O CAMINHO DA SERPENTE

"Reconhecer a verdade como verdade, e ao mesmo tempo como erro; viver os contrários, não os aceitando; sentir tudo de todas as maneiras, e não ser nada, no fim, senão o entendimento de tudo [...]".

"Ela atravessa todos os mistérios e não chega a conhecer nenhum, pois lhes conhece a ilusão e a lei. Assume formas com que, e em que, se nega, porque, como passa sem rasto recto, pode deixar o que foi, visto que verdadeiramente o não foi. Deixa a Cobra do Éden como pele largada, as formas que assume não são mais que peles que larga.
E quando, sem ter tido caminho, chega a Deus, ela, como não teve caminho, passa para além de Deus, pois chegou ali de fora"

- Fernando Pessoa, O Caminho da Serpente

Saúde, Irmãos ! É a Hora !


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sábado, 19 de dezembro de 2009

A loucura de D. Sebastião



D. Sebastião
Rei de Portugal


Louco, sim, louco, porque quis grandeza
Qual a Sorte a não dá.
Não coube em mim minha certeza;
Por isso onde o areal está
Ficou meu ser que houve, não o que há.

Minha loucura, outros que me a tomem
Com o que nela ia.
Sem a loucura, que é o homem
Mais que a besta sadia,
Cadáver adiado que procria?

O primeiro dos dois poemas que têm como título “D. Sebastião” constitui a quinta quina do “Brasão” português, a primeira parte da Mensagem, que interpreta o simbolismo heráldico das armas nacionais e convida a relacionar esta quinta quina/D.Sebastião com o Quinto Império. O poema dá voz ao rei assumindo a loucura de que foi acusado, mas dando-lhe outra razão que não a da patologia ou insensatez. A sua loucura consistiu em querer “grandeza / Qual a Sorte a não dá”. “Sorte”, sobretudo com maiúscula, parece ter aqui o sentido de Destino, Fado ou Fortuna, e não tanto de acaso. A “Sorte” é a necessidade que rege o universo e à qual nem os deuses escapam (cf. Moira, Ananke, Heimarmene), subordinando todos os entes à impermanência universal e às vicissitudes dos lugares, ora superiores, ora inferiores, que ocupam no mundo, e às experiências, ora felizes, ora infelizes, que nele conhecem.

Esta “Sorte” evoca o tema arcaico, antigo e medieval da Roda da Fortuna ou do samsara, presente no Oriente e no Ocidente. Pessoa refere-se várias vezes, na sua poesia, a este tema, falando por exemplo da “roda universal da Sorte” e relacionando-a, significativamente, com a “ficção”, “sonho” ou ilusão universal que faz ao sujeito supor-se na existência o mortal que afinal não é. A loucura de D. Sebastião consistiu assim, não propriamente na temeridade da aventura africana ou no ideal supostamente anacrónico que a moveu, mas antes no haver desejado, num e para além de um acto heróico dificilmente justificável pela razão humana, uma “grandeza” que não pode ser dada (e retirada) pela Sorte. Que “grandeza” pode ser essa senão a transcensão e libertação da própria “Sorte”, a transcensão e libertação da Roda da Fortuna ou do samsara, a suprema aspiração humana? Ou seja, se recordarmos a interpretação do poema “Quinto Império”, a transcensão e libertação do próprio sonho/ilusão que preside aos “quatro / tempos” do movimento do mundo, imperando sobre a consciência e a vida mediante as “forças cegas” que dominam a “alma” enquanto uma “visão” desperta e livre as não domar. Neste sentido, a “verdade” pela qual “morreu D. Sebastião” é o próprio fim da ilusão que preside ao destino do mundo, o fim do regime de consciência adormecida, onírica e iludida figurado, em termos históricos, pela sucessão dos quatro impérios: Grécia, Roma, Cristandade, Europa. A “verdade” pela qual “morreu D. Sebastião” é o próprio Quinto Império, como figura do Outro desse regime de consciência que há que transcender: não tanto uma nova soberania mundial, assente na parcialidade de uma dada cultura, ordem jurídica, concepção moral e religiosa ou cosmopolitismo comercial, mas antes o Despertar da falsa pretensão à universalidade de todas essas ilusões, o Despertar dessas e de todas as ilusões, o Despertar da ilusão universal que preside à consciência, ao tempo e à história dos homens.

