sexta-feira, 5 de setembro de 2008
Canto Órfico
a música deixou de ser palavra,
o cântico se alongou do movimento.
Orfeu, dividido, anda à procura
dessa unidade áurea, que perdemos.
Mundo desintegrado, tua essência
paira talvez na luz, mas neutra aos olhos
desaprendidos de ver; e sob a pele,
que turva imporosidade nos limita?
De ti a ti, abismo; e nele, os ecos
de uma prístina ciência, agora exangue.
Nem tua cifra sabemos; nem captá-la
dera poder de penetrar. Erra o mistério
em torno de seu núcleo. E restam poucos
encantamentos válidos. Talvez
um só e grave: tua ausência
ainda retumba em nós, e estremecemos
que uma perda se forma desses ganhos.
Tua medida, o silêncio a cinge e quase a insculpe,
braços do não-saber. Ó fabuloso
mudo paralítico surdo nato incógnito
na raiz da manhã que tarda, e tarde,
quando a linha do céu em nós se esfuma,
tornando-nos estrangeiros mais que estranhos.
No duelo das horas tua imagem
atravessa membranas sem que a sorte
se decida a escolher. As artes pétreas
recolhem-se a seus tardos movimentos.
Em vão: elas não podem.
Amplo,
vazio
um espaço estelar espreita os signos
que se farão doçura, convivência,
espanto de existir, e mão completa
caminhando surpresa noutro corpo.
A música se embala no possível,
no finito redondo, em que se crispa
uma agonia moderna. O canto é branco,
foge a si mesmo, vôos! palmas lentas
sobre o oceano estático: balanço
de anca terrestre, certa de morrer.
Orfeu, reúne-te! chama teus dispersos
e comovidos membros naturais,
e límpido reinaugura
o ritmo suficiente, que, nostálgico,
na nervura das folhas se limita,
quando não compõe no ar, que é todo frêmito,
uma espera de fustes, assombrada.
Orfeu, dá-nos teu número
de ouro, entre aparências
que vão do vão granito à linfa irônica.
Integra-nos, Orfeu, noutra mais densa
atmosfera do verso antes do canto,
do verso universo, latejante,
no primeiro silêncio,
promessa de homem, contorno ainda improvável
de deuses a nascer, clara
luz no céu sem pássaros,
vazio musical a ser povoado
pelo olhar da sibila, circunspecto.
Orfeu, que te chamamos, baixa ao tempo
e escuta:
só de ousar-se teu nome, já respira
a rosa trimegista, aberta ao mundo.
(Carlos Drummond de Andrade. In: Poesia Completa. RJ: Nova Aguilar, 2003, p. 412-414)
Ridículo é (o) nada, o sentimento vazio, para quem Ama a Vida: Vive (renovado)
Abraçar o Amor -total- é imitar a nossa criação, recriando-nos vivos, é contribuir para o nascimento da Vera, porque plena, Luz da Nova Terra, a Nossa muito desejada Lusitânia.
A minha Pátria é (o) A-mar.
|*estares...|
"Só então Portugal, por já não ser, será."
Agostinho da Silva
Eros-Saudade


Mais de "Uma Aprendizagem ou o Livro dos Prazeres", de Clarisse Lispector
"...Mas olhe para todos ao seu redor e veja o que temos feito de nós e a isso considerado vitória nossa de cada dia. Não temos amado, acima de todas as coisas. Não temos aceito o que não se entende porque não queremos passar por tolos. Temos amontoado coisas e seguranças por não nos termos um ao outro. Não temos nenhuma alegria que já não tenha sido catalogada.
Temos construído catedrais e ficado do lado de fora pois as catedrais que nós mesmos construímos, tememos que sejam armadilhas. Não nos temos entregue a nós mesmos, pois isso seria o começo de uma vida larga e nós a tememos.
Temos evitado cair de joelhos diante do primeiro de nós que por amor diga: tens medo.
Temos organizado associações e clubes sorridentes onde se serve com ou sem soda......
Temos disfarçado com falso amor a nossa indiferença, sabendo que a nossa indiferença é angústia disfarçada.
Temos disfarçado com o pequeno medo o grande medo maior e por isso nunca falamos no que realmente importa. Falar no que realmente importa é considerado uma gafe......
Temos sorrido em público do que não sorriríamos quando ficássemos sozinhos.
Temos chamado de fraqueza a nossa candura.
Temo-nos temido um ao outro, acima de tudo. E a tudo isto consideramos a vitória nossa de cada dia..."
quinta-feira, 4 de setembro de 2008
O cavalo negro e selvagem
Ela sorriu. Ulisses ia gostar, ia pensar que o cavalo era ela própria. Era?"
- Clarice Lispector, Uma Aprendizagem ou o Livro dos Prazeres, Rio de Janeiro, Rocco, 1998, pp.28-29.
Um dos romances mais belos e profundos sobre o amor entre um homem e uma mulher como iniciação.
quarta-feira, 3 de setembro de 2008
Eros e Saudade

Apertada ao colo a tua lembrança é uma catedral onde rezo a suavidade do teu canto. Não há pássaros na tua voz, só perfumes antigos, sombras, lamentos. Ai, meu passado agora já não me faz querer voltar. Ascendo-me em memórias e no teu corpo caio num sono tão profundo que de mim me leva.
SOL
a gente fica mole
caracol de lento
menos escrevedor
mais plantador
de árvores de
vento
que hão-de um dia
desfazer-se a dar
de tempestades
não sei quantas mais
vezes %
com Sol
em tudo
nas bochechas de tudo
para que a toda a hora tudo
nos conSole
mesmo que sem Sol
nos conSole
conVento
O corpo da mente humana (corrigido, até ver, graças às críticas)
Ainda da Grande Travessia
Aqui é minha casa. Ali ficam o sol e o jardim com colmeias.
Vocês vêm pela trilha, olham da porta por entre as grades
e esperam que eu fale. ... Por onde começar? Creiam em mim,
creiam em mim, sobre seja o que for pode-se falar quanto se queira:
sobre o destino e sobre a serpente do bem,
sobre os arcanjos que lavram com o arado
os jardins do homem,
sobre o céu para onde crescemos,
sobre o ódio e a queda, tristezas e crucifixões
e acima de tudo sobre a grande travessia.
Mas as palavras são as lágrimas de quem teria desejado
tanto chorar e não pôde.
São tão amargas as palavras todas,
por isso... deixem-me passar mudo por entre vocês,
sair à rua de olhos fechados.
Lucien Blaga
De Îm Marea Trecere (A Grande Travessia), 1924
"A saudade"
com ambas as mãos, como quem segura
na alma um milagre.
Queima-nos a proximidade, olhos nos olhos, como estamos.
E contudo me sussurras: "Tenho tanta saudade de ti!"
Falas tão misteriosa e desejosa, como se eu estivesse
exilado em outro mundo.
Mulher,
que mares levas no peito, e quem és?
Canta ainda uma vez mais tua saudade,
por que te ouça
e os instantes me pareçam botões prenhes
de que florescessem de fato... eternidades"
- Lucien Blaga, 1919, in A Grande Travessia, selecção, tradução e introdução de Caetano Waldrigues Galindo, edição bilingue romeno-português, Brasília, Editora Universidade de Brasília, 2005, p.87.
Lucien Blaga é um dos mais eminentes filósofos e poetas romenos do século XX, sendo autor de quase quarenta livros. Foi diplomata em Portugal. É um poeta e pensador da saudade, tradução legítima do romeno "dor".
