O CAMINHO DA SERPENTE

"Reconhecer a verdade como verdade, e ao mesmo tempo como erro; viver os contrários, não os aceitando; sentir tudo de todas as maneiras, e não ser nada, no fim, senão o entendimento de tudo [...]".

"Ela atravessa todos os mistérios e não chega a conhecer nenhum, pois lhes conhece a ilusão e a lei. Assume formas com que, e em que, se nega, porque, como passa sem rasto recto, pode deixar o que foi, visto que verdadeiramente o não foi. Deixa a Cobra do Éden como pele largada, as formas que assume não são mais que peles que larga.
E quando, sem ter tido caminho, chega a Deus, ela, como não teve caminho, passa para além de Deus, pois chegou ali de fora"

- Fernando Pessoa, O Caminho da Serpente

Saúde, Irmãos ! É a Hora !


segunda-feira, 18 de agosto de 2008

disfarce

a roseira é a mesma
a rosa é que se faz habitar por um gafanhoto .......côr-de-rosa.

que espera um companheiro, um cumplíce, um amante verde - que há-de vir da folhagem verde.

vai ver

ROSAS


rosa - a meu ver bonita - prisioneira de tentáculos de abóbora.
não vai haver competição. talvez complementaridade:

a rosa é suportada pelo elo elástico da abóbora, dando-lhe em troca a sua graciosidade indiscutível

Para a Anita (ainda Pessoa)




"Se não fosse o sonhar, o viver num perpétuo alheamento, poderia, de bom grado, chamar-me um realista, isto é, um indivíduo para quem o mundo exterior é uma nação independente.
Mas prefiro não me dar nome, ser o que sou com uma certa obscuridade e ter comigo a malícia de me não saber prever.
Tenho uma espécie de dever de sonhar sempre, pois não sendo mais, nem querendo ser mais, que um espectador de mim mesmo, tenho que ter o melhor espectáculo que posso.
Assim, me construo a ouro e sedas, em salas supostas, palco falso, cenário antigo, sonho criado entre jogos de luzes brandas e músicas invisíveis."


Fernando Pessoa

Quando me dedicaram este texto, numa fita de final de curso, há uns anos atrás, guardei-o no coração.
Agora, dedico-o à Anita*

De novo...

"De novo traz as aparentes novas
Flores o Verão novo, e novamente
Verdesce a cor antiga
Das folhas redivivas.
Não mais, não mais dele o infecundo abismo,
Que mudo sorve o que mal somos, torna
À clara luz superna
A presença vivida.
Não mais; e a prole a que, pensando, dera
A vida da razão, em vão o chama,
Que as nove chaves fecham
Da Estige irreversível.
O que foi como um deus entre os que cantam,
O que do Olimpo as vozes, que chamavam,
Escutando ouviu, e, ouvindo,
Entendeu, hoje é nada.
Tecei embora as, que teceis, grinaldas.
Quem coroais, não coroando a ele?
Votivas as deponde,
Fúnebres sem ter culto.
Fique, porém, livre da leiva e do Orco,
A fama; e tu, que Ulisses erigira,
Tu, em teus sete montes,
Orgulha-te materna,
Igual, desde ele, às sete que contendem
Cidades por Homero, ou alcaica Lesbos,
Ou heptápila Tebas,
Ogígia mãe de Píndaro."
Ricardo Reis

ávila catedral

Frutos

"Frutos, dão-os as árvores que vivem,
Não a iludida mente, que só se orna
Das flores lívidas
Do íntimo abismo.
Quantos reinos nas mentes e nas cousas
Te não talhaste imaginário! Tantos
Sem ter perdeste,
Sonhos cidades!
Ah, não consegues contra o adverso muito
Criar mais que propósitos frustrados!
Abdica e sê
Rei de ti mesmo."
















"Os deuses e os Messias que são deuses
Passam, e os sonhos vãos que são Messias.
A terra muda dura.

Nem deuses, nem Messias, nem ideias
Me trazem rosas. Minhas são se as tenho.
Se as tenho, que mais quero?"
Ricardo Reis

domingo, 17 de agosto de 2008

Antes de ti...

"Antes de ti era a Mãe Terra escrava
Das trevas súperas que da alma nascem
E caem sobre o mundo...

A realidade ao mundo devolveste
Que haviam os cristãos fechado na alma
E as portas reabriste
Por onde aurora o carro

Ou Febo* guie e os dois irmãos celestes
Quando no extremo mastro à noite luzem,
Mais valham que um luzeiro
Na ponta de um pau seco.

Restituíste a Terra à Terra. E agora
És parte corporal da própria terra,
(...)
Erras nas sombras frias,
Mas ao ouvir-te os povos com que auroras
Do abismo os íncolas as tristes frontes
Erguem e sentem deuses
Caminhar pelas sombras.

E eis que de nova luz o abismo se enche
E um céu raia a cobrir o absorto fundo
Da fauce misteriosa
Que traga o mal(1) do mundo(2)."
Ricardo Reis

|*Febo, "brilhante, luminoso, era o deus romano equivalente ao grego Apolo. Irmão gémeo de Diana, também conhecida por Ártemis, e também filho de Júpiter com Latona. Personificava a luz, era o deus das músicas, e o mais belo de Roma."
var. (1) fim, (2)vida|

A pérola da Terra

No Teu poema




No teu poema
existe um verso em branco sem medida,
um corpo que respira em céu aberto,
janela debruçada para a vida.

No teu poema
existe a dor calada lá no fundo,
o passo da coragem em casa escura,
e aberta uma varanda para o mundo.

Existe a noite,
O riso e a voz perfeita, a luz do dia,
a Festa da Senhora da Agonia e o cansaço
do corpo que adormece em cama fria.

Existe um rio,
a sina de quem nasce fraco ou forte,
o risco, a raiva, a luta
de quem cai ou que resiste,
que vence ou adormece antes da morte.

No teu poema
existe o grito e o eco da metralha
a dor que sei de cor mas não resigno
e os passos inquietos de quem falha.

No teu poema
existe um canto-chão alentejano
a rua e o pregão duma varina
e um barco a soprar a todo o pano.

Existe um rio,
o canto em vozes juntas, vozes certas
canção de uma só letra
e um só destino a embarcar
no cais da nova nau das descobertas.

Existe um rio,
a sina de quem nasce fraco ou forte,
o risci, a raiva, a luta
de quem cai ou que resiste
que vence ou adoremece
antes da morte.

No teu poema
existe a esperança acesa atrás do muro,
existe tudo mais que ainda me escapa...
E um verso em braco à espera do futuro...


José Luis Tinoco

O Nosso regresso cantado por Sophia...

"Quando eu morrer
voltarei para buscar os instantes
que não vivi junto do mar.


Como ondas do mar dançam em mim os pés do teu regresso.

Há muito que deixei aquela praia
De grandes areais e grandes vagas
Mas sou eu quem na brisa respira
E é por mim que espera cintilando a maré vasa.

No mar passa de onda em onda repetido
O meu nome fantástico e secreto
Que só os anjos do vento reconhecem
Quando os encontro e perco de repente

O mar azul e branco e as luzidias
Pedras – O arfado espaço
Onde o que está lavado se relava
Para o rito do espanto e do começo
Onde sou a mim mesma devolvida
Em sal espuma e concha regressada
À praia inicial da minha vida.

De todos os cantos do mundo
Amo com um amor mais forte e mais profundo
Aquela praia extasiada e nua
Onde me uni ao mar, ao vento e à lua.

Casa branca em frente ao mar enorme,
Com o teu jardim de areia e flores marinhas
E o teu silêncio intacto em quem dorme
O milagre das coisas que eram minhas.

Não há fantasmas nem almas,
E o mar imenso, solitário e antigo,
Parece bater palmas.

Aqui nesta praia onde
Não há nenhum vestígio de impureza,
Aqui onde há somente
Ondas tombando ininterruptamente,
Puro espaço e lúcida unidade,
Aqui o tempo apaixonadamente
Encontra a própria liberdade.

Reino de medusas e água lisa
Reino de silêncio luz e pedra
Habitação das formas espantosas
Coluna de sal e círculo de luz
Medida da Balança misteriosa

Vem do mar azul o marinheiro
Vem tranquilo ritmado inteiro
Perfeito como um deus,
Alheio às ruas.

O sol rente ao mar te acordará no intenso azul
Subirás devagar como os ressuscitados
Terás recuperado o teu selo, a tua sabedoria inicial
Emergirás confirmada e reunida
Espantada e jovem com as estátuas arcaicas
Com os gestos enrolados ainda nas dobras do teu manto"
Sophia de Mello Breyner Andresen

Em Noite de Eclipse parcial...

Ontem à tardinha a lua nasceu sobre esta rocha
Impura sobre um mundo inexpurgado.
O homem e seu campanheiro pararam
Para descansar perante a heróica altura.


Friamente o vento caiu sobre eles
Em muitas majestades de som:
Eles que tinham deixado o sol de chama caprichosa
Em busca de um sol de fogo mais intenso.
(...)


