O CAMINHO DA SERPENTE

"Reconhecer a verdade como verdade, e ao mesmo tempo como erro; viver os contrários, não os aceitando; sentir tudo de todas as maneiras, e não ser nada, no fim, senão o entendimento de tudo [...]".

"Ela atravessa todos os mistérios e não chega a conhecer nenhum, pois lhes conhece a ilusão e a lei. Assume formas com que, e em que, se nega, porque, como passa sem rasto recto, pode deixar o que foi, visto que verdadeiramente o não foi. Deixa a Cobra do Éden como pele largada, as formas que assume não são mais que peles que larga.
E quando, sem ter tido caminho, chega a Deus, ela, como não teve caminho, passa para além de Deus, pois chegou ali de fora"

- Fernando Pessoa, O Caminho da Serpente

Saúde, Irmãos ! É a Hora !


terça-feira, 5 de agosto de 2008

Tempestade no mar


Um vento a soprar nas sandálias do tempo é um deus erguido em voo a sobrevoar o futuro. Será que o som da floresta a arder recebe na boca o voo de um deus ainda mais estranho e terrível? Que fazer nesse momento com os versos? Cantarei com as árvores a sua densa sombra morta? Passarei com os rios, no destino corrente do seu leito? Deixarei o meu corpo arrastar-se com as pedras para depois ser cuspido pela fúria do mar contra a falésia do esquecimento?

Tudo isso faz a forma do vento desejar ser barco. Faz da madeira o mastro que o marinheiro sobe, para ver se há palavras navegáveis para devolver à invisível força que nos leva na corrente. Haverá horizonte para além das montanhas? Haverá, para lá do medo, alguma ilha acordada da tormenta das águas?

Das luzes mortas do farol, o negro espectro dos céus cai no grosso mar enegrecido e irado. No tempo de morrer, que palavra de luz lançar ao céu nocturno? Que farei com as palavras afogadas? Devorarei o deus antigo ou morrerei na praia?

Gritarei até perder as forças, por uma palavra inflamada? ou selarei para sempre a boca? O vento devolverá as sandálias do pescador. A floresta dormirá nos olhos de um deus escondido. As árvores, os rios e o mar receberão o meu corpo mudo e um deus soprará uma palavra de vento para dentro dos meus olhos nascidos. Depois da morte, uma palavra será uma pedra dura de silêncio sob a tempestade dos céus?

Quem cantará, agora, essa palavra às sandálias do tempo? Para que, lançada da falésia, uma águia erga na plenitude pacificada da minha morte, uma palavra nova para amortecer a dor. De uma forma ou de outra, estamos todos mortos para as palavras que não voam. Que anjos do futuro chegarão para cobrir de sombra o corpo da Saudade? Em que sopros regresssarei?

Íris, Deusa do Arco-Íris











O tempo conduz a água da vida a unir-se numa só taça... só a água que não se perder no ar continuará a pertencer ao mundo visível.

O Rei não é ideal: é Real

O maior ideal não é uma ideia: é um real inimaginável, "inidealizável", pois o Real arrasa qualquer ideal. A luta por um ideal, contra o que é real, é viver pelo que é servente: o Homem racional serve o servente, ignorando que é Rei.

O meu reino não é deste mundo inundado de ideias de homens, o meu Rei é Real: vive simplesmente, É sem porquê.

segunda-feira, 4 de agosto de 2008

Cor-por-tug-al: a cor de Portugal

Portugal viveu sempre próximo do mar-sentimento de que foi gerado, a identidade portuguesa mantém-se ligada à sua origem, porém, mantém-se confundida por ventos-ideias que sopram de fora e que se perderam há muito da sua essência marítima-sentimental. Falta apenas a Portugal o reconhecimento de si próprio, deixar-se levar pelas ondas do seu mar, seguir o único caminho que lhe pode fazer sentido, o do sentimento nascido do mar do seu corpo.


















"E a nossa grande Raça partirá em busca de uma Índia Nova, que não existe no espaço, em naus que são construídas «daquilo de que os sonhos são feitos». E o seu verdadeiro e supremo destino, de que a obra dos navegadores foi o obscuro e carnal ante-arremedo, realizar-se-á divinamente."
Fernando Pessoa, "A Nova Poesia Portuguesa no Seu Aspecto Psicológico", publicado em A Águia, nº 12, II série

O cais de Belém da partida será o mesmo da chegada... o cais Absoluto, que está para lá de tudo, por conter em si o mundo.
A Nova Índia a descobrir é Portugal.

Mensagem do Encoberto

Fotografia: Will Sanders - Storm, White Sands

D. Sebastião

Sperai! Caí no areal e na hora adversa
Que Deus concede aos seus
Para o intervalo em que esteja a alma imersa
Em sonhos que são Deus.


Que importa o areal e a morte e a desventura
Se com Deus me guardei?
É O que me sonhei que eterno dura,
É Esse que regressarei.

Fernando Pessoa, Mensagem

Os Cães de Iggy Pop e Padre António Vieira

No ensaio Dois Cães, Alcir Pécora diz sobre o cão que:
"na hora da identidade em perigo, o animal latiu no sermão de Vieira e também na voz de Iggy Pop" (...)

"O primeiro (Iggy Pop) berrava que queria ser o meu cachorro, a qualquer preço; o segundo protestava reiteradamente ao Superior dos Jesuítas na Província de Portugal, quando se encontrava na iminência de ser expulso da ordem por conta das várias intrigas políticas em que se envolvera, que preferia ser um cão à porta da Companhia de Jesus do que receber a máxima investidura eclesiástica em Portugal. De fato, El-Rei lhe oferecera qualquer posto, como compensação do afastamento da ordem." (...)

"Ambos, em algum momento de sua vida, julgaram que um cão era a melhor figura de sua identidade em perigo, e então acharam que deveriam repeti-lo para mim, sincronizando tempos, lugares e línguas distantes. Fizeram isso uma vez, outra vez, e depois por dias e anos a fio."

Vejam também o rockeiro de 61 anos aqui a berrar I Wanna be Your Dog, numa excelente actuação em Bruxelas perante um público extasiado e animado como se estivesse a ouvir um sermão do Padre António Vieira

canção de adolescente

que nunca amar nos canse
e o mundo mude:

e cada um de nós ajude
e o mundo avance

e cada um de nós avance
e o mundo ajude

(finais de anos 70)

A Ilha das Flores

A luz que vemos é sempre um reflexo do que está no interior dos nossos olhos, porque o que vemos nunca é o que está fora, mas o que está nos nossos olhos. Por isso, o Sol que vemos é sempre o Sol que está dentro de nós. O Amor faz-nos viver fora o que está dentro de nós, pois o nascimento de uma criança é a reprodução externa do que é interno aos pais.
No entanto, o Homem continua a viver através do seu interior e não através do verdadeiro contacto entre este e o exterior, isto é, ainda não nasceu de si mesmo, só então poderá viver inteiramente a plena união dos seus dois mundos, ao viver na flor da Terra - rosa, asor, Açor-es, em que semente e fruto se juntam, quando o cristalino do seu olho se unir à córnea, quando a Lua se unir ao Sol, ficando apenas a íris, cumprindo-se o arco-íris de modo total, a Terra.

Globo ocular terrestre...


















Assim como há ausência de luz no interior do nosso olho, assim o é no centro da própria Terra, por isso, o Sol é o próprio centro da Terra.

A minha crença é a de ser sempre Criança

Posso falar a brincar porque sei que falo a sério, posso mostrar que sei porque sei que posso não saber.

Então porque o deixámos de fazer? Deixámos de falar a sério? Deixámos de saber que se pode não saber? Passámos a falar o que não cremos? Porque desensinámos a nossa Criança?

A Criança não precisa de fingir humildade, sabe que a humildade está em querer aprender com tudo o que vive realmente, em se fundir com o mundo - que é.

Pollock para a A. (I)



Esta noite Pollock não vai beber, não vai ver nem a neve cair, nem a névoa lavanda encobrir os rios. Esta noite Pollock vai chorar ao ouvir-te falar e as suas lágrimas vão pintar este quadro para ti, para a A.

Esta noite não vai acender o cigarro e olhar entristecido para as latas abandonadas em cima da tosca mesa de madeira onde só restos e só descuidos o angustiam. Esta noite Pollock vai pintar um quadro, com a cor da lata de tinta vazia, para ti, para a A.

