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terça-feira, 9 de março de 2010
As primeiras coisas
As primeiras coisas eram verdes ou azuis, com água pela cintura;
duras esmeraldas umas, outras animais, vibrantes
quando lhes toca a luz; o mais das vezes encostados
à parede do estábulo, com grandes olhos húmidos
e um precipício ao fundo (e as nuvens são o seu bafo).
E no entanto, visto à distância exacta, tudo se transforma:
o cenário do mundo é só um infinito espaço
cheio de coisa nenhuma, e a luz o puro efeito
de dois deuses menores que marcam o compasso.
É certo que, na chuva, o teu corpo anuncia
com seu distante olhar, um prazer que não cabe
na estreiteza da fábula; um céu, não duvidemos,
acolhe o terno gesto que não foi.
Já na parede a meio branca traço, a contragosto,
o tempo mal passado que apodrece; e ruminante encosto
ao tampo da água o bico ou pincel fosco
onde surgira, de repente, nada.
Os portões oscilam, e a erva adiante, se nos aproximamos.
Claramente vejo como te divides
num infinito número simultâneo de mundos.
As palavras celebram, mudas, a água na paisagem,
verde ou azul, conforme desejaste.
Avanço imóvel, descalço sobre a erva,
e quando fecho os olhos invade-me a luz por dentro
compacta, completa, como as coisas primeiras.
António Franco Alexandre
duras esmeraldas umas, outras animais, vibrantes
quando lhes toca a luz; o mais das vezes encostados
à parede do estábulo, com grandes olhos húmidos
e um precipício ao fundo (e as nuvens são o seu bafo).
E no entanto, visto à distância exacta, tudo se transforma:
o cenário do mundo é só um infinito espaço
cheio de coisa nenhuma, e a luz o puro efeito
de dois deuses menores que marcam o compasso.
É certo que, na chuva, o teu corpo anuncia
com seu distante olhar, um prazer que não cabe
na estreiteza da fábula; um céu, não duvidemos,
acolhe o terno gesto que não foi.
Já na parede a meio branca traço, a contragosto,
o tempo mal passado que apodrece; e ruminante encosto
ao tampo da água o bico ou pincel fosco
onde surgira, de repente, nada.
Os portões oscilam, e a erva adiante, se nos aproximamos.
Claramente vejo como te divides
num infinito número simultâneo de mundos.
As palavras celebram, mudas, a água na paisagem,
verde ou azul, conforme desejaste.
Avanço imóvel, descalço sobre a erva,
e quando fecho os olhos invade-me a luz por dentro
compacta, completa, como as coisas primeiras.
António Franco Alexandre
sábado, 9 de maio de 2009
O Encoberto
(...) o Sol brilha sem cessar; porém, quando uma nuvem ou nevoeiro está entre nós e o Sol, então não nos apercebemos mais do brilho da luz. O mesmo se passa quando o olho está, ele próprio, doente e se mirra ou tolda; então ele também não reconhecerá o brilho. (...) quando um mestre faz uma imagem de madeira ou de pedra, ele não leva a imagem para dentro da madeira, senão que ele talha as aparas que tinham ocultado e encoberto a imagem; ele nada dá à madeira, mas tira e aplana-lhe a cobertura, afasta a ferrugem, para que depois resplandeça o que estava oculto por baixo. Este é o tesouro que estava escondido no campo, de que Nosso Senhor fala no Evangelho (Mt 13,44).
- Mestre Eckhart, Tratados e Sermões, Paulinas Editora, p.169
- Mestre Eckhart, Tratados e Sermões, Paulinas Editora, p.169
segunda-feira, 20 de outubro de 2008
Luz Cristal
Analisar a vida implica estar fora dela, mas eu só existo nela, sendo-a, por isso, para analisá-la teria de morrer, e morrendo deixaria de haver o que analisar. Imitá-la, é só o que me é concedido fazer a partir dela (para além de a viver como ela é): escrevê-la, aqui... Como esta foto, que apenas pode imitar o Real.
(Fenómeno habitual no Ártico e Antártico, provocado pelos cristais de gelo quando o Sol surge no horizonte.)
(Fenómeno habitual no Ártico e Antártico, provocado pelos cristais de gelo quando o Sol surge no horizonte.)
quinta-feira, 14 de agosto de 2008
Astronomia essencial: somos o sonho da Lua como Sol, de Deus como Homem
Ao pôr-do-sol
Eterna cópula
Se junta a Lua
Mãe oculta
A sublime aurora
Traz-nos a glória
Do filho inocente
Descoberto sorridente

"Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive"
Ricardo Reis
A outra
face da lua
não está oculta,
está aqui.
O que não vemos
é o que agora
vivemos,
o que o Homem ignora
é aquele que o sonha.
No lado escuro da Lua
está o menino que dorme
e deseja que o mundo
brinque ao amor...
acorde!
Eterna cópula
Se junta a Lua
Mãe oculta
A sublime aurora
Traz-nos a glória
Do filho inocente
Descoberto sorridente

"Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive"
Ricardo Reis
A outra
face da lua
não está oculta,
está aqui.
O que não vemos
é o que agora
vivemos,
o que o Homem ignora
é aquele que o sonha.
No lado escuro da Lua
está o menino que dorme
e deseja que o mundo
brinque ao amor...
acorde!
sábado, 2 de agosto de 2008
Mari-Sol
Ao passear à beira-rio
vi que a luz do Sol me seguia...
foi então que descobri
que era o Sol que me via
por ser eu o Sol que me ilumina.

Não são os girassóis que seguem o Sol, é o Sol que segue os girassóis, pois cada girassol é o -seu- próprio Sol.
Boas férias aos sortudos, à beira-mar de preferência...
vi que a luz do Sol me seguia...
foi então que descobri
que era o Sol que me via
por ser eu o Sol que me ilumina.

Não são os girassóis que seguem o Sol, é o Sol que segue os girassóis, pois cada girassol é o -seu- próprio Sol.
Boas férias aos sortudos, à beira-mar de preferência...
domingo, 6 de abril de 2008
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