O CAMINHO DA SERPENTE

"Reconhecer a verdade como verdade, e ao mesmo tempo como erro; viver os contrários, não os aceitando; sentir tudo de todas as maneiras, e não ser nada, no fim, senão o entendimento de tudo [...]".

"Ela atravessa todos os mistérios e não chega a conhecer nenhum, pois lhes conhece a ilusão e a lei. Assume formas com que, e em que, se nega, porque, como passa sem rasto recto, pode deixar o que foi, visto que verdadeiramente o não foi. Deixa a Cobra do Éden como pele largada, as formas que assume não são mais que peles que larga.
E quando, sem ter tido caminho, chega a Deus, ela, como não teve caminho, passa para além de Deus, pois chegou ali de fora"

- Fernando Pessoa, O Caminho da Serpente

Saúde, Irmãos ! É a Hora !


sábado, 30 de agosto de 2008

Ainda o canto de Gabriela LLansol

Fotografia de Olivier Taugourdeau

Entrei na casa. Deixei a brisa beijar a cortina de renda e o seu reflexo no soalho mover-se devagar. A porta dava para uma terraço e o terraço para uma larga praça e a praça dava para o mar. Assim, as sílabas claras elevadas até ao terraço formavam um bailado com as nuvens que subiam até ao ouvido da casa. A cor que se desprendia das flores do chá fazia efeitos de luz no fundo da chávena fumegante. Saboreei o momento de paz e não escrevi nessa linha fumegante. Encostei o ouvido ao pensamento para ouvir a voz dos mortos. Nos dedos de Gabriela poisou uma borboleta branca, tão leve que apenas se sentiu na sombra da parede. Ouvi. No andar de baixo, o meu pai desenhava pássaros num papel minúsculo.

Maria Sarmento -2002

«Estou bem onde escrevi; estou melhor onde hei-de escrever; o presente é este movimento que se dirige para duas portas opostas e as abre, de escuro a claro, para o mesmo lugar onde já se acende a centelha que ondulará, finalmente, à mais ligeira aragem»

«Esta casa, nos meus olhos que recolhem o último detalhe com a consciência do primeiro momento mais além, fez-se sempre de uma totalidade, e muitíssimas parcelas; a totalidade era a luz, caminho envolvente quando eu descansava aqui; essa luz tinha uma individualidade física tão doce que eu não sentia nenhuma distância entre mim e o que a escrita louvava.»

Gabriela Llansol

9 comentários:

Anónimo disse...

Gostei muito Maria.

Anónimo disse...

Disse a Maria: obrigada anónimo pela sua gentil presença e por saber estar neste espaço comum. Pois sempre fui educada num preceito para mim precioso: «Os ensinamentos que recebes cá em casa, devem ser mais atentamente seguidos, quando estás fora dela.»

Anónimo disse...

Pois eu, desculpe a indelicadeza, acho este blogue completamente idiota, fui educada na franqueza em todos os sítios

Anita Silva disse...

Anónimo,

beijinho de uma idiota. Fui educada a amar tudo.

Anita Silva disse...

(excepto o nada, por impossibilidade do mesmo)

Brunhild disse...

À Trança de Penélope emprestei os meus cabelos. A ti Maria, um sorriso imenso... para um Setembro Aberto... com saudades do futuro.

Anónimo disse...

:)

Anónimo disse...

Jade disse:

há entre Gabriela Llansol e Saudades um fio invisível, como haverá entre as duas e mais pessoas deste blog.E depois anda o Jade que passeia com a Saudades nos lagos e vê as garças e a beleza invisível da Maria e do que nela se solta como luz e voz.

Anónimo disse...

Caro Anónimo (Jade disse:)

Eu também queria ser como a pedra de jade. Resistente. Que de mim se fizessem figuras, recortes, anéis. E queria que uma peça de jade feita de mim iluminasse com seu brilho verde, o sono dos irmãos. Queria levá-los às montanhas azuis que ficariam verde-esmeralda, a cor do jade imperial. E nesse fio de luz verde haveria uma fórmula simples de nos fazer seguir o rasto dos cavalos na neve. Chegaríamos tão longe que olharíamos para trás e veríamos deus a levantar a montanha com os nossos corpos em pedra para a margem do rio. Lá seríamos a pedra rasa de um silêncio cantante. A pedra-rio; a pedra eco; a nossa voz calada.

Obrigada pelas suas palavras.