O CAMINHO DA SERPENTE

"Reconhecer a verdade como verdade, e ao mesmo tempo como erro; viver os contrários, não os aceitando; sentir tudo de todas as maneiras, e não ser nada, no fim, senão o entendimento de tudo [...]".

"Ela atravessa todos os mistérios e não chega a conhecer nenhum, pois lhes conhece a ilusão e a lei. Assume formas com que, e em que, se nega, porque, como passa sem rasto recto, pode deixar o que foi, visto que verdadeiramente o não foi. Deixa a Cobra do Éden como pele largada, as formas que assume não são mais que peles que larga.
E quando, sem ter tido caminho, chega a Deus, ela, como não teve caminho, passa para além de Deus, pois chegou ali de fora"

- Fernando Pessoa, O Caminho da Serpente

Saúde, Irmãos ! É a Hora !


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terça-feira, 8 de março de 2011

"Carnaval significa Sinceridade" / "A criação é um bailado de máscaras"



"Carnaval significa Sinceridade. O homem só é verdadeiro, quando se julga incógnito. Se tem de representar a sua pessoa, a arte absorve-o, e desvia-o do seu próprio ser"

"A máscara humana é a vera efígie da morte.
Nascer é pôr a máscara. A criatura não desce ao mundo, sem vestir primeiro o seu hábito"

"A criação é um bailado de máscaras... cósmico entrudo tenebroso!... a vertigem... um delírio de ritmos que se quebram e refazem... estátua de pó, turbilhonante, mostrando, à infinita cegueira, o seu busto de dor, assente sobre o Nada e o Sonho..."

- Teixeira de Pascoaes, Verbo Escuro, Paris/Lisboa, Aillaud e Bertrand, s. d., pp.39 e 43-45.

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

A transfiguração meditativa em Teixeira de Pascoaes, que escolheu o dia de ontem para seu simbólico aniversário

"Quantas vezes, vou só, por um caminho adiante,
A meditar nas coisas.
E meditando, eu torno-me distante
Das suas aparências mentirosas.

Meditar é subir àquela altura,
Onde a gota de orvalho é um astro que alumia;
E onde é perfeita e mística alegria
a humana desventura.

Por isso, eu amo tanto
As horas de saudade em que medito,
E julgo ouvir misterioso canto
E me perturba a sombra do Infinito.

Ouço uma voz dizer, em mim: eu sou alguém...
E sinto que essa voz não é só minha; eu sinto
Que dimana de tudo o que me cerca e tem
Ermo perfil, nas trevas, indistinto.

[...]

Que estranha simpatia
Me prende às pobres coisas da Natura!

[...]

E vejo a intimidade, o laço oculto,
Que as almas todas casa;
meu coração erguendo, em sonhos, o seu vulto,
É pedra, nuvem, asa.

Horas em que medito e me disperso,
Por tudo quanto existe.
[...]"

- Texieira de Pascoaes, "Meditando", in Sempre.

quarta-feira, 28 de abril de 2010

Contemplações

Da imensidade pacífica do mar elevam-se as ondas agitadas. Da imensidade morta do tempo destacam-se as horas vivas, que bailam em volta do Sol, com os Anjos e os Demónios.
O mar é a Eternidade, a onda é a hora. A onda exalta-se no seu bailado, endoidece e suicida-se de encontro às penedias. E o seu cadáver de espuma, coberto de flores, bóia sobre as águas em que, por fim, se dissolve. A onda regressa à intimidade calma do mar. A hora funde-se, outra vez, na Eternidade.

 - Teixeira de Pascoaes

(...)

De tanto cantar
não resta da cigarra
senão a casca

 - Matsuo Bashô

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

"Ai de nós!" - Homenagem a Pascoaes nos 57 anos da sua partida




"O Povo, como os animais, pressente certas grandezas, invisíveis aos olhos sujos de tinta de letra impressa. Os camponeses, os passarinhos e as árvores, são frutos ainda intactos, que sabem à terra que os criou. Neles brilha a Verdade natural; essa Verdade que, em nós pobres criaturas racionais, se oculta em artifícios. Ai de nós! Que iluminamos e definimos um pequeno espaço da Existência, e imaginamos, por isso, que mais nada existe para além. Pobre ciência, feita de ignorância e vaidade! As almas dos campónios e os passarinhos ignoram a luz que define. Vivem na noite indefinida; e os seus olhos, habituados à sombra natural, descortinam a imagem das cousas como ela é, muito embora indecisa... Vêem o esboço da Verdade; e nós não vemos mais que o nítido desenho da Mentira"

- Teixeira de Pascoaes, Os Poetas Lusíadas, Lisboa, Assírio & Alvim, 1987, p.122.

