O CAMINHO DA SERPENTE

"Reconhecer a verdade como verdade, e ao mesmo tempo como erro; viver os contrários, não os aceitando; sentir tudo de todas as maneiras, e não ser nada, no fim, senão o entendimento de tudo [...]".

"Ela atravessa todos os mistérios e não chega a conhecer nenhum, pois lhes conhece a ilusão e a lei. Assume formas com que, e em que, se nega, porque, como passa sem rasto recto, pode deixar o que foi, visto que verdadeiramente o não foi. Deixa a Cobra do Éden como pele largada, as formas que assume não são mais que peles que larga.
E quando, sem ter tido caminho, chega a Deus, ela, como não teve caminho, passa para além de Deus, pois chegou ali de fora"

- Fernando Pessoa, O Caminho da Serpente

Saúde, Irmãos ! É a Hora !


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sábado, 22 de janeiro de 2011

"De todas as coisas que fiz, numa vida comprida como a minha, a melhor foi fazer amor, [...] porque através de um corpo está todo o universo"



- Da esquerda para a direita: Délio Vargas, Artur do Cruzeiro Seixas, Paulo Borges, Alexandre Vargas e António Cândido Franco.

"De todas as coisas que fiz, numa vida comprida como a minha, a melhor foi fazer amor, fazer amor com pessoas, tocar com as mãos um corpo, porque através de um corpo está todo o universo. Isso é o mais importante, muito mais do que a pintura, a arte, os intelectuais, os livros, essas coisas todas" - Artur do Cruzeiro Seixas (citação de memória), no final de um video ontem projectado no Botequim da Graça, na apresentação do livro de António Cândido Franco, Teixeira de Pascoaes nas palavras do surrealismo em português.

Uma noite histórica, acima documentada, com a presença do próprio Cruzeiro Seixas, que será entrevistado e publicará obras suas no nº4 da Cultura ENTRE Culturas.

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

O corpo

«A vida de cada um é a sua própria intuição... irrepetível e intransferível... depois da morte vem o vazio. Que vazio? Talvez aquela cavidade oca, como o molde depois de retirada a peça que moldara, aberta no fluído que nos envolve e logo invadida pelo mesmo. O élan vital dissolve-se com o corpo... Nada visível resta». in «Inconformação» ESF

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Conheces tudo o que o teu corpo contém?

"No íntimo deste corpo existem o Monte Meru, os sete continentes, lagos, oceanos, montanhas, planícies e os protectores dessas planícies.

Nele também residem os videntes, os sábios, todas as estrelas e planetas, as passagens do rio sagrado, os centros de peregrinação e as divindades desses centros.

Nele rodopiam o sol e a lua, que são as causas da criação e da aniquilação. Do mesmo modo, ele contém éter, ar, fogo, água e terra.

Todos os seres encarnados nos três mundos, em conexão com o Monte Meru, existem no corpo junto com todas as suas actividades.

Aquele que conhece tudo isto é um yogi. Não há dúvida acerca disto"

- Shiva-Samhita, 2, 1-5 (manual de Hatha-Yoga do séc. XVII)

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Corpo


O corpo é um bocado de carne. O corpo vivo é algo diferente disso, porque sente. Na morte, algo sai do corpo e este assume a sua natureza puramente carnal - ou morta? Um bocado de carne, insensível e inerte como uma pedra. Apercebemo-nos de que ele é carne. Tantas e tantas vezes absortos do corpo, não pensamos nele, daí não pensarmos nele como carne: a consciência do corpo torna-se audível sobretudo nos momentos de dor. Aí dizemos - eu sou isto. Carne. E desaparecem as vãs esperanças e ilusões sobre a nossa suposta espiritualidade enquanto entes. Pois em nós o próprio ser espiritual está misturado com o ser corporal e são, possivelmente, indistintos. O espírito sente o que acontece ao corpo e o corpo não se revê nos cantares do espírito, que aparentemente tudo comanda. Mas o espírito revê-se no pranto do corpo. Ante a ferida aberta, o espírito agoniza e perde-se em orações e rezas, escapes e fugas da dor. Aí dizemos - faz isto passar. Anestesia.

