
sábado, 14 de junho de 2008
Pensamento zen

sexta-feira, 13 de junho de 2008
Acorda, Caeiro !
que ver só coisas é banal:
melhor é ver miúdas
a bailarem nuas no arraial !
E um copo na tasca do TiZé à saúde do Pessoa, a ver se na próxima encadernação come mesmo a Ofélia e manda a melancolia às urtigas ! Fiz este voto ontem à noite com a moeda que acertei na bilha quebrada do Santo António e por isso se o não cumpres, ó Santinho, levas porrada ! Palavra de Manuelinho, Doutorado em lesmas e Portugalidade. Topas !?
Arte de ser esquecida
ou do esquecimento
Não sei
onde deixei os meus óculos
Ne m'oublie pas
o b.i e as chaves de casa
também não encontro
forget-me-not
as próprias palavras às vezes
vêm já esquecidas
Vergißmeinnicht
escarecidas
de amor
Neforgesumino
já não sei. A ciência findou.
Forglemmigej
Parece que as tuas flores
são azuis
Nontiscordardimé
e não eram essas que eu
ontem buscara?
Niezapominajka
Não há tanta poesia nas flores
Gleym-mér-ei
quantas flores na poesia.
Nezábudky
de tudo me esqueço
no-me-olvides
alma alzheimica do penar
Незабудки
sem cura, com a
eternidade à espera
Neužmirštuolės
….
Μη με λησμονείς
do verso me fiz esquecida
勿忘草" ( wù wàng cǎo)
cão azul à soleira da minha nova língua
물망초 (mul mang cho )
eu mula, esquecida da parição
勿忘草 (Wasurenagusa)
nas estações da chuva
זכריני (Zichrini)
conventual sacarinagem
კესანე (?)
breve alegria que a poesia me faz.
Nefelejcs
Talvez seja mesmo das flores
Unutma Beni
as do mal, as do último bem
Lule-mos-me-harro
que me desformam em barro
Pomněnka
terracotta férrea do sonhar.
Linguagem e Poesia

Carta a Fernando Pessoa
Fernando,
Não nasci pelo Ar, como tu, mas pelo Fogo,
o teu sopro atiça-me as chamas; a mínima presença tua me arrepia.
Não te venho fazer perguntas, de ti me falam claramente, de forma que não te será estranha, os teus versos e pensamentos, mesmo se os não alcanço ou percorro como eles a ti. Tu existes muito acima do que escreves, embora não possa dizer quem me és no que foste e serás, neste mundo e em tantos outros que são igualmente irresistíveis e insondáveis, e quem sabe a partir de que ponto inexistentes.
Venho dizer-te como te conheci - conheci-te muito antes de saber quem eras, tinha 12 anos. Tenho ainda as cópias de poemas teus que o meu professor de português compilou. Tinha 12 anos, meu deus, não me lembro de ter sentido nada, aliás, só me lembro de ter sentido alguma coisa quando me senti sozinha, que foi finalmente uma assunção, ou melhor, um despertar. Mais adiante, aos 18 anos, um grande acontecimento! ao folhear e ler poemas teus num livro oferecido: entro na Tabacaria (para comprar tabaco?)
“Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.”
Estas quatro primeiras linhas marcam o milagre da tua aparição (acontecem-me muitos milagres assim, pessoas que me aparecem). Recordo que senti uma intensa irmandade com a tua alma, espanto e abalo profundos. Estes versos e os seguintes, todos, trouxeram-me emoções em cadências mutáveis, e torrenciais pela força, de anseio e aperto, de grito e mudez, de paz e loucura, de fazer e desfazer, a ouvir-te, tão rude e sensível, glorioso e desesperado, e tão simples. A janela, a casa e a rua, tu a veres, a imaginares, e a ferires, tu a seres triste, real e distante, sem camisa, e eu também, para um culminar e imortal abandono num universo reconstruído sem ideal nem esperança.
Tenho percorrido a Tabacaria à medida do viver e encontrado coisas e dimensões novas e reencontros. Aqueles quatro versos são uma transcendência. Junto-lhes lágrimas, mais e mais, também novas e reencontradas, versos elas próprias, por tudo. São lágrimas de amor, também por ti, meu supremíssimo. Sim. Sim…
quinta-feira, 12 de junho de 2008
quem vem manjericar?
na minha infância
irei pelas veredas de não ter que sim
e matarei a sede na fonte da aldeia onde vivi de férias
quando era criança
nunca lá estive com sede
e a sua água refresca-me todas as sedes
na crepitação repentina de só querer o sol e o aroma das flores
quando não tenho o que fazer com o corpo amarrado à secura dos afazeres
caio em mim com estrondo até os ossos se me sentirem rubros à beira de se entornarem pelo chão
não há meio de derrotar a possibilidade de me querer alado
talvez na minha infância poderei ter sido isso mesmo que se escorre por entre a aridez dos dias
talvez aí já não faça sentido querer ser com esta ou aquela maneira de ser
talvez
e a vida pode bem estar nas coisas pequenas como que em estado de fuga mas à espera que eu não me perca
com esta mania de querer dizer tudo
a tentar agarrar o que não pode dizer-se com o visgo untuoso das palavras rogatórias
pobre maneira de ser indigente
mais vale sê-lo sem que isso signifique que me falta muita coisa
perdido para que sim
na minha infância
O humano em busca do Paraíso. Mas o que é o Paraíso? Uma questão a que não tento responder neste post
Um filme: "Cast Away" (O Náufrago). Outro: "A guerra do fogo".
Um livro: "O velho e o mar".
Música: alguma. Na ilha, o som do mar, o vento, os pássaros, cantaria (mas sem palavras, só suspiros...).
Esqueci-me de um filme: "A praia". Acaba mal, mas é a busca do idílio. Tem o excelente tema "Porcelain", de Moby (outra referência marítima).
A propósito: alguém viu o documentário sobre os pescadores portugueses de bacalhau no Mar do Norte, por alturas do Estado Novo? Aqueles homens eram perfeitamente... loucos ou corajosos? Iam em grandes embarcações mas, uma vez chegados ao destino, desciam ao mar em pequenas barcaças, cada um na sua, e passavam horas a pescar, muitas vezes enchendo as barcaças com pesos insuportáveis pelas mesmas. Alguns chegaram mesmo a afogar-se ou a morrer de hipotermia após terem caído à água.
