O CAMINHO DA SERPENTE

"Reconhecer a verdade como verdade, e ao mesmo tempo como erro; viver os contrários, não os aceitando; sentir tudo de todas as maneiras, e não ser nada, no fim, senão o entendimento de tudo [...]".

"Ela atravessa todos os mistérios e não chega a conhecer nenhum, pois lhes conhece a ilusão e a lei. Assume formas com que, e em que, se nega, porque, como passa sem rasto recto, pode deixar o que foi, visto que verdadeiramente o não foi. Deixa a Cobra do Éden como pele largada, as formas que assume não são mais que peles que larga.
E quando, sem ter tido caminho, chega a Deus, ela, como não teve caminho, passa para além de Deus, pois chegou ali de fora"

- Fernando Pessoa, O Caminho da Serpente

Saúde, Irmãos ! É a Hora !


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quarta-feira, 18 de novembro de 2009

"E como toda a terra é sinónimo de Portugal..." ou de como ser português é ser cidadão do mundo

"[…] Tubal, como dizem todos os intérpretes daquela primeira língua (que era a hebraica) quer dizer: Orbis, et mundanus: Homem de todo o mundo; homem de todo o orbe; homem de toda a redondeza da terra. Pois de todo o mundo, de todo o orbe, de toda a redondeza da terra um homem ? Sim: porque este homem era o primeiro fundador de Portugal, era o primeiro português, era o primeiro pai dos portugueses: aqueles homens notáveis, que não haviam de ser habitadores de uma só terra, de um só reino, de uma só província, como os outros homens: senão de todo o mundo, de todo o orbe, de todas as quatro partes da terra. E assim como o romano se chama romano, porque é de Roma; e o grego se chama Grego, porque é de Grécia; e o alemão, porque é de Alemanha, assim o português se chama Mundanus, porque é de todo o mundo, e se chama Orbis, porque é de toda a redondeza da terra. E como toda a terra é sinónimo de Portugal […]”

- Padre António Vieira, Sermão Gratulatório e Panegírico pregado na manhã de dia de Reis [1669].

terça-feira, 11 de novembro de 2008

A Pedra, a Estátua e a Montanha ou da actualidade do V Império

"[...] o título deste livro consagra os três símbolos fundamentais do sonho de Nabucodonosor, interpretado por Daniel, decerto o texto central do imaginário quinto-imperial, vieirino e não só: a pedra que, sem intervenção de mão alguma, embate violentamente nos pés de ferro e argila da terrível estátua antropomórfica, com cabeça de ouro, peito e braços de prata, ventre e coxas de bronze e pernas de ferro, pulverizando-a e convertendo-se numa “grande montanha”, que enche a terra inteira (Daniel, 2, 31-45). Esta narrativa visionária é susceptível, como tudo o que é simbólico, de uma multiplicidade inesgotável de leituras, consoante as inclinações e níveis de compreensão dos intérpretes. Dela se pode em geral dizer que, abatendo e dissipando o gigantesco ídolo de pés de barro - símbolo de uma realidade aparentemente total e invencível, mas na verdade parcial e extremamente frágil no seu fundamento e composição, interpretada tradicionalmente e por Vieira como os quatro impérios e poderes civilizacionais histórico-mundanos, e interpretável como figura de todas as falsas e frágeis construções humanas, mentais e materiais - , a pedra, figura do Messias, do Cristo ou da consciência desperta e livre, converte-se na montanha cósmica, símbolo da plenitude e da verdadeira totalidade e universalidade ou do eixo que une céu e terra, espírito e matéria, transcendência e imanência. A moral da história da pedra que pulveriza a estátua e se converte em omni-abrangente montanha, é que a imprevisível e espontânea irrupção do que parece mínimo e insignificante faz na verdade evanescer o que parece máximo, sólido e perene, convertendo-se por sua vez na verdadeira integralidade e totalidade, ao contrário da estátua, que por mais monumental era apenas um ente parcial, composto e localizado.
A partir daqui podemos vislumbrar a sempre fecunda actualidade do imaginário quinto-imperial, não só no plano histórico-civilizacional e teológico-político em que tem sido predominantemente interpretado, mas também no da nossa vida pessoal e do nosso crescimento espiritual. Pois não se aplicará a história da pedra, da estátua e da montanha ao nosso presente histórico, com seus impérios, globalizações, padrões de pensamento e ficções em aparência tão esmagadoramente triunfantes e incontornáveis, mas afinal tão frágeis, desde já minados pela ausência de verdadeiro fundamento e à mercê da ínfima pedra que contra eles subitamente se levante, contendo em si uma imensa montanha ? Pois não seremos potencialmente todos e cada um de nós essa mesma pedra, essa mesma tomada de consciência e essa mesma força que imprevisivelmente pode surgir e derrubar pela insustentável base tudo o que interior e exteriormente nos amedronta, violenta e escraviza, sem outro alicerce senão as falsas projecções da nossa ignorância, medos e expectativas, convertendo-se na ou revelando-se a inabalável montanha da descoberta da nossa natureza íntegra e primordial, único fundamento sólido de uma nova sociedade e de um novo mundo ?"