Esta é a herança de Pascoaes que não se deixa instrumentalizar em rapinas ideológicas, patrioteiras e lusomaníacas do seu legado. Esta é a herança incómoda, que não alimenta discursos legitimadores da vontade de poder. Esta é a herança que nos desarma e despe de ilusões, deixando-nos nus de nós mesmos, em contacto com a verdade do Céu e da Terra. Este é o Pascoaes universal, que há-de falar aos homens mesmo quando Portugal e a Lusofonia já não existirem.

Saúde, Irmão!

domingo, 22 de novembro de 2009

Abel

Passa o Abel, zelador municipal, e a sua bíblica infância de pastor. Conserva ainda no pescoço o derradeiro vestígio do golpe fraticida: a cicatriz duma escrófula. É zelador municipal - a cabeça de boné e um vestuário civil, inofensivo; e, entre as suas plantas e a terra, duras solas de couro não o deixam enraizar e ser ainda a lenha da fogueira que ele acendera em sacrifício ao velho deus das Escrituras.

Calçou-se, perdeu a memória. A sola de couro separa-nos da terra; o chapéu de feltro isola-nos do céu, e o fato de pano completa o isolamento. Que resta de Abel? Uma pobre múmia enroupada e enviada pela Esfinge, a impor silêncio aos carros chiadores que atravessam as ruas de Amarante.

Abel, meu caro amigo, vive descalço e descoberto! Cria raízes ns plantas e ramagens na cabeça. Sê uma árvore, já que não podes ser um deus!

Teixeira de Pascoaes, O Pobre Tolo, Lisboa, Assírio e Alvim, 2000, pp.33-34

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

O Pobre Tolo



O pobre tolo é um grupo de figuras; mas quem figura é o seu espectro, a divagar na noite indefinida. Canta para espalhar os medos, para acender uma luzinha que afugente a sombra. A sombra afasta-se dois passos e ergue-se, mais carregada e misteriosa. E o tolo dança e canta, no pequeno espaço alumiado. O dançar e cantar seduziram sempre os pobres tolos da poesia que, só de cheirarem o vinho, se embriagam.

A hora dos seus bailados é o sol-pôr, quando referve, no horizonte, a grande cratera doirada, onde mergulham a boca sequiosa todos os mágicos da melancolia.

Então é que ele dança, ébrio de luz, com as sombras do crepúsculo. E dança com o vento, que é o espectro do seu desejo. E dança junto do seu túmulo, que é o berço do seu espectro...

Teixeira de Pascoaes, O Pobre Tolo, Lisboa, Assírio e Alvim, 2000,

Imagem: p.121http://albumlv.files.wordpress.com/2008/02/album-6.jpg

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

"Nasci no dia eleito da Saudade" - Homenagem a Teixeira de Pascoaes






"Nasci no dia eleito da Saudade,
Quando o vulto espectral da Eternidade,
Diante de nós, quimérico, se eleva,
Com estrelas a rir na máscara de treva.
E tem gestos absortos
Para os brancos sepulcros pensativos,
Onde a tristeza, em lágrimas, dos vivos
Beija a alegria, toda em flor, dos mortos.

[...]

Nasci ao pôr do sol dum dia de Novembro.
O meu berço o crepúsculo embalou...
E até parece, às vezes, que me lembro,
Porque essa tarde triste, em mim, ficou"

- Teixeira de Pascoaes, "A Minha História", Terra Proibida.

Por opção simbólica, consagrada em todas as biografias, Teixeira de Pascoaes nasceu no dia 2 de Novembro de 1877 (terá nascido, realmente, às 17 h do dia 8). Nasceu assim no dia de Finados, que hoje se comemora, um dos homens mais despertos e inquietantes que veio a este mundo de gente morta, sonâmbula e aborrecida.

