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quarta-feira, 15 de abril de 2009
A Saudade e a Natureza Primordial
«...a saudade enquanto esse inquietante vínculo desiderativo entre o que o sujeito é no plano da temporalidade e o "clima" ou "terra" onde "outrora" nasceu e sonhou.»
Esta pequena frase, citada do livro Jogos do Mundo escrito pelo Professor Paulo Borges, evoca o tema da saudade, tema muito reflectido pelo Professor em vários livros seus, dos quais destaco «Da Saudade Como Via de Libertação». Segundo o investigador, saudade tem origem na palavra latina solitate que significa solidão. Solidão de quê?
Já Cem Komurcu, no seu artigo "Melancolia em Istambul e Lisboa" publicado na revista Nova Águia Nº3, cita o seguinte pensamento de Schelling: «O mais escuro e por isso mais profundo da natureza humana é a Saudade, como que a gravitação interior do ânimo, por isso melancolia na sua aparição profunda.» Em linhas muito gerais, no artigo mencionado o pensador turco-germânico escreve sobre o estado de melancolia que reina tanto em Istambul como em Lisboa. Estando Istambul separada pelo Bósforo, os seus habitantes sentem-se fragmentados devido à cisão existente entre a mentalidade e cultura europeia e asiática. A melancolia de Lisboa é diferente, mais metafísica, pois estando esta cidade situada no finisterra, na ponta ocidental da Europa, encontra-se de costas voltadas para o oceano in-fundo e in-finito, fluindo o Tejo do finito para o in-finito, do mundo para o i-mundo, da terra para o céu. Assim, devido a um sentimento de separação e de solidão, Istambul e Lisboa são cidades melancólicas. Separação de quê?
Erich Fromm expõe a sua teoria do amor no livro "A Arte de Amar", afirmando que durante evolução, o homem emergiu do reino animal e transcendeu a natureza através do desenvolvimento da razão. Uma vez separado, não consegue voltar ao dito paraíso-um estado primordial de união com a natureza. Curiosamente, Fromm aborda o mito de Adão e Eva, afirmando que estes ao separarem-se da natureza sentiram-se envergonhados de estarem nus devido à consciencialização da sua diferença de sexos. De seguida Fromm afirma que «A consciência da separação humana, sem haver uma religação através do amor, é a origem da vergonha. É também a origem da culpa e da ansiedade.» Neste livro, o psicólogo defende o amor como a via de regresso a essa natureza primordial do qual o homem se sente separado.
Também o Professor Agostinho da Silva aborda o tema do amor. Em Sete Cartas a um Jovem Filósofo (1945) escreve: «quando se ama, em silêncio se ama: às vezes o sabe a mulher amada, mas creio até que num amor que fosse pleno, em que nada entrasse das preocupações da terra, nem ela o saberia.» Este amar em silêncio evoca o estado de união que existe entre sujeito e objecto após a diluição do ego e dos seus ego-interesses. É que o Professor, melhor que ninguém, sabia que o sentimento de si, com as suas tendências de fixação, de aversão ou de ignorância é o grande causador da cisão entre o homem e a natureza. Mas afinal que natureza é esta? Julgo que a natureza de que fala Fromm é a consciência primordial, a consciência que sempre esteve, está e estará com o homem (e sem o homem) e com a qual em silêncio se ama, em que nada entrasse das preocupações da terra, preocupações que têm como origem a mente egótica que ilusoriamente cremos que existe.
Em relação a este assunto, a via budista propõe formas interessantes de limpeza da mente. O Hinayana ou pequeno veículo, apresenta várias técnicas que destroem a ilusão da ex-istência do ego. Já o Mahayana ou grande veículo concentra-se mais no aperfeiçoamento do sentimento de amor pelo próximo. Se o primeiro veículo dá mais ênfase ao re-conhecimento da vacuidade do ser, o segundo veículo preenche essa vacuidade com amor e compaixão. Através do treino das Quatro Ilimitadas, o praticante budista enche o cálice da sua consciência livre de véus mentais conceptuais e emocionais com amor, compaixão, alegria e equanimidade, o qual lhe permitirá ao longo do tempo re-conhecer a sua consciência primordial.
Creio que agora já se pode responder às perguntas acima colocadas. Por algum motivo o ser humano separou-se da natureza. Segundo o Professor Agostinho da Silva, na Idade de Ouro o ser humano alimentava-se de frutos. Todavia os frutos começaram a escassear e ele teve que procurar outros alimentos. Começou a matar os seus irmãos animais e um sentimento de culpa invadiu a sua mente, separando-o daquilo a que anteriormente se sentia ligado e que o fazia sentir-se infinito, omnipresente, Deus. Se actualmente nos sentimos em solidão, em depressão, em crise (sentimento muito presente nas nossas mentes actualmente), é porque os véus mentais não possibilitam a contemplação da nossa natureza primordial. Se a Saudade e a melancolia impregnam de lava as nossas mentes, é porque no fundo do vulcão algo nos apela a regressar. Creio que através do amor, da arte de amar, da oração, da meditação, através de vias espirituais traçadas por mestres do amar como Cristo, Maomé ou Buda é possível re-gressar ao "clima" ou "terra" onde "outrora" nascemos e sonhámos para viver a vida plenamente.
segunda-feira, 11 de agosto de 2008
"We want the world and we want it now" J. Morrison
Como pode alguém se reencontrar tão profundamente através de quem se perdeu?
Jim Morrison, Fernando Pessoa, Elis Regina...
