O CAMINHO DA SERPENTE

"Reconhecer a verdade como verdade, e ao mesmo tempo como erro; viver os contrários, não os aceitando; sentir tudo de todas as maneiras, e não ser nada, no fim, senão o entendimento de tudo [...]".

"Ela atravessa todos os mistérios e não chega a conhecer nenhum, pois lhes conhece a ilusão e a lei. Assume formas com que, e em que, se nega, porque, como passa sem rasto recto, pode deixar o que foi, visto que verdadeiramente o não foi. Deixa a Cobra do Éden como pele largada, as formas que assume não são mais que peles que larga.
E quando, sem ter tido caminho, chega a Deus, ela, como não teve caminho, passa para além de Deus, pois chegou ali de fora"

- Fernando Pessoa, O Caminho da Serpente

Saúde, Irmãos ! É a Hora !


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terça-feira, 12 de outubro de 2010

"Ouvi um riso que não era um riso humano, e agora devora-me uma sede, uma ânsia/saudade [Sehnsucht] que nada aplacará"

“Ó meus irmãos! Ouvi um riso que não era um riso humano, e agora devora-me uma sede, uma ânsia/saudade [Sehnsucht] que nada aplacará.

A minha ânsia/saudade [Sehnsucht] daquele riso devora-me; oh!, como posso tolerar ainda a vida! E como tolerar agora a morte!”

- Friedrich Nietzsche, Assim Falava Zaratustra.

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

O Fanal

Aqui, onde entre mares cresceu a ilha,
pedra e ara súbito como torre erguida,
aqui ascende sob um negro céu
Zaratustra os seus fogos das alturas,-
fanal para navegantes sem rumo,
ponto de interrogação para os que têm resposta...

Esta chama de ventre esbranquiçado
-sua cobiça lança línguas a distâncias frias,
dobra o pescoço para alturas mais puras -
cobra erguida a pino, de impaciência:
este sinal o pus eu em frente a mim.

A minha própria alma é esta chama:
insaciável de distâncias novas,
lança ao alto, ao alto o seu ardor silente.
Porque fugira Zaratustra dos bichos e dos homens?
porque se escapou de repente de toda a terra firme?

Seis solidões conhece ele já -,
mas o seu próprio mar não lhe era solitário bastante,
a ilha deixou-o subir, sobre o monte ele se fez chama,
a uma sétima solidão
lança buscando agora o seu anzol por sobre a fonte.

Navegantes sem rumo! Destroços de astros velhos!
Ó mares de futuro! Ó céus inexplorados!
Lanço agora o anzol a tudo o que é solitário:
dai resposta à impaciência da chama,
agarrai para mim, pescador nos altos montes,
a minha sétima última solidão! -

Friedrich Nietzsche (1844-1900) in Rosa Do Mundo 2001 poemas para o futuro
2. ed. Assírio & Alvim, 2001

terça-feira, 13 de outubro de 2009

"Para muito ver é necessário aprender a olhar para longe de nós"

"Para muito ver é necessário aprender a olhar para longe de nós; é a dureza necessária a qualquer escalador de montanhas.
[...]
Mas tu, Zaratustra, quiseste ver o fundo e o detrás-do-fundo [Hintergrund] de todas as coisas; é preciso portanto que te eleves mais alto do que a ti mesmo - mais adiante, mais alto, até teres também abaixo de ti mesmo as tuas próprias estrelas.
Sim, dominar com o olhar a mim mesmo e às minhas próprias estrelas, eis ao que chamarei o meu cume, eis o que me está ainda reservado, eis o meu cume derradeiro.
[...]
Do mais profundo tem o mais alto que chegar à sua altura [Aus dem Tiefsten muss das Höchste zu seiner Höhe kommen]"

- Friedrich Nietzsche, Assim Falava Zaratustra, III, "O Caminhante".

domingo, 11 de outubro de 2009

Para acabar de vez com o preconceito da identidade

"Contemos em nós o esboço de muitas personalidades: o poeta trai-se nas suas criaturas. As circunstâncias extraem de nós uma certa forma; quando as circunstâncias mudam muito, descobre-se em si duas, três personalidades. - A partir de cada um dos instantes da nossa vida, há numerosas possibilidades : o acaso põe sempre aí a mão. E que dizer da história! Os destinos de cada povo não são necessários no ponto de vista da razão; há em cada povo as características de numerosos povos e todo o acontecimento alimenta uma mais do que a outra"

- Friedrich Nietzsche, A Vontade de Potência, III-XII 1884 (XIII, 680).

terça-feira, 18 de agosto de 2009

caos atómico (aos anónimos)

não nos deixamos induzir em erro pelo facto de os indivíduos se comportarem como se nada soubessem de todas estas preocupações. a sua inquietude mostra quanto eles estão informados a este respeito; pensam neles próprios com uma precipitação e um exclusivismo que nunca se encontraram até agora; constroem e plantam para si apenas e para um só dia; a caça à felicidade nunca é tão grande senão quando deve ser feita hoje e amanhã; porque, depois de amanhã, a caça poderá já talvez estar fechada. vivemos na época dos átomos e do caos atómico.

nietzsche, considerações inactuais, schopenhauer educador,4.

quarta-feira, 10 de junho de 2009

"... não existe nada que seja mais terrível do que o infinito"

No horizonte do infinito - Deixamos a terra, subimos a bordo! Destruímos a ponte atrás de nós, melhor, destruímos a terra atrás de nós. E agora, barquinho, toma cuidado! Dos teus lados está o oceano; é verdade que nem sempre brame; a sua toalha estende-se às vezes como seda e ouro, um sonho de bondade. Mas virão as horas em que reconhecerás que ele é infinito e que não existe nada que seja mais terrível do que o infinito. Ah, pobre pássaro, que te sentias livre e que esbarras agora com as grades desta gaiola! Desgraçado de ti se fores dominado pela nostalgia [Heimweh]da terra, como se lá em baixo tivesse havido mais liberdade... agora que deixou de haver "terra"!

- Friedrich Nietzsche, A Gaia Ciência, tradução de Alfredo Margarido, Lisboa, Guimarães Editores, 1977, p.143.

Estas Almas Incertas

Quero um mal de morte
A estas almas incertas.
Tortura-as a honra que vos fazem,
Pesam-lhes, dão-lhe vergonha os seus louvores.
Porque não vivo
Preso à sua trela,
Saúdam-me com um olhar agridoce.
Onde passa uma inveja sem esperança.

Ah! Porque não me amaldiçoam!
Porque não me viram francamente as costas!
Aqueles olhos suplicantes e extraviados
Hão-de enganar-se sempre a meu respeito.

Friedrich Nietzsche, in "A Gaia Ciência"

terça-feira, 2 de setembro de 2008

Homenagem a todos os Mestres !

Fotografia: Anne McAulay - Nocturnal Street

Ó Homem! Ouve!

Que diz a Meia-noite com sua voz grave!

« Eu dormia, eu dormia,
Emergia de um sono profundo:

O universo é profundo,
E mais profundo do que o Dia imagina.
Profunda é a sua dor,

Mais profunda ainda é a sua alegria.
A dor diz: «Vai!»

Mas a alegria quer Eternidade,

Quer profunda Eternidade!»


Friedrich Wilhelm Nietzsche,in "Assim Falava Zaratustra"