Ficção Suprema, Wallance stevens
(tradução de Luísa Campos)

sábado, 16 de agosto de 2008

Nação

Em homenagem ao Poeta baiano Dorival Caymmi que acordou hoje do seu sonho...

"Dorival Caymmi falou prá Oxum
Com Silas* tô em boa companhia
O céu abraça a terra, desagua o Rio na Bahia

Jeje minha sede é dos rios
A minha cor é o arco-íris, minha fome é tanta
Planta flor irmã da bandeira
A minha sina é verde-amarela feito a bananeira
Ouro cobre o espelho esmeralda
No berço esplêndido
A floresta em calda manjedoura d'alma
Labarágua, Sete Queda em chama
Cobra de ferro, Oxum-maré, homem e mulher na cama. (...)"
João Bosco

|*poeta brasileiro|
São Salvador
Terra de Nosso Senhor...


não confundir:

1 - matar a fome ao povo

2 - matar o povo à fome

húmido e quente

os bébés de mama
têm cheiro
a frutos tropicais:

manga?
mamão?
maracujá?

todos talvez:
fruta-pão
banana
sementes de cacau

a frutos tropicais
sob o calor húmido
de Luanda
ou de Macau

O Homem Real será filho do Mar da Terra

O corpo dos animais como o Homem nasce da Mãe-Terra através da ligação estabelecida pelo mar, assim, será através da união do mar da Terra com o mar formado pela também união de homem e mulher que ocorrerá o nascimento do ser humano real, quando o corpo dos pais representar plenamente o corpo-Terra.

Iemanjá, Rainha do Mar

Esta noite sonhei

Sonhei que o meu cavaleiro andante viajava pelas dunas
e que me procurava em cada pôr-do-sol…





Viajou milhares e milhares de anos
O caminho era este, a estrada era outra…





Na baínha do casaco trazia um presente para me oferecer





Rosas esculpidas pelo vento e pelo tempo.
Rosas secas, pétalas fósseis guardadas desde o princípio dos tempos





No meu sonho o céu era branco como cal e tinha muitas estrelas coloridas
Outras vezes, o céu era sustentado por colunas muito altas





Havia muitas portas, quase todas de um azul bonito











Um dessas portas esperava, entreaberta, que eu entrasse
Mas eu não entrei.




Escondi-me no alto do minarete
De uma das janelas parecia que se via o infinito
O que parece não acabar nunca. Mas não era o infinito


Era o deserto que me chamava
Era aquele alaranjado que me dizia que fosse, que me dizia que sim
O horizonte da cor do deserto é assim…





Estarrecida, contemplei a beleza e a grandiosidade
que é estar perante aquela areia macia
que nos envolve em todo o redor…
E, em silêncio, ouvir aquelas palavras que a natureza nos diz
quando se mostra assim nua, despida de tudo.





E o Sol desceu…




E a Lua subiu…
Num ritual que se repete pelos séculos dos séculos
Numa sequência de luz e de escuridão iluminada





Nesses momentos,
Há miragens que nos chegam…
Como se fossem espíritos anciãos
Dispostos a dançar connosco uma dança de lua cheia e de fogueira acesa
E nos acenam num adeus.





Acordei.


(leia-se: voltei)

sexta-feira, 15 de agosto de 2008

Canção do dia de sempre

"Tão bom viver dia a dia...
A vida, assim, jamais cansa...

Viver tão só de momentos
Como estas nuvens no céu...

E só ganhar, toda a vida,
Inexperiência... esperança...

E a rosa louca dos ventos
Presa à copa do chapéu.

Nunca dês um nome a um rio:
Sempre é outro rio a passar.

Nada jamais continua,
Tudo vai recomeçar!

E sem nenhuma lembrança
Das outras vezes perdidas,
Atiro a rosa do sonho
Nas tuas mãos distraídas..."
Mário Quintana

poema simbolista

Vetustas portas de cristais errantes

Às horas mortas gastas e frias,

Aquecidas pelos membros palpitantes

Das vidas fogosas e vazias,

Vejo em teus braços de oiro cintilantes,

Rubis e brilhos e cores que irradias

Na brancura dos mármores contrastantes

Das velhas portas gastas e frias.

E acendo os incensos dos turíbulos

À tua passagem palpitante

Queimando a roupa fina dos vestíbulos

Entre passos acesos, coruscante,

Asas na dança das aras dos prostíbulos,

Sobre os lívidos mármores, triunfante.

ávila

Terra Salgada

Da superfície da pele nasce água e sal... lágrimas e su-o-r, ao ser o interior dos olhos ao mesmo tempo exterior, por reflectirem este fielmente. A pele do ser humano é então a própria superfície da Mãe-terra, de onde surge a água do mar, cada ser é uma sua reprodução, no entanto, ainda não nascida, por manter o seu exterior interior à Mãe-terra, somente aliando os dois, se verá a Vida, ao unir-se animal e vegetal num só Reino... o do Mar do Amor, o qual dará à Luz a Terra do Sal*, assim que o exterior do Homem for o exterior da Terra, por o seu interior ser o dela também: quando o que fazem os olhos do Homem o fizer todo o seu corpo, quando para lá das janelas, os olhos, se abrirem as Portas do Corpo, o Coração - da Terra.

"Entre a nossa alma e o nosso corpo há muitas janelas; se estão abertas, deixam passar as emoções, se estão fechadas filtram apenas, só o amor as pode escancarar a todas ao mesmo tempo e de repente, como uma rajada de vento. Quando estão abertas, o corpo ilumina a alma e a alma ilumina o corpo, como num sistema de espelhos."
Susanna Tamaro, "Vai aonde te leva o coração"

|*O sal é o sol da terra.|

Senhora do amor, da fertilidade, do ouro, do "Sol Glorioso", dos rios e das fontes; mulher-menina

quinta-feira, 14 de agosto de 2008

cenário I

Após o canto luzidio das escravas,

Nuvens que exilam balas

De sol, azul de chumbo e transparências

No pano prenhe que cicia do

Cordame altíssimo da chuva.

Pequenos barcos de fumo,

Assim genuínos, do chão

Vão recolher a tradição

Trovejante na poeira

Do arco tenso em grandiosa voz

Que abriu as cordas insuspeitas.

O sol retoca-nos depois o rosto

Molhado num chão de lama seca e

Arrasta os nossos olhos para o mar

Com doçura. Uma noite amadurece

e a brisa puxa do rasgado bolso

Uma cobra infinita,

Mãe de si própria, o país duplo da verdade.

Astronomia essencial: somos o sonho da Lua como Sol, de Deus como Homem

Ao pôr-do-sol
Eterna cópula
Se junta a Lua
Mãe oculta

A sublime aurora
Traz-nos a glória
Do filho inocente
Descoberto sorridente


















"Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive"
Ricardo Reis

A outra
face da lua
não está oculta,
está aqui.
O que não vemos
é o que agora
vivemos,
o que o Homem ignora
é aquele que o sonha.
No lado escuro da Lua
está o menino que dorme
e deseja que o mundo
brinque ao amor...
acorde!

Reis-do-chão... da Terra

SER, RÉS. Só pode existir quem vive no rés-do-chão da Terra, pois é o chão o coração que liga todo o ser à vida - com a cabeça a voar em ideias o Homem abandona-o:

o chão da Terra é o Céu.

CATEDRAL

Para todos os que me lêem e os que me vêm ler na mesma luz de olhar. Para os que me não vêem ou lêem, também.

O Homem é uma catedral. Sempre em metamorfose, sempre a mudar, sempre a nascer e a morrer. O corpo guarda a nossa alma, desenha-a em movimentos suaves, pinta-a com cores inexistentes que se vêem em todo o espaço inextenso. Não tem portas nem janelas a catedral da alma. É vazia para as divisões, distinções e separações. Una para as multiplicações. É sem arquitectura a catedral da alma. A matéria de que é feita não é vulnerável aos efeitos do tempo. É sem tempo, o templo. As suas pedras, as suas figuras, nada são senão sinais. Símbolos para a leitura silenciosa de uma escrita com todos os sinais dentro de um indivisível e uno corpo espiritual. O espírito que o sustenta é uma pomba livre no céu. As rosáceas são buracos no céu, onde o azul é mais transparente e vibrante e não se vê parado em nenhum lado, esse voo de pomba que é o espírito santo, no centro sem centro desse espaço aberto e invisível. É sem princípio e sem fim. Com ser e sem haver. Os sopros vêm em todas as direcções. As colunas do templo são braços e abraços. Como asas transparentes os vejo. E a pedra em que assentam é uma pedra rasa sobre o chão verde, em espiral elevado. É uma pedra de Sol a arder por si mesma. A pomba está em cima, está de lado, está em baixo, voa onde desaparecemos, e aparece onde voamos. Por isso uma catedral é um lugar sagrado. Faz vibrar quando quer a pedra do peito, não reflecte o que vemos senão o que sonhamos.