Em comovida homenagem ao Irmão espiritual, reproduzo o que escrevi, em nome da Direcção, no Editorial do 4º número da Nova Águia, a ele dedicado:

"Pascoaes {...] é um poeta e um pensador maior europeu e mundial. Isto porque, na obra que se estende de Embriões (1895) até ao póstumo A Minha Cartilha (1954), assistimos a um dos mais apaixonantes confrontos do espírito humano – seja pelo rasgo visionário, pela suspensão meditativa, pela interrogação crucial ou pela inspiração lírica – com os abismos do divino e do demoníaco, da realidade, da vida e da existência, num debate explícito e implícito com as mais polifónicas vozes da tradição e da cultura humana, europeia e universal.

Em Pascoaes a multiforme tradição planetária encontra um recriador que transfigura tudo em que toca, desde os clássicos greco-latinos até à leitura gnóstico-trágica do universo bíblico, temperada pela ironia da ilusão védica a convergir com a descoberta da física quântica. Pontífice neoreligioso do Ocidente e do Oriente profundos, do antiquíssimo e do novíssimo, do tradicional e do moderno, Pascoaes não separou também, no ser lusitano e português, o mais particular e imanente do mais universal e transcendente. Como escreve, na conclusão do mais extenso ensaio consagrado à questão: “Estudemos o homem transcendente, o além homem, que o Português encerra. // Estudemos o Português do Cosmos, oculto no Português do extremo ocidental da Ibéria” (1913). Essa a descoberta da “Índia Ideal”, a suprema realização da aventura náutica da nação, sob o signo da Saudade lírico-metafísica, jamais divorciada da solidariedade com os movimentos de libertação social, pois “a pena é irmã da enxada”. Em Pascoaes reside a origem do mitema das “Índias espirituais”, celebrado com Pessoa, como em Pascoaes avulta um sentido da Ibéria e de Portugal como o outro da Europa de matriz helénica, capaz de lhe apontar um rumo alternativo à razão intelectual crescentemente comercial, industrial e bélica.

Fundo e referência maior contra os quais se constitui Pessoa, traduzido em vida em múltiplas línguas europeias, objecto da constituição de círculos na Suíça para o estudo da sua obra, comparado por Berdiaev a Dante e Milton, Pascoaes foi esse “ser terrível” (José Marinho) que era visto a chispar fogo dos cabelos (Mário Cesariny) e que, afectando a vida de muitos portugueses e europeus, conheceu o silenciamento que cada terra sempre reserva aos seus maiores profetas. Nada expressará jamais, e tão comoventemente, a sua grandeza quanto o relato do soldado alemão que, “agonizando no campo de batalha, deixa a um companheiro o seguinte recado: “Diz ao poeta Teixeira de Pascoaes que morri a pensar nele”” (Mário Cesariny).

Nós "vivemos" a esquecê-lo...

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Pascoaes não escreveu só a Arte de Ser Português...

"Vivamos, enfim, no: Faça-se a luz! e no Amai-vos uns aos outros! Faça-se a luz é o grito do anarquista. Amai-vos uns aos outros é o dos comunistas"

- Teixeira de Pascoaes, A Minha Cartilha, Figueira da Foz, 1954 (edição póstuma).

quinta-feira, 9 de julho de 2009

"Pascoaes é um ser terrível..."

"Pascoaes é um ser terrível e a sua poesia, uma coisa imensa e prestigiosa, tornou-se-me fonte de tormento. Quando penso nas dificuldades extraordinárias a vencer para dar dela uma ideia digna, interpretar qualquer outro poeta em Portugal torna-se uma brincadeira.

[...]

No momento em que a Europa cientificada e tecnificada via o pomo da felicidade amadurecido na sempre enganosa árvore da vida, Teixeira de Pascoais diz-nos, e logo no título de um dos seus livros, que, se vemos proibido o céu, nos está também a terra proibida. A Renascença Portuguesa veio e passou, incompreendida como o poeta vidente, e, a falar verdade, um pouco ridicularizada.

