O CAMINHO DA SERPENTE

"Reconhecer a verdade como verdade, e ao mesmo tempo como erro; viver os contrários, não os aceitando; sentir tudo de todas as maneiras, e não ser nada, no fim, senão o entendimento de tudo [...]".

"Ela atravessa todos os mistérios e não chega a conhecer nenhum, pois lhes conhece a ilusão e a lei. Assume formas com que, e em que, se nega, porque, como passa sem rasto recto, pode deixar o que foi, visto que verdadeiramente o não foi. Deixa a Cobra do Éden como pele largada, as formas que assume não são mais que peles que larga.
E quando, sem ter tido caminho, chega a Deus, ela, como não teve caminho, passa para além de Deus, pois chegou ali de fora"

- Fernando Pessoa, O Caminho da Serpente

Saúde, Irmãos ! É a Hora !


sexta-feira, 19 de junho de 2009

CALOR


o homem disse
a propósito de Mercado
ser a situação actual
bastante introgessiva

nem o homem sabe
seguramente o que dizia
nem eu sei
nem nunca saberei
o que é
introgressivo

a palavra contudo
me parece clara
e me agrada
e a sinto perfeitamente adaptada
ao tempo que faz hoje:
mais de quarenta graus de temperatura
o sol a reluzir no céu
como no guiador cromado
de qualquer
nossa primeira bicicleta

os pássaros calaram-se nos galhos
sombreados dos freixos e dos choupos
nas oliveiras cinzentas
nem as cigarras cantam
como se o calor
lhes tivesse impiedosamente
derretido as asas

procuro nos poetas gregos:
Arquílogo de Paros
Ìbico de Régio
em Safos natural de Lesbos
a palavra exacta
que defina
este insuportável
desarranjo meteorológico

posso associá-lo
vagamente a Vulcano
ou à fusão do átomo
ao efeito de estufa
nada porém que me diga tanto
como o insuspeitado introgressivo
do homem
a propósito de
Mercado

sendo que
não poder sair à Rua
é um estado
indiscutívelmente introgressivo
não me resta outra saida
que não seja:
despir a alma
e pendurá-la num cabide
onde corra
um mínimo de aragem

deixá-la assim a abanar
inflada como vela de pequeno barco
T-shirt de Ulisses
que o conduzisse
de regresso
a Ítaca

é penosa
a estação e tudo
esmorece com o calor
disse Alceu de Mitilene
há pelo menos
dois mil
e setecentos anos

isto
pelo facto simples
de não ter sido ainda
a propósito de Mercado
criado o inefável
vocábulo
INTRO
GRESSIVO

Tenga Rinpoche em Lisboa - Conhecer a natureza da mente

Caros Amigos,

É com enorme satisfação que vos informamos da presença em Lisboa de Kyabje Tenga Rinpoche.

Tenga Rinpoche nasceu em 1932 em Kham, no Tibete oriental. A sua educação decorreu inicialmente nos Mosteiros de Benchen e Palpung, sob orientação do 9º Sangye Nyempa Rinpoche (irmão de Kyabje Dilgo Khyentse Rinpoche), e dos anteriores Situ Rinpoche e de Jamgon Rinpoche. Posteriormente, estudou com muitos outros Mestres e completou os seus estudos com um retiro de 3 anos. Foi também discípulo de Kyabje Dilgo Khyentse Rinpoche e de Kyabje Dudjom Rinpoche.

Após deixar o Tibete, em 1959, instalou-se em Sikkim no Mosteiro de Rumtek. Aí, Tenga Rinpoche serviu durante 17 anos S. S. o XVI Karmapa. Desde 1976, Tenga Rinpoche vive no Nepal, onde estabeleceu o Mosteiro Benchen Phuntsok Dargyeling e um Centro de Retiros em Pharping (http://www.benchen.org/home). É também o fundador de Centros na Polónia, em Itália e na Alemanha.

Kyabje Tenga Rinpoche é um dos poucos Mestres detentores da linhagem não interrompida da tradição Karma Kagyu do Budismo Tibetano. A sua visita a Portugal constitui uma oportunidade rara e preciosa para contactar com um grande Mestre da actualidade.

Programa:

21 de Junho de 2009 (Domingo) – 16h00
Desenvolver a calma mental

22 de Junho de 2009 (2ª feira) – 17h00
Visão profunda da paz mental

23 de Junho de 2009 (3ª feira) – 17h00
Meios para transformar a mente e revelar a sua pureza original

Local: Hotel Marriott, Av. dos Combatentes, Lisboa

Custo de participação: 20 euros por dia; 50 euros os 3 dias

Esperamos vê-los !

Fundação Kangyur Rinpoche

"É tão difícil o silêncio" (Friedrich Nietzsche)

"Zaratustra",Nicholas Roerich


Ai, meus irmãos! Sabemos talvez um pouco demasiado sobre todos nós! E muitos há que se nos tornam transparentes, mas ainda assim não o suficiente para que os consigamos penetrar.
É difícil viver entre os homens: é tão difícil o silêncio.
E não é para com aquele que nos é mais ofensivo que somos mais injustos, mas para com o que nos é indiferente.
Se, contudo, ocorrer teres um amigo que sofra, sê um abrigo para o seu sofrimento, mas um leito duro, como uma cama de campanha; mais útil lhe serás desse modo.
E se um amigo te fizer mal, diz-lhe: "Perdoo-te o que me fizeste; mas houvesse-lo tu feito a ti mesmo, e como poderia eu perdoar-to?"
Assim fala todo o grande amor: ele sobrepuja o perdão, e até mesmo a piedade.
É preciso conter o coração: porque, se o deixamos à solta, bem depressa podemos perder a cabeça!
Ai! Onde encontramos nós na terra loucuras maiores que entre os compassivos? E que foi no mundo maior causa de sofrimento que as loucuras dos tais?
Pobres dos que amam, se não estão acima da sua piedade!
Assim me disse o diabo, um dia: "Até Deus tem o seu inferno: é o seu amor pelo homem".

Friedrich Nietzsche
“Assim Falou Zaratustra”, II, “Os compassivos

(Versão com base na tradução inglesa de Thomas Common,
Dover Thrift Editions, 1999, pág. 58 e seg.)

quinta-feira, 18 de junho de 2009

NOVA PETIÇÃO MIL: “NÃO DESTRUAM OS LIVROS!”

Verificando-se que editoras nacionais estão a proceder à desativação comercial dos livros não esgotados mediante a sua destruição, e que esta hipótese é igualmente contemplada pela editora do Estado português, Imprensa Nacional - Casa da Moeda, o MIL: MOVIMENTO INTERNACIONAL LUSÓFONO considera isto um escandaloso crime de lesa-património, que vai fazer desaparecer muitos milhares de volumes preciosos da nossa cultura que, apesar do seu valor, não tiveram sucesso comercial junto do grande público.

Perante esta situação, o MIL apela a todos os cidadãos que assinem esta petição, exigindo que as editoras nacionais, e em particular a Imprensa Nacional - Casa da Moeda, não destruam as obras em questão, oferecendo-as antes às bibliotecas, escolas e centros culturais nacionais, aos leitorados de Português e departamentos onde se estude a Língua e a Cultura Portuguesas nas universidades estrangeiras, bem como às universidades e centros culturais dos países lusófonos. Para tanto, os Ministérios da Cultura, da Educação e dos Negócios Estrangeiros (este através do Instituto Camões), bem como a TAP AIR Portugal, devem-se articular com as Editoras na estratégia da distribuição e transporte dos livros a nível nacional e internacional.

Em vez de se destruir património precioso e insubstituível, esta é uma ótima oportunidade de se prestar um serviço à cultura e à educação nacionais, bem como de promover a cultura portuguesa no espaço lusófono e no mundo, tarefa por todos reconhecida como fundamental na qual o Estado não se tem empenhado devidamente.

PARA ASSINAR:
http://www.gopetition.com/online/28707.html


MIL: MOVIMENTO INTERNACIONAL LUSÓFONO
Comissão Coordenadora

silenciar a mente...

Budismo e Meditação em Leiria - 19 e 20 de Junho

Ani Chöying Drolma em Portugal - 6ª, 19 - 18.30



A monja nepalesa Ani Chöying Drolma, mundialmente conhecida pela comovente beleza da sua voz e enquanto defensora dos direitos das mulheres, estará entre nós para o lançamento do seu livro A Minha Voz pela Liberdade, na 6ª feira, dia 19, pelas 18.30, no Anf. III da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.

A apresentação será feita pelo Dr. Rui Lopo (União Budista Portuguesa) e pela Drª Alexandra Correia (Grupo de Apoio ao Tibete/União Budista Portuguesa).

Organização: Editorial Presença / Projecto "Filosofia e Religião" do Centro de Filosofia da Universidade de Lisboa (coordenado por Carlos João Correia) e do Curso "Filosofia e Estudos Orientais" / Departamento de Filosofia da Universidade de Lisboa (coordenado por Carlos João Correia e Paulo Borges)

Apoios: União Budista Portuguesa e Songtsen - Casa da Cultura do Tibete

Entrada Livre

Oração das mulheres bem resolvidas - Júlio Machado Vaz




Que o mar vire cerveja e os homens aperitivo,

que a fonte nunca seque,

e que a nossa sogra nunca se chame Esperança,

porque Esperança é a última que morre...