Esta noite quando olhar a velha caveira que tem entre as caixas, os pincéis e os ácidos, as garrafas vazias, numa bebedeira de verão azul e amarela, A., Pollock vai rasgar na sombra e no inerte os contornos fugazes dos rostos atravessados pelo silêncio das aves que só existem na sua alma depois do álcool. Vai revisitar o teu.
As aves submersas no branco opaco da lua, no branco lunar da tela, em movimentos ilimitados e de aproximação visionária, entrarão para dentro do quadro vazio-pleno e deixar-se-ão tocar para tu os escutares no silêncio das noites, nas madrugadas de vendaval, no promontório onde como árvore cantarás não a solidão, mas a suspensão. As aves são para ti, porque as árvores são a habitação dos pássaros e também dos que foram inventados no caos criador, nesse caos para que apontas com as mãos e te entusiasmas em metáforas e cogitações. Sabes A., é nesses entusiasmos que pincelas com a mão de Pollock e consegues a aceleração para o seu ritmo primevo e originante.


Pollock para A.

Quando tu falas A., Pollock pinta. Começas com o olhar triste, acendes o cigarro, poisas o copo e soltas as palavras. Em ti as palavras não são signos, são movimentos e linhas, são borrões, são colorações, são febres, são calores, são erupções, e as cores mancham-nos o cérebro. Não se pensa o que tu dizes, vemos o que tu dizes, ruborizamos as cores com que dizes. A., quando falas a neve cai como nalgumas pinturas e há rios que correm para dentro de nós e não há tema, há implosão, há explosão, há deflagração. Há sequência não há encadeamento, há impulso, não há ordem, há reverberação não há consolidação. Há entusiasmo não há encomiasmo. É por isso que ouvir-te falar é ver Pollock a pintar. Quando tu falas Pollock não precisa de esperar pela catedral. Há uma catedral. A catedral do deus desordenado, do deus perdido atrás das formas, do deus hesitante do sentido, do deus que tem memórias aprisionadas no espaço e no tempo. E, largados por ti à porta da catedral, a uma catedral só com porta e sem paredes, sem altar e sem sacrifício, tu perguntas, como num conto de Kafka, como se abre a porta (?).
E eu não sei. Sabes por que não sei? Porque a porta da catedral és tu. E tu não és um livro para uma leitora, és um cometa, e o teu rosto branco tem uma cauda branca como não há lembrança de outro assim dentro dos céus da minha memória e eu fico à distância a receber o infinito que a porta suspende mas não contém. É por isso que, sendo uma porta, me ofereces o deserto por onde passam mais vezes os cometas de que o deus desordenado se esquece, quando desenha nas formas que desconhece as pontas das estrelas, e a luz lhe escapa não apenas em velocidade, mas em fuga. Depois olhas-nos e ouvimos Bach dentro das sombras entardecidas do teu olhar. Passam anjos de Rilke no ar, invisíveis mas tangíveis, e um deles pede que te leia alto um poema para descansares as mãos e o ritmo abrandar à porta da tua catedral sem rosácea, porque inundada da luz com que no deserto o sol rasga os olhos e os fecha para o oriente da vida insuspensa atrás de tudo e em tudo.

Esta noite, depois de discutir e partir algumas garrafas contra as paredes de madeira, de gritar para soltar o seu daimon, A. e Pollock vão conversar comigo junto à porta por onde passa um rio e um pescador, sentado e cego, desenha movimentos que são de Agosto e são Deus. A. olhará para mim e eu vê-la-ei em simultâneo no céu do verão, na tela de Pollock e nos movimentos do pescador. A tem escondido no rosto um cometa. E eu vejo-o/a e sinto a proximidade dos deuses. Depois fecho os olhos e oiço as vozes misturadas de Holderlin e Rilke. E a vida é um quadro secreto para revelar aos que encontramos ou reencontramos.



domingo, 3 de agosto de 2008

A Chama

Porém muito nos foi dado
De quanto é divino. A chama foi-nos
Posta nas mãos, e areias e correntes do mar.
Muito mais do que o modo humano
Nos são aquelas forças estranhas familiares.
E os astros diante dos teus olhos
Te ensinam, porém nunca chegarás a ser-lhes semelhante.
(...)


Friedrich Hölderlin, Hinos Tardios
Tradução de Maria Teresa Dias Furtado





Vou seguir a estrela guia e ver onde me leva este céu.
Quando e onde chegar, quero ver mais estrelas a brilhar.

Vou pegar em mim e vou mergulhar em mar alheio.
Vou chegar a outras costas, usar as correntes de mar salgado que existem... até chegar a outra praia, a outra areia, a outro porto de abrigo.
Nesse abrigo ficarei uma semana a saborear tudo de novo que existe. Vou ver novos sons, saborear outras cores, sentir novos sabores.
Provavelmente, uma areia mais quente. Estou curiosa :)

Vou lá ver como é, mas volto.
Volto sempre. Volto à minha praia, ao meu mar e estes grãos de areia que me rodeiam e me dão forma e cor e vida.

Desejo a todos os 'Emplumados' deste blog que, como eu, estejam em tempo de feriar... muita Paz e muita Luz, altos voos razantes (para poderem sempre poisar seguros), belos saltos no tempo e no espaço, alguns mergulhos (porque não?) em marés cheias e, alguns, em marés vazas, pouco vento acompanhado de areia, muito ar puro (para renovar artérias e sangue e vida).

Aos que ficam por cá, desejo muitas plumas, muitos altos e baixos que vislumbrados do horizonte sejam o mesmo que luz e mais do que sombra.

E tudo e tudo e tudo*

A Falta, a Rasura da Palavra


Para a Isabel, a agradecer o tudo que conseguiu para o poeta. Para a Luiza que traçou em azulejo o desenho para a moldura do quadro que falta e para os Paulos que o pintam no pensamento e contemplam a plenitude dessa falta desde a sua origem.

Falta um quadro, Isabel. Sei que falta um quadro, mas não sei qual é nem como ele é. Já olhei várias vezes para os três e... Mesmo mudo, o poeta haveria de ter um tom, um som, uma sílaba para cobrir o branco da tela; um travessão, como uma ponte, para atravessar a palavra e dirigi-la para o coro que são todas as pedras cantáveis que a montanha guarda. Ou os sons frescos do rio que alisa as pedras moventes debaixo do sol. Se eu fosse Gabriela soprava uma pedra. Do seu arder desenharia mil tonalidades e figurinhas em cadernos com veios de folhas e flores de silêncio em cima da estante. Esse seria o quadro que faltava… E haveria sempre luz para os candeeiros das mesas, e flores para as jarras. Haveria decerto uma casa feita de palavras e palavras a arder nas chaminés do Inverno. Mesmo mudo, Deus não iria deixar uma nota sem cor para o canto do poeta. Se eu fosse Matisse desenharia os corpos, a dançar em roda, em tons rosa sob um céu azul. Teriam os pés verdes, quando o arroz estivesse a romper, depois seriam de amarelo-torrado, os corpos da dança de roda, quando as palhinhas do verão se soltassem sério o vento a bailar com as sementes, e saltariam para os pés dos dançarinos, em movimentos leves, vendo-se cair... Se eu fosse Kandinski, haveria festa de cor. As casas garridas fariam contraste com o negro dos ramos das árvores de Inverno, e o mundo seria pintado de pinceladas grossas para as palavras mais pesadas, e de geometrias sopradas em todas as direcções do espaço, pelo geómetra do mundo, para as palavras soltas do poeta. E haveriam de traçar na boca do poeta o ritmo dos pés dançantes de Matisse….

Se eu fosse Delvaux, uma mulher de olhos grandes e vazios, como pedras mudas, haveria de esperar na estação a viagem que nunca acontecia… E esperaria com a mesma fé essa partida ou essa chegada confundidas numa lágrima que o poeta não soube chorar. Mas se eu fosse Chirico, desenharia no centro da praça dois amantes sem rosto beijando-se no silêncio da tarde, a arder ao fundo do quadro. Mas eu não sou nenhum deles. Sou o quadro que falta. Sou um poeta sem palavras à procura de uma falta. Falta um poema, para esse quadro, uma sinfonia para esta nota; uma sílaba de sal para o mar; um grão que fosse, apenas, uma partícula a pairar na distância de um milheiral em chamas; uma asa salgada a acenar na distância; um pássaro para guardar na asa o tesouro da incompletude do poeta… Mas há uma falésia que o céu atirou para o esquecimento; um barco de Renoir que se afasta nas águas do Sena, levando dentro o meu vestido de seda para as horas do esquecimento de mim…Uma voz de guitarra para tingir a água; um país sem fronteira cheio de braços; um saltimbanco de Picasso, um cavalo azul sob fundo azul e sol e tudo, a romper a superfície do quadro do esquecimento. E a tristeza é uma mulher de negro a chorar na praia, e podia ser em Portugal, no mundo, nas galáxias que moram na lonjura de uma palavra para acender dentro de mim, fora de mim, uma cantografia que não fosse este balbuciar de prece incerta a um deus que dorme; uma partitura sem palavras nem sons… A tua voz, mãe! A tua voz cantaria o quadro que falta e eu não me deixaria cair pela rede desta tecitura sem texto, feita de ausência e de memória. Lembro um quadro… E as mãos haveriam de segurar outras mãos e depois largá-las no espaço cartografando-as na cantografia da paisagem sem quadro.