Porque o natural do ser humano é viver perdido de si, é não saber quem é, é viver sem pensar o que deve ou o que não deve fazer, porque o antinatural é esta sociedade falsamente conhecedora de como se deve viver a vida, ignorante que a luz e a sombra são no âmago o mesmo, que viver sabendo é coisa que para a corrente do rio da vida não interessa para nada, porque ela não existe por ou para ser sabida, apenas para ser vivida superficialmente, através do corpo, pois nada há de mais fundo que a superfície do mundo, que imaginar outros fundos é perder este para ficar com nenhum. Que o Jim e os outros poetas marginais morreram prematuramente porque eram demasiado perfeitos para este mundo ainda a aprender a ser mundo, que é o Homem que teima em escolher uma margem do rio em vez de nele embarcar de modo inteiro, que de marginal existe só esta invenção mental de mundo: todo o pensamento é marginal ao corpo, todo o ser humano torna-se marginal cada vez que pensa.
Apenas aceito pensar como via para o não pensar, apenas aceito viver na terra dos marginais como via para a terra do mar.
"Waiting for the Sun"...
"I'll tell you this... No eternal reward will forgive us now for wasting the dawn."
Jim Morri-son
Jim Morrison, Fernando Pessoa, Elis Regina...
Porque o natural do ser humano é viver perdido de si, é não saber quem é, é viver sem pensar o que deve ou o que não deve fazer, porque o antinatural é esta sociedade falsamente conhecedora de como se deve viver a vida, ignorante que a luz e a sombra são no âmago o mesmo, que viver sabendo é coisa que para a corrente do rio da vida não interessa para nada, porque ela não existe por ou para ser sabida, apenas para ser vivida superficialmente, através do corpo, pois nada há de mais fundo que a superfície do mundo, que imaginar outros fundos é perder este para ficar com nenhum. Que o Jim e os outros poetas marginais morreram prematuramente porque eram demasiado perfeitos para este mundo ainda a aprender a ser mundo, que é o Homem que teima em escolher uma margem do rio em vez de nele embarcar de modo inteiro, que de marginal existe só esta invenção mental de mundo: todo o pensamento é marginal ao corpo, todo o ser humano torna-se marginal cada vez que pensa.
Apenas aceito pensar como via para o não pensar, apenas aceito viver na terra dos marginais como via para a terra do mar.
"Waiting for the Sun"...
"I'll tell you this... No eternal reward will forgive us now for wasting the dawn."
Jim Morri-son
sexta-feira, 8 de fevereiro de 2008
Da natureza primordial
1. A natureza primordial de todas as coisas é desprovida de qualquer característica, incluindo a de ser a natureza primordial de todas as coisas e desprovida de qualquer característica. É alheia a todos os conceitos, imagens e palavras, incluindo o ser-lhes alheia. Não há discurso ou símbolo que a possa verdadeiramente formular, podendo apenas sugeri-la, tanto menos impropriamente quanto mais os conceitos, imagens e palavras respeitem essa irrelação e se assumam e exerçam no limite que apela a sua conversão em limiar da sua própria recriação, suspensão e transcensão na experiência inefável que, com a profunda transformação que opera, é a única garantia da sua mesma autenticidade. Isto aplica-se antes de mais a este texto, que é insistente e urgente convite ao seu total esquecimento na experiência para que aponta.
2. Nos limites do pensamento e do discurso é possível sugerir a natureza primordial de todas as coisas, sem deixar de a trair, como o infinito, um nada-tudo e um nada que se pode relativamente manifestar ou ser percepcionado de todos os modos e em todas as formas possíveis, nele intemporal e a cada instante claramente presentes. Nos limites da imaginação é possível sugeri-la, sem deixar de a trair, pela imagem de um espaço infinito, insubstancial e sem obstáculos, transparente e luminoso, inalterável e inseparável de tudo o que nele ilimitadamente se pode manifestar ou percepcionar. Nos limites do pensamento, do discurso e da imaginação é possível sugeri-la, sem deixar de a trair, como um infinito esplendor, um ilimitado nada e tudo poder ser, pura energia informe e insubstancial susceptível de irradiar, assumir e ser experienciada segundo irrestritas modalidades, sempre cambiantes e evanescentes.
3. Supõe a primeira possibilidade a não confusão do nada com o não ser e com a sua interpretação niilista. "Nada", de acordo com a origem etimológica portuguesa e castelhana, do latino “nulla res nata”, assinala o inato, o não nascido, o não originado e não produzido da natureza primeira e última de todas as coisas, bem como a sua não reificação, o não ser “coisa”, e a sua não entificação, o não ser “ente”. Assinala ainda o transcender toda a determinação e manifestação e não lhe convir nenhum dos predicados onto-lógicos possíveis: ser, não ser, ser e não ser, nem ser nem não ser. Em verdade, o nada nem sequer é nada. Assinala-o a palavra portuguesa e castelhana “nonada”, sinónimo da “insignificância” que permite toda a emergência de sentido e significado. "Tudo" indica quer a plenitude em acto disso que é sem determinação, quer a totalidade ilimitada das manifestações possíveis do que, sendo de todas inseparável, não menos a todas, por sua não determinação, engloba e transcende. Este nada não é inerte e estéril, sendo o espaço matricial e fecundo de toda a manifestação, que todavia, sendo dele inseparável, jamais se entifica ou reifica como isto ou aquilo, com características e determinações intrínsecas. A natureza da manifestação é a de meras aparições-aparências que a cada instante evanescem e se libertam de o ser, sem origem, fim ou duração.