- excerto da Introdução a A Pedra, a Estátua e a Montanha. O V Império no Padre António Vieira, Lisboa, Portugália Editora, 2008. Livro apresentado na 4ªfeira, dia 12, pelas 18.30, na Igreja de São Roque (Largo Trindade Coelho ou da Misericórdia, em Lisboa).

segunda-feira, 8 de setembro de 2008

Loucura e Santidade segundo o Padre António Vieira

“Logo há doidices falsas e doidices verdadeiras ? Assim é. […] As falsas, são as dos doidos que seguem a vaidade: Vanitates, et insanias falsas: as verdadeiras, são as dos doidos que seguem o contrário da mesma vaidade, que é a verdade. Mas se seguem a verdade, porque são doidos ? Porque toda a doidice se opõe ao uso da razão diferentemente. Os excessos dos maus obram contra a razão, e por isso são viciosos e vãos: os excessos dos Santos obram sobre a razão, e por isso são sólidos e verdadeiros. Uns e outros doidos nesta grande casa de loucos, que é o mundo, têm o seu hospital separado: o dos Santos está nos arrabaldes do Céu, para onde sobem; o dos maus nos arrabaldes do inferno, onde se precipitam: uns e outros andam fora de si como doidos: os maus fora de si, porque se buscam; os santos fora de si, porque se deixam” - Sermões Consagrados à Glorificação de São Francisco Xavier, Sermão Sétimo. Doidices, Sermões, XIII, prefaciados e revistos pelo Padre Gonçalo Alves, Porto, Livraria Chardron de Lello Irmão Editores, 1907-1909, p. 278.

“Não há grande empenho, sem mistura de doidice. E a razão é, porque para qualquer homem obrar heroicamente, e se exceder, e levantar sobre si, é necessário sair de si. Que foram os arrojamentos de Alexandre, senão doidices do valor ? Que foram as fantasias de Homero, senão doidices do furor poético ? Que foram os vaticínios das Sibilas, senão doidices da vista, que deixando a luz do presente penetrava as escuridades do futuro ? Há coisas que estão em nós, e outras que estão sobre nós, e estas são as admiráveis. […] E para eu chegar ao que está sobre mim, é necessário sair de mim” - Ibidem, pp. 287-288.

“Tais foram as doidices de [S. Francisco] Xavier. Não seguiu a Regra do seu Instituto, que citámos no princípio, mas todo se formou e transformou naquele grande apotegma do mesmo Santo Inácio: Insaniendum est, si vis esse perfectus: Hás-de te fazer doido, se queres ser santo. Ele o disse, e foi tão santo e tão doido, que se Deus pusera na sua mão a escolha, ou de ir logo para o céu, ou de ficar neste mundo servindo aos próximos com risco de sua própria salvação, tinha assentado consigo de escolher este segundo” – Ibidem, p.288.