Não sou daquelas pessoas que dizem que não viveriam sem mar, porque o ser humano adapta-se, com tempo. Mas não deixo de dizer que o mar é uma visão não sei se libertadora se despoletadora de memórias longínquas. As referências são inúmeras. "At first flash of Eden we race down to the sea", The Doors, "Under water where thoughts can breathe easily/ far away you were made in a sea", Red Hot Chili Peppers. Para não falar nas portuguesas: "Canção do mar", "Remar, remar", etc.
Parvoíces minhas
Yes - Soon
Não tenho palavras que descrevam esta música, a não ser que me transporta numa espécie de viagem cósmica pelos confins ou pelo melhor da existência.
Antiquíssima
santa e puta, cega e louca.
Amo todos os homens:
seus falos inundam-me a boca.
Mulheres também consagro
no vórtice da língua em espiral:
mães, filhas, anciãs,
a todas devota abro
num sacro furor divinal.
Mais que tudo amo Deus,
de meus filhos o derradeiro:
dele o mundo gero
e a ilusão o faz primeiro.
Sempre a todos e tudo toda me dou.
Transmudo infernos em jardins
num baile de ancas voluptuosas,
seios agudos, grutas sem confins.
Quem em mim entra jamais me esquece,
íntima estranheza o abraça:
não mais algo ou alguém se conhece,
animal, homem, deus trespassa.
Quando ouvires do fundo das coisas
um choro subir como um riso infinito,
prepara-te, ó bem-aventurado,
pois por mim escolhido és
para súbito romper o destino
num pasmo, numa fúria, num grito !
quarta-feira, 11 de junho de 2008
Relatório do encontro do blog
As moças traziam plumas que serviam de leque que abanavam com toda a elegância de quem tem leques ainda que a brisa dos campos elísios soprasse forte e duradoiramente.
Os homens olhavam para o relógio e perguntavam com impaciência quando é que o encontro começava.
Eu, enquanto gnomo da floresta, mantive-me atrás dos arbustos e ainda vi lá o obscuro com uns binóculos a ver se se inspirava na Guida para uns poemas. A Guida lá estava, encalorada fazendo bolas de sabão. Avistei também a Joana Sousa que pintou nas pernas, para a ocasião, pontos cardeais pretos de orientação.
Era Verão, tinha de se ter cuidado com a insolação mas não, os serpentes esperavam ao sol, as damas roçavam os volumes dos vestidos uns nos outros e o encontro nunca mais começava.
Eu, como sou inteligente, mantive-me à sombra. Eram vinte para as oito e o encontro nunca mais começava. Começavam já a reclamar da organização, que só mesmo neste país.
O Maltez, habituado a esperar, sentou-se na relva com a Anita Silva e liam um livro que tinham lá comprado na Editora Viver a Vida, Pensar a Morte. O Paulo Feitais mais o Paulo Borges tinham trazido cada um o seu tabuleiro de xadrez e jogavam juntos algumas partidas, enquanto o xadrez restante foi oferecido à Luiza Dunas e à Isabel Santiago que preferiram olhar para os passarinhos.
O Mauelinho não foi avistado, O Casto Severo também não: não se pode avistar tudo ao mesmo tempo.
Tocava o sino das oito quando chegavam o Luar Azul vestido de saltimbanco acompanhado por Ana Moreira que envergava um fabuloso vestido Dior da colecção mais recente.
A partir das oito e meia é proibido estar nos arbustos, de modo que saí no momento exacto em que os serpentes entravam para uma tenda branca. Dirigi-me para lá mas os seguranças não permitiram a entrada, não se podia entrar após o começo do encontro. Foi por um triz.
As luzes da tenda apagaram-se, ouviu-se ainda "Que o encontro comece!". A dúvida, se estariam a jogar à cabra-cega ou se foram feitos reféns de extraterrestres no que afinal seria uma nave em vez de tenda, mantém-se.
A Roda

A RODA
Habito numa roda.
Dou-me conta disso
segundo as árvores.
Sempre que olho pela janela
vejo-as:
quando, as folhas no céu,
quando, as folhas na terra.
E segundo os pássaros,
que voam
com uma asa para o sul
e com uma asa para o norte.
E segundo o sol,
que me nasce
hoje no olho esquerdo,
amanhã no direito.
E segundo eu,
que ora sou,
ora não sou mais.
Marin Sorescu
"Os Lusíadas" e a "Mensagem" como textos iniciáticos
E se, em vez de concebermos os Sete Mares como Sete Mares da matéria, os concebêssemos comos os Sete Mares interiores a cada um de nós?
Talvez encontrássemos a forma de afastar a modorra e o negrume que parece cobrir não só as ruas das nossas cidades, mas também as nossas mentes e as nossas vidas.
Império da Eterna Criança (corrigido)
O ser humano, ao desenvolver-se, confunde-se, pensando que o seu estado natural é estar desperto para o exterior, mas a sua origem é o sono. Cada ser humano nasce da união do sono com o sonho, opostos entre si, por isso, ao viver, dorme apenas, depois sonha durante o sono, reproduzindo o período embrionário, seguido então da transição do sonho interior para o exterior, como no nascimento, ou seja, a vida do homem reproduz, a cada dia, a própria criação.
A humanidade pensa que vive acordada mas não dá conta que para despertar a mente precisa de sonhar, ou melhor, está a sonhar que é, mas como não se lembra disso, vive a sério o próprio sonho, assim, adormece, como que regressa ao estado de sono por não saber que se sonha – como se não sabe que se dorme durante o sono.
O homem sente-se sujeito mas vive num mundo de objectos, representa-se pela máscara do corpo, finge ser-se através do que não é: matéria. Apesar disto, o homem não contempla o simbolismo da vida, mais, esquece que vive submetido ao tempo, o que só lhe permite estar a ser mas nunca chega a ser o que é, porque sempre muda. Ao definir-se este mundo como real vive-se uma realidade irreal, porque realidade é objectividade, pelo que para se viver a vida só como real o homem deveria não (se) pensar, visto não ser mais que um objecto.
Não passamos de simples actores no teatro do mundo, onde se entrecruzam peças que continuamente se iniciam e terminam. Cada homem participa num espectáculo que, por ser passageiro, deveria ser representado de modo lúdico. No entanto, os actores levam a sério aquilo que tem componente de brincadeira, esquecem-se que apenas estão a figurar vidas que, ao cair do pano, findam. Embrulharam-se tanto nos seus papéis que se confundem com eles, já não sabem quem são nem aproveitam plenamente esta imitação da vida.
Afortunadamente, a criança acorda o princípio com o fim, une dentro e fora, pois tem ainda presente que o que está dentro gera o que está fora. O adulto olha para o que está fora desligando o fim do princípio.