Do projecto do Brasil ao projecto da Lusofonia
As "Imagens do barroco" [referência à Mostra do Redescobrimento, em São Paulo, em 2000] nos levam diretamente ao cerne mais íntimo do que foi o projeto do Brasil Colônia: um corpo místico, integrando em si Brasil, Portugal e a Igreja, a Igreja da Contra-Reforma. Seria preciso reescrever a história do Brasil, partindo duma visão maior"
- Gilberto de Mello Kujawski, Ideia do Brasil. A Arquitetura Imperfeita, São Paulo, Editora SENAC São Paulo, 2001, pp.13-14.
O desafio do MIL - Movimento Internacional Lusófono é retomar hoje este projecto, liberto da sua canga opressiva e unilateralmente religiosa, num corpo lusófono não menos "místico", enquanto uno e orgânico em termos de língua e cultura(s) e animado pela espiritualidade laica de um ecumenismo multi e trans-religioso. No que respeita a Portugal é o projecto de Pessoa e Agostinho da Silva, que se enraíza na depuração da nossa comum tradição histórica. No regresso de uma semana no Brasil, constato que esta visão começa a suscitar entusiasmos que rompem o muro de preconceitos e estreitezas de aquém e além-Atlântico. Mas ainda falta muito para derrubar esse pior inimigo que é o auto-desprezo que brasileiros (e portugueses) cultivam, como o nota o autor deste arguto livro. Sem cair na auto-exaltação arrogante do nacionalismo egocêntrico. É sempre o mais difícil, o caminho do meio, que não é um meio-termo, mas um para além dos termos!
terça-feira, 2 de setembro de 2008
Que este amor só me veja de partida
E de mim mesma nunca se aperceba.
Que me exclua do estar sendo perseguida
E do tormento
De só por ele me saber estar sendo.
Que o olhar não se perca nas tulipas
Pois formas tão perfeitas de beleza
Vêm do fulgor das trevas.
E o meu Senhor habita o rutilante escuro
De um suposto de heras em alto muro.
Que este amor só me faça descontente
E farta de fadigas. E de fragilidades tantas
Eu me faça pequena. E diminuta e tenra
Como só soem ser aranhas e formigas.
Que este amor só me veja de partida"
- Hilda Hilst, Cantares do Sem Nome e de Partidas, I, in Cantares, São Paulo, Globo, 2005, 3ª edição.
Homenagem a todos os Mestres !
Ó Homem! Ouve!
Que diz a Meia-noite com sua voz grave!
« Eu dormia, eu dormia,
Emergia de um sono profundo:
O universo é profundo,
E mais profundo do que o Dia imagina.
Profunda é a sua dor,
Mais profunda ainda é a sua alegria.
A dor diz: «Vai!»
Mas a alegria quer Eternidade,
Quer profunda Eternidade!»
segunda-feira, 1 de setembro de 2008
Mão Divina
De Tudo e de Nada - Desisto
Vou por uma pedra sobre o assunto. Uma pedra qualquer, arredondada, para não me magoar mais. Vou deixar o mar levar de volta. Para longe daqui, para onde tudo começou e onde tudo há-de acabar. Assim, onda atrás de onda. Lua cheia, Lua Nova. Era após Era. Tudo depois de nada.
Vou entregar os pontos. Fechar a porta, apagar a luz, puxar o lençol e tapar-me.
Vou dormir sem sonhar. Vou parar de gritar em silêncio. Vou deixar de ouvir o grito,
de sentir o aperto, de chutar no vazio.
Hoje não se pode repetir dentro de mim. E eu sei que nunca se repete, mas aos meus olhos a repetição é infinita. Sou eu que não quero ver mais do que isto. Sou eu que não quero ver mais e melhor. Como se fosse possível. Eu digo a mim mesma: não posso mais. E respondo a mim mesma: desiste.
Desisto. Sou fraca demais para continuar. Quero parar aqui, saltar em andamento para fora de onde estou. Não me nego a mim mesma, não consigo negar-me. Nem quero. Apenas reconhecer que errei, que erro. Sempre, em cada onda que me rebenta nos pés.
Cumprir o destino. Esse destino que não compreendia, esse destino que não aceitava.
Cumpri-lo. Só isso. Sem contestar, sem imaginar como seria diferente. Nasci para isto que sou. Nasci para ser assim, estava escrito desde o princípio dos tempos.
Teimei, não quis ler o que o destino me escreveu. Lutei sem saber que antes de nascer já tinha perdido o que julguei poder ter como certo. A vida deu-me sinais que eu sempre identifiquei, mas o sonho e a esperança não me deixavam aceitar. É evidente demais. Dói demais pensar nessa evidencia. Não me quero lamentar. Não tenho essa vontade, nem esse direito.
Estou farta de procurar. Lembro-me de ditados antigos, valho-me deles. Lembro de palavras amigas, valho-me delas. Lembro-me do pensamento positivo. Mas, chega. Não me contento mais com este chão que me suporta o corpo. Preciso de um outro chão ou de um outro céu que me suporte a alma. A alma tem ficado lá atrás. A alma que tenho e já não sei onde deixei. Eu sei que tenho. Eu sei. Mas não ouço a sua voz faz tempo.
E é essa voz que quero ouvir agora. Aqui e agora. Já!
Chega. Não quero mais. Não quero mais esperar-te, pensar-te, sonhar-te, imaginar-te.
És-me impossível. És o meu nunca.
domingo, 31 de agosto de 2008
Mensagem lacónica
Que lugar é esse tão próximo que não recordas a morada?
Algures, num ponto misterioso fundeado em ti, sentes augúrios de regresso.
Momentos há em que o sentes perto, tão perto... Sentes-lhe o embriagante pulsar penetrando-te em vagas ardentes que te chamam num cicio familiar e mesmo assim ininteligível; é uma mensagem telegráfica poluída com ruídos difusos, de vozes e sons de mundos onde passaste sem te demorar.
Respiras! O ar alonga-se em cavidades, trilha escadas no poço sem fim.
Ah! No fundo de ti o charco lamacento aquieta-se, a lama acomoda-se num leito espesso; é húmus fértil que as sementes, anteriores à palpabilidade da terra, esperavam para poderem germinar. Largada quase imersa, nessa poça opalina, a corrente pesada, enferrujada, conduz o teu olhar ao grilhão ancestral que jaz ancorado mas arrombado. Ferropeia de boca escancarada grita sem voz o hino ao silêncio, desabrolha campos inteiros de almas transparentes que ascendem como suspiros. O ar rarefaz-se e demora-se em ascendência; exala perfumados cânticos mudos de êxtase, exulta não por ti mas pelas mil glebas, intrinsecamente irmãs, libertas e floridas. Sentes a leveza de ser alígero sem ser alado, incomensurável, infinito e abrangente...
Ah! Aí tudo vibra arrebatado, desdobra-se orgástico e tu és tudo desmascarado de forma, limites, fronteiras e conceitos. A frase incompreensível que desde eras remotas sibilava na tua mente ribomba num clarão refulgente.
sábado, 30 de agosto de 2008
Ainda o canto de Gabriela LLansol
Fotografia de Olivier TaugourdeauEntrei na casa. Deixei a brisa beijar a cortina de renda e o seu reflexo no soalho mover-se devagar. A porta dava para uma terraço e o terraço para uma larga praça e a praça dava para o mar. Assim, as sílabas claras elevadas até ao terraço formavam um bailado com as nuvens que subiam até ao ouvido da casa. A cor que se desprendia das flores do chá fazia efeitos de luz no fundo da chávena fumegante. Saboreei o momento de paz e não escrevi nessa linha fumegante. Encostei o ouvido ao pensamento para ouvir a voz dos mortos. Nos dedos de Gabriela poisou uma borboleta branca, tão leve que apenas se sentiu na sombra da parede. Ouvi. No andar de baixo, o meu pai desenhava pássaros num papel minúsculo.
