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quarta-feira, 2 de dezembro de 2009
"A criatura não é nada e crê-se tudo. Ela deve nada se crer para ser tudo"
- Simone Weil, Cahier VI, Oeuvres, Paris, Gallimard, 1999, p.848.
terça-feira, 4 de agosto de 2009
quinta-feira, 2 de abril de 2009
Ainda Agostinho da Silva: da explosão do nada em tudo (aperitivo para o Colóquio de amanhã, 3 de Abril, no Anf. I da Fac. de Letras da Univ. de Lisboa
[…]
6. Parece-me, por outro lado, que se não pode construir nenhuma filosofia geral ou metafísica sem admitir, com o velho Espinosa, que se tem de partir da ideia de alguma coisa que é constituinte de tudo, mas da qual se não pode dizer, como ele, que é substância, porquanto excluiríamos o insubstante, nem que é deus, porque excluiríamos tudo a que não chamamos deus, nem sequer que existe fora do pensamento, porque estaríamos excluindo o que não existe; de resto, basta pensar esse alguma coisa como pensável para já excluirmos o que não pensamos.
7. Penso assim que esse alguma coisa é nada, só sendo alguma coisa quando todas as coisas existem e o fazem pensar como A Coisa. Logo que isso se dá, existe o a que chamamos o Universo, como suas imutáveis leis, imutáveis naquele Universo, portanto sob o domínio do que se chama determinismo no mundo material e destino no mundo humano.
8. Creio que esse explodir do Nada em Tudo não se deu de uma vez para sempre no mundo, mas se está dando a cada momento, sendo pura ilusão nossa a ideia de sua continuidade: cada ocultação do determinismo detectada pela ciência, cujo progresso não vejo como ilimitado, como não vejo o da Humanidade — o passo final será o salto do determinismo para a liberdade —, significa a passagem de um mundo a outro (a paleontologia estratigráfica pode não ser o fruto de uma evolução, mas o testemunho dos saltos de um mundo a outro).
9. Cada mundo criado tem leis fixas, e destinos humanos; cada intervalo significa a liberdade de aparecer outro mundo com diferentes relacionamentos legais.
10. Entrarei agora em linha de conta que aquilo a que chamo mundo é, na realidade, a ideia que eu tenho do mundo: outro ser completamente diferente teria dele um conceito completamente diferente.
11. Portanto, para que surja um mundo diferente do actual, basta que eu mude, que me insira naquele momento em que o alguma coisa se recolhe ao nada, o que só pode ser preparado e propiciado por um comportamento dentro do mundo que existe, mas o mais diferente possível dos comportamentos normais, o que é o conceito fonte das várias asceses de tantas culturas e o conceito fonte daquilo que nos Evangelhos cristãos vem designado por metanóia ou, calculo, o samadhi de Oriente.
12. A responsabilidade do mundo, tal qual ele é, está, por conseguinte, em mim e não nos outros — pessoas ou estruturas — e em mim, se o momento é certo, se estou eu certo, se procedo certo (tal como os alquimistas o julgavam para a limitada operação de transmutar matéria, se não para a mais vasta de transmutar a vida), reside o poder de modificar o mundo, de o fazer nascer outro.
13. Deixando de ter vontade própria — caso contrário não se atingiria o nada que pode ser tudo —, só posso contribuir para que surja um mundo que agrade aos outros, isto é, àqueles que mostram real impulso de não serem o que são, impulso real e válido dentro do que eu próprio penso estar certo — porquanto, até o último momento, é no universo que existe que estou agindo, a todos parecendo o novo que surgir como a consequência lógica das circunstâncias do anterior, o que ainda pode dar a vantagem de se poder conservar anonimato próprio”
– “Até o primeiro quartel do século XX…” [Fevereiro de 1976], in Textos e Ensaios Filosóficos II, pp.306-307.
6. Parece-me, por outro lado, que se não pode construir nenhuma filosofia geral ou metafísica sem admitir, com o velho Espinosa, que se tem de partir da ideia de alguma coisa que é constituinte de tudo, mas da qual se não pode dizer, como ele, que é substância, porquanto excluiríamos o insubstante, nem que é deus, porque excluiríamos tudo a que não chamamos deus, nem sequer que existe fora do pensamento, porque estaríamos excluindo o que não existe; de resto, basta pensar esse alguma coisa como pensável para já excluirmos o que não pensamos.