Pois uma catedral não existe completa nem perfeita, nem estática. Uma catedral é uma Serpente sempre para além, a ultrapassar. Tal como um imenso oceano sempre a encher e a vazar, sempre em movimento, uma catedral é um som fundo e vago, a inspirar e a expirar. Uma catedral há-de ser como um berço para nascer e uma campa para morrer. E nesse berço passam os movimentos dos que amamos e embalam-nos e afagam-nos; e nessa pedra rosa onde dormimos e repousamos, passam os passos dos que amamos e parece que vão mais devagar, em oração, os passos em oração sobre o nosso corpo e a nossa alma são uma missa de louvor ao templo que somos. São o retiro espiritual do nosso repouso. Uma catedral é uma saudade de Ser.

Uma catedral é uma montanha onde o ar é mais puro e parece que o céu não acaba para os pássaros que soltamos. Uma catedral é um pássaro porque é mais ágil o seu voar do que o seu pensar. Uma catedral somos nós dentro do nosso corpo a sonhar e a rezar.

quarta-feira, 13 de agosto de 2008

SANTA MARIA DE ÉVORA


Esta é a visão de um amigo meu sobre a Catedral de Évora. Partilho-a convosco, pois sei que nessa visão está um profundo entendimento e dele guardarão o que receberão em AMOR.
A "minha" catedral continua inacabada e imperfeita. Cada coluna é uma abertura e não tem tectos...


SANTA MARIA DE ÉVORA


"Que noite gloriosa a de hoje
Cheia de anjos e de névoa
Como aquela noite longínqua
Quando vislumbrei da planície
Uma Rosa na Catedral de Évora."
W. B. YEATS

Os Corvos negros fizeram-se ouvir na Torre Sineira da Catedral Gótica.
No interior, a Luz animou as Colunas... A Senhora do Ó, o Anjo, o Grifo e a Lebre desceram dos pedestais.
O Arquitecto desenrolou o Papiro e fez transparecer a Sua Mensagem inefável... Do triforium ouviram-se sons... A Energia entrou pelas Rosáceas e encontrou-se no Centro e jorrou para cima e para os lados e para baixo.
A Torre Lanterna incendiou-se e iluminou-se nos seus oito lados.
Os Corvos, no exterior, debandaram nas sete direcções do Espaço profundo.
A Palavra, regularmente pronunciada, fez erigir o Templo e acontecer o Ritual. As pancadas soaram, a Porta abriu-se e o Neófito aproximou-se com passada cadenciada e hesitante, do Oriente. Mas não se encontrava só... a Presença do Mestre fez com que a venda lhe caísse aos pés, fazendo-o vislumbrar a Luz almejada. E a Luz era Oiro, e o oiro tinha a forma de Coração e o coração transmutou-se em Rosa, donde brotou uma lágrima de orvalho há muito depositada no seu âmago... com destino de devir e de restaurar...
Sempre os Corvos...
Sempre o Sino... o Som.
O Sentimento transforma-se em Emoção e esta galopa nas asas do Vento a distâncias inimagináveis...
Viemos através da Névoa. A alvura dos Céus que cobria os campos em movimento era fascinante. As papoilas esbatidas no branco da neblina surpreenderam a nossa imaginação...
A flor da esteva ... neve quente e perfumada.
Dádiva e aceitação conduzem ao estado de Alegria.
Santa Maria de Évora - Colunas de Pedra elevadas pelo Silêncio e banhadas pela Luz da Rosa, aquela Luz que aspira unicamente à Libertação. Elevou-se este conjunto de Harmonia e Arte através da Meditação e da Obra. Esta, resultante da Força e da Inteligência; aquela, resultante da quatrilogia simbólica e perene do «Saber, Ousar, Querer e Calar», que teve a duração de dez anos de trabalho secreto de fermentação e espera... o resultado foi a Síntese Iniciática.
Este Silêncio centenário encontra-se sempre e sempre a renovar-se ... O Sol tem a Idade de Centos e Centos de Anos, contudo todos os dias renasce...A Rosa sempre desabrocha e sempre é Fonte Emanadora de Luz, e dia-após-dia revela a Sua Mensagem de Paz, de Amor e Sageza. E a Rosa é Luz e a Luz é o Deus inominável, omnipresente e eterno tal como EU SOU EU...
Colunas de pedra elevadas pelo Sacrifício e banhadas pela Luz da Senhora e pela Luz Interna. Silêncio quase absoluto, silêncio centenar, todavia dia-a-dia renovado. Encontro-me realmente no interior do Templus Dei, no Templus-Tempus, no seio da própria Natureza Divina, tudo à minha volta, pedras, imagens, presenças e ausências, está imbuído de um Silêncio e de uma Energia tal que denuncia a própria Presença do Ser Supremo, inefável, inominável... do qual eu próprio e tudo que me rodeia, fazem parte integrante. Tudo se encontra em harmonia, dentro e fora de mim, por não haver dentro ou fora... Olho em frente e, erectas perante mim encontram-se Jakin e Boaz ... do Templo de Salomão.
Na Entrada do Claustro, perante o Apóstolo, o Tempo parou.
Eis-nos perante o Tempo-sem-tempo das Origens da Criação.
Percorro os Claustros de Pedra e de Sombras, onde a Luz se esvai nos meandros labirínticos da construção dos arcos e contra-arcos, colunas e abóbadas que suportam a perenidade da Obra.
Na Capela do Fundador, Sanctum Sanctorum do Claustro, quiçá de toda a Catedral... deparo, ao centro, na Coluna, com o Homem das Duas Chaves. O garante da Abertura da Porta. O Livro está fechado e selado. A que Portais darão acesso aquelas misteriosas Chaves Templárias? Quando o botão do lótus abrir e florescer livre e radiosamente ao Sol, o Homem, então, sairá da sua letargia e facultará a Entrada aos seus Irmãos de igual condição...
Em frente, a Senhora, de Azul e Vermelho.
Ao avançar na Sua direcção os Anjos Guardiães ordenam, em Silêncio, que me detenha... Paro.
Isis permanece com o Véu. Encontra-se Selado e Virgem, por Juramento Sagrado, a cavidade do Seu Adytum. O Menino recolhe e protege o Livro. Igualmente selado. O Fruto permaneceu Sempre no Seu Sagrado Ventre...
Contudo os Tempos estão chegados para se elevarem e retirarem as pedras e conseguirmos finalmente o acesso à PAX PROFUNDA...
Todavia os Dois Vigilantes estão alerta nos seus postos a esquadrar devidamente o Templo e o Mestre Hiram ainda não ergueu a cabeça e colheu a Acácia...
A Rosa+Cruz , presente, ao Alto... O Santo Graal, apontado, em baixo... como duas realidades da mesma REALIDADE!
Vagueio sem rumo pelos Claustros vivendo intensamente o místico ambiente emanado pela coloração, pelo odor, pela forma das pedras da construção. Por entre as arcadas góticas, ao alto - o Athanor... Os Corvos o rodeiam vezes sem conta, quiçá procurando a inevitável transmutação que, da sua negritude putrefacta atinjam a alvura e a purificação e façam parte do resultado final da Obra.
Avanço, rodeado por uma luz doirada, e as pedras brilhantes de sol e oiro tocam-me fundo e fazem-me escutar sons de recordar, e fazem-me sentir os gestos ritmados do pedreiro construtor , prenhes de intenção e de sentido quando transformavam a pedra bruta e realizavam o sonho da sua vida de labor e de oração. Pedreiros, monges, mestres e companheiros partilham, aqui e agora comigo, a minha condição de aprendiz da Arte da Vida.
Os meus acompanhantes, imóveis na sua natureza de pedra, esquadram o Claustro - S. João, S. Marcos, S. Lucas, S. Mateus - e são o suporte existencial do próprio Claustro, racionalizando e quiçá justificando a obra...
Se o piso térreo do Claustro se encontra imbuído de uma força Telúrica, em que sentimos a Terra-Mãe em toda a sua pujança criadora... ao passarmos para a claustra superior, ao aproximarmo-nos do próprio Athanor, a Energia muda literalmente de qualidade e entramos no seio da luz livre e sem reflexo. Da horizontalidade passamos à verticalidade, como o Pedreiro passa do nível ao prumo. Aí, e na base de Athanor vemo-nos perante a representação simbólica do Homem que Sabe, que Ousa, que Quer mas que Cala aos ouvidos impuros. É o Homem Peregrino em constante Demanda da Sabedoria-Sageza das Idades - o Homem montado no Cavalo Branco da Tradição Espiritual de todas as Épocas e de todas as Gentes - , aquele que activa e conscientemente contribui para a Evolução Espiritual do género humano, simbólicamente representado pelas cabeças masculina e feminina. Guerreiro por excelência, mas Templário por Via e Vocação Iniciática, guardião da Mensagem Sublime contra os perigos tenebrosos, ameaçadores da Civilização e da Humanidade.
A Iniciação Solar adivinha-se com a representação do seu Portal do Limiar. O Sol e a Lua apadrinham o Neófito sob a Arcada trilobada, nomeação de facto das três Idades do Mundo.
Athanor... o Fogo no seu interior a arder faz rodopiar o Poder contido!
Silêncio!... Num ponto do Espaço, num tempo sem Tempo, arpejos de longínquos sons... de arcaicos sentimentos... de uma Harpa... O tanger da harpa faz lembrar não sei que distantes realidades... sentidas com uma intensidade de deslumbrar e de deslumbramento. Ouvida pelo ouvido... sentida pelo sentir do baixo-ventre e traduzida pelo coração, torna-se numa e mesma realidade de re-lembrar e de re-descobrir. Os Celtas, os Druídas, os Bardos... Merlin!... Daí até à Grande Mãe abarcante e omnipresente vai um pequeno passo de infinito alcance!...
E logo, a voz humana... a Voz!... os sons de vibração circular, os jogos do sentir entre a Voz e a Harpa... os vislumbres da Memória Interna do EU levando-me até ao limiar do Eterno Presente... E logo e sempre o Fogo, a Chama... Athanor, e no seu seio ,os deuses e os Elementos... O Silêncio!
O Vermelho, o Negro, o Amarelo acompanham e aquecem todo este sentir, e ainda o Castanho e o Dourado, que me fazem filho bastardo deste tempo e filho pródigo daquele tempo do Devir que toca os confins do SER...
Olhando Athanor e adivinhando a presença sublime do seu Fogo Interior, compreendo-lhe a Mensagem de Silêncio... a Linguagem do Silêncio... Ela arde por dentro de mim, de nós, e transborda, do pequenino graal, ao meu redor, através do Olhar e do Gesto, do Rito e do Ritmo, através do Sentimento. Ela arde dentro de mim e anseia pela Demanda... Ela está presente mesmo na obscuridade mais profunda... Manifesta-se na Estrela Flamígera, a Oriente, no Templo da Perfeição.
Athanor arde e a Energia escorre e purifica à sua passagem.
É nesta atmosfera de ritmos e ritos sagrados que encaro o Mestre e Ele me confere o direito de olhar o Pergaminho dos Postulados Ocultos que reza:
1. Uma Vida penetra o Universo e o mantém em Existência.
2. O Universo fenoménico é a manifestação de um eterno, ilimitado Princípio, para além do alcance do entendimento humano.
3. O espírito (ou consciência) e a matéria são as duas polaridades da Realidade última. Os dois, com a acção recíproca entre eles, incluem uma trindade da qual procedem inumeráveis universos, que vêm e vão num interminável ciclo de manifestação e dissolução, todos eles constituindo-se enquanto expressões dessa Realidade.
4. Ao nível do macroscópio, cada Sistema Solar é um ordenado esquema governado por leis da Natureza que refletem uma inteligência transcendente. A Deidade é Lei. A Evolução impera.
5. O Espírito do Homem é idêntico, na sua essência, ao Espírito Supremo Uno. Essa Unidade, essa Alma Superior, dentro da qual o ser particular de cada homem está contido e feito uno com todos os outros.
6. A Lei é Cíclica e o Homem é o seu próprio legislador. A Liberdade e a Consciência do Homem evoluem consoante evoluir o seu auto-conhecimento.
7. A Totalidade é a chave para a compreensão do Homem e do Universo.
Assim me transmitiu o Mestre. Assim eu o transmito.
ORDO AB CHAO!
R.A.,Evora, 1994.

