O CAMINHO DA SERPENTE

"Reconhecer a verdade como verdade, e ao mesmo tempo como erro; viver os contrários, não os aceitando; sentir tudo de todas as maneiras, e não ser nada, no fim, senão o entendimento de tudo [...]".

"Ela atravessa todos os mistérios e não chega a conhecer nenhum, pois lhes conhece a ilusão e a lei. Assume formas com que, e em que, se nega, porque, como passa sem rasto recto, pode deixar o que foi, visto que verdadeiramente o não foi. Deixa a Cobra do Éden como pele largada, as formas que assume não são mais que peles que larga.
E quando, sem ter tido caminho, chega a Deus, ela, como não teve caminho, passa para além de Deus, pois chegou ali de fora"

- Fernando Pessoa, O Caminho da Serpente

Saúde, Irmãos ! É a Hora !


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quarta-feira, 21 de março de 2012

Entrevista de Paulo Borges ao filósofo romeno Ciprian Valcan sobre budismo, filosofia, Cioran, Oriente e Ocidente

1. Em que medida um melhor conhecimento da filosofia oriental contribui para a transformação da reflexão filosófica da tradição ocidental? No seu caso, como é que o budismo influenciou o estilo de filosofia que pratica?

Conhecer as filosofias orientais – muito diversas entre si – é indispensável para conhecer melhor a própria filosofia ocidental. Por um lado, porque algumas filosofias orientais, como a persa e a indiana, são fruto da mesma matriz linguística e cultural, a indo-europeia, com categorias muito semelhantes às do pensamento ocidental, procedente da submatriz grega do pensamento indoeuropeu. Por outro, porque outras filosofias orientais, como a chinesa e a japonesa, radicam numa matriz linguística e cultural muito distinta, configurando uma heterotopia (Michel Foucault), uma alteridade apenas por contraste com a qual se podem plenamente esclarecer as fundamentais opções que configuraram o destino da filosofia europeia-ocidental e a civilização dela surgida. Não é possível compreender a Europa e a filosofia ocidental sem as confrontar com o pensamento chinês, como hoje mostra François Jullien. O mesmo se pode dizer, embora de forma mais atenuada, da filosofia persa, indiana e tibetana (a qual, embora procedente de outra matriz linguística, incorporou muitas das categorias indianas). Se bem que ligadas a uma matriz comum, estas filosofias exploraram possibilidades muito diversas daquelas que foram sendo predominantemente privilegiadas pelo pensamento ocidental. Pese o risco de generalizações sempre falaciosas, pode dizer-se que as filosofias orientais privilegiam a experiência directa e pré-conceptual da vida e/ou do fundo indeterminado dos fenómenos, enquanto a filosofia ocidental, sobretudo desde Platão e Aristóteles, optou pela determinação conceptual do mundo com fins político-científicos. Outra grande diferença é o antropocentrismo do pensamento ocidental pós-socrático - raiz da actual crise ecológica e da devastação da Terra e dos seres vivos - perante a tendencial empatia cósmica do pensamento oriental com todas as formas de vida, vistas como iguais no seu fundo comum. Seja como for, as tradições são sempre muito mais interligadas do que as histórias da filosofia nos levam a crer. Não há culturas, mas sim entre-culturas.

Conhecer o pensamento oriental é decisivo para que o Ocidente compreenda as outras possibilidades que as suas opções sacrificaram, mas que nele permanecem latentes, por serem inerentes ao homem e ao espírito. Isto já é uma profunda transformação e possibilita imprevistas metamorfoses do pensar europeu-ocidental. Isto exige todavia o expatriamento da nossa situação cultural mais imediata, que nos permita vê-la de fora, panoramicamente. Isto exige um pensamento nómada, que não se ancore numa dada matriz linguístico-cultural, mas viva em constante viagem no espaço entre todas elas. É esse o projecto da revista que dirijo, Cultura ENTRE Culturas.

Encontrei o budismo ao terminar a licenciatura em Filosofia, em 1981, e reconheci nele o que já era e vivia antes de o saber. Senti o mesmo em relação a alguns pensadores portugueses contemporâneos, que descobri na mesma altura. Essas influências, o budismo, sobretudo Nagarjuna, Longchenpa, Hui Neng, Linji, Dogen, Chögyam Trungpa, Thich Nhat Hanh, o tantrismo e o Dzogchen tibetanos, os mestres com quem estudo pessoalmente, a prática quotidiana da meditação, pensadores e poetas portugueses como Antero de Quental, Sampaio Bruno, Teixeira de Pascoaes, Fernando Pessoa, José Marinho, Eudoro de Sousa e Agostinho da Silva, mas também Eckhart, Rumi, Nietzsche, Cioran e poetas e místicos de todas as tradições, têm-me ajudado a esclarecer as mais gratas experiências que remontam à infância: o sentimento agudo da estranheza de existir e haver realidade, vivido até à iminência da exaustão e loucura; a comunhão disso com um amigo de jogos de rua, cerca dos 8 anos de idade; a iniciação adolescente à consciência sem sujeito nem objecto e ao sentimento de ser todo o mundo-ninguém por via da música, da dança e da experiência erótico-sexual e amorosa; a experiência do espaço aberto ao sair da Universidade de Lisboa, no fim das aulas de Filosofia, com a mente livre de todo o artifício conceptual; a mesma liberdade nas longas caminhadas por montanhas e florestas, pelas colinas de Lisboa e ao entardecer nos miradouros sobre o Tejo; a contemplação do oceano no finisterra português e a saudade de um não sei quê; o brilho das coisas nos muros caiados de branco; a vida sem quem nem quê, sem porquê nem para quê, livre e infinita. De tudo isso vem e a tudo isso regressa o meu pensar, mais directamente expresso em A cada instante estamos a tempo de nunca haver nascido e Da saudade como via de libertação (2008), além de na ficção Línguas de Fogo (2006).