Maria Sarmento -2002
«Esta casa, nos meus olhos que recolhem o último detalhe com a consciência do primeiro momento mais além, fez-se sempre de uma totalidade, e muitíssimas parcelas; a totalidade era a luz, caminho envolvente quando eu descansava aqui; essa luz tinha uma individualidade física tão doce que eu não sentia nenhuma distância entre mim e o que a escrita louvava.»
Gabriela Llansol
sexta-feira, 29 de agosto de 2008
Águia Azul
Rainbow
“SOMEWHERE OVER THE RAINBOW,
SKYS ARE BLUE
AND THE DREAMS THAT YOU DARE TO DREAM
REALLY DO COME TRUE”
O arco-íris deixa o meu coração
Mais tranquilo e
Torna os sonhos realidade.
Mesmo que não seja a minha realidade
Mesmo que esses sonhos não sejam os meus.
7 Cores que o sol e a chuva transformam
Num arco-íris colorido gigante
Que nos abraça
A cada vez que surge
No céu.
Um abraço mágico e
Raro. Gostoso de se sentir apenas no olhar.
E, inevitavelmente, bem no fundo do meu coração.
Para SEMPRE
Um “para sempre” ETERNO
Como aquilo que procuro e nunca encontro…
Para que nunca se resuma à felicidade
Aquilo que eu vivo ou sinto.
quinta-feira, 28 de agosto de 2008
É claro.
Fizeste muito bem.
Há criaturas que perguntam
para não saber.
in Quaresma, Decifrador
Amazonas e Poetas
Sempre ouvi dizer que as Amazonas são corajosas guerreiras. Não conheci nenhuma. Garantem-me que não há quem se lhes assemelhe em bravura. As pedras que retiram com esforço do leito do rio ganham vida em contacto com o ar. Depois de moldadas, o animal ou o objecto que delas se forma solta o seu poder e sortilégio. Os homens temem-nas. Elas correram mundo no seu tempo e espalharam-se pelos continentes, por ilhas, junto da água, as amazonas fortificaram, pois é com esse elemento que tonificam e apuram todos os seus poderes. São filhas da mudança, do vento, e com ele cavalgam sempre em busca. O que buscam essas mulheres? O que as faz travar vigorosas batalhas e cuidar-se para que o seu corpo seja são e forte? Como fazem para sobreviver sozinhas? Que culpa expiam? Embelezam-se para a Festa das Rosas e perseguem a sua presa com tamanha coragem e beleza, que a culpa transforma em misto de medo e desejo os homens que as avistam. Sabem-se unidas pela força da abdicação e do inconformismo. Criaram uma sociedade à parte. De que abdicam estas mulheres temíveis? Abdicam de ser rainhas. Abdicam da sombra. Querem a luz e a coroa. Vão em busca do amante para a festa das rosas, essas mulheres temíveis. Mas não é a Rosa que buscam, tão só o filho delas. O filho da Rosa para criar e entregar ao mundo que lhes foi usurpado – Talvez estas mulheres não existam mesmo, e sejam a forma materializado do medo e da culpa – Só de uma coisa essas guerreiras não abdicam, a coisa da maternidade. E essa grande causa as mantém unidas. São cada vez menos raras as mulheres guerreiras, as amazonas. Dizem que, quando a pedra do rio ou a pedra da lua se transforma em serpente, se tornam invencíveis. Só são vulneráveis ao Amor. Só ele as faz perder batalhas. O amor cego e a paixão violenta são simultaneamente a sua maior fragilidade e a causa da sua invencível determinação para a vitória. É dessas águas agitadas que retiram a sua força de vencedoras. Sujeitas à cegueira do amor, algumas delas têm caído por terra e deposto as armas. E as armas das amazonas são talhadas e afiadas com extremo cuidado e sabedoria. E os filhos do mal, os traiçoeiros, os ambiciosos, os sedentos de poder? Qual o seu lugar na sociedade? O seu papel é enorme. É predominante. São os protagonistas de uma história virada do avesso que andamos a viver há muito tempo. Não há na realidade tipos sociais. Há pessoas. Quem disse que um poeta não pode ser guerreiro e místico e filósofo? Quem disse que uma Amazona não pode cuidar dos seus filhos amá-los e separar-se deles para que sejam pais, filhos e irmãos de todos? Quem disse que quem é guerreiro, não pode cultivar rosas, e amá-las, antes ou depois da batalha? Quem disse que há castas puras e tipos sociais definidos a régua e a castigo? Quem diz que se nasce e morre com certezas acerca do nosso papel social na vida e acerca da vida? Creio, do que conheço, que não há tipos sociais puros e que para além do que sonhamos há ainda o que somos e vice-versa, e não sabemos o que somos, tão só o que sonhamos. Homens e mulheres, guerreiros, negociantes, vigaristas, mentirosos, filósofos, poetas místicos e crentes, governados e governantes, súbditos e vassalos; admiradores e admirados. Tudo tipos mistos, humanos. O meu sonho não é de castas. O meu reino é dos simples. O rio dos poetas não corre por nenhum objectivo. Corre. A minha utopia não é só uma ideia. Temos todos a obrigação de respeitar e cuidar. E já percebemos que só pode ser Rei aquele que, por exemplos, palavras e obras está mais próximo do Pai. Aceita a bondade como coroa, a fraternidade como ceptro e o silêncio e a sabedoria como escudos contra as injúrias e a ignorância. Não podemos esquecer que o reinado é uma ilusão e estamos aqui de passagem. E às vezes estamos só de viagem ou nem sabemos se cá estamos e o que é esse “cá estar”. Porque não é Rei quem quer, nem quem nasceu fidalgo e nobre, mas quem ouve do seu povo aclamação e se deita não convencido de si, mas convencido que ainda pode fazer melhor, pela Pátria e pela Frátria. Reinar é semear. E quem se convence é vencido. A impotência dos deuses não escapa ao Fado. E do Fado, nem humanos nem deuses conhecem os propósitos.
Para o Paulo Feitais, para ele saber que o seu coração está na Serpente e que tenho Saudades do futuro que corre para o passado. Para uma princesa que está no rio a moldar uma pedra em forma de coração a sangrar.
Menina Da Lua
A singela melodia que eu fiz
Pra ti, ó bem amada
Princesa, olhos d'água
Menina da lua
Quero te ver clara
Clareando a noite intensa deste amor
O céu é teu sorriso
No branco do teu rosto
A irradiar ternura
Quero que desprendas
De qualquer temor que sintas
Tens o teu escudo
O teu tear
Tens na mão, querida
A semente
De uma flor que inspira um beijo ardente
Um convite para amar"
Maria Rita
Composição: Renato Mota
"Só se vê bem com o coração..."