7. Penso assim que esse alguma coisa é nada, só sendo alguma coisa quando todas as coisas existem e o fazem pensar como A Coisa. Logo que isso se dá, existe o a que chamamos o Universo, como suas imutáveis leis, imutáveis naquele Universo, portanto sob o domínio do que se chama determinismo no mundo material e destino no mundo humano.
8. Creio que esse explodir do Nada em Tudo não se deu de uma vez para sempre no mundo, mas se está dando a cada momento, sendo pura ilusão nossa a ideia de sua continuidade: cada ocultação do determinismo detectada pela ciência, cujo progresso não vejo como ilimitado, como não vejo o da Humanidade — o passo final será o salto do determinismo para a liberdade —, significa a passagem de um mundo a outro (a paleontologia estratigráfica pode não ser o fruto de uma evolução, mas o testemunho dos saltos de um mundo a outro).
9. Cada mundo criado tem leis fixas, e destinos humanos; cada intervalo significa a liberdade de aparecer outro mundo com diferentes relacionamentos legais.
10. Entrarei agora em linha de conta que aquilo a que chamo mundo é, na realidade, a ideia que eu tenho do mundo: outro ser completamente diferente teria dele um conceito completamente diferente.
11. Portanto, para que surja um mundo diferente do actual, basta que eu mude, que me insira naquele momento em que o alguma coisa se recolhe ao nada, o que só pode ser preparado e propiciado por um comportamento dentro do mundo que existe, mas o mais diferente possível dos comportamentos normais, o que é o conceito fonte das várias asceses de tantas culturas e o conceito fonte daquilo que nos Evangelhos cristãos vem designado por metanóia ou, calculo, o samadhi de Oriente.
12. A responsabilidade do mundo, tal qual ele é, está, por conseguinte, em mim e não nos outros — pessoas ou estruturas — e em mim, se o momento é certo, se estou eu certo, se procedo certo (tal como os alquimistas o julgavam para a limitada operação de transmutar matéria, se não para a mais vasta de transmutar a vida), reside o poder de modificar o mundo, de o fazer nascer outro.
13. Deixando de ter vontade própria — caso contrário não se atingiria o nada que pode ser tudo —, só posso contribuir para que surja um mundo que agrade aos outros, isto é, àqueles que mostram real impulso de não serem o que são, impulso real e válido dentro do que eu próprio penso estar certo — porquanto, até o último momento, é no universo que existe que estou agindo, a todos parecendo o novo que surgir como a consequência lógica das circunstâncias do anterior, o que ainda pode dar a vantagem de se poder conservar anonimato próprio”
– “Até o primeiro quartel do século XX…” [Fevereiro de 1976], in Textos e Ensaios Filosóficos II, pp.306-307.
sexta-feira, 8 de fevereiro de 2008
Da natureza primordial
1. A natureza primordial de todas as coisas é desprovida de qualquer característica, incluindo a de ser a natureza primordial de todas as coisas e desprovida de qualquer característica. É alheia a todos os conceitos, imagens e palavras, incluindo o ser-lhes alheia. Não há discurso ou símbolo que a possa verdadeiramente formular, podendo apenas sugeri-la, tanto menos impropriamente quanto mais os conceitos, imagens e palavras respeitem essa irrelação e se assumam e exerçam no limite que apela a sua conversão em limiar da sua própria recriação, suspensão e transcensão na experiência inefável que, com a profunda transformação que opera, é a única garantia da sua mesma autenticidade. Isto aplica-se antes de mais a este texto, que é insistente e urgente convite ao seu total esquecimento na experiência para que aponta.
