios de fuga à prisão do nascimento, da individuação e à suposta normalidade monopsíquica daí decorrente [1], enquanto em Cioran o génio literário serve um obsessivo, detalhado e minucioso ajuste de contas com todas as ficções da consciência, da história e da cultura, escalpelizadas e reduzidas a cinzas pelo cirúrgico e cáustico bisturi do aforismo e do pensamento incendiado na veemência da insónia, da febre e da blasfémia, mas também do entusiasmo extático e transfigurador.
Não deixa de ser curioso que a comparação entre Pessoa e Cioran possa reconduzir aos contrastes da alma ibérica, pois se no primeiro, sobretudo no ortónimo e em Bernardo Soares, tão diversos da serenidade pensada do “mestre” Caeiro e da melancólica sabedoria da renúncia em Ricardo Reis, predomina a tristeza passiva e dissolvente da saudade que impregna muita da cultura portuguesa, mareada na regressão ao Caos nocturno e oceânico do antes de ser, já no segundo rebenta a paixão sem esperança do “Espanhol que gostaria de ter sido” [2], a explosão de um cinismo místico de cuja excessividade e intensidade apocalíptica só se aproxima, entre os heterónimos pessoanos, o dionisíaco frenesim de “ser e sentir tudo de todas as maneiras”, de Álvaro de Campos.
[1] “Sou um evadido. / Logo que nasci / Fecharam-me em mim, / Ah, mas eu fugi” – Fernando Pessoa, Obras, I, Porto, Lello, 1986, p.316.
[2] “Tour à tour, j’ai adoré et exécré nombre de peuples; - jamais il ne me vint à l’esprit de renier l’Espagnol que j’eusse aimé être…” – Emil Cioran, Syllogismes de l’Amertume, Oeuvres, Paris, Gallimard, 1995, p.772. Cf. também, entre muitos outros lugares: “Le mérite de l’Espagne est non seulement d’avoir cultivé l’excessif et l’insensé, mais aussi d’avoir démontré que le vertige est le climat normal de l’homme. Quoi de plus naturel que la présence des mystiques chez ce peuple qui a supprimé la distance entre le ciel et la terre?” – Des Larmes et des Saints, Ibid., p. 304.
terça-feira, 20 de janeiro de 2009
Morrer de luz
“Gostaria de perder a razão com uma única condição: ter a certeza de me tornar um louco alegre e jovial, sem problemas nem obsessões, folgazão de manhã à noite. Se bem que deseje ardentemente êxtases luminosos, não os quereria no entanto, pois são sempre seguidos de depressões. Quereria, em contrapartida, que um banho de luz de mim brotasse para transfigurar o universo – um banho que, longe da tensão do êxtase, conservaria a calma de uma eternidade luminosa. Teria a ligeireza da graça e o calor de um sorriso. Quereria que o mundo inteiro flutuasse neste sonho de claridade, neste encanto de transparência e imaterialidade. Que não haja mais obstáculo nem matéria, forma ou confins. E que, neste paraíso, eu morra de luz”
- Emil Cioran, Sur les Cimes du Désespoir, in Oeuvres, Paris, Gallimard, 1995, p.31.
- Emil Cioran, Sur les Cimes du Désespoir, in Oeuvres, Paris, Gallimard, 1995, p.31.
sábado, 3 de janeiro de 2009
Pacto em pura perda? - a propósito da postagem de um texto de Cioran

Mais uma vez, por imperativo da dimensão do comentário que determinado texto aqui postado me suscitou (no caso um excelente texto de Cioran, muito pertinentemente postado por Paulo Borges, e titulado “Caústicos – Os Santos”), faço-o como post, para não atamancar, como eu acho desrespeitosamente, um local que deve ser de breves comentários de partilha ou de um certo confrontar de posições e de opiniões.
A questão que levanta Cioran, a questão aguda que levanta Paulo Borges, é das mais interessantes, desafiantes e apaixonantes para o pensar, seja ele “filosófico” ou “teológico”.
Trata-se do problema de saber até que ponto, falando aqui por exemplar metáfora, o prólogo do livro de Job não é o paradigma do que se passa com todos nós, e sobremaneira com todo o homem que se queira “sincero e recto” (Job 1,1): no limite, a necessidade incortornável da presença “probadora” do mal, para que o bem, e sua virtude, isto é, o seu poder, possa manifestar-se em firmeza e, sobretudo, em transcendência de si.
São Máximo o Confessor, num texto que cito aqui de memória (e perdoe-se-me, por isso, algum pendor parafrásico no citá-lo), diz que “os homens santos, na verdade, não escolhem entre o bem e o mal, posto que, sendo vivos tabernáculos do Espírito de Deus, e aderindo a sua alma espontaneamente à Sua Presença neles, têm já o seu espírito acima do imperativo de escolha que advém de tal arbítrio: por isso, são realmente livres”.
