O CAMINHO DA SERPENTE

"Reconhecer a verdade como verdade, e ao mesmo tempo como erro; viver os contrários, não os aceitando; sentir tudo de todas as maneiras, e não ser nada, no fim, senão o entendimento de tudo [...]".

"Ela atravessa todos os mistérios e não chega a conhecer nenhum, pois lhes conhece a ilusão e a lei. Assume formas com que, e em que, se nega, porque, como passa sem rasto recto, pode deixar o que foi, visto que verdadeiramente o não foi. Deixa a Cobra do Éden como pele largada, as formas que assume não são mais que peles que larga.
E quando, sem ter tido caminho, chega a Deus, ela, como não teve caminho, passa para além de Deus, pois chegou ali de fora"

- Fernando Pessoa, O Caminho da Serpente

Saúde, Irmãos ! É a Hora !


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sexta-feira, 13 de março de 2009

Maria Lúcia Garcia Marques: Viator

Lido aqui.

[...] No nosso imaginário, VIAGEM contém em si e desde logo o gérmen de um movimento excêntrico. É, em geral, um conceito que se alimenta da ideia de um encontro para lá de nós, de caminhos, paisagens ou costumes, mais ou menos exóticos que se recolhem através dela, viagem, como processo exterior ou interior. É intrinsecamente, um partir do centro existencial de cada um em busca de uma coisa outra - nova ou diferente - para dela fazer uma aquisição sua. A viagem é um exercício humano velho como o tempo e longo como as voltas do mundo, narrado ou simplesmente vivido na Busca: da novidade? do saber? da superação dos limites (materiais e humanos)? da simples fuga do trivial no displicente mover-se de quem tem lazeres? via iniciática? (na nomenclatura maçónica dá-se essa designação ao conjunto de provas a prestar por quem quer entrar na sociedade secreta ou passar deum grau inferior a outro superior), ou uma certa forma de se superar o medo atávico de partir, de alguma forma sugerido pelo Poeta: “Partir / perder países...” ou mais claramente caracterizado pelo brasileiro Amyr Klink, navegador solitário e narrador sensível, à beira de iniciar a travessia, em barco a remos do Atlântico:

Era o medo de nunca partir. Sem dúvida, este foi o maior risco que corri: não partir” [...] “Pelo simples facto de estar ali onde estava, debatendo-me entre os remos, xingando as ondas e maldizendo a sorte, me sentia profundamente aliviado: Feliz por ter partido.
(in Cem Dias Entre o Céu e Mar, Companhia das Letras, 1955)

A viagem contém em si um sentido de utilidade e renovação eternos, porque somos por natureza abertos ao espanto ainda que fiéis à rota e à lição dos mapas, guiados pela curiosidade mas leitores de tradição, intuindo que, como já Alexandra Lucas Coelho disse “ela (viagem), se não faz fatalmente em frente mas também por dentro, não é uma só mas também todas as outras, as que deixámos para trás, lidas, vividas, ressuscitadas”. E tudo isso se explica porque, se olharmos de perto a etimologia da palavra “viagem”, o latim viaticum (chegado até nós através do provençal viatge) verificamos que significa, à letra, ‘provisões de viagem’, ‘tudo o que serve para fazer caminho’, ou seja, e generalizando, espécies várias de alimento (para o corpo e para o espírito) que a sustentam e fazem com que ela ajude a viver a esperança, a descobrir e a abrir espaços de reflexividades úteis e renovadoras e, na sua máxima realização, alimente um gosto exclusivo pela vida, de caminhar pelo mundo desencantando olhares proféticos que vêem o que ainda não vimos e libertando memórias que recordam o que não chegámos a ver.

