O CAMINHO DA SERPENTE

"Reconhecer a verdade como verdade, e ao mesmo tempo como erro; viver os contrários, não os aceitando; sentir tudo de todas as maneiras, e não ser nada, no fim, senão o entendimento de tudo [...]".

"Ela atravessa todos os mistérios e não chega a conhecer nenhum, pois lhes conhece a ilusão e a lei. Assume formas com que, e em que, se nega, porque, como passa sem rasto recto, pode deixar o que foi, visto que verdadeiramente o não foi. Deixa a Cobra do Éden como pele largada, as formas que assume não são mais que peles que larga.
E quando, sem ter tido caminho, chega a Deus, ela, como não teve caminho, passa para além de Deus, pois chegou ali de fora"

- Fernando Pessoa, O Caminho da Serpente

Saúde, Irmãos ! É a Hora !


domingo, 23 de agosto de 2009

loucura



Se buscas perdes o que não procuras

Mesmo nas vitórias

Terás vencido sem perdição

A eternidade não tem duração

Nem o coração precisa de sentimentos por medida

As flores não são flores nem na Imaginação

Nem sonhada a imensidade se faz imensa

Verdade por verdade o ser sem Lei

Nem mesmo havendo estradas o caminho será perfeito

Mesmo que afortunado a sorte não se agradece

Nem se pede o que já se tem

Mas até isso é ilusão

Não está vivo o que vive

É sem razão

Observa o nada para lá de todas as coisas.

As palavras são como dedos apontando a Lua. Não confundas o dedo com a Luz que aponta.

Tantra ou do Uno-Todo

"[...] No seu melhor, O Tantra é integralismo. Isto é aludido na própria palavra tantra, que, entre outras coisas, significa "continuum".

Este continuum é o que os adeptos iluminados reconhecem como nirvana e o que os mundanos não iluminados experimentam como samsara. Estes não são realidades distintas, opostas. Elas são absolutamente o mesmo Ser, a mesma essência (samarasa). Essa essência apenas aparece diferente a diferentes pessoas por causa das suas predisposições kármicas, as quais são como véus ou filtros mentais que obscurecem a verdade. Para os mundanos comuns, o Uno permanece completamente escondido. Para os buscadores espirituais, parece um objectivo distante, talvez realizável após muitas vidas. Para os iniciados, é um fiável guia interior. Para os sábios que reconheceram o Si / auto-realizados, é o Único que existe, pois eles tornaram-se o Todo"

- Georg Feuerstein, Tantra. The Path of Ecstasy, Boston/London, Shambhala,1998, p.51.

miosótis

Lembra-vos alguma coisa?


"Trailer for film The Wave by Dennis Gansel. THE WAVE is based on a real event from a Californian high school in 1967 and transposed to Germany today. A cautionary tale about the roots of fascism. (...) Much to their surprise the students find that they like the power of unity and soon this new found discipline spills over to other school activities and newcomers join the group. The Wave gives the kids something to believe in for a change, until they go too far and The Wave spins out of control. "

Petição contra a transmissão de touradas pela televisão pública

Convido-vos a assinarem esta petição contra a transmissão de touradas pela televisão pública – que usa o dinheiro dos contribuintes para divulgar a tortura e não a cultura – , e a favor da sua criminalização.
Pelo bem de todos os seres sencientes, incluindo o de quem, por ignorância, os faz sofrer”

Paulo Borges

sábado, 22 de agosto de 2009

saber viver

para a filosofia no princípio era a contemplação, para os poetas continua a ser... mas é preciso crescer e crescendo criámos a nova face do mundo (e a possibilidade de outros), aprendemos a morrer já que viver é a nossa luta e a nossa condenação.

eterna inocência

"De olhar límpido se faz a alvorada.
E do costume de andar pelas estradas
Olhando para a direita e para a esquerda,
E de vez em quando olhando para trás...
E o que vejo a cada momento
É aquilo que nunca antes eu tinha visto,
E eu sei dar por isso muito bem...
Sei ter o pasmo essencial
Que tem uma criança se, ao nascer,
Reparasse que nascera deveras...
Sinto-me nascido a cada momento
Para a eterna novidade do Mundo...

Creio no mundo como num malmequer,
Porque o vejo. Mas não penso nele
Porque pensar é não compreender...

O Mundo não se fez para pensarmos nele
(Pensar é estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo...

Eu não tenho filosofia; tenho sentidos...
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,
Mas porque a amo, e amo-a por isso
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe por que ama, nem o que é amar...

Amar é a eterna inocência,
E a única inocência é não pensar..."


Alberto Caeiro, em O Guardador de Rebanhos
"As sepulturas ficam abertas nas florestas à
beira dos barrancos, sem cruzes e sem recordações,
protegidas, apenas, pela esmola e pela claridade da luz.”