2. Como se produziu a sua conversão ao budismo? Foi uma escolha racional ou um puro acto de fé?

Não me sinto convertido ao “budismo”. Na verdade não me interessa tanto o budismo histórico e institucional, mas antes a experiência de Buda, o Despertarda mente-coração na sua natureza primordial, livre de condicionamentos conceptuais-emocionais e das decorrentes convenções sócio-culturais. É isso que encontro nos mestres e em muitos homens exemplares de todas as tradições espirituais, bem como na agnóstica e ateia. Deus procede de uma raiz indo-europeia que significa “o que brilha” e a experiência dessa luz que há na consciência, para além de budologias e teologias, de religiões e filosofias, é a mesma em todo o homem, religioso, agnóstico ou ateu.

Dei por mim a seguir a via do Buda por experiência, caminho do meio para além da razão e da fé. Pessoalmente aprecio nela várias qualidades: o espírito iconoclasta, patente no “Se vires o Buda, mata-o!” de Linji, pois o Despertar não é alguém ou algo exterior; ser experimental e não dogmática, pesem os desvios de muitos budistas; ter uma ética global que não exclui nenhum ser senciente, como os animais; assumir-se como mero meio a ultrapassar, pois o que importa não é ser budista e sim Buda; e, sobretudo, a qualidade e inspiração dos mestres vivos que a ensinam. Contudo o meu interesse pelo budismo estende-se a todas as religiões e vias espirituais, formas diferentes de conduzir pessoas com distintas tendências, capacidades e condicionamentos histórico-culturais a um mesmo objectivo: a plena descoberta de quem desde sempre são.

3. Como veio a conhecer a obra de Cioran e que significado teve para si o contacto com esta obra?

Há algo em mim tão afim que não poderia deixar de a encontrar. É como se Cioran expressasse toda a revolta, desespero e pulsão niilista da minha adolescência e juventude, mas hoje não é tanto isso que na sua obra me interessa, lamentando que fique demasiado refém disso e de uma dolorosa ausência de amor e compaixão. Interessa-me nele o iconoclasmo místico e, sobretudo, as aberturas a uma transfiguração redentora. Cioran poderia ter escrito apenas o seguinte trecho de Sur les Cimes du Désespoir, no qual me reconheço inteiramente: “Gostaria de perder a razão com uma única condição: ter a certeza de me tornar um louco alegre e jovial, sem problemas nem obsessões, folgazão de manhã à noite. Se bem que deseje ardentemente êxtases luminosos, não os quereria no entanto, pois são sempre seguidos de depressões. Quereria, em contrapartida, que um banho de luz de mim brotasse para transfigurar o universo – um banho que, longe da tensão do êxtase, conservaria a calma de uma eternidade luminosa. Teria a ligeireza da graça e o calor de um sorriso. Quereria que o mundo inteiro flutuasse neste sonho de claridade, neste encanto de transparência e imaterialidade. Que não haja mais obstáculo nem matéria, forma ou confins. E que, neste paraíso, eu morra de luz”.

Cioran inspira a mais ousada e radical aventura: transcender todos os limites do pensamento, da vida e da existência e sobreviver para o dizer ou gritar, com uma mestria literária que enobrece as ruínas do mundo. Inspira-me também nele o que encontro em portugueses como Pascoaes e Pessoa: na periferia da cultura europeia dominante, agudamente conscientes do fim de ciclo da sua civilização, serem movidos pelo ímpeto de libertação dos ídolos dessa mesma cultura e civilização, sem se deterem no limite do humano, numa titânica hybris de superação de tudo, do sujeito e de si mesma, numa nostalgia ou saudade violenta do incondicionado, irredutível à constituição do sujeito no mundo e fundo sem fundo de toda a experiência. Fascina-me o modo como em Cioran o génio literário serve um obsessivo e minucioso ajuste de contas com todas as ficções da consciência, da história e da cultura, escalpelizadas e reduzidas a cinzas pelo cirúrgico e cáustico bisturi do aforismo e do pensamento incendiado na veemência da insónia, da febre e da blasfémia, mas também do entusiasmo extático e transfigurador. E também a assumida inspiração no primitivismo dos camponeses das montanhas romenas e na pulsão herética da sua cultura popular, semelhante ao que em Portugal acontece com Teixeira de Pascoaes ou Agostinho da Silva. Cioran mostra aliás conhecer as fundas afinidades entre a cultura romena e a portuguesa. Num dos seus Entretiens assume a “nostalgia sem limites”, inerente à fugacidade da experiência temporal do absoluto, como fundadora da sua visão do mundo e acrescenta: “Este sentimento liga-se em parte às minhas origens romenas. Ele impregna ali toda a poesia popular. É uma dilaceração indefinível que se diz em romeno dor, próxima da Sehnsucht dos Alemães, mas sobretudo da Saudade dos Portugueses”.

