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quarta-feira, 8 de setembro de 2010
Filosofia ou arte?
Como poderia o logos dizer o ser, se o verbo é originariamente arbitrário e metafórico? Como a crise do logos arrasta a crise da arché, resta a tragédia do «solo como rio»: «Que buscamos? Uma vida segura face ao trágico possível ou o risco metafórico duma linguagem poética que nos torne nus diante do destino? Uma economia ou um excesso? Monossemia de definições utilitárias ou disseminação polissémica inesgotável duma linguagem aberta ao futuro? Este o ponto mais alto do debate do Ocidente, entre dois dos maiores pensadores que o balizam»(1). Independentemente da validade deste equacionamento, os dois pensadores, Aristóteles e Nietzsche, vivem em contextos histórico-culturais distintos a todos os níveis. Na Poética, embora se defenda uma boa vizinhança entre Filosofia e Tragédia, a racionalidade e a Filosofia estão em alta; em Acerca da Verdade e da Mentira no Sentido Extramoral, em particular, e na obra de Nietzshe, em geral, a Arte aparece como feiticeira e metafísica salvadora das proclamadas mortes das duas matrizes do pensamento Ocidental, a saber, a razão (grega) e a fé (cristianismo).
(1) - Fernando Belo, Leituras de Aristóteles e de Nietzsche, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 1994, pp.175-198
António Azevedo, Pessoa e Nietzsche, Lisboa, Instituto Piaget, 2005, p.201
(1) - Fernando Belo, Leituras de Aristóteles e de Nietzsche, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 1994, pp.175-198
António Azevedo, Pessoa e Nietzsche, Lisboa, Instituto Piaget, 2005, p.201
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quinta-feira, 26 de agosto de 2010
"tudo corre"
«Enquanto houver madeiros estendidos sobre a água, enquanto houver pontezinhas e parapeitos vencendo o rio, na verdade não se dá crédito aos que pretendem que "tudo corre".
«Até os próprios imbecis o contestam. "O quê? - dizem os imbecis - tudo corre? Contudo, os madeiros e os parapeitos mantêm-se firmes por cima do rio."
«Tudo o que está por cima do rio é sólido, todos os valores das coisas, as pontes, as noções, o bem e o mal, tudo isso se mantém.
«Chega o rude Inverno, o domador de rio, e os mais maliciosos aprendem a desconfiar; e na verdade apenas os imbecis são então capazes de dizer: "Não será verdade que tudo está - imóvel?"
«No fundo tudo permanece imóvel; eis um verdadeiro ensinamento do Inverno, uma boa coisa para os tempos de esterilidade, um consolo para os hibernantes e para os sedentários.
«"No fundo tudo permanece imóvel"; mas é contra este facto que prega o vento do degelo.
«O degelo, touro que nada tem de boi de trabalho, touro furioso e destruidor, que quebra o gelo com cornadas. Ora o gelo, por sua vez - quebra as pontes.
«Ó meus irmãos, não é verdade que agora tudo corre? Não caíram à água todos os parapeitos, todas as pontes? Quem poderia ainda agarrar-se ao "bem" e ao "mal"?
«"Ó infelicidade! Ó felicidade! Eis o vento do degelo!" Ide pregar esta verdade por todas as ruas, ó meus irmãos.»
F. Nietzsche, Assim Falava Zaratustra, tradução de Alfredo Margarido, Guimarães, 2007, pp.269-270
«Até os próprios imbecis o contestam. "O quê? - dizem os imbecis - tudo corre? Contudo, os madeiros e os parapeitos mantêm-se firmes por cima do rio."
«Tudo o que está por cima do rio é sólido, todos os valores das coisas, as pontes, as noções, o bem e o mal, tudo isso se mantém.
«Chega o rude Inverno, o domador de rio, e os mais maliciosos aprendem a desconfiar; e na verdade apenas os imbecis são então capazes de dizer: "Não será verdade que tudo está - imóvel?"
«No fundo tudo permanece imóvel; eis um verdadeiro ensinamento do Inverno, uma boa coisa para os tempos de esterilidade, um consolo para os hibernantes e para os sedentários.