quinta-feira, 24 de julho de 2008

A Língua Portuguesa é o Mar que une a Terra: a Aliança entre Homem e Deus

Nada fica, só esta Língua Portuguesa, pela qual falamos e vivemos o Amor, se não apaga, sendo ela o que tudo apaga e renova: é o Mar da Terra, o Coração em que vivemos e por que vivemos, somos nós unidos n-Um só. Não sendo nada é tudo, não se vendo é por ela que vemos o mundo, não se tocando é por ela que sentimos, sendo ninguém é a humanidade inteira, não sendo a Mãe nem a Filha é a Aliança, não sendo o Pai nem o Filho é o Espírito Santo, não sendo real existe, não estando viva vive, é por ela que pensamos, sonhamos. É pela Língua que a humanidade se perdeu e se reencontrará.
Esta Língua o que é afinal? Esta Voz que se confunde connosco, de que matéria é feita? De onde e como nasce? Como podemos crer tanto que exista e que a somos?
A nossa Voz é já a Voz de Deus, pois é ela que nos liga à morte e à vida, ao sonho e à realidade, ao ser e ao estar, à mente e ao corpo, a Deus e ao Homem, ao homem e à mulher. “No princípio era o Verbo”: a Língua, o i-Dio-ma. “A Pátria é a Língua Portuguesa” porque é ela a eterna Aliança da humanidade a Deus.
Cada palavra reproduzida pelo Homem é um reatar da Aliança: rezar, cantar, é a recriação da Origem do próprio Homem, pois é a partir da palavra que o Homem se cria. Cada vez que o Homem fala é, ele mesmo, Deus criador, as palavras são filhos nascidos da mente e do corpo.
Somos todos, portanto, Deuses esquecidos que o são, criamo-nos a partir da nossa Voz, essa, que nos liga tanto a Si quanto ao Si-lêncio, pois ela é tanto um quanto o Outro.
O Homem caminha para a União com a própria natureza de que é feito: o Verbo. Só o Homem que for capaz de ser Deus, isto é, criar-se através da união de e com tudo, de ler a vida, falar e viver aliando os antagónicos do Universo pertencerá à Nova Era, estará voc-acionado.
Não precisamos de erguer nenhuma religião nova, porque ela já existe desde o início: a Língua Portuguesa. Não precisamos de converter ninguém a falá-la, porque já todos a sabemos. Mesmo os que não a saibam têm a Sua Voz. Por isso, o que lhes-nos falta, é reconhecê-La como a Aliança da humanidade à sua própria divindade. Portugal é Deus porque é, desde sempre, Filho da sua Língua-Mãe, como o Homem é Filho do Seu Verbo, é divino.

(Parte do texto que sairá na próxima Nova Águia)

segunda-feira, 16 de junho de 2008

O Padre António Vieira no Saldanha

PADRE ANTÓNIO VIEIRA:
400 ANOS DEPOIS

Livraria Almedina
Atrium Saldanha
Lisboa
17 de Junho
das 18:00 até às 20:00


"Neste encontro sobre o Padre António Vieira, por ocasião do quarto
centenário do seu nascimento, a Livraria Almedina e a Associação Agostinho
da Silva associam-se de modo a reunir 4 figuras que actualmente
têm desenvolvido trabalho sobre Vieira nos aspectos que
hoje cada vez mais nos interessam: o seu pensamento sobre Portugal e a
cultura portuguesa, sobre a Europa e o mundo"

Miguel Real
Vieira e a Cultura Portuguesa

José Eduardo Franco
O mito da mulher em Vieira

Manuel J. Gandra
Bandarra em Vieira

Paulo Borges
O V Império em Vieira como plenificação do corpo místico de Cristo

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008

Antologia do Padre António Vieira - I - Teologia e Filosofia

“Deus é Senhor de tudo: mas de que modo ? De tal modo, que para si não quer nada, e tudo o de que é Senhor, é para nós. Antes de Deus criar o mundo, tinha alguma coisa fora de si ? Nada; porque não havia nada. E depois do mundo criado, teve mais alguma coisa de novo ? Para si o mesmo nada que antes; mas para nós e para o homem tudo […]” – Sermões, XIII, p.191.

“[falando do Juízo Final] […] em um momento se abrirão os processos, e ficarão manifestas e patentes as vidas de todos, sem haver obra, palavra, omissão, nem pensamento, por mais secreto e oculto, que ali não seja público; vendo todos as consciências de todos, todos a de cada um, e cada um a sua” – Sermão da Primeira Dominga do Advento [1652], Sermões, I, p.63.

“Todas as grandes mudanças de estados que se vêem e têm visto neste mundo, sempre vário e inconstante, não são outra coisa que um perpétuo jogo do supremo poder que o governa: Ludit in humanis Divina potentia rebus” – Sermões, XIII, p.252.

“Os pensamentos são os primogénitos da alma; sempre se parecem à origem donde nasceram: assim como ninguém é o que cuida de si, assim é certo que cada um é o que cuida dos outros. Há uns pensamentos que nascem pelo que entra pelos sentidos; e há outros que nascem do que se considera com o discurso: os que são filhos dos sentidos, parecem-se com os objectos, os que são filhos do discurso, parecem-se com o sujeito, cada um costuma discorrer como costuma obrar; e o que cuida o que os outros hão-de fazer, é o que ele fizera; as obras e as imaginações dos homens não têm mais diferença que serem umas por dentro, outras por fora; as obras são imaginações por fora, as imaginações são obras por dentro” – Sermão nas Exéquias do Sereníssimo Infante de Portugal Dom Duarte, Sermões, XV, p.214.

