O CAMINHO DA SERPENTE

"Reconhecer a verdade como verdade, e ao mesmo tempo como erro; viver os contrários, não os aceitando; sentir tudo de todas as maneiras, e não ser nada, no fim, senão o entendimento de tudo [...]".

"Ela atravessa todos os mistérios e não chega a conhecer nenhum, pois lhes conhece a ilusão e a lei. Assume formas com que, e em que, se nega, porque, como passa sem rasto recto, pode deixar o que foi, visto que verdadeiramente o não foi. Deixa a Cobra do Éden como pele largada, as formas que assume não são mais que peles que larga.
E quando, sem ter tido caminho, chega a Deus, ela, como não teve caminho, passa para além de Deus, pois chegou ali de fora"

- Fernando Pessoa, O Caminho da Serpente

Saúde, Irmãos ! É a Hora !


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domingo, 20 de setembro de 2009

"Indo para Deus pelo caminho-Deus (- procurando o Deus-caminho pelo caminho-Deus)" - Dalila Pereira da Costa


Imagem: Remedios Varo, "Transito en Espiral", 1962


Sobre esta terra existe uma certa antiga e maravilhosa igreja redonda: foi feita pelos homens. Para quem? Em que intenção, ou serviço?
Esses homens, de nós desconhecidos, transmitiram (totalmente) essa coisa.
Ela subsiste aí, inclusa e intacta, completa; assim veio através dos tempos: e pode ser ainda transmitida a nós, ainda uma vez e sempre; em toda a sua primitiva e terna exultação.
E agora, poderemos, ousaremos, pensar que, para nós todos, tudo seria igual, se esta igreja tivesse já desaparecido da superfície da terra?
Que ela tenha vindo e subsistido intacta no seu corpo terrestre através de mais dum milénio para ser ainda gozada por nós durante só três minutos, é suficiente e é toda a sua justificação: em plenitude.
Pois, será verdade que, tudo que foi sentido, conhecido outrora por esses homens, por esses seus criadores (ou transmissores) não possa ser conhecido, sentido de novo por nós, na sua vivência actual-passada? Ou tudo será intransmissível e assim, perecível? Será então totalmente inútil tentar conservar, perseverar, as altíssimas criações do passado: uma igreja românica , um quadro de Thierry Bouts…
Mas é justamente essa coisa, este cerne conhecido, sempre o mesmo e diverso, através das idades do homem, o que será possível de ser sempre apreendido, ou reapreendido, por nós, incessantemente. É sempre a esta eternidade, a esta integridade, que é preciso ser fiel e submisso.
E tudo será sempre uma auto-revelação: nosso acto, nosso louvor, será sempre a única finalidade e justificação de nossa vida.
Porque aí, nesse preciso lugar evocado, as camadas espessas e inumeráveis, soba as quais vemos sempre essa coisa, escondida e inapreensível, não foram elas rompidas? Aí, não a vemos e sentimos sempre capturada por um momento, aí subsistindo sempre, sempre oferecida a nós, passível dum novo gozo (por nós ou por ela própria?). Aí não sentimos uma reunião de força, súbita e poderosa contenção, e exultante, na sua serenidade? E não sentimos um novo espaço à nossa volta?
(Essa força, ela era esse espaço, ele mesmo (como seu verdadeiro corpo), ou dada, possível de ser atingida por esse espaço, aí realizada: como seu veículo ou analogia? (ou símbolo?) Ou então, o que se criou aí, e o que nos davam, era o Centro ele mesmo? Em toda a sua força).
Essa igreja foi baseada, ou construída sobre o círculo, ou mais exactamente, na esfera: mas para um movimento em altura, em elevação.
(in "O inapreensível e intransmissível")

(a ordem)
Espiraliza-te no teu ser - e sobre o teu centro, ergue-te.
(in "Jogos de água")


Dalila Pereira da Costa

"Encontro na Noite", Lello & Irmão Editores, Porto, 1973, pág.39