4. Sendo a natureza primordial de tudo inacessível a qualquer forma de conhecimento, representação e discurso, é-lhe todavia inerente um saber-sabor de experiência feito. Este saber-sabor-experiência é o estado natural, primordial, comum e espontâneo de todos os seres aparentes, na plena consciência fruitiva da sua natureza autêntica, livres de todos os conceitos e determinações, incluindo os de “serem” e de serem “seres”. Esta consciência fruitiva é sem sujeito, nem objecto, nem características: por isso infinita e inefável, sem centro nem periferia, sem interior nem exterior, sem entidade nem referência a si ou a outro, sem concepção nem intenção. Sem auto ou hetero-relação, intelectual, reflexiva ou outra, sem identidade-diferença, sem mesmidade-alteridade, não é para si, livre de toda a auto-apreensão e auto-apropriação. A consciência inerente à natureza primordial não é de si como um si ou um ser, como sendo ou não sendo isto ou aquilo. Refractando o seu saber-sabor-experiência pelos limites do pensamento e do discurso, as características menos impróprias para indicar a sua total ausência são vacuidade-plenitude e liberdade-infinidade. Isto não contradiz uma inerente sabedoria experiencial que, sempre que confrontada, como veremos, com qualquer forma de limitação e sofrimento, espontaneamente se manifesta como uma infinita sensibilidade amorosa, compassiva e libertadora.
5. Tu, que escreves e lês, importa que quanto antes o recordes, experiencies e vivencies, “és” em verdade, no mais fundo sem fundo de ti mesmo, e sem qualquer identidade ou diferença, a natureza primordial de tudo e o seu saber-sabor-experiência inerente, isso para além do qual nada mais há, com toda a sua potencialidade sensível, amorosa e compassiva. Sem características, não és tu, porque não és nem não és isto ou aquilo. No mais íntimo de ti, és livre de ti, livre de ser ou não ser e por isso bem-aventurado e infinito. Um não sei quê, insuperável e irredutível, estranho e entranho a tudo, que a todas as coisas abrange e engloba. É nessa imensidão incriada de ti sem ti que tudo acontece e se manifesta: sempre superabunda e nada lhe falta, nem sequer o nada. É essa afinal a verdadeira natureza e excelência de todos os seres, seres aparentes como tu, pois ser é apenas aparecer como tal, numa aparência de determinação sem qualquer essência, substância ou entidade intrínseca.
(Excerto inicial de Da Natureza primordial, da Mundanidade e da Saudade. Teoria e prática de libertação, inédito em fase de conclusão)
2. Nos limites do pensamento e do discurso é possível sugerir a natureza primordial de todas as coisas, sem deixar de a trair, como o infinito, um nada-tudo e um nada que se pode relativamente manifestar ou ser percepcionado de todos os modos e em todas as formas possíveis, nele intemporal e a cada instante claramente presentes. Nos limites da imaginação é possível sugeri-la, sem deixar de a trair, pela imagem de um espaço infinito, insubstancial e sem obstáculos, transparente e luminoso, inalterável e inseparável de tudo o que nele ilimitadamente se pode manifestar ou percepcionar. Nos limites do pensamento, do discurso e da imaginação é possível sugeri-la, sem deixar de a trair, como um infinito esplendor, um ilimitado nada e tudo poder ser, pura energia informe e insubstancial susceptível de irradiar, assumir e ser experienciada segundo irrestritas modalidades, sempre cambiantes e evanescentes.
3. Supõe a primeira possibilidade a não confusão do nada com o não ser e com a sua interpretação niilista. "Nada", de acordo com a origem etimológica portuguesa e castelhana, do latino “nulla res nata”, assinala o inato, o não nascido, o não originado e não produzido da natureza primeira e última de todas as coisas, bem como a sua não reificação, o não ser “coisa”, e a sua não entificação, o não ser “ente”. Assinala ainda o transcender toda a determinação e manifestação e não lhe convir nenhum dos predicados onto-lógicos possíveis: ser, não ser, ser e não ser, nem ser nem não ser. Em verdade, o nada nem sequer é nada. Assinala-o a palavra portuguesa e castelhana “nonada”, sinónimo da “insignificância” que permite toda a emergência de sentido e significado. "Tudo" indica quer a plenitude em acto disso que é sem determinação, quer a totalidade ilimitada das manifestações possíveis do que, sendo de todas inseparável, não menos a todas, por sua não determinação, engloba e transcende. Este nada não é inerte e estéril, sendo o espaço matricial e fecundo de toda a manifestação, que todavia, sendo dele inseparável, jamais se entifica ou reifica como isto ou aquilo, com características e determinações intrínsecas. A natureza da manifestação é a de meras aparições-aparências que a cada instante evanescem e se libertam de o ser, sem origem, fim ou duração.
4. Sendo a natureza primordial de tudo inacessível a qualquer forma de conhecimento, representação e discurso, é-lhe todavia inerente um saber-sabor de experiência feito. Este saber-sabor-experiência é o estado natural, primordial, comum e espontâneo de todos os seres aparentes, na plena consciência fruitiva da sua natureza autêntica, livres de todos os conceitos e determinações, incluindo os de “serem” e de serem “seres”. Esta consciência fruitiva é sem sujeito, nem objecto, nem características: por isso infinita e inefável, sem centro nem periferia, sem interior nem exterior, sem entidade nem referência a si ou a outro, sem concepção nem intenção. Sem auto ou hetero-relação, intelectual, reflexiva ou outra, sem identidade-diferença, sem mesmidade-alteridade, não é para si, livre de toda a auto-apreensão e auto-apropriação. A consciência inerente à natureza primordial não é de si como um si ou um ser, como sendo ou não sendo isto ou aquilo. Refractando o seu saber-sabor-experiência pelos limites do pensamento e do discurso, as características menos impróprias para indicar a sua total ausência são vacuidade-plenitude e liberdade-infinidade. Isto não contradiz uma inerente sabedoria experiencial que, sempre que confrontada, como veremos, com qualquer forma de limitação e sofrimento, espontaneamente se manifesta como uma infinita sensibilidade amorosa, compassiva e libertadora.