Álvaro Maia

ASTRAL PROJECTION - Mahadeva (version original 95)

O goa trance surge da fusão do tecno europeu com sons indianos quando os freaks foram para Goa. Entretanto, surge o trance israelita de que os Astral Projection são um dos expoentes máximos. Diz-se por aí que surgiu porque os soldados israelitas iam passar férias a Goa depois dos combates. Tudo isto está documentado e acessível na net. Este tema é um dos mais conhecidos de sempre do puro goa trance.

A dualidade dos tolos

"Os tolos projectam erroneamente escravidão e libertação, que são atributos da mente, sobre a Realidade, tal como a sombra lançada sobre os olhos por uma nuvem [é projectada sobre] o próprio Sol. Pois esta imutável [Realidade] é Consciência não-dual e livre" - Shankara, Viveka-Cudamani, 571.

Visão edénica



É uma espécie de cegueira.
Por isso dedico este texto singelo ao meu irmão António. Portador duma condição degenerativa da retina, foi perdendo a visão à media que se ia fazendo homem. Conheci-o na Faculdade e até hoje é uma das amizades mais fiéis e compreensivas que a vida me deu. Com ele aprendo a ver. E foi na sua companhia que tirei uma das fotografias que mais me deixou de bem com a vida.
Há pessoas que só vêem as outras através da lente da auto-afirmação. Calculam o ter e o haver das relações, ou então entretêm-se com o ofício, sombrio e implacável, do torturador que a todo o custo procura provar a inconsequência do Amor, ou a ingenuidade do Amante, ou a estupidez do que consegue ter fé na bondade, resida ela onde residir. Num universo de papés de andar a querer subir a todo o custo, ter entranhas é algo de vergonhoso e que há que esconder a todo o custo. Há fragilidades que se pagam bem caro. Quem pode dar-se ao luxo de acreditar que a compaixão é a fonte de tudo o que de indemne se pode encontrar neste mundo?
O motor imóvel desta maquinaria infernal que alimenta os egotismos é um buraco negro, esse objecto-fetiche do imaginário do cientismo ingénuo que mergulha os corações nas trevas da insuficiência do sonho. O universo deveria ser imaginado com um centro cardíaco, ubíquo, inapreensível, transbordante... Pelo contrário, tudo caminha inexoravelmente para as trevas e estas até devoram a escuridão, a alma secreta da Luz.
É, portanto, natural, que aqueles que procuram ver a partir da atopia lancinante do coração, pareçam cegos e não se consigam orientar na paisagem depressiva da rejeição da vida e da expatriação do Amor. Cultivar a poesia não é preciso, o mar é demasiado vasto para não ser navegável, as estrelas nunca apontam caminhos que não possam terminar em desastre. Ai de quem não sabe de si o suficiente para se atirar com unhas e dentes à tarefa de consumar a desolação.
Todos os actos, e especialmente os que são animados por uma intencionalidade pura, estão sujeitos à deturpação e à maledicência.
Isto dá ao Poema uma força emancipadora que temos que libertar em nós e espalhar em redor através do olhar contemplativo, nascido duma atitude de recolhimento na imensidade do Alvorecer:

"É urgente o amor.
É urgente um barco no mar.

É urgente destruir certas palavras,
ódio, solidão e crueldade,
alguns lamentos,
muitas espadas.

É urgente inventar alegria,
multiplicar os beijos, as searas,
é urgente descobrir rosas e rios
e manhãs claras.

Cai o silêncio nos ombros e a luz
impura, até doer.
É urgente o amor, é urgente
permanecer.
"
(Eugénio de Andrade)

O pior que nos pode acontecer é o moralismo. O acharmo-nos insuficientes, o querermos que os outros se encaixem na nossa insatisfatória visão da vida. Em vez da soltura, a culpa e a recriminação. Ninguém nasce amestrado. Antes a morte que a sorte do escravo.
E depois há os que juram fidelidade à Verdade. Não há juramento mais sedento de sangue do que este. Não que a 'verdade' não exista, talvez não nos seja possível sermos 'verdadeiros'. 'Verdade' é uma florescência do olhar, a fosforescência da consciência que se deixa imergir na materialidade amniótica e nela se dissolve como se digerida por uma Fome que a tudo transfigura incessantemente. Talvez por isso o povo diga que 'quem mais jura, mais mente', acto demente, da mente falsamente alucinada, por isso os fundamentalismos nos afastam do Fundamento. Viver profundamente é deixarmos que o enraizamento nos consuma. Não há nada de demasiado elevado que não possa ser calcado aos pés dos que vão além da elevação.
Não há um elevador para subir e descer na Vida.
E não há elevação sem queda nas Profundezas. Queda desamparada. O desamparo transformante, o ermamento que desarma o despeito e a agressividade.
Só a luz pode cegar a Viúva Negra em que a alma humana se deixa transformar quando a dor indo além do suportável não é acompanhada da Visão. Ai de quem nos ama. Como o Amor se verte num jorro vulcânico de insuportável eleição. Há que sugar até ao tutano a mínima evidência de vida, o mais leve reflexo de emaravilhamento... Quem pode suportar ver-se no centro do mundo?