Há razão para isso, devemos concordar. Na verdade, o programa parecia, e parece, inexequível. Acentuar-se-ia cada vez mais, e por diversas formas, o sentimento de que o céu está longe e a convicção de que temos de viver, como vis bichos, até à morte, de um modo ou de outro. É absurdo misturar deuses e homens, árvores e almas, paganismo e cristianismo, loucura e sabedoria, melancolia e ilimitada esperança. E assim, a Saudade, no momento de despertarem já para o sentido do perdido bem os próprios infernos, não chegou a despertar os seres da terra"

- José Marinho, Teixeira de Pascoaes, Poeta das Origens e da Saudade e outros textos, edição de Jorge Croce Rivera, Lisboa, Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 2005, pp.398-399.

quinta-feira, 14 de maio de 2009

Poeta

Quando a primeira lágrima aflorou
Nos meus olhos, divina claridade
A minha pátria aldeia alumiou
Duma luz triste, que era já saudade.

Humildes, pobres cousas, como eu sou
Dor acesa na vossa escuridade...
Sou, em futuro, o tempo que passou-
Em num, o antigo tempo é nova idade.

Sou fraga da montanha, névoa astral,
Quimérica figura matinal,
Imagem de alma em terra modelada.

Sou o homem de si mesmo fugitivo;
Fantasma a delirar, mistério vivo,
A loucura de Deus, o sonho e o nada.


Teixeira de Pascoaes
Sempre (1898)
In Poesia de Teixeira de Pascoaes
Org. de Silvina Rodrigues Lopes
Lisboa, Editorial Comunicação, 1987

quarta-feira, 8 de abril de 2009

Da Origem

II.
O espírito afirma, e ri-se da inteligência que discute... Ele vive indiferente ao seu vestuário de ideias. Estas, caem e renovam-se, como as folhas das árvores, mas o tronco é sempre o mesmo...
Na própria alma, há o quer que é de imutável, para além das nuances que a esfumam em vagas aparências novas.

III.
A alma fala, exibe-se, adora o mundo; o espírito, silencioso, do íntimo do nosso ser, contempla... Às vezes, com um simples gesto, apaga todas as vozes da alma, que muda então de conversa... E a Vida põe nova máscara.


Teixeira de Pascoaes
Senhora da Noite. Verbo Escuro

quarta-feira, 25 de março de 2009

O que é cada um de nós?

"O que é cada um de nós, na sua essência absoluta, senão uma perfeição adiada para Deus?"

- Fernando Pessoa, Carta de 5 de Janeiro de 1914 a Teixeira de Pascoaes, in Correspondência. 1905-1922, Lisboa, Assírio & Alvim, 1999, p.107.

Não concordo, embora seja belo. Na verdade, num certo sentido, só publico aquilo com que não concordo. A perfeição nunca é adiada nem adiável. E muito menos para alguém. Muito menos para "Deus". A perfeição é.

quarta-feira, 18 de março de 2009

"Deus, o único ateu perfeito"

"O homem que nega o seu próprio ser, imita Deus, o único ateu perfeito; e tornou-se, por isso, Criador. A Criação tem a assinatura de Lucrécio" – Teixeira de Pascoaes, Santo Agostinho (comentários), Porto, Livraria Civilização, 1945, pp.275-276.

quarta-feira, 11 de março de 2009

Deus e Adeus: "o mesmo grito da Saudade"

"Que distância entre Deus e Adeus? Representam o mesmo grito da Saudade, que é a dor da solidão, a ânsia de eterna convivência, tão entranhada no efémero do nosso ser! A palavra Deus, como a palavra Adeus, não exprime qualquer ideia, mas um desejo ou força, irrompida, através de nós, do íntimo das coisas"

- Teixeira de Pascoaes, Napoleão, Porto, Livraria Tavares Martins, 1940, p.322.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

A propósito dum comentário a despropósito dum descomentário a certo, digamos, poema dum certo Nobel, digamos que "português” talvez incerto


Não será de todo inútil comparar - com o que, para Teixeira de Pascoaes e Fernando Pessoa, seja o mais fundo sentido de escrever - aquilo que um tal de Nobel, glória provavelmente muito meramente fortuita, diz do “acto” (diz ele) de escrever.
Se não, vejamos:

Dificílimo acto é o de escrever, responsabilidade das maiores.(...) Basta pensar no extenuante trabalho que será dispor por ordem temporal os acontecimentos, primeiro este, depois aquele, ou, se tal mais convém às necessidades do efeito, o sucesso de hoje posto antes do episódio de ontem, e outras não menos arriscadas acrobacias(...)”