(Para quem conseguir ver bem é o Platero no seu monte a regar as suas rosas... as suas, ele) :)
terça-feira, 26 de agosto de 2008
organicidade cartográfica polimorfonuclear

A lei da raridade anunciada está instalada
desde confins saturnos das bujigangas
e, circula como o cancro em combustão
onde fluímos através de dilúvios em suplício
que, vistos deitados duma enfermaria,
são sim escarpas inóspitas de lampejante
intensa gratidão a cem mil metros de altitude.
Somos carapaus a ferver na panela do
lago vulcânico da nossa diversão de ginseng,
aproximamo-nos como quem não quer a Coisa
para que nos conceda sua cirurgia mais frondosa,
congela-se o cometa aí mesmo, atravessando
esse pináculo de densa fricção interior.
É dúbia a vontade e jamais justa, não basta
atrelar o malévolo ao Greenpeace sádico de
nossa alma não partilhável, é preciso ansear
e insistir com os indígenas que desrespeitamos,
libertando-nos da biologia da auto-censura para
nos perdermos a extrapolar o espírito enxuto.
Tudo é mais linear do que nunca será,
escrevo entretantos o que te contradiz a gana,
transpiro monóxido de carbono quando
tão podre me sinto, ninguém pretendo ajudar,
minha roupa dilata e vou exercitando
o impulso de exteriorizar cada desperdício;
somos, jamais sóbrios, ansiãos quadrúpedes
constrictos ao vértice que ouvidos inventam,
matinais parcas dimensões diagnosticáveis
estão a analisar-vos caladas, vêem o consumo
com que humanos se socorrem;
decididas
ilusões inscritas de importância, pululamos
entre elas e devoramos cada magnólia como
mais um pensamento escoado que encadeia.
Torno-me em muco para prescrutar narinas
de tragédias ou gargalhadas aquis imortais,
somos amontoados de sentimentos dignos de
se confrontarem em demenos que esgares eternos,
atravessando-me com sílabas doentias relato
o que prescrevo e transformo-me em história.
Nunca aprendi a andar de bicicleta
e em Amesterdão vai-me fazer falta,
quando lá tamborilar na tontura do crack
quilometrando experiências criminosas e
ofensa agressiva a standarts económicos que
geram falências familiares e reabilitação anal:
intermináveis pés-de-atleta imunes ao nexo.
O vivo sossego dos "beijos merecidos da Verdade"
E tudo espera, aberto e decorado, o Rei que virá, e já chega, que a poeira do cortejo é uma nova névoa no oriente lento, e as lanças luzem já na distância com uma madrugada sua. (...)
Surge dos lados do oriente a luz loura do luar de ouro. O rastro que faz no rio largo abre serpentes no mar.
Dominámos outrora o mar físico, criando a civilização universal; dominaremos agora o mar psíquico, a emoção, a mãe temperamento, criando a civilização intelectual."
Bernardo Soares, "Livro do Desassossego"
A Apaziguadora

Milenares as noites baixam sobre os dias
Os seus ombros nus
Cobertos pelo brilho finíssimo da lua;
O arco das suas costas reflecte
O olhar branco da luz,
Arco-íris do sonho;
As suas asas, gastas de poeira estelar,
São o que de mais belo o universo viu.
Por isso, ó noite única, sempre antiga e nova,
Única e plural,
No universo plural e único!
Ó noite, colo de todas as preces,
Vem sentar-te junto da minha fogueira!
Vem aquecer as tuas asas húmidas de milhares de invernos;
Frias de gelos milenares,
Gastas de atravessar montanhas e ventos.
Vem, ó noite! junta-te ao fogo da minha imaginação e apaga
A febre dos meus olhos, derramando neles os colírios das águas
Que trouxeste da montanha.
Por isso, carinhosa enfermeira do Além,
Cuidadora dos aflitos; mãe dolorosa dos simples;
Mátria de seios escuros, complementar ao mamilo do Sol que tudo deixa ver,
Até a cegueira.
Tu que "que tira (s) mundo ao mundo",
Ó apaziguadora, minha irmã que abres uma estrada de ausência
Onde também eu escureço e esbato os contornos da existência
Tu que me visitas, ritual e inevitavelmente;
Tu que atiras para dentro dos meus sonhos
Toalhas frescas que me tiram a febre do rosto...
E te afastas silenciosa como apareceste,
Ó guardadora da aurora que te guardas dentro de mim
E afagas os meus cansaços;
E trazes nos braços pulseiras de estrelas e pó lunar
Para guardar no frasco do veneno que não mata e adormece...
E fazes desaparecer a ânsia dos que anseiam;
Tu que fazes com que a espada brilhante seja sombra
Imagem esbatida onde repousas a cabeça e te coroas
Para todo o sempre rainha dos desolados, peito manso dos desditosos;
Dor sorvida do peito dos poetas.
Também por ti me desfolho
E atiro em todas as direcções o meu ser perdido em ti.
Milenares, os teus gestos pausados,
As tuas lágrimas purificadas,
A tua longa cabeleira negra
Debruada de miríades de luzes;
Sublime o teu perdão,
Serena a tua face límpida;
Por isso te entrego o lume das palavras
Para que o poema te finja
E te coroe, Mãe
Da minha inquietação atenta.
Milenares as noites em que te fundes numa só
Estreita e pálida mão que refrescas os cabelos
Com o orvalho da tua concha de alimento de nada
E apagas a luz sem a ferir, suavemente
Como um choro lento de mulher, um veio de água que corre para dentro
Da alma sedenta dos homens que morrem
E levam no teu olhar o grande consolo da eterna suavidade.
Ave Mãe-Mar
Ó carinhosa do Além, senhora do luto infinito,
Mágoa externa da Terra, choro silencioso do Mundo.
Mãe suave e antiga das emoções sem gesto,
Irmã mais velha, virgem e triste, das ideias sem nexo,
Noiva esperando sempre os nossos propósitos incompletos,
A direcção constantemente abandonada do nosso destino,
A nossa incerteza pagã sem alegria,
A nossa fraqueza cristã sem fé,
O nosso budismo inerte, sem amor pelas coisas nem êxtases,
A nossa febre, a nossa palidez, a nossa impaciência de fracos,
A nossa vida, ó mãe, a nossa perdida da vida...
... não sei ser humano, conviver
DE DENTRO da alma triste com os homens meus irmãos na terra.
Não sei ser útil mesmo sentindo ser prático, ser quotidiano, nítido...
(...)
Por isso sê para mim materna, ó noite tranquila...
Tu, que tiras o mundo ao mundo, tu que és a paz,
Tu que não existes, que és só a ausência de luz,
Tu que não és uma coisa, um lugar, uma essência, uma vida,...
Vem para mim, ó noite, estende para mim as mãos,
E sê frescor e alívio, ó noite, sobre a minha fronte...
Tu, cuja vinda é tão suave que parece um afastamento,
Cujo fluxo e refluxo de treva, quando a lua bafeja,
Tem onda de carinho morto, frio de mares de sonho,
Brisas de paisagens supostas para a nossa angústia excessiva...
Tu, palidamente, tu, flébil, tu, liquidamente,
Aroma de morte entre flores, hálito de febre sobre margens,
Tu, rainha, tu castelã, dona pálida, vem...
(...)
Ah, sê materna!
Ah, sê melíflua e taciturna
Ó noite aonda me esqueço de mim
Lembrando...
(...)
Quando eu abandonar o meu ser como uma cadeira donde me levanto
Deixar atrás o mundo como a um quarto donde saio,
Abandonar toda esta forma, de sentidos e pensamento...