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

resposta

'uma dispersa dinastia de solitários mudou a face do mundo. a sua tarefa prossegue.'

jorge luis borges, o jardim dos caminhos que se bifurcam

Augusto Santos Silva está para Goebbels como Sócrates está para...

ITHACA

"I wish humans would just die off and let the rest of the world survive"

Ecovillage at Ithaca-Pioneering a Sustainable Culture, Liz Walker

Sócrates protege-nos de Cavaco. Quem nos protege de Sócrates?

Santiago Cirugeda

Santiago Cirugeda, arquitecto sevilhano, deu uma conferência na Ordem dos Arquitectos, no passado dia 8 de Maio, inserida no projecto “A Casa da Vizinha não é tão verde quanto a minha” (http://www.acasadavizinha.eu). O irreverente arquitecto expôs o seu conceito e prática da arquitectura, defendendo que não lhe interessa a arquitectura “bonita”, mas aquela que põe em causa os planos arquitectónicos urbanos, que, segundo o próprio, “estão pré-desenhados pelos políticos”.

Assim, os seus projectos exploram “situações possíveis de cidade” e, de acordo com este conceito, Santiago projecta e constrói, inserido em colectivos auto-geridos –
“da Corunha, França, Catalunha e de muitos outros sítios” - , obras arquitectónicas em locais onde verifica que os direitos dos cidadãos são postos em causa, nomeadamente o direito à qualidade de vida ou o direito à educação, o que pode ser verificado pelas inúmeras praças que projectou e construiu em bairros onde prima “a falta de equipamentos” ou pela Faculdade de Belas-Artes que projectou em Málaga, “a quinta cidade mais importante de Espanha” e onde não existia nenhuma instituição desse tipo.

Devido à falta de meios, o desenvolvimento dos projectos de Cirugeda passa, em grande parte, por uma negociação política, em que o arquitecto explora os espaços legais que lhe permitem prosseguir a sua “outra visão da cidade”, cumprindo sempre as normativas que permitem construir algo público.

Segundo o próprio, a sua arquitectura “é um pouco feia, mas interessante”, porque a sua ideia é explorar essa mesma “outra visão de cidade”, uma cidade alternativa onde existe maior participação civíca e onde todos os cidadãos são tratados de igual forma, não obstante a sua diversidade. Para isso, Cirugeda e os grupos com que trabalha negoceiam com os políticos a exploração dos espaços legais que permitem a construção pública, sendo que cada obra construída “é uma vitória”.

O trabalho de Santiago passa também pela publicação de “receitas urbanas” na Internet, que podem ser consultadas no sítio “Recetas Urbanas” (http://www.recetasurbanas.net) ou no Youtube. As receitas urbanas são manuais em que é explicado ao cidadão como pode construir por si inúmeros espaços da forma mais segura possível e dentro dos princípios da legalidade, na medida em que o arquitecto tem consciência que existem muitos cidadãos com poucos conhecimentos de construção que, devido aos “poucos recursos económicos”, constroem ilegalmente, sujeitando-se aos perigos inerentes à construção.

Desta forma, podemos concluir que a obra de Santiago Cirugeda, iniciada há 12 anos, é essencialmente um trabalho activista de intervenção social que põe constantemente em causa a lógica do status-quo e em que se augura a ideia de uma sociedade nova constituída por cidadãos mais educados, activos e auto-geridos. A síntese das suas ideias pode ser consultada na primeira pessoa no sítio “The influencers” (http://theinfluencers.org/es/santiago-cirugeda/video/1).

Na Sem-fronteira

Até Oriente então, na sem-fronteira,
chegamos a viajar no Expresso sem bagagem,
portados até o porto de Istambul,
minha terra dos dons e as confluências.
Entornou-nos na piscadela das paisagens
em cor vermelha o véu desde a mesquita
para orar à minha deusa Iemajá
na fonte de Allah, Salam, olho em amor.
Ali achei assento de pastora,
útero de loba que acarinha o cordeiro dos deuses
e fiquei. Passou o tempo, já resido.
Solicito reunificação familiar
com irmãos ao longo deste mundo,
espécie homo de Eva e de Lilith.
No caminho perdemos o caminho
com ás de Oriente em borboleta
e quarto endereçado de leões.