A-guando... até às Portas do Sol: o Fado Tropical da Terra

Quando o Ser deixa de se sentir
apenas interior e se sente exterior,
torna-se no que é, os Dois.
Quando o Homem deixa de se sentir
apenas finito e se sente infinito,
regressa ao que é, a Deus.
Quando a Terra deixa de estar
separada e volta a unir-se,
nasce para o que é, o Paraíso.
Quando Portugal deixa de ser
o que pensa para ser o que sente,
acorda para o que é, o Brasil.

Em sequência ao texto da Saudades... :)

A Voz do Sexo é a Voz do Céu, do Cio: a de Deus, de-o Dois. É pelo sexo que Deus brinda a humanidade com a Eterna Criança que vive no fundo de cada ser humano.
Desde sempre, o que o Homem finge desprezar é aquilo que ainda o mantém vivo: o regresso do homem ao interior da mulher pela penetração sexual... do filho ao ventre da mãe, da dor ao interior do prazer, do ódio ao interior do amor, da Terra ao seu interior... no Sol, da mortalidade ao interior da imortalidade.
O que faz rodar a Terra, a chave da Porta do Sol, do Paraíso: o sexo entre os opostos do mundo.
O Útero da mulher representa a matriz para a qual a Terra caminha, onde tudo é Um, onde os sexos se voltam a juntar*...
|*Hermafrodita, do grego, Hermes, Mercúrio + Afro-dite, Vénus.|

Fado Tropical da Terra
Portugal é o que o Novo Mundo está... sendo.
O sentimento português é o da união de tudo, é o de fusão com o todo: a origem Lusa é o infinito, o seu futuro o eterno.
O português só se sente através do intenso, do total, do extremo, tem sede do ilimitado, da liberdade plena! Não se contenta em estar contente, precisa de ser o que o contenta. Não deseja o que é possível, deseja ser o impossível. Não quer ver o que é o mundo, quer-se ver mundo. Não pretende amar o mundo, pretende ser o Amor do mundo. Não nasce para viver no mundo, nasce para vivê-lo. O sentimento português é o de ser a Eterna Criança do mundo, que não julga o mundo nem lhe exige nada, de ser tudo e nada, de ser o que é: Deus, o Se-r-Bastião do mundo.
Portugal é o símbolo do regresso do Pai e da Paz à Humanidade, é o Coração do Terra, pelo fogo do Espírito Santo, a redenção total da humanidade pela sua maternidade: o nascimento do Novo Homem, a Criança Portuguesa à solta, transparente, legítima, verdadeira por estar em todo o lado e não ser de nenhum.
A essência do Novo Mundo é este vazio imenso, que nos-me enfada, me contraria e contradiz, que me complementa e completa no que sou. A partir do qual canto a agonia deste Amor que me mata e faz viver, que me envelhece e renova, que me entristece e alegra... ao estar o Filho Luso no Novo Mundo e sendo a Mãe portuguesa ainda do Velho, estando a viver o Filho o que a Mãe é, estando a Mãe sentindo o Filho dentro dela e estando ele fora. Portugal só será quando não for, porque quando não for Mãe será o próprio Filho, estará novamente dentro de si, voltará a unir o ser com o estar, regressando ao nada que é tudo, em que lugar e tempo não existem, em que o Amor é Rei, em que homem e mulher estão juntos, em que os opostos voltam ao que são, em que o instante da Aurora não tem princípio nem fim, em que tudo É Um: A Ilha dos Amores.

sábado, 2 de agosto de 2008

O Padre Giovanni di Lorenzzo (À maneira de Bocaccio)

(Agora que o Paulo está de férias e o Casto Severo tem estado ausente (risos...) vou publicar aqui um pequeno e malicioso conto, à maneira de Boccacio. Espero não ferir nenhuma suceptibilidade e não aniquilar por completo a minha reputação...)
Giovanni di Lorenzzo, um jovem padre bem dotado e bem casado (com a Santa Madre Igreja, claro está!), resolve regar uma flor e provar as delícias do amor.

Não sei se em Messina se em Verona – os testemunhos aqui no povo divergem – vivia um padre dedicado às orações e à sua casa e propriedade. Casto e puro, o bem dotado padre tinha por hábito, todas as noites, à hora nona, passear pelo jardim de sua casa, para tomar o fresco da noite e agradecer bênçãos aos seus inúmeros santos de devoção. Tantos eram os agradecimentos que o mantinham puro.
Numa dessas noites de agradecer a Deus e aos santos, ouviu um rouxinol piar, atrás dum grande vaso de hortênsias que se esquecera de regar nesse dia. O jovem Lorenzzo pensou e disse: «Olá, um rouxinol lembrou-me o que eu tinha que fazer: regar as pobres flores…» e pôs-se a agradecer e a rezar também pelo rouxinol e por todas alminhas que pisam a terra e também pelas que voam nos ares.
Foi buscar o regador e dirigiu-se para o fundo do quintal, a cantarolar de alegria de vida boa e sã, o que não era seu hábito, mais piedoso, severo e reservado.
– Vem cá regar-me, padre! – Ouviu uma voz dizer alto – Alto lá,!... alto aí, que isto é milagre!
Foi-se chegando, de regador na mão, para regar a flor, quando sentiu que uma mão lhe segurava o dote e não o largava. O santo padre sentiu desejo e prontamente deu o que lhe era pedido. Dormiu a santa noite regalado.
Ao outro dia, chegada a hora do seu passeio, o jovem sentia em si a chama de homem acender-se de novo e o perfume da terra a chamá-lo. Depois de agradecer aos santos, não esquecendo esta bênção secreta, ouviu uma voz, desta vez mais forte, mais grave, que dizia mais ou menos as mesmas palavras – Vem cá regar-me, amor! – Aqui o padre benzeu-se e receou antes de se aproximar do vaso, pois já era noite, não fossem os santos estarem a dormir e não poderem atender ao temor da sua alma.
Diz-lhe o homem: «Já vejo, padre, que encontraste o céu.» O padre teve que dizer que sim e, para evitar o escândalo, pediu à testemunha, um pobre jardineiro das terras vizinhas, que guardasse segredo do que tinha visto. O homem fez com ele um trato a contento de ambos. Aos dias pares, faria ele mesmo as delícias de Hortênsia... e nos ímpares podia o padre solicitar os seus favores. Isto feito com o consentimento prévio da mulher, vistosa, mas viúva e sozinha, que se ia também regalando com o trato. Assim, ficava o padre com os dias pares para agradecer e os ímpares para implorar o alívio que com avareza reclamava. Foi assim que viveu vida feliz, não se esquecendo nunca de agradecer a todos a ditosa sede das flores e o terno canto do rouxinol. Quanto à hortênsia, cada dia que passava estava mais viçosa.
Cada onda do mar é um batimento do coração da terra.

RO(U)SAS


as minhas rosas são minhas/
como que dadas pelo céu/
-não minhas porque de mim/
sim porque minhas de eu//

Mari-Sol

Ao passear à beira-rio
vi que a luz do Sol me seguia...
foi então que descobri
que era o Sol que me via
por ser eu o Sol que me ilumina.














Não são os girassóis que seguem o Sol, é o Sol que segue os girassóis, pois cada girassol é o -seu- próprio Sol.

Boas férias aos sortudos, à beira-mar de preferência...

sexta-feira, 1 de agosto de 2008

O Poeta (Saudades, o que consegui...)













Quando o rosto do poeta se pinta de verde, é porque aconteceu a Primavera no céu e as planícies celestes auguram boas colheitas para os vates da Terra. Famintos, pintam o rosto com os reflexos dos arrozais divinos: os poetas têm no rosto as cores do que olham e do que chamam. Olhos e boca abertos para receber os versos verdes, as hastes frágeis com que o vento faz largar os grãos do arroz dos deuses. O rosto do poeta é um campo verde, um arrozal intenso, um arrozal extenso, grãos reunidos à volta do olhar, à volta dos lábios entreabertos. Rosto de arrozal, chão de grãos divinos, o poeta é o mondador do arroz espiritual.