Como uma capa que me prenda,
Quando de vez minha alma chegar à superfície da minha pele
E dispersar o meu ser pelo universo exterior,
Seja com alegria que eu reconheça...
um sol... na antemanhã do meu novo ser."
Álvaro de Campos
A primavera no verão, e o chico...
(Chico Buarque)
A gente faz hora, faz fila na vida do meio-dia
Pra ver Maria a gente almoça e só se coça e
só se roça e só se vicia
A porta dela não tem tramela
A janela é sem gelosia
Nem desconfia
Ai, a primeira festa, a primeira fresta, o primeiro amor
Na hora certa a casa aberta, o pijama aberto a família, armadilha
A mesa posta de peixe deixa um cheirinho da sua filha
Ela vive grudada no sucesso do rádio de pilha, que maravilha
Ai, o primeiro copo, o primeiro corpo o primeiro amor
Vê passar ela como dança balança avança e recua
A gente sua a roupa da cuja se lava no meio da rua
Despudorada, dada, a danada agrada andar semi-nua e continua
Ai, a primeira dama, o primeiro drama o primeiro amor
Carlos amava Dora, que amava Lia, que amava Léa,
que amava Dora, que amava Rita, que amava Dito,
que amava Rita, que amava Dito, que amava Rita, que amava
Carlos amava Dora, que amava Pedro, que amava tanto,
que amava a filha, que amava Carlos, que amava Dora, que
amava toda quadrilha,
Que amava toda quadrilha
Que amava toda quadrilha
Que amava toda quadrilha
segunda-feira, 25 de agosto de 2008
O Flamingo
O Flamingo apareceu na paisagem. E ela não reconheceu mais nada. Ela perguntou sobre a ave. Ele respondeu que o Flamingo é uma ave viajante e largou-lhe a mão. Já não perguntou mais nada. Depois ficou a ver o Flamingo, a recebê-lo na paisagem.Uma paisagem é uma poisagem. Para o Flamingo e para ela. O Flamingo é uma ave viajante de onde? Antes de enviar o Flamingo, no seu caminho pelo rio, Deus fez-se ouvir a ler alto os poemas de Rilke e o Flamingo aprendeu a voz dos mortos. Depois da audição dos versos e da iniciação órfica à poesia como redenção ou absolução dos que ainda continuam vivos, Deus perguntou ao Flamingo que queria ele ser(?).
Olhando ainda para trás para perscrutar o vazio de Deus a acompanhá-lo, o Flamingo respondeu: quero que o meu corpo seja uma pira, uma arca, uma urna clara para os mortos que chegarem a este rio. Não uma arca dos que perderam a vida, mas daqueles que transbordam sobrevida.
Aceitando que a poesia é uma forma de educar e salvar, Deus concedeu ao Flamingo, nesse instante de breve diálogo depois da lírica audição, um corpo conforme ao pedido. Um corpo vestido de linho alvo, de linho luz para receber os passageiros puros. Poisados na paisagem, ela e o Flamingo, ficam para se reconhecerem. Ela no barco, ele no urzal. Ela espera-o, mas há outros à volta que o aguardam com mais silêncio, com mais clamor. Com mais preparação, com mais ardor. Pressentir que o Flamingo é uma ave que ouve Deus, fá-la concluir que na sua vida as paisagens são assombrosas aparições. E pensa: [talvez] para o Flamingo Deus seja audível, mas para si, Deus e os divinos são inesperadas presenças. Epifânicas companhias no esplendor mais radiante do seu estado de emudecimento, no seu estado de silenciamento encantado e cadenciado. E ouve a proximidade de Deus que estala como madeira seca num fogo que vem do Sol, que vem no vento, que é enamoramento e está na cor e no deslumbramento da percepção, na súbita experiência da excelência da visão. E sabe, ela sabe, que Deus caminha no sentido oposto ao do mundo. O mundo comunica. O divino descomunica. E por isso, nesse silêncio em que é estranha ao mundo, ela sente que Deus se aproxima dos que dizem sem mediação, sem necessidade de remediação. Deus aproxima-se dos que têm uma linguagem imediata: os que são naturais, os que são fins, os que são afins. Nesses, pensa ela, nos quais a linguagem é imediata há mais profundidade gerada pelo silêncio e também por isso mais horizonte de irradiação e expansão de círculos e focos de luz. Não é à toa que esses seres comunicam por tons, comunicam por sons. Há uma brevidade que os rasga de eternidade. Neles a luz não se afasta: trespassa-os. Dilata-os.
Ela sabe-se no rio, não se sabe o quê no rio. Uma morta esperando no rio, uma alma atravessando de barco o rio, uma alma vestida de branco, dançando nas rápidas posições do rosto branco da vela, uma alma ardendo no nascente e no poente do sol, uma alma que junto à vela reaprende a esvoaçar, a zarpar??... Não sabe. Para os seres a quem Deus parece ter dado o privilégio da pergunta, da escolha e da resposta, Deus também concedeu o dom do silêncio meditante. O gorjear, o canto e o som penetrante são formas de uma linguagem orante que é mais fecunda do que a linguagem [dita] comunicante. Ela olha o Flamingo. Não é só uma ave viajante. Atendendo ao seu poiso, acedendo à sua forma, percebe que o Flamingo é uma ave mendicante: está impedida de matar por ter escolhido salvar. Relembra, ao olhá-la com atenção amorosa, Heiner Muller, é preciso salvar do esquecimento um morto. E uma pergunta nasce e fica no silêncio com que o divino a atravessa, a absorve do mundo: onde se encontram os poetas?
Neste rio. Ouve-lhes os versos. Rumorejam como pássaros, como correntes. A atenção é o mais poderoso mecanismo de apreensão involuntária do mundo imperceptível aos sentidos. É a esse mundo que o Flamingo pertence. Também os escuta. Nota-se no andar, na forma como toca no bico para escutar a voz, as vozes. Na lentidão do andar, dentro da corrente que é torrente.
O Flamingo leu todos os poetas? Como faz o Flamingo a quem Deus leu os poemas em voz alta? Como faz o que ora, medita e salva recolhendo no seu corpo-urna, no seu corpo-arca, os que não podem ser esquecidos?
O Flamingo entoa um som, um canto e ela percebe que tudo na paisagem se anima. Do inanimado ao animado tudo ganha alento: as areias movem-se, as lamas deslizam, as urzes avivam-se, o vento afina os instrumentos da sua orquestra. Ave meditante e ave mendicante, ave sagrada que nas margens do rio se ajoelha para receber aquele que lhe chega de rosto branco e frio, de lábios fechados, de lábios lacrados, ave que sabe o caminho, o regresso. Ave álgica, nostálgica.
O que faz o Flamingo que escuta a leitura poética e é interpelado, fala e responde a Deus? O Flamingo escuta e medita. Mas o Flamingo que escuta a poesia não é apenas um perscrutador. É um mediador: aquele que escuta a poesia transporta no seu corpo os mortos, os deuses, os imortais. O Flamingo não é uma ave qualquer. Esta ave viajante alberga no seu corpo-urna, no seu corpo-pira, no seu corpo-útero os mortos que ainda vão a tempo de não haver nascido. Porque aquele que os ouve, de alguma forma, os transporta à origem e ao sem destino. Ao indireccionado. Mas ela indaga com o olhar: como faz o que medita e salva no seu corpo-arca, os que não podem ser esquecidos?
