O CAMINHO DA SERPENTE

"Reconhecer a verdade como verdade, e ao mesmo tempo como erro; viver os contrários, não os aceitando; sentir tudo de todas as maneiras, e não ser nada, no fim, senão o entendimento de tudo [...]".

"Ela atravessa todos os mistérios e não chega a conhecer nenhum, pois lhes conhece a ilusão e a lei. Assume formas com que, e em que, se nega, porque, como passa sem rasto recto, pode deixar o que foi, visto que verdadeiramente o não foi. Deixa a Cobra do Éden como pele largada, as formas que assume não são mais que peles que larga.
E quando, sem ter tido caminho, chega a Deus, ela, como não teve caminho, passa para além de Deus, pois chegou ali de fora"

- Fernando Pessoa, O Caminho da Serpente

Saúde, Irmãos ! É a Hora !


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quarta-feira, 21 de março de 2012

Entrevista de Paulo Borges ao filósofo romeno Ciprian Valcan sobre budismo, filosofia, Cioran, Oriente e Ocidente

1. Em que medida um melhor conhecimento da filosofia oriental contribui para a transformação da reflexão filosófica da tradição ocidental? No seu caso, como é que o budismo influenciou o estilo de filosofia que pratica?

Conhecer as filosofias orientais – muito diversas entre si – é indispensável para conhecer melhor a própria filosofia ocidental. Por um lado, porque algumas filosofias orientais, como a persa e a indiana, são fruto da mesma matriz linguística e cultural, a indo-europeia, com categorias muito semelhantes às do pensamento ocidental, procedente da submatriz grega do pensamento indoeuropeu. Por outro, porque outras filosofias orientais, como a chinesa e a japonesa, radicam numa matriz linguística e cultural muito distinta, configurando uma heterotopia (Michel Foucault), uma alteridade apenas por contraste com a qual se podem plenamente esclarecer as fundamentais opções que configuraram o destino da filosofia europeia-ocidental e a civilização dela surgida. Não é possível compreender a Europa e a filosofia ocidental sem as confrontar com o pensamento chinês, como hoje mostra François Jullien. O mesmo se pode dizer, embora de forma mais atenuada, da filosofia persa, indiana e tibetana (a qual, embora procedente de outra matriz linguística, incorporou muitas das categorias indianas). Se bem que ligadas a uma matriz comum, estas filosofias exploraram possibilidades muito diversas daquelas que foram sendo predominantemente privilegiadas pelo pensamento ocidental. Pese o risco de generalizações sempre falaciosas, pode dizer-se que as filosofias orientais privilegiam a experiência directa e pré-conceptual da vida e/ou do fundo indeterminado dos fenómenos, enquanto a filosofia ocidental, sobretudo desde Platão e Aristóteles, optou pela determinação conceptual do mundo com fins político-científicos. Outra grande diferença é o antropocentrismo do pensamento ocidental pós-socrático - raiz da actual crise ecológica e da devastação da Terra e dos seres vivos - perante a tendencial empatia cósmica do pensamento oriental com todas as formas de vida, vistas como iguais no seu fundo comum. Seja como for, as tradições são sempre muito mais interligadas do que as histórias da filosofia nos levam a crer. Não há culturas, mas sim entre-culturas.

Conhecer o pensamento oriental é decisivo para que o Ocidente compreenda as outras possibilidades que as suas opções sacrificaram, mas que nele permanecem latentes, por serem inerentes ao homem e ao espírito. Isto já é uma profunda transformação e possibilita imprevistas metamorfoses do pensar europeu-ocidental. Isto exige todavia o expatriamento da nossa situação cultural mais imediata, que nos permita vê-la de fora, panoramicamente. Isto exige um pensamento nómada, que não se ancore numa dada matriz linguístico-cultural, mas viva em constante viagem no espaço entre todas elas. É esse o projecto da revista que dirijo, Cultura ENTRE Culturas.

Encontrei o budismo ao terminar a licenciatura em Filosofia, em 1981, e reconheci nele o que já era e vivia antes de o saber. Senti o mesmo em relação a alguns pensadores portugueses contemporâneos, que descobri na mesma altura. Essas influências, o budismo, sobretudo Nagarjuna, Longchenpa, Hui Neng, Linji, Dogen, Chögyam Trungpa, Thich Nhat Hanh, o tantrismo e o Dzogchen tibetanos, os mestres com quem estudo pessoalmente, a prática quotidiana da meditação, pensadores e poetas portugueses como Antero de Quental, Sampaio Bruno, Teixeira de Pascoaes, Fernando Pessoa, José Marinho, Eudoro de Sousa e Agostinho da Silva, mas também Eckhart, Rumi, Nietzsche, Cioran e poetas e místicos de todas as tradições, têm-me ajudado a esclarecer as mais gratas experiências que remontam à infância: o sentimento agudo da estranheza de existir e haver realidade, vivido até à iminência da exaustão e loucura; a comunhão disso com um amigo de jogos de rua, cerca dos 8 anos de idade; a iniciação adolescente à consciência sem sujeito nem objecto e ao sentimento de ser todo o mundo-ninguém por via da música, da dança e da experiência erótico-sexual e amorosa; a experiência do espaço aberto ao sair da Universidade de Lisboa, no fim das aulas de Filosofia, com a mente livre de todo o artifício conceptual; a mesma liberdade nas longas caminhadas por montanhas e florestas, pelas colinas de Lisboa e ao entardecer nos miradouros sobre o Tejo; a contemplação do oceano no finisterra português e a saudade de um não sei quê; o brilho das coisas nos muros caiados de branco; a vida sem quem nem quê, sem porquê nem para quê, livre e infinita. De tudo isso vem e a tudo isso regressa o meu pensar, mais directamente expresso em A cada instante estamos a tempo de nunca haver nascido e Da saudade como via de libertação (2008), além de na ficção Línguas de Fogo (2006).

2. Como se produziu a sua conversão ao budismo? Foi uma escolha racional ou um puro acto de fé?

Não me sinto convertido ao “budismo”. Na verdade não me interessa tanto o budismo histórico e institucional, mas antes a experiência de Buda, o Despertarda mente-coração na sua natureza primordial, livre de condicionamentos conceptuais-emocionais e das decorrentes convenções sócio-culturais. É isso que encontro nos mestres e em muitos homens exemplares de todas as tradições espirituais, bem como na agnóstica e ateia. Deus procede de uma raiz indo-europeia que significa “o que brilha” e a experiência dessa luz que há na consciência, para além de budologias e teologias, de religiões e filosofias, é a mesma em todo o homem, religioso, agnóstico ou ateu.

Dei por mim a seguir a via do Buda por experiência, caminho do meio para além da razão e da fé. Pessoalmente aprecio nela várias qualidades: o espírito iconoclasta, patente no “Se vires o Buda, mata-o!” de Linji, pois o Despertar não é alguém ou algo exterior; ser experimental e não dogmática, pesem os desvios de muitos budistas; ter uma ética global que não exclui nenhum ser senciente, como os animais; assumir-se como mero meio a ultrapassar, pois o que importa não é ser budista e sim Buda; e, sobretudo, a qualidade e inspiração dos mestres vivos que a ensinam. Contudo o meu interesse pelo budismo estende-se a todas as religiões e vias espirituais, formas diferentes de conduzir pessoas com distintas tendências, capacidades e condicionamentos histórico-culturais a um mesmo objectivo: a plena descoberta de quem desde sempre são.