2. Nos limites do pensamento e do discurso é possível sugerir a natureza primordial de todas as coisas, sem deixar de a trair, como o infinito, um nada-tudo e um nada que se pode relativamente manifestar ou ser percepcionado de todos os modos e em todas as formas possíveis, nele intemporal e a cada instante claramente presentes. Nos limites da imaginação é possível sugeri-la, sem deixar de a trair, pela imagem de um espaço infinito, insubstancial e sem obstáculos, transparente e luminoso, inalterável e inseparável de tudo o que nele ilimitadamente se pode manifestar ou percepcionar. Nos limites do pensamento, do discurso e da imaginação é possível sugeri-la, sem deixar de a trair, como um infinito esplendor, um ilimitado nada e tudo poder ser, pura energia informe e insubstancial susceptível de irradiar, assumir e ser experienciada segundo irrestritas modalidades, sempre cambiantes e evanescentes.
3. Supõe a primeira possibilidade a não confusão do nada com o não ser e com a sua interpretação niilista. "Nada", de acordo com a origem etimológica portuguesa e castelhana, do latino “nulla res nata”, assinala o inato, o não nascido, o não originado e não produzido da natureza primeira e última de todas as coisas, bem como a sua não reificação, o não ser “coisa”, e a sua não entificação, o não ser “ente”. Assinala ainda o transcender toda a determinação e manifestação e não lhe convir nenhum dos predicados onto-lógicos possíveis: ser, não ser, ser e não ser, nem ser nem não ser. Em verdade, o nada nem sequer é nada. Assinala-o a palavra portuguesa e castelhana “nonada”, sinónimo da “insignificância” que permite toda a emergência de sentido e significado. "Tudo" indica quer a plenitude em acto disso que é sem determinação, quer a totalidade ilimitada das manifestações possíveis do que, sendo de todas inseparável, não menos a todas, por sua não determinação, engloba e transcende. Este nada não é inerte e estéril, sendo o espaço matricial e fecundo de toda a manifestação, que todavia, sendo dele inseparável, jamais se entifica ou reifica como isto ou aquilo, com características e determinações intrínsecas. A natureza da manifestação é a de meras aparições-aparências que a cada instante evanescem e se libertam de o ser, sem origem, fim ou duração.
4. Sendo a natureza primordial de tudo inacessível a qualquer forma de conhecimento, representação e discurso, é-lhe todavia inerente um saber-sabor de experiência feito. Este saber-sabor-experiência é o estado natural, primordial, comum e espontâneo de todos os seres aparentes, na plena consciência fruitiva da sua natureza autêntica, livres de todos os conceitos e determinações, incluindo os de “serem” e de serem “seres”. Esta consciência fruitiva é sem sujeito, nem objecto, nem características: por isso infinita e inefável, sem centro nem periferia, sem interior nem exterior, sem entidade nem referência a si ou a outro, sem concepção nem intenção. Sem auto ou hetero-relação, intelectual, reflexiva ou outra, sem identidade-diferença, sem mesmidade-alteridade, não é para si, livre de toda a auto-apreensão e auto-apropriação. A consciência inerente à natureza primordial não é de si como um si ou um ser, como sendo ou não sendo isto ou aquilo. Refractando o seu saber-sabor-experiência pelos limites do pensamento e do discurso, as características menos impróprias para indicar a sua total ausência são vacuidade-plenitude e liberdade-infinidade. Isto não contradiz uma inerente sabedoria experiencial que, sempre que confrontada, como veremos, com qualquer forma de limitação e sofrimento, espontaneamente se manifesta como uma infinita sensibilidade amorosa, compassiva e libertadora.
5. Tu, que escreves e lês, importa que quanto antes o recordes, experiencies e vivencies, “és” em verdade, no mais fundo sem fundo de ti mesmo, e sem qualquer identidade ou diferença, a natureza primordial de tudo e o seu saber-sabor-experiência inerente, isso para além do qual nada mais há, com toda a sua potencialidade sensível, amorosa e compassiva. Sem características, não és tu, porque não és nem não és isto ou aquilo. No mais íntimo de ti, és livre de ti, livre de ser ou não ser e por isso bem-aventurado e infinito. Um não sei quê, insuperável e irredutível, estranho e entranho a tudo, que a todas as coisas abrange e engloba. É nessa imensidão incriada de ti sem ti que tudo acontece e se manifesta: sempre superabunda e nada lhe falta, nem sequer o nada. É essa afinal a verdadeira natureza e excelência de todos os seres, seres aparentes como tu, pois ser é apenas aparecer como tal, numa aparência de determinação sem qualquer essência, substância ou entidade intrínseca.