Fiz uma conferência sobre Cioran e Fernando Pessoa na Universidade de Gröningen, na Holanda, em 2009, que publiquei na revista Arca graças a Ciprian Valcan e que incluí no meu último livro sobre Pessoa: O Teatro da Vacuidade ou a impossibilidade de ser eu (2011).

4. Qual a recepção actual da obra de Cioran em Portugal?

Nos últimos anos tem havido um aumento de traduções que estão a ser recebidas com muito interesse, mas creio que até agora só há um estudo publicado: João Maurício Barreiros Brás, O pensamento insuportável de Cioran. Um itinerário do desespero à lucidez (2006).

5. Qual o papel da filosofia na nossa época? Crê que a filosofia chegou ao fim do seu caminho ou tem hipóteses de sobreviver?

Tudo o que tem início tem fim e a filosofia, se a identificarmos com a modalidade logocêntrica e conceptual surgida na Grécia e sobretudo com a sua vertente académica e institucional, está a esgotar-se, pelo afastamento da vida e de outras possibilidades do espírito. A filosofia deixou em geral de ser um modo de vida integral, como nas escolas filosóficas gregas (como recordou Pierre Hadot) e indianas, para se tornar uma actividade meramente intelectual, com uma linguagem técnica hiper-especializada em questões estéreis, que nada dizem às fundamentais aspirações humanas. Essa filosofia traiu a própria vocação, enquanto amor da sabedoria, do saber/sabor da essência da vida, e nesse sentido o seu triunfo é a sua morte.

Por outro lado, se considerarmos filosofia as múltiplas formas do pensamento planetário que visam a sabedoria - um saber que nos converte naquilo que sabemos e promove uma vida mais plena e solidária - , então essa filosofia é perene enquanto conatural ao exercício consciente do viver e sempre se renova em função dos novos lances do jogo do mundo. No que respeita à filosofia ocidental, creio que o seu renascimento depende do diálogo com esses outros paradigmas não-ocidentais e sobretudo do reencontro com a vida e o infinito que nela se abre. Necessitamos de um novo início: repensar tudo na experiência mais imediata, a do indeterminado pré-conceptual. Não a partir de Deus, do homem, do mundo ou de qualquer outro pressuposto, não “a partir de”, mas nisso que a cada instante antes de se pensar e se abre entre cada pensamento, palavra e fenómeno. Isso implica morte e renascimento contínuos: viver sem apoios.

6. A prática do aforismo ou do fragmento poderia contribuir para dar um novo alento à filosofia ocidental, mais aberto e menos dogmático?

A filosofia nasce do espanto balbuciante não só perante o haver algo, mas também perante o nada desse haver. Só aí pode re-nascer a cada instante, incinerando todos os conceitos, métodos e sistemas. O aforismo e o fragmento são o mais eloquente dizer desse gritante silêncio que há no aparecer das coisas. Neles a filosofia regressa à sua matriz místico-poética, anterior à violência do conceito que a extirpou do espanto original, como diz Maria Zambrano.

7. Crê que se pode falar de um declínio geral da civilização ocidental ou olha para o futuro com esperança? A civilização oriental poderia oferecer um modelo para este Ocidente que padece de niilismo?

Procuro viver e pensar para além do medo e da esperança. No plano colectivo, feito desse medo e esperança, creio assistirmos ao fim do que se convencionou chamar Ocidente e Oriente, que progressivamente se fundem numa nova civilização global que exteriormente tem um cunho ocidental - económico e tecnológico - , mas que arrisca uma vida curta e o iminente colapso social e ecológico se interiormente e ao nível da liderança não reencontrar a espiritualidade e a ética que presidiram ao melhor do Ocidente e do Oriente tradicionais, mas agora em termos laicos e trans-religiosos. Foi o que anunciou Fernando Pessoa, ao interpretar o maior mito profético da cultura portuguesa, o do Quinto Império, como uma era do espírito e da cultura que deverá fundir e elevar a uma superior síntese civilizacional a essência de Grécia, Roma, Cristandade e Europa, incorporando ainda o melhor de todas as culturas e civilizações mundiais num amplo universalismo. Antevejo essa superior síntese como uma nova aliança com a Terra e todos os seres vivos, fundada numa consciência holística e numa ética cósmica.

