O CAMINHO DA SERPENTE

"Reconhecer a verdade como verdade, e ao mesmo tempo como erro; viver os contrários, não os aceitando; sentir tudo de todas as maneiras, e não ser nada, no fim, senão o entendimento de tudo [...]".

"Ela atravessa todos os mistérios e não chega a conhecer nenhum, pois lhes conhece a ilusão e a lei. Assume formas com que, e em que, se nega, porque, como passa sem rasto recto, pode deixar o que foi, visto que verdadeiramente o não foi. Deixa a Cobra do Éden como pele largada, as formas que assume não são mais que peles que larga.
E quando, sem ter tido caminho, chega a Deus, ela, como não teve caminho, passa para além de Deus, pois chegou ali de fora"

- Fernando Pessoa, O Caminho da Serpente

Saúde, Irmãos ! É a Hora !


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segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Da cultura como ilusão à cultura do despertar de todas as ilusões

Publico o início do texto para o próximo número da "Nova Águia", numa versão ainda provisória:

Da cultura como ilusão à cultura do despertar de todas as ilusões

Procurando pensar a natureza da cultura, iniciamos a reflexão com um notável parágrafo d’A Origem da Tragédia, transcrito para comodidade do leitor:

“É um fenómeno eterno: sempre a Vontade insaciável, pela ilusão que derrama sobre as coisas, encontra um meio de ligar as suas criaturas à existência e de as forçar a continuar a viver. Este deixa-se fascinar pelo prazer socrático do conhecimento e pela ilusão de poder sanar com ele a eterna chaga da existência; aquele sente-se fascinado pelo véu sedutor da beleza que a arte deixa flutuar diante dos seus olhos; outro deixa-se, por sua vez, seduzir pela consolação metafísica de que, sob o turbilhão das aparências, a vida eterna prossegue o seu curso indestrutível: para não falar das ilusões mais comuns e mais fortes ainda que a vontade é capaz de suscitar a todo o instante. Estes três graus de ilusão são, de resto, reservados às naturezas mais nobres, nas quais o peso e a miséria da existência suscitam um desgosto mais profundo, mas que podem fugir a tal desgosto escolhendo estimulantes adequados. Com tais estimulantes se constituiu tudo o que designamos por civilização: de acordo com o seu doseamento obteremos, preferencialmente, ou uma cultura socrática, ou artística ou trágica, ou melhor, se formos buscar exemplos à história, teremos então ou uma cultura alexandrina, ou helénica ou budista” [1].