“Que mal filosofaram da dor e do amor, os que lhe deram por defensivo a ausência ! Quem armou o amor com arco e não com espada, quis dizer que na distância seria mais; o amor não é união de lugares, senão de corações; a dor na presença reparte-se entre os sentidos, na ausência recebe-se só na alma, e toda é alma; a dor na presença tem o assistir, tem o servir, tem o ver, tem a mesma presença por alívio; a dor na ausência toda é dor” - Sermão nas Exéquias do Sereníssimo Infante de Portugal Dom Duarte, Sermões, XV, p.262.

“Que pouco disse quem chamou ao amor tão forte como a morte: Fortis ut mors dilectio ! A morte sepulta os que matou, o amor sepulta sem matar, que é género de morrer mais forte, mais duro, mais triste” - Palavra de Deus Empenhada no Sermão das Exéquias da rainha D. Maria Francisca Isabel de Sabóia, Sermões, XV, p.329

“Pôs Deus a Adão no Paraíso com obrigação de que o cultivasse e guardasse: […] de quem havia de guardar Adão o Paraíso ? De quem o não guardou. Havia-o de guardar de si mesmo. E porque Adão o não guardou de Adão, sendo os bens que possuía todos os do mundo, ele mesmo, e só ele se despojou de todos, sem haver outro que lhe impedisse o lográ-los” – Sermão da Segunda Dominga da Quaresma, Sermões, III, p.69.

“Antes de haver meu e teu, havia amor, porque eu amava-vos a vós e vós a mim: mas tanto que o meu e teu se meteu de permeio, e se atravessou entre nós, logo se acabou o amor; porque vós já me não amais a mim, senão o meu, nem eu vos amo a vós, senão o vosso. No princípio do mundo, como gravemente pondera Séneca, porque não havia guerras ? Porque usavam os homens da terra como do céu. O sol, a lua, as estrelas e o uso da sua luz é comum a todos e assim era a terra no princípio: porém depois que a terá se dividiu em diferentes senhores, logo houve guerras e batalhas e se acabou a paz, porque houve meu e teu” – Sermão da Segunda Dominga da Quaresma, Sermões, III, p.70.

“Mais inventaram e fizeram os homens a este mesmo fim de conservar cada um o seu. Inventaram e firmaram leis, levantaram tribunais, constituíram magistrados, deram varas às chamadas justiças, com tanta multidão de ministros maiores e menores, e foi com efeito tão contrário, que em vez de desterrarem os ladrões, os meteram das portas a dentro, e em vez de os extinguirem, os multiplicaram: e os que furtavam com medo e com rebuço, furtam debaixo de provisões, e com imunidade. O solicitador com a diligência, o escrivão com a pena, a testemunha com o juramento, o advogado com a alegação, o julgador com a sentença, e até o beleguim com a chuça, todos foram ordenados para conservarem a cada um no seu, e todos por diferentes modos vivem do vosso” - Sermão da Segunda Dominga da Quaresma, Sermões, III, p.71.

“Porque assim como no Sacramento tanto recebe um, como todos, e tanto recebem todos, como cada um; assim na glória tanto logram todos, como cada um, e tanto cada um, como todos. Cá na terra, como há a divisão de meu a teu, cada um logra os seus bens, mas não participa os dos outros: porém no céu os próprios e os dos outros, tanto são comuns de todos, como particulares de cada um, porque lá não tem lugar esta divisão” - Sermão da Segunda Dominga da Quaresma, Sermões, III, p.76.

“O céu é uma república imensa, mas onde todos se amam: e está lá a caridade tanto no auge da sua perfeição, que todos, e cada um, amam tanto a qualquer outro, como a si mesmo” - Sermão da Segunda Dominga da Quaresma, Sermões, III, p.80.

“De sorte que a cidade da glória no pavimento, nas paredes, e no interior dos aposentos, toda é um espelho de oiro; porque todos perpetuamente se vêem a si mesmos, todos vêem a todos, e todos vêem tudo. Nada se esconde ali; porque lá não há vício, nada se encobre; porque tudo é para ver; nada se recata, ou dificulta; porque tudo agrada; e porque tudo é amor, tudo se comunica.
[…] esta é, senhores, a cidade da glória […]: e basta que fosse assim como se descreve, para ser merecedora das nossas saudades, e que fizéssemos mais do que fazemos, por ir viver nela” – Sermão da Segunda Dominga da Quaresma (1651), Sermões, III, pp.36-37.