O niilismo ocidental resulta da incapacidade de se suportar habitar po-eticamente esse “vazio” aberto pela “morte de Deus” proclamada pelo “louco” nietzschiano: “Para onde vamos nós próprios? […] Não estaremos incessantemente a cair? Para diante, para trás, para o lado, para todos os lados? Haverá ainda um acima, um abaixo? Não estaremos errando através de um vazio infinito? Não sentiremos na face o sopro do vazio?”. Nesse aspecto, a espiritualidade oriental, mas também a de Plotino, Eckhart ou a heteronimia de Pessoa, podem ajudar-nos a descobrir nesse abismo o nosso próprio rosto e o de todas as coisas: o infinito exuberante de todos os possíveis, Todo o Mundo-Ninguém.

- Entrevista publicada em "Orizont" (Revista da União dos Escritores da Roménia), nr. 2 (1553), Ano XXIV, nova série, 28 de Fevereiro de 2012. Traduzida para romeno por Maria João Coutinho e Simion Cristea.

http://www.revistaorizont.ro/

quinta-feira, 4 de março de 2010

Ecos do Oriente: um diálogo entre Schopenhauer e Wagner



Hoje, 4 de Março, pelas 17h, Beatriz Lobo, investigadora do Centro de Filosofia da Universidade de Lisboa, dará uma prelecção sobre o tema: "Ecos do Oriente: um diálogo entre Schopenhauer e Wagner" (Anfiteatro IV, Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa).

Uma iniciativa no espírito ENTRE!

sábado, 2 de janeiro de 2010

Portugal, Europa, Oriente e universalidade em Fernando Pessoa



A visão pessoana acerca da Europa e do universal [1] surge e mantém-se intimamente ligada com a sua visão do sentido e virtualidades histórico-culturais, civilizacionais e espirituais de Portugal, como se apreende nos ensaios sobre a “nova poesia portuguesa” publicados em 1912 na revista A Águia, dirigida por Teixeira de Pascoaes, marcando uma orientação de pensamento que se manterá e desenvolverá até ao final da vida. Partindo do princípio de que “a literatura não só traduz as ideias da sua época”, mas de haver ainda uma correspondência entre “o valor dos criadores literários” e o “valor criador das épocas” a que pertencem, correspondendo “o valor da literatura, perante a história literária, […] ao valor da época, perante a história da civilização” [2], e considerando que “a actual corrente literária portuguesa” – que tem como “precursor” Antero de Quental, passa por António Nobre, Eugénio de Castro e Guerra Junqueiro e vai até Teixeira de Pascoaes, António Correia de Oliveira e os “novos poetas” [3] – é, em comparação com as grandes fases da história política e literária europeia, o início “de uma grande corrente literária, das que precedem as grandes épocas criadoras das grandes nações de quem a civilização é filha” [4], Pessoa assume na sociologia da literatura a confirmação racional das intuições místico-proféticas de Pascoaes “sobre a futura civilização lusitana” e o “futuro glorioso que espera a Pátria Portuguesa” [5]. Vaticina assim, por sua vez, quer o iminente aparecimento do “Grande Poeta” português, o “supra–Camões” [6], quer “uma renascença extraordinária, um ressurgimento assombroso” da nação portuguesa [7], exortando a que nenhum português “falte à sua missão de hoje, de criar o supra-Portugal de amanhã” [8].


Qual é, todavia, a característica fundamental da “nova poesia portuguesa”, em termos psicológicos e filosóficos [9], responsável pelo seu futuro tão promissor? Poesia que excede as demais em termos de complexidade espiritual, a sua “mais notável e original feição” seria precisamente a marca principal da “ideação complexa”: “o encontrar em tudo um além” [10], sendo ao mesmo tempo subjectiva e objectiva, “poesia da alma e da natureza”, em que os dois elementos se interpenetram numa simultânea “espiritualização da Natureza” e “materialização do Espírito”, configurando uma “poesia metafísica” e “religiosa”, de pendor “superpanteísta”, “uma religiosidade nova”, ou mesmo “religião nova”, consideradas distintas de qualquer “outra poesia” ou “qualquer outra religião, antiga ou moderna” [11]. Partindo do pressuposto de que a poesia antecipa uma expressão filosófica e social, Pessoa afirma que a “Alma Portuguesa” está a gerar, pela sua “actual Poesia, um novo conceito emocional – e portanto colectivo e nacional – do Universo e da Vida”, o qual “representa um novo estádio criador” na “linha evolutiva da alma europeia”, uma vez que há uma analogia entre o “actual período literário nacional” e aqueles que, no apogeu das grandes nações civilizadoras, precederam e inauguraram “um grande período de vida nacional socialmente criadora”. Segundo Pessoa, isso mostra já “a dilatação da alma europeia que representará uma Nova Renascença”, ainda que por enquanto apenas existente “na alma do país donde essa Nova Renascença raiará para o que na Europa estiver preparado para a receber” [12]. A nova visão-experiência filosófica do mundo, inerente à metafísica neoreligiosa da contemporânea poesia portuguesa, como revelação do sentir e da alma nacionais enquanto vanguarda do novo Renascimento europeu, seria o que Pessoa designa como “transcendentalismo panteísta”, que considera exemplarmente presente na filosofia hegeliana [13], mas na verdade “apanágio de Portugal”, devido a condições étnicas específicas [14].