José Saramago, “A jangada de pedra


Escrevendo, cedo apenas a uma necessidade espiritual de revelação ou confissão. Cumpro uma lei da vida

Teixeira de Pascoaes, “São Jerónimo


À minha sensibilidade cada vez mais profunda, à minha consciência cada vez maior da terrível e religiosa missão que todo o homem de génio recebe de Deus com o seu génio, tudo quanto é futilidade, mera-arte, vai gradualmente soando cada vez mais a oco e repugnante. Pouco a pouco, mas seguramente, no divino cumprimento íntimo de uma evolução cujos fins me são ocultos, tenho vindo erguendo os meus propósitos e as minhas ambições cada vez mais à altura daquelas qualidades que recebi. Ter uma acção sobre a humanidade, contribuir com todo o poder do meu esforço para a civilização, vêm-se-me tornando os graves e pesados fins da minha vida. E, assim, fazer arte parece-me cada vez mais importante coisa, mais terrível missão – dever a cumprir arduamente, monasticamente, sem desviar os olhos do fim criador-de-civilização de toda a obra artística. E por isso o meu próprio conceito puramente estético da obra de arte subiu e dificultou-se; exijo agora de mim mesmo muito mais perfeição e elaboração cuidada. Fazer arte rapidamente, ainda que bem, parece-me pouco. Devo à missão que me sinto uma perfeição absoluta no realizado, uma seriedade integral no escrito”.

Fernando Pessoa, “Cartas de Fernando Pessoa a Armando Côrtes-Rodrigues”, citado por António Quadros, “Fernando Pessoa – A Obra e o Homem” vol. I, Editora Arcádia, Lisboa, 1981, pág. 146 e seg.

Qualquer coincidência é impura semelhança!

domingo, 2 de novembro de 2008

2 de Novembro - Homenagem a Teixeira de Pascoaes, na fronteira aberta entre mundo e trans-mundo



Embora o registo de nascimento mencione o dia 8 de Novembro, Pascoaes parece haver elegido o dia de hoje, 2 de Novembro, Dia de Finados, como dia simbólico para o seu nascimento, o nascimento de alguém saudoso do antes de haver nascido e em perene abertura para o outro mundo ou o trans-mundo, a dimensão invisível e ignota dos seres e das coisas. Republicamos aqui este curso ensaio em homenagem ao Director da revista "A Águia" e eminente poeta e pensador visionário, autor de uma obra vasta e abissal, ainda largamente desconhecida em Portugal e no mundo.

A Loucura de Pascoaes

Quando Abel Salazar publicou um sarcástico e jocoso artigo sobre a pretensa demência de Leonardo Coimbra e Pascoaes, estava decerto a uma distância infinita de compreender quão longe e perto passava da verdade no respeitante ao estranho génio do Marão. Num Ocidente e mesmo num planeta onde a loucura, expulsa do divino e do universo pela racionalidade teológico-filosófica dominante, foi progressivamente exorcizada do homem e confinada aos ghettos da patologia e da santidade, do irracional e do meta-racional - tão abusivamente contrapostos como confundidos - , a vida e obra de Pascoaes constitui uma sincera e desinibida assunção do que a aparentemente triunfante mediania excomungou como subversivo dos lugares comuns da cultura domesticada. Dramatizada em O Doido e a Morte, contemplada nos irónicos auto-retratos dos dois O Pobre Tolo, mas sempre emergente em motivos e lances capitais da obra poética e em prosa, Pascoaes não faz da "loucura" alegoria ou metáfora apenas duma absoluta Razão divina, ou seja, imagem nos limites humanos da Sabedoria e/ou Lei supremas que a tudo possibilitam, ordenam e justificam. Instaurando a irracionalidade no Princípio ou na Origem, quer na figura de um Deus imperfeito em si mesmo ou no acto criador, que neste a si e a toda a criação sepulta nos limites da realidade que lhe é possível, quer na de um delírio divino cuja paixão heteronímica igualmente o plurimorfiza num universo-casa de alienados de Si mesmo, mas que tornando-se Homem e pelo Homem expia a sua hybris maligna - o Satã que, mesmo-outro de Si, o fere na ordem do mundo real - , convertendo-se no Deus-Cristo, cósmico redentor da mínima forma de vida, mediante uma Loucura agora libertadora que incendeia as formas do possível realizado na trans-realidade do Impossível sempre Ausente, Pascoaes furta-se ao terreno onde se digladiam como irmãos gémeos do mesmo conformismo o optimismo e pessimismo, que nos asseguram ser este o melhor ou o pior dos mundos possíveis (Leibniz/Schopenhauer), para entrever na Loucura a potência de Liberdade e Criação que, excedente de qualquer Princípio, Fundamento, Razão ou Ordem ontológica, mesmo divinos, ambiguamente tanto possibilita toda e qualquer forma de determinação existencial como a sua infinita transcensão. Patente no excesso da imaginação sobre o ser e o real, da poesia sobre a ciência e a filosofia e nessa complexa síntese de memória e desejo criador, votada à transfiguradora superação de todo o existente, a que chamou Saudade, a Loucura, tal como Pascoaes a experimentou e traduziu em livros gritantes de singular experiência interior como Verbo Escuro, O Bailado, O Pobre Tolo e Duplo Passeio, sugere-se como o que antecede, possibilita e excede, redimindo-os e deles a tudo redimindo, o Deus criador e os Deuses revelados nos quais positiva e negativamente se fundam as religiões e ateísmos planetários. Não é assim desprezível que, na história da sua evolução espiritual e cósmica, a tenha assumido incarnada no delírio ibérico e predominantemente lusíada, simultaneamente quixotesco e saudoso, vindo o declínio e morte do sol apolíneo no elegíaco crepúsculo do finisterra oceânico a marcar o simbólico contraponto do seu advento helénico, constituindo-se a Grécia, como pátria da Razão, da Beleza e da Deusa, e a Lusitânia-Portugal, como pátria da Loucura, da Fealdade transcendente e da Bruxa, como os paradigmas e pólos mais significativos, antinómicos em sua mesma complementaridade, da história do Espírito, ante os quais tudo o mais se reduziria a vulgaridade: Europa, América e Indústria. Não esqueçamos o exagero como forma de sublinhar a verdade mais remota e dificilmente apreensível...