domingo, 18 de janeiro de 2009

Viagem

Ainda não parti, mas a minha viagem já começou. A alma lança-se primeiro para a frente, na antecipação do vôo. A mente segue-a, receosa, medrosa, ainda hesitante. Assim se vai abrindo o caminho que me vai separar de ti. Colocar o meu pé físico nos primeiros centímetros desse caminho vai ser uma das coisas mais difíceis que já fiz. O meu corpo não quer separar-se de ti. Nem a alma, mas essa, essa anda sempre a esvoaçar de um lado para o outro. Vai e volta, vai e volta. Nem sabe que vai para sempre. Sabe o quê, a alma? A alma é uma tonta. Feita apenas de voo, emoção e luz e sombras, sabe lá para onde vai, ela. Vai para onde a mandam, ora essa. Vai com o corpo, porque está presa a ele. A mente é que tem medo, mas foi a mente que decidiu. A mente protege em primeiro lugar o corpo. E o corpo, ultimamente, fora muito atacado pelas bicadas da alma, que se queria libertar. A alma enterrou-lhe o bico e as garras e começou a destruir o corpo. O corpo não se mexe. Ou melhor, não se mexia. Mas a mente começou a ver que a coisa estava a ir longe demais. Sentiu o corpo a falhar, as células a avariarem e a errarem a programação, a respiração cada vez mais ofegante, a visão a nublar-se, a circulação a interromper-se em vários pontos. Por isso, olhou no futuro e mudou-o imperceptivelmente. Poucos sabem, mas quando o presente acontece, não é causado pelo passado. É causado pelos nossos pensamentos colocados no futuro. O tempo, ao contrário do que se pensa, tem dois sentidos. O corpo pode percorrer apenas um, mas a mente percorre os dois, infindavelmente, sem mesmo se dar conta. Quando a mente olhou para o futuro e viu a morte do corpo, assustou-se e criou um futuro diferente. Do futuro para o presente chegaram então novos acontecimentos, devagar, ao princípio, depois numa sucessão cada vez mais rápida. Embateram um a um, primeiro como cascalho, depois pedras, depois pedregulhos, contra os muros que rodeavam o corpo, até que estes caíram. O caminho abriu-se. O caminho que me separa de ti. Onde irei dar em breve o primeiro passo. A alma é uma tonta, mas acaba por conseguir sempre o que quer. O corpo prende a alma, a mente é que decide, mas afinal a alma é que manda. Essa tonta. Não sabe para onde vai, só sabe que não quer ficar. Sofre e nem sabe porquê. Morde e arranha, quando enlouquece e pouco lhe importa o mal que faz ao corpo, porque afinal, para ela, o corpo não passa de uma prisão. Não fosse a mente e a alma matava o corpo em três tempos. Talvez num tempo apenas. Como um traço de pincel flutuante ou um lenço de seda puxado pelo vento na direcção de um caminho que ainda mal se abriu, branco, tão branco, como uma fina tela pousada no chão, mal sabe a alma o que a espera. Quando sentir a tua falta, quererá voltar. Mas será tarde demais. O corpo só pode percorrer o tempo num sentido e também os caminhos abertos pela vida não têm regresso. Não sei como a mente e o corpo irão conseguir acalmá-la, à tonta da alma, quando ela perceber que se quebraram os laços entre ela e a tua alma. Neste momento ainda está entrelaçada na tua. Não sabe que vai separar-se. Chilreia, alegremente, numa estúpida emoção sem sentido, que a minha mente se apressa a tentar esmagar. Em vão. A mente é mais densa do que a alma, tal como o corpo é mais denso que a mente. Mas enquanto a mente tenta acertar com um tabefe na alma tonta, esta vai-se distraindo e por vezes, até já se separa da tua, esvoaçando para um lado e para o outro. A tua alma está presa em ti, mas a minha alma não corre para mim, que ainda aqui estou, traça pinceladas coloridas no caminho branco e canta. À medida que o caminho se vai abrindo, com pinceladas e mais pinceladas de vôo, o meu corpo prepara-se para partir também. Eu também vou ter de ir com ele. Estou presa à minha alma. Sou ainda menos densa que ela. Pensam que ela é tonta? Parece tonta, mas não é, sou eu que a controlo. Mas nada decido e nunca intervenho. Nem sei quem sou. Desdobro-me em multiplicidades infinitas. Interrogo-me. Tão sómente.

quarta-feira, 3 de setembro de 2008

O corpo da mente humana (corrigido, até ver, graças às críticas)

O ser humano real é duramente brando, pois são os ossos duros que sustentam o tecido mole, mas é este que se relaciona directamente com o meio.

domingo, 20 de julho de 2008

Amor

Vaza-me os olhos: continuarei a ver-te,
Tapa-me os ouvidos: continuarei a ouvir-te,
mesmo sem pés chegarei a ti,
mesmo sem boca poderei invocar-te.
Decepa-me os braços: poderei abraçar-te
com o coração como se fosse a mão.
Arranca-me o coração: palpitarás no meu cérebro.
E se me incendiares o cérebro,
levar-te-ei ainda no meu sangue.


Rainer Maria Rilke


Isto é qualquer coisa de fabuloso!
Junto a este poema duas fotografias com duas linhas de palavras.
Numa espécie de sonho... ponho ao mesmo nível de sentir e de agir o micro e o macro.
O micro, aqui representado pela dualidade. O macro, pela multiplicidade...
O Amor pelo outro e o Amor pelos outros, o incondicional.
O eu e o todo. Ou o todo e a parte.
O princípio e o fim, e o caminho que vai do princípio ao fim.

Enjoy
:)





São precisos sempre dois.
Um para dar
Outro para receber.





Mas podemos ser sempre mais.
Mais a dar.
Mais a receber.