A minha religião

Se a vida não é eterna para quê levar a sério o que logo passa?
Se a vida é eterna o que levar a sério senão o que o seja também: o amor sem limites?

A minha religião tem só um mandamento: viver à beira-mar do amor.

Um brinde ao Paulo Feitais

Saúde, Irmão!

provérbio nhaneca

"a luz com que vês os outros é a luz com que te vêm a ti"

provérbio lunda

"a corça nunca pariu na frente do leão"

A Catedral

Uma catedral não é uma morada. A Sagrada Família, em Barcelona, é o paradigma de todas as catedrais: perfeitas e inacabadas. O homem só consegue habitar o imperfeito porque acabado. Uma catedral é um lugar, um lugar onde se sente que o criador pode ainda voltar, ou de onde se afastou. Uma catedral é um lugar de onde Deus se ausentou. Ou, simplesmente, onde o criador pode voltar depois, não se sabe quando, nem de que maneira. As rochas aparecidas e consumidas, pela erosão no meio do mar, podem ser pilares, colunas e traves-mestras de uma catedral, acessíveis quase só pelo olhar. A catedral pode estar no que emerge, ou no que se esconde no fundo do mar. É morada de luz e pássaros, de navegadores que rumam para o sul, de peixes, corais e serpentes que dançam com a neve do mar. Uma catedral é uma passagem para a luz, para a claridade que apaga as sombras, as desfaz com os poemas que a Sophia sabia cantar.
Uma catedral não é um abrigo. Em Santa Sofia, em Istambul, percebe-se que uma catedral está assente, como uma ave de porte imenso, num ramo frágil, numa fenda, numa placa móvel que dança uma melodia que nenhum órgão saberá jamais tocar e de onde as vozes que poderiam cantar fugiram para contar as estrelas na imensa noite de deserto dos profetas entregues às tempestades de vento e à distância plena do mar. A catedral é o bando de aves solenes que atravessa e desenha minaretes sonoros com e nas nuvens da abençoada chuva-mãe.
Uma catedral não é um templo. Em Santo Estêvão, em Budapeste, percebe-se que, numa catedral, Deus nunca falará de si ali. Nem de si, nem ali. Uma catedral é um lugar onde Deus se senta silencioso para desenhar e pintar aquele que o sacerdote, ou o pontífice nunca deixará entrar. O santo, o sem nome, o pobre, o ferido lancinante, o perdido, o louco, o filho pródigo. Uma catedral não é um lugar para se rezar. Uma catedral é um ateliê sem tecto para deixar o céu entrar e continuar a fascinar. E só assim, talvez salvar como sabia o Calígula de Camus.
Uma catedral não é um lugar de peregrinação. Em Santiago de Compostela, na Galiza, percebe-se que uma catedral não é o fim da viagem, o lugar da chegada. A catedral não é a pedra, o cimo, o eco no acaso dos ventos, a devoção repetida na luz frágil das velas, por entre as neblinas e as chuvas ancestrais. A catedral é uma passagem, uma estação antes do tempo, da dor e da sua múltipla frutificação. Uma catedral é uma árvore: uma cerejeira, uma macieira, uma laranjeira. Uma catedral é uma árvore com uma vasta cabeleira de cores e botões em flor.
Uma catedral não é uma gramática em pedra mármore manuscrita, nem a folha de ouro revestida. Em S. Pedro, em Roma, percebe-se que uma catedral não é um livro, um silabário em que Deus ausente, ou inesperado, deixasse inscritas as deixas do seu dialogar. Uma catedral é um rosto que desfaz o texto a consagrar, um rosto de Pietá esculpido em pedra e sal no seu incessante lacrimejar. Uma lágrima é a água baptismal com que o rio Jordão promete, como João, dentro de nós, a supra-humana condição.
A catedral é um rasgo, um rastro, um grito, um mito que não se consegue recuperar e na qual não nos é permitido circular, ou sequer permanecer para a podermos visitar. Não é morada, é a visão para o que na condição profética de tudo largar, desabrigado e indireccionado, atravessar o deserto que fica longíssimo do mar. A catedral não é do tempo nem é um templo. Fora do tempo e da eternidade. Porque seguramente ao “que invisível se vê…” (Fernando Pessoa) só é acessível para os seres de interioridade e de internalidade. Seres (s)em regresso, órfãos do mundo, viajantes oníricos nas lágrimas que os reconduzem à origem do mundo, arqueólogos das ruínas da catedral edénica, nos jardins suspensos da memória. A catedral é a imagem intacta de Outrora.
A catedral é inacabada e o seu inacabamento é a sua perfeição. A haver um criador seria um nómada errante nas paisagens da Terra, do Fogo, do Céu e do Mar. O criador criaria a sua morada numa paisagem que poderia ainda ter que inventar. Mas, se houver um criador também este não precisará de qualquer abrigo para repousar. Um criador não repousa num lugar: repousa na quietude e no silenciar, dentro, no âmago fundo, do inexistente. A haver um criador também ele não quererá um templo, porque não haverá qualquer linguagem com que lhe falar e um Outro com quem dialogar. O criador tem que ser um não-Outro que não se possa olhar. O que é preciso é que exista um ateliê para Ele poder criar, recriar, descriar. É preciso um céu para Ele, nos dias de êxtase, milagre ou convulsão, pintar a tela grande do horizonte com cores e seres que sejam de espantar. É preciso o éter para Ele poder ser o fogo, o Sol, o rubro manto a que os corpos nus e as almas mortas se entregam na vastidão insondável do entardecer, antes também do imóvel e pleno luar e enlutar.
A catedral é o rosto humano a chorar e a infância que se recusa a falar. A catedral é a água límpida, fria e fresca que só o divino raiar pode acalorar. Prévia às sombras, na luz inicial, imóvel, antes da Terra girar, só a catedral sabe ensinar a arte de emudecer aos que bem-aventurados nunca hão-de aprender a argumentar. A catedral tem colunas, absides que são memórias do Sol no seu ante-despertar, é daí que o Criador gosta de se aproximar e com asas de Dédalo nos convidar a chegar.
A catedral é a amendoeira na ladeira, o branco-rosa da sua flor de Fevereiro. Não o verde-azul infinito dos vitrais, da rosácea de vidro, no cimo dos altares centrais e laterais. Porque Deus não é finito nem infinito: é faminto e, por isso, semeia jardins que são hortos e onde de madrugada os pássaros – antes das paredes erguidas e dos altares com círios acesos, dos coros e das orações, dos textos e das consagrações – escolhem os nichos para as vozes ensaiarem e soletrarem em melodias espontâneas o silabário incerto e indecifrável do Criador, que varia, do pouco que se sabe, nos sons, nos tons e nas estações. Uma catedral é um pomar, um campo de árvores, um lugar por onde um dia uma Voz, num espaço [do] invisível, começou e ninguém ainda, homem, ave, peixe, deus ou artista ouviu, respondeu ou completou.
Por isso uma catedral é uma página branca, esta tampa, esta campa onde, Mãe, às vezes, te venho cantar sílabas e sons com lágrimas e suspiros, esperando um dia, por essa janela, te poder voltar a chamar. E gritar, mãe tenho uma pomba no peito que nunca me esqueci de Amar. É por ela que passa o que de mais puro consigo pensar.