diafonia


Não importam as madrugadas ausentes no espaço duma vida

A sombrearem de infinito o agora que se estende para além

Nem o que sobra depois da festa de não ter sido

Todas as ruas desaguam no rio da solidão

Porque cada homem é só o que é e nada mais

O que importa é o palpitar do coração

Que mostra que não há dois dias iguais

É a urgência das mãos de desembrulhar o tédio da continuação

A criança que há em nós gosta de receber presentes

Mesmo os ausentes podem reviver pela imaginação

É tudo o que não se deixa possuir o gélido palpitar da terminação

Das horas

E até a mansidão de antes do salto de antes do mergulho no sem fim

Até isso importa mais que o que alimenta a espera

Nem a esfera de aço da autoconfiança a Primavera é só a Primavera

O que importa é o que não se espera a gestação no útero do Inverno

Só vive no inferno quem quer ou quem pode dar-se ao luxo de não se perder

Os sapatos só se gastam porque se acomodam demasiado aos pés

Tudo o que vivemos procura a nudez essencial do que não tem que ser

O nosso entorno é um convés que nos leva ao acontecer

Quem recusa a perdição do naufrágio contenta-se só em viver

E para além disso o amor que será senão uma eterna partida

Não há paragens de autocarro no centro da utopia

Incendeia-se num cigarro o espectro sedento da melancolia

As garrafas vazias vão para o vidrão

A mente alcoolizada sabe a mofo e a papelão

Para onde irá o coração depois de usado

Não que isso importe nem a vida nem a morte

Nem a sorte que nos calhar

Se calhar só importa o que se suporta sem se suportar

Os armários cheios dos restos dos anos passados

Os nossos escafandros de ir ver gente

Almas depenadas da necessidade de parecer diferente

Os encontros e desencontros com cheiro a naftalina

Nem pasto das traças pode ser o que é pretérito

Tão cheio de vazio está o que não é pleno

Nem as formigas se aventuram pelos interstícios da vida domesticada

Só resiste à putrefacção o que nunca valeu nada

E os edulcorantes só adoçam falsamente

Só precisa de céu quem sempre acreditou na escuridão

Só sabe de paraísos quem busca a consolação

Nada é permanente e mesmo a permanência é transitória

Uma vida bem vivida não tem história

Mesmo que se beba mais chicória do que café

Por causa do medo dos ataques do coração

Para uma Cultura do Despertar - Actividades na União Budista Portuguesa

* Seminário "O que faz de ti um budista. Uma introdução ao budismo: as 4 nobres verdades e os 4 selos" - Sábado, 22 de Agosto, das 15-19h.

* Curso de Introdução à Meditação Budista - 24, 26 e 31 de Agosto, das 19.30 às 21.50.

Orientação do seminário e do curso: Paulo Borges; Inscrições: 213634363 / sede@uniaobudista.pt

* Palestra de Stephen Batchelor, autor de "Budismo sem Crenças": "Introduction to Secular Buddhism" (em inglês)
3 de Setembro, das 20h-22h, no Anf. III da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa (entrada livre)
(organizada pelo projecto "Filosofia e Religião", do Centro de Filosofia da Universidade de Lisboa, com o apoio da União Budista Portuguesa)

"In this talk I will describe my own journey from being a Tibetan and Zen Buddhist monk to a Buddhist lay person living in a modern European society. As a practising Buddhist today, I do not believe it is necessary to accept literally ancient Buddhist doctrines such as rebirth/reincarnation and the law of karma. The primary value of Buddhism, as I see it, is to provide us with tools to address the suffering and crises of our lives in this world, as individuals, members of a society and creatures of an eco-system. It is in this sense that I use the word “secular.”

I question the need to consider Buddhism as a religion, replete with rituals, hierarchies and dogmas, governed by the authority of monks and priests. I envisage Buddhism as a culture of awakening, open to all, that has demonstrated throughout its history the ability to re-imagine and re-invent itself. As a lay Buddhist, I seek to define Buddhism less in terms of achieving “nirvana” and more in terms of creating and cultivating an “eightfold path” that addresses every aspect of our humanity in this world"

Para consultar toda a lista de actividades: www.uniaobudista.pt

Que todos os seres sejam felizes!

El poder en la Historia

A história em 3 minutos.

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Apaga a televisão, liga a imaginação

Centro de Cultura Anarquista Gonçalves Correia

Pascoaes não escreveu só a Arte de Ser Português...

"Vivamos, enfim, no: Faça-se a luz! e no Amai-vos uns aos outros! Faça-se a luz é o grito do anarquista. Amai-vos uns aos outros é o dos comunistas"

- Teixeira de Pascoaes, A Minha Cartilha, Figueira da Foz, 1954 (edição póstuma).

outros mundos (animais?)

'on voit porquoi borges invoque le philosophe chinois (ts'ui pên) plutôt que leibniz. c'est qu'il voudrait, tout comme maurice leblanc, que dieu fasse passer à l'existence tous les mondes incomposibles à la fois, au lieu d'en choisir un, le meilleur. et sans doute ce serait globalement possible, puisque l'incompossibilité est une relation originale distincte de de l'impossibilité, ou contradiction.

gilles deleuze, le pli

Um Partido Inteiro - Entrevista sobre o Partido Pelos Animais dada à Animalia.pt, revista semanal online

Partido Pelos Animais: Realidade ou Utopia?