Sem avaliar o rigor e justeza desta identificação histórica das formas de cultura, que nos parece problemática, em particular no que concerne a “budista”, interessa-nos fundamentalmente a ideia de que a morfogénese de todos os tipos de cultura (Kultur) obedece a “estimulantes” (Reizmitteln) que permitem iludir o desgosto (Unlust) perante “o peso e a miséria” da “eterna chaga” (ewige Wunde) de uma “existência” (Daseins) à qual os sujeitos são eterna e renovadamente ligados pela “ilusão” (Illusion) que a “Vontade insaciável” (gierige Wille) “derrama sobre as coisas” (Dinge) [2]. Os vários aspectos da cultura, dos mais elaborados e eruditos – filosofia, ciência, arte e religião – aos mais comuns que constituem toda a civilização humana, correspondem assim a vários “graus de ilusão” (Illusionsstufen) onde os homens procuram enganar-se a respeito da sua condição ou ocultá-la a si mesmos, camuflar e esquecer a ferida trágica que os constitui na cisão, na dor e na mortalidade (o verbo hinwegzutäuschen, traduzido aqui como “fugir a”, tem o sentido de enganar alguém a respeito de alguma coisa ou de ocultar alguma coisa a alguém). A cultura e a civilização surgem assim como produtos dessa “ilusão” que a insaciável vontade de viver lança continuamente sobre “as coisas” e como anestésicos desse “desgosto”, ausência de gozo ou desejo (Un-lust) que constitui a natureza paradoxal e autocontraditória da própria vontade de viver. A cultura e a civilização, em todas as suas manifestações, revelam-se assim como um sistema de estímulos, a bem dizer estupefacientes, de cuja ilusão ficam dependentes os sujeitos que neles buscam evadir-se da dor inerente a essa inconsciente e ávida vontade de viver que continuamente os propulsa na ex-istência. Uma embrionária toxicodependência mental/emocional desvela-se assim a natureza íntima da cultura e da civilização que, em busca de se evadir do “mal-estar” que a habita, pois inerente à “vida”, naturalmente segrega múltiplos paliativos, dos mais subtis e internos aos mais grosseiros e externos, socialmente aceites ou não. A droga e a embriaguez seriam inerentes ao processo cultural e civilizacional [3]. Como escreveu Freud: “A vida, tal como a encontramos, é árdua demais para nós; proporciona-nos muitos sofrimentos, decepções e tarefas impossíveis. A fim de suportá-la, não podemos dispensar as medidas paliativas. […] Existem talvez três medidas desse tipo: derivativos poderosos, que nos fazem extrair luz de nossa desgraça; satisfações substitutivas, que a diminuem; e substâncias tóxicas, que nos tornam insensíveis a ela. Algo desse tipo é indispensável” [4].
Se a influência de Schopenhauer é evidente na Origem da Tragédia, a maturação em Nietzsche de um pensamento próprio mantém-no fiel à ideia de que “vivemos num mundo de ilusão”, inerente às meras “perspectivas” interdependentes a que se reduz toda a suposta objectividade das categorias conceptuais que fizeram fortuna na tradição filosófica ocidental: número, tempo, espaço, alma, substância, indivíduos, morte, vida, sujeito, objecto, activo, passivo, causa, efeito, meio, fim. Vivemos assim “graças ao erro” [5], mas “naufragar-se-ia se se quisesse sair do mundo das perspectivas”: “abolir as grandes ilusões já completamente assimiladas destruiria a humanidade” [6]. Segundo o pensador, a “vontade de saber” filosófica e científica volta-se contra essa mesma ilusão vital que é a condição de possibilidade de todo o conhecimento, cujo “grau ínfimo” exigiu o nascimento de “um mundo irreal e erróneo: seres que acreditassem no durável, em indivíduos, etc.”. É apenas sobre o ilusório “fundamento” de um “mundo imaginário”, contrário ao “eterno escoamento”, que se pode construir qualquer “conhecimento” que seja, o qual pode discernir “o erro fundamental sobre o qual tudo repousa”, mas não o pode dissipar senão arrastando nisso a “vida”, pois “a verdade última que é a do fluxo eterno de todas as coisas não suporta ser-nos incorporada; os nossos órgãos (que servem a vida) está feitos com vista ao erro”. “Querer conhecer e querer errar são o fluxo e o refluxo” e “o homem perece” se um deles domina absolutamente. Daí o programa de “amar e favorecer a vida, por amor do conhecimento, amar e favorecer o erro e a ilusão, por amor da vida”. A “arte” deve ser posta “ao serviço da ilusão” [7] vital. Pese a reinterpretação da vontade de viver como vontade de potência, a afirmar e não negar, permanece a recriação schopenhauriana do indiano “véu de Maya” como esse engano originário inerente à vontade e a todas as suas criações [8].
A cultura nasce assim sob o signo da melancolia, como notou Aristóteles a respeito dos “homens de excepção” na filosofia, política, poesia e artes [9], o que nos reenvia ainda para Nietzsche que, como vimos, considera estarem os “graus de ilusão” mais elevados – filosofia, ciência, arte e religião – “reservados às naturezas mais nobres”, mais profundamente desgostosas com “o peso e a miséria da existência”, dos quais se buscam evadir mediante os “estimulantes” mais sofisticados [10]. Como diz Walter Benjamin, “a meditação profunda (Tiefsinn) é sobretudo própria de quem é triste” [11] e a Melancolia apresenta-se, num poema por si citado, como “mãe de sangue denso (schweren Bluts), fardo podre (faule Last) da Terra” [12], cujos termos são muito próximos da descrição nietzschiana do “peso e miséria da existência (Last und Schwere des Daseins)” [13]. O ser-aí, o ex-istir, o ser algo ou alguém numa dada situação no mundo, é melancólico – quer na exaltação, quer na depressão - e a melancólica condição de toda a cultura, que diríamos oscilar na dialéctica maníaco-depressiva entre a ânsia de levitar de todas as condições e o afundamento nessa gravidade íntima ao ex-ist-ente.
(texto em elaboração)