Que os nossos homens nunca morram viúvos,

e que os nossos filhos tenham pais ricos e mães gostosas!



Que Deus abençoe os homens bonitos,

e os feios se tiver tempo...

Deus...Eu vos peço sabedoria para entender um homem,

amor para perdoá-lo e paciência pelos seus actos

,porque Deus

,se eu pedir força,eu bato-lhe até matá-lo.



Um brinde...

Aos que temos,aos que tivemos e aos que teremos.



Um brinde também aos namorados que nos conquistaram,

aos trouxas que nos perderam,

e aos sortudos que ainda vão conhecer-nos!


Que sempre sobre,que nunca nos falte,

e que a gente dê conta de todos!

Amén.


P.S.: Os homens são como um bom vinho: todos começam como uvas e é dever da mulher pisá-los e mantê-los no escuro até que amadureçam e se tornem uma boa companhia para o jantar.

tempos dificeis

um grito 'antigo', para os tempos actuais
8.
a vida social é essencialmente prática. todos os mistérios que empurram a teoria para o misticismo encontram a sua solução racional na práxis humana e no conceber desta práxis.

11.
os filósofos interpretam o mundo de diversas maneiras; a questão, porém, trata-se de o transformar.
karl marx,teses sobre feuerbach,1845

quarta-feira, 17 de junho de 2009

Tempo e Saudade


Quando a morte nos acerta
e se nos alvorece
sabemos a não memória
sabemos tudo.

"Só a verdade nos mente..." (Suli-Andriéu Peyre)

Fonte: Google search engine



Transpus
(Ai franqui)

Transpus o cume da minha vida
e desço pela outra encosta,
mas sou ainda um aprendiz,
e a alma às vezes ainda sonha.

As minhas mãos nunca estarão cheias;
só a verdade nos mente;
toda a agitação do mundo
não sacode as mãos engelhadas.

Talvez ao fundo daquele vale
aonde desço sempre com a tarde,
conheça melhor a minha solidão.

Sentar-me-ei ainda uma hora
para ver a comparação
do eterno e dos dias quebrados.


Suli-Andriéu Peyre (1890-1961)

in "Antologia da Poesia Provençal Moderna",
selecção e tradução de Louis Bayle e Manuel de Seabra,
Editorial Futura, Lisboa, 1972, pág. 44

Esfera Armilar - A grande questão e a grande encruzilhada

"[...] cada vez mais o homem se tem posto e considerado [...] no mundo como o dono do mundo, com o direito de destruir os animais e as plantas, de escravizar os irmãos homens, de transformar a vida inteira nalguma coisa que não tem outro fim senão o de sustentar a sua vida material"

- Agostinho da Silva, "A Comédia Latina" [1952], Estudos sobre Cultura Clássica, organização e introdução de Paulo Borges, Lisboa, Âncora Editora, 2002, p.307.

Querendo dominar e avassalar o mundo, adoecemos e destruímo-nos, física, emocional e mentalmente. Pondo-nos ao serviço do bem do mundo e de todas as formas de vida, humanas e não-humanas, curamo-nos e libertamo-nos. Esta é hoje a grande questão e a grande encruzilhada.

O que escolhes? E que escolha gostarias que fosse a de Portugal e dos países lusófonos?

Qual a escolha digna de uma Esfera Armilar, de um Abraço ao Universo, de um Coração do tamanho do Universo?

s/t


terça-feira, 16 de junho de 2009

Não fazer nada

Man, of this nature is always astir; he is always busy, because he wants to do! The candidate on the path comes to fathom the mystery which lies in Lao-Tze’s words “not-doing”, not letting the I-being take precedence. It is He, the Lord of all Life, who fashions the willing and the doing in you. When the candidate is united again with “It”, with the path, with Tao, with the Gnosis, he has entered into a bond of voluntary obedience with the eternal, with the kingdom of God within him, with the Jesus-Man within him. Then it comes to pass that the other one, who cannot be explained from this nature, does, lives and is.

Catharose De Petri

Deixem-me dizer-vos neste momento que não fazer nada é a coisa mais difícil do mundo, a mais difícil e a mais intelectual.

Oscar Wilde

Saudade do Presente

Os sítios falam dos que já não estão

Se ao meu encontro fores
Passarás pelos vários sítios onde estive
Lembrar-te-ás onde estou.


polir a lente

'a mons sens,voyez-vous,les artistes, les savants, les philosophes semblent trés affairés à polir des lentilles. tout cela n'est que vastes préparatifs en vue d'um évenement qui ne se produit jamais. un jour la lentille sera parfaite; et ce jour-là, nous perceverons tous clairement la stupéfiante, l'extraordinaire beauté de ce monde'
henry miller, citado em 'spinoza, philosophie pratique', gilles deleuze

tentativa,verdadeiramente tentativa, de tradução

Para mim,vejam bem, os artistas, os sábios, os filósofos aparentam estar muito ocupados a polir as lentes. fazem preparativos para algo que não se produz. um dia a lente será perfeita por si; e nesse dia apreenderemos a estonteante, a extraordinária beleza deste mundo.

Comunhão



Um poema
que se dissolvesse
em silêncio na boca
como uma hóstia
Um poema de quem se dissesse
como se diz de Jesus:
“Eu sou a Verdade e a Vida.”
Nesse poema me faria atar
como Cristo
pelos pés e pelas mãos
e pela boca
ao Silêncio que me nasceu
Como rosa no mar.
Boca de espuma.


Rosa em ondas levada
Ofélia de mim
Amor lavado em sal
Purificado, Amor de Marear
de mareado: de (A)marar
exaltado de vinho e de jejum.
Rosa de Sharon
Amor divino,
brilho, Luz, beleza
Rosa de morrer
Viventes penas
De luzente mar
De me dissolver:
em ardente rosar.


Um poema silente
como um beijo
de Amado,
Ó meu Amigo sonhado.

O sonho e a erecção

"De noite, o sinal de que há um sonho é a erecção.
De dia, desde que há erecção, é o sinal de um sonho"

- Pascal Quignard, Le nom sur le bout de la langue, p.76.

Chicken a la Carte

Do fumar e da morte?!...


...tecto de uma sala de fumadores...
imagem enviada por e-mail, desconheço a fonte

segunda-feira, 15 de junho de 2009

versinhos de quando era proibido não sonhar

à Saudades


Versinhos sobre a Reforma Agrária

R. A.

Duas palavras apenas
Pra escrever Reforma Agrária
É das palavras pequenas
Aquela que mais abarca:

Charnecas de urze olivais
Campos de milho ervilhaca
É das palavras que mais
De ser pequena me encanta

Suor e pó sobre o rosto
Espigas de trigo na cara
Chapéus queimados de Agosto
Esperança força de seara

Frescura de barro – cântaro
De sombra e de prata fria
Mundo melhor alavanca
Bolota glande alegria

Ai Alentejo ai motor
Reforma Agrária poesia
Casa de velho senhor
Virada pra outro dia

"Este Verão, queres ser sereia ou baleia?"

Há uns dias, numa cidade de França, um cartaz, com uma jovem espectacular, na montra de um ginásio, dizia:"ESTE VERÃO, QUERES SER SEREIA OU BALEIA?"
Dizem que uma mulher jovem-madura, cujas características físicas não interessam, respondeu à pergunta publicitária nestes termos:
"Estimados Senhores:
As baleias estão sempre rodeadas de amigos (golfinhos, leões-marinhos, humanos curiosos).
Têm uma vida sexual muito activa, engravidam e têm baleiazinhas ternurentas, às quais amamentam.
Divertem-se à brava com os golfinhos, enchendo a barriga de camarões.
Brincam e nadam, sulcando os mares, conhecendo lugares tão maravilhosos como a Patagónia, o mar de Barens ou os recifes de coral da Polinésia.
As baleias cantam muito bem e até gravam CD's. São impressionantes e praticamente não têm outros predadores além dos humanos. São queridas, defendidas e admiradas por quase toda a gente.
As sereias não existem.
E, se existissem, fariam fila nas consultas dos psicanalistas, porque teriam um grave problema de personalidade, "mulher ou peixe?".
Não têm vida sexual, porque matam os homens que delas se aproximam, além disso, por onde? Por isso, também não têm filhos.
São bonitas, é verdade, mas solitárias e tristes.
Além disso, quem quereria aproximar-se de uma rapariga que cheira a peixaria?
Para mim está claro, quero ser baleia.
P.S.Nesta época em que os meios de comunicação nos metem na cabeça a ideia de que apenas as magras são bonitas, prefiro desfrutar de um gelado com os meus filhos, de um bom jantar com um homem que me faça vibrar, de um café e bolos com os meus amigos.
Com o tempo ganhamos peso, porque ao acumular tanta informação na cabeça, quando já não cabe, espalha-se pelo resto do corpo, por isso não estamos gordas, somos tremendamente cultas.
A partir de hoje, quando vir o meu rabo no espelhos, pensarei, Meu Deus, que inteligente que sou..."