Quais as características desse “transcendentalismo panteísta”? É aqui que, ao apontar a visão-experiência do mundo, e o implícito “sistema” filosófico, inauguradores em Portugal do novo e superior Renascimento europeu, se desenha uma curiosa e substancial ponte para o Oriente. Colhendo da visão transcendentalista a ideia de que nela o transcendente se manifesta “como a ilusão, o sonho de si próprio”, sendo “matéria e espírito” suas “manifestações irreais”, Pessoa considera que no “transcendentalismo panteísta” esse mesmo “transcendente […] é e não é ao mesmo tempo, existe à parte e não à parte da sua manifestação, é real e não-real nessa manifestação”. Enquanto sistema que assume como “essência do universo […] a contradição” e ser “uma afirmação […] tanto mais verdadeira quanto maior contradição envolve”, o “transcendentalismo panteísta” seria um metasistema que “envolve e transcende todos os sistemas”, incorporando todas as teses e antíteses possíveis ao declarar que tudo, “matéria” e “espírito”, é simultaneamente real e irreal, existente e não existente, convertendo-se no seu oposto: “a matéria é espiritual e o espírito é material” [15].


Deve notar-se que, tal como acontece em Teixeira de Pascoaes, um vector central do pensamento pessoano permanece fiel a esta visão da “ilusão”, insubstancialidade e indeterminação universais, que permite relativizar, unificar e transcender todas as aparentes dualidades e oposições, conforme se constata n’ O Caminho da Serpente e noutros textos [16]. O que importa destacar é que em Pascoaes e Pessoa, numa visão comummente inspirada pelo psiquismo nacional, dissolve-se a aparente solidez da percepção habitual e reificada das coisas, divisando-se uma mesma e radical desconstrução da visão substancialista e entitativa da realidade, que em ambos conduz à sua identificação com o “sonho” e a “ilusão” atrás referidos, o que só por si remete, para além do barroco ocidental [17] , para as noções bramânicas de māyā e līlā – ou seja, a criação como i-lusão e jogo divino - , senão mesmo para śūnyatā, vacuidade, que na tradição budista designa a natureza última de todas as coisas, a sua ausência de existência intrínseca, em si e por si, enquanto configurações interdependentes e impermanentes de uma fenomenalidade irredutível às antinomias e entificações conceptuais da lógica aristotélica e a toda a onto-logia, positiva ou negativa. Śūnyatā procede de uma raiz sânscrita (svi, inchar, intumescer) que “parece haver expressado a ideia de que algo que se afigura “inchado” visto de fora é na verdade “oco” por dentro” [18]. Assim parece ser o universo de Pascoaes e Pessoa, onde todas as formas não são senão cambiantes aparições de um informe inconceptualizável, numa “convergente Aventura” para além das suas divergências e incompreensões mútuas [19], sendo significativo que em ambos esta cosmovisão resulte da interpretação do modo singular de ver e sentir da “alma” nacional, assumido como prefigurador e indutor de uma nova religião e filosofia – o saudosismo em Pascoaes e o transcendentalismo panteísta em Pessoa – e de uma mutação profunda da própria “alma” europeia.


Com efeito, Pessoa insiste que nesta visão-sentimento poético e lusitano do mundo como simultaneamente real e irreal – não esqueçamos que a Serpente e sua via, símbolos do percurso libertador de cada consciência individual, são igualmente “Portugal” [20] - também se encarna “a alma recém-nada da futura civilização europeia”, sinal de que ela “será uma civilização lusitana” e de que o Supra-Camões futuro, além de “poeta supremo da […] raça”, será “o poeta supremo da Europa, de todos os tempos” [21]. Acresce que, sendo o “transcendentalismo panteísta” uma fusão de opostos, daí decorre que a “futura criação social” portuguesa venha a ser uma civilização onde eles igualmente se fundam, simultaneamente “religiosa e política”, “democrática e aristocrática” , “ligada à actual fórmula da civilização e a outra coisa nova” [22]. No que respeita a “essa futura fórmula”, Pessoa adianta que ela “deve distar do cristianismo, e especialmente do catolicismo, em matéria religiosa; da democracia moderna, em todas as suas formas, em matéria política; do comercialismo e materialismo radicais na vida moderna, em matéria civilizacional geral” [23]. Numa segunda e significativa ponte para o Oriente, não só metafórico, e também presente em Pascoaes, é o início da consumação disto que se profetiza como partir “em busca de uma Índia nova, que não existe no espaço, em naus construídas “daquilo de que os sonhos são feitos” [24], muito significativa citação de uma fala de Prospero, n’A Tempestade, de Shakespeare, onde se alude ao desvanecimento de tudo, como um “espectáculo insubstancial”, sem deixar “uma névoa para trás” [25]. Essa será a divina realização do “verdadeiro e supremo destino” da nação, “de que a obra dos navegadores foi o obscuro e carnal ante-arremedo” [26]. Ou seja, as viagens e os Descobrimentos físicos e histórico-geográficos, supostamente reais e concretos, tradicionalmente celebrados como o apogeu da história nacional, são reduzidos por Pessoa, nos ensaios fundadores de todo o seu pensamento acerca do sentido de Portugal, a mero ensaio grotesco (um “arremedo” significa “imitação grotesca”, “simulacro” e “farsa”), numa dimensão semiconsciente, menor e grosseira, disso que para além deles o impulso do descobrir e a verdadeira vocação da nação visam: um desvendamento e experiência espirituais, no culminar de uma odisseia da consciência. A epopeia histórica é chamada a transfigurar-se em aventura espiritual, num salto – tal como no sebastianismo e na saudade metafísica a ele associada [27] - para uma visão mais subtil e profunda da realidade, que neste contexto cremos ser possível interpretar como esse mesmo reconhecimento da natureza ilusória, simultaneamente real e irreal, real-irreal, de tudo, transcendência e imanência, espírito e matéria, Deus e mundo.