“Grande é o ódio que os homens têm à idade em que nasceram. […] Tudo o moderno desprezam, só o antigo veneram e acreditam. Ora desenganem-se os idólatras do tempo passado, que também no presente pode haver homens tão grandes como os que já foram, e ainda maiores” – Sermão de São Pedro [1644], Sermões, VII, p.320.

“Considerai-me o mundo desde seus princípios e vê-lo-eis sempre, como nova figura no teatro, aparecendo e desaparecendo juntamente, porque sempre passando” – Sermão da Primeira Dominga do Advento, Sermões, I, p.104.

“A razão deste curso, ou precipício geral com que tudo passa, não é uma só, senão duas: uma contrária a toda a estabilidade e outra repugnante ao mesmo ser. E quais são ? O tempo, e antes do tempo, o nada. Que coisa mais veloz, mais fugitiva, e mais instável que o tempo ? Tão instável, que nenhum poder, nem ainda o divino, o pode parar. […]
E como o tempo não tem, nem pode ter consistência alguma, e todas as coisas desde seu princípio nasceram juntamente com o tempo, por isso nem ele, nem elas podem parar um momento, mas com perpétuo moto, e revolução insuperável passar, e ir passando sempre.
A segunda razão ainda é mais natural e mais forte: o nada. Todas as coisas se resolvem naturalmente, e vão buscar com todo o peso, e ímpeto da natureza o princípio donde nasceram. […] Assim todas as coisas deste mundo, por grandes e estáveis que pareçam, tirou-as Deus com o mesmo mundo do não ser ao ser; e como Deus as criou do nada, todas correm precipitadamente, e sem que ninguém lhes possa ter mão, ao mesmo nada de que foram criadas” - Sermão da Primeira Dominga do Advento, Sermões, I, p.113.

“Tu quis es ? Quanto ao espiritual, ninguém há no mundo que possa responder a esta pergunta. Cada um de nós espiritualmente é o que há-de ser; o que há-de ser cada um, ninguém o sabe; e assim não há ninguém que possa responder com certeza à pergunta: Tu quis es ?” - Sermão da Terceira Dominga do Advento, Sermões, I, p.200.

“Este mundo é um teatro, os homens as figuras que nele representam, e a história verdadeira de seus sucessos uma comédia de Deus, traçada e disposta maravilhosamente pelas idades de sua Providência” - Livro Anteprimeiro da História do Futuro, p.110.

“Mais gosto de ver em Roma as ruínas e desenganos do que foi, que a vaidade e variedade do que é, e com isto me parece o mundo muito estreito e a minha cela muito larga […]. Hoje começam as máscaras do Carnaval, em que eu digo as tiram, porque verdadeiramente mostram que não são por dentro o que parecem por fora”- Carta ao marquês de Gouveia [1671], Cartas, II, pp.316-317.

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008

Antologia do Padre António Vieira - I - Espiritualidade

“Cuidamos que o céu onde subiram os santos está muito longe, e enganamo-nos: o céu não está longe, senão muito perto, e mais ainda que perto, porque está dentro de nós, e dentro do que está mais dentro, que é o coração. E que haja almas, e tantas almas, que tendo o céu dentro de si na vida, fiquem fora do céu na morte; e que podendo tão facilmente purificar o coração, e ser santas, só porque não querem, o não sejam ?” - Sermão de Todos os Santos, S, IX, p.68.

“As cadeiras das universidades, ainda que sejam de teologia, de leis, de Cânones, todas são de medicina, porque todas se ordenam à saúde pública. E que seria se os catedráticos da saúde se trocassem em catedráticos da peste: In cathedra pestilentiae ? Pois saibam que tais são os que, tentados da ambição, da lisonja ou do temor, em lugar de desenganarem com a verdade aos príncipes que os consultam, se deixam enganar do seu ou de outros despeitos, e o que eles desejam ou pretendem, isso respondem que é justo. […] E por esta perversão das letras e dos letrados, as mesmas universidades e cadeiras donde havia de manar a saúde pública, vêm a ser o veneno, a ruína e a peste dos reinos: Cathedra pestilentiae” – Sermão de Santa Catarina [1663], S, IX, pp.164-165.