Portugal “está dormindo” (segundo Pessoa) porque se esqueceu que sonha, está adormecido para o sonho que está a viver pois pensa estar a viver uma realidade separada do sonho, ou seja, ilusória.
O português sente-se profundamente o eterno menino, que está em todo o lado e não é em nenhum, não é nada e pode ser tudo, sonha o invisível, continua próximo da origem, o que lhe concede a capacidade de fazer renascer a humanidade para o sonho em que vive desde sempre e que ficou escondido nas asas do tempo e nas sombras da matéria.
É a Hora do povo Luso acordar este mundo iluso com o mar dos sonhos em que vive!
É a Aurora do V Império!
Império da Eterna Criança
P.S.: E aí sim, deverá escrever-se homem com "H" grande, porque então sim, ele poderá integrar o "H" ao seu sono: viver o sonHo.
terça-feira, 10 de junho de 2008
A Aurora Adormecida
O despertar da mente ocorre pela passagem do sono para o sonho, o do corpo ocorre do sonho interior para o exterior.
Assumindo que é a mente que move o corpo, como separar o seu despertar do despertar do corpo? Como pode despertar o corpo sem que a mente continue desperta: sonhando?
Como se pode valorizar mais o despertar do corpo do que o da mente?
Quando a mente se engana a si mesma, não se apercebendo que está desperta pelo sonho, em que estado se encontra ela? Está desperta ou adormecida pelo próprio sonho?
Quando não se entende que se sonha - durante toda a vida, adormece-se (e sonha-se dentro do próprio sonho), é como regressar ao sono, visto não se saber estar a sonhar, assim como não se sabe estar a dormir - apenas após esse estado. Quando se entende que se sonha, desperta-se, ou melhor, acorda-se*, sabendo-se estar a viver um sonho.
ACORDAR* NÃO É DESPERTAR O CORPO, É ACORDAR O CORPO COM O DESPERTAR DA MENTE: O SONHO.
|*lembrar, estar ou pôr de acordo.|
"Ega, em suma, concordava. Do que ele principalmente se convencera, nesses estreitos anos de vida, era da inutilidade de todo o esforço. Não valia a pena dar um passo para alcançar coisa alguma na terra - porque tudo se resolve, como já ensinara o sábio do Eclesiastes, em desilusão e poeira.
- Se me dissessem que ali em baixo estava uma fortuna (...) à minha espera, (...) se eu para lá corresse, eu não apressava o passo... Não! Não saía deste passinho lento, prudente, correcto, seguro, que é o único que se deve ter na vida.
- Nem eu! - acudiu Carlos com uma convicção decisiva.
E ambos retardaram o passo, descendo para a rampa de Santos, como se aquele fosse em verdade o caminho da vida, onde eles, certos de só encontrar ao fim desilusão e poeira, não devessem jamais avançar senão com lentidão e desdém. (...) De repente Carlos teve um largo gesto de contrariedade:
- Que ferro! E eu que vinha desde Paris com este apetite! Esqueci-me de mandar fazer hoje para o jantar um grande prato de paio com ervilhas.
E agora já era tarde, lembrou Ega. Então Carlos, até aí esquecido em memórias do passado e sínteses da existência, pareceu ter inesperadamente consciência da noite que caíra, dos candeeiros acesos. A um bico de gás tirou o relógio. Eram seis e um quarto!
- Oh, diabo!... E eu que disse ao Vilaça e aos rapazes para estarem no Bragança pontualmente às seis! Não aparecer por aí uma tipóia!...
- Espera! - exclamou Ega - Lá vem um «americano», ainda o apanhamos.
- Ainda o apanhamos! Os dois amigos lançaram o passo, largamente. E Carlos, que arrojara o charuto, ia dizendo na aragem fina e fria que lhes cortava a face:
- Que raiva ter esquecido o paiozinho! Enfim, acabou-se. Ao menos assentamos a teoria definitiva da existência. Com efeito, não vale a pena fazer um esforço, correr com ânsia para coisa alguma...
Ega, ao lado, ajuntava, ofegante, atirando as pernas magras:
- Nem para o amor, nem para a glória, nem para o dinheiro, nem para o poder...
A lanterna vermelha do «americano», ao longe, no escuro, parara. E foi em Carlos e em João da Ega uma esperança, outro esforço:
- Ainda o apanhamos!
- Ainda o apanhamos!
De novo a lanterna deslizou, e fugiu. Então, para apanhar o «americano», os dois amigos romperam a correr desesperadamente pela rampa de Santos e pelo Aterro, sob a primeira claridade do luar que subia."
Eça de Queiroz, "Os Maias"
- A vida é sonho!
- Sim, mas já se sabe isso.
Falando agora da realidade...
Onde é que eu já vi-vi isto?... - não me refiro, certamente, à teoria, mas ao desacordo entre teoria e prática...
E já passou dos Mil
INEVITÁVEL

O Verão cria sombras de nostalgia
embebida pela cítara
em mangas de camisa,
daqueles tempos em que era tudo a brincar.
As épocas que passam subtis,
mal delimeadas,
sem motivo de maior,
numa suave liberdade perdida
à deriva...
O prazer de fazer algo pela primeira vez
não embrutecido pela rotina da vida.
A certa altura
não passa duma reposição melancólica
do que foi a nossa juventude,
daqueles últimos dias de aulas
telefonava-se aos amigos e
estávamos vivos;
explorando as ruas da cidade,
esquecendo a saudade,
conversava-se vagamente
sobre o que nunca interessou.
Como antigamente,
como enxames de vespas aprendendo a dançar
sugando o sangue do dia até ao auge,
sem limites.
Nunca se tinha razão (tão novo)
e era tão bom (desde que o espírito não desfaleça)
foram os melhores tempos,
partilhando as primeiras cervejas
imaginámos
um futuro que não era suposto chegar,
perdeu-se a benção da ignorância.
Sofres agora as consequências
do que deixaste andar.
Os pais deixaram de se preocupar,
sentes um estúpido desejo de os beijar,
os galos ficaram roucos de cantar,
já não se sentem obrigados a acordar;
já ninguém te arranca
do inviolável tecido dos lençóis
gritando que estás atrasado,
nem te examina os olhos
refutando que estás drogado.
Nunca mais
pudeste gozar com a cara aborrecida
dos teus amigos de turma
que já nem reconhecerias,
(com quem muito viveste
o quê? Não te lembras
mas sabes que fez sentido).