Parece legítimo considerar ser precisamente isso que o Messias-Poeta, o “Supra-Camões futuro” – onde se suspeita uma forma de autoprofecia, por parte de um Pessoa precocemente consciente dos seus dons e missão [28], e cujo persistente desprezo de Camões pode relacionar-se com o considerá-lo o mero poeta da epopeia real, esquecendo injustamente a Ilha dos Amores [29] - , viria definitivamente consagrar e realizar, e ser isso mesmo que se anuncia vir a constituir a matriz da “futura civilização europeia”, cujo embrião português a deverá levar a uma frutificação universal, se tivermos em conta o desenvolvimento desta ideia na recriação posterior do tema do Quinto Império, onde o poeta o proclama como o consumar da aspiração nacional à totalidade, o ser tudo, enquanto sincrética aglutinação e superação dos contributos fundamentais dos grandes momentos civilizacionais anteriores: Grécia, Roma, Cristandade, Europa [30]. O Quinto Império, também no seu sincretismo trans-religioso, seria assim a expressão cultural e civilizacional, já planetária, desse salto da consciência no desvendamento da “Índia nova”, ou seja, da realidade irreal de tudo: daí que o poeta o identifique com as “novas Descobertas, a Criação do Mundo Novo” e o regresso de D.Sebastião, símbolo da verdade oculta da nação e do homem [31]. Se esta “Índia” não é propriamente a histórico-geográfica e cultural, não deixa todavia de ser evidente a sua relação com um paradigma fundamental da espiritualidade indiana, que curiosamente se assume e recria no extremo-ocidente da Europa ou, melhor, da Eurásia, como recorda José Marinho [32]. Com efeito, tudo se passa como se Pessoa visionasse o universalismo da vocação nacional como o de inaugurar um novo ciclo civilizacional, primeiro ainda europeu e depois já trans-europeu e planetário, por integração da herança greco-latina, cristã e moderna numa outra visão do mundo, uma visão do mundo outra, fortemente marcada pelo ilusionismo e insubstancialismo de matriz indiana, redescoberto e renovado porém na visão-sentimento metafísico da nova poesia portuguesa [33].

[texto em elaboração para um volume colectivo sobre Fernando Pessoa, por mim organizado, a ser publicado em breve pelo Centro de Filosofia da Universidade de Lisboa]

...