3. Como veio a conhecer a obra de Cioran e que significado teve para si o contacto com esta obra?

Há algo em mim tão afim que não poderia deixar de a encontrar. É como se Cioran expressasse toda a revolta, desespero e pulsão niilista da minha adolescência e juventude, mas hoje não é tanto isso que na sua obra me interessa, lamentando que fique demasiado refém disso e de uma dolorosa ausência de amor e compaixão. Interessa-me nele o iconoclasmo místico e, sobretudo, as aberturas a uma transfiguração redentora. Cioran poderia ter escrito apenas o seguinte trecho de Sur les Cimes du Désespoir, no qual me reconheço inteiramente: “Gostaria de perder a razão com uma única condição: ter a certeza de me tornar um louco alegre e jovial, sem problemas nem obsessões, folgazão de manhã à noite. Se bem que deseje ardentemente êxtases luminosos, não os quereria no entanto, pois são sempre seguidos de depressões. Quereria, em contrapartida, que um banho de luz de mim brotasse para transfigurar o universo – um banho que, longe da tensão do êxtase, conservaria a calma de uma eternidade luminosa. Teria a ligeireza da graça e o calor de um sorriso. Quereria que o mundo inteiro flutuasse neste sonho de claridade, neste encanto de transparência e imaterialidade. Que não haja mais obstáculo nem matéria, forma ou confins. E que, neste paraíso, eu morra de luz”.

Cioran inspira a mais ousada e radical aventura: transcender todos os limites do pensamento, da vida e da existência e sobreviver para o dizer ou gritar, com uma mestria literária que enobrece as ruínas do mundo. Inspira-me também nele o que encontro em portugueses como Pascoaes e Pessoa: na periferia da cultura europeia dominante, agudamente conscientes do fim de ciclo da sua civilização, serem movidos pelo ímpeto de libertação dos ídolos dessa mesma cultura e civilização, sem se deterem no limite do humano, numa titânica hybris de superação de tudo, do sujeito e de si mesma, numa nostalgia ou saudade violenta do incondicionado, irredutível à constituição do sujeito no mundo e fundo sem fundo de toda a experiência. Fascina-me o modo como em Cioran o génio literário serve um obsessivo e minucioso ajuste de contas com todas as ficções da consciência, da história e da cultura, escalpelizadas e reduzidas a cinzas pelo cirúrgico e cáustico bisturi do aforismo e do pensamento incendiado na veemência da insónia, da febre e da blasfémia, mas também do entusiasmo extático e transfigurador. E também a assumida inspiração no primitivismo dos camponeses das montanhas romenas e na pulsão herética da sua cultura popular, semelhante ao que em Portugal acontece com Teixeira de Pascoaes ou Agostinho da Silva. Cioran mostra aliás conhecer as fundas afinidades entre a cultura romena e a portuguesa. Num dos seus Entretiens assume a “nostalgia sem limites”, inerente à fugacidade da experiência temporal do absoluto, como fundadora da sua visão do mundo e acrescenta: “Este sentimento liga-se em parte às minhas origens romenas. Ele impregna ali toda a poesia popular. É uma dilaceração indefinível que se diz em romeno dor, próxima da Sehnsucht dos Alemães, mas sobretudo da Saudade dos Portugueses”.

Fiz uma conferência sobre Cioran e Fernando Pessoa na Universidade de Gröningen, na Holanda, em 2009, que publiquei na revista Arca graças a Ciprian Valcan e que incluí no meu último livro sobre Pessoa: O Teatro da Vacuidade ou a impossibilidade de ser eu (2011).

4. Qual a recepção actual da obra de Cioran em Portugal?

Nos últimos anos tem havido um aumento de traduções que estão a ser recebidas com muito interesse, mas creio que até agora só há um estudo publicado: João Maurício Barreiros Brás, O pensamento insuportável de Cioran. Um itinerário do desespero à lucidez (2006).

5. Qual o papel da filosofia na nossa época? Crê que a filosofia chegou ao fim do seu caminho ou tem hipóteses de sobreviver?

Tudo o que tem início tem fim e a filosofia, se a identificarmos com a modalidade logocêntrica e conceptual surgida na Grécia e sobretudo com a sua vertente académica e institucional, está a esgotar-se, pelo afastamento da vida e de outras possibilidades do espírito. A filosofia deixou em geral de ser um modo de vida integral, como nas escolas filosóficas gregas (como recordou Pierre Hadot) e indianas, para se tornar uma actividade meramente intelectual, com uma linguagem técnica hiper-especializada em questões estéreis, que nada dizem às fundamentais aspirações humanas. Essa filosofia traiu a própria vocação, enquanto amor da sabedoria, do saber/sabor da essência da vida, e nesse sentido o seu triunfo é a sua morte.

Por outro lado, se considerarmos filosofia as múltiplas formas do pensamento planetário que visam a sabedoria - um saber que nos converte naquilo que sabemos e promove uma vida mais plena e solidária - , então essa filosofia é perene enquanto conatural ao exercício consciente do viver e sempre se renova em função dos novos lances do jogo do mundo. No que respeita à filosofia ocidental, creio que o seu renascimento depende do diálogo com esses outros paradigmas não-ocidentais e sobretudo do reencontro com a vida e o infinito que nela se abre. Necessitamos de um novo início: repensar tudo na experiência mais imediata, a do indeterminado pré-conceptual. Não a partir de Deus, do homem, do mundo ou de qualquer outro pressuposto, não “a partir de”, mas nisso que a cada instante antes de se pensar e se abre entre cada pensamento, palavra e fenómeno. Isso implica morte e renascimento contínuos: viver sem apoios.

6. A prática do aforismo ou do fragmento poderia contribuir para dar um novo alento à filosofia ocidental, mais aberto e menos dogmático?

A filosofia nasce do espanto balbuciante não só perante o haver algo, mas também perante o nada desse haver. Só aí pode re-nascer a cada instante, incinerando todos os conceitos, métodos e sistemas. O aforismo e o fragmento são o mais eloquente dizer desse gritante silêncio que há no aparecer das coisas. Neles a filosofia regressa à sua matriz místico-poética, anterior à violência do conceito que a extirpou do espanto original, como diz Maria Zambrano.

7. Crê que se pode falar de um declínio geral da civilização ocidental ou olha para o futuro com esperança? A civilização oriental poderia oferecer um modelo para este Ocidente que padece de niilismo?

Procuro viver e pensar para além do medo e da esperança. No plano colectivo, feito desse medo e esperança, creio assistirmos ao fim do que se convencionou chamar Ocidente e Oriente, que progressivamente se fundem numa nova civilização global que exteriormente tem um cunho ocidental - económico e tecnológico - , mas que arrisca uma vida curta e o iminente colapso social e ecológico se interiormente e ao nível da liderança não reencontrar a espiritualidade e a ética que presidiram ao melhor do Ocidente e do Oriente tradicionais, mas agora em termos laicos e trans-religiosos. Foi o que anunciou Fernando Pessoa, ao interpretar o maior mito profético da cultura portuguesa, o do Quinto Império, como uma era do espírito e da cultura que deverá fundir e elevar a uma superior síntese civilizacional a essência de Grécia, Roma, Cristandade e Europa, incorporando ainda o melhor de todas as culturas e civilizações mundiais num amplo universalismo. Antevejo essa superior síntese como uma nova aliança com a Terra e todos os seres vivos, fundada numa consciência holística e numa ética cósmica.

O niilismo ocidental resulta da incapacidade de se suportar habitar po-eticamente esse “vazio” aberto pela “morte de Deus” proclamada pelo “louco” nietzschiano: “Para onde vamos nós próprios? […] Não estaremos incessantemente a cair? Para diante, para trás, para o lado, para todos os lados? Haverá ainda um acima, um abaixo? Não estaremos errando através de um vazio infinito? Não sentiremos na face o sopro do vazio?”. Nesse aspecto, a espiritualidade oriental, mas também a de Plotino, Eckhart ou a heteronimia de Pessoa, podem ajudar-nos a descobrir nesse abismo o nosso próprio rosto e o de todas as coisas: o infinito exuberante de todos os possíveis, Todo o Mundo-Ninguém.