Na cabeça do poeta, como no corpo do bailarino, não há ordem. Não há direcção. Há música. Entregues ao ritmo, vão os poetas em busca do indireccionado. Porque o poema vem a caminho, mas não traz direcção. É preciso, por isso, olhar e chamar para todos os lados. O poeta não sabe o que ouve, nem de onde ouve. O silêncio e o longínquo não têm lugar, mas vêm do alto: de grãos de silêncio, de grãos de lonjura se compõe o poema.

No corpo do poeta um geómetra enlouquecido só consegue linhas e pontos em fuga. No corpo do poeta mora um geómetra dado a traçar irregularidades: os círculos saem inacabados, as linhas quebram-se antes do fim, os movimentos interrompem-se, os segmentos tornam-se rectas, o ponto não estabiliza, a linha desfaz-se, foge, a irrequietude da forma dilacera o geómetra mas revela o poeta como caosmos.

Quando o corpo do poeta se pinta de azul, é porque o céu se desbotou sobre os corpos da Terra. Nus, os poetas, como mendigos, recebem a cor que o divino doa a quem elege. O poeta recebe a cor, mas o tom no poeta é um som. O som uma profecia intraduzível. O som indecifrável é presença do absoluto. O poeta deixa-se ficar, queda-se, para que os tons e sons se entrelacem na relação com os elementos à volta, e em volta da terra e do céu, de homens e deuses, o poema enlace paisagem e ritmo, se componha paisagem-ritmo.

Depois o poeta senta-se à espera da voz que o cante e sonha as noites das paisagens seguintes. Porque um poema é um sonho que repousa numa paisagem cantável. Num arrozal permanente em que o coro, a corografia, é feita por pássaros nas mãos orquestrais do vento. Uma paisagem permeável ao vento e aos sopros é uma paisagem poética. O poeta espera-a em indigência porque só uma paisagem solar ou lunar preenche a sua necessidade de excesso. O poeta não precisa de sobreviver, mas de saber viver. Só as paisagens musicais têm os grãos que nutrem a fome do espírito. Grãos de arroz e grãos com tons e sons. Grãos de trigo num campo com corvos, grãos guardados e perdidos na falésia escarpada de cré onde as palavras são grãos de areia no baile inconstante do vento e do tempo. O poeta sabe que é a voz de outrora que reúne e afasta os grãos que revelam a paisagem arquetípica de que a alma tem nostalgia. O poema traz essa morada. O leitor terá que procurá-la com a alma liberta dos lugares e das posições. Também a sua cabeça se deve desprender do que a prende, a fixa aos lugares e aos tropos. A leitura nada mais é do que a escuta das paisagens invisíveis e sibilantes que atravessam e se configuram musicalmente na alma. Sabe que lê aquele que escuta e se faz ouvir a si com o texto. Ler é sobretudo cantar. É por isso que, em torno do livro, nasce o ensaio, a tentativa de acertar com a voz que canta. E escrever uma corografia: fazer a grafia das vozes em coro. Oiço com atenção. E sei a paisagem que são em mim. Cantografia.

Esgotável

A minha vida para nada.
Reclamo uma escala de valores absoluta.
(Por vezes consigo escrever muito. Nessas alturas, claro, forço-me a escrever. Fatigo-me, aflijo-me para nada.
No meu apartamento. Estou aqui no meu apartamento. Sim, isso, no meu apartamento de hoje, em casa, que náusea...
É louco, completamente louco: como compreender a palavra "inesgotável".
Estou esgotado, estou esgotado.
Como limitar o ilimitado.
Apenas procuro compreender o infinito. Eu, que desejava que me explicassem o que é o infinito. E coloco-me frente-a-frente com o infinito. Agarro-o pela cintura. Sem armas. Imagino o inimaginável. Esgoto-me inesgotável. Concebo o inconcebível...
Ah! Saber rezar... Nada mais... e quedar-me sossegado.
Estarei a ficar louco?
A fotografia, do senhor Escher.



Criação


A nossa condição existencial é tão baixa e tão pequena que só pode ser fruto duma queda.

Vera-mente

Cada vez que a mente pensa separada do corpo, não nasce, cada vez que pensa dentro do corpo, nasce efémera... ao pensar através do mais interior do corpo, o exterior, nasce eterna.

O prob-lema do português...

O verdadeiro artista não é o que faz da arte a sua vida, é o que faz da vida a sua arte, o verdadeiro poeta não é o que faz poemas na vida, é o que faz da sua vida um poema. Porque sabe que a sua arte-poesia é sempre filha, e que só pode existir unida à mãe viva, ao mar vivo - à matéria e ao movimento da vida.
A mãe de Portugal quer ver os seus filhos vivos como ela - representando a mãe o amor infinito, por isso o mar chama-os continuamente a descobrirem a sua origem plural e a ela regressarem...

La mer di ci c'est plus belle que la mer de la, porque o mar daqui continua a querer ser mar, o mar de lá abandonou-se nas suas ondas, que não o sendo mais se perderam... no ar - sem disso se darem conta. O mar daqui quer nascer vivo de sua mãe, e só nascendo sendo-a ele o consegue...

A minha mente só quer nascer sendo o meu corpo.*

|*- Mas isso já ela o é...
- É?...
É esse o prob-lema do português... é perceber intimamente que ser e estar ainda não estão a ser bem o mesmo, esse mesmo que são.|

a última palavra

Não é nunca a última

Paixão. Persiste,

Eco do sol a depor o dia

Sobre o musgo do planalto:

a

Orar

Em silêncio repetindo os nomes,

Mergulhados na distância dissolvida,

Asas paradas, repetindo os voos

Longitudinais

Junto aos rios

Que ainda não viram o mar;

O peso das águas, constritivo

Da resistência maleável das raízes

Na terra onde nascemos,

Vendados os olhos,

Cegos de caminhos

Que nunca se descobrem.

Não é nunca a última

A palavra.

quinta-feira, 31 de julho de 2008

O Presidente acabou de falar ao país

O Presidente Cavaco Silva acabou de falar ao país, numa excepção que gerou grande expectativa sobre a razão. Cheguei a pensar se seria para declarar a extinção de Portugal ou a instauração do Quinto Império, o que poderia ser o mesmo. Cheguei a pensar, mais a sério e num assomo de esperança, se seria para se solidarizar e responsabilizar pelo crescente sentimento de mal-estar, angústia e infelicidade que se abate sobre o povo de que é o supremo representante e que cada vez menos espera alguma coisa dos seus governantes. Cheguei a pensar que seria um assomo de humanidade, consciência e alma. Cheguei a pensar que escutaria palavras vindas do coração.
Não. Apenas uma questão burocrática, por mais importante que a seu nível seja, num discurso soletrado como um autómato e com a postura rígida de quem se comporta como se o fosse. Apenas o mesmo de sempre.
Tranquilizemo-nos. Portugal não acabou, o Quinto Império não foi instaurado e tudo está como antes. Podemos dormir descansados. O Presidente não teve uma crise de identidade e o povo pode continuar infeliz à vontade.

Uma paciência selvagem trouxe-me até aqui (Adrienne Rich)

...e uma impaciência não menos selvagem me leva daqui, para as falésias de Odeceixe, para traduzir os ensinamentos do Dalai Lama sobre Nagarjuna em Nantes, para falar de Eckhart, Longchenpa e Fernando Pessoa em São Paulo e de Vieira em Belo Horizonte.

Para quando a paz e o agir não agindo a que exorto!? Para quando ter juízo!? Para quando não perguntar mais para quando!?

Estarei felizmente quase sempre desligado da net durante o mês de Agosto e desejo-vos serenas inquietações, sábia loucura e doce e terno e amoroso e feliz Despertar!