A adrenalina de quebrar as regras,
as escolhas impostas,
as experiências que nos ensinaram a recuperar,
a ver o óbvio de outro modo,
no conforto do hábito no contrabaixo do tempo
pessoas que se perderam,
oportunidades que morreram,
sempre os remorsos que pressistem e
mais uns quantos anos que passam.
Nada a fazer,
como aproveitar?
Mais tarde serás tu a reprimir novos escândalos
naquela íris da expectativa
inculcando que não se é optimista
para sempre.
As memórias prevalecem,
acordadas ou em coma,
reconhecendo o passado,
chorando o futuro,
sabendo do inevitável negro percorrer das Primaveras,
suspirando tantos translúcidos sorrisos do que não voltará a ser
porque adormeceste
ou viajaste pelo mundo até perderes o folêgo.
in S&M (sem-nome & mal-dito) 2002
a ler:
- glândula pineal
a ver:
- todos os videos deste senhor www.youtube.com/soundlessdawn.com
Camões não voltaria hoje a escrever isto ?
Destemperada e a voz enrouquecida;
E não do canto, mas de ver que venho
Cantar a gente surda e endurecida.
O favor com que mais se acende o engenho,
Não no dá a Pátria, não, que está metida
No gosto da cobiça e na rudeza
Duma austera, apagada e vil tristeza"
- Luís de Camões, Os Lusíadas, X, 145.
Até mais logo, serpentinas e serpentinos!
Dia de Portugal, do Mar e do Sonho por Haver
Hoje, 10 de Junho, na Feira do Livro: Lançamento da "Nova Águia", encontro da "Serpente Emplumada" e assinaturas falsas
Convido-vos para o lançamento da Nova Águia, hoje, 10 de Junho, pelas 18 h, no Auditório da Feira do Livro, com a presença de Adriano Moreira, e para o encontro e jantar dos colaboradores e leitores do blogue Serpente Emplumada.
Estarei das 16 às 18 h no stand da Ésquilo, para autografar Línguas de Fogo. Paixão, Morte e Iluminação de Agostinho da Silva, Folia. Mistério de uma Noite de Pentecostes e O Buda e o Budismo no Ocidente e na Cultura Portuguesa (com assinaturas falsas, claro).
Apareçam !
Abraços
Paulo
segunda-feira, 9 de junho de 2008
A humanidade "Alien" (corrigido)
(Não, não é mais um artigo, é só a correcção irrelevante de um antigo).
Censurados - Não
Uma grande banda punk portuguesa, talvez a maior de sempre, embora só tenham tocado durante 3 ou 4 anos, não sei bem.
A natural experiência do que "é"
El toque no es de un objeto, no es de un ob-jectum. El objecto es objecto de conocimiento. Acaso se podría decir que ob-jectum no es lo mismo que Gegenstand, aquello que se nos presenta delante y que ofrece una cierta resistencia a nuestro toque con locual nos testimonia su ek-sistencia. Pero todo esto son operaciones de la mente; operaciones sobre un datum, un algo dado, una existencia que nos ofrece resistencias y con ello no nos permite ir más allá. La experiencia se detiene en el datum.
Lo que se toca, el dato inmediato es la realidad. Pero cuando nos percatamos del toque, esto es, cuando somos conscientes de él, lo hacemos en virtud de uno de los tres órganos, o simplemente ventanas que al abrirse nos permitem ver la luminosidad del mundo. Es la clásica y tradicional noción de los tres ojos: el semsible, el intelectual y el místico [...]. Pero la realidad es una, la podemos llamar el Ser si así preferimos. Cuando interpretamos la experiencia como perteneciente a nuestra sensualidad, como "excitando" nuestros sentidos, la llamamos realidad material; cuando la vemos perteneciendo al orden ideal la llamamos intelectual; y cuando nos damos cuenta que transciende ambas la llamamos mística (entre otras palabras). [...]
Pues bien, cuando la experiencia, cuando el toque con la realidad no se resquebraja o no se refracta en nuestro prisma triádico, acaso porque nuestro ser no está resquebrajado, esto es, se encuentra en paz consigo mismo y en armonía con el todo, entonces somos conscientes que tocamos la realidad, que tocamos Dios - rüeren (tocar), dice Meister Eckhart (Predigt 101)" - Raimon Pannikar, Iconos del Misterio. La experiencia de Dios, Barcelona, Ediciones Península, 2001, p.18.
Onde Pannikar fala de "Deus", "realidade" e "Ser" eu diria vacuidade. Onde fala de "tocar" eu diria "reconhecer" / "fruir" ou, simplesmente, "experienciar". O que importa é que isso é a mais natural e constante das experiências, como a do ar que se respira. São as distracções em que andamos, ocupando a mente com os múltiplos objectos materiais e ideais que ela toma por reais e destaca desta experiência primordial e total, que fazem que seja necessário um esforço para regressar a ela, que surge então como algo difícil, singular e raro. O mais simples e comum, a cada instante presente, passa assim por ser o mais extraordinário, de que quase todos duvidam. Somos como peixes que duvidassem da realidade do oceano.
Baron Charles de Montesquieu
Citado por "Klatuu o Embuçado em novaaguia.blogspot.com
Afirmativo disse ...
Sendo assim, o que faremos? Procurar o despertar apenas dentro das nossas mentes e deixar que os seres mais adormecidos continuem a nos governar e a restringir cada vez mais a hipótese de termos disponibilidade mental, afetiva e material para realmente despertarmos nesta vida e nesta dimensão?
Resignarmo-nos a sermos peças de engrenagem da "Matrix" enquanto buscamos voos infinitos com as nossas palavras e dento das nossas cabeças?
"A metafísica é o remorso do homem da culpa de haver nascido" - Sampaio Bruno, O Brasil Mental
[...]
Sem errância e distracção profundas, cada humano estaria em sobressalto desde a manhã de cada dia até à noite, e da infância até à morte, tão grande é o abismo junto do qual caminha. A ideia de Deus, e com ela a concessão da sua existência, atributos e exorbitantes poderes, permite que decline o estranhamento do Eu perante a Coisa, e o sujeito, liberto da aflição de se saber algures, recaia no estado de indiferente coexistência com o mundo. O mesmo acontece com os mitos fundadores, no seu poder curarizante (apesar de ingénuo recorte arcaico) da angústia da existência" - António Vieira, Improvisações sobre a Ideia de Deus, Lisboa, & etc, 2005, pp.7 e 15.