(Excerto inicial de Da Natureza primordial, da Mundanidade e da Saudade. Teoria e prática de libertação, inédito em fase de conclusão)
2. Nos limites do pensamento e do discurso é possível sugerir a natureza primordial de todas as coisas, sem deixar de a trair, como o infinito, um nada-tudo e um nada que se pode relativamente manifestar ou ser percepcionado de todos os modos e em todas as formas possíveis, nele intemporal e a cada instante claramente presentes. Nos limites da imaginação é possível sugeri-la, sem deixar de a trair, pela imagem de um espaço infinito, insubstancial e sem obstáculos, transparente e luminoso, inalterável e inseparável de tudo o que nele ilimitadamente se pode manifestar ou percepcionar. Nos limites do pensamento, do discurso e da imaginação é possível sugeri-la, sem deixar de a trair, como um infinito esplendor, um ilimitado nada e tudo poder ser, pura energia informe e insubstancial susceptível de irradiar, assumir e ser experienciada segundo irrestritas modalidades, sempre cambiantes e evanescentes.
3. Supõe a primeira possibilidade a não confusão do nada com o não ser e com a sua interpretação niilista. "Nada", de acordo com a origem etimológica portuguesa e castelhana, do latino “nulla res nata”, assinala o inato, o não nascido, o não originado e não produzido da natureza primeira e última de todas as coisas, bem como a sua não reificação, o não ser “coisa”, e a sua não entificação, o não ser “ente”. Assinala ainda o transcender toda a determinação e manifestação e não lhe convir nenhum dos predicados onto-lógicos possíveis: ser, não ser, ser e não ser, nem ser nem não ser. Em verdade, o nada nem sequer é nada. Assinala-o a palavra portuguesa e castelhana “nonada”, sinónimo da “insignificância” que permite toda a emergência de sentido e significado. "Tudo" indica quer a plenitude em acto disso que é sem determinação, quer a totalidade ilimitada das manifestações possíveis do que, sendo de todas inseparável, não menos a todas, por sua não determinação, engloba e transcende. Este nada não é inerte e estéril, sendo o espaço matricial e fecundo de toda a manifestação, que todavia, sendo dele inseparável, jamais se entifica ou reifica como isto ou aquilo, com características e determinações intrínsecas. A natureza da manifestação é a de meras aparições-aparências que a cada instante evanescem e se libertam de o ser, sem origem, fim ou duração.
4. Sendo a natureza primordial de tudo inacessível a qualquer forma de conhecimento, representação e discurso, é-lhe todavia inerente um saber-sabor de experiência feito. Este saber-sabor-experiência é o estado natural, primordial, comum e espontâneo de todos os seres aparentes, na plena consciência fruitiva da sua natureza autêntica, livres de todos os conceitos e determinações, incluindo os de “serem” e de serem “seres”. Esta consciência fruitiva é sem sujeito, nem objecto, nem características: por isso infinita e inefável, sem centro nem periferia, sem interior nem exterior, sem entidade nem referência a si ou a outro, sem concepção nem intenção. Sem auto ou hetero-relação, intelectual, reflexiva ou outra, sem identidade-diferença, sem mesmidade-alteridade, não é para si, livre de toda a auto-apreensão e auto-apropriação. A consciência inerente à natureza primordial não é de si como um si ou um ser, como sendo ou não sendo isto ou aquilo. Refractando o seu saber-sabor-experiência pelos limites do pensamento e do discurso, as características menos impróprias para indicar a sua total ausência são vacuidade-plenitude e liberdade-infinidade. Isto não contradiz uma inerente sabedoria experiencial que, sempre que confrontada, como veremos, com qualquer forma de limitação e sofrimento, espontaneamente se manifesta como uma infinita sensibilidade amorosa, compassiva e libertadora.