O D. Sebastião histórico é claramente transfigurado num protagonista da loucura, da boa hybris ou desmesura, que deseja a suma e insuperável “grandeza” do Despertar enquanto libertação da falsa realidade de todas as supostas condições da existência no mundo. É a “certeza” dessa possibilidade que natural e necessariamente não cabe em si, pois haver um “si” é ser ou supor-se algo ou alguém no mundo, é estar situado e logo limitado, submetido e determinado na cadeia e teia de causalidade da ordem universal. São essa loucura e essa “certeza” que afinal o fazem sair de si e o ilimitam, levando-o a trespassar e transcender a própria condição humana e mortal, assegurando-lhe a transfiguração que lhe confere um outro modo de ser, actual e imortal, que nada tem a ver com o “ser que houve”, tornado um cadáver jacente no “areal” de Alcácer-Quibir. O D. Sebastião a que Pessoa dá voz já não é a pessoa do rei histórico, desaparecido em Alcácer-Quibir em termos reais e simbólicos, mas antes a consciência desperta e imortal emergente do soçobro daquele ser humano e mortal.

É ela que agora nos fala a partir de um estado transcendente e liberto, exortando-nos a assumirmos a sua “loucura”, “com o que nela ia”, o desejo de transcender a “Sorte”, como o seu mais precioso legado. Somos nós esses “outros” que podemos assumir o exemplo libertador do rei transfigurado assumindo a sua “loucura” transcendente, iluminativa, libertadora. Pois sem isso, recorda, que somos nós, “que é o homem / Mais que a besta sadia, / Cadáver adiado que procria?”. Ou seja, sem a loucura que visa transcender a condição mortal de todo o ente, não só não cumprimos o pleno potencial da nossa própria humanidade, como nem sequer a exercemos, mantendo-nos num patamar de infra-humanidade e numa vida falsa que mais não é senão morte que se adia enquanto, pior ainda, se reproduz noutros cadáveres adiados fabricados pela mentalidade familiar, escolar e socialmente dominante. Como dizem Teixeira de Pascoaes e Agostinho da Silva: “Só há homem quando se faz o impossível”. Ou seja, aqui, a transcensão da própria condição humana.

Ser “besta sadia, / Cadáver adiado que procria”, é afinal, se regressarmos ao poema “O Quinto Império”, permanecer na “apagada e vil tristeza” (Luís de Camões) de uma vida doméstica autosatisfeita, sem “sonho” e voo para mais além, ou na felicidade vegetativa de uma vida já sepulta. Como antídoto disso, a “loucura” de D. Sebastião é o descontentamento que leva o homem a cumprir-se domando as “forças cegas” “pela visão que a alma tem”. Deixar de ser “besta sadia, / Cadáver adiado que procria”, é despertar e libertar-se desse regime de ilusão e autogratificação medíocre que preside à “noite” do mundo e ao seu tempo dos quatro impérios que evanescem julgando-se eternos: “Grécia, Roma, Cristandade, / Europa”. Deixar de ser “besta sadia, / Cadáver adiado que procria”, é “viver a verdade / Que morreu D. Sebastião”, ou seja, cumprir a suma possibilidade da condição humana: a sua própria transcensão, a imortalidade. É esse o sentido mais fundo e amplo do Quinto Império, a soberania do Despertar libertador.

domingo, 31 de maio de 2009

Erasmo de Rotterdam: Elogio da Loucura (excertos)

Um texto muito divertido. Apreciei sobremaneira o que Erasmo escreve sobre a mulher, esse querido animal, e a loucura.

