O CAMINHO DA SERPENTE

"Reconhecer a verdade como verdade, e ao mesmo tempo como erro; viver os contrários, não os aceitando; sentir tudo de todas as maneiras, e não ser nada, no fim, senão o entendimento de tudo [...]".

"Ela atravessa todos os mistérios e não chega a conhecer nenhum, pois lhes conhece a ilusão e a lei. Assume formas com que, e em que, se nega, porque, como passa sem rasto recto, pode deixar o que foi, visto que verdadeiramente o não foi. Deixa a Cobra do Éden como pele largada, as formas que assume não são mais que peles que larga.
E quando, sem ter tido caminho, chega a Deus, ela, como não teve caminho, passa para além de Deus, pois chegou ali de fora"

- Fernando Pessoa, O Caminho da Serpente

Saúde, Irmãos ! É a Hora !


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domingo, 27 de dezembro de 2009

"[...] os portugueses típicos nunca são portugueses"; "Nenhum povo se despersonaliza de modo tão magnificente"

"The Portuguese Sensationists are original and interesting because, being strictly Portuguese, they are cosmopolitan and universal. The Portuguese temperament is universal: that is its magnificent superiority. The one great act of Portuguese history - that long, cautious, scientific period of the Discoveries - is the one great cosmopolitan act in history. The whole people stamp themselves there. An original, typically Portuguese literature cannot be Portuguese, because the typical Portuguese are never Portuguese. There is something American, with the noise left out and the quotidian omitted, in the intellecrtual temper of this people. No people seizes so readily on novelties. No people depersonalises so magnificently. That weakness is its great strength. That temperamental nonregionalism is its unused might. That indefiniteness of soul is what makes them definite"

- Fernando Pessoa, in Sensacionismo e outros ismos, edição de Jerónimo Pizarro, Lisboa, Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 2009, pp.218-219.

Palavras a ponderar, depurativas do provincianismo identitário, ainda que não plenamente livres dele...

umoutroportugal.blogspot.com

terça-feira, 30 de junho de 2009

Trans-Pátria - "Somos portugueses antes de sermos homens - eis a doença da hiperidentidade que nos corrói"

"Suponhamos que o nosso verdadeiro problema é a identidade. Suponhamos que a raiz do nosso mal são os nossos problemas de identidade individual e colectiva. Mas o que significa para nós, portugueses, ter problemas de identidade? Antes de mais, fazer da identidade um problema, o problema nuclear da nossa existência e da nossa cultura [...].
[...] Eis os seus pressupostos: 1. O que é a nossa identidade - no sentido em que se apresenta como a última protecção narcísica e derradeiro obstáculo à transformação do indivíduo português? Definamo-la assim: é o surgir do rosto do eu, como condição de possibilidade de afirmação de todos os atributos "mundanos" do indivíduo, da afirmação deste como sujeito, antes do surgimento da singularidade do indivíduo como homem, ser nu em devir. Neste sentido a identidade é uma patologia de que o eu é o vírus despótico. Eu uno, unificador e omnipresente. Em tudo, na acção, na fala, nas relações sociais, na vida profissional, no espaço público, nós somos "fulanos de tal", somos pessoais e auto-reflexivos (ao contrário da criança ou do artista ou artesão, perdidos no objecto e no jogo). Somos portugueses antes de sermos homens - eis a doença da hiperidentidade que nos corrói. 2. A nossa falta de confiança, a inércia, a autocomplacência, o queixume e a inveja são pragas nacionais que nos envenenam. Todas decorrem naturalmente do tipo de subjectividade produzida pela doença da identidade. Esta fecha-nos em nós mesmos, impedindo-nos de criar um "fora", ar e vento livres, respiração para viver"

- José Gil, Em Busca da Identidade. O desnorte, Lisboa, Relógio d'Água, 2009, pp.9-10.

José Gil é hoje um dos autores com quem, nesta questão da identidade nacional, mais concordo e discordo. Concordo com o que diz, discordando das razões pelas quais o diz e das consequências que daí extrai. Mas a ver vamos. Comecei agora mesmo a ler este seu último livro.

terça-feira, 9 de junho de 2009

O grande desafio de Portugal: o bem comum do planeta e de todas as formas de vida

Publico a entrevista concedida ao Jornal de Leiria, que será utilizada na edição de 6ª feira.

- Como caracteriza o povo português?

Talvez a maior característica do povo português seja ser incaracterizável, o que não é necessariamente negativo, pois é isso que nos tem permitido a flexibilidade de conviver e dialogar com todos os povos e culturas. Somos um povo oceânico, com um grande poder de metamorfose.

- De onde vem a identidade que faz dos portugueses um povo desorganizado, mas lutador?