«"No fundo tudo permanece imóvel"; mas é contra este facto que prega o vento do degelo.
«O degelo, touro que nada tem de boi de trabalho, touro furioso e destruidor, que quebra o gelo com cornadas. Ora o gelo, por sua vez - quebra as pontes.
«Ó meus irmãos, não é verdade que agora tudo corre? Não caíram à água todos os parapeitos, todas as pontes? Quem poderia ainda agarrar-se ao "bem" e ao "mal"?
«"Ó infelicidade! Ó felicidade! Eis o vento do degelo!" Ide pregar esta verdade por todas as ruas, ó meus irmãos.»
F. Nietzsche, Assim Falava Zaratustra, tradução de Alfredo Margarido, Guimarães, 2007, pp.269-270
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segunda-feira, 16 de agosto de 2010
Compaixão sem sabedoria? Egocompaixão?
Chamam ao Cristianismo a religião da compaixão. A compaixão está em contradição com as emoções tónicas, que elevam a energia do sentimento vital; a compaixão tem acção depressiva. Quando alguém se compadece, perde a força. Pela compaixão aumenta-se e multiplica-se o desperdício de energia que o sofrimento, por si próprio, já traz à vida. O próprio sentimento torna-se, pela compaixão, infeccioso; em determinadas circunstâncias, pode chegar-se a um desperdício global de vida e de energia vital, que se encontra numa relação absurda com o quantum da causa (o caso da morte do Nazareno). [...] Ousou-se mesmo chamar virtude à compaixão (em qualquer moral nobre, surge como fraqueza); foi-se mais longe, fez-se dela a virtude, o solo e a origem de todas as virtudes - só que, e é necessário não o esquecer, a partir do ponto de vista de uma filosofia que era niilista, que inscrevia como divisa no seu escudo a negação da vida.
Friedrich Nietzsche, O Anticristo, Edições 70, p.19
Friedrich Nietzsche, O Anticristo, Edições 70, p.19
domingo, 25 de outubro de 2009
Que significa a visão e enigma de Zaratustra?
Liberto do anão que lhe pesava sobre os ombros, o qual, proclama, não conhece e não pode suportar o seu “pensamento abissal (abgründlichen Gedanken)”, Zaratustra detém-se junto de um portal (Torweg, que também significa literalmente “portão louco”), em cujo frontão está inscrito o nome “instante”, onde “se reúnem dois caminhos” frontalmente opostos, que ninguém ainda seguiu “até ao fim”: um estende-se para trás, o outro para diante e ambos duram uma eternidade. Formula então perguntas que simultaneamente se respondem: “Se alguém, todavia, seguisse por um destes caminhos, sem parar e até ao fim, julgas […] que […] se oporiam sempre?”. Contemplando o caminho eterno que se estende para trás, não deverá tudo o que é capaz de correr já o haver percorrido pelo menos uma vez? E não deverá tudo o que pode suceder já haver assim sucedido? Se tudo já foi, não devem também aquele portal, a aranha que rasteja ao luar, o luar, Zaratustra e o anão já haver existido? E não estará tudo tão intimamente interligado que aquele instante não arraste atrás de si todas as coisas futuras, incluindo a si mesmo? Não deverá tudo o que pode correr ter de percorrer uma vez mais o longo caminho que se estende para diante? Não será assim necessário que Zaratustra, o anão e todos percorram esse “longo e temível” caminho futuro e do passado regressem àquele instante?
Ao dizer isto, Zaratustra falava “em voz cada vez mais baixa”, com medo dos seus “próprios pensamentos e da sua oculta intenção”, quando ouve uivar um cão. Tudo se desvanece e encontra-se só perante um jovem pastor que se contorce, com o rosto desfigurado pela repugnância e pelo terror, pois uma forte cobra negra se lhe introduziu na boca, mordendo-lhe a garganta. Começa a puxar pela serpente, sem sucesso, até que uma voz grita pela sua boca: “Morde! Morde! / Arranca-lhe a cabeça! Morde!”. Ao gritar, “espanto, ódio, nojo, piedade”, tudo o que em si “trazia de melhor e de pior”, de si jorrava “num único grito”. Aqui Zaratustra interrompe a narrativa para pedir a todos, “exploradores” e “aventureiros” ou não, que lhe decifrem o enigma daquela visão” que é simultaneamente “previsão”: “Que vi então em imagem? E qual é o que deve chegar um dia?”; “Quem é o homem em cuja garganta se introduzirá assim o que há de mais negro e de mais pesado no mundo?”