Tudo vale, em tempos de crise...

imagem recebida por e-mail, desconheço a fonte da foto

Trans-Pátria - Um Portugal que padece do problema de se ver como problema

Um dos aspectos mais notáveis que ressalta da observação atenta da cultura e da vida portuguesa é a inflação de Portugal nessa mesma cultura e vida. Portugal tende a assumir uma presença incontornável no modo como pensamos a nossa própria existência, a nossa presença no mundo e a natureza da própria realidade. Isto não só naqueles autores paradigmáticos, como Camões, Vieira, Pascoaes, Pessoa e Agostinho da Silva, que fizeram ou tenderam a fazer de Portugal, por vezes obsessivamente, a mediação por excelência para o divino ou a universalidade – atribuindo a uma nação ou a uma pátria funções que só parecem poder pertencer às consciências individuais - , mas também no comum dos cidadãos, que aparentam não conseguir falar de si, do mundo e da existência sem falar de Portugal e da sua relação feliz ou infeliz, sempre mais emocional do que racional e quase sempre traumática, com o mesmo. Como notou Eduardo Lourenço, padecemos não de falta, mas de excesso de identidade nacional. Creio que deriva daí, como aponta o mesmo autor, o irrealismo prodigioso da imagem que fazemos de nós próprios.

Com efeito, e embora se constate que isso tende e provavelmente tenderá a diminuir nas gerações mais jovens, é um facto que um dos temas mais destacados da cultura portuguesa é o da própria identidade nacional. Portugal como Problema, título de uma antologia de Pedro Calafate, designa aquilo em que a nação se tem convertido para os portugueses em geral: um problema, decerto sem solução, porque carente de real fundamento.

Do mesmo modo que não parece razoável considerar que todos ou a maior parte dos nossos males e bens se relacionem com Portugal, também não se afigura razoável esperar que Portugal venha a ser a solução ou parte da solução de todos os nossos problemas. Isto pela simples razão de que, antes de sermos portugueses, somos homens, seres vivos conscientes e sensíveis, cuja existência e presença no mundo antecede e excede os limites da história, da língua e da cultura que recebemos pela educação e pela imersão no mundo social que nos acolhe. Considerar a nação, enquanto organismo cultural, social e político, o factor determinante da existência e da solução dos nossos problemas existenciais, éticos e intelectuais, individuais e colectivos, é condenar-nos a reproduzir o que tem sido a nossa constante relação de amor-ódio com ela e a sua inevitável frustração contínua: esperando da nação o que ela não pode dar e alienando na identificação com ela o fundo mais íntimo e responsável do nosso ser, julgamo-la de acordo com expectativas irreais e tornamos dependente das suas vicissitudes a nossa felicidade ou infelicidade. Em particular, por essa compenetração entre indivíduo e nacionalidade, o nosso egocentrismo assume dimensão nacional e precipitamo-nos no constante e pendular complexo de inferioridade-superioridade que nos faz sentir ora os piores, ora os melhores do mundo, no círculo vicioso do autocentramento umbilical que caracteriza a hipertrofia do sentimento de identidade, neste caso individual-nacional. Daqui resultam as nossas anedóticas e contrapolares tendências, grosseiramente irrealistas, para nos vermos no centro do mundo ou na sua periferia, como a sua cabeça ou a sua cauda, como os eleitos ou os danados da sua história. Daqui resulta o gosto mórbido de nos maldizermos e depreciarmos constantemente, frustrado reverso do apego onírico e onanista a uma delirante auto-imagem de sucesso e glória planetários – fruto do apogeu dos Descobrimentos - , a qual, sempre desiludida pela natural indiferença da história e da realidade, se compraz na expectativa de sermos pelo menos campeões mundiais ou europeus em futebol ou no facto de termos o melhor jogador do mundo, a maior ponte, o maior ou segundo maior centro comercial, a maior feijoada (ao longo de toda a Ponte Vasco da Gama), etc…

Disto resulta o facto grave de muitos portugueses continuarem a fazer da nação e do seu sentido a principal questão da sua existência, para além do nível relativo em que legitimamente se coloca, relativizando a ela as grandes questões eternas e actuais com que se defronta universalmente a humanidade, como as do sentido da existência, da vida e da morte, a natureza e possibilidades da mente, a relação ética do homem com a natureza, o ambiente e os seres vivos, humanos e não-humanos. Isto configura, quase um século e meio após as Conferências do Casino, um Portugal ainda adormecido, alheio e marginal, pelos piores motivos, às encruzilhadas e dilemas da civilização contemporânea. Um Portugal que padece do problema de se ver como problema e que, assim, não pode ter solução.
Aldeia da Estrela - ALQUEVA

criatividade:
Viver como se a Vida fosse um postal-ilustrado

"A imensidão é o movimento do homem imóvel" (Gaston Bachelard)



Poderíamos dizer que a imensidão é uma categoria filosófica do devaneio. Sem dúvida, o devaneio alimenta-se de espectáculos variados; mas por uma espécie de inclinação inerente, ele contempla a grandeza. E a contemplação da grandeza determina uma atitude tão especial, um estado de alma tão particular que o devaneio coloca o sonhador fora do mundo próximo, diante de um mundo que traz o signo do infinito.

Pela simples lembrança, longe das imensidões do mar e da planície, podemos, na meditação, renovar em nós mesmos as ressonâncias dessa contemplação da grandeza. Mas trata-se realmente de uma lembrança? A imaginação, por si só, não poderá aumentar ilimitadamente as imagens da imensidão? A imaginação já não será activa desde a primeira contemplação? De facto, o devaneio é um estado inteiramente constituído desde o instante inicial. Não o vemos começar; e no entanto ele começa sempre da mesma maneira. Ele foge do objecto próximo e imediatamente está longe, além, no espaço do além (1).

Quando esse além é natural, quando não se aloja nas casas do passado, ele é imenso. E o devaneio é, poderíamos dizer, contemplação primordial.

Se pudéssemos analisar as impressões de imensidão, as imagens da imensidão ou o que a imensidade traz a uma imagem, entraríamos imediatamente numa região da mais pura fenomenologia – uma fenomenologia sem fenómenos ou, para falar menos paradoxalmente, uma fenomenologia que não precisa esperar que os fenómenos da imaginação se constituam e se estabilizem em imagens completas para conhecer o fluxo de produção das imagens. Noutras palavras, como o imenso não é um objecto, uma fenomenologia do imenso remeter-nos-ia sem rodeios à nossa consciência imaginante. Nesse caminho do devaneio de imensidão construiríamos em nós o ser puro da imaginação pura. Ficaria então claro que as obras de arte são os subprodutos desse existencialismo de ser imaginante. Nesse caminho do devaneio de imensidão, o verdadeiro produto é a consciência dessa ampliação. Sentimo-nos promovidos à dignidade do ser que admira.

Por conseguinte nessa meditação não somos “lançados no mundo”, já que de certa forma abrimos o mundo numa superação do mundo visto tal como ele é, tal como ele era antes que sonhássemos. Mesmo se estivermos conscientes do nosso ser mirrado – pela própria acção de uma dialéctica brutal - , tomamos consciência da grandeza. Somos então entregues a uma actividade natural do nosso ser imensificante.

A imensidão está em nós. Está ligada a uma espécie de expansão de ser que a vida refreia, que a prudência detém, mas que retorna na solidão. Quando estamos imóveis, estamos algures; sonhamos num mundo imenso. A imensidão é o movimento do homem imóvel. A imensidão é uma das características dinâmicas do devaneio tranquilo.



Gaston Bachelard

A Poética do Espaço
trad. António de Paula Danesi
Livraria Martins Fontes
S. Paulo, 1989


(1) “A distância arrasta-me no seu exílio móvel”, Supervielle,L´escalier

Fonte(imagem): http://www.pianolessons.net/img/lessons/bluespiano.jpg

A doença do tempo: "Nunca nos detemos no tempo presente" (Pascal)

Foto: Trey Ratcliff, Templo de Angkor Wat, Cambodja


Nunca nos detemos no tempo presente. Antecipamos o futuro que nos tarda, como para lhe apressar o curso; ou evocamos o passado que nos foge, como para o deter: tão imprudentes, que andamos errando nos tempos que não são nossos, e não pensamos no único que nos pertence, e tão vãos, que pensamos naqueles que não são nada, e deixamos escapar sem reflexão o único que subsiste. É que o presente, em geral, fere-nos. Escondemo-lo à nossa vista porque nos aflige; e se nos é agradável, lamentamos vê-lo fugir. Tentamos segurá-lo pelo futuro, e pensamos em dispor as coisas que não estão na nossa mão, para um tempo a que não temos garantia alguma de chegar.

Examine cada um os seus pensamentos, e há-de encontrá-los todos ocupados no passado ou no futuro. Quase não pensamos no presente; e, se pensamos, é apenas para à luz dele dispormos o futuro. Nunca o presente é o nosso fim: o passado e o presente são meios, o fim é o futuro. Assim, nunca vivemos, mas esperamos viver; e, preparando-nos sempre para ser felizes, é inevitável que nunca o sejamos.