- Entrevista publicada em "Orizont" (Revista da União dos Escritores da Roménia), nr. 2 (1553), Ano XXIV, nova série, 28 de Fevereiro de 2012. Traduzida para romeno por Maria João Coutinho e Simion Cristea.

http://www.revistaorizont.ro/

sexta-feira, 22 de abril de 2011

"Natureza e animais no Budismo", 27 Abril, 4ª, 21.15, R. Santa Catarina, 730 - 2º, Porto

Estarei no Porto para uma palestra sobre o tema "NATUREZA E ANIMAIS NO BUDISMO", no dia 27 de Abril, quarta-feira, às 21:15, na sede da Campo Aberto, rua de Santa Catarina, 730-2.º, no Porto (perto já da rua Gonçalo Cristóvão)

Prosseguindo o ciclo "A Natureza nas Religiões e nas Filosofias", esta tertúlia insere-se numa revisão das várias perspectivas filosóficas e religiosas que buscam dar sentido à relação da humanidade com a Natureza.

Entrada livre e gratuita. Convida-se no entanto a uma participação nas despesas, voluntária e fixada pelo próprio, a entregar à entrada na mesa de publicações. Sugere-se a título indicativo 2 euros por pessoa, que serão retribuídos com um exemplar do último número da revista Ar Livre, editada pela Campo Aberto. Os sócios, que receberam já a revista gratuitamente, poderão optar por outras publicações.

quarta-feira, 5 de maio de 2010

Hoje, em Braga - Renascimento, Ressurreição ou nem uma coisa nem outra?

XXII Jornadas Teológicas
Faculdade de Teologia – Braga

[Entrada Livre]

Tema
«Ressurreição e Reincarnação-Renascimento»

Programa

Dia 5 de Maio (Quarta-feira)

21h00

–Mesa Redonda:
«E depois da morte? Diálogo entre Budismo e Cristianismo»

Prof. Doutor Paulo Alexandre Esteves Borges – Professor do Departamento de Filosofia da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e Presidente da União Budista Portuguesa.
Título: "Nem nascimento, nem morte, nem renascimento: vacuidade e bardo (entre-dois) na experiência budista"

Prof. Dr. Carlos Henrique do Carmo Silva – Professor de Filosofia da Faculdade de Ciências Humanas da Universidade Católica Portuguesa.
Título: «Anástasis – Ressurrectio, nem reincarnação mítica, nem renascimento espiritual»

Moderador: Prof. Doutor João Duque – Director-Adjunto da Faculdade de Teologia – Braga, da Universidade Católica Portuguesa

Dia 6 de Maio (Quinta-feira)

21h00
– Momento musical
– Coro Académico do Centro Regional de Braga da UCP
– Conferência –
«Abordagem contemporânea da Ressurreição em registo teológico»
Prof. Doutor Andrès Torres Queiruga – Professor da Universidade de Santiago de Compostela

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

"Ética Global: uma perspectiva intercultural" - a visão budista



Agradeço ao António Moura o filme que fez desta minha intervenção, em representação da União Budista Portuguesa, no painel "Ética Global: uma perspectiva intercultural", nas Conferências Democráticas que ainda decorrem na Sociedade Portuguesa de Geografia, organizadas pela Associação Portuguesa de Ética Empresarial.

Uma bela iniciativa, inspirada nas propostas de Hans Küng e nas Conferências do Casino! Recordo que a nova revista ENTRE publicará a última conferência de Hans Küng, feita em Dezembro de 2009 na Suíça.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Uma declaração budista sobre as alterações climáticas

Esta declaração resulta dos contributos de cerca de vinte mestres de todas as tradições budistas que participaram na redacção da obra A Buddhist Response to the Climate Emergency (Uma resposta budista à emergência climática, Wisdom Publications, 2009).

O texto intitulado «Chegou o momento de agir» (tradução da versão original em língua inglesa The Time to Act is Now) de inspiração pan-budista, foi redigido por David Tetsuun Loy (mestre zen) e pelo venerável Bhikkhu Bodhi (mestre da tradição Theravada), contando ainda com a contribuição científica do Dr. John Stanley. Esta declaração tem como seu primeiro subscritor o Dalai Lama. Convidamos todos os membros da comunidade budista internacional preocupados com esta questão a lerem este documento e a juntarem a sua voz, subscrevendo-o.

Chegou o momento de agir

Uma declaração budista sobre as alterações climáticas


Vivemos hoje numa época de grave crise, confrontados com os desafios mais sérios que a humanidade alguma vez experimentou: consequências ecológicas do nosso karma colectivo. A constatação unânime dos cientistas é esmagadora: as actividades humanas estão em vias de provocar um desastre ecológico à escala planetária. O aquecimento global, em particular, está a acelerar-se a um ritmo mais rápido do que se previa, sendo hoje patente no Pólo Norte. Durante centenas de milhares de anos, o Oceano Árctico esteve coberto por uma camada de gelo tão vasta como a Austrália que se encontra actualmente em rápido desaparecimento. Em 2007, o Grupo Intergovernamental de Especialistas em Evolução Climática (GIEC) previu que, por volta de 2100, o derretimento estival dos gelos seria total, mas é hoje evidente que corremos o risco de isso vir a suceder dentro de uma ou duas décadas. A vasta extensão de gelo da Gronelândia está também a derreter mais rapidamente do que se previra. O nível do mar vai aumentar pelo menos um metro ao longo deste século, o que provocará a inundação de inúmeras zonas costeiras, assim como de importantes áreas cultivadas de rizicultura de vital importância como o Delta do Mekong, no Vietname. Por todo o mundo, os glaciares diminuem velozmente. Se as políticas económicas actuais não mudarem, os glaciares do planalto tibetano, que alimentam os grandes rios que fornecem água a milhões de pessoas na Ásia, desaparecerão nos próximos trinta anos.
A Austrália e o Norte da China sofrem neste momento graves períodos de seca e uma diminuição das colheitas. Importantes relatórios, como o do GIEC, das Nações Unidas, da União Europeia e da União Internacional para a Conservação da Natureza, concordam em afirmar que, sem uma mudança de orientação colectiva, a diminuição das reservas de água e dos recursos alimentares, poderá provocar, entre outras consequências, situações de fome, conflitos motivados pela disputa dos recursos, assim como migrações maciças até meados do século – porventura, mesmo, até 2030, segundo o primeiro conselheiro científico do governo britânico.

O aquecimento global desempenha um papel essencial em outras crises ecológicas, como o desaparecimento de numerosas espécies vegetais e animais que partilham a Terra connosco. Os oceanógrafos assinalam que metade das emissões de carbono devidas à utilização de combustíveis fósseis já terá sido absorvida pelos oceanos, o que aumentou a sua taxa de actividade em cerca de 30%. Esta acidificação perturba a calcificação das conchas e dos recifes de coral, ameaçando o desenvolvimento do plâncton, base da cadeia alimentar da maioria das espécies que povoam os oceanos.
Os relatórios das Nações Unidas concordam com as tomadas de posição de eminentes biólogos que afirmam que a continuação da actual política de cegueira voluntária levará à extinção de cerca de metade das espécies terrestres actualmente existentes. Estamos a transgredir, colectivamente, o primeiro dos preceitos: “Não prejudicar os seres vivos”, e estamos a fazê-lo na maior escala possível. Somos incapazes de antecipar o impacto biológico sobre a vida humana que será provocado pelo desaparecimento desta infinidade de espécies que, imperceptivelmente, também contribuem para o nosso próprio bem-estar.