Olha ainda para trás para sentir o vazio de Deus a acompanhá-lo. Não sabe chamar por Deus. Só sabe vê-lo no invisível. Hesitante olha para os rastros. No céu há nuvens que ele vê escondidas no azul-branco. Sabe-as sílabas do céu. Ditongos plangentes nos efeitos cromáticos das cores, nos destinos ascendentes do olhar. Nas margens há caixas de arbustos, caixas que guardam música dos outros pássaros, sinais perdidos de uma linguagem panteísta, uma linguagem transcende. Nas margens há rumos, nas margens há rumores. Estremecem as pernas do Flamingo. Uma suave música determina a dança com que o Flamingo e o morto atravessam para o outro mundo. Um rumo com um rumor que o corpo reconhece como passagem para as paisagens múltiplas das vidas da alma. O ritmo, o rumo e rumor, descortina o que estava perdido, o que estava esbatido no confim ab-surdus da alma. As pernas do Flamingo balançam porque nas caixas dos arbustos estavam sons que eram dons de uma paisagem antiga.
Nas margens há segredos, nas margens há degredos. O Flamingo liberta, quando passa, o que já está desterrado. Recebe-o porque o Flamingo é uma morada. O Flamingo tem no bico uma flauta encantada de Pã, tem um dom que está na asa e tem outro que está no pé. Escreve para o futuro, escreve para o passado: escreve arqueologicamente, escreve premonitoriamente. Inspira e recorda.
Ela contempla o Flamingo como uma Ideia que a visita. Vê-o, ao Flamingo, como uma assombração que é aclaração. Vê o que este peixe-ave traz coberto com um fino linho sobre o corpo. Vê o que vem deitado no alto das pernas-colunas de Simeão. O Flamingo transporta, no rio da Memória, um morto. Alguém que já está frio e adormecido para o mundo. É esse que o Flamingo, no seu corpo de linho gaze, embala em penas brancas de silêncio e calor. E o morto segue, como o poema, imperturbável no alto dos seus pés descalços como os dos monges do deserto, no cimo das colunas de antanho. O Flamingo caminha devagar para não acordar o morto e só oferece, com desmedido cuidado, o lugar acima da Terra, o outro lugar para além do mundo que se merece e onde não se é esquecido. O seu corpo, urna, pira, altar, tem a majestade apoteótica com que no seu andar dançante o reconduz ao Uno, ao Absoluto que a alma filosófica ou compassiva conseguiu pelo abdicar, pelo renunciar, pelo silenciar na fuga e na passagem dos sinais e dos poemas. Ao caminhar, o Flamingo empresta-lhe o ritmo da vida. A nudez do morto é a sua sempre vida, a sua sobrevida. O Flamingo transporta-o ouvindo, relembrando, a sagrada poesia. Rilke e Muller nas paisagens-pautas. A este coro trágico juntam-se as vozes, as gargantas-gárgulas abandonadas nas margens. Junta-se ela. Cantora miserável dos sons difíceis. E o morto, aconchegado no corpo-túmulo do Flamingo toca na sua flauta mágica os sons do Passarinheiro, toca na sua linguagem sem Língua a fala contínua da Mãe. Os que como ela aguardam na margem, sentem que não há morte, mas uma ininterrupta vida que passa pelos sons e pelos dons. Todos sabem o refrão. A ópera ecoa e Eco não destoa. A paisagem é a aura de uma pátria. De uma paisagem poisagem. O Flamingo alado é no mundo um dos vestígios de Deus. Ela lembra-se das Histórias do Bom Deus de Rilke. O Flamingo é a mão direita de Deus. Aquela que só recria. Essa anamnese permanente, em fluxo, vem com a música, vem com a serenidade interior do mensageiro e do passageiro. Os dois estão mortos e os dois estão vivos. Ela é o Flamingo: no seu corpo moram mortos que são vivos. A tragédia do morto que foi retirado do mundo e passa, entre cânticos e lírica, de um reino resplandecente para outro mais dourado, sente-a ela. E as vozes que se ouvem não são vozes: são murmúrios, alusões, irradiações de almas entusiasmadas pela possibilidade de regresso. Quando a asa abre ela vê a mão da mãe que acena e se derrama.
O Flamingo órfico, de asas e pernas longas, conduz o cortejo com benevolência, com envolvência. Como consegue o Flamingo o que Orfeu perdeu? O Flamingo é possuído pela mania da luz não da contraluz. Extasiado e cansado, este ser da água e do ar, conduz o morto ao seu elemento, aos seus elementos saudosos. O Flamingo é o anjo da reminiscência. E esta paisagem não é senão uma poisagem: uma pintura esbatida no interior das nossas asas dobradas. Esta noite, conduzida pelo Flamingo, ela transmigrará do Jardim das Delícias para os frescos de Pompeia. Morrer é aproximar-se do perdido. Porque todos os seres são etimologias para as profundezas da alma. Passagens para o eterno que se esconde no efémero. Se ela olhar mais atentamente o Flamingo, o canto tornar-se-á pranto. Porque é nas lágrimas que os poemas chegam mais depressa aos rios. E a vida nos emudece como peregrinos.
Para a G. que junto ao rio passa como um Flamingo e me empresta a asa e a pena suave com que lhe escrevo sobre as paisagens da alma. Por ela ser uma paisagem, uma poisagem para as almas que são pranto mais do que espanto. Por ela ter pedido, no diálogo com os deuses, ou com Deus, o mesmo que o Flamingo e nos amar e fazer recordar.
domingo, 24 de agosto de 2008
Ser Homem é ser Poeta da Natureza
O rebanho é os meus pensamentos
E os meus pensamentos são todos sensações.
Penso com os olhos e com os ouvidos
E com as mãos e os pés
E com o nariz e a boca.
Pensar uma flor é vê-la e cheirá-la
E comer um fruto é saber-lhe o sentido.
Por isso quando num dia de calor
Me sinto triste de gozá-lo tanto,
E me deito ao comprido na erva,
E fecho os olhos quentes,
Sinto todo o meu corpo deitado na realidade,
Sei a verdade e sou feliz.
...
Pensar em Deus é desobedecer a Deus,
Porque Deus quis que o não conhecêssemos,
Por isso se nos não mostrou...
Sejamos simples e calmos,
Como os regatos e as árvores,
E Deus amar-nos-á fazendo de nós
Belos como as árvores e os regatos,
E dar-nos-á verdor na sua primavera,
E um rio aonde ir ter quando acabemos!..."
Alberto Caeiro
Grande Mário Viegas.
sábado, 23 de agosto de 2008
O Vazio da Página

Uma página branca é a síntese ardente de todas as possibilidades.
Para o poeta é um poço, vertigem, mergulho no espelho
De múltiplas faces. Um alfabeto radioso, a chuva na varanda!
O poeta olha o branco do seu olho no branco imaculado da folha
Sente tremer o papel. Desvia o olhar. Lá fora há um mundo intranquilo
A mulher move-se e curva-se devagar na folha em branco do muro.
Começa a chover. O poeta guarda as palavras, dobra-as devagar,
Protege-as dos ventos fortes e o seu rosto chove vazios de mundo.
Uma vez ainda o vazio parece explodir. Não é nada. É só o silêncio
A riscar a distância e a estranheza da sombra dos dedos pausados
À espera de florir. A varanda dá para as letras, escorre por elas
A água transparente das pontes. O poeta afunda-se na página em cascata.
Mudo de excesso o mundo recolhe-se para dentro da folha, poente.