[…]
Sou eu mesma, como vedes; sim, sou eu aquela verdadeira dispenseira de bens, a que os italianos chamam Pazzia e os gregos Mória. E que necessidade havia de vo-lo dizer? O meu rosto já não o diz bastante? Se há alguém que desastradamente se tenha iludido, tomando-me por Minerva ou pela Sabedoria, bastará olhar-me de frente, para logo me conhecer a fundo, sem que eu me sirva das palavras que são a imagem sincera do pensamento. Não existe em mim simulação alguma, mostrando-me eu por fora o que sou no coração. Sou sempre igual a mim mesma, de tal forma que, se alguns dos meus sequazes resumem não passar por tais, disfarçando-se sob a máscara e o nome de sábios, não serão eles mais do que macacos vestidos de púrpura, do que burros vestidos com pele de leão. Qualquer, pois, que seja o raciocínio feito para se mostrarem diferentes do que são, dois compridos orelhões descobrirão sempre o seu Midas. Para dizer a verdade, não estou nada satisfeita com essa gente ingrata, com esses perversos velhacos, porque, embora pertençam mais do que os outros ao nosso império, não só publicamente se envergonham de usar o meu nome, como muitas vezes chegam a aplicá-lo aos outros como título oprobioso. Portanto, sendo eles loucos e arquiloucos, embora assumam a atitude de sábios e de Tales (14), não teremos razão de chamá-los loucamente de sábios?
[…]
Nascida no meio de tantas delícias, não saudei a luz com o pranto, como quase todos os homens: mal fui parida, comecei a rir gostosamente na cara de minha mãe. Não invejo, pois, ao supremo Júpiter, o ter sido amamentado pela cabra Amaltéia, pois que duas graciosíssimas ninfas me deram de mamar: Mete (22), filha de Baco, e Apedia (23), filha de Pã. Ainda podeis vê-las, aqui, no consórcio das outras minhas sequazes e companheiras. Se, por Júpiter, também quereis saber os seus nomes, eu vo-lo direi, mas somente em grego. Estais vendo esta, de olhar altivo? É Filavtia, isto é, o amor-próprio. E esta, de olhos risonhos, que aplaude batendo palmas? É Kolaxia, isto é, a adulação. E, a outra, de pálpebras cerradas parecendo dormir? É Lethes, isto é, o esquecimento. E aquela, que se acha apoiada nos cotovelos, com as mãos cruzadas? É Misoponia, isto é, o horror à fadiga. E esta, que tem a cabeça engrinaldada de rosas, exalando essências e perfumes? É Idonis, isto é, a volúpia. E a outra, que está revirando os olhos lúbricos e incertos e parece dominada por convulsões? É Ania, isto é, a irreflexão. Finalmente, aquela, de pele alabastrina, gorducha e bem nutrida, é Trofís, isto é, a delícia. Entre essas ninfas, podeis distinguir ainda dois deuses: um é Komo, isto é, o riso e o prazer da mesa; o outro é Nigreton hypnon, isto é, o sono profundo. Acompanhada, pois, e servida fielmente por esse séquito de criados, estendo o meu domínio sobre todas as coisas, e até os monarcas mais absolutos estão submetidos ao meu império.
[…]
Tudo o que fazem os homens está cheio de loucura. São loucos tratando com loucos. Por conseguinte, se houver uma única cabeça que pretenda opor obstáculo à torrente da multidão, só lhe posso dar um conselho: que, a exemplo de Timão (42), se retire para um deserto, a fim de aí gozar à vontade dos frutos de sua sabedoria.

sábado, 30 de maio de 2009

Almada Negreiros: Reconhecimento à Loucura

Já alguém sentiu a loucura
vestir de repente o nosso corpo?
Já.
E tomar a forma dos objectos?
Sim.
E acender relâmpagos no pensamento?
Também.
E às vezes parecer ser o fim?
Exactamente.
Como o cavalo do soneto de Ângelo de Lima?
Tal e qual.
E depois mostrar-nos o que há-de vir
muito melhor do que está?
E dar-nos a cheirar uma cor
que nos faz seguir viagem
sem paragem
nem resignação?
E sentirmo-nos empurrados pelos rins
na aula de descer abismos
e fazer dos abismos descidas de recreio
e covas de encher novidade?
E de uns fazer gigantes
e de outros alienados?
E fazer frente ao impossível
atrevidamente
e ganhar-Ihe, e ganhar-Ihe
a ponto do impossível ficar possível?
E quando tudo parece perfeito
poder-se ir ainda mais além?
E isto de desencantar vidas
aos que julgam que a vida é só uma?
E isto de haver sempre ainda mais uma maneira pra tudo?