Não creio que existam “identidades” individuais e colectivas, no sentido de entidades com características permanentes, independentes das interacções e do devir histórico. Gosto todavia de recordar a definição dos lusitanos pelo romano Gaius Julius Caesar, como o “estranho povo” “que não se governa, nem se deixa governar”. Haveria assim, numa linha dos nossos antepassados, um fundo libertário e an-árquico, pelo menos na perspectiva de um representante da Pax romana. Isto não impedia que os lusitanos se unissem, quando ameaçados na sua independência, em torno de um chefe carismático, como Viriato. Creio que foi esse mesmo amor à independência, aliado a factores culturais, que originou Portugal e que o manteve contra as tentativas de integração em Castela. Foi isso que nos recortou fronteiras e que, depois, nos fez romper essas mesmas fronteiras, tornando-nos viajantes e habitantes de todo o mundo.
Hoje, todavia, parece que essa insubmissão e arrojo escasseiam, o que parece acontecer sempre que não somos confrontados com situações de grande opressão, risco ou desafio. Deixamo-nos governar por minorias, como acontece em toda a Europa, pois a maioria abstém-se nas eleições. O impulso lutador não surge a nível de um projecto colectivo, que manifestamente não existe, não havendo também um líder carismático que se imponha pelo seu exemplo e visão. A capacidade de luta confina-se a indivíduos e grupos que pugnam apenas por interesses particulares, na cultura, na política e na economia.

- Os povos latinos são mais descontraídos que os nórdicos. Terá a ver com o clima, meio ambiente, o que oferece a natureza...? Ou serão outras razões?

O clima e o meio ambiente são factores importantes, que já Aristóteles reconhecia como diferenciadores dos povos. Todavia há também factores culturais e étnicos. Agostinho da Silva, na linha de Max Weber, salientou a influência da mentalidade protestante no culto do trabalho que haveria de fazer surgir o capitalismo no norte da Europa. Eu iria mais longe, considerando que o voluntarismo bélico das invasões indo-europeias impregnou mais o Norte da Europa, enquanto o Sul permaneceu mais mesclado com as culturas indígenas e semitas, mais contemplativas e ligadas aos ritmos da terra.
Dito isto, é evidente que o espírito mais activo e organizado dos nórdicos é uma mais-valia quando posto ao serviço de boas causas, como a cidadania, a ecologia e a protecção dos animais, em que superam largamente os povos latinos.

- A era dos Descobrimentos marcou a nossa cultura? Foi por tudo o que passámos que somos aquilo que somos hoje? Que 'marca' terá deixado essa época?

Aquilo que vamos sendo é sempre, no presente, fruto do que fizemos no passado e do que desejamos ser no futuro. Os Descobrimentos marcaram-nos profundamente, deixando sobretudo a saudade de um apogeu e de uma grandeza que, a meu ver, não são apenas do poder e da riqueza material de que fugazmente usufruímos no mundo, mas sobretudo, embora inconscientemente, de havermos vivido e convivido à escala do planeta. É por isso que o pequeno Portugal e a limitada Europa não nos podem satisfazer plenamente. O problema é que, em vez de assumirmos o sentido mais fundo do nosso desejo de grandeza, andamos em busca de vãs compensações do nosso sentimento de carência, como sermos campeões do mundo de futebol, termos a maior ponte, o maior centro comercial, etc. Querer ser grande é o sintoma de quem se sente menor por não reconhecer o que há, desde já, de grande e insuperável em si.

- De que forma a cultura e maneira de ser dos portugueses condiciona o que são e o que serão no futuro?

Pelo que já disse, somos um povo que, embora actualmente estagnado, em termos colectivos, é todavia imprevisível. Creio que tudo depende de assumirmos um grande desafio colectivo, que nos leve a superar-nos e a darmos o melhor de nós mesmos para o realizar. Olhando para o mundo de hoje, só vejo como desafio digno de o ser o vivermos não apenas para nós, nem somente para os nossos próximos pela história, língua e cultura, mas para o bem comum de todo o planeta e de todas as formas de vida. Uma pequena nação como Portugal pode tornar-se grande pela promoção de um grande ideal universal, benéfico para todos, como a defesa da natureza, do meio ambiente, dos direitos humanos e dos direitos de todos os seres vivos, com todas as consequências culturais, sociais, políticas e económicas disso. Esse é o melhor desafio que Portugal e o mundo lusófono podem assumir, na linha do que sobre eles pensaram Camões, Vieira, Pessoa e Agostinho da Silva. Costumo chamar a isto o patriotismo trans-patriótico e universalista. Colocar o melhor da nossa cultura e das nossas energias e potencialidades ao serviço da felicidade e bem-estar de todos os seres. Só assim poderemos ser um dos embriões dessa nova civilização a que todos no fundo aspiramos, miticamente designada como Quinto Império. Sem isso, pouco nos resta senão sermos uma reserva turística do mundo, no limbo da grande encruzilhada que hoje se desenha entre as forças do obscurantismo mundial e esse novo paradigma emergente nas consciências mais despertas.