[1] Friedrich Nietzsche, A Origem da Tragédia, 18, tradução, apresentação e comentário de Luís Lourenço, Lisboa, Lisboa Editora, 2004, p.152.
[2] Friedrich Nietzsche, Die Gebürt der Tragödie, 18, Werke, I, edição de Karl Schlechta, München, Carl Hanser Verlag, 1966, p.99.
[3] Cf. Ernst Jünger, Drogas, Embriaguez e Outros Temas, tradução de Margarida Homem de Sousa, revisão de Rafael Gomes Filipe e Roberto de Moraes, Lisboa, Relógio d’Água, 2001.
[4] Sigmund Freud, Das Unbehagen in der Kultur, 1930; O mal-estar na civilização, tradução de José Octávio de Aguiar Abreu, Rio de Janeiro, Imago, 2002, p.22.
[5] Cf. Friedrich Nietzsche, La volonté de puissance, texto estabelecido por Friedrich Würzbach e traduzido do alemão por Geneviève Bianquis, tomo II, Livro III, 584, pp.216-217.
[6] Cf. Ibid., 594, p.220.
[7] Cf. Ibid., III, 582, p.216.
[8] Cf. Id., A Origem da Tragédia, 1, pp.66-67.
[9] Cf. Aristóteles, L’Homme de génie et la Mélancolie. Problème XXX, 1, edição bilingue, tradução, apresentação e notas de J. Pigeaud, Paris, Éditions Rivages, 1988, p.83.
[10] Cf. Friedrich Nietzsche, A Origem da Tragédia, 18, p.152.
[11] Cf. Walter Benjamin, Origem do drama trágico alemão, edição, apresentação e tradução de João Barrento, Lisboa, Assírio & Alvim, 2004, p.147.
[12] Tscherning, “Melancholey Redet selber”, in Ibid., pp.155-156.
[13] Cf. Friedrich Nietzsche, Die Gebürt der Tragödie, 18, Werke, I, p.99.

sexta-feira, 17 de abril de 2009

Saudade

Eis-me de volta: olá a todos. Agradeço desde já a Paulo Borges por me dar a (segunda) oportunidade para escrever neste espaço. Pensei, para este primeiro post, alterar uma letra dos Xutos & Pontapés, de "só sei que amar é querer-me a mim" para "só sei que amar é querer-te a ti". Feito. Agora, interrogo-me catarticamente sobre o que será a saudade, tão falada neste espaço. Pergunto, então: o que é a saudade? E será um sentimento exclusivamente português? Estamos já a avançar que é um sentimento e a resposta à segunda pergunta é: não, a saudade não é um sentimento exclusivamente português. Penso que sente saudade todo aquele que ama, no presente, e que se encontra apartado do "objecto" amado. Posso estar errado, mas julgo que é quase como o ciúme, sentimento possessivo, distinta da melancolia, sentimento difuso que nos aproxima da apatia. E como distingui-la da nostalgia? Não é a nostalgia o rememorar de momentos passados? E, quando nostálgicos, dizemos - ah... saudade! Li, algures, que a saudade é uma mistura de memória e desejo, o que é bastante óbvio - memória do "objecto" amado, desejo de o ter de novo. Penso, sobretudo, que sente saudade quem ama e que essa saudade é a vontade de ter presente o "objecto" ausente que tanto ama. Talvez fosse interessante distinguir entre estes três sentimentos: saudade, nostalgia e melancolia.