5. Tu, que escreves e lês, importa que quanto antes o recordes, experiencies e vivencies, “és” em verdade, no mais fundo sem fundo de ti mesmo, e sem qualquer identidade ou diferença, a natureza primordial de tudo e o seu saber-sabor-experiência inerente, isso para além do qual nada mais há, com toda a sua potencialidade sensível, amorosa e compassiva. Sem características, não és tu, porque não és nem não és isto ou aquilo. No mais íntimo de ti, és livre de ti, livre de ser ou não ser e por isso bem-aventurado e infinito. Um não sei quê, insuperável e irredutível, estranho e entranho a tudo, que a todas as coisas abrange e engloba. É nessa imensidão incriada de ti sem ti que tudo acontece e se manifesta: sempre superabunda e nada lhe falta, nem sequer o nada. É essa afinal a verdadeira natureza e excelência de todos os seres, seres aparentes como tu, pois ser é apenas aparecer como tal, numa aparência de determinação sem qualquer essência, substância ou entidade intrínseca.
(Excerto inicial de Da Natureza primordial, da Mundanidade e da Saudade. Teoria e prática de libertação, inédito em fase de conclusão)
domingo, 6 de janeiro de 2008
Para uma nova teoria da saudade (celebrando o dia de Reis como o da nossa Realeza-Natureza profunda)
[...]14. A soledade (“solitas, atis”), a solidão e o isolamento são a artificial mas necessária condição da subjectividade, que não nasce senão da ilusória conversão do espaço infinito, livre, transparente e bem-aventurado da natureza-experiência primordial num foco de percepção dualista, egocentrada e portanto insatisfatória, sujeito e submisso ao mal-estar do sentimento de separação, solidão e desamparo e ao decorrente e necessariamente frustrado desejo de submeter todos os aparentes obstáculos-objectos externos e internos que dentro e fora de si a sua ignorância, desejo e aversão lhe fazem surgir como distintos, sedutores e repulsivos, o que o arrasta afinal no círculo vicioso da ilusão, escravidão e tormento. Não obstante, permanecendo íntima e atemporalmente vinculada à sua natureza-experiência primordial e profunda, cujo esplendor e fruição em si mesma a cada instante encobre e perde, sentindo-a como uma presença ausente, ou uma ausência presente, como algo abissalmente ou outrora vivido e agora remoto, perdido na lonjura, apenas pressentido ou instantaneamente aparente nos súbitos e curtos intervalos e suspensões da percepção dualista e condicionada, como um relâmpago fulgindo nas espessas e letais trevas da desatenção e do esquecimento quotidianos, a subjectividade não é nem pode ser senão memória e desejo, mais ou menos consciente ou inconsciente, disso, ou seja, desse vivido estado anterior de si, anterior a si, livre de si e de todo o fardo e dor conceptual, emocional e existencial que o si, o sujeito e o eu sempre carregam, tanto mais absurda quanto ilusoriamente: tal um Sísifo que não vê que a pedra e a fatalidade que incessantemente rola e arrasta é tomar-se por real e às suas percepções, com todos os pesadelos desse sonho resultantes, sendo o maior o confundi-lo com o estar desperto, o que verdadeiramente lhe impede o despertar libertador. Ou seja, como eloquente e notavelmente mostra a singular evolução da “solitate” latina na língua galaico-portuguesa, mostrando toda a sua aptidão a ser matriz de uma profunda visão da existência universal, a soledade da subjectividade não pode senão explicitar-se como a saudade que desde início é, com todos os sentidos que se lhe associam, adiante explicitados, e conforme o mostra a sua análise etimológico-filológica .
15. Filha da ilusória flexão e contracção da infinidade, plenitude e bem-aventurança da natureza-experiência primordial na soledade da subjectividade, a saudade é nesta a manifestação veemente, natural e necessária do sentimento de exílio, desintegração, desamparo, incompletude e carência que lhe é inerente enquanto ilusoriamente protagoniza o condicionamento dualista, sub/ob-jectado e espácio-temporal do próprio incondicionado absoluto. O que não o afecta, mas apenas ao sujeito que nele ficticiamente surge. Na verdade, se este saudosamente sente o vago e o não sei quê de uma presença ausente, ou de uma ausência presente, como algo outrora vivido e agora remoto, perdido na lonjura temporal ou metafísica ou afundado e obscuro nos abismos do inconsciente, de que há pressentimento, memória e desejo, o que assim sente é menos intrínseco ao objecto da saudade, que já vimos ser a natureza-experiência primordial - infinita e por isso sempre e a cada instante totalmente e em tudo presente - , do que ao próprio ilusório afastamento e desintegração dela, pelo qual o que não é sujeito nem objecto surge como objecto para um sujeito ou sujeito para um outro sujeito. Na verdade a subjectividade, a soledade e a saudade não resultam, como dissemos, senão da flexão e intelectualização da experiência originária, com o complexo conceptual-emocional daí resultante.
Filha da inalienável e irrecusável plenitude sempre presente e da ilusória diminuição da sua experiência na génese do sujeito e da percepção objectivadora, a saudade é todavia manência nessa plenitude antes de ser memória-desejo dela. Na sua ponta extrema, onde é não sendo, a saudade é manência na saúde (“salus, utis”) e na sanidade (de “sanus”, são, puro) da natureza-experiência primordial, a única sã – ou seja, pura, íntegra, perfeita - , necessária e autêntica. É apenas na medida em que, relativamente, há encobrimento e perda disso que, em absoluto, jamais se pode deixar de ser - pelo afastamento ilusório e mental, isto é, mentiroso, pelo estado alterado de consciência da percepção dualista, pela di-versão e dis-tracção instituidoras do sujeito e do objecto, pela dolência e doença dessa aparente privação do que afinal se é em superabundância - , que se aspira a reintegrar a experiência da manência pela memória e o desejo, eles mesmos antes de mais instâncias de inerência e vínculo e só derivadamente de reversão e regresso a partir de uma suposta distância. Pois esta memória e desejo, que são saudade, são-no de não serem, não manifestando senão a sua pertença a isso que constantemente os antecede, culmina e anula. Memória e desejo, memória-desejo do infinito, a saudade é-o disso onde nunca houve, há ou haverá qualquer memória, desejo e saudade. A saudade é a saúde, integridade e perfeição da natureza-experiência primordial, em toda a sua pujança iluminativa e fruitiva, amorosa e compassiva, a mover a reintegração de todos os sujeitos, humanos e não humanos, no imo de onde ilusoriamente se extraviam as mentes obscurecidas e errantes, envolvidas e arrastadas no fluxo insalubre e aflitivo das percepções, dos pensamentos e das emoções dualistas e assim das preocupações mundanas, enquanto auto-manipuladas pela sua ignorância na sujeição às aparências sedutoras, repulsivas e neutras dos objectos que em função dessa mesma ignorância lhes aparecem. A inquietação saudosa, que é sempre ponto de fuga e ruptura da soledade, pena e penúria da dualidade, reflexividade e discursividade mental, do existir em si recluso, da subjectividade e da mundanidade, promana da necessariamente insatisfatória experiência de si e do mundo por quem continuamente inere ao sempre instante não haver si nem mundo.