Não concordo plenamente com este interessante pensador (pois não me parece que seja clarividente o olhar que separa sujeito e objecto), mas interessa-me que veja o surgimento da ideia de Deus como um exorcismo e uma pacificação do estranhamento do eu perante o estar-aí perante o mundo. Admito que se implique aí a origem da ideia de Deus, mas também constato que a palavra "Deus" designa muitas vezes o inominável que se pressente ou recorda "antes" do suposto olhar "clarividente e crítico", antes do "pecado" ou "ilusão" criadora (Pascoaes) que nos faz nascer como alguém perante algo, cindindo-nos do Abismo pré-originário. O impulso metafísico pode ser então compreendido como assunção do "sobressalto" que nos resgata da "errância e distracção profundas" da mundaneidade soporífera e entediante, como a saudade vertical que é a contrapartida positiva do "remorso" da "culpa" de (crermos) estar aqui, sujeitos à factualidade. Por ela se revela que "a cada instante estamos a tempo de nunca haver nascido".
O sonho da realidade ou a realidade do sonho
Não podendo viver a vida como sonho, o homem continua a sonhar, mas neste caso não irá sonhar sonhos mas "realidades": sonhará o sonho da realidade - em vez de viver a realidade do sonho.
Todo o viver do homem é sonhar, porque nada se mantém, pois mesmo definindo a vida como real ela continua a ser sonho...
Só redefinindo a vida como sonho o homem vive, pois deixa de ter de sonhar o que não existe - a realidade, tornando-se livre para viver o que existe - o sonho.
P.S.: É desta que me excomungam... :P
O nascimento do sonho, do homem
A criação humana é assim reproduzida a cada dia, o sonhar a dormir é a gestação, o acordar -para fora- é o nascimento.
P.S.: Perdão, não consigo conter as minhas alucinações (lúcidas?).
domingo, 8 de junho de 2008
pergunta
*
Na cela onde medito,
Erodindo-se a vida,
Recordo, e deixo escrito
O enigma da partida.
A própria situação
Em que me encontro agora
É de luz e prisão,
É de mágoa e de glória.
O respirar é brando
E revulsivo o olhar —
Ainda vislumbrando
Perigos sem lugar.
A terra que murmura
Abraçando os sinais
De uma noite escura,
Esfuma-se no cais...
Tudo se depura.
Sobe a voz ao vento
E trémula, insegura –
Na canção do tempo
O silêncio escoa –
A boca se esvazia
E — leve — a coroa
De espinhos caída.
O som de uma pluma,
Nem tanto, falava,
Arcaico, e nenhuma
Palavra se escutava.
Contemplo-me, calmo,
A respirar calado.
Ouço-me, sossegado:
Já não posso dar-me...
E, porém, a luz
Que diviso agora
Nem sequer reduz
A beleza da hora.
Vejo a longa sala
Com as almas dentro:
Ora ocas de gala,
Ora em pensamento...
E porém o peso
Que me fecha os olhos
Não o sinto ou penso:
Pára-nos, e foge-nos.
Cinzas do apagado
Fogo se atearam
E é só luz a chama
Do espírito no ar:
Já não anda cego
O navio, fica
Vazio; surpreso,
O enigma não
Se explica.
O lábio está preso
À porta fechada;
A cela onde rezo
Esfria, abandonada.
Mas quem é que fala
Commigo e, ao sê-lo,
Porque não me cala?
Porque vou sabê-lo?
...
Depois era o céu
Límpido do sul
Delido no seu
Infinito azul.O regresso à infância
O Inteiro
A Pausa do Poema

Ao limite do verso,
Do verbo sem limite
Ao limiar do sonho.
Seladas as páginas
Dos versos selados
Dobram a folha dos dias
Pelo vinco das horas.
Sagradas, as chaves,
Fecham o silêncio.
Amanhã o dia florirá
De ausências,
De silêncios e de velas.
Onde a palavra cresce
Um louco fala só
E um livro aberto
Rondará de silêncio
O pó fino e branco
De uma vida…
Rezo como se cantasse
E uma oração bastasseà minha voz
Para ser antes de tudo
A límpida paisagem
Deste céu que me cobre.
E o amor? e a boca?
Que limite buscará
O beijo e a forma?
O lábio, o arco, a corda,
O ouro e o mel?
Quem o irá beber
À luz das chamas,
Esse chão de palavras?
Quem o irá regar
Quando a hora for sulco?
Desafio
A proliferação golémica
sábado, 7 de junho de 2008
goverment is just anothet way to say: BETTER THAN YOU! (fascism you can vote for)

É nessas alturas que perfilo hologramas
interiorizando toda a magnificiência de
permeio calibre, como cera extroVertida
acrescentamo-nos aos electrões visíveis
pouco preocupados com dietas empinadas,
esbrachejam pelo assalto à memóriarreia
seleccionadora da imaginação a esquecer.
Mais importante que minha morte é
amamentar líbidos intelectuais a serem-
-vivos, pois nem uniformes nem rugas
têm direito de ameaçar empolgamentos
instântaneos por mexer em vidros embaciados,
uma migalhinha de 2c-B faria abrir teu troar
amarrado aos decertos riscos do mau-senso.
Talvez terror às vezes demais para neuróticos
que nunca enfrentaram prendas com pesadelos,
não entrem em iliteracia porque vai passar e
custar a adormecer para depois alterares o
que viste cego, cerziu-se cupidamente, sem
arado ceifaste contendas galáctias no anelar e a
mobília aparenta agora estar confusa, cansada
do som cerebral amordaçado ao corpo aflito e
abraçado à sala-de-convívio-no-ar-livre-purificado,
arranhado-rectângulo, se insististe em pensar Nisso.
Sou alguém sem nome, irreconhecível finalmente,
desprendido dos lamirés de latoeiros em estendal
sujeitados a rastrear máscaras demonstrativas de
impulsos nas comédias de reforço que padecemos,
ante o imperialismo esteróide, matamo-nos e
ressuscitamos condecorados de dançarinos mortos,
mas bravos, insignificantes asteróides neo-junkies.
Seja coberto de pulmicort, lama, sabão ou amaciAdor
aceito descobrir pelo método metafísico a euforia
que flutua em ângulos redondos, sem relógio
nem impostos, ai como vos adoro contemplar
displicentes estopinhas, fariseus das flores não
colhidas, vocês suportam acontecer e penhorar,
susceptíveis a contradizeres que confragem
os ensejos por doçuras em surdina e sem crédito,
nada é obrigatório mas vais sentindo os trejeitos.