“Logo há doidices falsas e doidices verdadeiras ? Assim é. […] As falsas, são as dos doidos que seguem a vaidade: Vanitates, et insanias falsas: as verdadeiras, são as dos doidos que seguem o contrário da mesma vaidade, que é a verdade. Mas se seguem a verdade, porque são doidos ? Porque toda a doidice se opõe ao uso da razão diferentemente. Os excessos dos maus obram contra a razão, e por isso são viciosos e vãos: os excessos dos Santos obram sobre a razão, e por isso são sólidos e verdadeiros. Uns e outros doidos nesta grande casa de loucos, que é o mundo, têm o seu hospital separado: o dos Santos está nos arrabaldes do Céu, para onde sobem; o dos maus nos arrabaldes do inferno, onde se precipitam: uns e outros andam fora de si como doidos: os maus fora de si, porque se buscam; os santos fora de si, porque se deixam” - Sermões consagrados à glorificação de S. Francisco Xavier, VII, Doidices, S, XIII, p. 278.

“Tais foram as doidices de [S. Francisco] Xavier. Não seguiu a Regra do seu Instituto, que citámos no princípio, mas todo se formou e transformou naquele grande apotegma do mesmo Santo Inácio: Insaniendum est, si vis esse perfectus: Hás-de te fazer doido, se queres ser santo. Ele o disse, e foi tão santo e tão doido, que se Deus pusera na sua mão a escolha, ou de ir logo para o céu, ou de ficar neste mundo servindo aos próximos com risco de sua própria salvação, tinha assentado consigo de escolher este segundo” – Sermões consagrados à glorificação de S. Francisco Xavier, VII, Doidices, S, XIII, p.288.

“[…] a oração mental. No meio do ruído da corte, e dos concursos do paço, recolhia-se sua majestade por muitas horas ao seu oratório como a um deserto e ali, levantando o espírito sobre todas as coisas cá de baixo, ouvia da boca de Deus, no silêncio da contemplação, aqueles altíssimos desenganos, e via, no espelho da eternidade, aquelas claríssimas luzes, em que o tudo e o nada são da mesma cor: em que o tudo e o nada têm a mesma conta; em que o tudo e o nada têm o mesmo peso; em que o tudo e o nada têm as mesmas medidas; e por isso nenhuma mudança ou variedade das coisas humanas lhe alteravam o coração, tendo-o sempre unido com a vontade divina. E como nesta união da vontade humana com a divina consiste a suma da santidade, e a santidade suma, […]” – Palavra de Deus Empenhada no Sermão das Exéquias da rainha D. Maria Francisca Isabel de Sabóia, S, XV, p.329

" [...] tudo o que não é ser Santo, é não ser [...]" - Sermoens, IV, p.136.

Quarto Centenário do Nascimento do Padre António Vieira e Novo Ano Tibetano

Passam hoje quatrocentos anos sobre o nascimento do Padre António Vieira e comemora-se esta noite a passagem do novo ano tibetano, o Losar, ao qual todos são bem vindos (cf. a notícia em "Actividades"). São duas pontas do emaranhado desta vida que se convenciona chamar "minha": uma liga-se a Camões, Vieira, Pascoaes, Pessoa, Natália Correia, Agostinho da Silva e tantos outros e desemboca na Ilha dos Amores, no Quinto Império, no Império do Espírito Santo; a outra vincula-se ao Buda primordial, a Guru Rinpoche e Yeshe Tsogyal, Guesar de Ling, Longchenpa, ao VI e ao XIV Dalai Lamas e tantos outros, confluindo para o Kalachakara e Shambhala. Por mais diversas que sejam e pareçam, sei que na "minha" vida são as mesmas.
Em homenagem a Vieira publico aqui a Introdução que escrevi para a Agenda 2008 da Imprensa Nacional-Casa da Moeda, bem como, hoje e nos próximos dias, parte dos trechos que seleccionei para a mesma. Faço-o com o sentimento de que Vieira foi um dos grandes precursores da aventura hoje chamada Nova Águia e Movimento Internacional Lusófono, que visam, com a sua proposta de um novo Portugal, uma nova Comunidade Lusófona e um novo Mundo, actualizar e depurar a sua aspiração a uma vida mais plena e total. Sinto hoje bem próximos os finisterras do extremo-ocidente atlântico e dos Himalaias e o que de um e outro se divisa: Shambhala e a Ilha dos Amores, o nosso próprio Coração, sem tempo nem espaço em todo o tempo e todo o espaço.
Emaho ! Saúde !