O projecto é muito real e conta já com o apoio de muitos voluntários e de várias figuras públicas, nacionais e internacionais, nomeadamente de Sua Santidade o Dalai Lama. Para já a recolha de 7500 assinaturas de cidadãos eleitores é essencial para formalizar a inscrição do partido junto do Tribunal Constitucional, mas Paulo Borges, membro da Comissão Coordenadora do Partido Pelos Animais (PPA), faz uma projecção das actividades do mesmo e explica, especialmente aos mais cépticos, a viabilidade de uma ideia que surgiu da amizade entre pessoas... E animais.

- Como é que surgiu a ideia de formar um novo partido e de o relacionar tão intimamente com os animais?

Algumas das pessoas que estão neste momento na Comissão Coordenadora do Partido Pelos Animais foram-se conhecendo no decurso de petições apresentadas por cada um de nós. O António Santos, que é o actual Presidente da Associação Desenvolvimento Natura, fez uma petição contra o uso de peles pela estilista Fátima Lopes nas suas criações. O Pedro Oliveira fez uma petição contra o massacre dos golfinhos no Japão, que já juntou cerca de 1.300.000 assinaturas. Eu lancei uma petição não directamente relacionada com os animais, mas contra a opressão que sofrem os tibetanos, por altura dos Jogos Olímpicos do ano passado. Enfim, conhecemo-nos basicamente por apoiarmos as petições uns dos outros e acabámos por constatar que talvez fosse importante, em termos de estratégia, criar um partido político que fosse a voz de todos os que (particulares e associações) defendem os direitos dos animais e a protecção do ambiente. E que defendesse também um outro paradigma mental que consideramos ser importante no início deste 3º milénio: as pessoas têm de mudar a forma como se relacionam com a natureza e com os seres vivos, incluindo o próprio Homem. Este partido não pretende de forma alguma ser monotemático. A ênfase que damos aos direitos dos animais deve-se ao facto de estes serem, regra geral, os mais desprotegidos.

- Consideram então que, dentro dos partidos que existem actualmente no nosso país, os direitos dos animais não são considerados?

As nossas petições tiveram o apoio de pessoas de todo o leque partidário português. O que constatámos foi que, apesar de a protecção dos direitos dos animais estar contemplada nos programas de alguns partidos, nomeadamente do Partido Ecologista “Os Verdes” e do Bloco de Esquerda, na prática muito pouco ou quase nada tem sido feito pelos mesmos em prol dos animais. Mesmo quando aparece, a causa animal está sempre muito diluída noutros assuntos considerados mais importantes. Daí a necessidade de tornar esta questão num alvo central. Não que consideremos que esteja sempre acima de outros interesses, nomeadamente os dos homens, mas achamos ser necessário um partido que tenha em igual consideração os interesses dos animais humanos e não humanos.

Partimos do princípio de que todos os seres vivos têm o mesmo interesse fundamental: viverem a experiência do prazer, do bem-estar ou da felicidade e evitarem a dor. O que pretendemos é que haja uma sociedade orientada e organizada para que possamos, nós, todos os seres sencientes, atingir o mais possível este objectivo.

- Na prática, em que se distinguirão as acções do Partido Pelos Animais daqueles já existentes?

Isso está neste momento a ser alvo de discussão entre todos nós e é precoce desenvolver esse assunto, já que estamos a reunir especialistas nas diversas áreas para estabelecermos um programa com objectivos muito concretos. De qualquer modo, o fundamental é consagrar na Constituição da República Portuguesa o direito de todos os seres sencientes à vida e ao bem-estar. A partir daí serão possíveis alterações jurídicas de fundo, que criminalizem os maus tratos e os atentados à vida dos animais. A par de uma campanha pedagógica, há muita coisa a mudar para acabar com os autênticos campos de concentração para animais da pecuária intensiva, bem como no modo de serem transportados, na desnecessária experimentação científica de que são vítimas, nas condições miseráveis em que se encontram em muitos canis municipais. Há que considerar crime abandonar os animais de companhia. Há que reduzir e suprimir o uso das peles no vestuário. Há que reduzir as taxas que incidem sobre os produtos de origem vegetal e biológica e promover a divulgação de alternativas alimentares vegan-vegetarianas. As consultas e os medicamentos veterinários devem ser comparticipados e dedutíveis no IRS. A esterilização dos animais domésticos deve ser gratuita e deve-se pôr fim à massiva eutanásia de animais saudáveis.

Em termos da natureza e do ambiente há também que promover um real desenvolvimento sustentável, ensaiar e progressivamente privilegiar modelos de desenvolvimento alternativos, que preservem a diversidade cultural, biológica e ecoregional. Deve-se substituir quanto possível as energias não-renováveis (petróleo, carvão, gás natural, energia nuclear) por energias renováveis e alternativas (solar, eólica, hidráulica, marmotriz, etc.), superando a vulnerabilidade e as dependências de uma economia baseada no petróleo e nos hidrocarbonetos.