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008

Consciência da consciência, consciência pura

Os fenómenos são manifestações. De quê? Não sabemos. Só há duas vias possíveis de conhecimento: a dos fenómenos e a das suas causas que é, em última instância, de uma suposta causa única ou da coisa que são todas as coisas. Mas, para nós, todas as coisas são fenómenos; tudo nos aparece como fenómeno, incluídos nós mesmos, na medida em que "fenómeno" significa "ser para uma consciência". Dizemos, então, que nos aparecem como fenómenos, mas que podem não o ser, na medida em que podem ser algo mais, quer dizer, objectos independentes da consciência. E nós, que tipo de objecto somos? Dependente da consciência, porque o eu é uma construção mental mas, também, um eu para mim; porque eu sou o eu e isto implica consciência. É por isso legítimo perguntar-se se sempre tivemos ou teremos consciência, o que é o mesmo que existir ou se, por outro lado, existimos apenas entre os nossos nascimento e morte. São perguntas que provêm de uma mente mas, principalmente, de um eu, porque sem consciência não existiriam perguntas. A mente tem inúmeras funções, centenas. É muito fácil, evidente e simplista agrupá-las apenas em seis ou sete, porque cada uma dessas contém centenas de outras. Se pararmos para pensar sobre isso, tomando atenção sobre o que a mente está a ou o que pode fazer, descobrimos centenas de pequenas funções que vão ocorrendo. Por isso, a mente é capaz de inúmeras coisas, incluíndo pensar que poderia existir sem consciência. Mente sem eu. Talvez seja o caso dos computadores e dos robots: pensamentos sem consciência? Há algo mais importante do que isso, para nós, que é o sermos para nós, o eu; e se somos desde e para sempre nós ou se somos entre nascimentos e mortes. A própria lógica de sermos entre nascimentos e mortes, implica que somos um mesmo, mas não se sabe se há mais do que um nascimento e uma morte para cada eu. Mas o eu resume-se bem na ideia de que é o ser que é ser para si. Como tal, é consciência, mas de ser uma série de coisas, incluíndo, principalmente, um corpo e uma mente. Cada uma destas palavras contém em si inúmeras outras, que escolhemos agrupar sobre os títulos de "corpo" e "mente". E esses algos são independentes da consciência, excepto no serem para algo que tem consciência que o são. Somos tudo o que somos, conscientes ou inconscientes disso, excepto no eu que é, principalmente e quem sabe se exclusivamente, ser para si. Ser um eu é ser um ser que é para si, que tem consciência de si; é, primeiro, ter consciência de si enquanto ser consciente. Consciência da consciência, consciência pura.

terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

Se não existisse dor física

E o Inferno e o Paraíso dependem de consciências, porque todo o mal ou bem vem a sentir-se, na medida em que se não se sentisse não era nem um nem outro... mas resta saber se podem existir Mal ou Bem Absolutos em algum momento das nossas vidas, o que não sabemos Absolutamente, mas sempre acerca de nós, considerando, por exemplo, a dor física extrema o pior mal da vida. É uma perspectiva materialista? Não, é realista, na medida em que seja que for que sonho que sonhemos o sonho é este sonho, é o que está a acontecer, nada mais. Ou haverão sensações piores? Se não existisse dor física, existiria dor de espécie alguma?

O Paraíso

Foi feita, neste blogue, uma pergunta: o que é a mente? Era suposto que começássemos, a partir daí, mas não necessariamente sempre, a investigar o que é a mente. Eu não sei o que é a mente. Vinha no caminho para casa a pensar acerca da mente, e vinha com algo que esqueci, que tem a ver com ser intuitivo, para cada um, o que é a mente, e que afinal não esqueci, que são todas aquelas operações de pensamento que fazemos, tudo o que consciencializamos, reparamos, fazemos, tudo isso é mente ou oriundo da mente. Sim, há ou parecem haver corpos, e não sabemos se as mentes estão nos corpos, se estes nas mentes - o que parece mais estranho -, bem como muitas outras perguntas: viverei para sempre? Viverei depois da morte? Perguntas muito mais pertinentes do que "o que é a mente?", muito mais pujantes. Perguntar por o que é a mente parece ser perguntar por uma evidência, na medida em que esta é altamente intuitiva para quem tem ou é uma mente, nem que em parte. Mas qual a natureza da mente? Eis uma pergunta altamente interessante, por perguntarmos se há a possibilidade de existirmos antes ou depois da vida em consciência; e isso porque temos a supor que os corpos datam de entre os nascimentos e mortes das pessoas, aparentemente incluídos. Se há algo imortal, é a mente, porque consideramos, normalmente, que somos corpo e mente, nada mais. Mas há interesse numa eternidade? Há, se desejada, uma eternidade boa - quem quer arder no Inferno? O Inferno é a possibilidade de uma eternidade má, seja ela como for. Muito mais, o Inferno é tido, se virmos bem as coisas, como o Mal Absoluto. Tudo o que for mau, se acontecer na eternidade, acontece no Inferno. O Paraíso, por sua vez, é um lugar Absolutamente Bom.