O CAMINHO DA SERPENTE

"Reconhecer a verdade como verdade, e ao mesmo tempo como erro; viver os contrários, não os aceitando; sentir tudo de todas as maneiras, e não ser nada, no fim, senão o entendimento de tudo [...]".

"Ela atravessa todos os mistérios e não chega a conhecer nenhum, pois lhes conhece a ilusão e a lei. Assume formas com que, e em que, se nega, porque, como passa sem rasto recto, pode deixar o que foi, visto que verdadeiramente o não foi. Deixa a Cobra do Éden como pele largada, as formas que assume não são mais que peles que larga.
E quando, sem ter tido caminho, chega a Deus, ela, como não teve caminho, passa para além de Deus, pois chegou ali de fora"

- Fernando Pessoa, O Caminho da Serpente

Saúde, Irmãos ! É a Hora !


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domingo, 25 de outubro de 2009

a pedido

A alma é uma coisa que a espada não pode ferir?
Conhecimento = Purificação?
Até que vértice?

Maria Guedes

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

O caminho por entre a escuridão

Sigo o caminho por entre a escuridão.
As nuvens obnubilam-me, mas uma Luz faz-se ver.
Desconheço-a, ou assim penso instantaneamente.
Quem és?
Tenho todo o tempo da vida para Te conhecer.
Assim seja.

domingo, 18 de outubro de 2009

"O medo é uma trança" - Ana Hatherly


Imagem Google: "A dream on our way to death", Foureyes


A senda que eu sigo
É a meta que atinjo.
Partindo, regresso
E regresso avançando.
Temendo é que eu venço.


Chorando, me alegro
E sofrendo, embeleço
Entendendo a ordem
Oculta e evidente:
Ou amo e morro
Ou vivo e não amo.


Ana Hatherly, "O Regresso II",
in "Poesia 1958-1978", Moraes Editores, Lisboa 1980, pág. 38)

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Reencontro


"Olhamo-nos e não acredito no que vejo!
O nosso reencontro!

O teu sorriso tocou-me,
relembrou meu passado
fez brilhar o meu presente...

...Ouvimo-nos: a tua voz deixou-me em sonho!
Falei-te sobre a vida,
entendeste-me e voaste por aí…

Não sabia teu rumo e com saudades fiquei.
...a alegria percorreu meu corpo,
voavas para junto de mim.

Renasceram os encontros …"

de José Manuel Brazão
imagem: hubble

sábado, 11 de julho de 2009

IFotografia

Eu sou uma função humanística tardia,

aquilo que nunca é,

uma obtusa força esvaziada do passado.

Só na tradição, no incontaminado dialecto,

existe o meu amor, submerso pelo incandescente horror,

sem solução de continuidade até ao final...

Sou certamente o espelho de um organismo social.

Venho das ruínas perdidas no bulício da vida,

na periferia dos dias,

das igrejas dilaceradas por um obscuro escândalo de consciência,

dos retábulos de altar, das desconcertantes e sinceras aldeias esquecidas...

onde viveram os irmãos.

Ando pelo espaço como um doido.

Canto as ilhas do mundo antigo,

as angras da História, a "vida" que resiste...

a qualquer sonho de coisa alguma.

"Inactual" vagueio fiel pelas ruas como um cão sem dono,

estritamente técnico,

assinalando as osmoses entre imagens e versos.

Ou contemplo os crepúsculos, as manhãs,

nas colinas, no mundo,

no que jaz sem ser visto,

como os primeiros actos da Pós-História,

em perpétua comunhão,

em limites espaçados do verbo,

que ressuscito pelo privilégio do registo civil,

da orla extrema de alguma era sepulta.

Venço a atrofia momentânea do "corpo-literatura".

Regenero-o.

Ele está ali. De olhos fixos e costas arqueadas.

Ele e as palavras.

Profiro: - Monstruoso é quem nasceu das vísceras de uma ideia morta.


E eu, feto adulto,

sucumbo ao febril fervilhar, movo-me,

mais moderno que os amados rostos de ontem,

mais moderno do que qualquer moderno,

a buscar os irmãos que já não existem.

Maria Guedes, Junho de 2009

Grato amiga.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009