Um problema planetário é o do aquecimento global, que pode ter como uma das principais causas todo o processo implicado na produção de carne. Considerando a desflorestação para pastos, o consumo de água e os custos não compensados de tudo isso, torna-se evidente que, além de ser uma violência injustificável para os animais, a alimentação carnívora não é um bom negócio para o homem, em termos ambientais, económicos e de saúde. Todos perdemos, em troca do lucro egoísta dos grandes produtores. É essencial que as pessoas tomem consciência desta realidade.
Por outro lado, há que fiscalizar o cumprimento da legislação existente, embora limitada, o que se torna mais premente no que respeita aos animais. Sabemos que muitas denúncias feitas ao SEPNA (GNR) não têm qualquer consequência, por insuficiente motivação e eficácia das autoridades policiais e jurídicas. Há uma cultura da impunidade quando se trata de ofensas a um animal. Temos de lutar por uma melhor integração dos animais na nossa sociedade, visando o seu bem-estar e, consequentemente, o nosso.

- Consideram-se um partido de extrema-esquerda, esquerda, centro... Ou esta classificação já caiu em desuso?

Não somos um partido extremista, nem nos podemos situar na direita, no centro ou na esquerda, categorias cada vez mais anacrónicas. Somos um partido inteiro, que pretende que se estabeleça um equilíbrio para que todos, e não apenas alguns, possam atingir os objectivos que nos tornam felizes, sem prejudicar os outros seres vivos.

Gostava de salientar que um dos princípios do partido é a não-violência, não só física mas também verbal e mental. Não pretendemos afirmar-nos pela negativa. Não vamos lutar contra os outros partidos. Gostávamos inclusivamente de contribuir para que estes incluíssem na sua agenda política a causa do ambiente e dos animais e fazer algo de concreto por ela. Se isso lhes trouxer votos tanto melhor, desde que os problemas nestas áreas sejam de facto resolvidos. O que nos importa acima de tudo é que estas causas e tudo o que com elas se relaciona se tornem cada vez mais presentes nas referências da população portuguesa, que integrem a sua ordem de valores. Nesse sentido sabemos que temos muito trabalho pela frente, sobretudo de carácter cultural e pedagógico. Temos de formar as mentalidades e as sensibilidades para verem as coisas de outra forma. Precisamos essencialmente de passar informação às pessoas, já que acreditamos que é a ignorância de grande parte da população em relação a estes assuntos, e não o facto de as pessoas serem intrinsecamente más ou cruéis, que as faz desconsiderar que estão a lidar com seres vivos que são sencientes e que não se justifica tratá-los como coisas. Para isto não são necessárias acções espectaculares ou provocatórias, mas sim uma postura o mais responsável, científica e construtiva possível.

- Porquê começar este projecto agora?

Por um lado aconteceu que se constituiu um excelente grupo de trabalho com objectivos comuns. Por outro lado, começámos a constatar que a ideia gerava muito entusiasmo entre as pessoas a quem a expúnhamos. Sentimos ainda que existe actualmente um grande descrédito em relação aos partidos existentes, quer em relação àqueles que têm estado alternadamente no poder, quer aos que têm estado sistematicamente na oposição. Isto revela-se pelo crescente número de abstenções e pelo crescente número de votos em branco. Ou seja, há muitas pessoas que se dão ao trabalho de ir votar, reconhecem que é um direito e um dever, mas não conseguem optar por um partido que as represente. Para estas e para os abstencionistas talvez seja necessário um partido novo que tenha objectivos diferentes daqueles que existem actualmente. Estamos a chegar a um momento crítico em que há como que um esgotamento de um determinado paradigma mental e civilizacional, que tem obviamente uma expressão social, política e económica. É um tempo que está a chegar ao seu fim, já que nos arriscamos inclusivamente a um colapso violento das estruturas dominantes e temos de arranjar alternativas a este panorama.

- Que dimensão pensa que pode atingir o PPA?

Isso é para nós neste momento uma incógnita, embora tenhamos as melhores expectativas. Sentimos que é um projecto muito recente e ambicioso, em que um elemento algo inédito e até excêntrico pode cativar um grande público, que habitualmente se auto-exclui da política, e reverter a nosso favor. Podemos ser uma alternativa para aquelas pessoas que não se revêem em nenhum dos partidos que existem actualmente, nem no “sistema” dominante. Podemos motivá-las e sensibilizá-las com a nossa proposta, que consideramos ser a única que não se integra no actual sistema. Assim, estamos convencidos que podemos atingir e mobilizar muita gente, embora a intenção deste projecto não seja de todo a busca do poder pelo poder. Se assim fosse ter-nos-íamos inscrito num dos grandes partidos, aqueles que deixam sempre tudo na mesma. A nossa motivação não é essa. Claro que o nosso grande objectivo, a partir do momento em que concorramos às eleições, será ter representação no Parlamento. Não prevemos qual o nível que esta possa atingir, mas o importante é estarmos presentes e dar voz aos que a não têm.