Se em Pascoaes aflora uma experiência da vida - de arcaico sabor popular e oriental - que poderíamos chamar carnavalesca, na qual realidade e ilusão, verdade e falsidade, se confundem num universo em que tudo só o é sendo simultaneamente o seu outro, o seu visionarismo abre sempre para um sentido de redenção universal pela conversão e potenciação extremas da energia do próprio delírio originário. Convertendo a messiânica busca de instauração terrena do Reino de Deus - emblemática da nossa cultura na mitogonia e hermenêutica quinto-imperial que procede de Gil Vicente e Camões para Vieira, Pessoa e Agostinho da Silva - na tarefa de redimir o imperfeito Deus criador e criar um "novo Deus Infante", concebido no homem pelo ventre virginal da Saudade, ou de assumir no Deus anterior e posterior a tudo o "único ateu perfeito" - o que José Marinho considerou a sua mais profunda intuição - , Pascoaes é hoje, na transição da teologia para a teurgia e o "ateoteísmo" a-teológico, o mais genial e profundo dos nossos poetas metafísicos, o mais poderoso demiurgo da história secreta, onírica e mítica de Portugal e um dos mais desassossegantes desestabilizadores de consciências que visita este mundo de aborrecida gente razoável. Até ao momento ofuscado pelos modismos literários das vaidades urbanas e cosmopolitas, que, sentindo as armaduras intelectuais a romperem-se aos golpes do estro selvático, fizeram de Pessoa repasto dos academismos pessoanos, está por desvelar o fundo nexo entre as obras dos dois grandes poetas, apurando para além da diversidade formal a profundidade essencial das convergências e divergências. Decerto então surgirão um Pessoa e um Pascoaes que se acompanham e separam em muito mais e muito menos do que actualmente se crê, mas, justiça se faça, difícil será encontrar um grande tema pessoano - a começar pela denúncia da ficção da unidade e identidade do ego onto-psicológico - que não tenha sido antecipado e até excedido em profundidade, não em diáfana e perfeita expressão, pelo “pobre tolo” do Marão, com a nítida vantagem de na poesia deste perpassar a vertigem do Infinito cósmico, graça concedida pelas rústicas Musas ao enamorado calcorreador de penedos e fragas e que as Tágides não lograram fazer romper através das densas paredes mentais dos quartos e cafés lisboetas...

in Paulo Borges, Pensamento Atlântico, Lisboa, Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 2002, pp.155-157.