O vento fechou a porta e a mulher dobrou a página do muro. Cega.
Toda a realidade é um excesso...
"Afinal, a melhor maneira de viajar é sentir.
Sentir tudo de todas as maneiras.
Sentir tudo excessivamente,
Porque todas as coisas são, em verdade, excessivas
E toda a realidade é um excesso, uma violência,
Uma alucinação extraordinariamente nítida
Que vivemos todos em comum com a fúria das almas,
O centro para onde tendem as estranhas forças centrífugas
Que são as psiques humanas no seu acordo de sentidos.
Quanto mais eu sinta, quanto mais eu sinta como várias pessoas,
Quanto mais personalidade eu tiver,
Quanto mais intensamente, estridentemente as tiver,
Quanto mais simultaneamente sentir com todas elas,
Quanto mais unificadamente diverso, dispersadamente atento,
Estiver, sentir, viver, for,
Mais possuirei a existência total do universo,
Mais completo serei pelo espaço inteiro fora,
Mais análogo serei a Deus, seja ele quem for,
Porque, seja ele quem for, com certeza que é Tudo,
E fora d'Ele há só Ele, e Tudo para Ele é pouco.
Cada alma é uma escada para Deus,
Cada alma é um corredor-Universo para Deus,
Cada alma é um rio correndo por margens de Extremo
Para Deus e em Deus com um sussuro soturno.
Sursum corda*! Erguei as almas! Toda a Matéria é Espírito,
Porque Matéria e Espírito são apenas nomes confusos
Dados à grande sombra que ensopa o Exterior em sonho
E funde em Noite o Mistério o Universo Excessivo!
Sursum corda! Na noite acordo, o silêncio é grande,
As coisas, de braços cruzados sobre o peito, reparam
Com uma tristeza nobre para os meus olhos abertos
Que as vê como vagos vultos nocturnos na noite negra.
Sursum corda! Acordo na noite e sinto-me diverso.
Todo o Mundo com a sua forma visível do costume,
Jaz no fundo dum poço e faz um ruído confuso,
Escuto-o, e no meu coração um grande pasmo soluça.
Sursum corda! Ó Terra, jardim suspenso, berço
Que embala a Alma dispersa da humanidade sucessiva!
Mãe verde e florida todos os anos recente,
Todos os anos vernal, estival, outonal, hiemal,
Todos os anos celebrando às mancheias as festas de Adónis
Num rito anterior a todas as significações,
Num grande culto em tumulto pelas montanhas e os vales!
Grande coração pulsando no peito nu dos vulcões,
Grande voz acordando em cataratas e mares,
Grande bacante ébria do Movimento e da Mudança,
Em cio de vegetação e florescência rompendo
Teu próprio corpo de terra e rochas, teu corpo submisso
À tua própria vontade transtornadora e eterna!
Mãe carinhosa e unânime dos ventos, dos mares, dos prados,
Vertiginosa mãe dos vendavais e ciclones,
Mãe caprichosa que faz vegetar e secar,
Que perturba as próprias estações e confunde
Num beijo imaterial os sóis e as chuvas e os ventos!
Sursum corda! Reparo para ti e todo eu sou um hino!
Tudo em mim como um satélite da tua dinâmica íntima
Volteia serpenteando ficando com um anel
Nevoento, de sensações reminiscidas e vagas,
Em torno ao teu vulto interno túrgido e ferveroso.
Ocupa toda a tua força e de todo o teu poder quente
Meu coração a ti aberto!
Como uma espada trespassando meu ser erguido e extático,
Intersecciona com o meu sangue, com a minha pele e os meus nervos,
Teu movimento contínuo, contíguo a ti-própria sempre.
Sou um monte confuso de forças cheias de infinito
Tendendo em todas as direcções para todos os lados do espaço,
A Vida, essa coisa enorme, é que prende tudo e tudo une
E faz com que todas as forças que raivam dentro de mim
Não passem de mim, não quebrem meu ser, não partam meu corpo,
Não me arremessem, como uma bomba de Espírito que estoira
Em sangue e carne e alma espiritualizados para entre as estrelas,
Para além de sóis de outros sistemas e dos astros remotos.
Tudo o que há dentro de mim tende a voltar a ser tudo.
Tudo o que há dentro de mim tende a despejar-me no chão,
No vasto chão supremo que não estão em cima nem em baixo
Mas sob as estrelas e os sóis, sob as almas e os corpos
Por uma oblíqua posse dos nossos sentidos intelectuais.
Sou uma chama ascendendo, mas ascendo para baixo e para cima,
Ascendo para todos os lados ao mesmo tempo, sou um globo
De chamas explosivas buscando Deus e queimando
A crosta dos meus sentidos, o muro da minha lógica,
A minha inteligência limitadora e gelada.
Sou uma grande máquina movida por grande correias
De que só vejo a parte que pega nos meus tambores,
O resto vai para além dos astros, passa para além dos sóis,
E nunca parece chegar ao tambor donde parte...
Meu corpo é um centro dum volante estupendo e infinito
Em marcha sempre vertiginosamente em torno de si,
Cruzando-se em todas as direcções com outros volantes,
Que se entrepenetram e misturam, porque isto não é no espaço
Mas não sei onde espacial de uma outra maneira-Deus.
Dentro de mim estão presos e atados ao chão
Todos os movimentos que compõem o universo,
A fúria minuciosa e... dos átomos
A fúria de todas as chamas, as raivas de todos os ventos,
A espuma furiosa de todos os rios, que se precipitam,
E a chuva como pedras atiradas de catapultas
De enormes exércitos de anões escondidos no céu.
Sou um formidável dinamismo obrigado ao equilíbrio
De estar dentro do meu corpo, de não transbordar da minh'alma.
Ruge, estoira, vence, quebra, estrondeia, sacode,
Freme, treme, espuma, venta, viola, explode,
Perde-te, transcende-te, circunda-te, vive-te, rompe e foge,
Sê com todo o meu corpo todo o universo e a vida,
Arde com todo o meu ser todos os lumes e luzes,
Risca com toda a minha alma todos os relâmpagos e fogos
Sobrevive-me em minha vida em todas as direcções!"
Álvaro de Campos
|*significa em latim "corações ao alto".|
sexta-feira, 22 de agosto de 2008
Mestre Eckhart e Budismo tibetano
Palestra de Paulo Borges sobre "Mestre Eckhart e Budismo tibetano"
25 de agosto, segunda-feira, às 20 horas
São Paulo, R. Dr. Paulo Vieira, 363 - Sumarezinho (perto da estação Vila Madalena do metrô).
Being free
neither obtaining, nor rejecting, nor grasping, nor letting go,
being free."
Master Taisen Deshimaru
quinta-feira, 21 de agosto de 2008
Ler é dar de beber à alma
quarta-feira, 20 de agosto de 2008
O supremo pensar é amar
O pensamento humano só acontece para que se reconheça o Amor e a re-criação. Só? E que mais se pode querer? E se é só disso que ele é capaz, tudo o mais é com a natureza, e somo-la sem a pensar, por ser ela a matéria do nosso amor, esse mesmo que nos dilui o pensamento no sentimento, o sonho na realidade, a noite no dia, o tempo na eternidade.
O verdadeiro conceito humano nasce da concepção, a qual caminha para a perfeição...

A ciência Real é o Amor.
terça-feira, 19 de agosto de 2008
Ser Universal
Tudo o que existe hoje no mundo existe desde o princípio, a passagem do tempo está apenas a revelar o que encoberto ainda há, até que totalmente se descubra e se crie como ser universal que é.