Blaise Pascal
Pensamentos Escolhidos
Tradução de Esther de Lemos
Editorial Verbo,Lisboa,1972
pág.45

sábado, 13 de junho de 2009

o paradoxo das ilusões

«Tomemos aleatoriamente um "ponto" de referência perante o infinito.

Denominaremos este ponto de "o observador".

A partir do observador, olhemos o passado; veremos que todas as coisas possíveis e impossíveis já aconteceram.

Agora olhemos para o futuro; veremos que todas as coisas possíveis e impossíveis irão acontecer.

Finalmente, olhemos para o presente, veremos sempre o mesmo: que neste instante, todas as coisas possíveis e impossíveis estão acontecendo.

Então o "observador" é uma abstração mental; uma ilusão paradoxal diante do infinito aparentemente imutável.

Na realidade, aquele ponto aleatório de referência (você e eu), constitui um instante mágico que se pontua o infinito; nada mais do que isto porque o "finito está para o infinito sempre a uma distância infinita".»

(J. Krishnamurti)

peter singer eutanásia

'nessas conferências, a minha intenção era defender a perspectiva a favor da qual tinha vindo a argumentar em vários estudos previamente publicados: que os pais das crianças recém-nascidas gravemente deficientes devem poder decidir, juntamente com os médicos, se o seu filho deve morrer. Se os pais e o seu conselheiro médico estiverem de acordo quanto à qualidade futura da vida da criança, concluindo que que ela será tão miserável, ou de tal modo desprovida da mais pequena, que se tornará desumano ou fútil prolongá-la, então ser-lhes permitido assegurarem-se de que a morte da criança ocorra rapidamente e sem sofrimento.'
peter singer,escritos sobre uma vida ética, p.318.

esta é uma das posições mais polémicas de singer, porque questiona o valor intrínseco da vida, levantando quanto a mim a questão do especismo, da razão ou não de separar a espécie humana das outras espécies, será que no futuro previsível o homem não pode alcançar a erradicação das mais terríveis doenças,e com isso tornar perigosa a eutanásia nestes casos. pois, sei que é uma questão complicada e aliás pouco científica. mas é uma preocupação.

"Renascerás um dia sob a forma daquele que ofendes hoje e sofrerás as mesmas ofensas"

"Dizer que o tempo e o espaço são simples formas do nosso conhecimento, e não determinações da coisa em si, redunda em afirmar a identidade da doutrina da metempsicose, "Renascerás um dia sob a forma daquele que ofendes hoje e sofrerás as mesmas ofensas", com a fórmula frequentemente citada do bramanismo: Tat twam asi: "Tu és isso"" - Schopenhauer, Do Mundo como Vontade e como Representação, Suplementos, XLVII, "Da moral".

De uma ecologia não fundamentalista...

imagem olhares.com


"aquele que contempla sozinho (e sem intenção de comunicar a outros as suas observações) a figura bela de uma flor selvagem, de um pássaro, de um insecto, etc, para admirá-los, amá-los, sem querer perdê-los na natureza em geral, mesmo que isso lhe implicasse algum dono e, muito menos, se distinguisse nisso uma vantagem imediata e na verdade intelectual pela natureza da beleza. isto é, não apenas o seu produto, mas também a sua existência sem que um atractivo dos sentidos tivesse participação nisso ou também ligasse a isso qualquer fim."


kant, c.f.juízo, int.antónio marques, imp. nac. casa da moeda, p 202
(entre silêncios, vinhedos, brumas e o "futuro ao longe"... caminhamos)
- caminho português de santiago - galiza

Para comemorar o Dia Mundial do Ambiente, celebrado no dia 05 de Junho, foi emitido em vários suportes (cinemas, circuito de dvd, tv e internet) o belíssimo documentário HOME, O Mundo É A Nossa Casa.
HOME, é um filme-documentário da autoria do realizador francês Yann Arthus-Bertrand. É constituído por paisagens aéreas do mundo inteiro e pretende sensibilizar a opinião pública mundial sobre a necessidade de alterar modos e hábitos de vida a fim de evitar uma catástrofe ecológica planetária.Se alguém quiser ver eis aqui o link (com narração em português): http://www.youtube.com/watch?v=tCVqx2b-c7U

"Os seres humanos estão constantemente a sonhar ", Don Miguel Ruiz



Otto Rapp, "Shaman Portrait"


"Viver é fácil, se o fizermos de olhos fechados,
compreendendo de forma errada tudo o que vemos..."

John Lennon



DOMESTICAÇÃO E O SONHO DO PLANETA

O que você está a ver e ouvir neste momento não passa de um sonho. Você está a sonhar neste preciso momento. Está a sonhar com o cérebro acordado. Sonhar é a principal função da mente, e ela sonha vinte e quatro horas por dia. Sonhamos quando o cérebro está acordado e também sonhamos quando o cérebro está adormecido. A diferença é que, quando o cérebro está acordado, existe uma moldura material que nos faz perceber as coisas de forma linear. Quando dormimos, não temos uma tal moldura, e o sonho tende para mudar constantemente.
Os seres humanos estão constantemente a sonhar. Antes de nascermos, os que viveram antes de nós criaram um enorme sonho exterior a que chamamos sonho da sociedade ou sonho do planeta. O sonho do planeta é o sonho coletivo de biliões de sonhos pessoais menores, que, juntos, formam o sonho da família, o sonho da comu-nidade, o sonho de uma cidade, o sonho de um país, e, finalmente, o sonho de toda a humanidade. O sonho do planeta inclui todas as regras da sociedade, as suas crenças, as suas leis, as suas religiões, as suas diferentes culturas e formas de ser, os seus governos, escolas, acontecimentos sociais e feriados.
Nós nascemos com a capacidade de aprender como sonhar, e os seres humanos que nasceram antes de nós ensinam-nos a sonhar da forma que a sociedade sonha. O sonho exterior possui tantas regras que, quando um novo ser humano nasce, captamos a atenção da criança, introduzindo tais regras na sua mente. O sonho exterior usa a mamã e o papá, a escola e a religião para ensinar-nos a sonhar.
A atenção é a capacidade que nós temos de discernir e focalizar-nos apenas naquilo que queremos apreender. Podemos apreender milhões de coisas ao mesmo tempo mas, fazendo uso da atenção, podemos manter qualquer uma delas no primeiro plano da nossa mente. Os adultos à nossa volta captam a nossa atenção e, pelo processo de repetição, colocam essas informações na nossa mente. Esta foi a forma através da qual aprendemos tudo o que sabemos.
Utilizando a atenção, aprendemos toda uma realidade, todo um sonho. Aprendemos como comportar-nos em sociedade, em que acreditar e não acreditar, o que é aceite e o que não é aceitável, o que é bonito e o que é feio, o que é certo e o que é errado. Tudo isso já lá estava - todo este conhecimento, todas estas regras e conceitos sobre como comportarmo-nos no mundo.
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Foi assim que aprendemos quando crianças. As crianças acreditam em tudo o que os adultos lhes dizem. Concordamos com eles, e a nossa crença é tão forte que o sistema de crença controla todo o nosso sonho de vida. Nós não escolhemos essas crenças, e poderíamos ter-nos revoltado contra elas, mas não tivemos a força suficiente para levar a cabo tal rebelião. O resultado é rendermo-nos às crenças com nosso acordo.
Chamo esse processo domesticação de seres humanos. E, por via desta domesticação, aprendemos como viver e como sonhar. Na domesticação humana, a informação do sonho exterior é fornecida ao sonho interior, criando o nosso sistema de crenças.
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A domesticação é tão forte que, chegados a um determinado ponto na nossa vida, já não precisamos que ninguém nos domestique. Estamos tão bem treinados que passamos a ser o nosso próprio domesticador.

Don Miguel Ruiz, “Los Quatro Acuerdos – Un libro de Sabiduría Tolteca”,
Ed. Urano, Barcelona, 1998, págs. 10-14

sexta-feira, 12 de junho de 2009

E a propósito da Literatura... dos Livros...

O que é a Literatura a não ser aquilo que arrancou o Homem da ignorância e da escravatura uma e outra vez ao longo de todas as eras? O que é a Literatura senão aquilo que produziu filósofos, artistas, repúblicas, educação, alimento e saúde para (não) todos (mas enfim, pelo menos para alguns)? O que é a Literatura senão aquilo que nos levou ao espaço e que conduz a vida à sobrevivência para além do sol e quiçá à eternidade? O que é a Literatura a não ser a ignição dos mais profundos sonhos do Homem? O que é a Literatura a não ser aquilo que nos impede de andarmos a lamber o pó da terra? O que é a Literatura a não ser o Verbo?

Sim, porque se a Literatura não for Verbo, então não é nada.

Lágrima de Loba (a propósito dos animais)

Deixa-me chorar sem
água, não
agites a cauda
não te aproximes, deixa-me
chorar com água, os olhos
não são muralhas para
este rio.

