O CAMINHO DA SERPENTE

"Reconhecer a verdade como verdade, e ao mesmo tempo como erro; viver os contrários, não os aceitando; sentir tudo de todas as maneiras, e não ser nada, no fim, senão o entendimento de tudo [...]".

"Ela atravessa todos os mistérios e não chega a conhecer nenhum, pois lhes conhece a ilusão e a lei. Assume formas com que, e em que, se nega, porque, como passa sem rasto recto, pode deixar o que foi, visto que verdadeiramente o não foi. Deixa a Cobra do Éden como pele largada, as formas que assume não são mais que peles que larga.
E quando, sem ter tido caminho, chega a Deus, ela, como não teve caminho, passa para além de Deus, pois chegou ali de fora"

- Fernando Pessoa, O Caminho da Serpente

Saúde, Irmãos ! É a Hora !


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quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Convolução

Inventa um trespasse
que em parte alguma te toque.
Tecida a filigrana,
ausente na forma da imobilidade
em que te vês inominável,
recrias-te nú,
despido do Universo.
Todo esse espaço onde não és,
onde a existires é dizeres
que esse ser-se não existe,
é, nesse vazio,
o mais que se te abrilhanta,
o grande nada,
onde nunca te encontrarás à tua espera.

domingo, 16 de agosto de 2009

Objectivos pessoais 2009/10

- Tirar a especialização em Filosofia e Estudos Orientais;
- Meditar e fazer retiros de meditação;
- Catequese e (possivelmente) Baptismo;
- Possivelmente participar num grupo de Estudos Bíblicos;
- Deixar de fumar (hoje, quando acabar este maço);
- Não consumir qualquer tipo de drogas;
- Tornar-me vegetariano;
- Comprar o mínimo possível.

quinta-feira, 19 de março de 2009

Seminário "O que é a vacuidade?"

Sábado, 21 de Março, das 15h às 19 h
Sede da União Budista Portuguesa
por Paulo Borges

O seminário visa introduzir à compreensão do que se designa como "vacuidade" (shunyata), noção-experiência fundamental e específica da tradição budista. Sujeita a muitos mal-entendidos, inconfundível com o mero "vazio" ou o "nada", a visão budista considera-a expressão da própria natureza primordial e última da mente e dos fenómenos, do indivíduo e do mundo. A sua compreensão e experiência conduz à extinção das causas do sofrimento - conceitos, emoções perturbadoras, karma - , à visão das coisas como são e ao desabrochar de uma sensibilidade, amor e compaixão incondicionais. Ou seja, ao Despertar.

Local: União Budista Portuguesa, Calçada da Ajuda, 246, 1.º dt.º, Lisboa
Contacto e inscrições: 21 3634363 (das 15h-21h); tlm 918728979 (deixar p. f. a mensagem com o nome e o contacto)
Email: sede@uniaobudista.pt

Indicações:Autocarros Carris 732, 729, Eléctrico 18 - sair em frente ao Jardim Botânico da Ajuda.

segunda-feira, 9 de junho de 2008

A natural experiência do que "é"