Abraços

Paulo

Divagações

A passagem por este mundo é o mistério por desvendar
fio que se desenrola sem se conhecer princípio
meandros enrolam os dias e os confundem nas trevas.
Entre tempos retorna-se a esta praia ocidental
escuta-se o rumor das ondas em espuma desfeita abruptamente
como se do fundo dos tempos nos tentasse relembrar.
Teme-se, foge-se sempre de algo
passam rostos que não reconhecemos, vidas que esquecemos,
passamos por nós sem repararmos
Caminhamos como se algo faltasse, nas profundezas do ser
quanto tempo demorará a reencontrar?
Estranho sentimento de passar, de existir, efémera maré...
Contemplação.
Universo observa-nos anima de todos os seres,
espera por nós viajantes no sempre em busca de algo.
Só esta praia ocidental devolve a presença de tudo
fugazes sulcos no encrespado das águas derramadas no éter.
Ó civilização, cobiça, aqui não encontram lugar!
Tudo se consome em névoa onde já não se decifra a tinta.
Deste Cabo onde se avista o nada
nas falésias despenham-se trevas e refaz-se em apoteose a luz

E os sonhos serão ilusão?
Com os sonhos aprende-se a conhecer a alma e a reinventar o mundo
sem querer ou não querer, acesso ao poder do mais profundo
sem obstáculos, energia emergente de todas as fugas.
É além que tudo se mostra por dentro das máscaras
e o que se revela por amor nada anseia receber.
Amor fiel a si próprio sem renúncia à fonte geradora,
dócil vontade escapando à tirania que nos disciplina
para obedecer e cada vez mais reprimir o pulsar criador.
Carregamos fardos de tristeza,
olhemos a fera aprisionada
ora ruge incontrolável ora padece submissa sob o chicote
domador, de nós marionetas, iremos consentir?
Se escolhermos aniquilar os impulsos,
cruéis seremos e amordaçados,
sem a força dos sentidos débil é a razão.
As árvores oscilam ao sabor do vento
a seiva torna-as flexíveis e os ramos não quebram,
Amor é seiva da árvore que somos
quem o sente é forte, quem o seca morre.
Os homens separaram o corpo da alma, destruíram o Amor
e o mundo mergulhou na confusão
não o caos primordial, mas o caos surgido de conceitos
e preconceitos reprimindo o sensível, padronizando atitudes,
engrenagem social que afastou o humano da Natureza
separando-o de si-mesmo distorceu a percepção.
Talvez um “Guardador de rebanhos” cruze o nosso caminho
como aquele que despertou em Alberto Caeiro:
“Eu não tenho filosofia: tenho sentidos...
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,
Mas porque a amo, e amo-a por isso,
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe porque ama, nem o que é amar...
Amar é a eterna inocência,
E a única inocência é não pensar...”
Urge libertar o Amor aprisionado
da condição de objecto que se dá ou recebe.
Basta apenas amar sem posse e sem limites,
e não “perdidamente” como quis Florbela, antes
reencontradamente sem ilusão nem desilusão
haja quem se entregue liberto ao Amor
amando a liberdade do ser amado.
Ódio é prepotência que escraviza,
Amor pleno libertará a humanidade da escravidão.
De Agostinho o lema:
“A paixão que temos de pensar é o amor activo, o amor criador”.

O Silêncio da Montanha do Poeta


O que buscas, poeta, na luz que do cimo te projecta em sombra?
Que saudade cresce no lugar do céu e se abre em luz candente
No teu peito de arqueiro do céu? Esculpes na pedra o ouro, e na mente
És a paisagem crescente da montanha tocada de silêncio.

Que chuva de setas prateadas atira o arqueiro da festa do céu
Para a boca do poeta?! O arco do poeta é feito de água de lua
E a sua seta é um desejo vertical de espaço e da lonjura;
A sua imagem é um perfil de píncaros na solidão da montanha.

Para encontrar o poeta, é preciso subir à montanha verde,
Para acertar na cor o pintor renasce poeta; para pintar o céu
O poeta faz-se arqueiro do sonho, senhor da distância, mendigo do ar;
Eco de ser, voz do silêncio que lhe acerta no peito de pássaro
Recortado a negro na vastidão imensa da alma iluminada.

A onda e o mar, a mente e o corpo, viver é sur-far

O mar que gera as ondas é o mesmo mar do amor que gera o Homem. Cada onda forma-se porque se deixou formar.
Do mar se forma a onda, da mãe se forma o filho, do corpo se forma a mente, de que serve querer o Homem controlar o próprio corpo que o forma? De que vale a onda querer controlar o mar? O Homem que se pensa como onda perde-se do mar que é, reduzindo-se a uma ideia sem corpo, a uma onda sem mar.
O Homem esquece-se que não é só quando nasce que é formado pelo corpo da mãe, que continua vivo por estar sempre a ser formado pelo mar do seu corpo.
Agora percebo o meu desprezo quanto à actividade humana, não são mais do que ondas do mar, que ainda por cima se enganam a si mesmas como sendo algo mais do que o magno mar que as originou. O se-r-eno mar é o meu ser real, o horizonte que o une ao céu o meu único destino, ali onde o sol nasce rei, a ilha do sul onde veramente a cruz da vida floresce.

com dedo de camarada barbudo


rosas (só - para não dar bronca)


ro(u)sas

Summertime









Sinais de um penetrante abandono...

deus absconditus

quarta-feira, 30 de julho de 2008

eu tenho um deus

Toda a gente tem um Deus
Toda a gente
Desde sempre
Teve um Deus

Um Deus que tem uma casa própria onde morar
Mesquita Igreja Sinagoga
Um Templo

Eu tenho um deus menor
Que não se importa mesmo nada que o escreva com minúsculas
Sem casa, sem um tecto
Um sem-abrigo
Um cívico contudo
Que não passa por mim sem me cumprimentar

É baixote e magro
Com as calças remendadas nos joelhos
Barba por fazer
Não a longa e bem cuidada barba dos Deuses únicos
Dos que crêem

O meu deus não é nada mediático
Ninguém o pinta nas paredes ou em telas
Não vem nos calendários
Dos Conventos de religiosas
Dos Lares da terceira idade

Ou de qualquer sapateiro de Bairro
Sacrificado no interior de uma porta de madeira

Não me exige sacrifícios
Nem incensos
Nem a crueldade de caminhar descalço sobre espinhos
Nem colectas espúrias
Para fins quantas vezes duvidosos

É um deus camarada a que nada peço
Apenas agradeço
De manhã quando acordo porque acordo
À noite quando me deito
E adormeço

Vejo-o com frequência ao longo do meu dia
Ao trabalhar na horta
Ao passear no campo

Quando os pássaros indiferentes
Em vez de se assustarem
Cantam

Quando podo as roseiras
Ou planto os meus bolbos de tulipas
Ao mondar as ervas dos canteiros
Quando acendo o lume
E as chamas sobem tranquilas

Não me exige muito
Como eu lhe não exijo nada
Assim nos entendemos
-sem subordinações
Como bons camaradas

eu gosto do meu deus
-com quem faço
intermináveis caminhadas

Da utilidade do abandono que se deve realizar interior e exteriormente

"Deverás saber que, nesta vida, nunca uma pessoa se abandonou assim tanto, que não tenha achado que se devia abandonar ainda mais. Existem poucas pessoas que respeitam isso correctamente e nisso são constantes. É uma troca de valor igual e uma justa transacção: tanto quanto tu saíres de todas as coisas, tanto quanto, nem mais nem menos, entrará Deus com tudo o que é Seu, contanto que tu te tenhas inteiramente despojado do que é teu. Começa pois por aí, e expende nisso tudo o que conseguires arranjar. Aí encontrarás verdadeira paz e em mais lado nenhum.
As pessoas não necessitavam de reflectir tanto sobre o que deveriam fazer; elas deveriam, pelo contrário, reflectir sobre aquilo que elas são. Ora, se as pessoas e os seus modos fossem bons, então as suas obras poderiam refulgir limpidamente. Se tu fores justo, então as tuas obras também serão justas. Não se pode pensar a santidade com fundamento numa acção; deve-se, pelo contrário, fundamentar a santidade em um ser, pois as obras não nos santificam, senão que nós devemos santificar as obras. Por muito santas que as obras possam ser, elas não nos santificarão de modo algum, porquanto elas sejam obras, mas: tanto quanto nós formos santos e possuirmos ser, assim santificaremos todas as nossas obras, sejam elas comer, dormir, despertar ou seja o que for. Aqueles cujo ser não é grande, façam que obras fizerem, daí nada sairá. Reconhece, por conseguinte, que se deve empregar toda a determinação em ser bom, - e não tanto naquilo que se faz ou no modo de as coisas serem, senão em qual há-de ser o fundamento das obras" - Mestre Eckhart, Conversações Espirituais, 4, in Mestre Eckhart, O Abismo Eterno, antologia de tratados e sermões escolhidos por Paulo Borges e Jorge Telles de Menezes, prefácios de Paulo Borges e Jorge Telles de Menezes, tradução do alemão de Jorge Telles de Menezes, Lisboa, Mundos Paralelos, 2008 (no prelo).