À margem da alvenaria mastigamos vãs vagens
provenientes da loucura não tendenciada a seguir,
é sua propriedade ser influenciada pelo pingar do
algeroz que funciona como farol e massaja a nuca,
é ser adobe que não afunda, boiando pelas paisagens
até às 7maravilhas que cantam, englobam e aquecem
mãos laser de plenitude bertacarbolina, parece não
ter consistência porque vive do oxigénio que nos
atravessa e aponta para o fio invísivel que seremos.
in Quimicoterapia (algures em nenhures deitado a caminhar para onde disserem que estaremos mais inconscientemente completos ou vice-versa)
2004
Muse HAARP - Intro + Knights of Cydonia (Wembley Stadium)
O que acham desta música, deste espectáculo? Por mim, adoro, arrepia-me! A melhor banda Rock da actualidade? Penso que sim. Simplesmente... épico! Palavras para quê? Ouçamo-los vezes e vezes sem conta! Ora aqui está um pedaço da minha religiosidade.
O sublinhado
P.S.: Convidaram-me... agora aguentem-me... :) até quando quiserem-puderem.
"Agostinho pensa através do sonho e sonha através do pensamento." G. Gil
Deus cede, o homem pensa, a obra morre.
"Não existimos mais que os nossos sonhos."
Teixeira de Pascoaes
Por mais que pareça um sonho inconsequente, a selecção de futebol retoma esse grande sonho de união que nos vive dentro, reconheçamo-lo a partir dela e deixemos que a Águia voe mais alto pelo sonho, soltemos o instinto que torna o instante infinito;
que seja este sonho a mãe e o despertar, para outro sonho maior, o filho.
O símbolo da união (Federação Portuguesa da Fraternidade? - sim, é sonho; o que não é?):
Assuntos vários
Para dizer a verdade, nem diria que de certa forma, mas que estou completamente perdido no mundo.
Não que me sinta perdido nas tarefas diárias, de outro modo não funcionava.
Mas, se paro para pensar, logo a dúvida se instala.
O que devo fazer? Como viver?
Não sei, safa-te, orienta-te, sobrevive.
A necessidade e mesmo o seu preliminar, a consciência da necessidade, ensina.
A primeira leva à acção, a segunda à imaginação da acção.
Decisões práticas e decisões fictícias.
Aprendi, nos últimos dias, que não só vence o inteligente ou forte, mas, também, o dotado de qualidades morais.
O corajoso, por exemplo.
O pescador de caranguejo real no Estreito de Bering, o trabalhador numa plataforma de petróleo, algures no oceano.
Quem arrisca.
Quem arrisca pode perder, mas... perderá?
Que é mais importante na vida? Uma consciência tranquila. Será?
Agir segundo as necessidades e sonhos, para os satisfazer.
A sua satisfação é a nossa satisfação.
Penso que é altura de os portugueses se fazerem de novo ao mar.
A vida, no nosso país, é, em geral, miserável.
Os ordenados não chegam para pagar as contas.
Basta consultar os jornais para se saber que empregos há.
Tirando os gestores e economistas que no Expresso tanto são requisitados, a maioria dos empregos são mal remunerados, por exemplo em call-centers ou cafés, ou apenas à comissão, por exemplo comerciais.
Já não trabalhamos para viver, vivemos para trabalhar.
Porque quando deixamos de trabalhar, morremos. De velhos, se lá chegarmos.
Portugal não tem futuro.
Daqui a uns anos será um grande lar, para aqueles que tenham regressado a tempo dos oceanos que arduamente navegaram ao longo das suas vidas.
A maioria dos nossos políticos metem-me nojo.
José Sócrates mete-me nojo.
Quando um Primeiro-Ministro faz ouvidos moucos às manifestações da população, vivemos numa ditadura: podem berrar, gritar... não ouço, não me interessa, quero, posso e mando.
Quando os ministros deste Governo se dizem socialistas, só não me rio devido à conjuntura.
O partido socialista, hoje, é um grupo de cagões, especialmente o rapaz que aparece no programa "Corredor do poder", às quintas-feiras, na RTP1.
Esse rapaz concorda sempre com tudo o que o Governo faz, com tudo o que o partido socialista faz.
É isso a lealdade institucional? Não ter cérebro?
Não querer ver? Fingir que não se vê? "Está tudo bem, estamos a fazer tudo bem, se algo está mal, é a conjuntura".
Os partidos do centro são ambos maus, medíocres.
Apenas servem os interesses maioritários.
Nunca servirão o povo, porque são todos uns yes man.
A começar pelo Primeiro-Ministro, que só quer fazer figurão na Europa, embora seja o pior PM de sempre em Portugal.
O mais arrogante, autoritário e, ainda por cima, gozão - basta ouvir a sua retórica no Parlamento -, não obstante a conjuntura.
Os únicos partidos sérios são os mais radicais, à esquerda ou à direita.
Mas especialmente os da esquerda, porque o próprio PP já cheirou o poder e ambiciona, constantemente, aliar-se ao PSD, o que não acontece com o BE.
O BE só se aliará, parece-me, com alguém que tenha ideias com as quais concorde.
O PP, ao invés, aliar-se-á à menor oportunidade.
Ou seja, estão lá para o tacho.
Tal como os do PSD e do PS, exceptuando o grande Manuel Alegre, que é um homem de alma.
O PS, hoje, não é o PS. Foi tomado por uma corja arrogante, convencida, autoritária.
Metem-me nojo, não é demais referir.
Deviam ter vergonha e ir trabalhar, para que não tivessem o cu tão cheio de bombocas.
O Luís Filipe Menezes, por exemplo, é uma boa pessoa.
Isso viu-se pela forma como saiu da liderança do PSD.
Magoado. Porque estava lá com boas intenções e lixaram-no.
E quem o fez? Os senhores que se assenhoram dos partidos.
Pessoas sem emoções. Frias, calculistas, intelectuais, esquemistas, os teólogos de Feuerbach.
Pessoas que querem controlar os partidos, para controlarem a pátria.
E controlar a pátria é controlar as pessoas.
Qual o seu conceito de pessoa? Rentabilidade. Produtividade. Peças de uma máquina.
Na verdade, são grandes em Portugal, mas pequenos lá fora - até lhes fazem vénia!
Na verdade, são pequenos vassalos que nada controlam e creio que, se a população quisesse, faria uma revolução e pô-los-ia a trabalhar, já que o fruto do seu intelecto, certamente kunami, é o estado em que o país se encontra.
Parabéns, senhores políticos do centrão.
Excursões, improvisos, derivas
Olharmos naqueles olhos cuja cor desconhecemos, perdermo-nos, imaginarmos o futuro.
É contigo que quero estar.
Depois, esqueço, resfrio, regresso aos pastos inacessíveis.
Por uns tempos. Até ao próximo desencontro.