Muitos cientistas chegaram já à conclusão de que está hoje em causa a sobrevivência da própria civilização humana. Atingimos um momento crucial da nossa evolução biológica e social. Nunca na história a necessidade do contributo do budismo para o bem de todos os seres se impôs com tamanha urgência. Por intermédio das quatro nobres verdades dispomos de um quadro que permite traçar um diagnóstico sobre a nossa situação actual e, assim, definir as grandes linhas de uma solução: as ameaças e catástrofes que nos assombram provêm em última instância do espírito humano, pelo que exigem uma fundamental mutação do nosso espírito. Se o sofrimento individual nasce da sede e da ignorância (dos três venenos: a avidez, o ódio e a ilusão), o mesmo sucede quanto ao sofrimento que experimentamos à escala colectiva. A urgência ecológica actual confronta-nos com o eterno sofrimento humano, de uma forma desmultiplicada. Nós sofremos como indivíduos mas também como género, de um si que se vê como separado não só dos outros mas também da própria Terra. Como diz Thich Nhat Hanh: «Nós estamos aqui para despertar da ilusão da nossa separação». Devemos acordar e compreender que a Terra é tanto nossa mãe como nossa casa. Desde logo, o cordão umbilical que a ela nos liga não pode ser cortado. Se a terra adoece, nós também adoecemos porque somos parte integrante dela. As nossas actuais relações económicas e tecnológicas com a biosfera não são viáveis. A fim de sobreviver às duras transformações que se avizinham, os nossos modos de vida e as nossas expectativas devem mudar. Isto supõe não só novos comportamentos, mas também novos valores. O ensinamento budista segundo o qual a saúde global das pessoas e da sociedade depende do bem-estar interior, e não apenas de indicadores económicos, permite-nos definir as transformações pessoais e sociais que devemos empreender.
No plano individual, devemos adoptar comportamentos que manifestem a nossa consciência ecológica no quotidiano, reduzindo assim a nossa pegada de carbono. Para aqueles que vivem em economias desenvolvidas, isto implica modernizar e isolar as casas e os lugares de trabalho para obter um melhor rendimento energético; reduzir o aquecimento no Inverno e o ar condicionado no Verão; utilizar lâmpadas e electrodomésticos de baixo consumo; desligar os aparelhos eléctricos que não estão em uso; conduzir viaturas que consumam o menos possível; diminuir o consumo de carne, favorecendo uma alimentação vegetariana, mais saudável e mais respeitadora do ambiente.

Estas iniciativas individuais, todavia, por si sós, não são suficientes para evitar futuras catástrofes. Devemos igualmente empreender transformações institucionais, no plano tecnológico e no plano económico. Logo que possível, devemos “descarbonar” as nossas produções energéticas, substituindo as energias fosseis por fontes de energia renováveis que são ilimitadas, inofensivas e que estão em harmonia com a natureza. Devemos particularmente parar com a construção de novas centrais a carvão, uma vez que esta é, de longe, a fonte mais poluente e mais perigosa de emissões de carbono na atmosfera. Inteligentemente exploradas, as energias eólica, solar, marmotriz e geotérmica poderiam fornecer toda a electricidade de que necessitamos sem prejudicar a biosfera. Cerca de um quarto das emissões de carbono mundiais são devidas à desflorestação, pelo que deveremos inverter o processo de destruição das florestas, em particular a cintura das florestas tropicais onde vive a maior parte das espécies animais e vegetais.

Torna-se hoje evidente que é igualmente necessário proceder a alterações significativas na organização do nosso sistema económico. O aquecimento global encontra-se estreitamente ligado às monstruosas quantidades de energia que as nossas indústrias devoram a fim de dar resposta aos níveis de consumo que correspondem às expectativas de tantos de entre nós. De um ponto de vista budista, uma economia sã e duradoura deve reger-se pelo princípio da suficiência: a chave da felicidade encontra-se na satisfação e não numa multiplicação crescente de bens e produtos. O comportamento compulsivo que leva a um consumo crescente é expressão de sede, aquela disposição que o Buda identificou como sendo a principal causa do sofrimento.
No lugar de uma economia submetida à lei do lucro que requer um crescimento ilimitado para não falhar, devíamos fazer evoluir o mundo em direcção a uma economia que promovesse um nível de vida satisfatório para todos, permitindo-nos assim desenvolver as nossas plenas potencialidades (incluindo as espirituais) em harmonia com a biosfera, que sustenta e nutre todos os seres, onde se incluem também as gerações futuras. Se os dirigentes políticos não são capazes de reconhecer a urgência desta crise mundial ou se ele não estão dispostos a considerar o bem estar a longo prazo da humanidade acima dos benefícios de curto prazo das companhias que exploram os combustíveis fosseis, talvez seja necessário que os contestemos mediante o desencadear de campanhas persistentes de acção cívica.

Diversos climatologistas, como o Dr. James Hansen, da NASA, definiram recentemente objectivos precisos a fim de evitar que o aquecimento global atinja um limiar crítico catastrófico. Para que a civilização humana seja viável, a taxa aceitável de dióxido de carbono na atmosfera deve ser inferior a 350 ppm (partes por milhão). O cumprimento deste objectivo é recomendado e apoiado pelo Dalai Lama, assim como por outras personalidades agraciadas com o Prémio Nobel e por prestigiados cientistas. Na situação actual encontramo-nos nos 387 ppm, nível que aumenta ao valor de 2 ppm por ano.

É assim necessário não só reduzir as emissões de carbono mas também eliminar a excessiva quantidade de dióxido de carbono já presente na atmosfera.
Enquanto signatários desta declaração de princípios budista, nós reconhecemos o desafio urgente que o aquecimento global coloca. Juntamo-nos ao Dalai Lama para apoiar o objectivo dos 350 ppm. De acordo com os ensinamentos budistas, e conscientes da nossa responsabilidade individual e colectiva, comprometemo-nos a fazer tudo o que estiver ao nosso alcance para atingir esse objectivo, nomeadamente (mas não só) através das acções individuais e sociais aqui sucintamente indicadas.
Dispomos apenas de um curto espaço de tempo para agir, para preservar a humanidade de uma catástrofe iminente e para assegurar a sobrevivência das diversas e belas formas de vida terrestres. As futuras gerações e as outras espécies que partilham a nossa biosfera, não têm voz para nos pedir que demonstremos a nossa compaixão, sabedoria e poder de cisão. Devemos escutar o seu silêncio. E devemos também ser a sua voz e agir em seu nome.

Para subscrever a declaração:

http://www.ecobuddhism.org/350_target/350_target/buddhist_declaration_on_climate_change___french/

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Introdução ao Budismo - Jigme Khyentse Rinpoche no Porto e em Lisboa, 29 de Setembro e 1 de Outubro

Aconselho vivamente as introduções ao Budismo que Jigme Khyentse Rinpoche fará no Porto e em Lisboa, organizadas pela Fundação Kangyur Rinpoche com o apoio da União Budista Portuguesa.

Porto - 29 de Setembro, 3ª feira, às 19h, no hotel Tiara Park Atlantic (Av. Boavista, 1466).

Lisboa - 1 de Outubro, 5ª feira, às 19h, no hotel Marriott (Av. Combatentes, 45).

Para quem não saiba, e quase ninguém sabe, o diálogo teológico-filosófico da cultura portuguesa com a cultura budista foi o primeiro e um dos mais importantes da Europa. As provas estão em muitos manuscritos esquecidos nas bibliotecas portuguesas e noutras, como em Goa. Investigadores pacientes em breve as tornarão públicas.
É com enorme prazer que vos informamos da presença de Jigme Khyentse Rinpoche em Lisboa, e da Conferência, que aceitou realizar, a convite da Fundação Kangyur Rinpoche.

terça-feira, 28 de julho de 2009

"A prática do Budismo não implica que a pessoa abdique da sua cultura"

Entrevista com Paulo Borges, publicada no Boletim Informativo nº70, de Maio de 2009, do Alto Comissariado para a Imigração e Diálogo Intercultural, pp.18-19.

Segundo Paulo Borges, presidente da União Budista Portuguesa, a aproximação dos portugueses ao Budismo pode assumir muitas formas. Alguns interessam-se por aspectos específicos como a meditação, outros aprofundam os seus conhecimentos e tornam-se budistas praticantes.

Desde quando existem budistas em Portugal?

