O CAMINHO DA SERPENTE

"Reconhecer a verdade como verdade, e ao mesmo tempo como erro; viver os contrários, não os aceitando; sentir tudo de todas as maneiras, e não ser nada, no fim, senão o entendimento de tudo [...]".

"Ela atravessa todos os mistérios e não chega a conhecer nenhum, pois lhes conhece a ilusão e a lei. Assume formas com que, e em que, se nega, porque, como passa sem rasto recto, pode deixar o que foi, visto que verdadeiramente o não foi. Deixa a Cobra do Éden como pele largada, as formas que assume não são mais que peles que larga.
E quando, sem ter tido caminho, chega a Deus, ela, como não teve caminho, passa para além de Deus, pois chegou ali de fora"

- Fernando Pessoa, O Caminho da Serpente

Saúde, Irmãos ! É a Hora !


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terça-feira, 21 de outubro de 2008

A Dama do Apocalipse


















"Branco por cima e o negro de um sorriso herói
Trancam-me a mente e eu nego o quanto a dor destrói
Rasgam-me o sonho e o mal me põe na vida

E a vida me faz sem medo
Nos diademas, pragas, anjos de neon
Nos holocaustos trompas, flexas, megatrons
Rasgam-me a terra e o fogo traz a vida

E a vida não tem segredo
Fecha-se o ar e o sol se nega, nega-se o pão e a paz
E o amor me cega

Sete rajadas correm, somem
E uma mulher

Se entrega e se impõe ardente
Constante, serpente, vulgar
Rasga-se o sonho e o corpo sente a dor crescer
Abre-se a mente e o cego vê a luz nascer
Trava-se a guerra e o fogo faz a vida"
Nathan Marques / Crispim Del Cistia, Lilian Bosco

domingo, 17 de agosto de 2008

O Nosso regresso cantado por Sophia...

"Quando eu morrer
voltarei para buscar os instantes
que não vivi junto do mar.


Como ondas do mar dançam em mim os pés do teu regresso.

Há muito que deixei aquela praia
De grandes areais e grandes vagas
Mas sou eu quem na brisa respira
E é por mim que espera cintilando a maré vasa.

No mar passa de onda em onda repetido
O meu nome fantástico e secreto
Que só os anjos do vento reconhecem
Quando os encontro e perco de repente

O mar azul e branco e as luzidias
Pedras – O arfado espaço
Onde o que está lavado se relava
Para o rito do espanto e do começo
Onde sou a mim mesma devolvida
Em sal espuma e concha regressada
À praia inicial da minha vida.

De todos os cantos do mundo
Amo com um amor mais forte e mais profundo
Aquela praia extasiada e nua
Onde me uni ao mar, ao vento e à lua.

Casa branca em frente ao mar enorme,
Com o teu jardim de areia e flores marinhas
E o teu silêncio intacto em quem dorme
O milagre das coisas que eram minhas.

Não há fantasmas nem almas,
E o mar imenso, solitário e antigo,
Parece bater palmas.

Aqui nesta praia onde
Não há nenhum vestígio de impureza,
Aqui onde há somente
Ondas tombando ininterruptamente,
Puro espaço e lúcida unidade,
Aqui o tempo apaixonadamente
Encontra a própria liberdade.

Reino de medusas e água lisa
Reino de silêncio luz e pedra
Habitação das formas espantosas
Coluna de sal e círculo de luz
Medida da Balança misteriosa

Vem do mar azul o marinheiro
Vem tranquilo ritmado inteiro
Perfeito como um deus,
Alheio às ruas.

O sol rente ao mar te acordará no intenso azul
Subirás devagar como os ressuscitados
Terás recuperado o teu selo, a tua sabedoria inicial
Emergirás confirmada e reunida
Espantada e jovem com as estátuas arcaicas
Com os gestos enrolados ainda nas dobras do teu manto"
Sophia de Mello Breyner Andresen

terça-feira, 12 de agosto de 2008

A Terra do Fogo: o Santo Graal, o Sangue Real

"Amor é fogo que arde sem se ver"
Camões

Todo o ser é amor, todo o ser é chama invisível, transmutada em água e sal na superfície do corpo: segundo uma experiência recente a água do mar pega fogo.

O magma ou lava é o fogo que à superfície se transforma em terra, como o sangue se forma em tecido, porém, enquanto a terra o reproduz inteiramente, o tecido humano permanece funcionando como fronteira, realizando-se toda a sua função vital para lá da superfície da pele, ou seja, esta continua a ser placenta, unindo o ser humano ao interior, ao útero da Mãe-Terra: o reino animal ainda não nasceu como o vegetal do corpo da Terra, estando o mar do fogo a encaminhá-lo para a Ilha do Sol.


















(A cereja da Noiva...)
O Sangue Real sur-girá quando o Homem nascer veramente da Mãe-Terra, quando o sangue dos Dois se unir, assim chamado por só então o Homem passar a existir realmente, a ser eterno.

quinta-feira, 31 de julho de 2008

A onda e o mar, a mente e o corpo, viver é sur-far

O mar que gera as ondas é o mesmo mar do amor que gera o Homem. Cada onda forma-se porque se deixou formar.
Do mar se forma a onda, da mãe se forma o filho, do corpo se forma a mente, de que serve querer o Homem controlar o próprio corpo que o forma? De que vale a onda querer controlar o mar? O Homem que se pensa como onda perde-se do mar que é, reduzindo-se a uma ideia sem corpo, a uma onda sem mar.
O Homem esquece-se que não é só quando nasce que é formado pelo corpo da mãe, que continua vivo por estar sempre a ser formado pelo mar do seu corpo.
Agora percebo o meu desprezo quanto à actividade humana, não são mais do que ondas do mar, que ainda por cima se enganam a si mesmas como sendo algo mais do que o magno mar que as originou. O se-r-eno mar é o meu ser real, o horizonte que o une ao céu o meu único destino, ali onde o sol nasce rei, a ilha do sul onde veramente a cruz da vida floresce.

domingo, 29 de junho de 2008

Ainda a Ilha dos Amores como alternativa às câmaras de gás da alma

Nunca se escutou Camões, o que cantou não a Fé nem o Império, não o encontro de culturas, mas a “expedição” de Eros “Contra o mundo rebelde, por que emende / Erros grandes que há dias nele estão, / Amando cousas que nos foram dadas, / Não para ser amadas, mas usadas” (Os Lusíadas, IX, 25). O que cantou a redenção do mundo pela conformidade do masculino e do feminino na Ilha dos Amores, a plenitude do amor sensual e sexual pela qual se abre a divina visão, o messianismo erótico de uma nova raça andrógina de deuses humanos e homens divinos. Ninguém o escuta. Crucifica-se Eros na pornografia e nessas outras obscenidades que são o intelecto, o poder e as honras, o sucesso, a fama e a riqueza. O que faz avançar a civilização, a ciência e a miséria. As câmaras de gás da alma. Mas Eros ri e voa. E quem na cruz fica, exangue e triste, és tu !

in A Cada Instante Estamos A Tempo de Nunca Haver Nascido, Corroios, Zéfiro, 2008, p.9.