É também esta a imagem, sobretudo a dos textos, a que faltava. É nela que com obscura clarividência o ouvir se faz ver, a audição se faz contemplação. Para que Luíza não se esqueça que tenho dentro de mim movimentos de pomba e eles são o meu corpo a escrever.

terça-feira, 12 de agosto de 2008

A Terra do Fogo: o Santo Graal, o Sangue Real

"Amor é fogo que arde sem se ver"
Camões

Todo o ser é amor, todo o ser é chama invisível, transmutada em água e sal na superfície do corpo: segundo uma experiência recente a água do mar pega fogo.

O magma ou lava é o fogo que à superfície se transforma em terra, como o sangue se forma em tecido, porém, enquanto a terra o reproduz inteiramente, o tecido humano permanece funcionando como fronteira, realizando-se toda a sua função vital para lá da superfície da pele, ou seja, esta continua a ser placenta, unindo o ser humano ao interior, ao útero da Mãe-Terra: o reino animal ainda não nasceu como o vegetal do corpo da Terra, estando o mar do fogo a encaminhá-lo para a Ilha do Sol.


















(A cereja da Noiva...)
O Sangue Real sur-girá quando o Homem nascer veramente da Mãe-Terra, quando o sangue dos Dois se unir, assim chamado por só então o Homem passar a existir realmente, a ser eterno.

DÉCIMAS

linguagem vetusta
emplumada de pura

DÉCIMAS DO GENÉSIO PONTES


Visco branco e palmeirão
Vara de ouro e pilriteiro
O cardo-santo e rinchão
Fel da terra e noveleiro


Verónica e trepadeira
Feto-macho, valeriana
Tramazeira e verbena
Sanamuda e ulmeira
Mil folhas e cerejeira
Urze e selo de Salomão
Goivo e amor de hortelão
Canabras e avoadinha
Espinheiro e sargacinha
Visco-branco e almeirão

Betónica e pulmonária
Sanícula e tasneirinha
Sarão-curto e cavalinha
Pinheiro silvestre avelária
Pepino S.Gregório, aliaria
Douradinha e sabugueiro
Norsa-preta e alfeneiro
Nevada dos gatos, violeta
Luminária e faia-preta
Vara de ouro e pilriteiro

Erva S. Roberto, ficária
Tussilagem, salgueirinha
Trevo de água, carvalinha
Ninho de cuco, vulneraria
Silvão-macho e fumaria
Celidónia, dente-leão
Consola-real, urtigão
Feto real, morangueiro
O cardo-santo, rinchão

Alfazema e escrofolária
Alecrim e pimpinela
Erva terrestre e rosela
Cardo-corredor, saponária
Nevada, papoila ordinária
Mangerona, marmeleiro
Erva-férrea, algodoeiro,
Silva-macha, matricária
Pé-de-leão, paritária
Fel da terra, nevoleiro

O vazio é o que se chama demónio

No momento em que amarmos a vida tal como ela é, ela muda para nós. Enquanto só quisermos amar uma parte da vida ela não pode mudar, porque a transformação, o nascimento de algo novo ocorre sempre por união de duas partes antagónicas. Bom e mau. Masculino e feminino. Um pólo isolado nunca deu luz. Não existem inimigos, existem amigos perdidos ou vazios. Não existe mal, existe ausência de bem. Não existe morte, existe ausência de vida... (ou mal e morte são ausência). Não existe problema, existe uma solução que ainda está vazia, como a noite é o dia que ainda não amanheceu.

Quando olhamos algo sombrio, olhamos aquilo que ainda não é, mas que tudo pode ser! Olhamos aquilo que será revelação! Olhamos algo que encerra uma infinitude de possibilidades. Só a partir do escuro é que a luz toma o seu máximo esplendor. Estar apagado é um momento solene, como o é o céu da noite, ou os instantes que antecedem o abrir das cortinas de uma peça de teatro, ou o nascimento de um bebé. O vazio é só um tesouro escondido.
Ser mau não é mau, é ser bom demais... Vale a pena reprimir por ser bom demais? Vale a pena gritar ao dia por ele estar a chegar ao fim? Vale a pena quebrar o relógio por ser tarde? Ou vale a pena suspender a expiração? Ou não perdoar?
Vale a pena impedirmos-nos de ser quem somos? Para quê? Para ficarmos a não ser? Para que existimos nós? Para nos trairmos a nós mesmos? Temos medo de quê? De sermos nós? De quê? Do vazio de nós? Do silêncio? Será que o dia tem medo da noite? E o céu tem medo da terra? Será que temos mais medo de nós do que da nossa ausência? Deixemo-nos de caprichos e sejamo-nos de uma vez por todas! Nada há a esconder que não possa ser aceite. Tudo o que vemos e que nos aterroriza, não é o que vemos, é o que esconde o que vemos. Não é esse acto que é horrendo, é o termos de fugir de nós próprios que é horrendo. É o termos vergonha de nós mesmos que dá dó. Não é a notícia que nos devia perturbar, é o que ela não é que nos devia causar náusea. É o que lhe falta que nos devia incomodar. E que nos incomoda. É a FALTA DE AMOR. É esta ausência de nós.

O Movimento - Linguagem


"
Cependant, si nous vivons dans, par et à travers le mouvement, c’est le plus souvent sans en être vraiment conscients. Au jour le jour, que représente vraiment le mouvement dans notre vie ?
Dans le meilleur des cas, c’est une source de plaisir : pour les sportifs, des sensations fortes venues de leur muscles ou de leur sang ; pour les artistes, l’acte créateur passant para leur corps en mouvement. Mais même là, le plaisir vient davantage des effets du mouvement que du mouvement lui-même. Quand le mouvement permet de prendre son enfant dans ses bras, de prouver à quelqu’un qu’on l’aime, on est plus attentif au contenu affectif du geste qu’au geste lui-même. Et dans le pire des cas, le mouvement n’est plus qu’un ensemble de gestes volontaires ou automatiques usuels, utilitaires, qui nous servent à marcher, manger, aller travailler, faire des courses… Dans la vie quotidienne, le mouvement n’est plus que le parcours monotone des mêmes allées et venues, sans surprise.
Il faut se rendre à l’évidence : l’attention portée sur la gestuelle n’est pas à la hauteur de son importance fondamentale dans la vie humaine. Le mouvement est utilisé, mais non valorisé ; connu, mais non reconnu ; on en abuse sans jamais l’habiliter. Débordements de sollicitations, pression de la performance, canons de la réussite…, les bonnes raisons ne manquent pas pour expliquer – justifier ? – que l’homme soit coupé d’une partie essentielle de lui même. Mais si l’insensibilité qui en résulte est moins visible qu’un retard moteur ou mental, elle ressemble fort à un véritable handicap, et joue un rôle primordial dans nombre de difficultés physiques et psychologiques.

