O CAMINHO DA SERPENTE

"Reconhecer a verdade como verdade, e ao mesmo tempo como erro; viver os contrários, não os aceitando; sentir tudo de todas as maneiras, e não ser nada, no fim, senão o entendimento de tudo [...]".

"Ela atravessa todos os mistérios e não chega a conhecer nenhum, pois lhes conhece a ilusão e a lei. Assume formas com que, e em que, se nega, porque, como passa sem rasto recto, pode deixar o que foi, visto que verdadeiramente o não foi. Deixa a Cobra do Éden como pele largada, as formas que assume não são mais que peles que larga.
E quando, sem ter tido caminho, chega a Deus, ela, como não teve caminho, passa para além de Deus, pois chegou ali de fora"

- Fernando Pessoa, O Caminho da Serpente

Saúde, Irmãos ! É a Hora !


sábado, 17 de abril de 2010

meu amor camponês

meu amor camponês
não me abandonou de vez

às vezes telefona
dos trabalhos no campo
de mondar as searas
de ervas de balanco

diz coisas sem sentido
como chuva tempestade vento
mesmo que não lhe dê ouvidos
tudo o que ela fala entendo

espalha-se pelo astro
um ácido cheiro a cio
que me entra pelas narinas
como odor de lodo em estuário de rio

entre o pólen das favas
e o rubro escandaloso das papoilas
meu amor transpira cheiros de ervas bravas
arrulha-me recados como se fosse rola

evola-se no ar até chegar a mim
quando ela telefona tolda-se a atmosfera
as manhãs parecem nunca mais ter fim
meu amor camponês é mãe da Primavera

2 comentários:

Rui Miguel Félix disse...

Li(n)do!

Abraço Platero.

platero disse...

RUI

é muito bom que tenhas gostado
não é menos bom que mo tenhas dito

abraço