[1] Sobre as questões levantadas pelo tema do “universal” é incontornável a obra de François Jullien, De l’universel, de l’uniforme, du commun et du dialogue entre les cultures, Paris, Fayard, 2008.
[2] Cf. Fernando Pessoa, “A nova poesia portuguesa sociologicamente considerada”, Obras, II, organização, introduções e notas de António Quadros, Porto, Lello & Irmão, 1986, p.1150.
[3] Cf. Ibid., p.1158.
[4] Cf. Ibid., p.1153.
[5] Cf. Ibid., p.1152.
[6] Cf. Ibid., p.1153, 1167-1168, 1178 e 1193.
[7] Cf. Ibid., pp.1153 e 1167.
[8] Cf. Ibid., p.1154.
[9] Pessoa considera ser “a filosofia do poeta, e não a do filósofo, que representa a alma da raça a que ele pertence”. É assim “na poesia que vamos buscar a alma da raça, e na filosofia dessa poesia aquilo a que se pode chamar a filosofia da raça” – Ibid., p.1190.
[10] Cf. Ibid., p.1176.
[11] Cf. Ibid., pp.1176 e 1179-1180.
[12] Cf. Ibid., p. 1182.
[13] Cf. Ibid., pp.1189.
[14] Cf. Ibid., p.1192.
[15] Cf. Ibid., p.1189.
[16] “A ilusão é a substância do mundo, […] tanto no mundo superior como no mundo inferior, no oculto como no patente”; “Considerar todas as coisas como acidentes de uma ilusão irracional, embora cada uma se apresente racional para si mesma – nisto reside o princípio da sabedoria”; “Reconhecer a verdade como verdade, e ao mesmo tempo como erro; viver os contrários, não os aceitando; sentir tudo de todas as maneiras, e não ser nada, no fim, senão o entendimento de tudo […]; “A Serpente é o entendimento de todas as coisas e a compreensão intelectual da vacuidade delas” – Obras, III, pp.518-520 e 522. Cf. também textos como Tratado da Negação e O DESCONHECIDO (Textos Filosóficos, I, estabelecidos e prefaciados por António de Pinto Coelho, Lisboa, Edições Ática, 1993, pp.42-46), que comentamos em Paulo Borges, O Jogo do Mundo. Ensaios sobre Teixeira de Pascoaes e Fernando Pessoa, Lisboa, Portugália Editora, 2008, pp.91-134. Sobre o “Tudo é ilusão” como motivo central na obra pessoana, cf. Jacinto do Prado Coelho, Diversidade e Unidade em Fernando Pessoa, Lisboa, Verbo, 2007, 12º edição, pp.49-56.
[17] Calderón de la Barca é uma das fontes de Pascoaes: “Que é a vida ? Um frenesim. / Que é a vida ? Uma ilusão, / Uma sombra, uma ficção, / e o maior bem é pequeno, / que toda a vida é sonho, / e os sonhos sonhos são” - , La vida es sueño, introdução e notas de Domingo Ynduráin, Madrid, Alianza Editorial, 1989, II, XIX, p.99. Cf. também p.98.
[18] Cf. Edward Conze, Buddhism: its essence and development, New York, Harper Torchbooks, 1975, pp.130-131.
[19] Cf. a nossa “Introdução” em Paulo Borges, O Jogo do Mundo. Ensaios sobre Teixeira de Pascoaes e Fernando Pessoa, pp.7-14.
[20] Cf. Fernando Pessoa, Obras, III, introduções, organização, biobibliografia e notas de António Quadros, Porto, Lello & Irmão, 1986, p.522.
[21] Cf. Id., Obras, II, p.1193.
[22] Cf. Ibid., p.1194.
[23] Cf. Ibid.
[24] Cf. Ibid., pp.1194-1195. Sobre a presença, em Pascoaes e Pessoa, dos temas das “Índias espirituais” e da “Ilusão”, cf. Paulo Borges, “Índias espirituais e ilusão em Teixeira de Pascoaes e Fernando Pessoa: Portugal como centro do descentramento e re-orientação do velho mundo europeu-ocidental”, Nova Águia, nº4 (Sintra, 2º semestre de 2009), pp.27-39.
[25] “[…] Yeah, all which it inherit, shall dissolve, / And, like this insubstantial pageant faded, / Leave not a rack behind. We are such stuff / As dreams are made on; and our little life / Is rounded with a sleep […]" – William Shakespeare, The Tempest, Acto IV, Cena I, 155, The Complete Works of William Shakespeare, The Alexander Text introduzido por Peter Ackroyd, Glasgow, HarperCollins, 2006, p.23.
[26] Cf. Fernando Pessoa, Obras, II, p.1195.
[27] Recorde-se o sebastianismo como “salto para fora da história”, lamentado por Oliveira Martins e valorizado por José Marinho.
[28] Neste sentido interpretamos a resposta a uma entrevista já de 1923, em que, assumindo a mesma linhagem do ensaio de 1912, declara, no que nos parece uma referência à sua própria obra: “Os sinais do nosso ressurgimento próximo estão patentes para os que não vêem o visível. São o caminho de ferro de Antero a Pascoaes e a nova linha que está quase construída” – Id., entrevista a António Alves Martins, Obras, III, p.701.
[29] Cf. Paulo Borges, “Eros e Iniciação em Luís de Camões. A “Ilha dos Amores””, in Phainomenon, “Homenagem a João Paisana (1945-2001)”, nºs 5 e 6 (Outubro de 2002 e Primavera de 2003), pp.339-350.
[30] " - O que calcula que seja o futuro da raça portuguesa ?
- O Quinto Império. O futuro de Portugal - que não calculo, mas sei - está escrito já, para quem saiba lê-lo, nas trovas do Bandarra, e também nas quadras de Nostradamus. Esse futuro é sermos tudo. Quem, que seja português, pode viver a estreiteza de uma só personalidade, de uma só nação, de uma só fé? Que português verdadeiro pode, por exemplo, viver a estreiteza estéril do catolicismo, quando fora dele há que viver todos os protestantismos, todos os credos orientais, todos os paganismos mortos e vivos, fundindo-os portuguêsmente no Paganismo Superior? Não queiramos que fora de nós fique um único deus! Absorvamos os deuses todos! Conquistámos já o Mar: resta que conquistemos o Céu, ficando a terra para os Outros, os eternamente Outros, os Outros de nascença, os europeus que não são europeus porque não são portugueses. Ser tudo, de todas as maneiras, porque a verdade não pode estar em faltar ainda alguma coisa! Criemos assim o Paganismo Superior, o Politeísmo supremo! Na eterna mentira de todos os deuses, só os deuses todos são verdade" – Ibid., pp.703-704. Pessoa propõe um “esquema português” alternativo ao da leitura tradicional do sonho de Nabucodonosor, interpretado por Daniel (Daniel, 2, 27-45), em que os quatro impérios já não o são segundo um critério material – babilónico, medo-persa, grego e romano - , mas antes espiritual – Grécia, Roma, Cristandade, Europa -, sendo o Quinto embrionariamente português e de consumação universal - “Prefácio ao livro de poemas “Quinto Império”, de Augusto Ferreira Gomes”, Ibid., pp.711-712. Cf. também p.717. Este esquema reflecte-se ainda no poema “Quinto Império”, de Mensagem: “Grécia, Roma, Cristandade, / Europa – os quatro se vão / Para onde vae toda edade. / Quem vem viver a verdade / Que morreu D. Sebastião?” – Obras, I, introduções, organização, biobibliografia e notas de António Quadros e Dalila Pereira da Costa, Porto, Lello & Irmão – Editores, 1986, p.1162. Para uma clara exposição do sincretismo da ideia de Quinto Império, com um esquema ligeiramente diferente, em que o quarto império é o “Inglês” e não o europeu, cf. Obras, III, pp.641-644.
[31] “Então se dará na alma da Nação o fenómeno imprevisível de onde nascerão as Novas Descobertas, a Criação do Mundo Novo, o Quinto Império. Terá regressado El-Rei D. Sebastião” – resposta ao inquérito “Portugal, vasto Império”, de Augusto da Costa, Obras, III, p.710.
[32] Falando de Portugal: “[…] povo extremo, cabe longamente pensá-lo, não da Europa, mas da Eurásia […]” - José Marinho, Verdade, Condição e Destino no Pensamento Português Contemporâneo, Porto, Lello & Irmão – Editores, 1976, p.228.
[33] Isto apesar de um texto onde se sustenta a matriz ainda europeia e cristã, porém não católica, do Quinto Império – Fernando Pessoa, Obras, III, pp.642-645.