La recherche de Danis Bois peut se définir comme une action thérapeutique visant á combler l’inconscience majeure qui touche le mouvement : « Quand je parle du corps, je regarde sa gestuelle et la conscience qui l’habite. Malheureusement, le corps est devenu dense et privé d’une certaine forme de conscience. Le mouvement s’est mécanisé, automatisé, et a perdu sa richesse naturelle. Lorsque j’observe le langage gestuel de l’homme non entraîné, il m’apparaît aussi pauvre qu’une langue qui utiliserait en tout et pour tout 500 mots. A force de faire des mouvements sans y prêter la moindre attention, la sensation concrète d’habiter un corps se perd progressivement, et parfois même la conscience de soi, de sa propre identité, finit par vaciller. Le langage verbal s’apprend, le langage du corps s’apprend de la même façon. Le mouvement est une écriture indélébile, un témoignage vivant de ce qu’est la nature humaine dans sa plus grande dimension.»
"


In Le mouvement dans tous ses états- Les recherches de Danis Bois – Eve Berger

Corpo e movimento


"
(...)
Pour mesurer l’importance du mouvement dans notre vie, imaginons un corps entièrement privé de l’outil premier de son mouvement, c’est-à-dire ses articulations : non seulement aucun mouvement serait possible, mais l’homme serait dans l’incapacité absolu de communiquer avec autrui, il ne pourrait pas prolonger dans l’action le fruit de sa pensée. Probablement même serait-il incapable de penser : « Il n’est pas juste de dire que l’homme pense avec son cerveau. Ce n’est pas avec son cerveau qu’il pense, c’est avec son corps tout entier ; il pense avec ses doigts, il pense avec ses pieds, avec son ventre, comme il pense avec son cerveau ; il pense avec l’ensemble. » (A. Janet)

Nos articulations sont donc bien autre chose que de simples exécutantes anonymes, soumises à note cerveau, et destinées à déplacer le corps pour satisfaire nos besoins. Elles sont un outil primordial de notre vie relationnelle, ont leur mot à dire dans tout ce que nous disons, permettent d’appuyer un message, de le faire passer, d’offrir à l’autre ce que nous avons de plus profond, de plus authentique. « Les mouvements de la tête qui donnent l’âme d’une expression, le mouvement de la bouche qui délivre la parole, le mouvement des membres qui ponctue le verbe, le mouvement de la main qui guide la plume, dépendent tous totalement du monde articulaire. » (Dannis Bois)

"

In Le mouvement dans tous ses états- Les recherches de Danis Bois – Eve Berger

segunda-feira, 11 de agosto de 2008

"We want the world and we want it now" J. Morrison

Como pode alguém se reencontrar tão profundamente através de quem se perdeu?
Jim Morrison, Fernando Pessoa, Elis Regina...

Porque o natural do ser humano é viver perdido de si, é não saber quem é, é viver sem pensar o que deve ou o que não deve fazer, porque o antinatural é esta sociedade falsamente conhecedora de como se deve viver a vida, ignorante que a luz e a sombra são no âmago o mesmo, que viver sabendo é coisa que para a corrente do rio da vida não interessa para nada, porque ela não existe por ou para ser sabida, apenas para ser vivida superficialmente, através do corpo, pois nada há de mais fundo que a superfície do mundo, que imaginar outros fundos é perder este para ficar com nenhum. Que o Jim e os outros poetas marginais morreram prematuramente porque eram demasiado perfeitos para este mundo ainda a aprender a ser mundo, que é o Homem que teima em escolher uma margem do rio em vez de nele embarcar de modo inteiro, que de marginal existe só esta invenção mental de mundo: todo o pensamento é marginal ao corpo, todo o ser humano torna-se marginal cada vez que pensa.
Apenas aceito pensar como via para o não pensar, apenas aceito viver na terra dos marginais como via para a terra do mar.

"Waiting for the Sun"...
"I'll tell you this... No eternal reward will forgive us now for wasting the dawn."
Jim Morri-son

domingo, 10 de agosto de 2008

O mundo* ao contrário

A Escola, tal como a sociedade, não está organizada para seres cujas mentes nasceram de corpos, mas para seres cujos corpos nasceram de-mentes.

|*O O-limpo é o próprio mundo*, o qual significa limpo, quando este nascer como tal. Os Jogos Olímpicos ainda não começaram... os Xutos estão certos, o mundo é ainda imundo.|

sábado, 9 de agosto de 2008

TITANIC


a força bruta que fez este folhado
de lama e lava
se afundar

é a mesma
que empresta
leveza e movimento
às asas
da gaivota

Sei de um Rio



Vídeo: Bruno de Almeida
Letra : Pedro Homem de Mello
Voz: Camané

A Fome da Alma

(Porque merece destaque)

"ó subalimentados do sonho!
a poesia é para comer."
Natália Correia

E quem diz poesia diz arte... a única mensagem para ser levada a sério não é a da ciência nem de outros conhecimentos pretensiosamente objectivos, mas a dos subjectivos, pois só o subjectivo existe - ou peço desculpa... mas não me incluo na sociedade-objecto.

Diálogo a cores com El-Rei D. Sebastião (I)

“É O que eu me sonhei que eterno dura, / É esse que regressarei.”

Os versos vêm indireccionados. São de um poeta, são de Pessoa. São enviados por outro poeta e por uma pessoa: _______________. Quem mos enviou, nas horas terminais do sonho e do sono, enviou-mos por saber que preciso de falar com poemas e com poetas, com sombras e deuses, com mortos e incriados, para regressar; sabe que preciso da sua companhia para suportar a existência aqui e agora, sabe que nunca acordo e não me é relevante distinguir entre o sonho e a realidade, sabe que não consinto a dúvida da terceira meditação cartesiana, sabe que vou e venho, chego e parto, com a alma muito silenciosa para escutar os que me são congénitos: já me sabe inapta para o mundo e para os que falam ininterruptamente e não sabem da minha surdez, da minha cegueira, do meu estado inanimado para o tangível; sabe que sou intangível, não inatingível. Sabe como dialogar comigo, sabe trazer o terceiro incluído até nós, entre nós. Desta vez trouxe o rei. Nunca tínhamos falado, entre nós, do rei, de El-rei D. Sebastião. Mas ele já me tinha falado muitas vezes do seu rei. Tenho até para mim que o meu bom amigo é um outro rei.
Quando envia os versos penso, dadas as circunstâncias, não sei como dizer-lhe que O rei nunca me falou nem eu falei com Ele. Tenho apenas ouvido falar-vos os dois. Deambularem em torno do império e do Poema, desenharem a giz o contorno do que o não tem, citarem os versos que vos unem num ponto único e invisível, a Ilha dos Amores. Tenho-vos visto nas ruas em dias de nevoeiro acinzentado, lado a lado, e pressentido que se chamar por um, o outro me responde, indistinta e provavelmente, uma voz única. Tenho-vos surpreendido nas sombras e escutado entre os versos e as sábias meditações. E tentava confessar-te, bom amigo, que eu, que nunca desconfiei do poder dos versos nem da métrica musical que me enlouquece, nunca tinha ouvido falar dentro de mim O rei. Nesse instante, no kairos dessa confissão, na simultaneidade dessas palavras que escrevia, na verdade branca da alma, com a emergência da paisagem plana, dou comigo, nas planícies sólidas e silentes, na atmosfera constante e quase imóvel do calor alentejano, a vê-lo e a escutá-lo. O rei nobre no seu país pobre!
Não sei como contar-te, sem mistério e emoção, sem perturbação e sem tristeza, essa com que me conheces como um rosto único, que viajei com o rei até aos seus mistérios e aos seus degredos e nessa peregrinação fui para além de toda a solidão e da experiência solipsista com os outros. Sim, tu bem sabes que é, quase e só com eles, que a linguagem tem dificuldade em ser ética e religiosa. É sobretudo com os vivos que a linguagem desune em vez de unir. É sobretudo com os outros e dos outros que a linguagem é só juízo e comunicação. O teu rei, dialogante comigo, tinha-me roubado ao mundo. Os versos relembrados, evocados, e a tua dádiva inesperada tinham sido as tabuinhas com que me libertaste dos dias e dos trabalhos, da morte em vida com que nos restantes meses de estio estive amortalhada. Ah! mas os versos que me enviaste foram pombas, foram sombras, foram trigo e foram uva! Foram quentes ventos para o deserto. E, com os versos, gentil amigo, desencadeaste uma espécie de experiência não totalmente apreensível para mim desde Herberto Helder e de Photomaton & Vox. O rei aparecia e desaprecia nas ondas luminosas, também inacabadas e impermanentes, nas ondas magnéticas com que o calor se configura e reconfigura nos horizontes ilimitados para os que rumam para o Sul.
O rei, amigo, não me aparecia, à primeira vista, como o Júlio Pomar o tinha pintado na paisagem-tela: assim imperfeito, desfeito quando ele ainda está intacto, assim morto quando ele ainda está vivo, assim perecido quando ele é imperecível, assim aproximante quando ele ainda está distante. Ai amigo, como à primeira vista tudo confusamente me inquietava: o via bem a ele e tão mal o via no quadro! Até que depois percebi. Ai, amigo, o que percebi! O teu rei é o sol, o teu rei é o Bem! O teu rei não vem morto no burro, não é uma Ideia montada num jerico como Napoleão montado a cavalo. O teu rei não é deste mundo nem partiu a galope num raríssimo equídeo para fundar um império. O teu rei não é a Ideia fora de si. O teu rei é uma ideia que volta a si e o império que o chamou é desde antes do tempo, realíssimo na alma e no Poema. O Poema é o grande mar da alma, só em torno do Poema, as almas como ilhas, reúnem os que se encontram e é a esse encontro, fora do tempo e do espaço, que se chama Amor e só há Amor entre os que lêem e se lêem. Assim, como uma Ideia, como um indefinível (e Platão bem sabia que tentar definir uma Ideia mais não era do que a frustre tentativa que a todos, mesmo ao filósofo, deixava em aporia…) o via eu, ao rei, na paisagem, mas não sei que paisagem era, nem onde estava, nem de onde vinha, nem para onde ia. Não ia nem vinha, o teu rei. O teu rei, rei-filósofo, não é terrestre nem celeste, é de um Outro Mundo. Ah o teu rei que me visitou na paisagem indeterminada não vem morto de um império por haver, o teu rei está vivo no império sempre havido! Como o via e sob que forma me aparecia o rei nobre de um país pobre!?
Não sendo o morto, nem vindo montado num burro, nem como Cristo para uma gruta sendo desviado, o bom rei que me chegava, chamado pelos versos que me enviaste, vinha agora na sua real metamorfose: na luz. Feito luz! O seu sonho que eterno dura é o sol. O teu rei é um ritmo luminoso – É esse que regressarei – que a todos, incluindo o burro, alumia. Sendo Ideia, o teu rei é o que tudo contorna, a luz à volta do morto, a luz em torno dos que figuram e dos que se desfiguram, do Poema e do País. Por isso o Poeta o recebe, não como morto, mas com a deferência de quem deixa entrar, não se sabe em que portas, o luzeiro, o que resplende. Por isso também o Poeta não o esquece mas o convida, porque se um Poeta o fez partir só outro o pode fazer regressar. Por isso ainda o palhaço ri e o tambor não pára de rufar, por isso, no quadro e na paisagem-tela, há poesia e há festejar. Há um chegar, há uma forma estranha de amar. Como no Fédon, o que morre ou está morto, não parte, regressa, não deixa de falar, tem aqueles com quem dialogar. Nesse sentido, o poeta espera-o e recebe-o por ter com quem poder conversar-cantar. Sem direcção o acolhe. Este não é um corpo que se decompõe, é um poema que se compõe. E Pessoa espera-o, esperam-no os que ainda são pessoas. Porque no deserto não há problemas, há poemas., não há confrontos, há encontros. Não há eu, há Ele. Ei-lo ao Rei! E um grito de estertor infindo secou a minha voz: o rei falava-me com cor, calor e som.