"Dentro em si achará cada um tudo o que nota nos outros"

- São Martinho de Dume, De Ira (Sobre a Ira).

Pleiadians - Maia Pt1 (Goa Trance)

Uma das mais respeitadas bandas goa de sempre. Libertemo-nos de Maia, penetrando nos seus mistérios da aparência, para o lugar sem lugar onde não existe Samsara, a verdadeira viagem da mente, para que em zen atinjamos a Moksha. Ir pela imagem para lá da imagem, penetrando na dimensão impermanente e totipotente desta (?) dimensão cósmica, deste Universo em muitos (ler Michia Kaku "Universos paralelos" ou Giordano Bruno, esse sim grande génio criador, "Acerca do infinito, do universo e dos mundos").

The Muses Rapt - Spiritual healing

Juan Verdera compôs este tema quando descobriu que tinha cancro. Sobreviveu. É um dos grandes clássicos do verdadeiro goa trance, em que ainda se nota a fusão entre o euro e o goa. A produção não é muito boa, dada a "maquinaria" da altura. Belo vídeo. Boom Xiva!

Cygnus X The Orange Theme

Um dos maiores temas tecno-trance de sempre, inserido na compilação F.A.C.T. de Carl Cox, versão de "Funeral for Queen Mary", de Purcell, que também podemos ouvir em "A clockwork orange", pelas mãos virtuosas de Wendy Carlos, numa versão sublime e sintetizada. Saudoso Verão de 97!

Rui da Silva Touch me

Membro dos já extintos e mundialmente conhecidos Underground Sound of Lisbon, com Vibe, pioneiro na Kaos, grande impulsionadora do movimento de dança em Portugal durante os anos 90, ao lado da X e do saudoso Mário Roque, compôs este tema que viria a tornar-se um hit mundial e número 1 nos verões quentes de Ibiza.

Leoa do (a)mar [poema de um poeta menor]

na praia perdidos
em areia beijos
comoção (des)controlada
tudo ou nada

leoa do (a)mar
vampiresco tocar
doce, molhado, brilhante
a noite?, radiante

escuridão incandescente
sorriso contente
nu sentimento
eterno momento

supernova
tudo se renova
fragmentos estelares
infinitos teus mares.

[escrever um poema sobre o (a)mar é coisa séria, por isso te deixo esta música]

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

o preço do meu VOTO

Não peço que asfaltem a estrada do meu Monte - quase intransitável no Inverno
nem reponham ordem no telhado - que estorninhos e gatos se têm divertido a escangalhar
Não vendo meu precioso voto (quem sabe não será ele a decidir) por um lugar de assessoria principesca
no campo, por exemplo, da utopia que anima a população da urbe
Não hipoteco
minha cruzinha no quadrado
por um cabaz de benesses de que nunca mais eu desse conta
O meu preço político é barato:
votarei em quem se comprometa
a pôr um casal de esquilos no Jardim.
Sim, leu bem: um casal de esquilos no Jardim
Estou farto de melhoramentos que valem milhões de euros, e poucos benefícios trazem
a quem coze o pão ou vende sapatos na Sapataria
ou mendiga à tarde sob os Arcos uns cêntimos miseráveis
Farto
de Fábricas estrangeiras que prometem milhares de postos de trabalho
e a gente sabe se deslocam repticiamente para o primeiro buraco em que se sintam protegidas
Por isso, políticos locais, o meu voto a quem se comprometa
a pôr um casal de esquilos no Jardim
Milhares de cidadãos futuros ficarão felizes
Ninguém melhor para governar adultos
do que
quem saiba estar
atento à felicidade das crianças

caos

caos
caos é a palavra
ascese no café - quantos copos?
o mundo perde-se em mim
automaticamente:
perco-me no mundo
ilusões emoções
libertação de peles: não é assim a Serpente?
Que Deus - que deus? - nos proteja - de quê?
força sobre-humana, tudo em mim sustento
excepto a mim
de mim não recatado
vasto campo de mente (não jogo palavras - demente)
ebriedade e sentimento
isto é um poema? que dilema!
Homessa, como diria JCN!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
caos
caos é a palavra.

É a Hora! Com quantos minutos de atraso (mental?))?