quarta-feira, 15 de abril de 2009

A Saudade e a Natureza Primordial

«...a saudade enquanto esse inquietante vínculo desiderativo entre o que o sujeito é no plano da temporalidade e o "clima" ou "terra" onde "outrora" nasceu e sonhou.»
Esta pequena frase, citada do livro Jogos do Mundo escrito pelo Professor Paulo Borges, evoca o tema da saudade, tema muito reflectido pelo Professor em vários livros seus, dos quais destaco «Da Saudade Como Via de Libertação». Segundo o investigador, saudade tem origem na palavra latina solitate que significa solidão. Solidão de quê?
Já Cem Komurcu, no seu artigo "Melancolia em Istambul e Lisboa" publicado na revista Nova Águia Nº3, cita o seguinte pensamento de Schelling: «O mais escuro e por isso mais profundo da natureza humana é a Saudade, como que a gravitação interior do ânimo, por isso melancolia na sua aparição profunda.» Em linhas muito gerais, no artigo mencionado o pensador turco-germânico escreve sobre o estado de melancolia que reina tanto em Istambul como em Lisboa. Estando Istambul separada pelo Bósforo, os seus habitantes sentem-se fragmentados devido à cisão existente entre a mentalidade e cultura europeia e asiática. A melancolia de Lisboa é diferente, mais metafísica, pois estando esta cidade situada no finisterra, na ponta ocidental da Europa, encontra-se de costas voltadas para o oceano in-fundo e in-finito, fluindo o Tejo do finito para o in-finito, do mundo para o i-mundo, da terra para o céu. Assim, devido a um sentimento de separação e de solidão, Istambul e Lisboa são cidades melancólicas. Separação de quê?
Erich Fromm expõe a sua teoria do amor no livro "A Arte de Amar", afirmando que durante evolução, o homem emergiu do reino animal e transcendeu a natureza através do desenvolvimento da razão. Uma vez separado, não consegue voltar ao dito paraíso-um estado primordial de união com a natureza. Curiosamente, Fromm aborda o mito de Adão e Eva, afirmando que estes ao separarem-se da natureza sentiram-se envergonhados de estarem nus devido à consciencialização da sua diferença de sexos. De seguida Fromm afirma que «A consciência da separação humana, sem haver uma religação através do amor, é a origem da vergonha. É também a origem da culpa e da ansiedade.» Neste livro, o psicólogo defende o amor como a via de regresso a essa natureza primordial do qual o homem se sente separado.
Também o Professor Agostinho da Silva aborda o tema do amor. Em Sete Cartas a um Jovem Filósofo (1945) escreve: «quando se ama, em silêncio se ama: às vezes o sabe a mulher amada, mas creio até que num amor que fosse pleno, em que nada entrasse das preocupações da terra, nem ela o saberia.» Este amar em silêncio evoca o estado de união que existe entre sujeito e objecto após a diluição do ego e dos seus ego-interesses. É que o Professor, melhor que ninguém, sabia que o sentimento de si, com as suas tendências de fixação, de aversão ou de ignorância é o grande causador da cisão entre o homem e a natureza. Mas afinal que natureza é esta? Julgo que a natureza de que fala Fromm é a consciência primordial, a consciência que sempre esteve, está e estará com o homem (e sem o homem) e com a qual em silêncio se ama, em que nada entrasse das preocupações da terra, preocupações que têm como origem a mente egótica que ilusoriamente cremos que existe.
Em relação a este assunto, a via budista propõe formas interessantes de limpeza da mente. O Hinayana ou pequeno veículo, apresenta várias técnicas que destroem a ilusão da ex-istência do ego. Já o Mahayana ou grande veículo concentra-se mais no aperfeiçoamento do sentimento de amor pelo próximo. Se o primeiro veículo dá mais ênfase ao re-conhecimento da vacuidade do ser, o segundo veículo preenche essa vacuidade com amor e compaixão. Através do treino das Quatro Ilimitadas, o praticante budista enche o cálice da sua consciência livre de véus mentais conceptuais e emocionais com amor, compaixão, alegria e equanimidade, o qual lhe permitirá ao longo do tempo re-conhecer a sua consciência primordial.
Creio que agora já se pode responder às perguntas acima colocadas. Por algum motivo o ser humano separou-se da natureza. Segundo o Professor Agostinho da Silva, na Idade de Ouro o ser humano alimentava-se de frutos. Todavia os frutos começaram a escassear e ele teve que procurar outros alimentos. Começou a matar os seus irmãos animais e um sentimento de culpa invadiu a sua mente, separando-o daquilo a que anteriormente se sentia ligado e que o fazia sentir-se infinito, omnipresente, Deus. Se actualmente nos sentimos em solidão, em depressão, em crise (sentimento muito presente nas nossas mentes actualmente), é porque os véus mentais não possibilitam a contemplação da nossa natureza primordial. Se a Saudade e a melancolia impregnam de lava as nossas mentes, é porque no fundo do vulcão algo nos apela a regressar. Creio que através do amor, da arte de amar, da oração, da meditação, através de vias espirituais traçadas por mestres do amar como Cristo, Maomé ou Buda é possível re-gressar ao "clima" ou "terra" onde "outrora" nascemos e sonhámos para viver a vida plenamente.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