A Terra, como Plan-e-ta que cresce, desenvolve-se naturalmente, por si, e como ela o ser humano, ao ser uno com ela. A influência do consciente -i-solado- do Homem sobre si próprio é igual à do consciente da flor sobre si mesma, que, como não o tem, é nenhuma.
Anotações*
da morte como outra invenção,
talvez como a única verdade dentro deste equívoco.
Diego Doncel
Sei que o primeiro verso não principia o poema. Que o primeiro verso não é a síntese anterior de outra coisa mais. Não anuncia, não vem primeiro, nem tão-pouco fica. Talvez transite porque trespassa primeiro o verso segundo e vai depois na esperança do mesmo. É qualquer coisa triste. Por isso todo o poema é contínuo, porque passa por uma linha desaparecida no seguimento das palavras que encontra, está para além de si mesmo, é a sua própria invisibilidade, o seu próprio desaparecimento. Talvez queira ser simplesmente tudo. Ser sem explicar. Ser sem si mesmo. Ser como o poeta sem seu próprio destino. Ser assim desaparecido e escrever apenas mais um poema, um último primeiro verso na solidão de ser apenas um. Ser tudo o que fica e tudo o que vê desaparecido, deixado ir. É uma existência sem explicação. Por isso o poeta escreve o poema na posição excepcional de ser todo o mundo pronunciado. Por isso fica caído nas palavras que encontra enquanto pensa, enquanto espera. E espera apenas as palavras, porque todas elas são todos os anúncios possíveis de uma só unidade que se desprende. E tudo se desprende enquanto escreve o primeiro verso. Tudo faz uma só existência em movimento em seu próprio pensamento, em seu próprio desaparecimento. Não foge mais das palavras, vivem puras em si para sempre em criação, e passam juntos, seguem tão móveis como se estivessem mortos, tão inúteis como se estivessem vivos, às vezes em silêncio, mortos e acompanhados. E o nada surge no encanto geral de tudo, e o poeta parece morto, trespassa também, meio acordado no claro-escuro do seu pensamento, com os olhos postos não se sabe bem em que visão, pois ele vê em cada canto o horror de tudo, em cada horror o encanto de tudo, e leva uma vida lenta, restituindo o que não conhece, o que tão certamente desconhece. E esquece a mentira, olha vago para ela. Para a vida. E esquece também a literatura. Esquece toda a poesia que conhece. Talvez queira ser sem explicar. Procura os cemitérios. Procura as igrejas. As planícies e a morte que nelas passa e que nunca chega a percorrer. As pedras puras. As casas puras. A idade pura. A sua própria loucura tão pura como o seu próprio nascimento. A essência de quem procura. E diz: estou morto. E vê a sua loucura tão certa como a altura de toda a devastação. A loucura em redor da escrita. E vê a loucura entrançada na cabeça das crianças puras. A loucura tão pura como elas, desprendendo-se, agitando os lados da sua inteligência. A loucura agarrando-se-lhe nas palavras, a loucura profunda de sentir depois, de viver depois, de ser depois entre a penumbra, caído, louco, desaparecido, morto. Porque o poeta quer a máxima visão de todas as loucuras imagináveis e por gritar. Vê sua mãe a olhar para ela. O seu sangue menstrual. Envelhece no seu sangue. Enlouquece também. Procura a Mulher. A mais bela diferença a inspirar felicidade. E decorrem as frases em redor do útero de ambos. Vão juntos. Vão sempre juntos como quem procura o repouso de um movimento. O poeta tornou-se poético, numa vida tão pura como qualquer outra. Uma vida da qual se desprendeu também. Perdido, longe, só, morrendo agora, tão novo e invisível na mais pura liberdade da poesia que escreveu. O primeiro verso não tem desígnio, como o poeta não sabe para onde vai, e enquanto os mortos vão receando a solidão, e os vivos se fazem desaparecer, os corpos vão sendo engolidos à procura de nascerem também.
Canção da noite no baloiço

Para a Anita, esta canção de pernas para o ar, no baloiço do tempo que vai a girar, vai o Sol e a Lua...
Os olhos à procura do som que ainda havia, na noite vazia.
Entre estrela e canto, entre a serra e o mar se perdeu
O vaso onde, à tardinha, era tarde para o dia, e a voz se perdia
E a estrela guardada na arca do vento estremecia. Era o ar, era o dia
A girar as girândolas, as estrelas e as rosas de toucar
A canção da noite cantada, suspensa num lenço
De arder e de rir. Havia canções para quando o tempo
Viesse outra vez libertar a noite que vazia ria
Sem chegar nem partir nem faltar nem cair do chão do ar
Diadema de ouro suspenso na coroa da criança nascida
Ontem à tardinha, quase noite, quase dia, oculto havia
Pendurado na lua um baloiço de luz que a noite vinha
Empurrar como um berço, ao tempo. A mãe sonhava:
Ai que linda infanta que vai a voar, a soltar os sopros
Para lá da roseira que havia na casa, na casa suspensa
Na barca do tempo. Roseira de cantos virados para o mar
Caminhos de neve de pés azulados, na tarde dormente
Dos gestos cansados, rosados de amar. Ai que linda rosa
Que tarda em chegar, vem no pó da noite que deita o luar.
Ai que bela noiva para o dia noivo, que pé tão rosado
Que a fada madrinha dançará na noite da tarde tardinha
Que já cá chegou e esperou pela noite entrada na vinha
Da tristeza alegre da cara que tinha a coroada rainha
Fada que dormia, veio soprar-lhe o dia no jardim sonhado.
Anjos e Rosas
Para o Platero que tão bem sabe cuidar do seu jardim.
Anda um anjo no meu sonho de mim, em puro cobreEnsina-me a dormir e a conhecer os caminhos do vento
Tem as asas forradas de ouro velho e chora, o pobre!
Por ter comigo um pacto que dura mais que o tempo.
O Amor que me tem não tem ouvido o sino e a voz
Anda calado o anjo de cobre e rendas de bordar
Em cima da toalha a rosa secou no deserto a sós
A perseguir, mudo, a flor que mesmo seca há-de brotar
Que areias do deserto, ilhas do sul e cumes de montanha
Não sobrevoamos nós, tristes aves em voos de saudade!
Cinzas que a tarde colhe, pó, jornais, pedaços de lenha
Para o fogo que um dia havemos de habitar. Enfim, nós dois,
O anjo e eu, assim desentendidos trocamos receitas e olhares
Para que a névoa teça em fios finos a luz dos seus colares.
A saga do Homem-formiga
é um animal domesticado,
vive no grande circo do mundo
como leão enjaulado.
Não haverá ele de ser chato?...
Chato é pouco!
A comichão de estar
fora do corpo
atordoa-lhe o sentido...
como o formigueiro nos pés
que se levantam no ar.
Ser homem-formiga
em vez de poeta-cigarra
fá-lo viver fora de casa,
como trabalhador vagabundo
perdido da própria alma.
O Homem-filho entrou
em oposição
com a Mãe-Terra
e nessa guerra
se deixou
sem mais questionar
o seu porquê,
sem querer descobrir
a única via que lhe interessa,
a de a ela de novo se unir
e então viver a vida a sér-io,
ser mãe e filho de pleno direito,
cantar a vida de peito aberto,
ser criança livre
e poeta a tempo inteiro...
eterno.