Por isso também, ninguém é verdadeira e radicalmente provado num ambiente asséptico e, por assim dizer, “burguês”: isso seria jogar “fazendo batota” com Deus.
É fácil ser virtuoso quando não se tem, aparentemente, melhor vantagem em o não ser. Esta é, no fundo, porventura, a lógica do delinquente e do vulgar criminoso.
É fácil ser caridoso, podendo sê-lo, por querê-lo e por muito ter, dando um pouco (que muito será para quem nada tenha) daquele muito que por certo lhe sobeje. Mas sê-lo-ia, esse mesmo “caridoso”, na mesma medida se quase nada tivesse?
Quem é mais "caridoso"? Um homem poderoso que se presta interesseiramente ao mecenato, assim obtendo conhecidas vantagens fiscais e outras para continuar mais e mais rico, ou quem dê do que lhe faz falta, sem ver a quem e sem fazer juízos de valor quanto à bondade da sua acção - e não como agora se ouve, entre nós, quem governa auto-elogiar a “bondade” das suas acções ou medidas, como se quem governa lá estivesse para fazer outra coisa senão apenas isso…
O ponto em que temos de questionar-nos é o seguinte: seríamos nós diferentes, e em que medida o seríamos, se Deus (ou como queiramos chamar ao grande nexo de sentido das coisas no nosso viver) acedesse, relativamente a nós, a “estender a sua mão” (Job, 1, 11), “tocar em tudo quanto temos”(id.), para assim ver “se não blasfemaríamos d’Ele”(id.) abertamente, na Sua face, na Sua presença em nós?
Talvez, como se diz também no livro de Job, em passagem logo a seguir, Deus permita, como porventura podemos admitir que o faça a muitos dos nossos contemporâneos (seja em cenários de guerra, em territórios ocupados por americanos ou sionitas, por chineses ou outros, ou até por povos “ocupados” pelos seus próprios governos “legitimamente” eleitos numa não verdadeira escolha de alternativas eleitorais) em que, dizíamos, o vírus do mal - vírus é, por certo, linguagem mais compreensível para os nossos dias – infecte tudo na vida menos a alma que sobrevive intacta a todo o terror, a toda a extrema miséria e abandono, situações nas quais se evidencia que o que é verdadeira “propriedade privada” não é transaccionável nem especulável em bolsa (de outros valores), pelos que fazem no teatro deste mundo as vezes de Satanás, qual ele o faz em parábola no livro de Job.
O que se mostra então é a imensa volatilidade daquilo que é a nossa vida, daquilo que sejamos se dela retirarmos tudo aquilo que tenhamos, que seja mera posse, aquilo que sejam as circunstâncias mais ou menos lustrosas em que nos movamos, e o que nelas sejamos.
Quem seremos, o que será de nós, se de tudo que não é realmente o que nós “somos”, formos nós despojados?
Isso, como se vê por exemplos bem recentes, pode acontecer até àqueles que aparentemente estariam (naquilo que supomos e imaginamos) mais precavidos e resguardados contra tais perigos e, estultamente, mais seguros estavam de que tal nunca poderia acontecer-lhes: tal como em Sodoma, no tempo de Lot, não muito diferente do nosso, na verdade, “comiam, bebiam, compravam, vendiam, plantavam e edificavam” (Lc. 17,28), em toda “a grande cidade que reina sobre os reis da terra” (Apo. 17,18).
A voz do poeta de “O Outro Livro de Job”, Miguel Torga, aqui me ocorre, do “Cântico do Homem”(1950), no seu poema “Há Ratoeiras”:
Quando vierem, como feiticeiros,
Tirar-te o espírito do corpo,
Obstina-te, irmão!
Não,
Não
E não!,
Seja qual for a habilidade
E a humanidade
Da encantação.
Lembra-te dum cortiço!
O que ferve lá dentro e dá favos de mel,
É que presta.
Mas se querem a festa
Da tua morte,
Então,
Que levem tudo no caixão:
A alma e o suporte!
Este é, porventura, o canto de quem já pouco espera do homem, ainda que indeciso esteja do que deva esperar de Deus.
Este é o canto de quem muito quereria esperar do homem, mas está quase resignado a nada esperar de Deus.
Onde estamos nós nisto, cada um de nós?
(Gratíssimo, Paulo!)