Retomando a narrativa, o pastor morde firmemente a cabeça da serpente e cospe-a para longe, levantando-se “com um salto”. Já não é então pastor nem homem: “transformado, transfigurado (iluminado?), ria”, ria como nenhum homem o fez na terra. E o capítulo termina com a confissão:
“Ó meus irmãos! Ouvi um riso que não era um riso humano, e agora devora-me uma sede, uma saudade (Sehnsucht) que nada aplacará.
A minha saudade (Sehnsucht) daquele riso devora-me; oh!, como posso tolerar ainda a vida! E como tolerar agora a morte!”
- Fragmento da comunicação "O Eterno Retorno em Friedrich Nietzsche e Raul Proença", a apresentar no dia 29 de Outubro, no Colóquio "Proença, Cortesão, Sérgio e o grupo "Seara Nova"", que decorre de 28-30 de Outubro no Anf. III da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.
Ao dizer isto, Zaratustra falava “em voz cada vez mais baixa”, com medo dos seus “próprios pensamentos e da sua oculta intenção”, quando ouve uivar um cão. Tudo se desvanece e encontra-se só perante um jovem pastor que se contorce, com o rosto desfigurado pela repugnância e pelo terror, pois uma forte cobra negra se lhe introduziu na boca, mordendo-lhe a garganta. Começa a puxar pela serpente, sem sucesso, até que uma voz grita pela sua boca: “Morde! Morde! / Arranca-lhe a cabeça! Morde!”. Ao gritar, “espanto, ódio, nojo, piedade”, tudo o que em si “trazia de melhor e de pior”, de si jorrava “num único grito”. Aqui Zaratustra interrompe a narrativa para pedir a todos, “exploradores” e “aventureiros” ou não, que lhe decifrem o enigma daquela visão” que é simultaneamente “previsão”: “Que vi então em imagem? E qual é o que deve chegar um dia?”; “Quem é o homem em cuja garganta se introduzirá assim o que há de mais negro e de mais pesado no mundo?”
Retomando a narrativa, o pastor morde firmemente a cabeça da serpente e cospe-a para longe, levantando-se “com um salto”. Já não é então pastor nem homem: “transformado, transfigurado (iluminado?), ria”, ria como nenhum homem o fez na terra. E o capítulo termina com a confissão:
“Ó meus irmãos! Ouvi um riso que não era um riso humano, e agora devora-me uma sede, uma saudade (Sehnsucht) que nada aplacará.
A minha saudade (Sehnsucht) daquele riso devora-me; oh!, como posso tolerar ainda a vida! E como tolerar agora a morte!”
- Fragmento da comunicação "O Eterno Retorno em Friedrich Nietzsche e Raul Proença", a apresentar no dia 29 de Outubro, no Colóquio "Proença, Cortesão, Sérgio e o grupo "Seara Nova"", que decorre de 28-30 de Outubro no Anf. III da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.
