O CAMINHO DA SERPENTE

"Reconhecer a verdade como verdade, e ao mesmo tempo como erro; viver os contrários, não os aceitando; sentir tudo de todas as maneiras, e não ser nada, no fim, senão o entendimento de tudo [...]".

"Ela atravessa todos os mistérios e não chega a conhecer nenhum, pois lhes conhece a ilusão e a lei. Assume formas com que, e em que, se nega, porque, como passa sem rasto recto, pode deixar o que foi, visto que verdadeiramente o não foi. Deixa a Cobra do Éden como pele largada, as formas que assume não são mais que peles que larga.
E quando, sem ter tido caminho, chega a Deus, ela, como não teve caminho, passa para além de Deus, pois chegou ali de fora"

- Fernando Pessoa, O Caminho da Serpente

Saúde, Irmãos ! É a Hora !


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sábado, 24 de outubro de 2009

"Somos a carne e a presença do todo que nos cerca." - Vergilio Ferreira




Fotografia: Howard Schatz


O sangue que nos aquece e nos inventa a vida, é o que respiramos, dá aos sonhos as formas dessa presença invisível de tudo o que nos cerca. Um modo de pensar, de sentir, organiza-se nos limites das raízes indistintas, transforma-se aí obscuramente, enquanto as nossas mãos distraídas continuam a moldar o pó dos sonhos mortos. Somos a carne e a presença do todo que nos cerca. As células vivas de um espírito que não morre vão expulsando as que já se corromperam. Lentamente, uma evidência nova habita-nos os nervos, corporiza-se connosco, é a nossa pessoa. E um dia descobrimo-nos uma unidade miraculosa, uma certeza de sermos, o puro acto da nossa identidade – no que afirmamos ou negamos. Muita gente, meu amigo, nos explica que tal modo de sermos unos, de habitar-nos a evidência que nos coube, é o fruto da erosão ou da sedimentação do que isto ou aquilo semeou em nós. Sim. Mas a pedra que a água desgastou, se pudesse conhecer-se, ignorava como vã a explicação da água e do tempo, sabia-se inteira e irredutível, na sua condição de pedra mutilada. Ela seria apenas a verdade absoluta de ser pedra com desgaste, no instante, no instante em que se reconheceu assim. A acção do que nos rodeia, se a sabemos é uma verdade indiferente. O que não é indiferente e se nos impõe como a única verdade que de nós irrompe, o que nos afirma uma totalidade de ser, o que nos define e é a própria realidade de estarmos sendo – é o todo que nos sentimos e nos projecta, é a absoluta presença de nós a nós próprios, esta irredutível e impensável realidade do que somos, impensável e irredutível porque não podemos sê-la de fora, desdobrá-la em duas totalidades.
Vergílio Ferreira, “Carta ao Futuro”, Livraria Bertrand, Lisboa, 1981, págs.31-33. 

domingo, 11 de outubro de 2009

Para acabar de vez com o preconceito da identidade

"Contemos em nós o esboço de muitas personalidades: o poeta trai-se nas suas criaturas. As circunstâncias extraem de nós uma certa forma; quando as circunstâncias mudam muito, descobre-se em si duas, três personalidades. - A partir de cada um dos instantes da nossa vida, há numerosas possibilidades : o acaso põe sempre aí a mão. E que dizer da história! Os destinos de cada povo não são necessários no ponto de vista da razão; há em cada povo as características de numerosos povos e todo o acontecimento alimenta uma mais do que a outra"

- Friedrich Nietzsche, A Vontade de Potência, III-XII 1884 (XIII, 680).