Tu Só, loucura, és capaz de transformar
o mundo tantas vezes quantas sejam as necessárias para olhos individuais
Só tu és capaz de fazer que tenham razão
tantas razões que hão-de viver juntas.
Tudo, excepto tu, é rotina peganhenta.
Só tu tens asas para dar
a quem tas vier buscar

José de Almada Negreiros
Poemas
Assírio & Alvim

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

Das Narrenschiff - A Nau dos Loucos



Somos a Nau dos Loucos. Navegamos a ilusão de ser.

Mundo: Festa do(s) Louco(s).

Tudo é uma Festa de Loucos. Maior demência do que não ver a sua profunda seriedade é levá-la a sério.

O mundo é a Dança dos Mortos-Vivos.

Loucura: "a inspiração caótica, tempestuosa, anterior ao Fiat divino" - Teixeira de Pascoaes, O Pobre Tolo.

E se a loucura não fosse uma fuga ou desvio da realidade, mas antes o sentimento de realidade um efeito da loucura ?

O mundo é a torre da fortuna que desaba. E só o louco ri de nem ele ficar de pé.

- in A Cada Instante Estamos a Tempo de Nunca Haver Nascido, Sintra, Zéfiro, 2008.

domingo, 12 de outubro de 2008

Vincent

"Starry, starry night.
Paint your palette blue and grey,
Look out on a summer's day,
With eyes that know the darkness in my soul.
Shadows on the hills,
Sketch the trees and the daffodils,
Catch the breeze and the winter chills,
In colors on the snowy linen land.

Now I understand what you tried to say to me,
How you suffered for your sanity,
How you tried to set them free.
They would not listen, they did not know how.
Perhaps they'll listen now.

Starry, starry night.
Flaming flowers that brightly blaze,
Swirling clouds in violet haze,
Reflect in Vincent's eyes of china blue.
Colors changing hue, morning field of amber grain,
Weathered faces lined in pain,
Are soothed beneath the artist's loving hand.

Now I understand what you tried to say to me,
How you suffered for your sanity,
How you tried to set them free.
They would not listen, they did not know how.
Perhaps they'll listen now.

For they could not love you,
But still your love was true.
And when no hope was left in sight
On that starry, starry night,
You took your life, as lovers often do.
But I could have told you, Vincent,
This world was never meant for one
As beautiful as you.

Starry, starry night.
Portraits hung in empty halls,
Frameless head on nameless walls,
With eyes that watch the world and can't forget.
Like the strangers that you've met,
The ragged men in the ragged clothes,
The silver thorn of bloody rose,
Lie crushed and broken on the virgin snow.

Now I think I know what you tried to say to me,
How you suffered for your sanity,
How you tried to set them free.
They would not listen, they're not listening still.
Perhaps they never will... "
Don McLean

domingo, 5 de outubro de 2008

Parabéns, actas e aforismos


Aos quatro, quase cinco, dias do mês de Outubro, no restaurante “X”, um grupo de amigos reuniu-se para celebrar o que ainda não era, mas estava prestes a ser: o aniversário do Paulo. Todos estiveram presentes, porque os que não estiveram, “estiveram” de outras formas mais elevadas e puras do que a representação mental. A reunião não tinha uma sequência de trabalhos e por isso não existiram os tradicionais pontos de ordem. Não houve pontos, houve declarações, exclamações e interrogações.
Mas, numa noite em que nada era e tudo quase podia ser, sugere a redactora desta acta que o lema fosse, roubando um título a Kierkegaard, “In Vino Veritas”. O lema, como tudo na noite, deve agradar a quase todos, menos a uma das participantes que desta vez quase bebeu como os outros. Mas só quase. O que se segue não obedece senão à ordem, sem ordem, que reinava, mas em muito se deve à atentíssima capacidade de concentração do seu primeiro redactor, que à falta de melhor, usou desse mui nobre papel que é a toalha da mesa. Com efeito, será por algum de nós guardado como um papiro, e/ou quiçá algum historiador das mentalidades não o tome um dia por uma peça de um preciso in folio de vidas privadas a discutir a vida pública. Res publica: 5 de Outubro. Como se pode verificar, só aparentemente fora do tempo e das circunstâncias. E da lógica.