E falou, falou-me o rei, andando à minha frente e sempre para o indireccionado, como o Poema. E também não sei como contar-te o que me disse o teu rei nobre de um país pobre!
Foi de tal modo poderosa a emergência incontível da sua voz, da voz da luz, de um rei-luz, que logo anulou a evidência do meu corpo e a certeza frágil da minha consciência. Como descrever-te, amigo, o ímpeto, o insuspeitável élan de uma voz no alastramento da luz, das estrelas de mil pontas fosforescentes em que soavam em mim as palavras, os versos de que cada fala fazia eco? Das pontas do quadro (que não sabia sequer presente na memória), das pontas irradiantes do sol na paisagem que não me sabia sequer capacitada para enfrentar, na sua forma brilhante, incandescente, tremeluzente, com que eu o via, com que eu o ouvia, eu pobre fantasma inconsistente no bailado das suas pontas dançantes, esvoaçantes, eu muda e silente, sombra discreta no seu reino de expansão na luz! Grande rei-luz, rei entregue, como mo confessou, à cadência lírica da Poema e da epopeia, habitante permanente das moradas inexistentes a que o Povo Lusíada só chega pelo Poesia: memória reformulada pelo sonho! Anjo renunciante da espada e do poder, porque anjo anunciante do Poema e da temperança, do território-poema e não do território-emblema, regressava, desta vez em mim, como um ritmo luminoso, mais do que luminoso, luminescente e envolvente, e eu com frio do mundo como sempre estou, em dois versos conversando – aceitei o sobressalto do ritmo e da rima, do metro e da métrica, na contagiante abrangência da clarividência e sobre-evidência, com que me apareceu, com que O escutei, luz falante, fogo interpelante, labareda exaltante, sarça-ardente e estrela em flor cadente – aquecida me derretia como cera entregue à sua chama! Olho-O e procuro-O, porque penso que é tempo de anoitecer a Ocidente, temo perder dele a visão, mas de imediato percebo que ainda e sempre dele foge, do Ocidente, da decadência e da morte, e sem que lhe tivesse perguntado, com Línguas de Fogo me disse – atrás do lugar em que tudo nasce há o incomeçado. É para lá que me dirijo sem direcção, rota, caminho ou intenção.
Nesse instante incompreendi o que a meus olhos se impôs como uma misteriosa presença: a luz vermelha, de rubro intenso e fremente que se formava em torno do rei. Era, confesso-te, O rei – naquela nova luz, numa nova génese dialogante em derrame de vivo sangue sobre as minhas mãos expostas, encandeando os meus olhos rendidos – na Sua manifestação exuberante! Um rei sem manto, num manto escarlate de poderosa luz! Não sei se percebi, bom amigo, o sentido, a potência daquele acto, do tom com que mudava o modo de aparecer e dizer, e não sei se consigo dar-to a entender neste relato de encanto e arrebatamento, nesta carta, nesta acta. Nesta folha sem escolha, neste texto sem que mais outro pretexto me leve a escrever-te.
Depois de o ter assim ouvido e assim visto transfigurado, desfiz-me da matéria, não mais me senti res extensa, só intensa, e por isso quando O vi em estado sequioso e, procurei nas suas mãos a taça, o seu cálice de rei das Índias, de aquém e além mar, a taça de diamantes e de pedras preciosas, ele conversando com os meus olhos liquefeitos, os comoveu para deles beber as lágrimas com que sempre dispersei a dor em torno da beleza. Mas não foi só esse beber o que em mim me doía e condoía, essa muda aflição com que a existência se consome, que me aliviou e consolou. Era a sua aparição sem forma, a sua informe presença, a sua voz, a sua melodia clara, transparente à alma, que me convidaram a permanecer e a mais viver de forma extática. O seu império, o quinto como o essencial, é o deserto. Não por ser o mais distante mas por lá passarem muito poucos. Porque no deserto até as estrelas, pontas febris do sol, são como neve refrescante que derrete os signos em sons. Rei dos sopros e das lágrimas de luz, a sua voz rasgou fulgores e comigo cantou os sempiternos amores! Que mágico o baile que o nosso corpo dança, e sem o seu fantasma e sem a sua sombra, se enlaça no do rei quente e nu com que se despe e (re)descobre a sua morada na luz! Ai, e foi nesse enlevo, nesse deserto de sóis e estrelas, nesse fulgor de relâmpagos dóceis e diáfanos que subitamente, num fôlego, num sopro, o rei proferiu, num lance que me supera para sempre o que ainda for e tiver que ser no tempo (!):
sabes – porque leste Christian de Tryoes – que um rei só se salva quando alguém lhe pergunta por que sofre? Faminta leitora, pobre criatura que das páginas fizeste corpo-hóstia dos autores, também eu dei a taça aos cavaleiros perdidos e irreais do Graal que cavalgaram na minha memória, nas suas montanhas e nos seus abismos resfolegavam a um ritmo impressionante e metafísico. Há cavaleiros que correm para os que leram, os leitores. Há cavaleiros que correm ainda para ti célere Amazona de Kleist.
Rei de ritmo luminoso, não sei se sabia, ou se sou cavaleira desse Graal, mas e a coroa? Onde a deixaste cair, quem ta retirou da tua cabeça-sol de que só irradiam Ideias? É óbvio, amigo, que não lho perguntei, mas ele, tendo aprendido com os Poetas, com Camões que o levou e com Pessoa que o fez regressar, a ler o informulado, logo me respondeu: dei a coroa a Antígona e a Inês. Choravam desde há muito a pobre filha de Édipo e a linda morta de Patrício…dei-lhes a coroa para que a troco de toda a dor reinassem para sempre no Amor. A coroa não é, em todo o caso, um objecto masculino, é algo a que cabe melhor destino num feitio feminino.
Não sei se sorriu ou se chorou, na luz intensa tudo se dissipa, tudo se reúne, tudo refulge de uma só e mesma maneira. A sua voz imaculada e doce, a sua voz sem princípio nem fim…trazia a justiça e na sua balança, em cada verso das tragédias que recitava, nas personagens que amava, uma equânime absolvição da dor e do fatal destino se decretava.
Senti, amigo, que voava, delirava, pairava, era faísca e raio, força de luz, calor do sol, e nunca outra qualquer proximidade ao imóvel e absoluto me levou tanto tempo a fruir na alma até sentir que ali desfalecia…enterrada na luz!
E o manto e o ceptro e o veludo e as armas, Os Lusíadas…? Não sei, tendo experimentado a audição da luz e não a desejando parar, para tudo queria eu saber e procurar versos mais do que razões, para ver, para escutar o que me aparecia como o rei mais nu e nobre que eu, enfim e assim, conhecia! E estava eu extasiada a vê-lo irradiar na luz, a jogar as suas potencialidades nas formas das coisas existentes, apagando a sombra, reanimando os mortos e chamando os pássaros distantes, quando, afagando um pouco mais o meu rosto, e nele lançando o seu raio mais quente, me disse o rei nobre num país pobre:
dei-as ao Filoctetes e não os dei a Hamlet. Um sofreu mais do que o outro, entre a vida drama e a vida trágica, dói mais a vida dos que na ilha nem memória de Ofélia nem do Ser podem invocar. Filoctetes não se vingará, não será ardiloso nem viverá usando a razão com argúcia, astúcia e maldição. Por ser Grego, entregará o ceptro e o manto ao visionário cego, a Tirésias, para que o velho sábio cubra o seu corpo e o ceptro o ampare – substituindo o velho bastão com que Creonte o amaldiçoou – nas inóspitas montanhas da verdade onde os templos de pedra já não aspergem sonhos, delírios e visões. Depois, quando mais logo, por uma vinha entrar, e com os bagos cheios brincar e brindar, sem taça e manto, Diónisos me encontrará e complementará: trará consigo, na sua memória fundadora, a pele do bode e a alegria dos poemas e dos versos aquém e contra a elegia. Bons fragmentos de mito me animarão e com eles, fragmentos de literatura me repercutirão ao coração enfermo dos que sofrem e só se salvam na canção.
Eu, ao contrário do que nele não distinguia, dei-me conta nesse instante que chorava e sorria.
Foi nesse momento que me apercebi de duas coisas, como se a mim voltasse, como se agora a minha voz a mim retornasse: uma a de que este rei não existe para um povo histórico, ou para os indivíduos concretos. Este rei é um rei a-histórico e real apenas para os indivíduos leitores, por ele mesmo ser um rei raptado, como Perséfone ao mundo, não pelo reino da morte, mas pelo reino dos Poetas. Como Perséfone, O teu rei virá ao mundo as vezes incontáveis que os ciclos das almas por ele forem chamando, clamando: e versos e cristais de chuva, sobre elas derrame e com uma nova força e com uma nova vida consagre, homens e leitores, ao seu encontro com o que é mais do que esta vida! Lançando versos, em gotas e sons iluminantes, ampare e acolha o rei, o leitor infeliz e o homem vivo por um triz, na sua morada sagrada: no deserto, templo, catedral e altar. Porque aquele que lê, acompanhado pelo rei que foi raptado pela voz perigosa da Poesia grita “o rei não está morto!” Grita-o e exclama-o, porque sabe e pode com ele o coro trágico do lamento e da dor. Sabe o quanto pode o Poema consagrar no altar, na pedra a dor! O teu rei, repito-o, não vem morto, ele, como a tragédia, é o canto enlutado que atravessa a vida e a ascende à interjeição plangente. E, por isso e, só tardiamente me dando disso conta, percebi o quanto de estranho me perturbava. O teu rei, amigo-rei, não se punha como o sol da natureza a Ocidente, o teu rei de rubro pintado e nu, o teu rei sem coroa sem ceptro e sem taça, é o coração do mundo. O que me foi dado ver e ouvir nada mais foi do que o seu ritmo compassivo, o seu tom vibrando no coração da Terra como um Poema em carne vivo.
E, sendo este O teu rei, sei-te, como ele, pulsando vivo a mesma cor, falando com o mesmo ardor, no coração secreto e íntimo dos mesmos versos, com que partes e com que regressas, até à coroação do mundo no Amor. Depois seguir-se-á o diálogo das almas e das afinidades electivas e com outros versos salvarás a miséria pobre das paisagens e dos dias, e com o teu dom amarás, com um Poema, a Vida e a Morte dos que ficam e, dos que partindo, constituem esse reino único dos leitores e dos que escrevem versos de elogio e amor, do Elogio do Amor. E, também, por isso que te sei habitante do deserto e pássaro distante e brilhante nas nossas vidas de treva e sem muitos rasgos de luz.