sexta-feira, 29 de maio de 2009
Transcender Deus
Apresento a conclusão da comunicação que apresentarei hoje, pelas 18.00, com o título "Transcender Deus: de Eckhart a Silesius", no encerramento do II Colóquio da Sociedade Portuguesa de Filosofia Medieval, no Anf. III da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa:
Poder-se-ia dizer que a verdade última da religião, desvelada pela mística, é a morte de Deus, vivida não só como a extinção de todos os conceitos e representações teológicos, mas também como a ausência, a abs-entia, a não entidade, da suposta Presença absoluta. Neste sentido, e para dialogar apenas com uma das emergências do tema da “morte de Deus” no pensamento ocidental, cremos ser esta primordial morte de Deus, inerente à experiência última do que se designa como Deus, que permite compreender o efeito da morte de Deus proclamada pelo “insensato” nietzscheano: “Para onde vamos nós próprios? […] Não estaremos incessantemente a cair? Para diante, para trás, para o lado, para todos os lados? Haverá ainda um acima, um abaixo? Não estaremos errando através de um vazio infinito? Não sentiremos na face o sopro do vazio?”. Não será afinal, esta experiência de vazio, ausência de fundo e referências - consequência da humana abdicação da ideia de um absoluto princípio ordenador do mundo e da vida - , a própria experiência desse abismo, fundo sem fundo, deserto e morada onde ninguém mora que a tradição mística vive como a experiência última do transcender Deus? Não será o que Nietzsche proclama como “morte de Deus” a própria experiência do absoluto trans-divino e trans-teológico, porém por sujeitos que não parecem preparados para a suportar? Daí a confissão: “A grandeza deste acto é demasiado grande para nós”.
Há assim um ateísmo, primordial e inumano, que excede o humano e que, embora imprevistamente se lhe abra no seio da experiência de negação do divino, lhe é dificilmente suportável. Daí que o “insensato” nietzscheano acrescente à declaração anterior: “Não será preciso que nós próprios nos tornemos deuses para, simplesmente, parecermos dignos dela?”. Passa-se assim da morte de Deus para a divinização do homem, o que é já uma demissão do abismo trans-divino, que procura introduzir no “deserto” primordial quem o habite, insulando entificações na sua vastidão hiante. Perante a efectiva transcensão mística de Deus, o projecto ateu da modernidade parece ser bem mais piedoso, trocando o abismo pelo ídolo deificado da própria humanidade. Como também viu Nietzsche, os ateus comuns são afinal bem “piedosas gentes”, que apenas se desprendem da metade divina do rosto do ídolo para mais se prenderem à sua gémea metade humana.
Poder-se-ia dizer que a verdade última da religião, desvelada pela mística, é a morte de Deus, vivida não só como a extinção de todos os conceitos e representações teológicos, mas também como a ausência, a abs-entia, a não entidade, da suposta Presença absoluta. Neste sentido, e para dialogar apenas com uma das emergências do tema da “morte de Deus” no pensamento ocidental, cremos ser esta primordial morte de Deus, inerente à experiência última do que se designa como Deus, que permite compreender o efeito da morte de Deus proclamada pelo “insensato” nietzscheano: “Para onde vamos nós próprios? […] Não estaremos incessantemente a cair? Para diante, para trás, para o lado, para todos os lados? Haverá ainda um acima, um abaixo? Não estaremos errando através de um vazio infinito? Não sentiremos na face o sopro do vazio?”. Não será afinal, esta experiência de vazio, ausência de fundo e referências - consequência da humana abdicação da ideia de um absoluto princípio ordenador do mundo e da vida - , a própria experiência desse abismo, fundo sem fundo, deserto e morada onde ninguém mora que a tradição mística vive como a experiência última do transcender Deus? Não será o que Nietzsche proclama como “morte de Deus” a própria experiência do absoluto trans-divino e trans-teológico, porém por sujeitos que não parecem preparados para a suportar? Daí a confissão: “A grandeza deste acto é demasiado grande para nós”.
Há assim um ateísmo, primordial e inumano, que excede o humano e que, embora imprevistamente se lhe abra no seio da experiência de negação do divino, lhe é dificilmente suportável. Daí que o “insensato” nietzscheano acrescente à declaração anterior: “Não será preciso que nós próprios nos tornemos deuses para, simplesmente, parecermos dignos dela?”. Passa-se assim da morte de Deus para a divinização do homem, o que é já uma demissão do abismo trans-divino, que procura introduzir no “deserto” primordial quem o habite, insulando entificações na sua vastidão hiante. Perante a efectiva transcensão mística de Deus, o projecto ateu da modernidade parece ser bem mais piedoso, trocando o abismo pelo ídolo deificado da própria humanidade. Como também viu Nietzsche, os ateus comuns são afinal bem “piedosas gentes”, que apenas se desprendem da metade divina do rosto do ídolo para mais se prenderem à sua gémea metade humana.
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