Não te encostes a mim, não
dances, loba
negra de orelhas caídas e corpo
ondulante, como a mágoa
assola, em vagas, o rio
evasão, por entre
as íris de pedra, pupilas,
sombrias catedrais de cristal.

Minha escuridão, seda,
não chores comigo, granito,
negra de neve
cinzenta, os olhos
não são muralhas nem diques, quebram
com a verdade, água
antiga,
como a tua lágrima
de loba
invisível

em olhos d'oiro.

[Dedico este poema ao meu cão-lobo-fêmea]

quinta-feira, 11 de junho de 2009


«Sim, não pode ser. Calma, vamos a ver isto de começo.» E começou a recapitular. «Ora, vamos lá a ver como isto principiou. Bati com as costas na tranqueta e, não obstante, segui como dantes, naquele dia e no seguinte; sentia uma dor que foi em aumento; vieram os médicos, depois o desânimo, a angústia e outra vez os médicos; e eu a resvalar cada vez mais para o abismo. Perdia forças. Fui resvalando, resvalando. E agora, cá estou no fundo; vai-se-me a luz dos olhos. É a morte e eu a pensar no intestino. Penso no modo de consertar o intestino e a morte
a bater ao ferrolho. Mas será de facto a morte?» De novo o terror se apoderou dele; a tremer inclinou-se a procurar os fósforos e empurrou a mesinha-de-cabeceira com o cotovelo. O diabo da mesa só estorvava. Furioso empurrou-a com mais força e pregou com ela no chão.
Desesperado, resfolegando a custo, deixou-se cair de costas à espera da morte que dir-se-ia andar por ali.


Leão Tolstoi, in A morte de Ivan Ilich, p.46

Comunicado do Partido Pelos Animais sobre as Eleições Europeias de 2009

Perante os resultados das recentes Eleições Europeias o Partido Pelos Animais congratula-se com a votação obtida pelo seu congénere holandês, o Partij voor de Dieren, cujos 3.5% quase o levaram a eleger um deputado, e com a subida da representação parlamentar dos Verdes/Aliança Livre Europeia, o único grupo político europeu cuja votação cresceu, de 5.5 para 7.2 %, enquanto todos os outros baixaram.

A abstenção massiva em toda a Europa, junto com os votos em branco, mostra o crescente descrédito e indiferença da maioria da população em relação aos velhos modos de fazer política, configurando um preocupante divórcio entre os Estados, os partidos e os cidadãos. Com efeito, a afluência às urnas, ao longo de 30 anos e em 7 Eleições Europeias, desceu sempre, passando de 61.99% em 1979 para 43.2% em 2009. Perante este quadro, deve colocar-se a questão da legitimidade real das aparentes “maiorias” triunfantes, que na verdade correspondem a uma reduzida minoria do número total de cidadãos eleitores. Esta verdade é escamoteada no discurso oficial dos partidos e dos comentadores políticos, apesar de ser uma evidência incontornável que põe em causa o sentido da própria democracia, o princípio de representação e o sistema eleitoral vigente.

Tudo isto mostra a urgente necessidade de outro modo de se fazer política, movido por valores éticos inquestionáveis e não pela obediência aos grandes grupos económicos e ideológicos mundiais ou pelo mero desejo de poder e promoção pessoal. No mundo de hoje, após a emancipação dos escravos e das mulheres, o progresso mental, ético e civilizacional exige o respeito pela natureza e por todas as formas de vida consciente e sensível. Disso depende a sobrevivência, a evolução e o bem do próprio homem. O Partido Pelos Animais, que recolhe assinaturas para a sua constituição oficial, representa em Portugal essa nova forma de estar na política, lutando por uma sociedade humana mais justa, em harmonia com a natureza e os seres vivos. Sabemos que muitos milhares de portugueses nos acompanham na rejeição dos sofrimentos atrozes a que os animais estão sujeitos pelo actual sistema de produção e consumo e pelos costumes sociais, sem terem qualquer protecção jurídica, pois são considerados como objectos. O Partido Pelos Animais surge para defender os que estão indefesos perante a violência gratuita a que estão sujeitos, para promover a protecção animal em todos os domínios e para introduzir na política o novo paradigma mental, ético e civilizacional que o futuro exige.

10 de Junho de 2009

A Comissão Coordenadora

www.partidopelosanimais.com

quarta-feira, 10 de junho de 2009

"A Batalha das Formigas", Aleister Crowley (1875 – 1947)






Max Ernst, "O olho do silêncio", 1944



A BATALHA DAS FORMIGAS

Aquilo não é o que é.
A única palavra é Silêncio.
O único Significado dessa Palavra é não.
Pensamentos são falsos.
Paternidade é unidade disfarçada de dualidade.
Paz implica guerra.
Poder implica guerra.
Harmonia implica guerra.
Vitória implica guerra.
Glória implica guerra.
Fundação implica guerra.
Ai! pelo Reino onde todos estes estão em guerra.

Aleister Crowley, “ Livro das Mentiras”, cap. 5, pág. 14
Fonte: http://www.hippies.com.br/books/Liber_333-O_livro_das_mentiras.pdf


THE BATTLE OF THE ANTS

That is not which is.
The only Word is Silence.
The only Meaning of that Word is not.
Thoughts are false.
Fatherhood is unity disguised as duality.
Peace implies war.
Power implies war.
Harmony implies war.
Victory implies war.
Glory implies war.
Foundation implies war.
Alas! for the Kingdom wherein all these are at war.

Aleister Crowley, “The Book of Lies
Fonte: http://www.hermetic.com/crowley

"... não existe nada que seja mais terrível do que o infinito"

No horizonte do infinito - Deixamos a terra, subimos a bordo! Destruímos a ponte atrás de nós, melhor, destruímos a terra atrás de nós. E agora, barquinho, toma cuidado! Dos teus lados está o oceano; é verdade que nem sempre brame; a sua toalha estende-se às vezes como seda e ouro, um sonho de bondade. Mas virão as horas em que reconhecerás que ele é infinito e que não existe nada que seja mais terrível do que o infinito. Ah, pobre pássaro, que te sentias livre e que esbarras agora com as grades desta gaiola! Desgraçado de ti se fores dominado pela nostalgia [Heimweh]da terra, como se lá em baixo tivesse havido mais liberdade... agora que deixou de haver "terra"!

- Friedrich Nietzsche, A Gaia Ciência, tradução de Alfredo Margarido, Lisboa, Guimarães Editores, 1977, p.143.

Estas Almas Incertas

Quero um mal de morte
A estas almas incertas.
Tortura-as a honra que vos fazem,
Pesam-lhes, dão-lhe vergonha os seus louvores.
Porque não vivo
Preso à sua trela,
Saúdam-me com um olhar agridoce.
Onde passa uma inveja sem esperança.

Ah! Porque não me amaldiçoam!
Porque não me viram francamente as costas!
Aqueles olhos suplicantes e extraviados
Hão-de enganar-se sempre a meu respeito.

Friedrich Nietzsche, in "A Gaia Ciência"

Frederico García Lorca / El Silencio

Oye, hijo mío, el silencio.
Es un silencio ondulado,
un silencio,
donde resbalan valles y ecos
y que inclina las frentes
hacia el suelo.


Federico García Lorca, 1922

terça-feira, 9 de junho de 2009

agradável

e,depois,porque é agradável falar como toda a gente, e de dizer o sol está a nascer, enquanto toda a gente sabe que é uma maneira de falar.
gilles deleuze/felix guatarri

O grande desafio de Portugal: o bem comum do planeta e de todas as formas de vida

Publico a entrevista concedida ao Jornal de Leiria, que será utilizada na edição de 6ª feira.

- Como caracteriza o povo português?

Talvez a maior característica do povo português seja ser incaracterizável, o que não é necessariamente negativo, pois é isso que nos tem permitido a flexibilidade de conviver e dialogar com todos os povos e culturas. Somos um povo oceânico, com um grande poder de metamorfose.

- De onde vem a identidade que faz dos portugueses um povo desorganizado, mas lutador?

Não creio que existam “identidades” individuais e colectivas, no sentido de entidades com características permanentes, independentes das interacções e do devir histórico. Gosto todavia de recordar a definição dos lusitanos pelo romano Gaius Julius Caesar, como o “estranho povo” “que não se governa, nem se deixa governar”. Haveria assim, numa linha dos nossos antepassados, um fundo libertário e an-árquico, pelo menos na perspectiva de um representante da Pax romana. Isto não impedia que os lusitanos se unissem, quando ameaçados na sua independência, em torno de um chefe carismático, como Viriato. Creio que foi esse mesmo amor à independência, aliado a factores culturais, que originou Portugal e que o manteve contra as tentativas de integração em Castela. Foi isso que nos recortou fronteiras e que, depois, nos fez romper essas mesmas fronteiras, tornando-nos viajantes e habitantes de todo o mundo.
Hoje, todavia, parece que essa insubmissão e arrojo escasseiam, o que parece acontecer sempre que não somos confrontados com situações de grande opressão, risco ou desafio. Deixamo-nos governar por minorias, como acontece em toda a Europa, pois a maioria abstém-se nas eleições. O impulso lutador não surge a nível de um projecto colectivo, que manifestamente não existe, não havendo também um líder carismático que se imponha pelo seu exemplo e visão. A capacidade de luta confina-se a indivíduos e grupos que pugnam apenas por interesses particulares, na cultura, na política e na economia.