Padre António Vieira

Vindo ao mundo no coração da Lisboa imperial, perto do local de nascimento de Santo António, o Padre António Vieira é uma das figuras mais complexas e singulares da cultura luso-brasileira, quinta-essência do seu espírito, mas também personalidade de dimensão universal.
Dotado de um fervor religioso cuja pulsão mística se distende na inquietação visionária e apocalíptica, pregador de palavra, acção e vida exuberante, teólogo e pensador que desconcerta pelo jogo do discurso barroco ou do dizer aforístico a evadir-se da lógica escolástica, exegeta das profecias que se volve ele mesmo profeta e poeta do melhor mundo possível, missionário movido pelo amor do próximo e destemido defensor dos perseguidos e oprimidos – judeus e índios - , patriota apaixonado até à hipérbole e homem que abeira a morte em constante congeminação política, Vieira é bem o paradigma desse génio português arrebatado pela viagem no mundo e no espírito e pelo abraço à totalidade das coisas que tão incarnado viu no santo lisboeta morto em Pádua como peregrino universal: “Para nascer, Portugal: para morrer, o mundo”.
Fruto dos exercícios espirituais de Santo Inácio de Loyola e do profetismo bíblico e laico, a visão de Vieira é uma rara síntese daqueles “altíssimos desenganos” místicos “em que o tudo e o nada são da mesma cor” e nada importa senão a santidade do amar só a Deus, pois “[...] tudo o que não é ser Santo, é não ser [...]”, e da esperança de que o mundo possa vir a transfigurar-se como teatro dessa santificação universal, humana e cósmica, que designa como Quinto Império ou Reino de Deus na terra consumado: plena expressão do excesso da graça do Cristo redentor sobre o pecado de Adão – origem do tempo dos quatro impérios profanos – e apogeu do crescimento do seu Corpo Místico nos homens, na natureza e na história, pelo qual Igreja e humanidade se fundirão num Paraíso renovado e “esta grande casa de Deus, que é o Universo, será toda santa”.
Herdeiro da visão de Joaquim de Flora e do joaquimismo, que tenta conter nos quadros da ortodoxia sem deixar de os romper, as eras do Pai, do Filho e do Espírito Santo dão em Vieira lugar aos três estados do Reino de Deus na terra, desde o início da pregação evangélica até à consumação antes da vinda do Anticristo e do Fim dos Tempos. Exceptuado o tempo da vida terrena de Cristo, momento ímpar de perfeição, todo o restante tempo histórico e da Igreja é assumido como a providencial e progressiva dispensação, pelo Cristo invisível e pelo Espírito Santo, de “aquelas ocultas e altíssimas verdades que, por menos capacidade dos seus discípulos, deixou Cristo de lhes dizer, quando por si mesmo os ensinava”. A revelação divina não está pois concluída, o tempo da profecia não está encerrado e, neste sentido, os Modernos estão mais perto do desvendamento do sentido último da história do que os Antigos. As profecias, as antigas e as novas, como as do Bandarra e de outros homens simples e inspirados, não se cumpriram todas no passado e na vinda de Cristo, mas apontam sobretudo ao tempo presente e iminente e ao que Vieira entende que nele é fundamentalmente chamado a anunciar e presenciar: o estabelecimento do Reino de Deus na terra ou Quinto Império. Lendo e estudando as profecias, é assim possível escrever história, a verdadeira história, não a do que foi, mas a do que vem a ser: a História do Futuro. O exegeta torna-se profeta.
Todavia o profeta não fica apenas à espera que se cumpra o que anuncia. Converte-se também em poeta, fazedor disso mesmo que profere e proclama, participando activamente na realização dessa suma possibilidade que à comunidade dos homens desvela e que apela o seu consentimento e adesão para que plena e concretamente se inscreva na ordem do mundo. Daí uma acção - pela oração mental e verbal, pela palavra intrépida que inquieta, denuncia e exorta, pelo conselho, influência e manobra política - que não visa senão o descentramento individual e colectivo para o advento de Deus e do seu Reino e que, se bem que dirigida a todos os homens, convoca com particular veemência Portugal, nação que acredita providencialmente destinada, desde a sua fundação na profecia de Cristo em Ourique (que para Vieira é realidade original e não mito, no sentido comum do termo), a ser um novo povo eleito para o cumprimento dessa plenificação de Deus e do mundo, desse crescimento do místico e cósmico Corpo divino, desse escatológico ser Deus tudo em todas as coisas que visiona como o sentido mais fundo da sua visão-paixão quinto-imperial.