As ideias i-nova-dora-s nascem de modo inconsciente

O corpo gera a mente, porém, quando esta está ocupada por ideias externas ou por pensamentos conscientes, não recebe as novas ideias criadas a partir do sangue vivo e verdadeiramente suas, não renascendo, permanecendo cega na escuridão das ideias velhas, mortas.

Heróis do Mar

Tal como o ar é formado pela água, a ideia é formada pelo sangue-sentimento, reproduzindo a própria origem, não precisando, nem podendo, condicionar o que a precede, visto ser apenas consequência e de ter deixado de existir esse mesmo sangue, ao tornar-se nela.
Pensar sobre a realidade, querendo sobrepor-se aos acontecimentos que nela ocorrem, é querer que o ar formado crie a água que o antecedeu, que a filha-ideia gerada crie a mãe-sangue, forçando o ciclo para que este retroceda, o que nunca pode acontecer, apenas podendo se criar outros ciclos.
A sociedade racional estabelece ideias sobre a realidade que toma como sendo guias para vivê-la, invertendo-se, pois é o cérebro que assimila as ideias digeridas pelo corpo.
A humanidade é guiada por homens que fingem que as suas ideias são assimiladas para lá do sangue do seu corpo: pelo sangue da realidade. Assim, o que fazem é programar a conversão dos alimentos pelo corpo da realidade, digerindo ideias de modo paranormal, querendo concretizá-las finalmente a partir do corpo da realidade. Ainda dizem que não há Heróis!...

terça-feira, 29 de julho de 2008

De(finição)

... é a lembrança do esquecimento e a esperança de a ele regressar.


sempre que vais à casa de banho pensas que estás grávida?


O meu professor de shiatsu diz que

as rebentações nas ondas das praias vão

embater cada vez sem mais resignação

contra camarins do favoritismo, contra os

modus-operandi estravagantes de arcebispos,

contra as trivialidades snobs dos deputados,

contra o agasalhado château dum leopardo

filistino en-vogue – paralítico napoleão rebaixando

reuniões sobre fisco infalível ou dumping social –

e contra as cúmplices matracas dos crachás.


Após as provações de permissividade inibidora

virá a papeira avant-garde desmantelar a perícia

das boulevards deflectoras da cidadania global,

com encorajamento de poliomielite dar-se-á a

subtóxica polinização ad aeternum dos opus dei

desbocados pelos ditames à palheta de sua cómoda

desvirtuada, atestando com grogue de formol a

anímica hor’agá, à escala, dos pilotos estroinas que

processam os componentes e calibram os reagentes

da carola de caruma e ComItivA de CompanhIA que

desapropria da ilibação tais enxovais com desacatos.


Virá uma contrasalva do Paleolítico Superior servir de

hélice propulsora para salvaguardar o Holismo Gaiense!


As treliças do alfarrobista são corroídas pelas zeigeist

entrópicas, cujo perfil vigora como ipomeia violacea

de restrição, que autofagiam as comissuras labiais dos

morpheus escapulindo-se da água-benta aspergida,

sem absentismo, deste eugénico gulag blutschande.


É mata perpétua abjurada como trégua, ex-pectante

fusível estampilhado pela mundivisão dos estratos,

âmbito de asneiras grassando munições em lavagem,

delgado tarrafal, gaspacho à beira do badagaio, elixir

de oxidase de monoamina, itinerante toro pré-helénico

de foro ontológico cujo rejuvenescimento é entravado

pela disritmia diapezam, warcraft e dungeons&dragons.


Quando a incisão coronária tolher a hipersemia

fac-simile do sôr-reverendo será rapsódia de ciano,

seu clíster onanístico será enema de morning glory e o

Outro Transcendente, esfarelado pelos torções, poderá

novamente ser quinino de ergotina, a bobina rústica

será destravada, do Minóico Tardio recomeçará um

narcótico Revivalismo Arcaico, o convénio de adidos

passará por umbral admonitório e fará melopeia com

Tanatos, eclodido num cacifo chamuscado de Gizé ou

Queóps e o Relâmpago de Indra efectuará os Mistérios

Elêusicos, isto disse-me a minha professora de reiki mix.




in quimicoterapia

2004

A Língua Portuguesa é o ar que deseja ser novamente mar

O pensamento, por ser demasiado sofis-ticado para ser usado nesta realidade, visto ela apenas ser física, é incapaz de a substituir, não podendo ocupar-lhe o lugar, por não poder ocupar espaço algum. A loucura do Homem é querer conduzir os destinos do mundo através de um leme que não existe: a mente. Persistindo o que sempre apenas houve como guia: o vento que sopra e o mar que move. O pensamento humano é essa brisa que se desloca no ar, e que o mar do sentimento dilui, por ter sido ele que a criou, o mesmo mar que corre no corpo da realidade... sopra o vento das ideias nas velas ao sabor-saber do mar do corpo.

O Poeta de Chagall

O poeta bebe com os olhos e vê com a boca.
Ela está virada para o silêncio do céu
E os olhos voltados para a terra.
Este é o poeta! As palavras estão em cima
No céu do seu pensamento
Os olhos são aves de voo rasante
Às coisas que a sua boca prova.
O poeta não tem porquê
E os bichos comem com ele à mesa
O Poeta tem um coração branco
E veste o azul do céu como se fosse
Marinheiro da saudade do que trinca
O poeta tem a cabeça da cor das árvores
E morde o fruto dos céus.
Assim como é, o poeta não tem alto nem baixo
É uma pluralidade de sentidos.

Vê coisas em todo o lado
E às vezes parece bêbado
Mas está sentado no céu sem se desiquibrar
Só porque encontra a cada passo
Uma palavra para os olhos
O poeta parece perdido, mas apenas
segue o seu olhar
Enquanto a sementeira dos céus
semeia astros na sua boca.

O ser humano caminha ainda para ser humano

A ruptura que o ser humano provoca consigo próprio ocorre quando acolhe como se fossem seus pensamentos alheios, pois deixa de viver de acordo com as ideias criadas dentro do seu corpo, as que poderia criar realmente, passando a viver a partir de ideias externas ao corpo, que só a sua mente pode imaginar, não podendo o corpo integrá-las, por não as reconhecer como suas.
A educação que é dada ao ser humano ensina-lhe que respeitar os pensamentos estabelecidos pela sociedade é a conduta adequada e digna de quem é boa pessoa. Por isso, despreza as ideias que intimamente poderiam ser criadas, em prol da cega aceitação do que se encontra em vigor, não procurando escutar as próprias ideias, deixando de se cumprir como pleno ser humano: tal como Portugal relativamente ao mundo.
O Homem, ao relacionar-se, confunde afectos com ideias, assim, a oposição que acontece ao nível intelectual é levada para o nível sentimental, não se estabelecendo relações verdadeiras pela ausência de total liberdade de cada um ser o que é. Tudo devido ao Homem pensar-se como sendo as próprias ideias, não se dando conta que vive num corpo real e não numa ideia imaginada, que ele é o ser que pensa e não o que pensa o ser. Todos os conflitos humanos são resultado do ser humano ter deixado de viver no corpo e passado a viver na mente, de se ter tornado uma ideia de ser humano.

domingo, 27 de julho de 2008

Nada

Ave que passa lá longe a voar,
paira no céu,
no ar a planar...
Cia a pique, algo a caçar,
volta subir e nada apanhar.

Porque posso não ter tempo para mais

Discurso do Ministro Brasileiro da Educação nos EUA...