Nesse sentido, o que a seguir se apresenta é um conjunto de aforismos, ou de frases que nos fizeram sorrir e esperar com alegria a chegada do dia 5 de Outubro. O que aqui se designa por “aforismos” resulta da livre expressão de vários autores, inspirados por aromas, perfumes e cores do supremo néctar dos deuses. Todas as taças se ergueram para saudar o Paulo. Mas, inspirado e feliz, o Paulo considerou que estas poderiam ser as premissas do renovado blog: A Nova Serpente. [Esta ideia suscitou muitos risos.] Saliente-se, desde já, que nem sempre, ou quase sempre os “aforismos” estão à altura de tudo aquilo que nos ensinou e é. Pelos menos os meus, redactora oficial, também, desta acta. Há, afinal quem tenha muitas actas como há quem tenha muitas “gactas”. Há quem realize muitos actos como quem há quem salve muitos “gactos”. E, nada mais havendo a relatar para tentar tornar perceptível o que não é, e sem termos da lei, porque o vinho os quase anula, seguem-se as fórmulas finais que o secretário mais sebastianista que alguma vez tive a meu lado recolheu para esta composição derradeira: que a todos agrade, faça sorrir e a alegria se possa espalhar como um dom com que a Terra nos celebra. Em especial ao Paulo.

1. A minha cara não é verosímil.
2. Eu prefiro vinho: a sério!...
3.Também quero!
4. Para ser perfeito é porque tem branco.
5. Não posso meter migas em cima dos aforismos.
6. O vinho branco é como o sétimo chackra: uma ausência que é uma presença. (aforismo deturpado, de torpeado).
7. Juro que ainda não estou bêbeda [correcção] ébria. 20:43.
8. Regra de três simples: Gacta está para gacto como acta está para acto. E esta é a solução para a crise financeira e Wall Street.
9.À décima garrafa é possível que me torne ministro da economia.
10. Que quer dizer “maîtrise”?
11. Não existe. O R., secretário-mor deste reino de “Pancas”, saltou do número dez para o aforismo doze.
12. Qual é a diferença entre “ser livre” e “estar em liberdade”?
13. Segunda regra de três simples: O Bom está para sai (supostamente bonsai) como o Mau está para entra.
14. Disseste feitiozinho? (…) e o açúcar?
15. Eu ruborizo: sou a ilustração de mim própria.
16. O amor dá fé.
17. Sou carneiro-aquário. E haverá aí água?

Depois de tanto vinho a água. A última pergunta, de tão filosoficamente profunda, dada a riqueza semântica para que remete o conceito de “água”, deixou bloqueada as nossas frágeis mentes. A noite chegara ao fim. Ainda que eu, no instante em que termino este ofício, me apeteça muito dizer que tomo “água” como origem e fonte e deseje ao Paulo o “caminho de regresso”. Na água esconde-se a transparência de tudo e vê-se o sem fundo: o abismo onde se cai sem nada doer. Como a amizade que muitos e tantos lhe dedicam livres do vinho e da água, do branco e do escuro, para sempre o brindarmos espiritualmente. Muitos vivas ao Paulo!

A presente gacta foi redigida pela nossa mui querida Isabel Santiago, infelizmente devido a obstáculos de ordem informática que ainda não foram devidamente ultrapassados, foi-me incumbida a mim a missão de a postar, para deleite e regabofe de todos nós, excelso povo reinadio do Reino / República ( conforme as convicções individuais de cada um - democracia oblige) da Nova Serpente.

quinta-feira, 25 de setembro de 2008

Não é

Tudo me cansa... canso-me de mim, e o que me resta? O que mais pode haver?
Ou... como se foge de si mesmo? Dum si mesmo que não há?

Ó noite, ó sono, ó vazio...

ó

ó o que seja que não exista em mim.

Ó sentimento madrasto, que me fazes sentir a ser apenas quando me não sou a mim!

Ó mim que não há... que só existes por nada do que para ti existe tu és. Para que te pensas tu?? Porquê esta voz? A voz do que nada é... Para que pessoa me achei sendo? Se nunca isso é ser-me.