As primeiras actividades organizadas surgem nos anos 70, mas antes disso houve certamente quem se considerasse budista. Registe-se que desde a Idade Média conhecemos uma vida cristianizada do Buda – a lenda dos santos Barlaão e Josaphat (de Bodhisattva) – e tivemos contactos pioneiros com as culturas budistas, a começar pelos missionários, que mantiveram diálogos teológico-filosóficos muito interessantes com os budistas, ainda hoje esquecidos em manuscritos inéditos. Antero de Quental aprendeu sânscrito para ler textos budistas e o Budismo interessou e marcou Wenceslau de Moraes, Fernando Pessoa e Agostinho da Silva, entre muitos outros. Assim o mostra o livro que organizei, com Duarte Braga, intitulado O Buda e o Budismo no Ocidente e na Cultura Portuguesa.

Quem são os budistas portugueses? É possível caracterizá-los?

Somos uma comunidade constituída sobretudo por nacionais, embora exista um número importante de chineses. Não é fácil caracterizar os budistas portugueses. É uma comunidade que abrange várias faixas etárias e pessoas com diferentes actividades e estatutos sociais. Maioritariamente, a comunidade budista está entre os 18 e os 50 anos. Há bastantes pessoas com formação académica, alguns ligados ao meio universitário, mas também muitos com outro tipo de actividades e formações.
Calculamos que possam existir cerca de quinze mil budistas em Portugal. O que é evidente é que o número de adesões aumenta, acompanhando o grande crescimento do Budismo no Ocidente. Temos também a noção de existirem muitas mais pessoas interessadas no Budismo. Temos testemunhos de pessoas que pertencem a uma religião, nomeadamente a Católica, mas se revêem no Budismo em certos aspectos da sua visão do mundo, como por exemplo numa ética não limitada ao homem, respeitadora de todas as formas de vida, e numa maior importância dada à experiência pessoal, em detrimento do dogma. Existe algo de singular que é o Budismo ser quase que uma segunda religião para muitas pessoas, que se reconhecem na atitude e na abertura budista, embora não adiram propriamente a todos os pontos da sua filosofia.
Temos uma difusão nacional, mas a maioria dos budistas praticantes localizam-se no Porto, em Lisboa e arredores e também no Algarve.

Que tipo de percurso têm as pessoas que aderem ao Budismo?

Há muitos percursos diversos, mas em geral as pessoas começam a interessar-se pela meditação, não por desejarem ser budistas, mas por lhes trazer a paz e serenidade que procuram. A partir daí, começam a interessar-se pelos seus fundamentos filosóficos. No decurso desse processo, encontram mestres das várias escolas budistas que convidamos para ensinar em Portugal, como aconteceu com S. S. o Dalai Lama, cujas visitas se traduziram por um grande crescimento da nossa comunidade e actividades.
Há quem também comece por contactar a literatura budista, que conta com vários livros de qualidade, em português. Nesses casos, é a partir da teoria que surge o interesse pela prática da ética e da meditação. Contactando um centro budista, as pessoas participam em actividades comunitárias como a meditação em grupo, a oração e a recitação de mantras, a par da integração disso na sua vida pessoal e quotidiana.

O que procuram essas pessoas?

Como referi, a maior parte das pessoas não procura imediatamente o Budismo, mas antes reduzir a sua ansiedade e stress, gerir melhor dificuldades na vida e praticar meditação. Ora esta é um contacto com uma dimensão mais profunda de nós mesmos, que suscita o desejo de saber mais acerca dos princípios e da visão do mundo que a fundamentam. É aí que as pessoas se começam a interessar pelo Budismo como busca de orientação para as suas vidas, procurando entender qual o sentido e quais as potencialidades da existência humana, em termos de desenvolvimento espiritual e ético.
O que oferecemos na União Budista Portuguesa respeita essas duas grandes motivações. Para as pessoas que visam melhorar a sua qualidade de vida mediante a estabilidade emocional e mental, oferecemos cursos mensais de introdução à meditação. É uma actividade muito procurada, com cerca de trinta ou quarenta pessoas em cada curso. Para quem, além disso, procura conhecer os princípios do Budismo, como orientação espiritual e ética para a vida, oferecemos cursos de introdução ao Budismo e seminários sobre temas específicos da filosofia budista. Convidamos também mestres budistas credenciados, que vêm do Oriente ou residem na Europa, para proporcionar um contacto mais directo com os representantes vivos desta tradição milenar.

O que significa ser português e budista?

Embora o Budismo surja associado a culturas para nós exóticas, a sua prática, para além das vestes culturais que historicamente assumiu, não implica de modo algum que a pessoa abdique da sua cultura e adopte uma outra. O Budismo é apenas uma via para a mente se libertar de ser causa de sofrimento para si e para os outros, realizando, ao mesmo tempo, todas as suas potencialidades cognitivas e afectivas. Se alguns portugueses que aderem ao Budismo incorporam elementos de uma cultura que não é a sua, passado esse primeiro período de fascínio por uma cultura diversa, e com um maior amadurecimento do praticante, o que fica é apenas a busca do desenvolvimento pessoal ao serviço do bem comum. À medida que se evolui na prática e na tomada de consciência do que é ser budista, fica somente o essencial. Aconselho um livro que traduzi, fundamental para nos libertar das ficções acerca do que é ser budista: O que não faz de ti um budista, de Dzongsar Jamyang Khyentse.

Existem alguns preceitos difíceis de seguir numa sociedade ocidental?

Contrariamente ao que por vezes se pensa, os preceitos budistas não são fáceis, pois são exigentes em termos éticos e de disciplina mental. E não apenas nas sociedades ocidentais, pois, para quem os queira seguir de forma minimamente rigorosa, são sempre difíceis de seguir em qualquer sociedade, inclusive nas orientais. Mesmo aí encontramos uma prática popular do Budismo que não corresponde necessariamente a uma prática rigorosa. Mestres budistas provenientes dessas culturas têm reconhecido que o Budismo também aí é muitas vezes “praticado” apenas por hábito social, sem grande esclarecimento, como acontece em geral com todas as religiões. Dito isto, certos preceitos budistas, como a não-violência, o amor e a compaixão universais, a abstenção de tudo o que contribua, directa ou indirectamente, para o sofrimento de qualquer ser vivo, com o que isso por exemplo implica de convite a uma mudança de regime alimentar, chocam com muitos hábitos enraizados na tradição ocidental (apesar do vegetarianismo ser um ideal e não uma condição à partida indispensável para se ser budista). A própria prática quotidiana da meditação choca com os hábitos ocidentais de indisciplina mental e ética, confundindo-se ser livre com pensar, dizer e fazer o que se quer, como se todos os pensamentos, palavras e acções não tivessem efeitos positivos ou negativos para nós e o mundo. Para já não falar da visão central do Budismo, a da vacuidade, a de que nada existe em si e por si, mas em total interdependência, sem características intrínsecas. E ainda transcender a percepção dualista, a separação eu-outro, o apego e a aversão egocêntricos. Tudo isso é difícil, mas não especificamente para um ocidental ou para um português. É difícil para um ser humano que esteja demasiado preso a perspectivas, preconceitos e hábitos social e culturalmente herdados e que não tenha a flexibilidade mental para reflectir sobre o seu fundamento.

Como se relacionam os budistas com as restantes comunidades religiosas em Portugal?