... entrevista em http://www.youtube.com/watch?v=awniNjJ0eC0
Durante um debate na Universidade de Nova York, o Sr. Ministro da Educação Cristovam Buarque foi questionado sobre o que pensava da internacionalização da Amazónia. Pergunta esta muito pertinente visto que o tema se encontra em debate no campo político Norte-Americano. A questão foi levantada por um estudante que prontamente pediu a resposta ao senhor Ministro na perspectiva de um Humanista e não de um Brasileiro.
Esta foi a resposta do Sr. Cristovam Buarque:

*” De fato, como brasileiro eu simplesmente falaria contra a internacionalização da Amazónia. Por mais que nossos governos não tenham o devido cuidado com esse património, ele é nosso.
Como humanista, sentindo o risco da degradação ambiental que sofre a Amazónia, posso ima-ginar a sua internacionalização, como também a de tudo o mais que tem importância para a humanidade. Se a Amazónia, sob uma ética humanista, deve ser internacionalizada, interna-cionalizemos também as reservas de petróleo do mundo inteiro... O petróleo é tão importante para o bem-estar da humanidade quanto a Amazónia para o nosso futuro. Apesar disso, os donos das reservas sentem-se no direito de aumentar ou diminuir a extracção de petróleo e subir ou não seu preço. Da mesma forma, o capital financeiro dos países ricos deveria ser internacionalizado. Se a Amazónia é uma reserva para todos os seres humanos, ela não pode ser queimada pela vontade de um dono ou de um país. Queimar a Amazónia é tão grave quanto o desemprego provocado pelas decisões arbitrárias dos especuladores globais.
Não podemos deixar que as reservas financeiras sirvam para queimar países inteiros na volúpia da especulação.”
**”Antes mesmo da Amazónia, eu gostaria de ver a internacionalização de todos os grandes museus do mundo. O Louvre não deve pertencer apenas à França. Cada museu do mundo é guardião das mais belas peças produzidas pelo génio humano. Não se pode deixar esse patri-mónio cultural, como o património natural Amazónico, seja manipulado e destruído pelo gosto de um proprietário ou de um país. Não faz muito tempo, um milionário japonês, decidiu
enterrar com ele, um quadro de um grande mestre. Antes disso, aquele quadro deveria ter sido internacionalizado. Durante este encontro, as Nações Unidas estão realizando o Fórum do Milénio, mas alguns presidentes de países tiveram dificuldades em comparecer por constran-gimentos na fronteira dos EUA. Por isso, eu acho que Nova York, como sede das Nações Uni-das, deve ser internacionalizada. Pelo menos Manhattan deveria pertencer a toda a humanidade. Assim como Paris, Veneza, Roma, Londres, Rio de Janeiro, Brasília, Recife, cada cidade, com sua beleza específica, sua história do mundo, deveria
pertencer ao mundo inteiro. Se os EUA querem internacionalizar a Amazónia, pelo risco de deixá-la nas mãos de brasileiros, internacionalizemos também todos os arsenais nucleares dos EUA. Até porque eles já demonstraram que são capazes de usar essas armas, provocando uma destruição milhares de vezes maior do que as lamentáveis queimadas feitas nas florestas do Brasil. Nos seus debates, os actuais candidatos à presidência dos EUA têm defendido a ideia de internacionalizar as reservas florestais do mundo em troca da dívida. Comecemos usando essa dívida para garantir que cada criança do Mundo tenha possibilidade de COMER e de ir à escola.
Internacionalizemos as crianças tratando-as, todas elas, não importando o país onde nasceram, como património que merece cuidados do mundo inteiro. Ainda mais do que merece a Amazónia. Quando os dirigentes tratarem as crianças pobres do mundo como um património da
Humanidade, eles não deixarão que elas trabalhem quando deveriam estudar, que morram quando deveriam viver. Como humanista, aceito defender a internacionalização do mundo. Mas, enquanto o mundo me tratar como brasileiro, lutarei para que a Amazónia seja nossa. Só nossa!”

Existem fortes indícios que levam a crer que este discurso terá sido, prontamente, censurado (como é usual no país mais democrático do Mundo). Aliás, no país onde a informação é “livre-mente” censurada.




Internacionalização do internacional,


controlo absoluto,


cada vez menos utópico,


certamente real,


assustadoramente possível.


Probabilidade certa, igual a um.


Minha franca e sincera opinião.




Long live the American Dream (não sei quem disse)


Heil to the American night! (Jim Morrisson)




III Guerra Mundial?


Não sei como será...


A IV Guerra Mundial?


Certamente com paus e pedras.


(Albert Einstein)
por VT

Uma carta e dois poemas encontrados nos Jardins de Cupido


A Deusa do Destino
“As orquídeas de Outono e o levístico
Despontam em tufos ao pé da sala.
As suas folhas verdes e caules brancos
Lançam-me os seus perfumes em ondas.
Todo o homem, seguramente, tem o seu grande amor:
Por que está a deusa triste e só?
A orquídea de Outono, que esplendor!
Verde é a folha, violeta o caule.
A sala fervilha de belos rapazes
Mas de súbito para mim ela dirige o seu olhar:
Chegou sem uma palavra, partiu sem um adeus:
Um tornado é a sua montada, uma nuvem o seu pendão.

Que desgosto se compara ao de uma partida
Que felicidade à de um primeiro amor?
Vestida de lótus, cinta de basilisco
Ela chega de repente e num instante se vai.
À noite mora no firmamento.
Que esperais, Deusa, na berma de uma nuvem?
Pudesse eu convosco banhar-me no Lago Celeste
Secar numa encosta ao sol os vossos cabelos!
Espero a minha bem-amada mas ela não vem!
Ao vento desolado, canto em alta voz.
Sob um dossel de penas de pavão, com um estandarte de penas de pica-peixe
Ela sobe aos Nove-Céus, toma em mão os cometas.
Erguendo a sua longa espada para socorrer novos e velhos
Só a deusa será, para todos, justa.”
Qu Yuan (Séc. IV-III a. C.)


Cânticos Taoistas
“Maldito seja o saber e o estudo –
Meu espírito vagabundo do silêncio!

Maldito seja o saber e o estudo –
Meu espírito vagabundo do silêncio.
Se o procurarmos sempre
Nunca mais o acharemos.

Um regato para lançar a minha linha
E desfruto de todo um reino.
Cabelos despenteados, arrebato o meu cântico
Que os homens retomam nos quatro cantos do mundo.
Qual é o refrão?
- Meu espírito vagabundo do silêncio!

Um alaúde e um poema chegam para a minha felicidade.
Vaguear pela lonjura é um tesouro
Cheio do Caminho que percorro sozinho
Em direcção ao fim do saber e do eu.

Tranquilo e sem cuidados
Para quê procurar outrem?
Sou um habitante das montanhas mágicas
Que rejubila no pensamento e alimenta o seu espírito.”
Xi Kang (223-263)


Para o P. G.
Uma certa Princesa da Distância, perdida na bruma da sua janela de outrora, confessa a um guerreiro de outras eras, a um companheiro de fogo com quem bebeu chá no Pavilhão da Chuva:
nada mais somos do que vozes num poema. E, nada mais, é tanto. Nada mais podemos desejar do que esse ritmo de uma voz que lendo alto nos reúne onde apenas nos encontramos.
O poema. Mas só aí. De resto, na paisagem nos encontramos: vendo e pensando. Simbolizando o que já nasceu como sinal da outra parte perdida.
Com a voz cheia de silêncio e canto, compondo hinos, ela nada mais é do que uma vagabunda presença que errando procura o som, os sopros que a dissolvam. Até lá mora na poesia e alimenta-se do mel da tua. Envia-te esta de que falaram e que ela deixou inscrita no coração quando no teu pousou a sua mão.
E ouve as tuas lágrimas e segue-as. Elas são da fonte onde na infância, antes do tempo, as vossas bocas saciaram a sede. Moraram junto da origem.
Enlaça-te nos sopros e nunca a perderás. Não tentes, guerreiro amigo, prendê-la ao que ela não é e ao reino que abandonou.
Ela canta-te e afaga-te com as sombras mágicas das montanhas. Mesmo quando desce ao Mar ela logo sobe. Só na mais alta montanha está escondido o jardim de Diotima. Só na mais alta montanha moram os deuses e Hölderlin. Só lá chegam os eremitas como a Princesa da Distância. Foste tu que lhe deste refúgio nesse nome.
Lá, por ser distância, ela reúne na sua mesa os que com ela falam do amor e com todos cuida dos Jardins de Cupido. Todas as manhãs entreabre a porta e espera os que, sem a terem procurado a encontram, os que dela se tendo desencontrado, a reencontram. Porque ela vive nos Jardins da Memória.
Cantando poesia e lendo-a, mais facilmente farás o caminho de regresso. Mas não te apresses. Ela é quase tão lenta como o que não é do tempo. E gosta muito de ti.
Assim que os homens deixarem de querer ser deuses uns dos outros, uma fantasia divina, passam a ser deuses de si próprios, verdadeiros.

sábado, 26 de julho de 2008

O pensamento Real é materno, o verdadeiro cér-ebro do ser humano é o útero

Enquanto o cérebro dá forma ao sentimento, criando o pensamento, o útero faz o mesmo, realizando-o. O primeiro precisa que o corpo concretize exteriormente a criação, o segundo cria de modo inteiro: in-terno.