terça-feira, 15 de setembro de 2009

Oriente/Ocidente - tradições

Na tradição judaico-cristã, enquanto o foco primário é a Divindade e toda a orientação espiritual se orienta para o alcance da união transcendente, há menos ênfase na correcção da vida emocional interna ou em criar um equilíbrio dentro do «eu». A fé genuína em Deus, o criador, e a acção por um amor genuíno a Deus, conduz a um amor genuíno por outros seres humanos. Depois, coisas como matar, roubar ou violar são contra a crença de Deus. Esta é uma mensagem muito poderosa sobre o que é tornar-se um bom ser humano.

Mas a aspiração última de um budista praticante é alcançar o nirvana. A ênfase é dentro do próprio, por isso, então, estas emoções negativas e as acções resultantes tornaram-se importantes; agora temos de saber o que se está a passar dentro da mente. No Budismo, então, o objectivo é diferente. Na perspectiva cultura, estão a ver, o Budismo tem uma orientação fundamentalmente diferente em relação à emoção. Desse ponto de vista, mesmo graus subtis de apreensão da realidade do «eu» e do mundo tornam-se obstrutivos e negativos.

Por isso, talvez a diferença resida mesmo na orientação fundamental: em relação ao transcendente ou em relação ao desenvolvimento interior.

Jeanne Tsai in Daniel Goleman, As Emoções Destruivas e Como Dominá-las, Temas e Debates, Lisboa, 2005, p.309

Oriente/Ocidente

No Oriente (...) em que a existência de cada ser humano é, em geral, sempre já perpectivada na sua relação com a Comunidade - nas suas várias formas de concretização - e, mais amplamente, na sua relação com a Natureza e, em última instância, com o Cosmos, a perspectiva perante a morte, por exemplo, tende a ser diferente, dado que, se todo o indivíduo existe em função do Todo, ou seja, da Comunidade, mais amplamente, da Natureza, em última instância, do Cosmos - , a morte individual, mesmo a morte de uma criança, não constitui necessáriamente um facto absurdo. Ao invés, no Ocidente, em que a existência de cada ser humano é, em geral, perspectivada como um fim em si próprio, sem qualquer relação, pelo menos essencial, com a Comunidade, nem, muito menos, com a Natureza ou com o próprio Cosmos, a morte individual, em particular a morte de uma criança, não pode deixar de constituir, apesar de todas as promessas cristãs de uma vida post mortem, um facto absurdo, irredutivelmente absurdo, tal como veio enfim, de forma certeira ainda que anacrónica, denunciar o existencialismo ocidental contemporâneo, como se essa trágica visão da morte não fosse uma mera consequência do caminho trilhado pela história da filosofia ocidental, pelo menos desde o atomismo grego.
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Renato Epifânio, Via Aberta, Zéfiro, Sintra, 2009, pp.100-101

"O Oriente e o Ocidente são círculos de giz, que se desenham sob os nossos olhos para troçar da nossa timidez"

- Friedrich Nietzsche

terça-feira, 18 de agosto de 2009

Pergunta crucial

"Hombre occidental,
tu miedo al Oriente, es miedo
a dormir ou a despertar?"

- Antonio Machado