O CAMINHO DA SERPENTE

"Reconhecer a verdade como verdade, e ao mesmo tempo como erro; viver os contrários, não os aceitando; sentir tudo de todas as maneiras, e não ser nada, no fim, senão o entendimento de tudo [...]".

"Ela atravessa todos os mistérios e não chega a conhecer nenhum, pois lhes conhece a ilusão e a lei. Assume formas com que, e em que, se nega, porque, como passa sem rasto recto, pode deixar o que foi, visto que verdadeiramente o não foi. Deixa a Cobra do Éden como pele largada, as formas que assume não são mais que peles que larga.
E quando, sem ter tido caminho, chega a Deus, ela, como não teve caminho, passa para além de Deus, pois chegou ali de fora"

- Fernando Pessoa, O Caminho da Serpente

Saúde, Irmãos ! É a Hora !


terça-feira, 29 de julho de 2008

O Poeta de Chagall

O poeta bebe com os olhos e vê com a boca.
Ela está virada para o silêncio do céu
E os olhos voltados para a terra.
Este é o poeta! As palavras estão em cima
No céu do seu pensamento
Os olhos são aves de voo rasante
Às coisas que a sua boca prova.
O poeta não tem porquê
E os bichos comem com ele à mesa
O Poeta tem um coração branco
E veste o azul do céu como se fosse
Marinheiro da saudade do que trinca
O poeta tem a cabeça da cor das árvores
E morde o fruto dos céus.
Assim como é, o poeta não tem alto nem baixo
É uma pluralidade de sentidos.

Vê coisas em todo o lado
E às vezes parece bêbado
Mas está sentado no céu sem se desiquibrar
Só porque encontra a cada passo
Uma palavra para os olhos
O poeta parece perdido, mas apenas
segue o seu olhar
Enquanto a sementeira dos céus
semeia astros na sua boca.

4 comentários:

Anita Silva disse...

Ah... este poema nasceu vivo! Parabéns à Mãe. ;)

Isabel Santiago disse...

Tenho um astro na boca e com ele irradio luz para quem mo ofereceu. Mais não consigo. A beleza emudece, mas alivia as almas cansadas.

Ressoou bem forte...
É a pintura mais linda do mundo...sorrisos

Paulo Feitais disse...

É Saudades!
E que todos os Poetas encontrem quem lhes dê o afago que não mata a Poesia!
Hoje, neste dia de plenitude, afundo-me e elevo-me em tudo aquilo que aqui nos deixas.
E deixo-te um poema (singelo, singelo...):

a minha vida não tem porquê nem para quê
sei-me velado por uma doçura que me embala
lá do longe de onde vêm as bençãos
que não são pedidas
e agora sussurro
e procuro a serenidade das sombras
das árvores centenárias
é que não quero sobressaltar
o tesouro que se acoita no meu peito
tão belo e tão meu o meu tesouro!
e do seu repouso
que refaz os mundos
invade-me uma força
branda
total
invencível
um dia andava perdido do mundo e de mim
e ouvi falar dos deuses que habitam as mãos dos Poetas
vi como elas são necessárias a este mundo
tão precário
e tão aparentemente vazio
mas demorei a compreender
que a hora das Graças tinha chegado à minha vida
chegou então o tempo da sementeira

Anónimo disse...

Anita,

...E que a mãe natureza guarde no seu seio os que nunca chegaram a nascer.

Isabel,

Para si, que encontre sempre alívio e repouso nas minhas pobres palavras e que elas repercutam no mais fundo de ambas as vozes e as imagens que nos tocam a alma.

Paulo,

É verdade,Paulo,a Poesia não pode morrer à míngua... O poema que me ofereces ecoa fundo em mim. Amo o que escreves e o que és. Guarda o teu tesouro no peito... Deixa-me descansar também na sombra da árvore... Deve estar-se lá tão bem...

Um abraço... Vou-me perder no mar...