"Experiencia no es ciencia, no es episteme, no pertenece a la epistemología, sino que antes bien la funda. Experiencia es el toque que tenemos con la realidad. Y como tal toque es inmediato. La mediación viene hecha por nuestro conocimiento que interpreta el sentido de tal toque.
El toque no es de un objeto, no es de un ob-jectum. El objecto es objecto de conocimiento. Acaso se podría decir que ob-jectum no es lo mismo que Gegenstand, aquello que se nos presenta delante y que ofrece una cierta resistencia a nuestro toque con locual nos testimonia su ek-sistencia. Pero todo esto son operaciones de la mente; operaciones sobre un datum, un algo dado, una existencia que nos ofrece resistencias y con ello no nos permite ir más allá. La experiencia se detiene en el datum.
Lo que se toca, el dato inmediato es la realidad. Pero cuando nos percatamos del toque, esto es, cuando somos conscientes de él, lo hacemos en virtud de uno de los tres órganos, o simplemente ventanas que al abrirse nos permitem ver la luminosidad del mundo. Es la clásica y tradicional noción de los tres ojos: el semsible, el intelectual y el místico [...]. Pero la realidad es una, la podemos llamar el Ser si así preferimos. Cuando interpretamos la experiencia como perteneciente a nuestra sensualidad, como "excitando" nuestros sentidos, la llamamos realidad material; cuando la vemos perteneciendo al orden ideal la llamamos intelectual; y cuando nos damos cuenta que transciende ambas la llamamos mística (entre otras palabras). [...]
Pues bien, cuando la experiencia, cuando el toque con la realidad no se resquebraja o no se refracta en nuestro prisma triádico, acaso porque nuestro ser no está resquebrajado, esto es, se encuentra en paz consigo mismo y en armonía con el todo, entonces somos conscientes que tocamos la realidad, que tocamos Dios - rüeren (tocar), dice Meister Eckhart (Predigt 101)" - Raimon Pannikar, Iconos del Misterio. La experiencia de Dios, Barcelona, Ediciones Península, 2001, p.18.

Onde Pannikar fala de "Deus", "realidade" e "Ser" eu diria vacuidade. Onde fala de "tocar" eu diria "reconhecer" / "fruir" ou, simplesmente, "experienciar". O que importa é que isso é a mais natural e constante das experiências, como a do ar que se respira. São as distracções em que andamos, ocupando a mente com os múltiplos objectos materiais e ideais que ela toma por reais e destaca desta experiência primordial e total, que fazem que seja necessário um esforço para regressar a ela, que surge então como algo difícil, singular e raro. O mais simples e comum, a cada instante presente, passa assim por ser o mais extraordinário, de que quase todos duvidam. Somos como peixes que duvidassem da realidade do oceano.

terça-feira, 15 de abril de 2008

Nada não niilista e vacuidade

"Lo español y el portugués lo expresan admirablemente sin recurrir a la negación dialéctica: Nada no significa "no-Ser" sino ausencia de Ser (no nacido, non-natum, ajata en sánscrito); pero no la ausencia como una privación, como la negación de algo que debiera ser, como un aborto que aún no ha llegado a ser" [...].
La Nada no es el asat (no-Ser) de las filosofías del atman; es más bien la vacuidad de las filosofías del anatman. Esta nada es el meollo de la experiencia mística. Por algo la dimensión mística de la realidad es más connatural al buddhismo que a las filosofías del Ser - sobre todo si este último se identifica con Substancia" - Raimon Pannikar, De la Mística. Experiencia plena de la Vida, Barcelona, Herder, 2005, pp. 143-144.

"Nada", em castelhano e português, procede da expressão latina "nulla res nata" (nenhuma coisa nascida).

quarta-feira, 5 de março de 2008

Em homenagem a Maria Gabriela Llansol, na Hora da sua Vida

"Revelação no mais secreto de nós mesmos,
que nem a razão nem o sentido podem compreender,
a não ser no amor nu:
[...]

Se houvéssemos chegado a esta claridade
diante do seu rosto, vacantes e livres
de todo o modo, de toda a coisa
que se aprende, conta ou compõe,
no seio do abismo sem fundo
veríamos a luz na sua luz.

[...]

Deveis andar em grande erro
ao procurar no exterior a luz em partes,
quando ela está toda em vós e vos liberta totalmente.
Se quereis tornar-vos mestres
nesta filosofia, não vos afirmeis:
abandonai todas as coisas, convosco próprios.

Ah ! Deus, que nobreza
esta livre vacuidade,
onde o amor abandona amorosamente tudo o mais
e nada busca fora de Si mesmo,
pois que, na sua pura Unidade,
encerra a bem-aventurada eternidade"

- Hadewijch (séc. XIII), Écrits Mystiques des Béguines, Seuil, 1994, pp.205-206 (tradução do francês, aguardando a prometida tradução do neerlandês por Joana Serrado).