Viver não pode ser este assistir ao que nunca é.
Não, não pode ser. Não é.

Ahh que inútil vontade de não ser o nada que sempre fui. E que sempre serei.
Até que seja finalmente tudo o que há em mim.

segunda-feira, 8 de setembro de 2008

Loucura e Santidade segundo o Padre António Vieira

“Logo há doidices falsas e doidices verdadeiras ? Assim é. […] As falsas, são as dos doidos que seguem a vaidade: Vanitates, et insanias falsas: as verdadeiras, são as dos doidos que seguem o contrário da mesma vaidade, que é a verdade. Mas se seguem a verdade, porque são doidos ? Porque toda a doidice se opõe ao uso da razão diferentemente. Os excessos dos maus obram contra a razão, e por isso são viciosos e vãos: os excessos dos Santos obram sobre a razão, e por isso são sólidos e verdadeiros. Uns e outros doidos nesta grande casa de loucos, que é o mundo, têm o seu hospital separado: o dos Santos está nos arrabaldes do Céu, para onde sobem; o dos maus nos arrabaldes do inferno, onde se precipitam: uns e outros andam fora de si como doidos: os maus fora de si, porque se buscam; os santos fora de si, porque se deixam” - Sermões Consagrados à Glorificação de São Francisco Xavier, Sermão Sétimo. Doidices, Sermões, XIII, prefaciados e revistos pelo Padre Gonçalo Alves, Porto, Livraria Chardron de Lello Irmão Editores, 1907-1909, p. 278.

“Não há grande empenho, sem mistura de doidice. E a razão é, porque para qualquer homem obrar heroicamente, e se exceder, e levantar sobre si, é necessário sair de si. Que foram os arrojamentos de Alexandre, senão doidices do valor ? Que foram as fantasias de Homero, senão doidices do furor poético ? Que foram os vaticínios das Sibilas, senão doidices da vista, que deixando a luz do presente penetrava as escuridades do futuro ? Há coisas que estão em nós, e outras que estão sobre nós, e estas são as admiráveis. […] E para eu chegar ao que está sobre mim, é necessário sair de mim” - Ibidem, pp. 287-288.

“Tais foram as doidices de [S. Francisco] Xavier. Não seguiu a Regra do seu Instituto, que citámos no princípio, mas todo se formou e transformou naquele grande apotegma do mesmo Santo Inácio: Insaniendum est, si vis esse perfectus: Hás-de te fazer doido, se queres ser santo. Ele o disse, e foi tão santo e tão doido, que se Deus pusera na sua mão a escolha, ou de ir logo para o céu, ou de ficar neste mundo servindo aos próximos com risco de sua própria salvação, tinha assentado consigo de escolher este segundo” – Ibidem, p.288.

domingo, 24 de fevereiro de 2008



(...) é no estado de loucura que a profetisa de Delfos e as sacerdotisas de Dodona têm proporcionado à Hélade inúmeros benefícios, tanto de ordem privada como pública, enquanto, no seu bom senso, a coisa de pouca monta ou nada se reduz o que fazem.


Platão, Fedro, 244b

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008

Antologia do Padre António Vieira - I - Espiritualidade

“Cuidamos que o céu onde subiram os santos está muito longe, e enganamo-nos: o céu não está longe, senão muito perto, e mais ainda que perto, porque está dentro de nós, e dentro do que está mais dentro, que é o coração. E que haja almas, e tantas almas, que tendo o céu dentro de si na vida, fiquem fora do céu na morte; e que podendo tão facilmente purificar o coração, e ser santas, só porque não querem, o não sejam ?” - Sermão de Todos os Santos, S, IX, p.68.

“As cadeiras das universidades, ainda que sejam de teologia, de leis, de Cânones, todas são de medicina, porque todas se ordenam à saúde pública. E que seria se os catedráticos da saúde se trocassem em catedráticos da peste: In cathedra pestilentiae ? Pois saibam que tais são os que, tentados da ambição, da lisonja ou do temor, em lugar de desenganarem com a verdade aos príncipes que os consultam, se deixam enganar do seu ou de outros despeitos, e o que eles desejam ou pretendem, isso respondem que é justo. […] E por esta perversão das letras e dos letrados, as mesmas universidades e cadeiras donde havia de manar a saúde pública, vêm a ser o veneno, a ruína e a peste dos reinos: Cathedra pestilentiae” – Sermão de Santa Catarina [1663], S, IX, pp.164-165.