Manifestação da saúde e sanidade da natureza-experiência primordial em seu relativo encobrimento e privação, a saudade é, simultaneamente, a sua salvaguarda no domínio da aparente experiência dualista, impedindo que esta plena e verdadeiramente o seja, e a salvaguarda do aparente sujeito desta experiência no domínio daquela sua natureza autêntica, íntegra e sã, impedindo que ele se torne plena e realmente um sujeito isolado, perdido e submetido num mundo de objectos. A saudade é assim potência de salvação e redenção, entendidas como saudação, desejo, dom, reconhecimento e cuidado da saúde do que verdadeiramente é onde ela parece diminuir ou faltar. Mesmo associadas às saudações e aos cumprimentos inter-subjectivos, as “saudades” expressam o voto, ainda que inconsciente, de que o seu emissário e o seu destinatário se cumpram, cumprindo, ou seja, realizando e consumando, a sua inerente vocação à plena saúde de se tornarem quem realmente são, reunindo-se com o que de mais precioso há em si e em tudo, reencontrando-o e reconhecendo-o como a sua inalienável natureza.
Neste sentido, a saudade é também potência de re-ligação (“religare”, ou seja, neste caso, não religar, mas ligar atrás ou por detrás) e de re-colhimento (“relegere”, colher ou tomar de novo, enrolar de novo, percorrer de novo - também na memória - , reler). Ela é assim religiosa, segundo as duas etimologias possíveis de “religião”, não porém no sentido de religar algo ou alguém que efectivamente se separou, e enquanto separado, mas de ligar a mente que vive como real e absoluta a ilusória separação e soledade subjectiva ao que está sempre “atrás” ou “por detrás” dessa experiência, isto é, de a levar a des-cobrir a encoberta e constante anterioridade, o fundo sem fundo, da própria saúde incondicionada. A ligação, o vínculo do sujeito ao antes de o ser, desvelado nesse passo atrás do estar aí mental e reflexivo, des-inscrevendo-o da autoposição de-limitadora de si e do mundo, de-limitadora de si no mundo, consiste no seu re-colher-se, no reassumir da integridade encoberta e relativamente perdida pela incontinente disseminação da consciência nos estados mentais relativos aos aparentes objectos da experiência dualista e mundana. O re-colhimento processa-se assim pelo despojamento desses objectos e desses estados mentais de atracção, aversão e indiferença a seu respeito, tanto mais fácil e rápido quanto mais desde o início se reconhecer o carácter artificial e ilusório de toda a percepção dualista e de toda a clivagem sujeito-objecto. A consciência, redimindo-se da distracção e dispersão geradoras dos conceitos de interior e exterior, de eu e outro, de eu e mundo, percorre assim de novo, gradual ou subitamente, mas em sentido inverso, o caminho da sua ilusória constituição mundana, que é a constituição do próprio sujeito e do próprio mundo, regressando ao insituado e incondicionado imo da natureza-experiência primordial, sem sujeito nem objecto, sem centro nem periferia, sem intenções nem características. Reconhecendo-se e repousando nessa saúde inata, nessa plenitude livre de todas as condições, a saudade mata-se e liberta-se de o ser.
Todavia, se a saudade não pode morrer senão na cessação do sujeito e do mundo, esta não é de modo algum a extinção de algo efectivamente existente, mas tão só o fim de uma ilusão e de uma percepção falsa, o reconhecimento de que nunca em verdade houve, há ou poderá haver algo que seja sujeito e objecto, eu e mundo, com uma natureza ou entidade substancial, existente em si e por si própria. Como o desvanecimento de uma miragem ao abeirarmo-nos dela, cujo resultado não é contudo a decepção mas a alegria infinita. O que surge para a consciência dualista e mundana como um fim é afinal, embora ainda apenas para ela, um início. O início da fruição de todas as possibilidades do sem fim nem início.