domingo, 18 de janeiro de 2009

Viagem

Ainda não parti, mas a minha viagem já começou. A alma lança-se primeiro para a frente, na antecipação do vôo. A mente segue-a, receosa, medrosa, ainda hesitante. Assim se vai abrindo o caminho que me vai separar de ti. Colocar o meu pé físico nos primeiros centímetros desse caminho vai ser uma das coisas mais difíceis que já fiz. O meu corpo não quer separar-se de ti. Nem a alma, mas essa, essa anda sempre a esvoaçar de um lado para o outro. Vai e volta, vai e volta. Nem sabe que vai para sempre. Sabe o quê, a alma? A alma é uma tonta. Feita apenas de voo, emoção e luz e sombras, sabe lá para onde vai, ela. Vai para onde a mandam, ora essa. Vai com o corpo, porque está presa a ele. A mente é que tem medo, mas foi a mente que decidiu. A mente protege em primeiro lugar o corpo. E o corpo, ultimamente, fora muito atacado pelas bicadas da alma, que se queria libertar. A alma enterrou-lhe o bico e as garras e começou a destruir o corpo. O corpo não se mexe. Ou melhor, não se mexia. Mas a mente começou a ver que a coisa estava a ir longe demais. Sentiu o corpo a falhar, as células a avariarem e a errarem a programação, a respiração cada vez mais ofegante, a visão a nublar-se, a circulação a interromper-se em vários pontos. Por isso, olhou no futuro e mudou-o imperceptivelmente. Poucos sabem, mas quando o presente acontece, não é causado pelo passado. É causado pelos nossos pensamentos colocados no futuro. O tempo, ao contrário do que se pensa, tem dois sentidos. O corpo pode percorrer apenas um, mas a mente percorre os dois, infindavelmente, sem mesmo se dar conta. Quando a mente olhou para o futuro e viu a morte do corpo, assustou-se e criou um futuro diferente. Do futuro para o presente chegaram então novos acontecimentos, devagar, ao princípio, depois numa sucessão cada vez mais rápida. Embateram um a um, primeiro como cascalho, depois pedras, depois pedregulhos, contra os muros que rodeavam o corpo, até que estes caíram. O caminho abriu-se. O caminho que me separa de ti. Onde irei dar em breve o primeiro passo. A alma é uma tonta, mas acaba por conseguir sempre o que quer. O corpo prende a alma, a mente é que decide, mas afinal a alma é que manda. Essa tonta. Não sabe para onde vai, só sabe que não quer ficar. Sofre e nem sabe porquê. Morde e arranha, quando enlouquece e pouco lhe importa o mal que faz ao corpo, porque afinal, para ela, o corpo não passa de uma prisão. Não fosse a mente e a alma matava o corpo em três tempos. Talvez num tempo apenas. Como um traço de pincel flutuante ou um lenço de seda puxado pelo vento na direcção de um caminho que ainda mal se abriu, branco, tão branco, como uma fina tela pousada no chão, mal sabe a alma o que a espera. Quando sentir a tua falta, quererá voltar. Mas será tarde demais. O corpo só pode percorrer o tempo num sentido e também os caminhos abertos pela vida não têm regresso. Não sei como a mente e o corpo irão conseguir acalmá-la, à tonta da alma, quando ela perceber que se quebraram os laços entre ela e a tua alma. Neste momento ainda está entrelaçada na tua. Não sabe que vai separar-se. Chilreia, alegremente, numa estúpida emoção sem sentido, que a minha mente se apressa a tentar esmagar. Em vão. A mente é mais densa do que a alma, tal como o corpo é mais denso que a mente. Mas enquanto a mente tenta acertar com um tabefe na alma tonta, esta vai-se distraindo e por vezes, até já se separa da tua, esvoaçando para um lado e para o outro. A tua alma está presa em ti, mas a minha alma não corre para mim, que ainda aqui estou, traça pinceladas coloridas no caminho branco e canta. À medida que o caminho se vai abrindo, com pinceladas e mais pinceladas de vôo, o meu corpo prepara-se para partir também. Eu também vou ter de ir com ele. Estou presa à minha alma. Sou ainda menos densa que ela. Pensam que ela é tonta? Parece tonta, mas não é, sou eu que a controlo. Mas nada decido e nunca intervenho. Nem sei quem sou. Desdobro-me em multiplicidades infinitas. Interrogo-me. Tão sómente.

sábado, 16 de agosto de 2008

Esta noite sonhei

Sonhei que o meu cavaleiro andante viajava pelas dunas
e que me procurava em cada pôr-do-sol…





Viajou milhares e milhares de anos
O caminho era este, a estrada era outra…





Na baínha do casaco trazia um presente para me oferecer





Rosas esculpidas pelo vento e pelo tempo.
Rosas secas, pétalas fósseis guardadas desde o princípio dos tempos





No meu sonho o céu era branco como cal e tinha muitas estrelas coloridas
Outras vezes, o céu era sustentado por colunas muito altas





Havia muitas portas, quase todas de um azul bonito











Um dessas portas esperava, entreaberta, que eu entrasse
Mas eu não entrei.




Escondi-me no alto do minarete
De uma das janelas parecia que se via o infinito
O que parece não acabar nunca. Mas não era o infinito


Era o deserto que me chamava
Era aquele alaranjado que me dizia que fosse, que me dizia que sim
O horizonte da cor do deserto é assim…





Estarrecida, contemplei a beleza e a grandiosidade
que é estar perante aquela areia macia
que nos envolve em todo o redor…
E, em silêncio, ouvir aquelas palavras que a natureza nos diz
quando se mostra assim nua, despida de tudo.





E o Sol desceu…




E a Lua subiu…
Num ritual que se repete pelos séculos dos séculos
Numa sequência de luz e de escuridão iluminada





Nesses momentos,
Há miragens que nos chegam…
Como se fossem espíritos anciãos
Dispostos a dançar connosco uma dança de lua cheia e de fogueira acesa
E nos acenam num adeus.





Acordei.


(leia-se: voltei)