O útero é o cérebro-mãe através do qual o cérebro-filho nasce e toma existência, toda a criação do cérebro-filho depende da Mãe. O corpo do Homem representa a ligação ao útero materno - à eternidade. Assim, qualquer criação que ignore essa Aliança não chega a existir de modo verdadeiro, real. A humanidade guia-se apenas pelo cérebro-filho, por pensamentos que não chegaram a nascer, abortados*...

|*A Lei do Aborto apenas agora foi aprovada para as mães em Portugal, mas desde sempre os filhos o fazem.|

Poema para Eugénio

Os poetas também morrem,
Mas morrem mais devagar do que nós.
A voz que foi a deles fica como uma baba, um cuspo,
Ou uma seiva que ainda anda a ser folha
Em qualquer parte,
Para além do bicho e da seda.

A morte dos poetas
É qualquer coisa que continua a ser árvore
Mesmo depois da raiz ou para além dela.
É uma forma que continua a ser corpo
Em qualquer espaço
Onde o vento se mova;

Onde haja musgo ou água
Ou fruto que se trinque
Para além do sabor e da semente,
Para além da boca que a morde
E continua sabor para além dela
Para além da mesma morte

A morte do poeta começa muito antes
Da noite e do dia da nossa mesma morte.
Agora morre o Eugénio
Amanhã haverá menos verde
Na relva que há amanhã.

A morte dos poetas é uma ficção nossa
Como a vida é uma ficção de poetas.


13-06-05

O que sou é a mãe, o que sei é meu filho

O Homem só existe, verdadeiramente, por se saber Homem, porém, quando chega a adulto, tende a inverter-se. Em vez de ser o que se sabe Homem, passa a ser o saber que tem de si, esquece-se que é o ser que é o saber, não é o saber que é o ser. O saber toma o lugar do ser, o filho toma o lugar da Mãe.

Eu sou o que sei, mas o que sei, por si, não me é. Ser é a Mãe, que está sempre presente, saber é o filho, que nasce constantemente, e que logo deixa de ser a Mãe assim que o faz. O ser humano apega-se ao filho como se ele continuasse a ser a Mãe, mas ele separa-se dela logo que aparece. A separação entre eles não indica que o filho não fosse verdadeiro, é apenas uma inevitabilidade, tendo em conta a natureza da sua relação.

O cérebro representa o ser embrião do nosso ser, dele nascem os nossos filhos-conhecimentos, somo-los todos, mas como todos eles estão condicionados ao tempo, nenhum deles preenche o nosso ser inteiro, eterno. O filho que nos poderá preencher todo o ser, terá de nascer da síntese de todos eles, de unir tudo, de nascer do sentimento de fusão do amor infinito, do saber que se sabe sem ser preciso saber, porque deixou de ser apenas um saber temporário do ser, tornou-se no próprio ser, na Mãe. O verdadeiro saber que a Mãe-Ser pode ter de si é dado pelo filho de Corpo Real, nascido do seu Cérebro Real: o Útero.

- Mas como? Como sabes?
- Não sei... mas também não nasci por saber-me. Sou, eu própria, o que digo, o que nasce de minha boca, pelo que também não posso sabê-lo.

Janelas

Os pássaros trazem letras de luz para a mesa do dia
Cada manhã, o livro acrescenta uma página para voar
E o olhar é uma canção de vento para a pauta do esquecimento
Quando a cidade acorda, os olhos são janelas rasgadas
Letras entornadas na partitura do sonho, e as flores
São jarros de chorar para regar a alegria.
Chegam versos com o vento à cómoda alta do pensamento.
E o céu de Magritte tem nuvens desfeitas nas asas...
Vêm de longe os pássaros, na boca ficam saudades,
O gosto azul do mar, a voz dos búzios, o perfume dos dias
O vidro das imagens reflecte os versos que os pássaros debicam no lago
Água de letras para as flores do jarro.

Sacratíssima

O coração da Cidade é uma aldeia. Eis o sentimento mais profundo de Lisboa, uma menina senhora, uma criança madura, uma frescura cálida, um rebento filosofal. O sino da torre daquela Igreja faz vibrar as colinas e todas as calçadas são santuários, e todas as janelas são miradouros, e todas as almas, santas. E a Serpente recurva-se.

sexta-feira, 25 de julho de 2008

Poetugal

O Poeta só é capaz de encarnar o seu poema, por isso, quando lhe é exigido encarnar um poema alheio, sente-se confuso, visto a vida apenas o ter colocado a sentir o seu próprio sentimento e, em consequência, o próprio pensamento-verso. Num mundo de homens-ideias, o Poeta sente-se inabilitado, não conseguindo viver através de ideias que não tenham um corpo real.
O português é acusado de viver na cauda do mundo-fantasma europeu, sente-se fora de um mundo que não tem fora nem dentro, restando-lhe ficar triste por estar vivo num mundo que -ainda- não nasceu.
Ser o português o culpado de ainda existir num mundo dominado por idei-ot-as? Por certo que sim-to...

aceitação

A noite enrola os cabelos

Sob os dedos do sol.

O pasto dos anos ressequiu

A gota de luz que nos guiava.

Lembro-me dela:

Uma lua solar. Nenhum incógnito:

Por toda a terra as sombras com olhos

Lambiam pregadas essa noite

O eco dos rastos e dos rostos

Consumidos na distância.

Os mortos ressentidos chispavam

No aço fino da voz: tudo foi dado,

O nobre nascimento e o voo sempre inédito

Das cinzas no oceano sem telhados.

Só a quimera é possível... a cura é a loucura

O Poeta sabe que definir em pensamento e palavras a realidade é um impossível que a poesia torna possível, que só de modo gentil e sonhador se pode querer imitar o inimitável. Ele tem pena que os seus companheiros se tenham esquecido de que estão sempre a fazer poesia, mas apenas de um modo que o aspira à única vontade de que todos regressem a saber que só podem ser poetas como ele: que os portugueses só são capazes de realizar uma utopia.

"Mensagem": mente agita a matéria, o que Pessoa nos quer dizer é que mente e matéria são uma só. Viver guiando-nos pela mente isolada não é viver, é imaginar somente. A própria mente agita a matéria, mas não é pensando-a, porque isso é separar-se dela como sujeito independente, a própria mente É já a matéria: de Real há só o sentimento, pois é ele que as une.
O Povo Luso é cantado na "Mensagem", mas o nosso Rei vive adormecido nos poemas de Alberto Caeiro, na nossa Eterna Criança, é Ela que conhece desde sempre o Real sentido do nosso Ser, Português. O que o Rei nos pede é que vivamos a Realidade do Corpo da Alma, sem divisões: fundamo-nos no Mar da União de Tudo, só nEle nos reconheceremos, só Ele é infinito, como o Amor que somos. A saudade da Alma Lusa é a de estar unida à sua Origem: ao Corpo, pois só assim se sente, é, Vive.

O Poeta Alberto Caeiro pensa através do corpo, porque é esse o único modo possível de se pensar realmente! Apenas se propôs a definir o que pensa-sente para que o mundo entendesse que pensar é estar doente, mas que a doença mais grave ainda é o homem pensar-se saudável estando doente.

quinta-feira, 24 de julho de 2008

Presentinho para os Amiguinhos




Obrigada ao Anónimo que me ensinou a postar estas coisas.

O Poema chamado Homem

Como o corpo caloso entre os hemisférios cerebrais do ser humano, Portugal é o porto cal-oso entre os hemisférios do mundo.

O cérebro representa, simultaneamente, a separação entre os dois lados do coração e o prenúncio da sua união através do corpo de ligação entre cada hemisfério, sendo um orgão interno, liga-se à realidade interiormente. A confusão do homem é proveniente do facto de apenas poder relacionar-se de modo exterior com o mundo, esquecendo-se que o seu estimado cérebro é incapaz de funcionar dessa forma. A ligação ao exterior apenas pode ser feita a partir dos sentidos, eles sim, unem o interior ao exterior do corpo, a mente à realidade, isto é, TODO o pensamento nasce da loucura do sentimento, ou da maior loucura ainda: a de não haver sentimento.
O Homem define o silêncio chamando-lhe voz, concretiza a loucura -ou ausência de razão- chamando-lhe razão, revela o sentimento chamando-lhe pensamento, materializa o sonho chamando-lhe realidade.
O pensamento é um esboço da realidade, nada mais do que poesia: ser poeta é, portanto, o único modo de ser humano. Todo o Homem é poeta, cria palavras e encarna como seu próprio poema: os versos que lhe revelam o significado do que vive.

Nasci da concretização do Amor
e foi esse o único dom
que a vida me deu:
ser poeta à solta!
E como eu
o mundo inteiro,
mesmo que o ignorando...