À luz de quanto se disse, podemos agora acrescentar que o sentimento de ausência habitualmente associado à experiência da saudade, como afastamento e distância do seu objecto em relação ao sujeito que o recorda e deseja, e que aqui reinterpretamos como ilusório afastamento e distância do sujeito em relação à natureza-experiência primordial sempre presente e instante, tem ainda um outro e mais fundo sentido. A ausência (de “absentia”, “abesse”) pode ser compreendida não apenas como afastamento e distância de algo em relação a alguma coisa, mas, conforme o sentido também privativo da partícula “ab-“, como não entificação, como ausência da de-terminação de algo como ser ou ente, em plena conformidade com o sentido do “nada” português e castelhano (de “nulla res nata”). O sentimento de ausência, não disto ou daquilo, mas de aus-ência enquanto não entidade ou entificação, de não haver jamais relação com isto ou aquilo, de nunca haver nem não haver isto ou aquilo, é assim, em primeira e última instância, inerente à própria natureza-experiência primordial e à sua vacuidade-plenitude, alheia a sujeito e objecto e a todos os conceitos que estruturam a e decorrem da suposta relação entre um sujeito e um objecto. O sentimento de ausência, de eu e outro, de si e de mundo, é a experiência mais funda e primeira da saudade, enquanto experiência directa da manência na própria saúde e sanidade primordial, onde, como dissemos, a saudade é sem ser e sem o ser. A experiência de aus-ência é a jubilosa experiência primeira e última de não haver ente algum que possa ser ausente, no sentido de afastado ou distante, e de, sem contradição, todos os supostos e aparentes entes serem na verdade aus-entes, no sentido de livres de qualquer entificação e entidade, que os faça ser ou não ser isto ou aquilo. A saudade, enquanto experiência do vago e do não sei quê de uma presença ausente ou de uma ausência presente, é assim - antes de se desfocar e degradar na soledade subjectiva, que a converte na iludida memória-desejo de algo outrora vivido e agora remoto, perdido e pressentido na lonjura temporal ou metafísica ou afundado e obscuro nos abismos do inconsciente – a experiência directa e imediata da não presença (de “praesentia”, “praeesse”) de tudo o que aparece como presente, no sentido de nela jamais haver qualquer coisa ou ente que se constitua “prae”, ou seja, “diante”, “em frente”, “defronte”, nessa experiência de de-limitação, oposição e objecção mútua que vimos estruturar toda a relação dual e fictícia entre sujeito e objecto. O que se dá na presença ausente ou ausência presente da experiência saudosa é na verdade a infinita abertura de uma vacuidade-liberdade que esvazia toda a suposta substancialidade e densidade da esfera ôntico-ontológica e dissolve em espaço puro e infinito o ilusório enclausuramento da experiência de ser e ser algo. A saudade, enquanto experiência de aus-ência - em sua primordial instância, irredutível a todo o ausente - , é experiência da inerência da mente e de tudo o que percepciona à infinidade sem centro nem periferia, ao fundo sem fundo insubstancial e não-dual de tudo. Nesse sentido é um radical antídoto ao preconceito substancialista, que se aferra ao suposto de haver sub-postos, entidades substanciais (de “substantia”, procedente de “substare”, estar debaixo, resistir) cuja realidade sólida seja o firme, resistente e fundador suporte de aparentes e mutáveis qualidades ou de características intrínsecas, fomentando o apego e a aversão a tais entidades e, deste modo, a confusão e o sofrimento inevitáveis.
No mesmo sentido aponta o vago (de "vagus", errante; indeciso, inconstante, indefinido, e de "vacuus", vazio, desocupado, deserto; livre de; livre, aberto) da experiência saudosa, que se até um certo ponto indica a errância, inconstância e agitação da ignorante saudade mundana, em que a memória e o desejo do sujeito transitam continuamente de objecto para objecto, já em primeira e última instância refere a vacuidade, liberdade e infinita abertura da natureza-experiência primordial, em que a saudade não é de, em que não há saudade do quer que seja, mas tão só manência na saúde-sanidade da aus-ência de id-entidade-diferença, mesmidade-alteridade, eu-outro, sujeito-objecto. O imo da saudade é a fruitiva e criativa paz da vacância, estado de vacar e vagar (ambos do latino "vacare"), onde o ser vazio, desocupado e livre de si é espontâneo vagar para todo o possível (cf. os múltiplos sentidos do verbo latino).
Embora não seja este o lugar para o fundamentar, explicitar e desenvolver, cabe referir, a respeito deste sentido da saudade, que num dos vectores maiores da experiência galaico-portuguesa e da sua tematização poético-filosófica, de que o presente texto se assume continuador, emerge assim um paradigma alternativo àquele que tem predominado (com múltiplas dissidências e excepções) na experiência ocidental, desde a sua vertente clássica, greco-latina, até à cristã e à sobrevivência de ambas no planetarizado senso comum contemporâneo (de que alguma ciência dá mostras hoje de se emancipar). Aproximando-se, neste e noutros aspectos, de várias correntes e possibilidades da experiência oriental, isso é para nós sinal de uma mais profunda, radical e comum convergência onde Ocidente e Oriente se transcendem numa Origem irredutível às determinações histórico-geográficas e culturais do espírito. [...] - Excerto de "Da natureza primeira e última de todas as coisas, da mundanidade e da saudade", artigo publicado no último número da revista galega Agália, que integrará um livro em preparação.
15. Filha da ilusória flexão e contracção da infinidade, plenitude e bem-aventurança da natureza-experiência primordial na soledade da subjectividade, a saudade é nesta a manifestação veemente, natural e necessária do sentimento de exílio, desintegração, desamparo, incompletude e carência que lhe é inerente enquanto ilusoriamente protagoniza o condicionamento dualista, sub/ob-jectado e espácio-temporal do próprio incondicionado absoluto. O que não o afecta, mas apenas ao sujeito que nele ficticiamente surge. Na verdade, se este saudosamente sente o vago e o não sei quê de uma presença ausente, ou de uma ausência presente, como algo outrora vivido e agora remoto, perdido na lonjura temporal ou metafísica ou afundado e obscuro nos abismos do inconsciente, de que há pressentimento, memória e desejo, o que assim sente é menos intrínseco ao objecto da saudade, que já vimos ser a natureza-experiência primordial - infinita e por isso sempre e a cada instante totalmente e em tudo presente - , do que ao próprio ilusório afastamento e desintegração dela, pelo qual o que não é sujeito nem objecto surge como objecto para um sujeito ou sujeito para um outro sujeito. Na verdade a subjectividade, a soledade e a saudade não resultam, como dissemos, senão da flexão e intelectualização da experiência originária, com o complexo conceptual-emocional daí resultante.