Na verdade, não tenho tido muitos, a minha existência tem sido um tanto ou quanto desértica.
E isso não me importa.
Mas isto é diferente, porque não há dois amores iguais.
O amor é sempre novo. O mesmo, mas novo.
Caminha da parte para o todo.
Primeiro reparas no corpo, depois, vagamente, no olhar, que, inconscientemente, late.
A voz, os gestos, o cheiro, até que o olhar emerge.
Como se encontrasses uma chave há muito perdida.
O pensamento esvai-se, as ondas de ternura perpassam-te da cabeça aos pés, a envolvência.
És só ela.
Não é nada de transcendente, mas o Reino Animal.
Não deixa de ser mágico. É o supremo prazer.
Não sei se é melhor ter ou querer ter uma mulher.
Naturalmente, é melhor ter-se a mulher que se quer ter.
O sexo pelo sexo é algo que não faz sentido. Só se estiver bêbedo.
Mas pergunto-me o que é o amor. Se é algo mais do que físico, ou se algo mais do que fisicalidade, ou se tem a sua génese em algo mais do que o corpo.
É que há a tendência para mistificá-lo: sexo é físico, amor é espiritual.
Sim, amor é aparentemente espiritual mas... será?
O espírito é uma imaginação, tal como a nossa própria morte o é.
O que conhecemos do espírito de uma pessoa? Nada.
Conhecemo-la fisicamente e imaginamos algo que, provavelmente, não existe.
Mesmo no sexo, o que sabemos acerca do outro? Como o sabemos? O que há?
Visões, audições, olfactos... sensações.
Olhos, olhares, gemidos de prazer... tudo físico.
Seremos mais do que os nossos corpos? Teremos almas? O que é aquilo a que se chama alma? Onde está a alma? O que queremos dizer, o que queremos/tentamos realmente referir, quando dizemos "alma"?
Sensações e pensamentos; consciência.
Alguém a sentir ou a pensar algo.
Consciência de alguém a sentir ou a pensar algo.
Alguém consciente de estar a sentir ou a pensar algo.
Consciência, abertura ao mundo, receptividade, o mundo em mim.
O mundo na minha consciência, o mundo da minha consciência, o mundo para mim.
Eu no mundo, existência, a minha passagem pelo mundo, passado, presente, futuro.
Movimento, evolução, crescimento, degradação, vida, morte, crescer, desaparecer.
Passar. O mundo é uma passagem, o mundo é uma ponte: estamos todos a passar/está tudo parado a olhar/para nada.
Que sabemos mais, senão que passamos assim e assim por este mundo, que o sentimos e nos sentimos de tal e tal modo?
Que nos posicionamos de tal e tal modo em relação à existência?
O que é o mundo, senão algo que tende para o passado? Que se torna cada vez mais impossível?
Um lugar cheio de belezas e perigos.
De prazer e dor.
Potência e impotência.
Há dias, conheci um senhor muito amistoso, voz terna, lembrando-me a do meu avô.
Já velho, aí com 70s, 70s e tais.
Emigrou, trabalhou a vida toda no estrangeiro, juntou o seu.
Voltou a Portugal, à terra. Trabalhou mais.
Finalmente, comprou o seu montezinho, construiu uma casa modesta, digna.
Seis anos depois, Parkinson.
60 anos de privações, seis anos seus.
Dá que pensar.
O que fazer?
Termino com a pergunta, é tarde, vou dormir:
Como viver?
Reflexões do momento
Não tenho Religião, mas tenho religiosidade.
É diferente.
Não creio em nada sobrenatural e não me interessa nada sobrenatural, se não para me alienar.
Alienei-me tempo demais.
Se tivesse uma Religião, seria a Arte.
Se tenho uma religiosidade, é a Arte.
Não sou grande conhecedor, confesso.
Interessam-me, sobretudo, os artistas de massas. Alguns.
É que comunicam algo transversal aos seres humanos.
Interessam-me, sobretudo, os que me/nos transportam para o Infinito.
Que nos dão a sensação do Infinito.
Destaco, de entre esses, dois (duas bandas britânicas): Coldplay e Muse.
Os primeiros num registo mais pop, os segundos, mais rock.
Ambos com um sentido grandioso, épico, os primeiros mais terrenos, os segundos, aéreos.
Na pintura, o único que me enche as medidas: Hopper.
Não sei porquê. Já li que é o pintor da solidão. Talvez.
A verdade é que sinto que entro para o sossego das suas pinturas, paisagens, vidas acontecendo.
Na literatura, nenhum me toca especialmente.
Ler é entrar na mente do escritor. Não gosto de entrar em mentes.
Gosto de estar fora da mente. No mundo. Respirar. Movimento.
De dançar, embora seja um tímido dançarino.
Com o tempo, uns parcos 28 anos de vida, aprendi a valorizar os sentimentos, as emoções.
Valorizo-os mais do que a inteligência.
Gosto especialmente de pessoas boas, eu, que, normalmente, nem me considero uma pessoa boa.
É uma grande felicidade, descobrirmos bondade no olhar de uma pessoa.
Bondade, como quando voltamos a ser crianças, quando criamos, investimos, lutamos.
Por momentos, voltamos a ser inocentes. Ela está dentro de nós.
Mas a vida faz-nos e, não sei porquê, adquirimos muitos vícios.
Tornamo-nos desconfiados, prudentes, manhosos.
Jesus tinha razão ao afirmar que devemos dar a outra face. Num sentido. Interpretativo.
Se me fazes bem, se me fazes mal, não me interessa: agirei sempre bem.
Podes pensar que me levas, mas faço-o porque quero.
Podes pensar que me dominas, eu é que me deixo dominar.
Por mim, até que até de mim me liberte.
Até...
Império do Sonho
em que mar e céu se tocam
nunca diria que para lá dela
Nova Terra houvera.
Quem olha para a vida
em que dia e noite se trocam
nunca diria que para lá dela
só o sonho reina.
O véu cega de tão claro,
o V Império do mundo
descobre que tudo
é sonho realizado.
O Poeta finge mas não consegue fingir a sério senão for a brincar...
sexta-feira, 6 de junho de 2008
A ausência
Não é que o mal do mundo lhe dê um contraste bonito, a nossa visão é que primeiramente faz ver bem e mal como puramente distintos e eles são puramente o mesmo - parte dum mesmo. O principal -voltar ao princípio- não é detectar e condenar o mal, é passar a ver o todo junto, porque só junto ele existe. O que importa mais não é o que está é o que é, ver separando é perpetuar um estado, o estado de algo altera-se através da inter-relação com as outras partes e não com o corte. Cortar o mal do seu meio, do bem, é mantê-lo "morto", é não o deixar renovar-se; porque o que o faz parecer diferente do bem é a sua própria ausência - como a noite do dia.