Para o Manuelinho com quase uma semana de atraso...para as suas bebedeiras de luz e deserto. Para os que têm tido a delicadeza indizível de me lerem. Mais, depois deste texto, não sei que dizer.Um silêncio mudo, um sono poderoso me leva daqui...

O vôo da serpente

(Porque este poema pertence aqui)

Parece-me que não ando a viver,
mas a rastejar num chão que não existe...
porém,
à mínima Luz levantarei vôo.

É a serpente que rasteja,
mas é ela a emplumada,
a que voará.

sexta-feira, 8 de agosto de 2008

«A» máscara


Nasci e vivo con-vencida pelo amor...

Convencer alguém do que digo? Nem a mim me consigo convencer!... Quando dou conta já me convenci antes de me convencer, isto é, apenas reconheço que me convenci... Porque crer com o pensamento apenas pode acontecer a partir da crença com o sentimento, assim, só se crê realmente quando se crê com o sentimento e o sentimento só sabe crer não sabendo como ou em que crê.
Por isso, toda a discussão que seja feita com o objectivo de se convencer alguém é uma brincadeira... pois ninguém se convence conscientemente, assim como ninguém se apaixona por se ter decidido apaixonar. O sentimento convence, o pensamento reconhece.
Quando o pensamento pretende tomar o lugar do sentimento, querendo convencê-lo, o crer* é substituído pelo pensar que se crê, em consequência, o viver é trocado pelo pensar que se vive.

|*crer de acordo com Agostinho vem de coração.|

HOJE!

NÃO FALTEM!
Autocarros: 773, 720, 738
Eléctrico: 28
Metro + próximo: Rato

Somos pré-vida...

"Só o que sonhamos é o que verdadeiramente somos, porque o mais, por estar realizado, pertence ao mundo e a toda a gente."
Bernardo Soares

E o que verdadeiramente somos não existe ainda, só perecivelmente, criando com base no que já está criado.

"Somos morte. Isto, que consideramos vida, é o sono da vida real, a morte do que verdadeiramente somos. Os mortos nascem, não morrem. Estão trocados, para nós, os mundos."
Bernardo Soares

Meu caro Pessoa, é quase isso, apenas ainda não nascemos... vivemos ainda a gestação do que somos.

quinta-feira, 7 de agosto de 2008

! balanço

Amor guerra paz sentem muito sentem tanto flores tulipas mar pintam vários tiram fotos muitas imagens mitos salomões princezinhas principezinhos livro fininho. Ecran sempre a ferver é sempre a abrir Amor amor anais anais sereias fogo explicam expõem expiam expio maravilhoso coração maravilhoso é uma alegria uma tristezas fetais smile you're on candid camera brasiu introduza os caracteres vopjup. Fruta da boa fresquinha suspiros cavacas toucinhos do céu descrevem passado infantojuvenil ruis, miguéis, baloiços, loucura, droga, morte. Nada, muaah, sniff, ahahah, ihihih, pisca pisca até à próxima despedem não vão voltam despedem de novo regressam não vão e despedem, vice versa. Chatos comichosos comichão cães animais domésticos peixinhos do aquário feras leoas ommmm entelegibilidade, hum-hum.

quarta-feira, 6 de agosto de 2008

Siddhartha

Nascer é tornar o oculto evidente

Todo o fenómeno exterior à Terra parte do seu interior, pois o primeiro é manifestação do segundo, tal como tudo o que acontece com o Filho tem origem na Mãe, pois tudo o que está fora nasce de dentro: o corpo cobre descobrindo o ín-timo.
Achar que são os fenómenos exteriores que condicionam os interiores, que é pensando ou agindo exteriormente - que sempre o é, visto a vida acontecer através da exteriorização - que as soluções nascem, é viver do avesso. O Homem não consegue intervir tão bem que não pudesse intervir melhor não fazendo nada, exceptuando por ventura quando é espontâneo.

De tudo...
De tudo fica só uma coisa
- a que nos originou:
o amor.
De tudo quanto existe
só uma coisa é certa
- a que do sono desperta:
o sonho.

O amor, a união de ondas

O homem e a mulher representam ondas de sentido inverso, espelhadas, que quando se unem formam o mar que são, no útero...

terça-feira, 5 de agosto de 2008

Sobre lágrimas...





As lágrimas que choramos são salgadas
para chorarmos ao pé do Mar
e lhe devolvermos o que lhe pertence.
O Mar sem sal, não é Mar.
Por isso, nós choramos para haver Mar.
E quando as ondas vêm e vão repetidamente,
elas levam as nossas lágrimas salgadas
e aliviam os nossos olhos.
E, como os olhos são o espelho da nossa alma,
as ondas aliviam a nossa alma também.


(não consegui ir de férias sem postar uma última vez... ;))

A caminho da flor da pele...

A vida está a ser o regresso do animal ao coração do vegetal através da água e dos minerais.