5. Tu, que escreves e lês, importa que quanto antes o recordes, experiencies e vivencies, “és” em verdade, no mais fundo sem fundo de ti mesmo, e sem qualquer identidade ou diferença, a natureza primordial de tudo e o seu saber-sabor-experiência inerente, isso para além do qual nada mais há, com toda a sua potencialidade sensível, amorosa e compassiva. Sem características, não és tu, porque não és nem não és isto ou aquilo. No mais íntimo de ti, és livre de ti, livre de ser ou não ser e por isso bem-aventurado e infinito. Um não sei quê, insuperável e irredutível, estranho e entranho a tudo, que a todas as coisas abrange e engloba. É nessa imensidão incriada de ti sem ti que tudo acontece e se manifesta: sempre superabunda e nada lhe falta, nem sequer o nada. É essa afinal a verdadeira natureza e excelência de todos os seres, seres aparentes como tu, pois ser é apenas aparecer como tal, numa aparência de determinação sem qualquer essência, substância ou entidade intrínseca.
(Excerto inicial de Da Natureza primordial, da Mundanidade e da Saudade. Teoria e prática de libertação, inédito em fase de conclusão)
quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008
Antologia do Padre António Vieira - I - Espiritualidade
“Cuidamos que o céu onde subiram os santos está muito longe, e enganamo-nos: o céu não está longe, senão muito perto, e mais ainda que perto, porque está dentro de nós, e dentro do que está mais dentro, que é o coração. E que haja almas, e tantas almas, que tendo o céu dentro de si na vida, fiquem fora do céu na morte; e que podendo tão facilmente purificar o coração, e ser santas, só porque não querem, o não sejam ?” - Sermão de Todos os Santos, S, IX, p.68.
“As cadeiras das universidades, ainda que sejam de teologia, de leis, de Cânones, todas são de medicina, porque todas se ordenam à saúde pública. E que seria se os catedráticos da saúde se trocassem em catedráticos da peste: In cathedra pestilentiae ? Pois saibam que tais são os que, tentados da ambição, da lisonja ou do temor, em lugar de desenganarem com a verdade aos príncipes que os consultam, se deixam enganar do seu ou de outros despeitos, e o que eles desejam ou pretendem, isso respondem que é justo. […] E por esta perversão das letras e dos letrados, as mesmas universidades e cadeiras donde havia de manar a saúde pública, vêm a ser o veneno, a ruína e a peste dos reinos: Cathedra pestilentiae” – Sermão de Santa Catarina [1663], S, IX, pp.164-165.
“Logo há doidices falsas e doidices verdadeiras ? Assim é. […] As falsas, são as dos doidos que seguem a vaidade: Vanitates, et insanias falsas: as verdadeiras, são as dos doidos que seguem o contrário da mesma vaidade, que é a verdade. Mas se seguem a verdade, porque são doidos ? Porque toda a doidice se opõe ao uso da razão diferentemente. Os excessos dos maus obram contra a razão, e por isso são viciosos e vãos: os excessos dos Santos obram sobre a razão, e por isso são sólidos e verdadeiros. Uns e outros doidos nesta grande casa de loucos, que é o mundo, têm o seu hospital separado: o dos Santos está nos arrabaldes do Céu, para onde sobem; o dos maus nos arrabaldes do inferno, onde se precipitam: uns e outros andam fora de si como doidos: os maus fora de si, porque se buscam; os santos fora de si, porque se deixam” - Sermões consagrados à glorificação de S. Francisco Xavier, VII, Doidices, S, XIII, p. 278.
“Tais foram as doidices de [S. Francisco] Xavier. Não seguiu a Regra do seu Instituto, que citámos no princípio, mas todo se formou e transformou naquele grande apotegma do mesmo Santo Inácio: Insaniendum est, si vis esse perfectus: Hás-de te fazer doido, se queres ser santo. Ele o disse, e foi tão santo e tão doido, que se Deus pusera na sua mão a escolha, ou de ir logo para o céu, ou de ficar neste mundo servindo aos próximos com risco de sua própria salvação, tinha assentado consigo de escolher este segundo” – Sermões consagrados à glorificação de S. Francisco Xavier, VII, Doidices, S, XIII, p.288.