A criança é insensivelmente sensível, o adulto é sensivelmente insensível.
BELÌSSIMO
http://www.youtube.com/watch?v=QagnhgnCMuY&feature=related
DE ARREPIAR! Principalmente a partir de 8:12mn.
Hoje, 18-20 h, interpretação da "Mensagem", de Fernando Pessoa
Há porventura outra grandeza que nos é acessível, para além dos sucessos futebolísticos.
quinta-feira, 5 de junho de 2008
"Se há um amor puro e isento da mistura das nossas outras paixões, é aquele que está escondido no fundo do coração e que nós próprios ignoramos"
O saber-mo-nos- ocupou -e se ocupou!- o lugar da eternidade...
Quem brinca, seus males expira
Confundimo-nos com o nosso ser quando nos estamos a olhar ao espelho ou confundimos o que o outro nos fez como sendo ele próprio esse acto - que depois de feito está morto. Onde está o efémero colocamos a eternidade, pois negamos a existência de eterno mas nós somos eternidade, daí que ao olharmos o efémero, vemos eternidade - só assim o nosso ser -se re-conhece.
Já em relação à saúde e à doença, quando a doença aparece já não a substituímos como sendo saúde, ou o mal como sendo bem: não convém! A gente quer sempre ver aquilo que quer e não o que é, pudera! Já que não nos deixam sonhar ao olhar para a realidade como brincadeira, temo-nos de divertir em vê-la de pernas para o ar, senão morremos de tédio e infelicidade - e mesmo assim, não sei...
"Cinema Paraíso"
Porque é tão incrível pensar que esta vida imaginada –feita de imagens- é apenas uma fita cinematográfica?
Passamos a vida a “fazer fitas” e a ver fitas (dos outros), será assim tão inconcebível ver a própria vida como uma fita - um filme?
Cada vez que vou ao cinema, quase sempre me esqueço de mim e sinto algo inexplicável, aquela sensação de que sou algo que está para lá “deste” mim momentâneo e, ao mesmo tempo, sinto-me tão indefinida e definitivamente: Eu.
Porque nunca colocámos, de modo verdadeiro, a hipótese de que a própria vida real é também ficcionada? Se todo o universo tende para Um, tudo, no seu âmago, é Um. A realidade não tem que ultrapassar a ficção, a própria realidade É ficção: literalmente! Não crêem nisto? E como podemos nós crer tanto numa coisa que hoje existe e que “amanhã” já não existe na face da terra - aos nossos olhos ou de outros, esta nossa “aparição”, esta nossa vida material, corporal? O que é mais verdadeiro, esta terra e este corpo onde vi-vemos, ou o contínuo sentimento que vivemos dentro de nós? Como podemos acreditar tanto –ou só- numa coisa tão falível (porque perecível) como é o corpo? Como podemos não acreditar naquilo que persiste em nós, “este” indefinível sentimento?
Não importa nomear o sentimento que nos liga, importa respeitá-lo, importa cuidá-lo, viver sem esquecer que é ele o que nos faz estar mais próximos do que somos autenticamente.
Este sentimento, se não é definível, como pode viver num mundo definido como este? Como podem duas coisas contraditórias se juntarem? Se existe esse sentimento indeterminado dentro em nós, indica que há algo em nós de misterioso que não se restringe a este mundo factual. Mas não nos perdamos naquele “outro” -que vive em nós- enquanto vivemos “neste”. O fundamental é sentir que o nosso ser é tudo menos algo definitivo, portanto, o nosso ser primordial persiste para lá destas imagens. Ou melhor, de modo a valorizarmos este mundo como o fazem as crianças, os objectos desta realidade são apenas simbólicos, representam os seres como a estátua do santo que está no altar. A única diferença é que este nosso objecto -o corpo- ganhou vida através de nós. A criança também brinca com bonecos, nós também devemos brincar com bonecos, que podem ser os objectos aos quais chamamos “reais”.
O bloqueio da humanidade é sempre o de “cair na tentação” de separar o que conhece. Nada no universo é passível de estar separado, muito menos do seu oposto complementar. A realidade que vivemos é uma invenção constante. Porém, como vemos as coisas a partir da nossa mente isolada, vemo-las totalmente distintas, não conseguimos perceber que a nossa infância é, absolutamente, o modelo para toda a nossa vida adulta. As brincadeiras da infância são o exemplo do que deve ser a nossa vida. A vida é para ser jogada de ânimo leve, porque o nosso ânimo, se é puro, é leve!
quarta-feira, 4 de junho de 2008
"O amor está marcado por um mundo cujo reino teve lugar antes da desunião do nascimento"
É sempre o amor experimentado, enquanto se ignorava qual era a sua natureza, que devora os humanos.
O amor está marcado por um mundo cujo reino teve lugar antes da desunião do nascimento"
- Pascal Quignard, Les Paradisiaques. Dernier Royaume, IV, Paris, Gallimard, 2007, pp.71-72.
Humanidade decadente
O Homem pensou: "Agora não sofro, agora está tudo bem".
Faltou a chuva, descobriu Deus.
Veio a tempestade, descobriu o temor.
Apaziguou-se, resignou-se, continuando a dizer: "Agora não sofro".
Escondeu o seu sofrimento, perdeu a liberdade, começou a pensar.
Nasceu o mundo interior; deixou de viver para o mundo, idealizou-se.
O idealismo, que nasce em Parménides, é a teoria mais perniciosa de sempre.
Pessoas como Sócrates, Platão, Agostinho, Descartes, pertencem ao rol de culpados da decadência da humanidade.
O Homem desliga-se do mundo, cria fantasias irrealizáveis, morre insatisfeito, arrependido, angustiado, com o sentimento de que desperdiçou a sua vida, a oportunidade que tinha.
Perdemos a liberdade quando começámos a pensar... "E se...".
O pensamento é uma armadilha.
Os piores vícios são os mentais.
Devemos pensar apenas no seguinte: o que quero fazer da vida? Como vou fazê-lo?
De seguida, mãos à obra! Acção! Acção!
Viver: aproveitar o que o mundo dá.
Não viver: conformarmo-nos, resignarmo-nos... desistir da vida, sujeitarmo-nos à normalidade.
A normalidade é uma anormalidade.
Hoje, o ser humano não é mais do que uma caricatura de si próprio.