Teólogo da infinidade do possível divino, teólogo-filósofo da maior razoabilidade de que isso se expresse no melhor mundo possível (num optimismo quanto ao fim último que precede duas décadas o de Leibniz quanto à origem primeira) e filósofo do necessário excesso, loucura ou “doidice” da santidade humana para que tal se efective, Vieira não poupa nem os poderes político-religiosos, nem os interesses, as paixões e a prudente razão dos homens que a tal se opõem, remando muitas vezes solitariamente contra os ventos e marés de um mundo e de uma história persistentes em frustrar as suas todavia inquebrantáveis esperanças de uma iminente transfiguração apocalíptica da ordem das coisas, anunciada nas profecias e precedida dos sinais prodigiosos que avidamente perscruta.
Missionário inspirado na opção de São Francisco Xavier por cuidar mais do bem do próximo do que da própria salvação, protector dos índios contra a cruel ganância de colonos e governadores, pregador que não furta a verdade mais inconveniente aos ouvidos dos poderosos, conselheiro agraciado ou desvalido de reis e príncipes, expulso do Brasil pelos esclavagistas e, acusado de judaísmo, queimado em efígie num auto-de-fé pela populaça coimbrã, crítico da Inquisição portuguesa, que desafia e afronta com destemor, agindo e movendo sempre influências a favor de judeus e cristãos-novos, incansável estratega político, congeminando casamentos, alianças e planos comerciais, patriota ardente que rejeita a glória fora do país embora saiba que a pátria o enjeita como seu profeta, patriota inconsolável com a decadência do Portugal que visionava mediador do cumprimento do sentido divino da história, patriota cuja espiritualidade lhe revela ser o próprio e imoderado patriotismo uma paixão que o desvia do “último fim”, mas que, disso “muitas vezes convencido”, não o vê todavia “vencido” – eis Vieira, como um Heraclito-Demócrito que de tudo chora e ri mas, sobretudo, da “comédia” da sua vida, nesse barroco claro-escuro do mundo que viu como teatro, jogo e “grande casa de loucos”.
“Insaniendum est, si vis esse perfectus: Hás-de te fazer doido, se queres ser santo”: assim resumiu o ensinamento que, vindo de São Paulo, colheu de Santo Inácio de Loyola e São Francisco Xavier. E de facto muito nele houve dessa assumida loucura que Pessoa porá na boca de D. Sebastião: “Louco, sim, louco, porque quis grandeza / Qual a Sorte a não dá. / Não coube em mim minha certeza; / […] Minha loucura, outros que me a tomem / Com o que nela ia. / Sem a loucura que é o homem / Mais que a besta sadia, / Cadáver adiado que procria ?”. Muito nele houve dessa loucura, nem sempre necessariamente santa, mas sempre tocada do sentido de um possível maior que toda a razão, como a de anunciar que D. João IV haveria de ressuscitar para ser o imperador universal, só aparentemente por demonstração silogística: o Bandarra foi verdadeiro profeta; o Bandarra profetizou que D. João haveria de ressuscitar; logo D. João vai ressuscitar. Muito nele houve dessa loucura ambígua, por um lado inflamada pela centelha do divino, por outro ofuscada pela demasiado humana confusão desse divino com a instituição dos poderes deste mundo: pois carecerá isso a que se chama Deus de reinar, como se desde sempre não fosse o Reino e, mais, o Real ?
Também a loucura e a certeza de Vieira nele não coube, dele extravasou e outros a tomaram: Pessoa e Agostinho da Silva, entre os mais conhecidos e notáveis, persistentes em serem poetas, mais no ideal o primeiro, mais no concreto o segundo, de um Portugal bem maior e mais profundo do que os portugueses adormecidos e acomodados percepcionam, admitem e desejam. Com efeito, visões como a que perpassa em Vieira e nos da sua estirpe parecem não ter lugar na história comum dos homens, sempre demasiado estreita e prudente para acolher a genialidade, com todas as suas maravilhas e perigos, mas afinal sempre demasiado ampla para se fazer o palco de toda a mais grosseira e cruel barbárie. Se por um lado não deixa de ser um paradoxo que haja esperado o contrário, que possa haver uma redenção histórica da história, por outro, sem isso, nem sequer teríamos a possibilidade de reconhecer, no espelho do contraste de um possível tão excelente e excessivo, a “apagada e vil tristeza” em que Portugal e o mundo soçobram na ausência de ideais e aspirações que movam à transcendência e nos façam ressuscitar em vida.
Comemorar hoje os quatrocentos anos do seu nascimento não pode ser menos do que deixar enraizar-se e crescer em nós a ampla generosidade do seu coração, a sublime inquietação do seu espírito e o fundo incómodo de por(des)ventura em nada sermos hoje diferentes disso que do alto do púlpito da sua vida mais impiedosamente desencobriu, denunciou e flagelou.