Temos relações de grande cordialidade com todas as comunidades religiosas. Destacamos a participação numa iniciativa da Comunidade Mundial de Meditação Cristã, um encontro inter-religioso mensal que procura congregar pessoas de todas as comunidades religiosas para fazerem meditação em silêncio, cada um segundo a sua tradição, após a leitura de textos sagrados de cada religião, à qual se pode seguir um diálogo. O silêncio inter e trans-religioso é a condição indispensável para um diálogo inter-religioso mais profundo. Quanto a este, assumimos o compromisso com S. S. o Dalai Lama de tudo fazer em Portugal para o promover e temos participado em ou organizado vários encontros inter-religiosos, que têm sido bastante fecundos, na medida em que o facto de representantes de várias religiões se encontrarem e dialogarem é, só por si, um exemplo positivo para as suas comunidades. Todavia, ainda se fica um pouco aquém do que seria um debate mais profundo, não só daquilo que nos aproxima, mas também daquilo que nos diferencia. Se o diálogo inter-religioso em Portugal, compreensivelmente, se tem focado mais nos pontos de convergência, penso que, para maior conhecimento e aceitação mútuos, seria conveniente investigarmos também aquilo que nos divide e a sua razão. Como tenho defendido, creio ainda nas vantagens de que este diálogo se alargasse a agnósticos e ateus, em prol de uma cidadania mais aberta e tolerante.
Devo dizer que lamento não termos sido ainda convidados para a Comissão de Liberdade Religiosa, apesar de sermos a comunidade com maior crescimento nacional e de acordo com o princípio de igualdade consagrado na Lei da Liberdade Religiosa. Segundo o mesmo princípio, também me parece extremamente injusto, grave e discriminatório, além de contrário ao mais elementar espírito científico, continuar a não existir nos Censos a possibilidade dos cidadãos se declararem budistas, hindus ou bahá’is.

União Budista Portuguesa

A União Budista Portuguesa é uma federação das principais escolas budistas portuguesas. Nasceu em Junho de 1997, procurando estabelecer em Portugal uma entidade que represente oficialmente o Budismo e que averigue da autenticidade das escolas budistas, reconhecendo-as como autênticas e aceitando-as como seus membros.
Por outro lado, a União Budista Portuguesa pretende também ser um espaço de diálogo e de intercâmbio, não só entre a comunidade budista, a sociedade portuguesa, as outras religiões e o Estado português, mas também de diálogo interno entre as várias escolas budistas existentes em Portugal, representantes do Budismo Tibetano, do Budismo Chan, do Budismo Zen e outras.

www.uniaobudista.pt

sexta-feira, 19 de junho de 2009

Tenga Rinpoche em Lisboa - Conhecer a natureza da mente

Caros Amigos,

É com enorme satisfação que vos informamos da presença em Lisboa de Kyabje Tenga Rinpoche.

Tenga Rinpoche nasceu em 1932 em Kham, no Tibete oriental. A sua educação decorreu inicialmente nos Mosteiros de Benchen e Palpung, sob orientação do 9º Sangye Nyempa Rinpoche (irmão de Kyabje Dilgo Khyentse Rinpoche), e dos anteriores Situ Rinpoche e de Jamgon Rinpoche. Posteriormente, estudou com muitos outros Mestres e completou os seus estudos com um retiro de 3 anos. Foi também discípulo de Kyabje Dilgo Khyentse Rinpoche e de Kyabje Dudjom Rinpoche.

Após deixar o Tibete, em 1959, instalou-se em Sikkim no Mosteiro de Rumtek. Aí, Tenga Rinpoche serviu durante 17 anos S. S. o XVI Karmapa. Desde 1976, Tenga Rinpoche vive no Nepal, onde estabeleceu o Mosteiro Benchen Phuntsok Dargyeling e um Centro de Retiros em Pharping (http://www.benchen.org/home). É também o fundador de Centros na Polónia, em Itália e na Alemanha.

Kyabje Tenga Rinpoche é um dos poucos Mestres detentores da linhagem não interrompida da tradição Karma Kagyu do Budismo Tibetano. A sua visita a Portugal constitui uma oportunidade rara e preciosa para contactar com um grande Mestre da actualidade.

Programa:

21 de Junho de 2009 (Domingo) – 16h00
Desenvolver a calma mental

22 de Junho de 2009 (2ª feira) – 17h00
Visão profunda da paz mental

23 de Junho de 2009 (3ª feira) – 17h00
Meios para transformar a mente e revelar a sua pureza original

Local: Hotel Marriott, Av. dos Combatentes, Lisboa

Custo de participação: 20 euros por dia; 50 euros os 3 dias

Esperamos vê-los !

