
O corpo é um bocado de carne. O corpo vivo é algo diferente disso, porque sente. Na morte, algo sai do corpo e este assume a sua natureza puramente carnal - ou morta? Um bocado de carne, insensível e inerte como uma pedra. Apercebemo-nos de que ele é carne. Tantas e tantas vezes absortos do corpo, não pensamos nele, daí não pensarmos nele como carne: a consciência do corpo torna-se audível sobretudo nos momentos de dor. Aí dizemos - eu sou isto. Carne. E desaparecem as vãs esperanças e ilusões sobre a nossa suposta espiritualidade enquanto entes. Pois em nós o próprio ser espiritual está misturado com o ser corporal e são, possivelmente, indistintos. O espírito sente o que acontece ao corpo e o corpo não se revê nos cantares do espírito, que aparentemente tudo comanda. Mas o espírito revê-se no pranto do corpo. Ante a ferida aberta, o espírito agoniza e perde-se em orações e rezas, escapes e fugas da dor. Aí dizemos - faz isto passar. Anestesia.