A Pátria que vale a pena

É onde a beleza se instala

Onde a pureza da luz é inigualável

Onde as frontes substituem as fronteiras

Aberta de par em par a casa comum de sermos homens

É onde as mesas se podem cobrir de linho

E onde cada presença é uma totalidade de entrega

Na Pátria não há escadotes para a estupidez subir na vida

Não há Escariotes nem agiotas nem dementes a fingir de sãos

Só há o que há

O que pode ser colhido e partilhado sem os punhais a servir de sombra

Sem os sorrisos de quem tem dobradiças na espinha

Sem panelinha de pedinde na mão de quem quer ser rei

Na Pátria a única Lei é o Amor

O resto é turba insana

Que se engana quando se vê ao espelho

E acredita no que vê

Com os mesmos olhos com que desdenha a outra gente

A Pátria não é indigente

Nem precisa de quem a defenda

E a venda a seu bel-prazer

A quem quer ter poucos iguais

Ter uma Pátria exclusiva é castigo demais para quem nasce livre

E o Fogo preso dura muito pouco

Para quem se maravilha com o que é diverso

O Universo é demasiado vasto

Para sermos pasto de egoísmos

Chega de malabarismos de pechichinês

Não traz amarras quem nasce português

Nem tem limites o espaço duma vida

Bem ou mal parida

Ser Nobre não é coisa de berço

Nem se ilustra quem é escravo de si

marathon

goa trance fruity loops 2004

Da pátria como o estar bem

"Não estás na tua pátria? Qualquer parte em que estejas bem é pátria tua: porque o passar bem não está no lugar, está no homem" - São Martinho de Braga (Dume), Liber de Moribus (Livro dos Costumes), 3.

"Recata-te de ti mesmo"

"Quando temeres os estranhos, recata-te de ti mesmo; porque sem os outros podes estar muitas vezes, sem ti nunca" - São Martinho de Braga (Dume), Liber de Moribus (Livro dos Costumes), 6.

into the dark

Não à Tourada, sim à Cultura!

Pede-se a todos que enviem para este email - nafarros@gmail.com - o texto seguinte, para que não se realize mais uma tortura de animais:

Sr. Presidente da União Desportiva e Cultural de Nafarros

Vimos por este meio solicitar que não se realize, no dia 26 de Agosto de 2009, pelas 22 horas, o espectáculo de tortura de animais a que dão o nome de "tourada", que está previsto ser por vós organizado.

A tourada é um espectáculo bárbaro e primitivo onde animais são massacrados, onde se espetam ferros no lombo de um animal em nome de uma tradição.

Gostaríamos que a União Desportiva e Cultural de Nafarros fosse conhecida por promover o desporto e a cultura no concelho de Sintra e não um espectáculo degradante como é a tourada.

Com os melhores cumprimentos

De que nos (des)protegemos com as máscaras?

O Masculino e o Feminino na Nova Consciência / Ética que salvará o Mundo (Rose Marie Muraro)

terça-feira, 18 de agosto de 2009

Uma pequena e simples música para a Serpente

Pergunta crucial

"Hombre occidental,
tu miedo al Oriente, es miedo
a dormir ou a despertar?"

- Antonio Machado

XXVI

Agora só me resta ouvir,
Para juntar o que oiço a este canto, para deixar que os sons contribuam para
ele.

Oiço bravuras de pássaros, o rumor do trigo que cresce, o crepitar das
chamas, o crepitar da lenha com que cozinho,
Oiço o som que amo, o som da voz humana,
Oiço todos os sons, juntos, combinados, fundidos ou seguindo-se,
Sons da cidade e sons fora da cidade, sons do dia e da noite,
Jovens conversando com quem gostam, o alto risco dos trabalhadores quando
almoçam,
Os irados sons da amizade quebrada, a voz débil dos doentes,
O juiz com as mãos agarradas à secretária, com os lábios pálidos ditando uma
sentença de morte,
As elevadas vozes dos estivadores descarregando os navios junto ao molhe,
o refrão dos que levantam a âncora,
As sirenes de alarme que tocam, o grito de fogo, o zumbido imediato dos
motores de dos carros dos bombeiros com as sirenes e as luzes de
cores,
O silvo do vapor, o sólido rodar da caravana de carroças que se aproximam,
A marcha lenta tocada à cabeça do grupo que avança aos pares,
(Vão a algum funeral, as bandeiras estão cobertas de musselina negra).

Oiço o violoncelo, (é o lamento de um coração jovem),
Oiço a corneta de chaves penetrando velozmente nos meus ouvidos,
Fazendo estremecer o meu ventre e o meu peito num doce espasmo.

Oiço o coro da ópera,
Ah, isto sim, é música - isto está em harmonia comigo.

Grandiosa e fresca como a criação enche-me a voz do tenor,
A órbita flexível da sua boca derrama-se e sacia-me.

Oiço a perfeita soprano (que vale o meu canto comparado com o seu?)
A orquestra conduz-me em círculos mais largos que os de Urano,
Desperta-me ardores de que nunca suspeitara,
Faz-me navegar, tocar águas com os pés nus, as ondas que os lambem
indolentemente,
O granizo bate-me com toda a fúria, perco o ânimo,
Mergulho na doce morfina, estrangulam-me os falsos sinais da morte,
Por fim, de novo me ergo para sentir o enigma dos enigmas,
Isso a que chamamos Ser.


Walt Whitman
in Canto de Mim Mesmo
Assírio & Alvim, 1999