Fundação Kangyur Rinpoche

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

Considerações politicamente incorrectas de um mestre budista

Durante a batalha em Bodh Gaya, Mara [o símbolo da ilusão e da negatividade]manifestou múltiplas armas contra Siddhartha. Tinha, em particular, uma colecção de flechas especiais. Cada flecha possuía poderes ruinosos: a flecha que causa desejo, a flecha que causa obtusidade mental, a flecha que causa orgulho, a flecha que causa conflito, a flecha que causa arrogância, a flecha que causa obsessão cega e a flecha que causa a ausência de consciência, para nomear algumas. Nos sutras budistas lemos que Mara permanece sem ser derrotado em cada um de nós: ele envia-nos constantemente as suas flechas envenenadas. Quando somos atingidos pelas flechas de Mara, tornamo-nos inicialmente entorpecidos, mas o veneno espalha-se então por todo o nosso ser, destruindo-nos lentamente. Quando perdemos a consciência e nos apegamos ao eu, é o veneno entorpecedor de Mara. Lenta, seguramente, seguem-se as emoções destruidoras, vertendo-se no nosso ser.
Quando atingidos pela flecha do desejo, todo o nosso senso comum, sobriedade e sanidade saem pela janela, enquanto a falsa dignidade, a decadência e a imoralidade escorrem para dentro. Envenenados, nada nos detém para obter o que queremos. Alguém ferido pela paixão pode até achar sexy uma prostituta-hipopótamo, enquanto uma bela rapariga o espera em casa. Tal como mariposas atraídas pela chama e peixes por iscas em anzóis, muitos nesta terra foram apanhados numa armadilha pelo seu desejo de comida, fama, louvor, dinheiro, beleza e veneração.
A paixão pode também manifestar-se como concupiscência pelo poder. Tomados por uma tal paixão, os líderes são completamente indiferentes a como a sua ânsia de poder destrói o planeta. Se não fosse a cobiça de riqueza de algumas pessoas, as auto-estradas estariam cheias de carros movidos pelo sol e ninguém morreria de fome. Tais progressos são tecnológica e fisicamente possíveis, mas aparentemente não são emocionalmente possíveis. E entretanto murmuramos acerca da injustiça e censuramos pessoas como George W. Bush. Atingidos nós próprios pelas flechas da ganância, não vemos que é o nosso próprio desejo – ter comodidades como aparelhos electrónicos de importação barata e luxos como Humvees – que na realidade sustenta as guerras que estão a devastar o mundo. Todos os dias, durante a hora de ponta em Los Angeles, a via reservada aos veículos com duas ou mais pessoas está vazia enquanto milhares de carros atravancam o resto da estrada, cada um com apenas um ocupante. Mesmo aqueles que desfilam nos protestos “Não ao Sangue por Petróleo” contam com o petróleo para importar os kiwis para os seus batidos.
As flechas de Mara criam um conflito infindável. Ao longo da história, figuras religiosas, aquelas que supostamente estão acima do desejo, os nossos modelos de integridade e correcção, mostraram estar igualmente esfomeadas de poder. Manipulam os seus seguidores com ameaças de inferno e promessas de céu. Vemos hoje políticos a manipular eleições e campanhas ao ponto de não terem escrúpulos de bombardear um país inocente com mísseis Tomahawk se isso inclinar a opinião pública a seu favor. Quem se importa que ganhemos a guerra desde que ganhemos a eleição? Outros políticos ostentam hipocritamente religiosidade, fazem-se alvejar a si mesmos, manufacturam heróis e encenam catástrofes, tudo para satisfazer o seu desejo de poder.
Quando o eu está inchado de orgulho, manifesta-se de modos incontáveis: estreiteza de espírito, racismo, fragilidade, medo de rejeição, medo de ser ferido, insensibilidade, para nomear uns poucos. Por orgulho masculino, os homens sufocaram a energia e as contribuições de cerca de metade da raça humana: as mulheres. Durante o namoro, cada um dos lados deixa o orgulho atravessar-se no caminho, avaliando constantemente se a outra pessoa é suficiente boa para eles ou se eles são suficientemente bons para a outra pessoa. Famílias orgulhosas gastam fortunas numa cerimónia de casamento de um dia para um matrimónio que pode ou não durar, enquanto no mesmo dia, na mesma povoação, as pessoas morrem de fome. Um turista faz alarde de dar uma gorjeta de dez dólares ao porteiro por empurrar uma porta giratória e no minuto seguinte regateia uma T-shirt de cinco dólares a uma vendedora que tenta sustentar o seu bebé e família.
O orgulho e a piedade estão intimamente relacionados. Crer que a nossa vida é mais dura e triste do que a de todos é pura e simplesmente uma manifestação de apego ao eu. Quando o eu desenvolve auto-piedade, elimina qualquer espaço que os outros possam ter para se sentir compassivo em relação a eles. Neste mundo imperfeito tantas pessoas sofreram e sofrem ainda, mas o sofrimento de algumas pessoas foi categorizado como um sofrimento mais “especial”. Se bem que não estejam disponíveis estatísticas reais, parece seguro dizer que o número de nativos americanos chacinados quando os europeus colonizaram a América do Norte é pelo menos igual ao de outros genocídios reconhecidos. E todavia não existe nenhum termo largamente usado – tal como anti-semitismo ou o Holocausto – para esta chacina inconcebível.
Os assassínios em massa levados a cabo por Estaline e Mao Tse-tung também não possuem etiquetas reconhecidas, nem são objecto de museus prestigiados, acções judiciais por retaliação e infindáveis documentários e filmes de longa-metragem. Os muçulmanos clamam serem perseguidos, esquecendo a destruição a que deram curso os seus antepassados mogols, quando conquistaram vastas partes da Ásia como missionários. É ainda visível a evidência da sua devastação: as escalavradas ruínas de monumentos e templos outrora criados por amor a um diferente deus.
Existe também o orgulho de pertencer a uma certa escola de pensamento ou religião. Cristãos, judeus e muçulmanos crêem todos no mesmo Deus e num sentido são irmãos. Contudo, por causa do orgulho de cada uma destas religiões e por pensarem que estão “certas”, a religião causou mais mortes do que as duas guerras mundiais reunidas.
O racismo pinga da flecha envenenada do orgulho. Muitos asiáticos e africanos acusam os brancos ocidentais de serem racistas, mas o racismo é também uma instituição na Ásia. Pelo menos no Ocidente existem leis contra o racismo e ele é publicamente condenado. Uma rapariga de Singapura não pode trazer o seu marido belga para casa para conhecer a família. As etnias chinesas e indianas na Malásia não podem ter o estatuto de bhumiputra [filho da terra], mesmo após muitas gerações. Muitos coreanos de segunda geração no Japão não estão ainda naturalizados. Se bem que muitas pessoas brancas adoptem crianças de cor, é improvável que uma abastada família asiática adopte uma criança branca. Muitos asiáticos acham detestável tal mistura cultural e racial. Perguntamo-nos como se sentiriam os asiáticos se as posições estivessem invertidas: se as pessoas brancas tivessem de emigrar aos milhões para a China, Coreia, Japão, Malásia, Arábia Saudita e Índia. O que aconteceria se estabelecessem as suas próprias comunidades, ficassem com empregos locais, importassem noivas, falassem durante gerações a sua própria língua, recusando-se a falar a língua da nação anfitriã e, além disso, sustentassem o extremismo religioso no seu país de origem ?
A inveja é outra das setas de Mara. É uma das emoções do grande perdedor. Manifesta-se irracionalmente e engendra histórias fantásticas para nos distrair. Pode ferir subitamente nos momentos mais inesperados, porventura mesmo enquanto nos deleitamos com uma sinfonia. Mesmo que não tenhamos a intenção de nos tornarmos um violoncelista, e que não tenhamos jamais tocado sequer um violoncelo, podemos tornar-nos ciumentos de uma inocente tocadora de violoncelo que nunca encontrámos sequer. O simples facto de ela ser talentosa é suficiente para envenenar a nossa mente.
Grande parte do mundo tem ciúmes dos Estados Unidos. Muitos dos fanáticos políticos e religiosos que ridicularizam e criticam os Estados Unidos, chamando aos americanos “satânicos” e “imperialistas”, colocar-se-iam de pernas para o ar para obter o cartão verde do título de estadia, se já não o têm. Por pura inveja, a sociedade – frequentemente conduzida pelos media – quase sempre faz tombar alguém ou algo que experimente o sucesso, seja financeiro, físico ou intelectual. Alguns jornalistas pretendem defender os fracos e os oprimidos, mas frequentemente receiam mostrar que alguns “oprimidos” são realmente fanáticos. Estes jornalistas recusam-se a expor qualquer dos seus delitos e os poucos que falam com franqueza correm o risco de ser estigmatizados como extremistas.
Devido ao desejo egoísta de Mara ter mais discípulos, ele prega com esperteza a liberdade, mas, se alguém exerce realmente a liberdade, Mara não gosta necessariamente disso. Fundamentalmente gostamos de ter liberdade apenas para nós mesmos, mas não para os outros. Não é de admirar que, se nós ou alguém exercemos realmente todas as nossas liberdades, não sejamos convidados para todas as festas. Esta assim chamada liberdade e democracia é apenas outro instrumento de controle de Mara.

- Dzongsar Jamyang Khyentse, O que não faz de ti um budista, tradução de Paulo Borges, Lisboa, Lua de Papel, 2009 [no prelo].

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

CURSO DE INTRODUÇÃO À FILOSOFIA E À CULTURA BUDISTA 2008-2009

Atendendo ao crescente interesse e às solicitações do público em geral, e pensando também em criar as bases de formação para uma possível docência do Budismo nas escolas, conforme previsto na legislação em vigor, a União Budista Portuguesa, de forma semelhante a anos anteriores, vai realizar um Curso de Introdução à Filosofia e à Cultura Budista, aberto a todos os interessados. O curso, que se inicia neste Sábado, dia 25, decorrerá num total de 12 sessões, de 4 h, durante o ano lectivo de 2008-2009.
O objectivo é apresentar os temas fundamentais desta tradição multissecular, nos seus aspectos religiosos, éticos e filosóficos. Cada sessão terá uma componente teórica e prática, podendo incluir, além das exposições dos orientadores, questões, debate, períodos facultativos de vivência meditativa, a leitura conjunta de textos e/ou a apreciação de material áudio - visual. Em cada sessão serão fornecidas indicações bibliográficas específicas.
Os participantes podem optar pela inscrição na totalidade do curso ou, caso existam vagas, nas sessões individuais que desejarem, que terão uma unidade própria. A União Budista Portuguesa emitirá no final certificados comprovativos de frequência a quem haja assistido a um mínimo de 8 sessões.
Os orientadores - Tsering Paldrön , Paulo Borges e António Teixeira – são praticantes há mais de duas ou três décadas, integram a actual Direcção da União Budista Portuguesa, têm sido instrutores de yoga e/ou de meditação e responsáveis por múltiplas actividades de divulgação do Dharma do Buda (conferências, seminários, traduções, livros). Tsering Paldrön tomou votos religiosos, em 1999, com Kyabje Trulshik Rinpoche.