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sexta-feira, 2 de janeiro de 2009
Cáusticos - Os Santos
"Se velam e oram é para obter de Deus por manha o segredo do seu poder. Pérfidas súplicas as destes revoltados em torno dos quais o demónio se apraz de rondar. Hábeis, dele colhem também por manha o seu segredo, forçando-o a trabalhar para eles. Sabem tirar proveito do princípio maligno que os habita para se elevarem. Aqueles que se desmoronam fazem-no com alguma complacência: tombam não como vítimas, mas como associados do Diabo. Salvos ou perdidos, todos trazem uma marca de não-humanidade, todos se repugnam a conferir um limite aos seus empreendimentos. Renunciam? A sua renúncia é total. Porém, em vez de isso os diminuir e enfraquecer, por ela se encontram mais poderosos que nós, que conservamos os bens por eles abandonados. Aterrorizam-nos, estes gigantes de alma e corpo fulminados. Contemplando-os, temos vergonha de ser homens sem mais. E se, por sua vez, eles nos olham, deciframos as palavras que a nossa mediocridade inspira à sua misericórdia: "Pobres criaturas que não tendes a coragem de vos tornar únicas, de vos tornar monstros". Decididamente, o Diabo trabalha para eles e não é estranho à sua auréola. Que humilhação a nossa por havermos pactuado com ele em pura perda!"
- E. M. Cioran, "La Tentation d'Exister", in Oeuvres, Paris, Gallimard, 1995, p.921.
- E. M. Cioran, "La Tentation d'Exister", in Oeuvres, Paris, Gallimard, 1995, p.921.
terça-feira, 30 de dezembro de 2008
A Pedra no Charco: o Povo
"E o povo?", dir-se-á. O pensador ou o historiador que empregue esta palavra sem ironia desqualifica-se. O "povo", sabe-se demasiado bem a que se destina: padecer os acontecimentos e as fantasias dos governantes, prestando-se a desígnios que o abatem e anulam. Toda a experiência política, por mais "avançada" que seja, desenrola-se às suas custas, dirige-se contra ele: ele traz os estigmas da escravatura por decreto divino ou diabólico. Inútil apiedar-se dele: a sua causa é sem recurso. Nações e impérios formam-se pela sua complacência com as iniquidades de que é objecto. Não há chefe de estado ou conquistador que não o despreze; mas ele aceita este desprezo e dele vive. Cessasse de ser frouxo ou vítima, faltasse aos seus destinos, a sociedade desvanecer-se-ia e, com ela, toda a história. Não sejamos demasiado optimistas: nada nele permite considerar uma tão bela eventualidade. Tal qual é, representa um convite ao despotismo. Suporta as suas provações, por vezes solicita-as, e não se revolta contra elas senão para correr em direcção a novas, mais atrozes que as antigas. Sendo a revolução o seu único luxo, para ela se precipita, não tanto para daí retirar alguns benefícios ou melhorar a sua sorte, antes para adquirir também o direito de ser insolente, vantagem que o consola das suas habituais desgraças, mas que perde assim que são abolidos os privilégios da desordem. Não havendo nenhum regime que assegure a sua salvação, acomoda-se a todos e a nenhum. E, desde o Dilúvio até ao Juízo, tudo aquilo a que pode pretender é a executar honestamente a sua missão de vencido"
- E. M. Cioran, "Histoire et Utopie", in Oeuvres, Paris, Gallimard, 1995, pp.1010-1011.
- E. M. Cioran, "Histoire et Utopie", in Oeuvres, Paris, Gallimard, 1995, pp.1010-1011.
segunda-feira, 29 de dezembro de 2008
Salto sem rede
"Não seria Deus o estado de eu do nada?"
- E. M. Cioran, "Le Crépuscule des Pensées", in Oeuvres, Paris, Gallimard, 1995, p.439.
- E. M. Cioran, "Le Crépuscule des Pensées", in Oeuvres, Paris, Gallimard, 1995, p.439.
domingo, 28 de dezembro de 2008
Salto sem rede
"A que se reduzem todos os nossos tormentos senão ao remorso de não se ser Deus?"
- E. M. Cioran, "Le Livre des Leurres", in Oeuvres, Paris, Gallimard, 1995, p.212.
- E. M. Cioran, "Le Livre des Leurres", in Oeuvres, Paris, Gallimard, 1995, p.212.
terça-feira, 16 de dezembro de 2008
Provocação em jeito de Parabéns
Agradecendo a lembrança da Sta Alice, e como prenda de aniversário a todos nós, aqui renovo o primeiro post da Serpente Emplumada, intitulado "Provocações":
"O "eu" constitui o privilégio apenas daqueles que não vão até ao fim de si mesmos" - Emil Cioran, A Tentação de Existir .
Que possamos ir e residir sempre no fundo, sem fundo, de nós mesmos!
"O "eu" constitui o privilégio apenas daqueles que não vão até ao fim de si mesmos" - Emil Cioran, A Tentação de Existir .