“Logo há doidices falsas e doidices verdadeiras ? Assim é. […] As falsas, são as dos doidos que seguem a vaidade: Vanitates, et insanias falsas: as verdadeiras, são as dos doidos que seguem o contrário da mesma vaidade, que é a verdade. Mas se seguem a verdade, porque são doidos ? Porque toda a doidice se opõe ao uso da razão diferentemente. Os excessos dos maus obram contra a razão, e por isso são viciosos e vãos: os excessos dos Santos obram sobre a razão, e por isso são sólidos e verdadeiros. Uns e outros doidos nesta grande casa de loucos, que é o mundo, têm o seu hospital separado: o dos Santos está nos arrabaldes do Céu, para onde sobem; o dos maus nos arrabaldes do inferno, onde se precipitam: uns e outros andam fora de si como doidos: os maus fora de si, porque se buscam; os santos fora de si, porque se deixam” - Sermões consagrados à glorificação de S. Francisco Xavier, VII, Doidices, S, XIII, p. 278.

“Tais foram as doidices de [S. Francisco] Xavier. Não seguiu a Regra do seu Instituto, que citámos no princípio, mas todo se formou e transformou naquele grande apotegma do mesmo Santo Inácio: Insaniendum est, si vis esse perfectus: Hás-de te fazer doido, se queres ser santo. Ele o disse, e foi tão santo e tão doido, que se Deus pusera na sua mão a escolha, ou de ir logo para o céu, ou de ficar neste mundo servindo aos próximos com risco de sua própria salvação, tinha assentado consigo de escolher este segundo” – Sermões consagrados à glorificação de S. Francisco Xavier, VII, Doidices, S, XIII, p.288.

“[…] a oração mental. No meio do ruído da corte, e dos concursos do paço, recolhia-se sua majestade por muitas horas ao seu oratório como a um deserto e ali, levantando o espírito sobre todas as coisas cá de baixo, ouvia da boca de Deus, no silêncio da contemplação, aqueles altíssimos desenganos, e via, no espelho da eternidade, aquelas claríssimas luzes, em que o tudo e o nada são da mesma cor: em que o tudo e o nada têm a mesma conta; em que o tudo e o nada têm o mesmo peso; em que o tudo e o nada têm as mesmas medidas; e por isso nenhuma mudança ou variedade das coisas humanas lhe alteravam o coração, tendo-o sempre unido com a vontade divina. E como nesta união da vontade humana com a divina consiste a suma da santidade, e a santidade suma, […]” – Palavra de Deus Empenhada no Sermão das Exéquias da rainha D. Maria Francisca Isabel de Sabóia, S, XV, p.329

" [...] tudo o que não é ser Santo, é não ser [...]" - Sermoens, IV, p.136.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2008

Enlouquecer alegremente, transfigurar o universo e morrer de luz

Preparava-me para publicar algo do que de mais devastador e incómodo este grande iconoclasta às nossas mentes mimadas dirigiu e eis que me deparo com esta passagem redentora, sem lhe poder resistir... Compaixão ou fraqueza ?...

“Gostaria de perder a razão com uma única condição: ter a certeza de me tornar um louco alegre e jovial, sem problemas nem obsessões, folgazão de manhã à noite. Se bem que deseje ardentemente êxtases luminosos, não os quereria no entanto, pois são sempre seguidos de depressões. Quereria, em contrapartida, que um banho de luz de mim brotasse para transfigurar o universo – um banho que, longe da tensão do êxtase, conservaria a calma de uma eternidade luminosa. Teria a ligeireza da graça e o calor de um sorriso. Quereria que o mundo inteiro flutuasse neste sonho de claridade, neste encanto de transparência e de imaterialidade. Que não houvesse mais obstáculo nem matéria, forma ou confins. E que, neste paraíso, eu morresse de luz”
- Emil Cioran (1911-1995), Sur les Cimes du Désespoir, in Oeuvres, Paris, Gallimard, 1995, p.31.