- Os povos latinos são mais descontraídos que os nórdicos. Terá a ver com o clima, meio ambiente, o que oferece a natureza...? Ou serão outras razões?

O clima e o meio ambiente são factores importantes, que já Aristóteles reconhecia como diferenciadores dos povos. Todavia há também factores culturais e étnicos. Agostinho da Silva, na linha de Max Weber, salientou a influência da mentalidade protestante no culto do trabalho que haveria de fazer surgir o capitalismo no norte da Europa. Eu iria mais longe, considerando que o voluntarismo bélico das invasões indo-europeias impregnou mais o Norte da Europa, enquanto o Sul permaneceu mais mesclado com as culturas indígenas e semitas, mais contemplativas e ligadas aos ritmos da terra.
Dito isto, é evidente que o espírito mais activo e organizado dos nórdicos é uma mais-valia quando posto ao serviço de boas causas, como a cidadania, a ecologia e a protecção dos animais, em que superam largamente os povos latinos.

- A era dos Descobrimentos marcou a nossa cultura? Foi por tudo o que passámos que somos aquilo que somos hoje? Que 'marca' terá deixado essa época?

Aquilo que vamos sendo é sempre, no presente, fruto do que fizemos no passado e do que desejamos ser no futuro. Os Descobrimentos marcaram-nos profundamente, deixando sobretudo a saudade de um apogeu e de uma grandeza que, a meu ver, não são apenas do poder e da riqueza material de que fugazmente usufruímos no mundo, mas sobretudo, embora inconscientemente, de havermos vivido e convivido à escala do planeta. É por isso que o pequeno Portugal e a limitada Europa não nos podem satisfazer plenamente. O problema é que, em vez de assumirmos o sentido mais fundo do nosso desejo de grandeza, andamos em busca de vãs compensações do nosso sentimento de carência, como sermos campeões do mundo de futebol, termos a maior ponte, o maior centro comercial, etc. Querer ser grande é o sintoma de quem se sente menor por não reconhecer o que há, desde já, de grande e insuperável em si.

- De que forma a cultura e maneira de ser dos portugueses condiciona o que são e o que serão no futuro?

Pelo que já disse, somos um povo que, embora actualmente estagnado, em termos colectivos, é todavia imprevisível. Creio que tudo depende de assumirmos um grande desafio colectivo, que nos leve a superar-nos e a darmos o melhor de nós mesmos para o realizar. Olhando para o mundo de hoje, só vejo como desafio digno de o ser o vivermos não apenas para nós, nem somente para os nossos próximos pela história, língua e cultura, mas para o bem comum de todo o planeta e de todas as formas de vida. Uma pequena nação como Portugal pode tornar-se grande pela promoção de um grande ideal universal, benéfico para todos, como a defesa da natureza, do meio ambiente, dos direitos humanos e dos direitos de todos os seres vivos, com todas as consequências culturais, sociais, políticas e económicas disso. Esse é o melhor desafio que Portugal e o mundo lusófono podem assumir, na linha do que sobre eles pensaram Camões, Vieira, Pessoa e Agostinho da Silva. Costumo chamar a isto o patriotismo trans-patriótico e universalista. Colocar o melhor da nossa cultura e das nossas energias e potencialidades ao serviço da felicidade e bem-estar de todos os seres. Só assim poderemos ser um dos embriões dessa nova civilização a que todos no fundo aspiramos, miticamente designada como Quinto Império. Sem isso, pouco nos resta senão sermos uma reserva turística do mundo, no limbo da grande encruzilhada que hoje se desenha entre as forças do obscurantismo mundial e esse novo paradigma emergente nas consciências mais despertas.

segunda-feira, 8 de junho de 2009

Diálogos do Jardim I

Imagem retirada do google

Se fechar os olhos e me calar, sei que posso, mesmo daqui deste torrão de terra, desta madeira velha serpenteando sobre antigas e atlânticas águas, ouvir o imenso som do mar. E o mar é um rumor. E há uma barca e há marinheiros que segredam alfabetos, sílabas deste país, e os atiram para o longe. Esse longe que nos chega no mesmo som e tem a antiga voz do mar. Eu digo que há pontes que se erguem sobre a estrutura funda da língua. Como uma sólida raiz. Uma identidade. E se nos sons arrastados de uma voz cantante para além do Tejo vemos o cimo, o canto da nossa fala; do outro lado do Atlântico uma cantiga, uma morna adormece nos braços de uma canoa. Temos aí um rosto que nos olha da distância do mar e tem na fala o que é português e Portugal. Como quem semeia arados, assim se escava a língua. Arar o mar, como só os poetas o sonham. Um mar para unir e não para separar. Uma ilha. A Língua, como as pontes atravessadas pela raiz. A eterna voz do mar. Por ela o atravessamos em barcas e navios de palavras e de rostos do longe e do perto; de cá e de lá: mares e palavras. Terá dito o poeta que viver não é preciso, o que é preciso é navegar. Nós dizemos que construímos pontes para as atravessar e afagar distâncias.Entre o trigo e o mar se cruzam e encontram os ancestrais rumores da língua: a fala, a raiz e a identidade. A reunião de várias e plurais vozes, cantando no mesmo e “gerundivo” sotaque, nota singular de uma mesma língua materna e matriz. A pluralidade de sementes e grãos semeados por um país maior do que o seu tamanho, levado pelo sonho de unir, mais do que de dividir, mais do que o de separar… A língua como chama. Sejam esses os cantos de uma solidariedade na unidade e diversidade que nos fortalece na tradição. Tronco e raiz de uma árvore; sopro de poeta, vozes de cá e de lá, poetas a semear singularidades nas diferenças, no respeito pelas palavras e vontades de cada um na construção de uma ponte por onde todos passaremos. Vozes lusófonas! Uma mesma matriz, tanto de cá, como de lá dos vários lados da ponte. Que melhor lugar para abrir os fundamentos dessa ideia de respeito e defesa de uma língua que é, além de pátria e mátria, o espaço onde se estruturam também os fundamentos da aceitação da alteridade, do outro, que, livremente, e de forma criativa e cooperante, constrói uma ponte de humana e fraterna civilidade. Uma outra ponte feita de sonhos de futuro e de esperança no Homem Novo: mais justo, mais fraterno e mais solidário.

Dúvida

Se o mundo é sempre o mesmo: grande, complexo, fantástico, ou talvez numa não-definição mais esclarecedora: “inapreensível”. Se já caímos e já nos levantámos. Se já magoámos e fomos magoados.Se já fomos instrumento e artesões. Se já fomos médicos e remédios.Se já fomos chefes e servos… Porque volta sempre o sofrimento do sempre? O desespero absolutista? O temor sem fim à vista?Se já sabemos que vai e vem, se já sabemos que a vida são momentos e, por isso mesmo, finitos, porque insiste em aparecer, em morar no ser, essa presença absolutista do sempre?Qual o verdadeiro valor, ou se quisermos, qual a certeza, ou mesmo, aquela certeza absoluta, aquela clarividência inabalável quando, num momento, dizemos: “amo-te para sempre” ?

Ganhou a abstenção. Continuamos a ser democraticamente governados pela minoria.

domingo, 7 de junho de 2009

"Sola", Diana Navarro



À alma-jardim de Saudades, boca em flor de luz,
e a Isabel Santiago, a seu olhar-lábio de cristal azul-infância:

ao que sabem...
sentir ...


"Sola"

El amor, tiene una verca
El amor tiene una verca
Que me lleva asta el dolor

Sola, sola con mi pena
Sola triste y sola
Sola con mi pena
Con mi pena sola

Sola con mi pena
Sola triste y sola
Sola en mi amargura
Sola triste y sola
Sola sola sola

Pena, y melancolia
Que vive en mi habitación
Sola unica amiga mia
Ahhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh

Sola, sola con mi pena
Sola triste y sola
Sola con mi pena
Con mi pena sola

Sola, sola con mi pena
Sola triste y sola
Sola en mi amargura
Sola triste y sola
Sola sola sola

sábado, 6 de junho de 2009

"A via do homem na virgem"

"Há três coisas que me ultrapassam
e uma quarta que não compreendo:
a via da águia no céu,
a via da serpente na rocha,
a via da nave no mar,
a via do homem na virgem"

- Provérbios, 30, 18-19.

Posso abusar da vossa boa vontade para ver videos do youtube???

Posso deixar mais um para discussão?
Posso? Posso?





Fico à espera dos comentários...
Eu desconhecia esta versão das alterações climáticas

sexta-feira, 5 de junho de 2009

bichinhos do monte...