Filha da inalienável e irrecusável plenitude sempre presente e da ilusória diminuição da sua experiência na génese do sujeito e da percepção objectivadora, a saudade é todavia manência nessa plenitude antes de ser memória-desejo dela. Na sua ponta extrema, onde é não sendo, a saudade é manência na saúde (“salus, utis”) e na sanidade (de “sanus”, são, puro) da natureza-experiência primordial, a única sã – ou seja, pura, íntegra, perfeita - , necessária e autêntica. É apenas na medida em que, relativamente, há encobrimento e perda disso que, em absoluto, jamais se pode deixar de ser - pelo afastamento ilusório e mental, isto é, mentiroso, pelo estado alterado de consciência da percepção dualista, pela di-versão e dis-tracção instituidoras do sujeito e do objecto, pela dolência e doença dessa aparente privação do que afinal se é em superabundância - , que se aspira a reintegrar a experiência da manência pela memória e o desejo, eles mesmos antes de mais instâncias de inerência e vínculo e só derivadamente de reversão e regresso a partir de uma suposta distância. Pois esta memória e desejo, que são saudade, são-no de não serem, não manifestando senão a sua pertença a isso que constantemente os antecede, culmina e anula. Memória e desejo, memória-desejo do infinito, a saudade é-o disso onde nunca houve, há ou haverá qualquer memória, desejo e saudade. A saudade é a saúde, integridade e perfeição da natureza-experiência primordial, em toda a sua pujança iluminativa e fruitiva, amorosa e compassiva, a mover a reintegração de todos os sujeitos, humanos e não humanos, no imo de onde ilusoriamente se extraviam as mentes obscurecidas e errantes, envolvidas e arrastadas no fluxo insalubre e aflitivo das percepções, dos pensamentos e das emoções dualistas e assim das preocupações mundanas, enquanto auto-manipuladas pela sua ignorância na sujeição às aparências sedutoras, repulsivas e neutras dos objectos que em função dessa mesma ignorância lhes aparecem. A inquietação saudosa, que é sempre ponto de fuga e ruptura da soledade, pena e penúria da dualidade, reflexividade e discursividade mental, do existir em si recluso, da subjectividade e da mundanidade, promana da necessariamente insatisfatória experiência de si e do mundo por quem continuamente inere ao sempre instante não haver si nem mundo.
Manifestação da saúde e sanidade da natureza-experiência primordial em seu relativo encobrimento e privação, a saudade é, simultaneamente, a sua salvaguarda no domínio da aparente experiência dualista, impedindo que esta plena e verdadeiramente o seja, e a salvaguarda do aparente sujeito desta experiência no domínio daquela sua natureza autêntica, íntegra e sã, impedindo que ele se torne plena e realmente um sujeito isolado, perdido e submetido num mundo de objectos. A saudade é assim potência de salvação e redenção, entendidas como saudação, desejo, dom, reconhecimento e cuidado da saúde do que verdadeiramente é onde ela parece diminuir ou faltar. Mesmo associadas às saudações e aos cumprimentos inter-subjectivos, as “saudades” expressam o voto, ainda que inconsciente, de que o seu emissário e o seu destinatário se cumpram, cumprindo, ou seja, realizando e consumando, a sua inerente vocação à plena saúde de se tornarem quem realmente são, reunindo-se com o que de mais precioso há em si e em tudo, reencontrando-o e reconhecendo-o como a sua inalienável natureza.
Neste sentido, a saudade é também potência de re-ligação (“religare”, ou seja, neste caso, não religar, mas ligar atrás ou por detrás) e de re-colhimento (“relegere”, colher ou tomar de novo, enrolar de novo, percorrer de novo - também na memória - , reler). Ela é assim religiosa, segundo as duas etimologias possíveis de “religião”, não porém no sentido de religar algo ou alguém que efectivamente se separou, e enquanto separado, mas de ligar a mente que vive como real e absoluta a ilusória separação e soledade subjectiva ao que está sempre “atrás” ou “por detrás” dessa experiência, isto é, de a levar a des-cobrir a encoberta e constante anterioridade, o fundo sem fundo, da própria saúde incondicionada. A ligação, o vínculo do sujeito ao antes de o ser, desvelado nesse passo atrás do estar aí mental e reflexivo, des-inscrevendo-o da autoposição de-limitadora de si e do mundo, de-limitadora de si no mundo, consiste no seu re-colher-se, no reassumir da integridade encoberta e relativamente perdida pela incontinente disseminação da consciência nos estados mentais relativos aos aparentes objectos da experiência dualista e mundana. O re-colhimento processa-se assim pelo despojamento desses objectos e desses estados mentais de atracção, aversão e indiferença a seu respeito, tanto mais fácil e rápido quanto mais desde o início se reconhecer o carácter artificial e ilusório de toda a percepção dualista e de toda a clivagem sujeito-objecto. A consciência, redimindo-se da distracção e dispersão geradoras dos conceitos de interior e exterior, de eu e outro, de eu e mundo, percorre assim de novo, gradual ou subitamente, mas em sentido inverso, o caminho da sua ilusória constituição mundana, que é a constituição do próprio sujeito e do próprio mundo, regressando ao insituado e incondicionado imo da natureza-experiência primordial, sem sujeito nem objecto, sem centro nem periferia, sem intenções nem características. Reconhecendo-se e repousando nessa saúde inata, nessa plenitude livre de todas as condições, a saudade mata-se e liberta-se de o ser.