“[…] a oração mental. No meio do ruído da corte, e dos concursos do paço, recolhia-se sua majestade por muitas horas ao seu oratório como a um deserto e ali, levantando o espírito sobre todas as coisas cá de baixo, ouvia da boca de Deus, no silêncio da contemplação, aqueles altíssimos desenganos, e via, no espelho da eternidade, aquelas claríssimas luzes, em que o tudo e o nada são da mesma cor: em que o tudo e o nada têm a mesma conta; em que o tudo e o nada têm o mesmo peso; em que o tudo e o nada têm as mesmas medidas; e por isso nenhuma mudança ou variedade das coisas humanas lhe alteravam o coração, tendo-o sempre unido com a vontade divina. E como nesta união da vontade humana com a divina consiste a suma da santidade, e a santidade suma, […]” – Palavra de Deus Empenhada no Sermão das Exéquias da rainha D. Maria Francisca Isabel de Sabóia, S, XV, p.329
" [...] tudo o que não é ser Santo, é não ser [...]" - Sermoens, IV, p.136.
“As cadeiras das universidades, ainda que sejam de teologia, de leis, de Cânones, todas são de medicina, porque todas se ordenam à saúde pública. E que seria se os catedráticos da saúde se trocassem em catedráticos da peste: In cathedra pestilentiae ? Pois saibam que tais são os que, tentados da ambição, da lisonja ou do temor, em lugar de desenganarem com a verdade aos príncipes que os consultam, se deixam enganar do seu ou de outros despeitos, e o que eles desejam ou pretendem, isso respondem que é justo. […] E por esta perversão das letras e dos letrados, as mesmas universidades e cadeiras donde havia de manar a saúde pública, vêm a ser o veneno, a ruína e a peste dos reinos: Cathedra pestilentiae” – Sermão de Santa Catarina [1663], S, IX, pp.164-165.
“Logo há doidices falsas e doidices verdadeiras ? Assim é. […] As falsas, são as dos doidos que seguem a vaidade: Vanitates, et insanias falsas: as verdadeiras, são as dos doidos que seguem o contrário da mesma vaidade, que é a verdade. Mas se seguem a verdade, porque são doidos ? Porque toda a doidice se opõe ao uso da razão diferentemente. Os excessos dos maus obram contra a razão, e por isso são viciosos e vãos: os excessos dos Santos obram sobre a razão, e por isso são sólidos e verdadeiros. Uns e outros doidos nesta grande casa de loucos, que é o mundo, têm o seu hospital separado: o dos Santos está nos arrabaldes do Céu, para onde sobem; o dos maus nos arrabaldes do inferno, onde se precipitam: uns e outros andam fora de si como doidos: os maus fora de si, porque se buscam; os santos fora de si, porque se deixam” - Sermões consagrados à glorificação de S. Francisco Xavier, VII, Doidices, S, XIII, p. 278.
“Tais foram as doidices de [S. Francisco] Xavier. Não seguiu a Regra do seu Instituto, que citámos no princípio, mas todo se formou e transformou naquele grande apotegma do mesmo Santo Inácio: Insaniendum est, si vis esse perfectus: Hás-de te fazer doido, se queres ser santo. Ele o disse, e foi tão santo e tão doido, que se Deus pusera na sua mão a escolha, ou de ir logo para o céu, ou de ficar neste mundo servindo aos próximos com risco de sua própria salvação, tinha assentado consigo de escolher este segundo” – Sermões consagrados à glorificação de S. Francisco Xavier, VII, Doidices, S, XIII, p.288.
“[…] a oração mental. No meio do ruído da corte, e dos concursos do paço, recolhia-se sua majestade por muitas horas ao seu oratório como a um deserto e ali, levantando o espírito sobre todas as coisas cá de baixo, ouvia da boca de Deus, no silêncio da contemplação, aqueles altíssimos desenganos, e via, no espelho da eternidade, aquelas claríssimas luzes, em que o tudo e o nada são da mesma cor: em que o tudo e o nada têm a mesma conta; em que o tudo e o nada têm o mesmo peso; em que o tudo e o nada têm as mesmas medidas; e por isso nenhuma mudança ou variedade das coisas humanas lhe alteravam o coração, tendo-o sempre unido com a vontade divina. E como nesta união da vontade humana com a divina consiste a suma da santidade, e a santidade suma, […]” – Palavra de Deus Empenhada no Sermão das Exéquias da rainha D. Maria Francisca Isabel de Sabóia, S, XV, p.329
" [...] tudo o que não é ser Santo, é não ser [...]" - Sermoens, IV, p.136.
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