Microcosmos

Jorge de Sena: Morra o bispo e morra o papa

Morra o bispo e morra o papa.
maila sua clerezia.
Ai rosas de leite e sangue.
que só a terra bebia!
Morram frades, morram freiras.
maila sua virgaria.
Ai rosas de sangue e leite.
que só a terra bebia!
Morra o rei e morra o conde.
maila toda fidalgula.
Ai rosas de leite e sangue.
que só a terra bebia!
Morram meirinho e carrasco.
maila má judicaria.
Ai rosas de sangue e leite.
que só a terra bebia!
Morra quem compra e quem vende,
maila toda a usuraria.
Ai rosas de leite e sangue.
que só a terra bebia!
Morram pais e morram filhos.
maila toda filharia.
Ai rosas de sangue e leite.
que só a terra bebia!
Morram marido e mulher.
maila casamentaria.
Ai rosas de leite e sangue,
que só a terra bebia!
Morra amigo, morra amante.
mailo amor que se perdia.
Ai rosas de sangue e leite,
que só a terra bebia!
Morra tudo, minha gente.
vivam povo e rebeldia.
Ai rosas de leite e sangue.
que só a terra bebia!




Jorge de Sena
in Visão Perpétua
5/1964

Into the wild...Dia Mundial do Ambiente

o homem, esse animal maravilhoso

nada me move contra a ideia do paulo, mas gostava de salientar.

'todos os progressos na cultura, mediante os quais o homem faz a sua formação escolar, têm o propósito de usar esses conhecimentos(kenntnisse) e aptidões adquiridos para o uso do mundo, mas, neste mundo, o objecto mais importante a que ele os pode aplicar é o homem, pois ele é o seu próprio fim último'
immanuel kant

"Não se têm dois corações..."

"On n'a pas deux cœurs, l'un pour l'homme, l'autre pour l'animal… On a du cœur ou on n'en a pas"

"Não se têm dois corações, um pelo homem, outro pelo animal... Tem-se coração ou não se tem" - Lamartine

BARAKA

quinta-feira, 4 de junho de 2009

Vamos ajudar a criar um Partido Pelos Animais, recolhendo 7500 assinaturas - O bem da humanidade depende do respeito por todas as formas de vida




Car@s Amig@s

Por imperativo ético e de consciência, decidi integrar a Comissão Coordenadora do Partido Pelos Animais, que visa defender a natureza, o meio ambiente e todas as formas de vida, que aspiram igualmente ao bem-estar e à ausência de sofrimento. Destacamos os animais, pois não se podem defender dos sofrimentos atrozes e desnecessários que lhes são infligidos pelos humanos, sendo considerados meros objectos pelo Código Penal português. Consideramos que esta causa é em prol do desenvolvimento ético e mental do próprio homem e para seu benefício, pois mudar o seu comportamento em relação à natureza e aos animais não humanos só pode traduzir-se numa relação mais harmoniosa e feliz de cada pessoa consigo e com os demais seres humanos. Disso depende hoje a sobrevivência da própria espécie humana. O aumento da protecção aos animais tem também imensos benefícios sociais e económicos, permitindo criar milhares de novos empregos, como acontece em vários países europeus.

O nosso manifesto e outras informações podem ser lidos em www.partidopelosanimais.com
Envio a primeira entrevista que, em nome do PPA, acabo de conceder à Agência Lusa.

Para que o PPA possa existir, necessitamos de 7500 assinaturas, em listas que podem ser impressas em www.partidopelosanimais.com e enviadas para a morada indicada. Venho pedir-vos que, caso estejam minimamente de acordo com esta causa, assinem e dêem a assinar a outras pessoas. Assinar as listas não implica aderir ao PPA, mas apenas permitir que ele seja legalmente possível.

Quem quiser assumir uma função mais activa na recolha de assinaturas, agradeço que me comunique, a fim de o pôr em contacto com a Comissão que coordena esta actividade.

Sou o primeiro a reconhecer o descrédito em que caiu a actividade político-partidária, mas é por esse mesmo motivo que sinto a urgência de se fazer algo diferente neste domínio.

Vamos contribuir para o surgimento, também na intervenção política, de um novo paradigma mental, ético e civilizacional, que hoje se impõe para o bem do Planeta!

Saudações cordiais

Paulo Borges

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1 - O Partido pelos Animais vai ser um partido monotemático (dedicado apenas aos direitos dos animais)?

De modo algum, conforme se pode constatar pela leitura do nosso Manifesto. Nós somos a favor da defesa da natureza, do meio ambiente e de todas as formas de vida, o que inclui obviamente o próprio homem, cuja felicidade depende da sua relação harmoniosa com os outros seres e com o universo. Se destacamos a defesa dos direitos dos animais, é por duas grandes razões: 1 - por um lado porque são considerados em Portugal meros objectos, em termos jurídicos, com tudo o que isso implica, o que é escandaloso, além de não terem a possibilidade de se defender dos sofrimentos e exploração desnecessários de que são vítimas por parte dos humanos; 2 - por outro, porque da defesa dos animais e da natureza depende hoje a sobrevivência e a qualidade de vida da própria humanidade, sendo também esta a causa que, pela sua natureza altruísta, mais implica uma mudança mental e ética do próprio homem, que trará grandes benefícios sociais, políticos e até económicos, permitindo criar imensos novos empregos destinados à protecção dos animais, como já acontece em muitos países europeus.

2 - Já teve início a recolha de assinaturas para formalizar o PPA junto do Tribunal Constitucional? Quando pensam concluí-la? (se já houver percepção de uma data)

A recolha de assinaturas já começou e os interessados podem imprimir as folhas directamente no nosso site: www.partidopelosanimais.com
Esperamos concluí-la tão breve quanto possível.

3 - Chegaram a pensar numa adesão ao Bloco de Esquerda ou ao Partido Ecologista ‘Os Verdes’, que defenderam recentemente na AR os direitos dos animais?
Porque decidiram criar um partido autónomo?

Nunca chegámos a equacionar essa hipótese por nos parecer evidente que a defesa dos animais, bem como da natureza, do meio ambiente e de todas as formas de vida, é transversal a todas as orientações político-partidárias, não podendo ficar limitada a nenhuma delas. Por outro lado, a dimensão desta causa é suficientemente ampla para justificar a existência de um novo partido, a ela inteiramente consagrado. Reconhecemos todavia como positivo e desejável o trabalho que outros partidos façam neste mesmo sentido. Surgimos movidos por uma causa ética e altruísta e não pelo apetite do poder.

4 - Que expectativas têm a nível eleitoral?

O nosso objectivo é obtermos representação no Parlamento, tão ampla quanto possível, e gerarmos um movimento de opinião que obrigue as demais forças políticas a uma actuação mais efectiva neste domínio.

5 - As diferenças entre o sistema eleitoral de Portugal e o da Holanda (onde o Party for the Animals tem dois deputados no parlamento) vão ser um obstáculo à eleição de deputados do PPA. Estão conscientes disso? Como pensam contornar o problema?

Sabemos isso, mas confiamos na vocação do povo português para ser solidário e abraçar causas nobres. Fomos os primeiros a abolir a pena de morte e despertámos a comunidade internacional para o drama de Timor. Cabe-nos hoje ampliar o nosso universalismo para além dos limites da nossa espécie e sermos solidários com todas as formas de vida. Sabemos que seremos a voz de muitos e muitos portugueses que amam a natureza e os animais, aos quais se dedicam desinteressadamente, e que não se revêem numa política que esquece completamente os direitos dos seres vivos não humanos.

Por outro lado, um dos pontos do nosso programa visará a alteração da actual lei eleitoral, que sanciona erros e injustiças flagrantes, como permitir que numa determinada região seja eleito um candidato que nada tem a ver com ela ou que os votos em branco não tenham qualquer expressão, quando manifestam uma legítima opção do eleitorado que se deveria traduzir por cadeiras vazias na Assembleia da República.

6 - A que eleições pensam candidatar-se? As legislativas ou autárquicas deste ano estão no vosso horizonte?

Tudo depende da rapidez com que recolhermos as assinaturas, mas todas as formas de eleição estão no nosso horizonte.

7 - Já têm o incentivo da activista dos direitos dos animais Maneka Anand Gandhi, presidente da People for Animals Índia e que foi ministra em quatro governos.
Qual a importância e o simbolismo deste apoio?

Os maiores! Trata-se “apenas” de uma das maiores representantes desta causa a nível mundial, membro da família do próprio Gandhi, que já aceitou vir a Portugal quando o Partido tiver formalizado a sua constituição. Ela incarna hoje o mesmo espírito de “ahimsa”, “não-violência”, do Mahatma Gandhi.

8 - Onde se vai situar o PPA no espectro partidário tradicional (esquerda, centro, direita)?

Não nos parece que faça qualquer sentido aplicar essas etiquetas tradicionais, hoje bastante equívocas, a um Partido que pela sua natureza transcende essas classificações. Defendemos o bem-estar e a felicidade de todas as formas de vida, pois todas elas estão intimamente ligadas. Isso não é de esquerda, do centro ou da direita e vai para além do antropocentrismo e egoísmo predominantes nas tradicionais forças políticas.
O PPA é a manifestação em Portugal, na esfera da acção política concreta, de uma nova forma de consciência e de sensibilidade, que surge em todo o mundo, e que visa pôr em prática um novo paradigma mental, ético e civilizacional. Sob risco de uma degradação cada vez maior da vida sobre o planeta, incluindo a vida humana, o futuro exige a prática dos valores que defendemos.

quarta-feira, 3 de junho de 2009

Desafio...