Todavia, se a saudade não pode morrer senão na cessação do sujeito e do mundo, esta não é de modo algum a extinção de algo efectivamente existente, mas tão só o fim de uma ilusão e de uma percepção falsa, o reconhecimento de que nunca em verdade houve, há ou poderá haver algo que seja sujeito e objecto, eu e mundo, com uma natureza ou entidade substancial, existente em si e por si própria. Como o desvanecimento de uma miragem ao abeirarmo-nos dela, cujo resultado não é contudo a decepção mas a alegria infinita. O que surge para a consciência dualista e mundana como um fim é afinal, embora ainda apenas para ela, um início. O início da fruição de todas as possibilidades do sem fim nem início.
À luz de quanto se disse, podemos agora acrescentar que o sentimento de ausência habitualmente associado à experiência da saudade, como afastamento e distância do seu objecto em relação ao sujeito que o recorda e deseja, e que aqui reinterpretamos como ilusório afastamento e distância do sujeito em relação à natureza-experiência primordial sempre presente e instante, tem ainda um outro e mais fundo sentido. A ausência (de “absentia”, “abesse”) pode ser compreendida não apenas como afastamento e distância de algo em relação a alguma coisa, mas, conforme o sentido também privativo da partícula “ab-“, como não entificação, como ausência da de-terminação de algo como ser ou ente, em plena conformidade com o sentido do “nada” português e castelhano (de “nulla res nata”). O sentimento de ausência, não disto ou daquilo, mas de aus-ência enquanto não entidade ou entificação, de não haver jamais relação com isto ou aquilo, de nunca haver nem não haver isto ou aquilo, é assim, em primeira e última instância, inerente à própria natureza-experiência primordial e à sua vacuidade-plenitude, alheia a sujeito e objecto e a todos os conceitos que estruturam a e decorrem da suposta relação entre um sujeito e um objecto. O sentimento de ausência, de eu e outro, de si e de mundo, é a experiência mais funda e primeira da saudade, enquanto experiência directa da manência na própria saúde e sanidade primordial, onde, como dissemos, a saudade é sem ser e sem o ser. A experiência de aus-ência é a jubilosa experiência primeira e última de não haver ente algum que possa ser ausente, no sentido de afastado ou distante, e de, sem contradição, todos os supostos e aparentes entes serem na verdade aus-entes, no sentido de livres de qualquer entificação e entidade, que os faça ser ou não ser isto ou aquilo. A saudade, enquanto experiência do vago e do não sei quê de uma presença ausente ou de uma ausência presente, é assim - antes de se desfocar e degradar na soledade subjectiva, que a converte na iludida memória-desejo de algo outrora vivido e agora remoto, perdido e pressentido na lonjura temporal ou metafísica ou afundado e obscuro nos abismos do inconsciente – a experiência directa e imediata da não presença (de “praesentia”, “praeesse”) de tudo o que aparece como presente, no sentido de nela jamais haver qualquer coisa ou ente que se constitua “prae”, ou seja, “diante”, “em frente”, “defronte”, nessa experiência de de-limitação, oposição e objecção mútua que vimos estruturar toda a relação dual e fictícia entre sujeito e objecto. O que se dá na presença ausente ou ausência presente da experiência saudosa é na verdade a infinita abertura de uma vacuidade-liberdade que esvazia toda a suposta substancialidade e densidade da esfera ôntico-ontológica e dissolve em espaço puro e infinito o ilusório enclausuramento da experiência de ser e ser algo. A saudade, enquanto experiência de aus-ência - em sua primordial instância, irredutível a todo o ausente - , é experiência da inerência da mente e de tudo o que percepciona à infinidade sem centro nem periferia, ao fundo sem fundo insubstancial e não-dual de tudo. Nesse sentido é um radical antídoto ao preconceito substancialista, que se aferra ao suposto de haver sub-postos, entidades substanciais (de “substantia”, procedente de “substare”, estar debaixo, resistir) cuja realidade sólida seja o firme, resistente e fundador suporte de aparentes e mutáveis qualidades ou de características intrínsecas, fomentando o apego e a aversão a tais entidades e, deste modo, a confusão e o sofrimento inevitáveis.
No mesmo sentido aponta o vago (de "vagus", errante; indeciso, inconstante, indefinido, e de "vacuus", vazio, desocupado, deserto; livre de; livre, aberto) da experiência saudosa, que se até um certo ponto indica a errância, inconstância e agitação da ignorante saudade mundana, em que a memória e o desejo do sujeito transitam continuamente de objecto para objecto, já em primeira e última instância refere a vacuidade, liberdade e infinita abertura da natureza-experiência primordial, em que a saudade não é de, em que não há saudade do quer que seja, mas tão só manência na saúde-sanidade da aus-ência de id-entidade-diferença, mesmidade-alteridade, eu-outro, sujeito-objecto. O imo da saudade é a fruitiva e criativa paz da vacância, estado de vacar e vagar (ambos do latino "vacare"), onde o ser vazio, desocupado e livre de si é espontâneo vagar para todo o possível (cf. os múltiplos sentidos do verbo latino).
Embora não seja este o lugar para o fundamentar, explicitar e desenvolver, cabe referir, a respeito deste sentido da saudade, que num dos vectores maiores da experiência galaico-portuguesa e da sua tematização poético-filosófica, de que o presente texto se assume continuador, emerge assim um paradigma alternativo àquele que tem predominado (com múltiplas dissidências e excepções) na experiência ocidental, desde a sua vertente clássica, greco-latina, até à cristã e à sobrevivência de ambas no planetarizado senso comum contemporâneo (de que alguma ciência dá mostras hoje de se emancipar). Aproximando-se, neste e noutros aspectos, de várias correntes e possibilidades da experiência oriental, isso é para nós sinal de uma mais profunda, radical e comum convergência onde Ocidente e Oriente se transcendem numa Origem irredutível às determinações histórico-geográficas e culturais do espírito. [...] - Excerto de "Da natureza primeira e última de todas as coisas, da mundanidade e da saudade", artigo publicado no último número da revista galega Agália, que integrará um livro em preparação.
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