Que possamos ir e residir sempre no fundo, sem fundo, de nós mesmos!
quinta-feira, 18 de setembro de 2008
Ser essencial a cada instante
"Ser essencial a cada instante, é fazer do seu rosto uma máscara mortuária"
- E. Cioran, Le Livre des Leurres, in Oeuvres, Paris, Gallimard, 1995, p.182.
- E. Cioran, Le Livre des Leurres, in Oeuvres, Paris, Gallimard, 1995, p.182.
domingo, 10 de fevereiro de 2008
Êxtase Musical e Erótico
"O meu supremo querer, esta vontade persistente, íntima, que me consome e esgota, seria de nunca regressar dos estados musicais, de viver exaltado, enfeitiçado e perdido numa embriaguez de melodias, numa ebriedade de divinas sonoridades, de ser eu próprio uma música das esferas, uma explosão de vibrações, um canto cósmico, o voo em espiral de ressonâncias. [...] E a minha felicidade é tão frágil, rodeada de chamas, atravessada de turbilhões, quietudes, transparências e desesperos unidos em élans melódicos que me transporta numa beatitude duma intensidade bestial e duma originalidade demoníaca. Não se poderá viver até ao âmago o sentimento musical da existência se não se pode suportar este inexprimível tremor, estranhamente profundo, nervoso, tenso e paroxístico. Tremer até ao ponto em que tudo se torna êxtase. Este estado não é musical se não é extático. O êxtase musical é um regresso à identidade, ao original, às raízes primeiras da existência. Não há mais nele senão o ritmo puro da existência, a corrente imanente e orgânica da vida. Escuto a vida. Daí nascem todas as revelações.
Não é senão na música e no amor que sentimos uma alegria em morrer, este espasmo de volúpia em sentir que se morre de não poder mais suportar as nossas vibrações interiores. E regozijamo-nos com a ideia de uma morte súbita que nos dispensaria de sobreviver a estes instantes. [...] O remorso de não morrer nos cumes do estado musical e erótico ensina-nos quanto temos a perder vivendo"
- Cioran, Le Livre des Leurres, in Oeuvres, Paris, Gallimard, 1995, pp.114-115.
Não é senão na música e no amor que sentimos uma alegria em morrer, este espasmo de volúpia em sentir que se morre de não poder mais suportar as nossas vibrações interiores. E regozijamo-nos com a ideia de uma morte súbita que nos dispensaria de sobreviver a estes instantes. [...] O remorso de não morrer nos cumes do estado musical e erótico ensina-nos quanto temos a perder vivendo"
- Cioran, Le Livre des Leurres, in Oeuvres, Paris, Gallimard, 1995, pp.114-115.
segunda-feira, 28 de janeiro de 2008
Enlouquecer alegremente, transfigurar o universo e morrer de luz
Preparava-me para publicar algo do que de mais devastador e incómodo este grande iconoclasta às nossas mentes mimadas dirigiu e eis que me deparo com esta passagem redentora, sem lhe poder resistir... Compaixão ou fraqueza ?...
“Gostaria de perder a razão com uma única condição: ter a certeza de me tornar um louco alegre e jovial, sem problemas nem obsessões, folgazão de manhã à noite. Se bem que deseje ardentemente êxtases luminosos, não os quereria no entanto, pois são sempre seguidos de depressões. Quereria, em contrapartida, que um banho de luz de mim brotasse para transfigurar o universo – um banho que, longe da tensão do êxtase, conservaria a calma de uma eternidade luminosa. Teria a ligeireza da graça e o calor de um sorriso. Quereria que o mundo inteiro flutuasse neste sonho de claridade, neste encanto de transparência e de imaterialidade. Que não houvesse mais obstáculo nem matéria, forma ou confins. E que, neste paraíso, eu morresse de luz”
- Emil Cioran (1911-1995), Sur les Cimes du Désespoir, in Oeuvres, Paris, Gallimard, 1995, p.31.
“Gostaria de perder a razão com uma única condição: ter a certeza de me tornar um louco alegre e jovial, sem problemas nem obsessões, folgazão de manhã à noite. Se bem que deseje ardentemente êxtases luminosos, não os quereria no entanto, pois são sempre seguidos de depressões. Quereria, em contrapartida, que um banho de luz de mim brotasse para transfigurar o universo – um banho que, longe da tensão do êxtase, conservaria a calma de uma eternidade luminosa. Teria a ligeireza da graça e o calor de um sorriso. Quereria que o mundo inteiro flutuasse neste sonho de claridade, neste encanto de transparência e de imaterialidade. Que não houvesse mais obstáculo nem matéria, forma ou confins. E que, neste paraíso, eu morresse de luz”
- Emil Cioran (1911-1995), Sur les Cimes du Désespoir, in Oeuvres, Paris, Gallimard, 1995, p.31.
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