Fiama Hasse Pais Brandão: Foz do Tejo, um país

O rio não dialoga senão pela alma
de quem o olha e embebeu a sua alma
de olhares ribeirinhos no passado
ou à flor do pensamento no futuro.

É um país que fala dentro da fronte,
olhando as naus, navios, barcos pesqueiros
e o trilho das famintas aves pintoras
de riscos negros, que perseguem o odor
das redes cheias, as outrossim poéticas
familiares gaivotas. É uma costa inteira
de imagens de gaivotas dentro dos olhos.
São bocas a pensar razões da vida,
gargantas já caladas pela nascença e morte,
quando entre si se vêem ou juntas olham
o mar dos seus próprios dias. São cabeças
velhas de labutar, entre dentes cerrados,
as palavras mudas de um ofício no mar,
antigas de silêncio, como se no esófago
guardassem há muito a sabedoria de ir
enfrentar o mar, transpor o mar, estar.

Tal como um rio o mar só quer falar
pela dor e alegria de alma com que o chama,
há séculos na orla, um povo mudo,
com as palavras presas, guturais sem fôlego,
dentro de si, tão firmes no palato, articuladas
na língua interior. E o mar é quieto ou bravo,
e a alma tensa de uma paixão secreta,
escondida atrás da boca, e sempre aberta,
tal como as pálpebras diante desta água.

Só a alma sabe falar com o mar,
depois de chamar a si o Rio, no imo
de cada um, recordações, de todos
os que cumprem na linha da costa o seu destino.
O de crianças, berços nascidos à beira-mar,
aleitadas por água marinha bebida por rebanhos,
alimentadas por frutos regados pela bruma.
Mesmo quando petroleiros, se olharmos o mar,
passam sem som na glote, para nós mesmos dizemos
que o tempo já findou das caravelas outrora
e dentro do nosso sangue passa o tempo de agora.

Também as varinas, fenícias áfonas no poema
que as canta, sabem as formas, pelo olhar,
de serem mulheres com peixes à cabeça.
E os pregões que eu calo, revendo-as, eram outra
língua do mar, os nomes com que nos chamam
para o seu modo de levar entre as casas o mar.
Mas as dores não as ecoa o mar, nem mesmo
as de poetas, só as pancadas das palavras
no encéfalo parecem ser voz do mar.

É uma nação única de memórias do mar,
que não responde senão em nós. Glórias, misérias,
que guardámos por detrás do olhar lírico
e da língua, a silabar dentro da boca.
Nunca chamámos o mar nem ele nos chama
mas está-nos no palato como estigma.




Dezembro de 1997
Fiama Hasse Pais Brandão
Cena Vivas
Relógio d´Água

plágio-línguas

em português
não posso mais dizer:
morro à míngua de excessos

nada impede que diga:
morro ao excesso
de mínguas

4 de Junho - Rossio - 18.30 - Tiananmen: 20 anos depois

2- Acções no dia 4 de Junho de 2009
O Governo Chinês tem-se recusado a levar a cabo um inquérito aberto, independente e imparcial aos acontecimentos dos dias 3-4 de Junho, apesar dos apelos dos governos estrangeiros. Mas é necessário que a justiça acabe por prevalecer e que as vítimas não sejam esquecidas. Nesse sentido a Amnistia Internacional - Secção Portuguesa promove várias acções públicas no próximo dia 4 de Junho, 5ª feira, à qual várias estruturas já demonstraram interesse em se associar:
Acção em Lisboa:
Pretende-se alertar o público em geral e a Embaixada da China em Portugal para a necessidade de fazer justiça às vítimas do 4 de Junho de 1989 e para que acabem as perseguições a todos aqueles que têm tentado lembrá-las, dentro da China. Também se pretende fazer uma homenagem às Mães de Tiananmen, cujos filhos foram mortos durante aqueles acontecimentos e que durante anos e anos tiveram de esconder a sua dor.
A acção a levar a cabo pelo CoGrupo da China, com início às 18h 30mn do dia 4 de Junho, no Rossio, consiste em tentar reproduzir a ocupação da Praça de Tiananmen pelas tropas e consequente brutal repressão:
Voluntários envergando camisolas brancas com dizeres em chinês e em português exigindo “Nunca Esqueçam”, o “Contem a Verdade”, “Faça-se Justiça”, e com uma faixa branca atada na cabeça surgem em uma Praça de Lisboa (talvez o Rossio) e logo se seguem outros voluntários que simulam soldados, com camisolas pretas com uma estrela vermelha, segurando uma espingarda AK 47 (fabricada em polipropileno alveolar e com a imagem da espingarda colada dos 2 lados) e um cartaz com um tanque de guerra desenhado que simulam descargas de balas. Os estudantes caem no chão e a seguir, perto mas não junto a eles., voluntárias depositaram no chão, 6 rosas brancas e 4 vermelhas. Estas flores são o símbolo das Mães de Tiananmen. As rosas brancas representam a pureza do coração dos mortos em Tiananmen e as vermelhas a sua paixão. O número 6 por ser relativo ao mês 6 - Junho e 4 ao dia do mês.

danças que arriscam

Quinta Fábula
Os homens-rã presos pelo cordão do ar.

Quase, saltar e fugir do espaço, sentar-se no ar, voar de lado

Risco, conflito aéreo, cair no vazio, dizer adeus ao mundo inteiro.

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Ser a forma do ar
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danças que arriscam
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Fábula coreográfica para dançar (agora)
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Imagine que um dia acorda e há uma força na vida que mudou: em vez de tudo estar a puxar para baixo, tudo puxa para cima.
Experimente a sensação de ver as suas pernas ganharem molas nos joelhos e andarem com outra ligeireza, a ligeireza das rãs.
O seu corpo é puxado de lado para lado.
As suas mãos abandonam o peso habitual e sobem sozinhas, elevando os braços para o voo.


70. Patrick Bonté “Intempéries”, a film by Compagnie Mossoux Bonté (coprod BRTN – Cie Mossoux-Bonté); on the photo: Jean Fürst, Erika Zueneli, Lilian Bruinsma, Isabelle Lamouline, Mauro Paccagnella, Sébastien Jacobs, 1997

71. Lois Greenfield “David Parsons, Daniel Ezralow, Ashley Roland”, 1986

72. José Manuel “Masurca Fogo”, Pina Bausch, 1998

73. Netherlands Dans Theatre “Symfonie in D/ Symphony in D”, coreography by Jirí Kylián; dancers: Nils Christie, Gérard Lemaitre and Michael Sanders, 1976

74. Jean-Claude Carbonne ”Noces”, Ballet Preljocaj; danseurs: Natacha Grimaud, Yan Giraldou, Alexandre Galopin, Gaëlle Chappaz

75. Guy Delaheye “La Chambre”, L’Esquisse.

terça-feira, 2 de junho de 2009

belavista III

a produção de distinções é intrínseca à soberania. A distinção originária que institui o dentro e o fora, o normal e a excepção,mesmo que o oposto do normal seja o estado de natureza, o amigo-inimigo, persiste na medida em que o espaço para exercer a violência diminui, normalizado pela demanda dos individuos. A soberania trabalha também com zonas distintas, como agamben indicou com a figura do homo sacer, aquele que não pertence à dualidade do amigo e inimigo, despido do reconhecimento é igualmente afectado pelo poder soberano, um exemplo próximo são os refugiados, os nómadas, aqueles que pertencem a zonas sem estado

segunda-feira, 1 de junho de 2009

Dia Mundial da Criança


imagem google
porque não permite Deus que todas o sejam?

Olhares Europeus sobre Fernando Pessoa - 2 de Junho - 15 h

Do tempo, e da rosa


imagem google



tudo parece ser somente tempo...sempre passado...memória....chave do nosso ser!



é no/com/pelo tempo que me reinvento pessoa, poeira, pó de estrela, grão de areia de deserto e de praia, brisa fresca que o mundo atravessa, pétala de rosa suave e perfumada que te atravessa em odor de mim...



e pergunto-me: sou tempo?
por certo, quimera e (des)ilusão, (des)construção, (des)obstrução.
sempre contemplação, por vezes reacção, potencialmente proacção.



sou o tempo do meu intento...ou talvez não?
conflito de coração e razão.
harmonia na dualidade.
aspiro...vacuidade.
ser tudo e nada em consciência universal.
meditação.silêncio.
espera.
memória.
rasgo de (in)finito que se redesenha em existência reencarnada.
respiração solta.
inspiração fluida.
intuição.



o tempo é uma rosa.
flor perfeita que adoro.
sensualidade entreaberta.
odor presente.
desejo premente.
espinho e lágrima.
(des)encanto.
ternura.
perdão.