Apontamento

Os jardins parecem abandonados. A infância também. No palácio, as estátuas reflectem, como espelhos, algo que não deixam partir. Prendem a palavra ao silêncio, o invisível ao visível. As salas estão arrefecidas e nada é real. O belo não existe, como bem sabia Kant. Inexiste. As salas e os jardins do palácio são belos. Mas quando ela se pergunta se o arrefecimento vem do clima, logo percebe que vem do que parece que finda.
A Ideia é ainda, para o humano, o que vem do que está fora do tempo, mas o visita. A Ideia não vem até ela, é ela que vai ao palácio, e o palácio, pensa, é uma obra que a invade de melancolia. A Ideia, no palácio, petrifica-a. Para ela, o palácio continua, como na infância, um lugar velho, um antiquíssimo lugar de reconhecimento. Continua velho, como na infância, continua com ela um continuum de mútuo envelhecimento. Agora ela sabe que a obra de arte não pode ser conhecida porque é um ethos de recolhimento e acolhimento. Na obra de arte, a Ideia é uma visão de reconhecimento e, na ruína da obra, a Ideia resgata-a para a Origem. É por isso que as ruínas brilham mesmo quando arrefecidas. A Ideia paira sobre elas como uma poeira de luz, como um vulto ou manto oculto vagando por entre as portas, no entreaberto, na altura dos tectos, nas sombras ou nas cores consumidas, nas colunas, nas volutas carcomidas. Sente-a em permanente vertigem pelo tempo. Pensa na Capela Sistina e experimenta a mesma sensação, Deus recua nos interiores da pintura de Miguel Ângelo, como recua em silêncio no Antigo Testamento, na obra de arte a Ideia recua. A Ideia de Beleza recua até à ruína…
É esse recuo que gera, no contemplativo, a obediência. É preciso ficar onde uma Ideia não parte mesmo quando se afasta. Assim é com ela, ela prefere obedecer à beleza que a transcende do que à lógica que domina. Assim, presa à Beleza, sente, o belo é belo. Fala para B. mas não consegue partilhar esse sentimento invasivo do Belo. Pensa ainda, antes do coro entrar, que sabe ela do sono? Sabe que o sono é sono. E se lhe sorri, a B., é porque passa à sua frente, como um vulto ou um manto que se quer oculto para sempre, a Ideia. Dela recebe uma bênção. E essa sabe-a, ou melhor consegue dizê-la, a bênção que vem da Beleza é a tristeza. Percebe, antes da música, por que razão consegue o melancólico a visão da Beleza. Há nele e nela um júbilo que talvez venha, Paulo e Lapdrey, da divina mania, talvez o divino ou a Ideia só se ofereça como um dom, porque, lembra-se de ter ouvido ou lido, não sabe a quem nem quando, Deus dá aos que estão em sono profundo e não tanto aos que estão em vigilância permanente. A Beleza abre ao que está vivo e com sono uma morada no sonho, promete um movimento interior ao olhar para o lugar onde dança a imagem pairante, como a pureza promete ao arrependido um lugar à direita do Pai. O melancólico adormece e envelhece, por isso, escutando e vendo a dança segundo a música do tempo. Acompanha com o olhar os coros que cantam, os coros que a dançam. O melancólico é como Janus, o dos dois rostos, é com o olhar elanguescido e adormecido pela música do tempo, o que está voltado para os que vivendo, na roda da vida, conhecem o prazer, a riqueza, a pobreza e a vitória e é, com o olhar rejuvenescido, o que olha para trás, para a Origem. Os homens melancólicos são como as estátuas, reflectem como os espelhos algo que não deixam partir, prendem a palavra ao silêncio, o invisível ao visível. Os homens melancólicos não perdem dentro de si a infância. Ela é, dentro deles, o Diónisos que o tempo sacrifica, mas o seu outro rosto voltado para trás, glorifica.



Escutando musicalmente Diónisos, o coro, os melancólicos esperam a apresentação da Ideia. Apolo visita-os nessa escuta adormecida. Só a escuta prepara a visão, como só o discurso não escrito treina a memória – como sabia Platão – para o reconhecimento da Ideia. E assim, sonham, que os humanos se reconhecerão filhos dos deuses: escutando a música dos coros que, transformando a dor em alegria, nos mostram a vida como festa da agonia. Os melancólicos esperam o trágico. Porque na música, a Ideia, ressurgindo num movimento do corcel dominado pela Ordem e pelo Ritmo – por Apolo – recua para dentro do homem. No corpo arrefecido, no corpo adormecido e no corpo ferido de mortalidade, a dança segundo a música do tempo, prende com a atenção o que da Ideia perpassa e de nós se afasta. O homem sonha esse outro que dentro de si, velho, é para sempre criança, a recriança. É na ruína que a Origem se anuncia e recria. É na infância que a voz é una com o todo.

Este breve apontamento sobre melancolia, Beleza e música nasceu por causa do poema de Platero que musicalmente escutei no palácio, o lugar onde a minha alma em criança se deu conta da sua melancolia e no domingo, recriando os movimentos do tempo, foi recriança. Grande e grande é a Beleza do poema e da oliveira. Puro o óleo que nos unge de inocência e lembrança.

sábado, 10 de janeiro de 2009

Melancolia

"Porque é que todos os homens que foram excepcionais [perittoì] em filosofia, na política, na poesia ou nas artes eram manifestamente melancólicos [...]?"

- Aristóteles, Problemata, XXX, 1.