Programa

2008

I - Os Fundamentos da Via de Buda

25 de OUTUBRO – O Buda histórico e a Natureza de Buda. A vida e a Iluminação do Príncipe Siddhartha Gautama. O Sermão de Benares e as Quatro Nobres Verdades: o sofrimento, sua origem, sua extinção e a via que aí conduz ( o Óctuplo Caminho). Ética, meditação e sabedoria. Os Três Cestos: Vinaya , Sutra e Abhidharma. O sentido terapêutico, experimental e não dogmático da Via e do Ensinamento do Buda.
8 de NOVEMBRO – A natureza primordial da mente, a ignorância e o ego. As duas verdades: absoluta e relativa. Ilusão e Libertação. Samsara e Nirvana. Os quatro selos.
22 de NOVEMBRO – Os três ciclos de Ensinamento e os três níveis da Via: Hinayana, Mahayana e Vajrayana. Arahats, Bodhisattvas, Mahasiddhas e Budas. As principais escolas filosóficas budistas. O budismo perante as diferentes tradições religiosas e filosóficas indianas. A história oriental do Budismo e a sua actual expansão no Ocidente.
13 de DEZEMBRO – Vacuidade e interdependência: os doze factores da coprodução condicionada. Impermanência e insubstancialidade do eu. A Via do Meio entre eternalismo e niilismo – I

2009
10 de JANEIRO - Vacuidade e interdependência: os doze factores da coprodução condicionada. Impermanência e insubstancialidade do eu e dos fenómenos. A Via do Meio entre eternalismo e niilismo – II.Os Sutras da Prajnaparamita. O Sutra do Coração.

II - A Essência e a Prática da Via de Buda

24 de JANEIRO - O sentido do yoga e das técnicas de meditação. Calma mental (samatha) e visão penetrante (vipashyana).
7 de FEVEREIRO – As quatro meditações fundamentais: 1 - o valor da preciosa existência humana, rara e difícil de obter; 2 - a impermanência e a morte; 3 - a acção (karma) e a lei da causalidade; 4 - os sofrimentos dos seis mundos do ciclo da existência (samsara).
28 de FEVEREIRO – O Refúgio nas Três Jóias, Buda, Dharma e Sangha, e seus benefícios presentes e futuros. O Bodhicitta, ou espírito de Iluminação, relativo – em aspiração e em acção – e absoluto. As quatro meditações ilimitadas: amor, compaixão, alegria e equanimidade. A “troca” e outros exercícios de meditação.
14 de MARÇO – As seis paramitas, virtudes ou perfeições transcendentes: generosidade, ética, paciência, diligência, concentração e sabedoria.
28 de MARÇO – Os Sutras da Prajnaparamita: o Sutra de Diamante.
18 de ABRIL – Os Tantras Budistas: exposição da Visão, dos Métodos e do Resultado da Via de Diamante (Vajrayana).A necessidade de adequada preparação do mestre e do aluno. Tantras externos e internos. A Grande Perfeição.
9 de MAIO - Vida, morte, estado intermediário e renascimento. Como viver melhor a aproximação e o momento da morte e a experiência pós-morte.

O curso terá uma comparticipação total de 220 €uros, a pagar no acto da inscrição.
Cada sessão terá uma comparticipação individual de 25 €uros.
Metade do curso (50%) terá uma comparticipação de 135 €uros.

Horário: Sábados, 15-19 horas

O presente programa pode estar sujeito a alterações e há limite de inscrições.

UNIÃO BUDISTA PORTUGUESA
Calçada da Ajuda, 246, 1º Dtº, Lisboa
telefone: 21 363 43 63 (a partir das 15h)
www.uniaobudista.pt

domingo, 6 de abril de 2008

«Lembre-se que nada é constante,
só a mudança é constante»

Principe Siddhârta Gautama ou Shâkyamuni, dito Buda.

domingo, 23 de março de 2008

Nam-Myoho-Renge-Kyo

«Kossen rufu significa criar uma sociedade de paz. Esse termo foi criado através da base filosófica de Nitiren Daishonin. Para se atingir essa etapa (Kossen Rufu) é necessário que cada ser humano faça sua própria revolução humana (outro termo que significa revolucionar o seu lado interior) para conseguir a felicidade absoluta, com base no Daimoku(Nam-Myoho-Renge-Kyo) e nos estudos sobre o budismo de Nitiren Daishonin e com ações que visem uma sociedade melhor.O termo rufu, de Kossen-rufu, significa “fluir como um rio poderoso” ou “espalhar-se como um enorme tecido”. Isso significa difundir-se ou fluir por toda a humanidade. Kossen-rufu não é o ponto final de um processo, mas sim o próprio processo, o fluxo. Não existe um destino especial, uma conclusão do Kossen-rufu. Podemos falar de forma metafórica sobre o que é o Kossen-rufu, mas na verdade não existe uma forma definitiva.»

(wikipédia)

segunda-feira, 17 de março de 2008

Tao?

Assim, o meu primeiro post pós-ressurreição é um poema de Daio Kokushi, que encontro na obra "Textos budistas e zen-budistas", da editora Cultrix. O poema faz-me lembrar um pouco o espírito taoísta que encontro no "Tao Te King". Aqui vai:

"Há uma realidade mesmo anterior ao Céu e à Terra.
Evidentemente, ela não tem forma, muito menos um nome;
Os olhos falham em enxergá-la,
Ela não tem voz que os ouvidos possam captar.
Chamá-la Buda ou Mente viola sua natureza,
Pois ela então se torna uma ilusória flor no espaço;
Ela não é mente, nem Buda;
Absolutamente tranquila e ainda brilhando de misteriosa maneira,
Ela só se deixa perceber por um olhar puro.
Ela é o Darma completamente além da forma e do som.
Ela é o Caminho que nada tem a ver com palavras.
Querendo atrair o cego,
O Buda divertidamente deixou palavras
Escaparem de sua boca dourada;
Céus e terra então se emaranharam em ramos de roseira brava.
Ó meus bons e respeitáveis amigos aqui reunidos!
Se desejardes ouvir a estrondosa voz do Darma,
Esgotai vossas palavras, esvaziai vossos pensamentos,
Só então podereis reconhecer essa Essência Una,
Pois assim diz o irmão Hui: - 'A Lei de Buda,
Não é para ser abandonada aos meros pareceres humanos.'"

sábado, 15 de março de 2008


A causa da derrota não se encontra no obstáculo ou no rigor das circunstâncias; está no retrocesso na determinação e na desistência da própria pessoa.

Se falasse em dificuldades, tudo realmente era difícil.

Se falasse em impossibilidades, tudo realmente era impossível.

Quando o ser humano regride em sua decisão os problemas que se erguem em sua frente acabam parecendo maiores e confundem-no como uma realidade imutável.

A derrota encontra-se exatamente nisso.

(Daisaku Ikeda)

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008

Alguns excertos do Poema da Iluminação

"Conheces tu aquele tranquilo sábio que ultrapassou o
aprender e não se aplica a coisa nenhuma?
Ele nem afasta os pensamentos errôneos nem busca a
Verdade;
Sabe ele que em verdade a ignorância é a Natureza de
Buda (...)

Quando a Realidade é atingida, não há mais pessoa ou lei,
Os efeitos das acções que nos levariam ao mais profundo
dos infernos são dissolvidos em um instante (...)

Enquanto buscares o Buda exercitando-te propositalmente
para atingi-lo, não haverá realização em ti (...)

Andar é Zen, sentar-se é Zen;
Quer falando, quer ficando em silêncio, quer se movendo,
quer permanecendo quieto, a Essência está sempre em repouso (...)

Muito longe, nas montanhas, vivo numa humilde cabana;
Altas são as montanhas e densa é a sombra das árvores
- sob um velho pinheiro,
Sento-me quieto e satisfeito em meu lar monacal;
Aqui reina a perfeita tranquilidade e a rústica simplicidade (...)

Uma Natureza Perfeita circula em todas as naturezas;
Uma Realidade contém dentro de si a totalidade das realidades;
Uma só lua se reflete em todas as águas,
E todas as luas refletidas nas águas se originam de uma só lua (...)

O perfeito ensinamento 'abrupto' nada tem a ver com a imaginação humana (...)

Todos os sábios e esclarecidos são meros relâmpagos. (...)"

in Textos Budistas e Zen-Budistas, Editora Cultrix, pp. 133-47.